Escutámos Mark Carney em Davos, e depois Ursula von der Leyen e Emmanuel Macron e sentimos que era o momento “Grito do Ipiranga” da Europa (e do resto do mundo democrático). Reconhecemos a realidade e seguimos empenhados na construção da nossa autonomia, com os custos a que tal obriga. Mas, assim como no processo de independência do Brasil, não será nem simples nem imediato.

O Parlamento Europeu suspendeu a ratificação do Acordo de Tarifas negociado com os Estados Unidos da América, no verão. Havia sido um acordo controverso. Houve augúrios de que era uma vassalagem que não impediria novos ataques, mas compreende-se que uma Europa, fundada no primado da lei e na relação transatlântica, tudo tentasse para preservar uma ordem que lhe garantiu paz e prosperidade durante 80 anos. A recente divulgação da proposta da Comissão Europeia de uma nova legislação para o setor das telecomunicações (Digital Networks Act) confirma o limbo em que, ainda, nos encontramos.

A internet parece etérea, mas os cabos de fibra e antenas que a sustentam não são. E os investimentos necessários para manter e atualizar a rede são astronómicos.

A Europa já investiu 160 mil milhões de euros na rede 5G, mas até 2030 será necessário investir mais 175 mil milhões de euros. O custo é suportado pelo consumidor (e a longo prazo). Os grandes beneficiários são as big tech. Utilizam sem custo acrescido a rede, não obstante gerarem mais de metade de todo o tráfego (imagem e som).

Ao contrário do que acontece com outras infraestruturas, onde quem mais usa paga mais (pense, por exemplo, na diferença de preço numa portagem de um carro ligeiro versus um camião), tal não acontece na infraestrutura de telecomunicações.

A razão é histórica. Aquando do grande boom da internet, o legislador preocupou-se em garantir igualdade de acesso a todos os utilizadores: o “princípio da neutralidade”. A rede seria agnóstica a quem a usava ou à informação transmitida (sem censura). Todos os conteúdos beneficiariam da mesma qualidade de serviço. Para tal não poderiam existir preços diferenciados.

O mundo de 1990 era muito diferente da atualidade. Não existiam plataformas (Instagram e TikTok), nem motores de busca (Google) ou de resposta (ChatGPT). Não existia YouTube, Netflix ou AppleTV.

O mundo mudou, mas a legislação não. O atual modelo é vantajoso apenas para as big tech, que utilizam sem custo a rede, de cuja existência dependem para gerar lucros incomparáveis com qualquer outro serviço ou indústria. Para manterem o statu quo, promovem, junto do público, o discurso da liberdade de expressão: que um preço do serviço diferenciado poderia ser utilizado como um instrumento de censura. Mas é sobretudo na Administração Trump que encontram o seu maior apoiante.

No verão, aquando da negociação do acordo de tarifas, além de pretender que a União Europeia revogasse o Regulamento de Inteligência Artificial e o Regulamento de Serviços Digitais (o que não conseguiu), Trump exigiu, e conseguiu, que as big tech não tivessem de passar a contribuir para os custos de investimento da infraestrutura de telecomunicações.

Da proposta ora divulgada não consta de facto essa obrigação, mas um mecanismo para negociação de uma eventual colaboração. Não é um repúdio ao acordado no verão, mas também não é o desejado pelas big tech.

A Europa vive o seu momento Ipiranga. Embora no famoso quadro de Pedro Américo, D. Pedro estivesse em pose altiva, montado num cavalo branco rodeado de tropas, da imagem apenas o riacho Ipiranga era verdadeiro. Segundo os documentos da época, o príncipe deslocava-se de mula, estava adoentado e não havia tropas em uniformes brilhantes. A realidade é muito mais difícil do que a Conferência de Davos.

Berlim já viu de tudo. Já viu revoluções, já viu muros a cair, já viu cineastas a discutir Tarkovski às três da manhã com vodka morna na mão. Mas ontem viu outra coisa: viu a Berlinale viver o seu “Brat Moment”. E, por umas boas duas horas, o Palast deixou de ser alemão, europeu ou político, passou a ser verde-lima fluorescente, pelo menos em espírito. A apresentação de The Moment foi, assumidamente, um ato performativo. Não apenas a estreia de mais um filme — neste caso integrado na secção paralela Panorama, portanto fora de qualquer competição — mas o prolongamento do próprio fenómeno Brat. Ou melhor: o seu funeral coreografado. Porque é disso que estamos a falar. De um filme concebido por Charli xcx  — Charlotte Emma Aitchison, britânica, nascida em Cambridge, Inglaterra, em 2 de agosto de 1992, conhecida no messenger por “Kiss Charli Kiss” — escrito e realizado pelo amigo fotógrafo escocês Aidan Zamiri e por Bertie Brandes, que imaginam uma realidade alternativa onde a artista cede à pressão corporativa e compromete a sua visão artística. O filme The Moment (2026), idealizado e protagonizado pela própria Charli xcx, tem produção da famosa A24 — a produtora responsável por grandes êxito do momento, como Marty Supreme, por exemplo — e apresenta um elenco incrível composto por nomes como Kylie Jenner, Alexander Skarsgård (Johannes Godwin), Rachel Sennott, Rosanna Arquette (Tammy Pitman), Kate Berlant (Molly Jean Bush), Jamie Demetriou (Tim Potts), Arielle Dombasle e Julia Fox. E sobretudo, um “e se” cruel e satírico, meio Cisne Negro (2010), de Darren Aronofsky — filme perturbador que nos empurra para territórios de psicanálise —, meio mockumentary pop. Mas vamos por partes. Porque isto merece.

Da margem ao centro

Charli xcx assume-se agora como a artista que saiu das margens e ficou com medo do centro. Na conferência de imprensa, foi aliás surpreendentemente honesta. Disse aquilo que muitos artistas pensam, mas raramente verbalizam com esta clareza: “Durante anos fui uma artista nas margens. Depois do Brat, abri-me a uma audiência muito maior. E com isso veio uma sensação estranha de perda de controlo.” É uma frase simples, mas quase herética no universo pop. A história é conhecida: Brat deixou de ser apenas um álbum de música para se tornar estética, meme, vibração, palavra do ano de 2024. A cultura absorveu-o. As marcas absorveram-no. A política piscou-lhe o olho. E aquilo que nasceu como manifesto hedonista e vulnerável passou a ser produto exportável. Charli xcx, que sempre jogou com a própria imagem, começou a sentir aquilo que descreveu como “a tensão de ficar demasiado tempo”. A pergunta não é nova: quando um artista sai da margem e entra no mainstream, quem é que ganha? E quem é que se perde? The Moment nasce precisamente dessa inquietação.

Um espelho deformado da indústria

Apesar de anunciado como mockumentary, The Moment é muito menos do que um This Is Spinal Tap — o célebre mockumentary (falso documentário) dirigido pelo malogrado Rob Reiner, que satiriza os excessos, clichés e comportamentos absurdos das bandas de heavy metal nos anos 80, acompanhando a digressão americana de uma banda britânica fictícia, os Spinal Tap — e mais um delírio ansioso. Há câmaras nervosas, verité estilizado ao estilo do diretor de fotografia Sean Price Williams, que costuma trabalhar com os irmãos Josh e Bennie Safdie (realizadores de Marty Supreme e Smashing Machine – Coração de Lutador, respetivamente), bastidores saturados e sobretudo uma pop star à beira do colapso, à perna com um realizador corporativo interpretado por Alexander Skarsgård, que parece ter saído de um workshop sobre “como transformar subversão em produto Amazon”. No filme, a editora Atlantic Records pressiona para eternizar o “Brat Summer”. Surgem ideias como um cartão de crédito verde-lima — metáfora óbvia e deliciosa do capitalismo a sugar o hedonismo queer — e um filme-concerto “apetecível” para a plataforma da Amazon. Charli sabe que aquilo é uma armadilha. Mas também sabe que a máquina não para. Na conferência de imprensa, disse algo essencial: “Em que momento é que a arte deixa de nos pertencer?” Não é uma pergunta retórica. É o centro do filme.

Uma das maiores gargalhadas da sessão veio com a referência à participação de Kylie Jenner — também conhecida por ser a namorada de Timothée Chalamet — como versão ficcional de si própria. O realizador Aidan Zamiri explicou que queria confundir os “arqueólogos do futuro”. O filme joga constantemente com essa ambiguidade: o que é real? O que é encenado? O que é auto-paródia? O que é documento? Kylie surge como mitologia pop encarnada. Skarsgård, por sua vez, é o génio auto-importante que suaviza a estética suja e hedonista de Charli para a tornar palatável às massas. Ele entra de gorro e já é engraçado. Nem precisa de falar. Temos ainda Rosanna Arquette, muito séria, a interpretar Tammy Pitman, executiva da editora Atlantic Records. E depois há os momentos silenciosos. A mística esteticista — interpretada pela decana, cantora e atriz franco-americana Arielle Dombasle — que lhe diz: “Estás relaxada no corpo, mas fechada no coração.” Brutal, como o próprio Zamiri admitiu. É nesses instantes que o filme quase abandona a sátira e entra numa zona mais interessante, quando a estrela fica sozinha com a própria insegurança.

Há algo ainda curioso em The Moment. É inteligente. É auto-consciente. É culturalmente fluente. Mas nem sempre é verdadeiramente mordaz. Funciona melhor quando desacelera, quando Charli xcx está cansada, vulnerável, a tentar perceber se vender um cartão de crédito com o nome do álbum é ironia pós-moderna ou apenas rendição. O problema é que, como sátira, morde pouco. Ri da indústria, mas não a desmonta. Questiona o sistema, mas não o explode. Talvez porque o sistema está lá a financiar o próprio riso.

O fim do “Brat Summer”

Na conferência, alguém perguntou se o filme era uma forma de encerramento. Charli  xcx respondeu: “No filme, a Charli decide matar o Brat. E sabíamos que isto marcava o fim real dessa campanha.” É uma frase que ecoa, porque há aqui um gesto raro: um artista pop a declarar que quer sair antes de se tornar caricatura de si próprio. Num tempo em que a cultura vive de prolongar ciclos até à exaustão, há algo quase revolucionário em assumir que o hype tem prazo de validade. Mas há também ironia, porque matar o Brat num filme é, simultaneamente, capitalizar sobre o seu próprio cadáver.

O filme estreou no Sundance Film Festival primeiro. Berlinale veio depois. Charli xcx foi clara: “São os espaços onde queremos estar. Filmes com algo a dizer.” E aqui há uma mudança interessante. Não estamos perante mais um filme-concerto ou produto promocional. Estamos perante uma tentativa — sincera, ainda que irregular — de dialogar com o cinema enquanto linguagem. Zamiri falou da câmara como personagem, da necessidade de parecer espontânea, de não antecipar falas. Há ambição formal. Há desejo de não fazer apenas um spin-off audiovisual. O resultado? Irregular, sim. Confuso por vezes. Mas muito vivo.

The Moment não é um clássico do cinema e jamais será. Não é devastador. Não é genial. Mas também não é um objeto vazio. É um filme sobre o medo de perder controlo quando finalmente se ganha o mundo, sobre a ansiedade de ser absorvido pela própria fama, sobre o dilema eterno: ser rebelde ou rentável? Charli ri. Zamiri estiliza. O sistema continua. Mas, por duas horas, Berlim foi “Bratlinale”. E isso, goste-se ou não, é sintoma de uma coisa: a cultura pop também entra nos cinemas, da Berlinale. Entra pela porta principal, de salto alto fluorescente verde, e senta-se na fila da frente. Se vai ficar? Ou se é apenas mais um momento? Bem… como a própria Charli xcx disse, não se pode fugir do fim quando ele chega.

João (chamemos-lhe João) viu o pai bater na mãe. Durante dias, semanas, meses, anos. Ouviu chamar-lhe os piores nomes, dizer asneiras, chegou a ouvir o pai dizer que um dia a matava. O pai gritava muito com a mãe, deixando-a a chorar. E negra, das agressões. E ele também chorava, escondido no quarto. Um dia, quando o pai gritava outra vez com a mãe, a polícia foi lá a casa e levou-o. Tão depressa não voltaria a vê-lo.

Meses mais tarde, o João foi com a mãe a um edifício cinzento e feio. Disseram-lhe que iria contar a umas pessoas o que tinha visto e ouvido em casa. O João não entendeu muito bem o que iria acontecer e que pessoas seriam aquelas. Afinal, tinha apenas 10 anos. Tinha dormido sobressaltado e acordou nervoso. Foi com a mãe e sentiu-se perdido no labirinto dos corredores do edifício. Entrou numa sala, falou do que se lembrou e calou-se sobre o que queria guardar, tudo isto entre tremores e choro, entre perguntas que não entendia e palavras estranhas. E medo, muito medo.

Semanas depois, teve de ir a um outro edifício igualmente feio, igualmente cinzento. Repetiram as perguntas que não entendia e as palavras estranhas. O mesmo labirinto de corredores, outra vez várias pessoas estranhas. Perguntou-se quantas mais vezes teria de falar.

João tem agora 25 anos. De vez em quando, “vê” o pai a bater na mãe, ainda consegue ouvir os gritos, que ecoam na memória. “Regressa” ao seu quarto, escondido. Em pesquisas e conversas, ficou a saber que tinha direito a ser ouvido. E supostamente foi, mas sente que ninguém o escutou verdadeiramente.

Mas soube que também tinha mais direitos, que na altura desconhecia. O pai tinha um advogado. A mãe e ele não. O advogado falou, ele e a mãe não tinham ninguém para falar por si. Bloqueados pelo medo, quase não falaram. Soube agora que tinham o direito a ter cada um o seu advogado, para que pudessem lutar por um regime de convívios que o protegesse, uma pensão de alimentos mais adequada às suas necessidades. Que pudessem agir no processo que levou o pai à prisão, exigindo uma indemnização pelo trauma e pelos danos emocionais e psicológicos, pelo sofrimento que este lhes causou. E que, caso ele não pagasse, o Estado pagaria por ele. Mas tinham de pedir e ninguém lhes explicou adequadamente. “Não precisa de advogado, não é obrigatório” foi a única coisa que ouviram.

João soube agora que, 15 anos antes, decidiram a sua vida sem ele ter apoio de um especialista para lutar pelos seus direitos. Que foi vítima e, ao contrário do pai, não tinha um advogado que defendesse os seus interesses. Que não esteve em pé de igualdade e não teve as mesmas armas processuais.

Este João não existe, porém existem muitos Joões destes por aí, vítimas de um sistema que padece de um défice de proteção legal das vítimas, e das crianças em particular, porque não é obrigatório uma criança e/ou uma vítima de um crime ter advogado, seja no processo-crime, seja nos processos no Tribunal de Família e Menores (que, já agora, continuam a chamar-se de Menores e não das Crianças, como se estas fossem seres inferiores). E se um adulto pode, a determinado momento, ter a capacidade de entender que tem direito a um advogado, uma criança dificilmente a terá. Fica desprotegida, quase sempre desamparada. E também os adultos. O arguido terá sempre, mais cedo ou mais tarde, um advogado. E assim deve ser (aliás, deveria ter desde o primeiro momento). Mas a vítima não. O arguido pode ser erradamente absolvido por uma qualquer razão e a vítima pode não ter a oportunidade de recorrer, porque não tem advogado. Porque lhe dizem que não é necessário. Porque o Estado considera, erradamente, que é um custo desnecessário. Até ser necessário, muitas vezes tarde demais.

É verdade que, recentemente, alguns tribunais passaram a nomear advogado às crianças, mas continua a ser a exceção quando deveria ser imperativo, para elas e também para as vítimas adultas. Desde o momento da queixa, quando urge tomar medidas imediatas. A violência é também combatida quando as vítimas podem exercer os seus direitos.

O advogado é o profissional mais habilitado para defender e lutar pelos direitos das pessoas. É difícil entender como se pode decidir o futuro de uma criança, ou de uma vítima, ou até de qualquer cidadão, sem que esteja representado no processo por advogado.

Pensemos em todos os Joões e em como podemos e devemos exigir uma maior proteção e o respeito pleno pelos direitos fundamentais. Porque este João somos todos nós.

O absurdo espreita sempre aqui e ali por todas as partes. Mas há lugares onde se impõe, omnipresente, quase sempre trágico, como uma caricatura do próprio absurdo. Gaza é um desses lugares, todos os dias. Gaza é o absurdo e este absurdo é o horror.

Foi assim a 29 de janeiro de 2024, foi assim ontem, mais um dia em que vigorou um cessar-fogo durante o qual já foram mortas mais de 100 crianças – em outubro do ano passado, dois anos depois do início da guerra que a ONU descreve como genocídio, a UNICEF contava 64 mil crianças mortas ou mutiladas na Faixa de Gaza, mais as “que morreram por doenças evitáveis ou continuam soterradas debaixo dos escombros”.

A Voz de Hind Rajab, da tunisina Kaouther Ben Hania, expõe o absurdo até ao limite do suportável. É o filme que podemos ter medo de ver, mas que temos de ver. Para ouvir (de novo) a voz de Hind Rajab, a menina de 5 anos que passou horas a suplicar por ajuda ao telefone com operadores do Crescente Vermelho Palestiniano até se calar sem que ninguém tivesse conseguido socorrê-la. O filme que temos de ver para perceber o que é o absurdo, o que é desumanização, o que é Gaza. E para lembrar que ainda é preciso salvar Gaza.

A voz que a realizadora ouviu, sem aviso, e que depressa sentiu tornar-se um dever, o de nos obrigar a “ver assim o mundo do ponto de vista palestiniano”, disse em setembro, no Festival de Veneza, onde o seu filme, A Voz de Hind Rajab, que é a “voz de Gaza”, foi aplaudido, de pé, durante mais de 23 minutos (e recebeu o Leão de Prata Grande Prémio do Júri). O absurdo é que muitos de nós ouvimos a voz desta menina a 29 de janeiro de 2024, quando ela ainda estava viva, enquanto olhávamos pela primeira vez para as suas fotografias, cabelos encaracolados, soltos ou entrançados, sempre a sorrir.

No desespero da espera de “luz verde” para tentar salvá-la, o Crescente Vermelho partilhou excertos das conversas entre Hind e os operadores quando ainda decorria o ataque israelita – que Israel continua a negar ter acontecido –, com o carro onde Hind sobrevivia, rodeada pelos corpos do tio, da tia e de quatro primos, cercado por tanques. Quando a ambulância que aguardava “luz verde” a oito minutos de distância ainda não tinha partido na sua direção, Omar Alqam, um dos operadores, o primeiro a falar com Hind, grita que ninguém vai ligar às publicações, que as redes sociais estão repletas de crianças palestinianas mortas. Tinha razão.

Dez minutos a pé

“A sério, vem e leva-me daqui”, foram as últimas palavras que a mãe de Hind, Wesam Hamada, ouviu da filha, ao telefone, contou à VISÃO numa troca de mensagens.

Wesam tinha-se separado da menina momentos antes do ataque, a ordem de evacuação das Forças de Defesa de Israel (IDF) chegara de manhã e a família deixou à pressa a casa no bairro de Tel al-Hawa, na Cidade de Gaza, onde tinha encontrado abrigo depois da última fuga. Os tios iriam de carro, os pais de Hind a pé, não cabiam todos no pequeno Kia Picanto. Cabia Hind e teria cabido o irmão, Iyad, de 4 anos, não fosse a birra para não largar o colo da mãe. Wesam viu os disparos que atingiram o carro. E não pôde fazer nada.

“Quando eu estava em contacto com a Hind, estávamos separadas por uma curta distância, não mais de dez minutos a andar, mas era impossível chegar até ela por causa dos tanques no local”, descreveu. “A sério, vem e leva-me daqui.”

O que é que acontece quando alguém liga para o número de emergência a partir de Gaza? É isso que vemos neste filme. Um filme sobre o resgate que nunca se deu, onde Hind nunca aparece, a não ser nos rostos dos quatro membros do Crescente Vermelho Palestiniano que acompanham a situação de perto, do princípio ao fim, a partir da sede, em Ramallah, na Cisjordânia, a 80 quilómetros de distância da menina.

Dois operadores, Omar e a sua supervisora, Rana Faqih, o coordenador Mahdi Aljamal e Nisreen Qawas, assistente de Saúde Mental e Apoio Psicossocial. A voz de Hind é mesmo a sua voz, Omar, Rana, Mahdi e Nisreen são atores que falaram com os membros do Crescente Vermelho antes das filmagens – mas que nunca ouviram as gravações dos telefonemas entre estes e Hind antes de a câmara estar ligada.

“Estou a morrer”

Barcelona No segundo aniversário do assassínio, ativistas estenderem na areia um retrato gigante da menina EPA/Enric Fontcuberta

Omar é o menos experiente, o mais incrédulo, inconformado, palestiniano e habituado ao absurdo, mas não àquele nível. “Coordenação” é a palavra no centro de tudo – coordenação que a realidade da guerra e da ocupação torna impossível.

Omar é cada um de nós, sem perceber porque é que não basta ligar diretamente para os paramédicos. “Oito minutos”, repete e escreve, no vidro que o separa do gabinete de Mahdi, oito minutos + 20 minutos; oito minutos + uma hora… três horas e já escureceu e Hind diz a Rana que tem medo do escuro.

O tempo a passar e a voz de Hind a soar cada vez mais distante, já em sussurro: “Estou a morrer.” Mahdi a conter-se enquanto tenta cumprir o seu dever, “cumprir as regras”, seguir à risca o absurdo, o absurdo da guerra e da ocupação e da espera. Às tantas, aponta para a parede cheia de fotos de todos os socorristas mortos em Gaza. “Jurei que não haveria mais.” Se tiver de colar mais fotografias, diz, desiste.

E Omar a gritar, de novo, com ele: “Como é que podes coordenar com o Exército que os matou a eles e a todas essas pessoas?”, pergunta-lhe, antes de se atirar ao colega, como se desatar aos murros fosse a única forma de suportar o que está a acontecer. Para o raio com “a coordenação” e com a “luz verde”: “É por causa de pessoas como tu que estamos ocupados.”

Mortes que são assassíniossão tudo menos naturais, todas podiam ter sido evitadas, impedidas. A de Hind é ainda menos natural porque demorou horas

Omar grita, Mahdi exibe um autocontrolo aflitivo, Rana desmaia e não consegue disfarçar o choro aos soluços enquanto Hind lhe pergunta porque é que ela não pede ao marido que a vá buscar para depois a irem salvar, Nisreen a tentar que Hind pense no mar e no sol a brilhar no mar e se lembre como é bom brincar na areia e na água. “Imagina o mar de Gaza, a areia de Gaza.”

Luz verde e explosão

Wesam, também ao telefone, com Mahdi a tentar explicar-lhe o inexplicável, enquanto rabisca no vidro do seu gabinete os passos que constituem o processo seguido para garantir uma rota segura para uma ambulância – ou seja, coordenar.

Ele, que está em Ramallah, telefona para a Cruz Vermelha, que está em Genebra, mas também em Jerusalém; a Cruz Vermelha telefona ao COGAT (Coordenação das Atividades Governamentais nos Territórios), uma unidade do Ministério da Defesa de Israel, que entra em contacto com as tropas no terreno; os soldados em Gaza e os responsáveis do COGAT definem (ou não) uma rota, que é depois comunicada à Cruz Vermelha, que a envia a Mahdi.

“Mas receber a rota não significa que temos luz verde. A luz verde para enviar a ambulância é outro passo, de A a Z. Tenho de seguir este procedimento à risca, se não o fizermos eles podem disparar contra a nossa ambulância e dizer que a culpa é nossa.”

Absurdo é Mahdi seguir todos estes procedimentos, obter luz verde e continuar a enviar socorristas para a morte. Absurdo é Mahdi agir como se não soubesse isso. Absurdo é a luz verde chegar finalmente e a ambulância pôr-se a caminho e Yusuf al-Zeino e Ahmed al-Madhoun conseguirem aproximar-se da estação de serviço onde o tio de Hind procurou refúgio durante o ataque. “Consegues ver o carro?”, pergunta-se. Está escuro, não é possível ver nada. “Ah, estou a vê-lo.” E depois uma explosão. E depois o silêncio.

Mas Hind, que chegou a ver a ambulância antes da explosão, continuava viva, sobreviveu durante pelo menos mais uma hora.

335 buracos de bala

Os cadáveres em decomposição de Yusuf e de Ahmed foram encontrados duas semanas depois, por entre o pouco que sobrou da carcaça da ambulância, a 50 metros do carro da família Hamada – no interior, os corpos dos seus sete ocupantes, uma pequena mochila cor-de-rosa também.

O Forensic Architecture, grupo multidisciplinar sediado na Universidade de Londres, que investiga violações de direitos humanos, contabilizou 335 buracos de bala na carroçaria do Kia. Balas disparadas a partir dos tanques que o Forensic Architecture viu em imagens de satélite e que Israel diz nunca terem ali estado.

“O tanque está ao meu lado”, disse Hind.

Foi um tio de Hind que encontrou os corpos, a 10 de fevereiro, quando as IDF se retiraram finalmente de onde nunca estiveram. Antes, garantiram os EUA, Israel estivera a investigar o incidente.

A morte de Hind, “um crime de guerra”, segundo a ONU, não foi só mais uma morte. Nenhuma é. Não há nada de natural na morte de mais de 20 mil crianças em Gaza desde 7 de outubro, quando Israel decidiu responder ao massacre lançado pelo Hamas contra localidades no sul de Israel com massacres diários no pequeno enclave palestiniano.

Mortes que são assassínios são tudo menos naturais, todas podiam ter sido evitadas, impedidas. A de Hind é ainda menos natural porque demorou horas, não se abateu de repente, como com tantos meninos, mortos a dormir ou na fila da comida. Hind estava mesmo ali. E segundo vários inquéritos, é muito provável que os militares israelitas conseguissem vê-la.

Sala das borboletas

As conversas entre Hind e Omar e Rana não foram como as outras, dezenas, centenas de chamadas que os operadores do Crescente Vermelho atenderam. Desta vez, Omar teve tempo para perceber que Hind frequentava o pré-escolar, na “Sala das Borboletas, no infantário Infância Feliz”. E Rana para ouvir Hind dizer que está sozinha: “A minha mãe não está morta. Estou aqui sem família, sem mãe, sem pai, sem irmão.” E Rana a pedir-lhe para deixar dormir os tios e os primos e ela a responder: “Eu digo que estão mortos. Estão todos mortos. Eles estão mortos. Só há cadáveres.”

“Fica comigo”; “Por favor, vem buscar-me”, “Estou com medo”, “Por favor, vem”; “Estão a disparar sobre mim”; “Pede ao teu marido para te trazer aqui”; “Estou a morrer”. Com Hind foi diferente. E foi por causa disso que Omar – contou ele ao ator que interpreta a sua personagem, o palestiniano Motaz Malhees – esteve meses sem conseguir pegar no filho, bebé, ao colo.

“A sério, veme leva-me daqui”, são as últimas palavras que Wesam recorda da filha.As gravações estão disponíveis para quem quiser ouvir e há nelas trocas de palavras que não entram no filme

Hoje, Omar continua a atender chamadas de emergência. Rana também. Nisreen ainda dá apoio psicossocial no Crescente Vermelho Palestiniano. Mahdi deixou a equipa de gestão de emergência em março de 2024. Rana ainda sente a “tristeza” e o “peso” desta perda. “É nossa responsabilidade garantir que a voz de Hind – e as vozes dos paramédicos Ahmed e Yusuf – sejam ouvidas”, disse-nos.

“A sério, leva-me daqui”

“A sério, vem e leva-me daqui”, são as últimas palavras que Wesam recorda da filha. As gravações estão disponíveis para quem quiser ouvir e há nelas trocas de palavras que não entram no filme. Como Hind, depois de dizer que não conseguia falar porque estava a sangrar da boca, a explicar que não limpava o sangue porque não queria “sujar a camisola e dar trabalho” à mãe.

Hind adorava a praia. A praia de Gaza, cenário de imagens raras de alegria pura, de papagaios lançados ao vento, de horizonte, apesar dos que ali morreram atingidos a tiro ou afogados a tentar apanhar pacotes de ajuda que caíram no mar.

O som do mar, o toque da areia. Até isso cabe em A Voz de Hind Rajab, que estreia em Lisboa e no Porto nesta quinta-feira, dia 12 de fevereiro. Dias depois de Wesam ter estado na praia, em Barcelona, no segundo aniversário do assassínio da filha, para ver ativistas estenderem na areia um retrato gigante da menina.

Dois anos depois de ter beijado a filha e de a ter colocado num carro para estar mais segura, dois anos depois de ter falado ao telefone com a filha enquanto ela morria e enquanto tentava, sem conseguir, esconder do filho de 4 anos o que estava a acontecer com a irmã. “Ele estava aterrorizado”, recordou. “Ele sabe que mundo conhece a história de Hind, mas não consegue aceitar a perda dela.”

Ninguém devia conseguir. Para Wesam, este filme é uma forma de garantir “que o mundo inteiro saiba que as crianças de Gaza estão sujeitas às formas mais horríveis e terríveis de morrer e são privadas do direito à vida, à educação, aos sonhos e à paz”. “Lutarei para manter viva a voz de Hind e lutarei pelas crianças de Gaza”, disse-nos. E o que gostaria Wesam de dizer aos que possam ir ver o filme? “Digo-lhes que têm de saber que as crianças ainda precisam deles e que Hind não foi a última criança oprimida e morta.”


​Está na moda apregoar que temos “Estado a mais”. Muitos jovens deixam-se seduzir pela comunicação da Iniciativa Liberal e das suas organizações associadas, mas a realidade revela-se dura e crua: os mesmos que pedem menos Estado são aqueles que, perante a crise, exigem mais apoios para pessoas e empresas, ou mais investimento para mitigar os riscos de incêndios no verão e de cheias no inverno.

​Na verdade, vivemos num país onde existe Estado a menos. Há pouco Estado na habitação, com um parque público de apenas 3% que contrasta vergonhosamente com os 17% da média europeia. Há pouco Estado na infância, dada a inexistência de uma rede pública de creches num mercado dominado por IPSS e privados, que parecem carecer de capacidade ou interesse para expandir o número de vagas. Temos também pouco Estado na velhice, com uma falta crónica de camas em lares de idosos, entregues a privados e instituições de solidariedade, estas vagas tornam-se caras e escassas, deixando muitos idosos entregues ao abandono ou dependentes da caridade e da capacidade financeira das suas famílias.

​Existe igualmente Estado a menos na saúde. O primeiro-ministro prometeu um plano de 60 dias para resolver as debilidades do SNS (a mais bela e importante construção coletiva da nossa democracia) mas, decorridos dois anos, o cenário é de menos consultas, menos cirurgias e um número crescente de portugueses sem médico de família.

​Os acontecimentos das últimas semanas reforçam esta carência. O facto de o site do IPMA parecer parado em 2004 não se deve à má vontade dos seus técnicos, mas sim a uma gritante falta de recursos.

A solidariedade social, extraordinária e comovente na região Centro, não conseguiu disfarçar a incapacidade do Estado em responder eficazmente a uma calamidade. 

Do mesmo modo, o desmoronamento na A1 e em centenas de estradas municipais e nacionais demonstra que o LNEC necessita de mais meios e os municípios de um maior músculo financeiro. 

​O discurso do “menos Estado” apenas interessa a quem julga não precisar dele. É uma ilusão que persiste até ao momento em que o seguro não cobre o dano, a poupança se revela insuficiente, a estrada da sua rua desmorona, o hospital privado o transfere para o público ou o mercado se mostra implacável com a sua própria empresa.

​Precisamos, sem dúvida, de um Estado mais eficiente, mas essa eficiência não abdica de mais recursos e a presença dos nossos melhores quadros no setor público. 

O Estado somos todos nós, com menos Estado, estaremos inevitavelmente mais sós e frágeis.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Os EUA querem mesmo travar o desenvolvimento da China? A NATO e os seus “parceiros da Ásia Pacífico” farão tudo para impedir a reunificação com Taiwan? A maioria dos cem milhões de chineses filiados no Partido Comunista acreditará nisso, mas na frente interna a “maior ameaça” continua a ser a que Xi Jinping apontou em novembro de 2012, quando assumiu o cargo político mais importante do país. “Há muitos problemas urgentes dentro do partido que precisam de ser resolvidos, particularmente a corrupção, o divórcio do povo, formalismos e burocratismo”, disse então o novo secretário-geral do PCC. O seu antecessor, Hu Jintao, foi perentório: “A corrupção é uma questão de grande preocupação para o povo (…) Se não conseguirmos controlar bem essa questão, isso poderá ser fatal para o Partido e até causar o colapso do Partido e a queda do Estado.”

Treze anos depois, a “questão” mantém-se na ordem do dia. “A corrupção representa a maior ameaça ao Partido (…) É um obstáculo e uma pedra no caminho para o desenvolvimento do Partido e da nação”, reafirmou Xi Jinping no mês passado. Discursando no plenário da Comissão Central de Disciplina, o Presidente chinês definiu o combate à corrupção como “uma grande batalha, difícil e prolongada”, que o partido “não pode nem deve perder”.

Desde o início da sua liderança, Xi prometeu investigar todas as “moscas” (funcionários subalternos) e “tigres” (quadros com a categoria igual ou superior a vice-ministro) suspeitos de “graves violações da lei e da disciplina”. A detenção do 1º vice-presidente da Comissão Militar Central, general Zhang Youxia, anunciada há três semanas, confirmou essa promessa. “Independentemente de quem sejam ou do cargo que ocupem, todos os envolvidos em corrupção serão punidos sem clemência”, proclamou o jornal das Forças Armadas.

Esta “grande batalha” é uma guerra antiga. Logo em 1951, dois anos depois de ter tomado o poder, o PCC lançou uma campanha contra três manifestações de “degenerescência” – “corrupção, desperdício e burocracia”. Melhor do que ninguém, os comunistas sabiam que a elevada corrupção nas fileiras do antigo governo do Guomindang (Partido Nacionalista) contribuiu muito para o seu triunfo.

“Antes da ascensão de Xi, o partido lançou frequentemente campanhas anticorrupção para disciplinar os seus funcionários”, escreveu Minxin Pei, um ensaísta sino-americano especializado no estudo da liderança política chinesa. Essas campanhas eram, contudo, de “curta duração” e “visavam sobretudo funcionários de nível baixo ou intermédio”. Não havia “tigres”. Até ao início da política de Reforma Económica e Abertura ao Exterior, em 1979, a China era um país pobre e isolado, muito diferente – e bastante menos próspero – do que é hoje. “O que define a guerra de Xi contra a corrupção – concluiu Minxin Pei – é o seu objetivo de desmantelamento sistemático das redes de poder formadas sob as lideranças de Jiang Zemin e Hu Jintao, neutralizando rivais e estabelecendo o seu domínio.”

Nos processos considerados mais graves, as penas têm sido pesadas. Quatro ministros, dois dos quais da Justiça, e outros tantos antigos membros do Politburo (estatuto equivalente a vice-primeiro-ministro) foram condenados a prisão perpétua. Pela primeira vez na História da República Popular da China, a campanha anticorrupção atingiu um antigo membro do Comité Permanente do Politburo, Zhou Yongkang. Era um dos homens mais poderosos do regime, que tinha sob a sua tutela as forças de segurança, os tribunais e os serviços de informação. Segundo a acusação, “aproveitou-se dos seus cargos para favorecer outros e aceitou ilegalmente uma enorme quantidade de dinheiro e bens”. Foi condenado a prisão perpétua.

Xi Jinping congratulou-se com os “significativos avanços” já alcançados, mas alertou: a situação continua “grave” e “complexa”. Quase um milhão de funcionários (983 000, precisou a Comissão Central de Disciplina) foram punidos no ano passado. A lista inclui 65 “tigres”, mais sete do que o “recorde” de 2024 e mais 20 do que no ano anterior. “Tigres”, isto é: executivos de bancos e outras instituições financeiras, gestores de grandes empresas públicas, generais, governadores ou vice-governadores de províncias, autarcas, chefes regionais do PCC. Da indústria farmacêutica ao desporto, nenhum setor parece estar fora do radar daquela Comissão. Entre os “tigres” já condenados a prisão perpétua figuram também um chefe da polícia de Xangai, um presidente da Associação Chinesa de Futebol e um vice-ministro da Segurança Pública. “Temos de intensificar esforços para investigar pessoas-chave em setores-chave, punir tanto quem recebe como quem dá subornos e tomar medidas resolutas para eliminar os riscos sistémicos de corrupção”, ordenou o líder chinês.

Há 20 anos, um conhecido professor de Direito da Beida (Universidade de Pequim), He Weifang, e 12 outros académicos escreveram à direção do PCC enfatizando a importância da imprensa no combate à corrupção. “A experiência dos países onde a liberdade de expressão é enaltecida mostra que a pressão dos média é um importante fator institucional que reduz a corrupção entre os funcionários do governo e promove a estabilidade social”, diz a carta, datada de 14 de fevereiro de 2006. É outra “grande batalha”, igualmente “difícil” e “prolongada”.

Lembram-se quando saiu o anúncio da reunião dos Heróis do Mar no Pavilhão Atlântico? Foi uma Quarta-feira febril. Daqueles dias em que queremos saber onde estava cada um quando soube da notícia. Mas foi uma alegria fugaz. Nem quinze dias durou. Nessa outra Quarta — uma Quarta-feira vil, mesquinha, daquelas que só servem para estragar a semana — soube-se tinha ido tudo abaixo. Pelo cano. E assim lá fomos, cabisbaixos, de chapéu e botas de chuva sob as imperdoáveis águas de Abril, rumo às nossas vidas cinzentas.

Só que afinal era verdade.

Não acreditam? Pois creiam. Quase década e meia, quatro filhos, três Presidentes dos Estados Unidos e um sem número de desilusões depois, eis que Pedro Ayres Magalhães, Paulo Pedro Gonçalves, Rui Pregal da Cunha, Carlos Maria Trindade, e António José Almeida se juntaram em público. Seria indecoroso dizer que demorou. Quem leva a sério um artista pontual? A pontualidade, nos artistas, é uma falta de imaginação. Atrasaram-se treze anos. Mas apareceram.

Não foi no Parque das Nações, mas no Calhariz de Benfica. Não estavam em cima de um palco, mas ali mesmo ao nosso lado, por baixo do viaduto da Segunda Circular, a escassas centenas de metros do lugar onde tudo começou. E a razão da reunião não era um concerto, mas a inauguração de um mural concebido e pintado por Francisco Camilo, um desses artistas urbanos que hoje fazem o trabalho que antes cabia aos fundidores de bronze e aos escultores de mármore.

Se o mural cumpre ou não, com rigor académico, o papel que as estátuas desempenharam no espaço público é questão que não interessa para nada. O mural é o busto possível de um tempo que deixou de confiar em bustos. O que importa é a decisão de prestar homenagem, o esforço em levá-la a cabo, o brio, quase pueril, em cumprir a tarefa o melhor que se consegue. Para reconhecer, no tempo possível — que é sempre tarde —, que houve ali qualquer coisa que nos ultrapassou. Ali mesmo onde, quarenta e cinco anos antes, um grupo de rapazes se juntou para ensaiar sem saber que estava a arranjar problemas para o resto da vida.

Não há texto sobre os Heróis do Mar que não fale dos mal-entendidos históricos. Não é o caso. É até comovente reler textos de 1994 que já despachavam os acontecimentos do início da década anterior como um equívoco ultrapassado. Ainda assim, dou o meu rim esquerdo em como, no próximo artigo que se publicar sobre eles na comunicação social, lá virá a prosa preguiçosa de serviço, escrita por algum filho espiritual dos mesmos que lhes marcaram a testa com o número da besta em 1981, a discorrer sobre bandeiras, regimes autoritários e intenções ocultas.

Esqueçam a grelha de leitura marxista. A questão dos Heróis do Mar nunca foi ideológica, foi íntima. Foi esse o seu desplante. Um desaforo da mesma estirpe de Camilo Castelo Branco. O que os Heróis traziam exigia entrega. Era romance. E o romance assusta porque é intenso, exigente e, como toda a gente sabe, acaba quase sempre mal. O excesso — esse vício nobre — padece da infantil teimosia em querer aproximar-se da verdade, mesmo quando não sabe muito bem o que está a fazer. Com tudo o que isso tem de desproporção, grandiloquência e mal-entendido.

O que era insuportável, sobretudo para nós portugueses, não era a sofisticação dos Heróis do Mar. Era o contrário. Era ver uma banda de uma inteligência particular — talvez a mais inteligente de todas — cometer o pecado mortal da simplicidade. Dizer “Amor”, “Paixão”, “Alegria”, “Saudade” como se fosse a primeira vez que estas palavras eram ditas. Sem aspas, nem aquele sorrisinho presumido. Como se não soubessem — ou pior, como se soubessem demasiado bem — que em Portugal a sofisticação serve exactamente para não termos de sentir nada até ao fim.

Aquelas palavras vinham nuas. Não pediam desculpa. Isso é tramado. Ainda ontem discutia com um amigo se a Só Gosto de Ti era ou não uma canção irónica. Ainda hoje há quem não acredite que não era. Porque, aceitar que não é, exige uma presença de espírito que não abunda: a de admitir que se pode gostar de uma letra dos Heróis do Mar, precisamente, por ela ser singela, literal, sem subtexto. Isso é perigoso. Quem dá esse passo uma vez pode reincidir. E desatar a cantarolar.

Num país fadado para sobreviver à custa da contenção emocional, isso sim, seria o verdadeiro regresso dos Heróis do Mar.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Portugal elegeu, no passado dia 8 de fevereiro de 2026, um novo Presidente da República. O Presidente António, sucedendo ao Presidente Marcelo, sabe que ascende ao mais alto cargo da nação e que transporta consigo uma responsabilidade muito particular: a de preservar e reforçar a democracia.

Existe necessidade de proteger a fragilidade da democracia porque ela vem sofrendo ataques de ameaças externas e internas provenientes de radicalismos e populismos, enfrenta problemas de corrupção e falta de transparência geradores de descontentamentos sociais, desigualdades, crescimentos económicos débeis, baixos rendimentos e pobreza, tornando o D de desenvolvimento uma (ainda) longínqua promessa de Abril por cumprir.

O Presidente António apresenta-se aos portugueses como sendo um defensor da estabilidade política, como um meio para garantir condições de governabilidade, referindo que aquela é capaz de conferir a Portugal “uma oportunidade única para que os partidos políticos, o Parlamento e o Governo encontrem soluções duradouras para resolver os graves problemas que enfrentamos na saúde (…)”.

É nesta sequência que surge uma proposta para o consenso e a Reforma no Sistema de Saúde, assegurando primeiramente o compromisso de continuidade do Serviço Nacional de Saúde, dando-lhe todas as garantias de poder enfrentar as questões e os desafios que o envelhecimento, a inovação e as limitações de organização e escassez de recursos atualmente lhe colocam. 


Trata-se de uma Carta para a Saúde, na qual cada artigo encerra em si os fundamentos necessários à execução de uma política de saúde, não condicionando as opções estratégicas e executivas dos governos democraticamente eleitos, independentemente da orientação política.


Este é um pacto nacional alargado, uma proposta que tem suporte na Constituição da República Portuguesa, tendo como pressuposto a universalidade do acesso aos cuidados de saúde e a gratuitidade dos mesmos no ponto do consumo, face ao modelo de financiamento pela via da redistribuição contributiva fiscal. 


Possibilita a adoção de diferentes estratégias de execução orçamental correspondentes a diferentes visões de como organizar o sistema de prestação de cuidados de saúde. 


Centra-se no doente, dando prioridade ao acesso e à resposta rápida à doença no cumprimento dos tempos máximos de resposta garantidos.

Artigo 1º – Dos Valores

O sistema deve ter como pilar principal um Serviço Nacional de Saúde público, racional e equitativo, que garanta acesso universal e gratuitidade no ponto do consumo, podendo estabelecer relações de complementaridade e acordos justos.

Artigo 2º – Da escolha

A estrutura do sistema deve permitir respeitar e responder a escolhas e preferências individuais, mas a organização da escolha deve contemplar métricas claras de informação, comparabilidade, desempenho e outcomes de saúde, levando em conta a existência de falhas do mercado de prestação de cuidados de saúde e preocupação prioritária com a equidade no acesso.

Artigo 3º – Da continuidade

Os cuidados devem ser geridos ou articulados numa lógica de cura contínua, utilizando meios complementares, formas presenciais, mas não só, adotando soluções tecnológicas, colocando-os à disposição do doente, do profissional, das instituições e dos familiares. O gatekeeping do sistema são os cuidados de saúde primários e a rede deve assegurar proximidade aos cidadãos, não mais os desacompanhando desde a entrada, medindo o tempo do seu acesso desde esse momento.

Artigo 4º – Da capacitação

Os doentes devem possuir e receber a informação necessária, reforçando a sua literacia e assim ter a possibilidade de exercer o controlo sobre as decisões de saúde que os afetam.

Artigo 5º – Do conhecimento e da informação partilhados

O conhecimento deve ser partilhado numa ótica de informação integrada de cuidados e os sistemas de informação devem assegurar que os dados relativos aos doentes, propriedade destes, tenham soluções de portabilidade asseguradas, conferindo ao cidadão a possibilidade de participação informada na decisão clínica, diminuindo os tempos e os custos de acesso e diagnóstico.

Artigo 6º – Da tomada de decisão

O melhor conhecimento científico e a inovação devem estar ao dispor de um sistema de saúde moderno e a decisão deve ser suportada na evidência por forma a permitir a tomada de decisão que reúna as melhores opções de custo-efetividade capazes de gerar os melhores resultados de saúde possíveis.

Artigo 7º – Da segurança

Os doentes devem ser compensados por danos causados pelos erros de qualidade na prestação de cuidados de saúde. A coresponsabilização, a regulação e a ética devem fazer parte do sistema e o sistema deve ser capaz de compensar e minimizar os danos, reparando primeiro e responsabilizando depois.

Artigo 8º – Da antecipação

Um sistema de saúde deve ser capaz de antecipar as necessidades dos doentes, para além de simplesmente reagir aos acontecimentos. A prevenção, a promoção de cuidados e o planeamento nacional e local devem resultar das orientações internacionais, da evidência científica, do conhecimento e da interação com o contexto e a comunidade. O planeamento nacional deve constituir estratégia nacional de saúde, efetivamente seguida regional e localmente.

Artigo 9º – Da gestão

O sistema deve motivar a gestão adequada dos comportamentos individuais no sentido da promoção do bem-estar (well being) físico e social, individual e coletivo.

Artigo 10º – Dos modelos de organização e dos desperdícios

O sistema de saúde não pode desperdiçar recursos ou tempo, do Estado, dos prestadores e do doente e tem de refletir as melhores opções de utilização de recursos públicos, devendo experimentar os modelos de organização de gestão de cuidados emergentes e não emergentes mais avançados e capazes de efetividade, cuja evidência nacional e internacional, esteja academicamente demonstrada.

Artigo 11º – Da cooperação

A um nível micro, profissionais de saúde, doentes, instituições, plataformas e sistemas devem colaborar e comunicar ativamente no sentido de assegurar a troca adequada de informação que possibilite a articulação e coordenação de cuidados. A um nível macro, indivíduos, governo e sociedade como um todo devem cooperar no sentido da efetividade dos cuidados prestados.

Artigo 12º – Da ética, da boa conduta e da não corrupção

Os órgãos políticos e executivos de gestão e administração pública têm elevada responsabilidade em assegurar processos transparentes e inequívocos que garantam o melhor desempenho das suas decisões políticas e de gestão, contratações, aquisições e gastos, honrando as funções que lhes foram confiadas. As nomeações dos órgãos de gestão devem ser confidenciais e apolíticas, baseadas em critérios de competência, experiência e habilitações adequadas para o desempenho das funções e o sistema de contratação deve estar montado de forma a ser capaz de o assegurar.

Artigo 13º – Do novo Contrato Social

A sociedade deverá evoluir com base em consensos deliberativos por forma a que presente Carta dê lugar a uma governação inteligente, à integração das pessoas e a um Novo Contrato Social da Saúde, que envolva todos os agentes da sociedade civil, partidos políticos, stakeholders e população.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

No 14 de fevereiro somos convidados a celebrar o amor na sua versão mais escarlate. Não há escapatória às decorações, presentes nas montras, músicas e publicidades. Esse amor, o que pode ser celebrado, invade as ruas e os nossos olhos a exibir as relações como um lugar seguro por definição. No Dia dos Namorados falamos de amor como quem fala de destino: ou aparece ou não aparece. Mas o amor, na vida real, é menos destino e mais um conjunto de hábitos. E alguns hábitos, mesmo com boa intenção, fazem um estrago silencioso. Falemos hoje sobre quando o cuidado, intencionalmente ou nem tanto, se transforma numa espécie de gestão do outro – primeiro subtil, depois habitual. E hoje, quase sempre… digital.

Na verdade, nunca tivemos tantos canais para estar em contacto e, ainda assim, tanta ansiedade por não controlar o contacto. Numa tecnologia que nos prometeu proximidade, acabamos, por vezes, por perceber que afinal nos entrega monitorização. E como as palavras importam, a monitorização entrou na relação disfarçada com o nome que mais facilmente passa na alfândega emocional: “preocupação”. Porque a certeza é tentadora e viciante. A certeza acalma. A certeza dá-nos uma espécie de tranquilidade instantânea, como um ansiolítico. O problema é que a certeza, quando se instala como necessidade, transforma a intimidade em inspeção. E um casal, sem dar por isso, começa a viver num regime de pequenos pedidos:

Só queria saber se chegaste bem.”
“Fiquei inquieto/a por não responderes.”
“Se não tens nada a esconder, porque é que te incomoda?”

É aqui que o amor começa a ganhar um subtexto: prova-me que sou importante através do teu acesso. E, sem darmos conta, trocamos algo essencial, como confiança, por essa, muito mais imediata ainda que equívoca, a certeza.

O controlo que se normaliza e o ciúme: um elogio cultural que disfarça a posse

Há uma ironia portuguesa (e não só) que nos foi enraizada durante anos; ensinam-nos que o ciúme é sinal de importância: “Se não tem ciúmes, não gosta.”

Mas se o ciúme é a prova, então o controlo torna-se apenas um método. Um método para não sentir aquela vertigem antiga: e se eu não for indispensável?

Só que o amor não é um contrato para nunca mais sermos inseguros. É um encontro onde aprendemos a ser inseguros… sem nos tornarmos perigosos.

Em Portugal, há sinais consistentes de que determinados comportamentos de controlo continuam a ser normalizados, sobretudo entre pessoas mais novas. O Estudo Nacional sobre Violência no Namoro (UMAR/CIG) tem vindo a sinalizar níveis elevados de legitimação de comportamentos violentos e abusivos e a edição de 2025 voltou a salientar este aumento como um dado particularmente preocupante.

Quando olhamos para os pedidos de ajuda, a realidade também fala: em 2024, a APAV prestou apoio a 1.023 vítimas de violência no namoro, com 322 a procurarem ajuda enquanto ainda estavam na relação.

Isto não significa que “as pessoas são piores”. Significa algo mais útil (e mais inquietante): a régua do que toleramos deslocou-se. E deslocou-se, em particular, em torno daquilo que chamamos “ciúme” e “prova de amor”.

Porque o ciúme, quando romantizado, torna-se um argumento poderoso: se tens ciúmes, é porque sentes; se sentes, é porque amas; se amas, tens direito a saber. Esta lógica é sedutora… mas perigosa. A relação com o outro, necessita de provas cumulativas de confiança para estabelecer segurança. No entanto, quando o pensamento anterior se torna numa referência, corremos o risco de despromover o ser humano que se ama a objeto de tranquilização.

Do desejo de intimidade ao medo da autonomia

É natural querermos proximidade e segurança. A proximidade pede presença, curiosidade, vulnerabilidade. Mas a segurança, quando está ferida, pede garantias. E as garantias, muitas vezes, transformam-se em controlo.

É aqui que o telemóvel se torna o “terceiro elemento” da relação, não como ferramenta, mas como sistema de regulação emocional. A pessoa sente ansiedade, pede acesso, alivia a ansiedade, e o cérebro aprende que a solução é vigiar. Um ciclo simples e devastador: quanto mais acesso temos, menos toleramos a ausência de acesso. E nisto, numa promessa de amor, vai-se traçando um pacto silencioso: dou-te transparência em troca de não me abandonares.

Mas eu também partilho tudo, não é por mal…”

Muita gente que controla não se sente violenta. Sente-se assustada. É por medo, um medo moderno, muito educado e muito tecnológico: o medo de não ser escolhido/a, o medo de não ser suficiente, o medo de ficar sozinho/a com a nossa própria imaginação. E isto é importante: o problema não é só moral, é emocional.

Em relações saudáveis, a intimidade não é uma auditoria. É um encontro. O que está em jogo não é “ter ou não ter passwords”. É o significado dessa troca.

Há casais que partilham passwords como quem partilha a chave de casa, por conveniência, sem pressão. E há casais em que a password é exigida como teste de lealdade, com consequências implícitas se o teste falhar.

A diferença não está no gesto. Está no direito ao não. Se não podes dizer “prefiro não partilhar” sem pagar um preço, já não é intimidade. É coerção.

Olhando para dentro: Isto aproxima-nos, ou encolhe-nos?

Depois deste comportamento, eu sinto-me mais eu… ou menos eu?
Sinto-me mais livre para respirar… ou mais cuidadoso/a para não provocar?

Um convite prático: “Acordos de autonomia”

Se este texto te tocou de alguma forma, aqui vai um exercício simples para fazer a dois:

  1. Cada um escreve 3 coisas que precisa para se sentir seguro/a na relação.
  2. Cada um escreve 3 coisas que precisa para se sentir livre.
  3. Comparem listas e criem 2 acordos pequenos por 15 dias – segurança sem invadir autonomia.
    Ex.: “Aviso se vou chegar mais de 30 min atrasado/a”; “Não peço passwords”; “Falamos de ciúme sem acusações”.

O objetivo não é “nunca ter ciúme” – até porque muitas vezes, esse lado incontornável no ser humano, pode ser uma boa especiaria para o desejo. É não usar o ciúme como licença para controlar, porque o amor não é saber tudo. É poder perguntar e aguentar a resposta. É conseguir sentir medo sem transformar o outro num suspeito.

E talvez seja isto um bom voto para o Dia dos Namorados: um amor que não precisa de te reduzir para se sentir seguro.

Referências bibliográficas

  • APAV. (2024). Estatísticas APAV: Violência no Namoro 2024. Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.
  • Brown, C., & Hegarty, K. (2018). Digital dating abuse measures: A critical review. Aggression and Violent Behavior.
  • Caridade, S., Braga, T., & Borrajo, E. (2019). Cyber dating abuse (CDA): Evidence from a systematic review. Aggression and Violent Behavior.
  • Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) & UMAR. (2024). Estudo Nacional sobre Violência no Namoro (ART’THEMIS+) – Infografia/Relatório 2024.
  • Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) & UMAR. (2025). Estudo Nacional sobre Violência no Namoro 2025 – Infografia.
  • Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG). (2025, 14 fevereiro). Estudo Nacional de Violência no Namoro revela um aumento da legitimação de comportamentos violentos.
  • De Botton, A. (1993). Essays in Love. Macmillan.
  • De Botton, A. (2016). The Course of Love: A Novel. Simon & Schuster.
  • Perel, E. (2006). Mating in Captivity: Reconciling the Erotic and the Domestic. HarperCollins.
  • Stark, E. (2007). Coercive Control: How Men Entrap Women in Personal Life. Oxford University Press.
  • Stern, R. (2007). The Gaslight Effect: How to Spot and Survive the Hidden Manipulation Others Use to Control Your Life. Morgan Road Books.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Viver no limite financeiro não é uma exceção — é, para muitas famílias, o ponto de partida. Há rendimentos regulares, trabalho estável, contas pagas a tempo e, ainda assim, o dinheiro parece nunca chegar ao fim do mês. Esta realidade repete-se com tal frequência que já não pode ser explicada apenas por “má gestão” ou “falta de cuidado”. Há padrões. E ignorá-los tem custos.

Quando se olha com atenção para a vida financeira das famílias, percebe-se que o problema raramente está num único erro grave ou numa decisão isolada. O mais comum é a combinação de vários fatores que, somados, reduzem drasticamente a margem de manobra mensal e criam uma sensação permanente de aperto.

O primeiro desses fatores é o peso das despesas fixas, sobretudo das prestações associadas a crédito. Crédito à habitação, automóvel, pessoal ou cartões de crédito são normalmente compromissos assumidos em momentos diferentes, muitas vezes sem uma visão global do impacto conjunto. Cada prestação, analisada isoladamente, parecia comportável aquando da contratação, mas quando englobadas condicionam o mês inteiro.

Ao peso dos créditos juntam-se outras despesas fixas que passam despercebidas precisamente por serem recorrentes e socialmente indispensáveis: eletricidade, água, gás, telecomunicações, seguros, subscrições e outros serviços contratados há anos e nunca mais revistos. Quantas destas faturas refletem, hoje, as melhores condições possíveis e/ou as necessidades? O problema raramente está numa despesa “absurda”. Está no efeito acumulado de decisões automáticas que nunca mais foram questionadas.

Outro fator é a falta de consciência real sobre para onde vai o dinheiro. Muitas famílias não têm uma noção clara do seu orçamento mensal — não por desleixo, mas porque nunca criaram um sistema simples que lhes permita perceber quanto entra, quanto sai e desta forma perceber onde estão os desvios. Sem essa base, qualquer decisão financeira é tomada no escuro, baseada em perceções e não em dados.

Depois surge o efeito da automatização das decisões. Débitos diretos, pagamentos recorrentes, renovações silenciosas de contratos criam a ilusão de controlo quando, na prática, retiram espaço à reflexão. O dinheiro sai antes de ser pensado. E quando se percebe o impacto, já não há margem para escolher.

Por fim, há a ausência de revisão periódica das decisões financeiras. Muitas escolhas são feitas uma vez e nunca mais revisitadas: créditos que já não fazem sentido, contratos desajustados à realidade atual, serviços que deixaram de ser utilizados. A vida muda, mas as decisões ficam. E isso custa dinheiro.

O problema, muitas vezes, não é ganhar pouco. É decidir uma vez e… nunca mais voltar a decidir.

É aqui que muitas famílias ficam presas: trabalham para cumprir compromissos assumidos no passado, sem tempo e, sobretudo, sem espaço para reavaliar o presente. O stress financeiro não nasce apenas da falta de dinheiro, mas da sensação de não haver alternativas.

Ter finanças com cabeça começa precisamente neste ponto: identificar onde estão os compromissos, perceber o impacto real das decisões tomadas e recuperar capacidade de escolha. Não se trata de cortar cegamente nem de viver em contenção permanente. Trata-se de alinhar decisões financeiras com a realidade atual e com aquilo que se pretende — e se necessita — preservar.

Ao longo das próximas semanas, nesta rubrica iremos aprofundar cada um destes eixos: o peso real das prestações, a leitura crítica dos créditos, os erros mais comuns no orçamento familiar, a importância de rever contratos e serviços e o impacto que pequenas decisões podem ter quando são tomadas com método e consciência.

Viver no limite não é inevitável. Em muitos casos, é apenas o resultado de decisões que nunca mais foram revistas. E rever decisões — ao contrário de aumentar rendimentos — é um ponto de partida que está, hoje, ao alcance de qualquer um de nós.

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