A Mobi.E, entidade gestora da rede pública de carregamento de veículos elétricos, anunciou um novo concurso para a instalação de 40 postos de carregamento (80 pontos) em 18 municípios, num investimento de 540 mil euros. O objetivo é levar a energia aos veículos elétricos em zonas residenciais, principalmente onde os edifícios não têm garagem.
Segundo o comunicado da Mobi.E, esta segunda fase do projeto “Ruas Elétricas” foca-se em “dotar de postos de carregamento ruas em zonas urbanas, residenciais ou comerciais, onde predominam edifícios sem parqueamento próprio”. A ideia é clara: “criar as condições necessárias para que os moradores destas zonas possam vir a adquirir veículos elétricos”.
E os municípios não ficam esquecidos. A Mobi.E pretende “sensibilizá-los para o papel central que desempenham na transição para a mobilidade sustentável”, incentivando a criação de procedimentos para aumentar a rede pública de carregamento.
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Cada posto terá uma potência de 22 kW, com capacidade para carregar duas viaturas em simultâneo. O carregamento será ad hoc, sem necessidade de contrato com um Comercializador de Eletricidade para a Mobilidade Elétrica.
Paços de Ferreira, Mirandela e Ourém serão dos municípios mais beneficiados, com quatro, três e três postos respetivamente. Borba, Carregal do Sal, Castanheira de Pera, Constância, Crato, Fundão, Marvão, Mora, Oleiros, São João da Pesqueira, Santa Cruz das Flores, Sertã, Sousel, Tábua e Trofa também receberão novos postos.
Os Operadores de Pontos de Carregamento (OPC) têm até 21 de março para concorrer à instalação e exploração destes postos, através da plataforma acinGov. A expectativa é que os postos estejam operacionais até ao final do ano.
Recorde-se que esta é a segunda fase do projeto “Ruas Elétricas”. A primeira fase, ainda em implementação, prevê a instalação de 156 postos (312 pontos) em 62 municípios.
Bom dia boa semana, caro leitor! Não se assuste com o título desta newsletter. Estou apenas a falar de futebol e da dificuldade que as principais equipas portuguesas parecem ter em manter a consistência e a qualidade numa temporada repleta de jogos e de competições. Numa semana em que apenas o Benfica foi capaz de manter-se em prova na Liga dos Campeões, o Sporting viu confirmado o afastamento da prova e voltou a consentir que o rival de Lisboa regressasse à liderança da Liga Portuguesa, quando, ainda no início do mês tinha voltado a ter 6 pontos de vantagem. Esta noite se perceberá se o FC Porto, que também foi afastado da Liga Europa a meio da semana, aproveita o deslize dos Leões para se aproximar do primeiro lugar.
Disse-o na altura e reafirma-o agora: estar no governo não foi a melhor experiência da sua vida. Aos 72 anos, o ex-ministro da Economia e do Mar, autor da Visão Estratégica que serviu de base ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), descreve no livro Governar no Século XXI (Bertrand, 352 págs., €19,90) as dificuldades que sentiu ao lidar com a “máquina napoleónica” da Administração Pública. Confessa que “não tinha experiência dos jogos político-partidários, das capelinhas, das cumplicidades” quando integrou, como independente, o governo maioritário de António Costa, mas agora quer contribuir para o debate público com um retrato positivo das potencialidades económicas do País.
Porque escolheu a frase “Superar a incapacidade de ação coletiva” para pós-título do livro?O coletivo deveria ter mais força do que a ação individual… Somos um povo muito individualista. Falamos pouco uns com os outros, encerramo-nos nos nossos feudos e somos incapazes de desenvolver um compromisso coletivo. Falhamos porque nos perdemos na luta dos egos enfatuados, nas guerras de alecrim e manjerona e não pomos aquilo que nos une à frente daquilo que nos separa para atingirmos os grandes desígnios nacionais, nomeadamente para transformar a economia e criar condições para o desenvolvimento do País.
Já sabia que éramos assim ou só percebeu isso quando esteve no governo? Já tinha essa perceção, mas a partir do governo sente-se muito melhor a incapacidade de assumir um compromisso. A Bélgica, que é da dimensão de Portugal, tem 15 associações empresariais. Portugal tem quase dez vezes mais associações de todo o tipo. Tem de se lidar com toda essa fragmentação e é difícil encontrar um fio condutor.
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Nos últimos dias no governo, admitiu em entrevista ao Expresso que ser ministro não tinha sido uma das melhores experiências da sua vida. Ficou desencantado com a política, mesmo não sendo uma estreia? Tive uma experiência política em Angola quando era jovem, mas num contexto de luta política, primeiro no movimento associativo, depois pela independência do país. Aprendi muito sobre a irracionalidade das utopias e a relatividade do poder. Nessa entrevista, disse que estava desencantado por causa do funcionamento da Administração Pública. No livro, cito o caso da pasta do Mar, que dependia de seis ministérios e de 18 organismos diferentes. Quando temos um programa para executar em pouquíssimo tempo, perdemo-nos nesta espécie de pescadinha de rabo na boca da orgânica do Estado. Em vez de termos um Estado adaptado ao século XXI, mais interventivo e mais em consonância com o desenvolvimento do País, temos uma máquina napoleónica que se arrasta e que favorece mais a inação do que a intervenção. A Administração está mais orientada para produzir pareceres do que para produzir decisões. Exige muito tempo e energia, e a minha frustração foi expressa a esse nível.
Como é que se explica que o Mar tenha uma tutela partilhada por seis ministérios? É porque todos querem ter poder sobre tudo? A Administração Pública reproduz o paradigma cultural do País. Há muitos poderes fáticos instalados. E há a lógica do “sempre fizemos assim”. Quando se tenta mudar, temos de reunir uma comissão interministerial porque as tutelas são partilhadas. Esta mentalidade burocrática, a apelar à inação, a defender o enviesamento, é muito crítica para o funcionamento do sistema.
Luta de egos Costa Silva foi ministro do Mar, mas a pasta dependia de seis ministérios e de 18 organismos
Sentiu isso muitas vezes? Todos os dias, praticamente. Temos um complicómetro em muitos setores. Isso não significa que a Administração Pública não tenha organismos e quadros excelentes na implementação dos projetos europeus, na prestação de contas, na interação com os organismos da Comissão Europeia… Hoje, com a digitalização, é possível fazer essa mudança, transformar os procedimentos, a maneira de atacar os problemas. No livro, proponho a reforma da Administração Pública para a dotar de uma lógica de desburocratização posta ao serviço dos cidadãos e das empresas.
Foi autor da Visão Estratégica que serviu de base ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), mas não ficou com a gestão dos fundo europeus nem com a Energia, onde fez a carreira. Se não tivesse sido assim, o seu mandato no governo poderia ter sido diferente? Claramente. Antes de integrar o governo, tentei que algumas coisas fossem atendidas, porque tinha essa perceção. As tutelas partilhadas obrigam a um processo mais demorado, obstaculizam um funcionamento eficaz. Se tivermos um Ministério da Economia mais forte, que tenha os instrumentos vitais para transformar a economia…
Teve de dar um murro na mesa para ser ouvido? Pediu a demissão de dois secretários de Estado [da Economia e do Turismo]… Quando cheguei ao governo, era um outsider. Sou independente e nunca me inscrevi num partido político. Não tinha experiência dos jogos político-partidários, das capelinhas, das redes que as pessoas vão tecendo para se protegerem umas às outras, das cumplicidades… Costumava comentar com a Elvira Fortunato [ex-ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior], que se sentava ao meu lado nos Conselhos de Ministros, que o nosso partido era Portugal. Deparei-me com situações difíceis, mas foram ultrapassadas. Os partidos são fulcrais, sem partidos não há democracia e eu sou profundamente democrático, até porque estive quase três anos preso às mãos de um regime totalitário [em Angola]. Mas as coisas mais preciosas são a vida e a liberdade. São inegociáveis.
Pôs a liberdade um bocadinho de lado para continuar no governo durante aqueles dois anos? Não, não. Tive um grande apoio do primeiro-ministro. Mas uma coisa é o topo da pirâmide, outra é tudo o que se passa a partir dali.
Se voltasse atrás, teria aceitado ser ministro da Economia sem a gestão dos fundos europeus e sem a Energia? É muito difícil responder a essa pergunta. O anterior governo de António Costa tinha enfrentado a pandemia, mas quando o XXIII Governo tomou posse, o programa estava ultrapassado porque, semanas antes, a Rússia tinha invadido a Ucrânia. Os desafios ao modelo energético europeu, o aumento do custo de vida e a inflação vieram para cima da mesa e tivemos de lhes dar resposta. Quando muitos prognosticavam que 2022 ia ser um ano catastrófico, tivemos o maior crescimento económico desde 1987, de cerca de 7% do PIB. O crescimento de Portugal e de Espanha é cerca de 50% acima do da União Europeia, o que contrasta muito com o que se passa na Alemanha. Hoje, é uma bênção não ser alemão. No novo livro Kaput: The End of the German Miracle, o jornalista Wolfgang Münchau conta como a Alemanha investiu no modelo industrial, baseado nas exportações, servindo-se do gás barato russo. O modelo está ultrapassado. A Alemanha não se digitalizou nem prestou atenção às novas tecnologias. Na Visão Estratégica e no PRR, estão as biotecnologias, as indústrias de software, as indústrias de serviços. É por isso que temos uma transformação na economia portuguesa. O setor exportador que mais tem crescido é o das tecnologias de informação e comunicação. Em 2022, as exportações de bens tecnológicos ultrapassaram quatro mil milhões de euros. E que bens são esses? São produtos eletrónicos, produtos para telecomunicações, instrumentos e máquinas médicas, sistemas para equipar radares e drones, produtos farmacêuticos. É por isso que a economia portuguesa está hoje mais resiliente.
Voltando à pergunta, aceitou ser ministro sem aquelas pastas porque os tempos eram especiais? Sim. Eram tempos muito especiais. Foi um serviço que tentei prestar ao País. Este livro é tudo aquilo que vi, aprendi, pensei, observei. Quero contribuir para o debate público. A minha grande preocupação é o que vai ser esta nação com quase 900 anos de História, que tem todas as condições para dar certo, e como é que vão viver os nossos filhos e netos.
O Banco de Fomento e a Efacec foram duas das suas dores de cabeça. A Efacec foi vendida, mas deixou um lastro de 500 milhões de euros. O Banco de Fomento mudou uma vez mais de administradores… São exemplos do que não se resolve neste país? Não partilho dessa leitura. No fim de 2023, estavam aprovadas operações de quase mil milhões de euros e as linhas de crédito tinham ajudado mais de 70 mil empresas. O Banco de Fomento estava a funcionar. Mas havia sempre críticas dos empresários. Agora, não vamos ser ingénuos. Há muita gente em Portugal que não quer o Banco de Fomento. Pode ser um potencial concorrente do sistema financeiro que está instalado. Ninguém vai afagar o bebé. Quando cheguei ao governo, tive de encontrar uma solução para a Efacec. O relatório do Tribunal de Contas diz que o Estado pode recuperar cerca de 380 milhões de euros [dos cerca de 500 milhões que injetou]. Se adicionar os 35 milhões do empréstimo do Banco de Fomento, temos cerca de 420 milhões de euros. Nesses anos, a empresa pagou mais de 100 milhões de euros em impostos e Segurança Social. Se tivesse colapsado, a despesa do Estado com os quase dois mil trabalhadores teria sido enorme. A Efacec continua a ganhar projetos em todas as geografias, mas a questão mais importante – que nunca está no centro das discussões – é que toda a rede nacional de transmissão de energia e de transporte tem equipamentos da Efacec. Se a Efacec falhar, o centro nevrálgico do País fica em causa. A comissão parlamentar de inquérito vai demonstrar claramente quem é que se preocupa com a economia e com as empresas e quem é que está interessado em destruir e em fazer sangue.
No livro, faz o balanço de certos aspetos do anterior governo, refere o financeirismo, que privilegiou as contas certas em vez de resolver os problemas dos professores, dos polícias ou do SNS. Mas também afirma que é cedo para fazer o balanço da governação de António Costa. Porquê? Ainda não temos a perceção do impacto que um conjunto de transformações está a operar no desenvolvimento do País. Em 2022, o crescimento económico foi de 7% do PIB, muito acima da média europeia, e em 2023 foi de 2,7%, cinco vezes acima da média europeia, acentuando o processo de convergência. O PIB per capita passou de 75% para 79% da média europeia em 2022, e voltou a subir para 82% em 2023. Mas a produtividade por hora trabalhada ainda é de 71% da média europeia, comparando com 84% em Espanha e 98% em Itália. Há um caminho feito, mas, como digo no livro, os remédios não são instantâneos. Um dia, o País fará justiça a António Costa, que governou em circunstâncias excecionais. Apesar disso, tivemos o maior saldo orçamental da História em 2023. Uma pequena parte desse saldo poderia ter sido usada para começar a resolver os problemas dos professores, da Saúde, das forças de segurança, evitando a deterioração do governo. Esse foi um ponto que me parece importante.
O atual Governo está no caminho certo? Aquilo que passa para a opinião pública é que os milhões do PRR estão atrasados e que o País vai desperdiçar fundos… Somos especialistas em fazer grandes narrativas apocalípticas mesmo quando os números e os factos as contradizem. No primeiro trimestre de 2024, o relatório do Tribunal de Contas Europeu sobre a execução do PRR a nível europeu indicava que a média estava nos 19%. No final do governo anterior, a execução em Portugal estava nos 23%. O País teve de fechar simultaneamente um programa como o PT 2020, desenhar o PRR e lançar o PT 2030. Sempre executámos programa após programa e nunca falhámos, mas executar três ao mesmo tempo é um grande desafio.
E com uma mudança de governo pelo meio, com uma dança de cadeiras nestas áreas… No caso do PRR, não foi uma dança de cadeiras, foram duas! O PRR foi entregue à Comissão Europeia em abril de 2021 e foi aprovado em julho. Em novembro de 2021 houve uma crise política e o País parou seis meses. Depois houve outra crise com o XXIII Governo. Não são só os governos que têm responsabilidade na execução, é o País no seu conjunto. As crises políticas condicionaram muito a governação.
Foi nomeado um secretário-geral do Governo para fazer a reforma do Estado. Que conselho lhe dá? Só podemos reformar aquilo que conhecemos. A Administração Pública é composta por mais de 13 mil entidades, mais de 1 100 empresas públicas, 340 empresas municipais, mais de mil institutos. É uma megamáquina de tamanho considerável. Mas os números são díspares. Ninguém conhece na sua total magnitude o que é o Estado português. A minha recomendação é que se adote uma reforma simplificadora, agregando as áreas da economia e do desenvolvimento na Economia e Finanças, o trabalho, serviços públicos, educação, saúde na área das Políticas Sociais e, por fim, as Funções de Soberania. Cada um destes três polos deve ser articulado e integrar toda a informação necessária ao funcionamento do governo, porque temos muitas zonas cinzentas, como as tutelas partilhadas, as sobreposições, a descoordenação entre organismos, as ambiguidades. A ambiguidade mata uma organização porque a paralisa.
Defendeu a redução transversal do IRC, que veio a acontecer com o executivo PSD/CDS. Sente que esteve no governo errado? Não diria isso [Risos]. Numa fase em que é muito difícil atrair o investimento das grandes companhias internacionais, uma das questões inultrapassáveis é o sistema fiscal. Temos uma taxa elevada de IRC sobre os lucros das empresas, mas depois temos esta exceção, e mais aquela, e outra e, no final, a taxa efetiva é muito mais baixa. É completamente irracional. É melhor fixar a taxa efetiva sem as exceções que complexificam tremendamente o sistema fiscal. Por isso defendi a redução do IRC, e estou contente por estar a ser executada.
Execução do PRR Para o ex-ministro, os números e os factos “contradizem” a narrativa de que vamos desperdiçar os milhões da Europa
A redução do IRC deve continuar nos próximos anos? Temos de ser competitivos para atrair o investimento estrangeiro. Os países do Norte da Europa não são competitivos, porque estão a ser flagelados pelos preços da energia, e as empresas estão a olhar cada vez mais para o Sul. Portugal tem uma extraordinária oportunidade resultante dos preços mais baixos da energia, das capacidades tecnológicas e de engenharia, dos recursos humanos, do recurso geográfico. Esta centralidade atlântica é muito importante para a instalação dos cabos submarinos, que também está a mudar a economia mundial. A partir de Sines, estamos ligados pelo cabo EllaLink a Fortaleza e a toda a América do Sul, e pelo cabo Equiano à Cidade do Cabo e ao continente africano. Também temos o Medusa e o 2África, que ligam Carcavelos ao Norte de África e à Ásia. E a Google está a instalar um cabo nos EUA que vai passar pelas Bahamas e chegar a Portugal. Hoje, 98% da informação mundial circula pelas fibras óticas dos cabos submarinos. Devemos instalar centros de dados em Sines e noutras áreas do País para tratar esta informação. É uma nova fileira para o desenvolvimento da economia portuguesa.
Referiu a vocação atlântica de Portugal, mas agora temos Donald Trump na Presidência dos EUA…. Isso muda tudo. Está a atacar um dos pilares da prosperidade da Europa e do mundo depois da II Guerra Mundial. E está a fazer uma guerra ao comércio internacional como desde há 100 anos nenhum Presidente americano tinha feito. Em 1930, foi aprovada a lei tarifária Smoot-Hawley, desenhada para aumentar as exportações e diminuir as importações dos EUA. Em média, as tarifas impostas a 25 países aumentaram 5% a 6%. Com Donald Trump, temos, em média, um aumento de, pelo menos, 10%. Sabe o que é que aconteceu em 1930? O comércio colapsou, as exportações dos EUA diminuíram e o mundo mergulhou na Grande Depressão. A ruína do comércio é a ruína da economia.
O que é que podemos fazer, enquanto País? Temos uma economia mais resiliente. Exportamos cada vez mais – chegámos a 50% do PIB em 2022 – e temos uma força de trabalho mais qualificada. Cerca de 34% dos cinco milhões de pessoas empregadas têm formação superior. Temos mais capacidade de inovação, o registo de patentes tem subido, temos capacidade de atrair investimento estrangeiro e temos empresas tecnológicas que vão surgindo com a diversificação da economia. A economia não é só o turismo. Em 2022, o setor que mais exportou foi a nossa extraordinária indústria metalomecânica, com o fabrico de máquinas e de equipamentos. Só depois vem o turismo. Donald Trump pode instituir tarifas para tudo, mas não vai fazê-lo para o turismo. É um motor da economia que estará a salvo. Temos de falar com outras geografias para as nossas exportações. O acordo da Europa com o Mercosul é extremamente importante, temos de abrir mercados também na Ásia. É fundamental fazer a diversificação.
Republicou e assumiu recentemente a autoria do romance Desconseguiram Angola. Porquê agora? Este ano vamos celebrar os 50 anos da independência de Angola, declarada a 11 de novembro de 1975. Nesse dia, estava na Praça 1º de Maio, em Luanda, quando o Presidente Agostinho Neto declarou a independência. Todos nós sentimos que desaguavam naquela praça as ansiedades, as expectativas, as lutas de gerações e gerações de angolanos que se bateram pelo país. Mas à medida que o Presidente falava, ecoavam morteiros nos arredores. Era um prenúncio do desastre que viria a seguir. Depois de 14 anos de luta pela libertação nacional, tivemos 26 anos de uma guerra civil autofágica, altamente destrutiva. Este romance, escrito no auge do conflito, e publicado em 2005, sob pseudónimo, é um grito de revolta profundo contra a destruição que a guerra provocou. E é um alerta, porque passa-se em Angola, mas podia passar-se no Ruanda, no Uganda, no Congo, no Sudão, no Kosovo, na Sérvia, na Bósnia ou no Médio Oriente, onde assistimos ao genocídio do povo palestiniano com a quase complacência e indiferença da comunidade internacional. A nossa habituação ao horror é uma derrota da Humanidade. Gostava verdadeiramente que daqui a 50 anos alguém escrevesse um livro que se chamasse Conseguimos Angola.
1. Se Perguntarem por Mim, Não Estou, seguido de Haja Harmonia
Mário de Carvalho
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Conhecemos bem as forças narrativas de Mário de Carvalho, exercitadas nos seus romances e contos: a prosa rica, o humor insólito, os juízos ferinos, a ternura camuflada, a História a não querer ser esquecida. Forças reencontradas na sua escrita dramatúrgica. Distinguido com o Grande Prémio APE de Texto de Teatro em 1999, este volume revela espaços em antítese: um edifício aberto versus a claustrofobia duma prisão. Em Se Perguntarem por Mim Não Estou os rumores de um tigre à solta lançam o caos na vidinha dos vizinhos da classe média; em Haja Harmonia, os presos criam um statu quo (ilusório) em que não trocariam as três refeições diárias nem por ouro e prata, mas a subversão espreita a cada frase. Porto Editora, 320 págs., €18,85
2. O Papagaio de Flaubert
Julian Barnes
Nesta edição comemorativa dos 40 anos da primeira edição de O Papagaio de Flaubert, Julian Barnes assina o prefácio com as habituais fleuma e ironia. Diz que ficaria “aturdido” se há quatro décadas soubesse que o romance continuaria a ser publicado. Mas aproveita para umas punch lines: soube que o livro era finalista do Booker quando preparava um coelho estufado de férias na “France profonde”, e reivindica uma patente literária: “Se tivesse 50 pence, ou mesmo um pouco mais, por cada livro publicado nos últimos 40 anos com títulos como O Sobretudo de Proust ou O Botão de Púchkin (também Os Botões de Napoleão) ou O Cabelo de Beethoven ou O Nariz de Virginia Woolf ou O Chapéu de Vermeer (etc.,etc.), seria, bem, não muito mais rico, mas um pouco mais presunçoso por ter iniciado um género de títulos menor.” Este romance desarrumador de géneros continua a ser uma sedutora deambulação literária com um pretexto inusitado: o de um viúvo que viaja para contemplar o papagaio embalsamado que inspirou Flaubert. Quetzal, 288 págs., €18,80
3.A Trégua
Mario Benedetti
Pode dizer-se que quem não leu este romance, classificado como centralíssimo na literatura sul-americana, perdeu muito do que importa conhecer neste continente literário. O uruguaio Benedetti é um mestre humanista, um elegante marionetista das figuras humanas mais discretas subitamente assoladas por acontecimentos que as transcendem – para o bem, para o trágico e para todos os estádios intermédios. Na sua escrita, ironia e atmosfera acertam-se como um finíssimo relógio. Editado em Portugal em 2007, e depois reeditado em 2015, é um regresso a celebrar o desta história sobre Martin Santomé, melancólico viúvo, pré-reformado em torpor, cuja rotina funcionária é sacudida pela paixão por uma jovem, Laura Avellaneda. Cavalo de Ferro, 184 págs., €15,36
4.A Visita do Brutamontes
Jennifer Egan
“A nostalgia era o fim – toda a gente sabia disso.” Esta frase simples é uma boa entrada para este incrível romance, subjugado aos diferentes tempos vividos, e sobretudo percecionados, pelos protagonistas, à medida que estes enfrentam (auto)ilusões, derrotas, desfechos afetivos – há até um capítulo com diagramas existenciais. O brutamontes do título é, afinal, o tempo. Recebida em glória em 2010, a autora confessou como influências Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, e a série Os Sopranos. Isto é: peregrinações por muitos pontos de vista e desilusões do envelhecimento. Aqui, tudo se desata a partir de Bennie Salazar, antigo músico punk, e Sasha, a sua assistente cleptomaníaca. O resto são muitos bónus narrativos. Quetzal, 384 págs., €19,90
A CDU venceu. Folgadamente. A AfD duplicou os resultados. Está em segundo lugar. O SPD afundou-se. Os Verdes subiram. E podem ser o parceiro ideal para Friedrich Merz, que será o próximo chanceler. Todos os europeus respiram de alívio. Mas sabem que o Gangue dos 3 – Trump, Putin, Musk – está mais forte. Teve um avanço significativo.
Mas ser o segundo partido mais votado significa o quê? Tudo? Nada? Depende. Depende da coligação que governará a Alemanha. E de como o fará. Na economia. Na política externa. Mas também do que fará a direita radical. Porque há um dilema. A AfD tem dois presidentes. Um moderado. O outro, um extremista absoluto. Quem manda, afinal? Quem fala pela AfD?
Os eleitores alemães mostraram bom senso. E isso é um sinal de esperança. Para a Ucrânia. Para Zelensky. A CDU e Merz sempre apoiaram o SPD na poderosa ajuda a Kiev. E no reforço do orçamento da Defesa. E no aumento exponencial das Forças Armadas. Isso não vai mudar.
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A Europa pode descansar. E isso dá margem a Macron. A Starmer. Para travar as loucuras de Trump. Porque a NATO vai ter, em duras conversas, as suas três potências nucleares. E cada um deles tem esse poder dissuasor. Sempre. Ao seu alcance. Trump pensava que era um Ás? Não. É um duque de paus.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
“Os democratas-cristãos vão honrar a sua responsabilidade de formar um governo depois de ganharem as eleições alemãs. O mundo lá fora não está à espera da Alemanha e não está à espera de longas conversações de coligação em negociações”, declarou o líder da União Democrata-Cristã (CDU), Friedrich Merz, nas primeiras palavras dirigidas aos seus apoiantes na sede do partido, em Berlim, depois de confirmada a vitória deste domingo nas legislativas.
“Precisamos de voltar a funcionar rapidamente, para podermos fazer o que temos a fazer a nível interno e recuperar a nossa presença na Europa, para que o mundo possa ver que a Alemanha está novamente a ser governada de forma fiável”, acrescentou.
Cerca de meia-hora depois da divulgação das projeções assim que as urnas fecharam, às 18h00 locais (17h00 de Lisboa), Merz, acompanhado de vários dirigentes da CDU, subiu ao palco instalado na sede do partido, repleta de apoiantes, que celebraram de forma pouco efusiva a vitória “magra”, que exigirá uma coligação.
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Já os sociais-democratas alemães sofreram uma “uma derrota histórica”, nas palavras do seu líder, , Olaf Scholz.
Verdes dispostos a continuar a integrar o governo
O candidato dos Verdes a chanceler, Robert Habeck, anunciou que está disposto a continuar a assumir responsabilidades no governo, caso o vencedor das eleições coloque essa hipótese.
“Os Verdes querem continuar a assumir a responsabilidade. Se tal é possível, veremos depois de uma longa noite”, disse Habeck, vice-chanceler e ministro da Economia do antigo Governo do social-democrata Olaf Scholz.
De acordo com as projeções das sondagens à boca das urnas publicadas pelas televisões públicas ZDF e ARD, os Verdes obtiveram entre 12,4% e 13% dos votos, ligeiramente abaixo do resultado das eleições anteriores, que, com 14,7% dos votos, havia sido o melhor resultado de sempre do partido.
Podia ter sido modista de chapéus de alta-costura, manualidade que ainda executou durante três anos, antes de ser jornalista ao lado do irmão, Paulo Portas, no jornal O Independente. Nessa altura, em 1988, já tinha saído de casa e morava com Miguel Portas, o irmão mais velho, então jornalista do Expresso, futuro deputado do Bloco de Esquerda. Sempre foi uma curiosa por cidades, Lisboa em particular, ou não fosse filha de dois urbanistas, Nuno Portas e Margarida de Souza Lobo.
Catarina Portas, 55 anos, tornou-se empresária e empreendedora há 18. A história de sucesso d’A Vida Portuguesa faz-se também do legado das marcas, algumas centenárias, que ajudou a pôr de novo na ribalta, num inovador conceito de showroom do melhor da manufatura e da indústria nacionais. Se nos portugueses causa nostalgia, aos estrangeiros mostra o quão modernos somos há largas décadas. Além de três lojas em Lisboa (Chiado, Intendente e Mercado da Ribeira) e uma no Porto (Estação de São Bento), A Vida Portuguesa mostra-se por estes dias em Nova Iorque, com produtos de 25 marcas à venda em duas lojas do Museu de Arte Moderna.
Portugal é a matéria-prima do seu negócio? Comecei, no fim de 2004, com esta ideia: escrever um livro sobre o quotidiano em Portugal no século XX. Sempre quis mostrar e provar aos portugueses que fabricávamos bem e tínhamos produtos muito interessantes. O comércio mudou imenso com o aparecimento da grande distribuição, que não foi buscar marcas mais pequenas e acolheu muitas marcas estrangeiras. De repente, depois da crise [de 2008/9] e com alguma literacia económica, percebemos que era mesmo importante para o País consumirmos os produtos fabricados em Portugal, em vez de importarmos tanto. O sucesso da loja é não ter sido feita para turistas, foi feita para portugueses. Quando vinham várias gerações juntas, as pessoas ficavam muito tempo na loja a contar histórias umas às outras.
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É bom termos muita variedade de matérias-primas? Para mim, uma das ideias fundamentais é o poder das mãos portuguesas. Na Europa, muitos países perderam esse saber-fazer das mãos. Eram países mais ricos, que se industrializaram e automatizaram mais e antes de nós. Se calhar, isto que identificamos como o nosso atraso – ainda termos uma grande parte de manufatura na nossa produção – pode ser o nosso avanço. O Governo devia mesmo fazer uma grande campanha a favor das mãos portuguesas e desse saber-fazer. Ele está no calçado, na cerâmica, no têxtil, no artesanato em menor expressão, está em muito do que produzimos e exportamos. Essa é uma das grandes forças da nossa economia hoje.
Concorda que ajudou a transformar Portugal numa marca? Tornámo-nos um showroom de Portugal, de um certo modo de vida português. Sei a quantidade de marcas estrangeiras que contactaram as fábricas com que trabalho para lhes comprar produtos. Lembro-me do dia em que estava o diretor criativo de Christian Lacroix na loja e disse-lhe: “Experimenta este creme, Alantoíne da Benamôr, que é ótimo.” Passados 15 dias, estava a vender Alantoíne na loja da Christian Lacroix, em Paris. Casos como esse foram muitos ao longo dos anos. Começámos a aparecer em todos os guias de viagens sobre Lisboa, por sermos uma loja diferente e só com coisas portuguesas, e passámos a ter uma grande parte de clientela estrangeira. Percebemos que estávamos muito dependentes dela durante a pandemia, quando o turismo desapareceu durante um ano e meio.
Do que mais se orgulha nesse percurso? Hoje, temos cerca de 500 fornecedores e cerca de cinco mil referências. Dá-nos um panorama muito completo do que é a produção em Portugal. Tanto trabalhamos com um artesão único, como com uma fábrica com 150 trabalhadores. Passamos por todo o tipo de indústria e manufatura em Portugal.
Em que momento é que saudosismo e identidade se confundem? O meu espírito a fazer A Vida Portuguesa nunca é nostálgico ou saudoso. Nunca foi. Há poucas marcas portuguesas, isto nunca foi uma coisa de nacionalismo. Muitos dos produtos foram, aliás, inventados por estrangeiros. A Ach.Brito, a primeira fábrica de sabonetes em Portugal, foi feita por dois alemães, o vinho do Porto foi inventado pelos ingleses. Interessa-me essa mistura cultural de pessoas que vêm para um sítio, fabricam, trazem outras coisas. Sempre fomos um país de ir e vir e andámos muito pelo mundo. O que é que trouxemos, de que forma é que isso se integrou na nossa cultura, isso também é uma forma de contar o País. Mais do que nostalgia, tenho uma curiosidade sociológica, antropológica e histórica. Não tenho mesmo nostalgia nenhuma dos anos 40 e do Estado Novo.
Há alguma fábrica que não tenha fechado graças à Vida Portuguesa? Não me cabe a mim dizer isso. Durante a primeira crise [a partir de 2008], em vez de fazermos o que faz a grande distribuição – esconder a marca e a origem dos produtos –, fizemos exatamente o contrário. Demos a ver muitos produtos que estavam um bocadinho escondidos ou esquecidos. É claro que isso fez com que as fábricas tivessem outra visibilidade e, por isso, houvesse mais encomendas. Depois de A Vida Portuguesa existir já com alguma presença, começaram essas marcas a abrir as suas lojas. Os nossos próprios fornecedores são também nossos concorrentes.
Se fosse presidente da Câmara Municipal de Lisboa, quais seriam as primeiras medidas que tomava? Comprava espaços comerciais nos centros históricos para albergar comércio antigo e novos projetos. Acabava com muitas lojas iguais na mesma rua, mas bem sei que tem de partir de uma lei da República. A lógica já não é a Rua da Conceição com muitas retrosarias, mas estamos a falar de uma Rua da Prata com 27 lojas de ímanes, todas iguais. Isto não pode acontecer. Não são verdadeiras essas lojas, estão ligadas a máfias da imigração. E não percebo como é que se gastam milhões a fazer um terminal de cruzeiros e nunca ninguém gastou milhões a fazer um terminal rodoviário. A estação de Sete Rios é uma vergonha, é um sítio horrível, feio, desconfortável. Também acho que os tuk-tuks deviam ter todos a mesma cor, como os táxis. É um ruído visual horrível.
É membro do conselho consultivo da Câmara Municipal de Lisboa, para as Lojas com História – o que tem sido feito? Numa reunião, no ano passado, até chorei de emoção porque a sala já não estava cheia de pessoas de 70 anos. Mais de metade eram pessoas de 30, 40 anos, que tinham herdado e acreditado nos negócios da geração anterior. O programa não serve para os casos em que a pessoa tem 90 anos, quer ir para casa e ninguém quer ficar com o seu negócio. Dou o exemplo da Casa Pereira, em 2019: os sócios tinham 90 anos, os seus filhos quase 70 e a loja de que eram proprietários passou a valer milhões na Rua Garrett. Era impossível que não fechasse. Mas a Pérola do Rossio, por exemplo, foi a única coisa que restou em todo o edifício do Rossio ocupado agora pela Zara.
Defende a regulação do comércio por parte dos municípios? O Licenciamento Zero [iniciativa do SIMPLEX, em 2011] fazia todo o sentido naquela época de crise, em que havia muitas lojas fechadas e imensa burocracia. Agora estamos exatamente na situação oposta. O Licenciamento Zero tem de ser revogado, porque as câmaras e as juntas de freguesia devem ter uma palavra a dizer. Não é possível que numa segunda-feira feche uma padaria e que, nesse lugar, abra um bar poucos dias depois, a funcionar até às quatro da manhã. Não pode ser só restauração, só hotéis. Cada hotel na Baixa mata cinco ou seis lojas. Para quê? Para terem uns átrios que, em geral, não servem para nada. Por exemplo, em Itália, Florença obriga os hotéis a serem só do primeiro andar para cima. O rés do chão tem de ser comércio. O comércio é a parte viva de uma cidade.
Essas “lojas de ímanes” para turistas na Rua da Prata deviam fechar? É muito mais difícil fechá-las do que não as deixar abrir. Faz sentido haver cinco lojas iguais da Ale-Hop que vendem umas coisas baratuchas feitas na China, entre a Rua Garrett e a Baixa? Tem de se pensar como é que isto se regula. Mas temos de ter uma mistura, não podemos ter só um tipo de serviço só para um tipo de população. Isso é matar uma cidade.
O problema da imigração é uma extrema-direita que manipula esse tema para causar medo e insegurança. Claro que todos os países europeus hoje precisam de imigrantes para a sua economia
E quando a criticam por também fazer parte da gentrificação do Chiado, onde recentemente inaugurou uma nova loja, na antiga livraria Ferin, como responde? Também estamos no Intendente, que não é uma zona turística. Abrimos no Chiado porque era o bairro comercial por excelência, ao longo de pelo menos dois ou três séculos. Há 20 anos, quando fui para o Chiado, as lojas não abriam ao sábado à tarde nem ao domingo. Eu dizia aos outros comerciantes: “Mas como é que querem fazer concorrência aos centros comerciais se não abrem quando as pessoas não trabalham?!” Queremos continuar no Chiado, sobretudo porque descobrimos outro espaço antigo, muito bonito, a livraria Ferin, e para mim é importante preservar espaços antigos.
Há turismo a mais em Lisboa hoje? Acho que o turismo está muitíssimo mal distribuído e a câmara devia fazer uma política diferente. Por exemplo, a Baixa foi sacrificada ao turismo. Tal como escreveu Manuel Salgado [arquiteto e responsável pelo urbanismo na capital durante vários anos], “há que travar mais hotéis e reduzir o alojamento local”. Nem mais um hotel na Baixa. Não pode continuar.
Mas, agora, já não dá para reverter. Mas dá para salvar, ainda, muitas coisas e as câmaras têm poderes para licenciar ou não licenciar. Tem de haver regras diferentes. O que me assusta não é o turismo em geral, é o turismo de massas.
A chegada de milhares de imigrantes nos últimos anos mudou muito a cidade? Há imigrantes a mais? Não há nada imigrantes a mais. Confronto-me muito com uma parte dessa realidade porque tenho uma loja no Largo do Intendente, que é onde desemboca a Rua do Benformoso, ocupada sobretudo nos últimos anos pela comunidade do Bangladesh, como é usual em qualquer tipo de imigração. Como os portugueses sempre se juntaram em Newark, nos EUA. Esta é a comunidade mais visível por estar no centro da cidade. São pessoas que não são bem pagas, algumas pelas empresas mais poderosas e mais ricas do mundo, como a Uber, que em Portugal paga menos impostos do que eu pago.
Tem medo de andar a pé pela Rua do Benformoso? Não, ando para a frente e para trás. Todas as semanas faço aquela rua, é uma rua que me maravilha. Estou ali no Intendente, e também sei que houve uma pessoa esfaqueada no ano passado e que na semana passada houve uma rixa às dez da manhã. Em Alfama e no Bairro Alto sempre houve problemas, a Avenida da Liberdade também era um problema, mas isso foi há 30 anos.
Mas como vê a evolução da segurança das ruas de Lisboa, nomeadamente o centro, nos últimos anos? Acho que os imigrantes não têm nada que ver com a insegurança. Têm que ver com o mercado de trabalho, que precisa deles. Eles próprios vêm de países que estão em situações bastante difíceis. Mas acho que a imigração tem de ser minimamente regulada. O problema da imigração é uma extrema-direita que manipula esse tema para causar medo e insegurança. A insegurança não vem da imigração, vem da extrema-direita. Claro que todos os países europeus hoje precisam de imigrantes para a sua economia, nós próprios também somos um povo de emigrantes.
Lisboa está mais suja, ou também é uma perceção? Aprendi com um negócio que tive [Quiosque de Refresco, de 2009 a 2016] que os lisboetas são muito porcos. Não há outra maneira de dizer isto. Cospem para o chão, atiram papéis para o chão, mesmo tendo o caixote ao lado. Para isso, a minha solução seria criar uma “EMEL do lixo”: se houvesse fiscais junto aos ecopontos e pudessem multar as pessoas que põem o lixo no sítio errado, acho que estas equipas se pagavam a elas próprias. Em Itália, por exemplo, há multas à séria para quem não faz a separação do lixo.
Como evoluiu o conceito de vida de bairro? Cresci ali ao pé das Janelas Verdes, e a Rua do Olival, onde desembocava a minha rua, tinha um estofador, várias tascas e mercearias. Hoje em dia não tem um único café, a única coisa que tem é um atelier de serigrafia. Os prédios foram transformados em alojamento local ou as partes de baixo foram transformadas em garagens. É um bairro morto. A Lapa, por exemplo, é um bairro que tem ricos, que se deslocam para as compras de carro, não compram no bairro.
Do que gosta na vida de bairro? Há uns anos, fui viver para os Anjos, na zona entre o Bairro das Colónias e o Intendente. Estou fascinada. É um bairro vivo ainda. Além de ter metro muito perto, tem ainda o comércio antigo e o comércio novo, tem pequenos negócios muito criativos e interessantes e tem as mercearias indianas e as portuguesas, tem crianças e escolas, tem pessoas mais velhas, tem estrangeiros, tem portugueses… E é isso que é uma cidade feliz para se viver. A definição de cidade é a mistura. É um sítio onde as coisas se encontram e se misturam. É sermos todos diferentes e vivermos no mesmo lugar.
Como se pode atrair novamente pessoas para os bairros? Depende dos bairros… O alojamento local é uma grande parte do alojamento disponível num bairro como Alfama. Mas vamos lá olhar para a realidade: Alfama tinha umas casas muito pequenas, velhas e com condições miseráveis que a maior parte das famílias, com carro e crianças, não quer. Não percebo como é que há, hoje, tão poucas cooperativas de habitação, como existiram antes do 25 de Abril. Lisboa teve uma EPUL [Empresa Pública de Urbanização de Lisboa] que construiu ao longo do século XX os Olivais, Telheiras, bairros bons e que são para vários tipos de classes. Também há muitas casas vazias em Lisboa [quase 50 mil]. Isto é um problema que está a acontecer em grande parte das cidades no mundo e que tem que ver com a última crise, quando os mais ricos perceberam que não era seguro ter o dinheiro nos bancos e era muito mais seguro comprar os centros históricos das cidades, que nunca desvalorizam. Era necessário ter sido muito mais rigoroso quando as seguradoras começaram a vender as suas carteiras de imóveis a fundos de investimento e depois puseram as pessoas na rua.
Tem saudades de ser jornalista, nestes tempos tão desafiantes para o jornalismo? Gostei imenso, imenso, de ser jornalista. Mas já estou muito longe. E encontrei aqui um terreno em que sou tão ou mais feliz do que no jornalismo. No jornalismo, investigava e comunicava. Aqui posso concretizar, posso fazer algo pelas coisas em que acredito. Dantes só podia lançar o alerta. Hoje em dia posso dar a minha contribuição, e adoro ter esse poder de ação.
As últimas notícias acerca do estado de saúde do Papa Francisco dão conta de uma situação “crítica”. De acordo com o Vaticano, na tarde deste sábado, 22, o pontífice sofreu “uma crise respiratória prolongada do tipo asmático” que requereu a administração de grandes quantidades de oxigénio. Jorge Bergoglio continuará internado no Hospital Gemelli, em Roma. Nas atualizações mais recentes, o Vaticano também já tinha feito saber que, este domingo, ao meio-dia, Francisco não conduzirá a oração do Angelus – tal como aconteceu no domingo passado, será divulgado uma reflexão da sua lavra.
“Em linha com as instruções do Presidente Donald Trump, todos os funcionários federais vão receber em breve um email a pedir que expliquem o que fizeram na semana passada. A ausência de resposta será tida como uma demissão”, anunciou Elon Musk no Twitter por volta das 20h00 de Washington de sábado.
Consistent with President @realDonaldTrump’s instructions, all federal employees will shortly receive an email requesting to understand what they got done last week.
Failure to respond will be taken as a resignation.
Pouco depois, segundo a Associated Press, todos os funcionários do Estado receberam um email com três linhas: “Por favor responda a este email com aproximadamente cinco pontos com o que fez na semana passada, com o seu superior em cc [com conhecimento]”
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O prazo para responder termina às 23h59 de segunda-feira. O mail enviado não incluiu, no entanto, a ameaça de demissão daqueles que não o fizerem.
Musk tem a seu cargo o DOGE, a sigla para Departamento de Eficiência Governamental, criado por esta nova Administração Trump para reduzir os custos da administração pública.
Não importa se o PSD continua a não prestar o apoio de que Isaltino Morais beneficiou nos primeiros anos da sua presidência, quando ainda era militante do partido, culpa das acusações em processos de corrupção passiva, fraude fiscal, branqueamento de capitais e abuso de poder de que foi alvo e da condenação de sete anos, cumprida em pequena parte na prisão da Carregueira, perto de Belas. Contra ventos e marés, nas próximas eleições autárquicas, os munícipes de Oeiras lá terão um quadradinho para votarem no presidente que há 40 anos decide os destinos do concelho (com intervalos para uma passagem pelo Ministério das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, no tempo de Durão Barroso, e para cumprir a tal pena). Devido à lei da limitação de mandatos, esta será a última vez que poderá ser candidato a presidente da Câmara Municipal de Oeiras.
“O sentido de voto está decidido neste momento”, garante Isaltino, confiante na vitória, depois de, em 2021, ter vencido por maioria absoluta com um resultado de 50,86%. “Até ao momento, não há conversações com o PSD, mas se quiserem apoiar-me, ficarei satisfeito, tal como ficaria caso o PS decidisse apoiar a minha candidatura.” Se ganhar e cumprir o mandato até ao final, Isaltino acabará a sua prestação em Oeiras com 80 anos e dará então asas ao desejo de se dedicar a uma quinta, produzindo azeite e vinho e passando os dias a “plantar couves”.
Quem vota no almirante?
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As suas ideias são igualmente claras quanto às presidenciais de 2026 e até espera que essas eleições se resolvam logo na primeira volta. O autarca não tem poupado nos elogios quando se refere ao almirante Gouveia e Melo, por oposição às palavras usadas para falar da candidatura de Marques Mendes, seu putativo inimigo político, desde que este lhe retirou o apoio, em 2005. “O candidato do PSD deveria ser Durão Barroso ou Leonor Beleza. Marques Mendes é uma solução de recurso, embora ele ande há anos a preparar-se para isto”, nota, sem dó.
Em seu entender, esta escolha do PSD facilita a vida de uma eventual candidatura do militar – lembre-se que, oficialmente, ela ainda não existe. E quando se coloca a questão de saber qual a orientação política ou as ideias de Gouveia e Melo para o País, Isaltino responde, sem dúvidas: “Trata-se de um social-democrata, um homem que emerge do povo e que trará de volta alguma serenidade, respeito e dignidade aos órgãos de soberania. Nos últimos anos, Marcelo dessacralizou demasiado o poder.”
Se dúvidas ainda restassem acerca do apoio do autarca de Oeiras ao militar popularizado durante a primeira campanha de vacinação contra a Covid-19, atente-se nesta “sondagem caseira”: “Noutro dia, estava num restaurante a falar das presidenciais, quando uma pessoa da mesa ao lado me interrompe para dizer que lá em casa ia tudo votar no almirante. Nessa altura, levantei-me da mesa e perguntei aos restantes clientes que ali almoçavam quem mais votaria nele. Todos levantaram o braço.”