A escuderia Ferrari explica que cometeu um erro de análise no desgaste da placa de proteção que levou à desqualificação do britânico Lewis Hamilton do Grande Prémio da China e que não tinha intenção de ganhar vantagem.


Em comunicado, o construtor italiano explicou que a placa de proteção instalada no fundo do monolugar do piloto britânico, que tinha terminado em sexto, apresentava uma espessura de 0,5 milímetros inferior ao mínimo permitido. “Julgámos mal o desgaste ao longo da corrida por uma margem mínima”, lê-se.

Já no caso da desqualificação do monegasco Charles Leclerc, que tinha terminado na quinta posição, em causa está o peso mínimo regulamentar, que ficou um quilo abaixo do mínimo permitido. “O Charles estava numa estratégia de apenas uma paragem este fim de semana, o que significa que o desgaste dos seus pneus foi muito elevado, o que provocou que ficasse abaixo do peso mínimo”, explicou a Ferrari.

No comunicado publicado nas redes sociais, a equipa italiana deixou, ainda, a garantia de que “não houve a intenção de ganhar qualquer vantagem” com estes fatores.

“Enquanto equipa, vamos aprender com o que aconteceu e garantir que estes erros não se voltam a repetir”, frisou a escuderia do Cavallino Rampante.

O australiano Oscar Piastri (McLaren) foi o vencedor da segunda etapa do Mundial, disputada este domingo, em Xangai. Lando Norris (McLaren), que foi segundo classificado, mantém a liderança do campeonato, com 44 pontos.

Viva, bom-dia  
Ricardo Costa diz que se sente mais resistente ao nível imunitário e muito mais focado nas suas tarefas, sobretudo no período da manhã. Trabalha numa agência de publicidade e, em setembro de 2020, quando a VISÃO o entrevistou, dava conta que há quatro anos passou a estar 16 horas por dia sem comer. “Optei por este regime numa lógica de saúde, bem-estar e longevidade, e a verdade é que há muito tempo que não adoeço. E nunca acordo a pensar que estou cheio de fome, mas sim naquilo que vou fazer.”    
O publicitário acredita que os bons resultados se devem à sua rotina alimentar. “Se estivermos sempre a comer canalizamos a nossa energia para o sistema digestivo”, justificava então à VISÃO. “Comer é bom, mas está sobrevalorizado. Eu perdi a vontade dos doces e tenho o corpo otimizado para refeições mais leves. Se opto por uma sobremesa, arrependo-me, porque já não me cai bem, e o mesmo acontece com a pizza – é uma bomba no estômago.” 

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Uma sondagem da Intercampus, para o Jornal da Madeira, nesta última semana de campanha, colocava o PSD de Miguel Albuquerque no limiar da maioria absoluta, para as eleições regionais antecipadas que se realizam este domingo, 23, na Região Autónoma. Os rostos que se apresentam à frente dos principais partidos são os mesmos de há dez meses, as propostas políticas em nada variam e o principal irritante da campanha continua a ser o mesmo: o envolvimento do líder do PSD Regional e presidente do Governo, e de vários elementos da sua equipa, como arguidos, em investigações judiciais por suspeitas que vão do abuso de poder e prevaricação à corrupção passiva. Num limbo judicial há mais de um ano, a elite do PSD madeirense, no poder há quase 50 anos, revelou, em todo este transe, uma notória falta de capacidade de renovação do pessoal político, não obstante os esforços do adversário interno de Albuquerque, Manuel António Correia, o que faz da figura que sucedeu no poder a Alberto João Jardim o senhor quase incontestado dos “laranjinhas” para mais um ato eleitoral. Paradoxalmente, porém, ele é também o principal obstáculo ao regresso da estabilidade perdida, visto que o seu nome é rejeitado, por (quase) toda a oposição, como interlocutor válido para futuros entendimentos. Esta circunstância parece ter levado a política madeirense a um beco sem saída, o que, aparentemente, só é possível evitar mediante a remoção de Albuquerque da liderança social-democrata ou, lá está, através do regresso à maioria absoluta que, durante 40 anos, presidiu aos destinos do arquipélago.

A falta de renovação de que parece sofrer o PSD, afeta, também, os partidos que se apresentam a disputar-lhe o poder. É difícil perceber o que é que mudou para que o líder do PS, Paulo Cafofo, pretenda reverter o resultado medíocre obtido há apenas dez meses, em maio de 2024; ou como é que em apenas 10 meses acha que conseguiu convencer o eleitorado a mudar o sentido de voto – sendo que nada de significativo se alterou no panorama político da Madeira. O 3.º partido, o regionalista JPP (Juntos Pelo Povo), de Élvio Sousa – uma dissidência do PS… –, que apresenta as mesmas caras das duas eleições anteriores, parece ter, também, atingido o seu limite de crescimento. A citada sondagem da Intercampus, aliás, apresenta uma previsão de descida destes dois partidos, os únicos que, numa eventual “geringonça”, teriam possibilidades da “varrer Albuquerque da Quinta Vigia”, como proclamou, esta semana, Élvio Sousa. Ora, estas são as terceiras eleições em apenas um ano e meio e os observadores locais não vislumbram como, em tão pouco tempo, o eleitorado tenha mudado assim tanto de opinião, de forma a dar, agora, um mandato sólido a qualquer um dos chalengers. Pode acrescentar-se que isso também é válido para Miguel Albuquerque: porque lhe daria agora o eleitorado, depois de dez meses de ainda mais desgaste, uma maioria inequívoca? Ainda assim, como se diria no futebol (e esta sondagem confirma…), o PSD Madeira está mais perto de “marcar o segundo golo do que de sofrer o empate”… O próprio Chega, que apostou muito nas eleições anteriores, parece algo desmotivado – e nesta única sondagem conhecida também não arranca. O líder local, Miguel Castro, foi o principal responsável pela queda do Governo (tendo o PS, de forma polémica, ido a reboque, “demitindo-se”, assim, do seu papel de liderança da oposição…) e arrisca-se a sofrer uma punição eleitoral por isso. Senão através da transferência de votos para outros partidos, ao menos, na não obtenção de novos eleitores. É curioso que André Ventura, que praticamente não saiu da Madeira, nas duas campanhas anteriores, tenha tido, desta vez, uma atuação discreta, demasiado ocupado com coisas “mais importantes”, como as entrevistas diárias a todos os canais nacionais de televisão.

As várias “bombas”

O cansaço dos madeirenses, que, nesta reta final da campanha, tem sido explorado por Miguel Albuquerque, pode explicar esta perspetiva de vitória clara, a melhor notícia, para o PSD Madeira, desde outubro de 2023. Pressentindo o sentimento popular, Albuquerque tem carregado na tecla da perplexidade do povo: “Os madeirenses não percebem porque é que o Governo foi derrubado.”

Seja como for, o PS está a apostar tudo no apelo ao voto útil. Cafofo talvez tenha retratado bem a situação ao afirmar que “Miguel Albuquerque é uma bomba-relógio”. Isto em alusão ao processo judicial que continua a ser conduzido pelo Ministério Público e que terá, mais tarde ou mais cedo, o seu desfecho, ou seja, mesmo que obtenha maioria absoluta, Albuquerque pode ver ser posta em causa a sua continuidade, caso venha a ser acusado (o que, diga-se, ninguém garante que venha mesmo a acontecer).

Por falar em “bombas”, a capacidade constitucional do Presidente da República para fazer detonar a “bomba atómica” da dissolução do Parlamento regional esgota-se em setembro. Mas, tal como em termos nacionais, não se esgota a possibilidade da nomeação de um novo Presidente Regional, caso a primeira “bomba” expluda na Quinta Vigia. As possibilidades de entendimento do PSD Madeira com outros partidos, para chegar ao número de 24 deputados – o mínimo para garantir maioria absoluta – parece esgotada, com a possível exceção do CDS, cujo deputado – a sondagem confirma-o – poderá manter e que pode ser decisivo. Seja como for, o nome de Miguel Albuquerque parece ser o principal obstáculo a outro tipo de entendimentos, seja com a IL seja com o Chega – embora, do Chega, se possa esperar tudo. Uma nova maioria relativa do PSD, na Madeira, pode manter a governação do território completamente bloqueada e, neste caso, só mesmo o próprio PSD Madeira poderá desbloqueá-la, mediante a indicação de um segundo nome para assumir o Governo Regional. Uma hipótese pouco explorada, publicamente, mas que há vários meses tem sido alvitrada, em surdina, no interior das hostes “laranja”. O laboratório político madeirense continua, assim, a fazer as suas experiências. Qual será a próxima descoberta?

Um ano cheio

Estes são os principais picos políticos dos próximos tempos

23 de março
Eleições regionais antecipadas. Sairá a Região Autónoma do impasse?

18 de maio
Eleições legislativas antecipadas. O País entre a clarificação e a indefinição.

Setembro ou outubro
Eleições autárquicas. As batalhas de Lisboa e Porto são as mais importantes. Desafios difíceis para a CDU (manter relevância local) e para o Chega: terá quadros autárquicos?

Até 10 de outubro
Apresentação do Orçamento do Estado para 2026. Votação na generalidade até final do mês

21 de novembro
Data provável da votação final (na especialidade) do Orçamento do Estado para 2026

22 de janeiro de 2026
Eleições para a Presidência da República

9 de março
Tomada de posse do novo Presidente da República

“Amanhã [este domingo] o Papa regressará à casa de Santa Marta”, onde reside o pontífice de 88 anos no Vaticano, declarou no sábado Sergio Alfieri, em conferência de imprensa no Hospital Gemelli.

Alfieri, um dos médicos que o acompanhou no período de internamento, anunciou a alta, sublinhando que o Papa Francisco deverá continuar a tomar medicação oral e que terá de passar por “uma longa convalescença” de pelo menos dois meses.

O líder católico foi internado a 14 de fevereiro, com problemas respiratórios, tendo passado por vários períodos críticos, com necessidade de um alto fluxo de oxigénio e ventilação mecânica.

As matrículas para o próximo ano letivo começam a 22 de abril para o pré-escolar e primeiro ano do ensino básico e terminam a 22 de julho, com o ensino secundário.

Segundo o despacho publicado na sexta-feira em Diário da República, o período normal de matrículas e renovações começa “entre 22 de abril e 31 de maio, para a educação pré-escolar e para o 1.º ano do ensino básico”, seguindo-se os 6.º, 7.º, 8.º, 9.º e 11.º anos de escolaridade, entre 16 de junho e 27 de junho.

Entre 1 de julho e 11 de julho é a vez dos 2.º, 3.º, 4.º e 5.º anos do ensino básico e entre 15 de julho e 22 de julho, dos 10.º e 12.º anos do ensino secundário.

Em comunicado, o Ministério da Educação esclarece que “o pedido de renovação de matrícula só deve ser efetuado em caso de transferência de estabelecimento, transição de ciclo, alteração de encarregado de educação ou quando esteja dependente de opção curricular, sendo que todas as restantes renovações são realizadas automaticamente”.

O despacho “aplica-se aos estabelecimentos de ensino da rede pública, às escolas do ensino particular e cooperativo com contrato de associação, bem como às escolas profissionais privadas com financiamento público”.

O futuro tem tendência para envelhecer mal. Expliquemo-nos: nada há de mais anacrónico e risível do que vermos antigas profecias que tentavam adivinhar, mesmo prever, os dias vindouros e não só falham rotundamente como nos fazem sorrir na sua ingenuidade ou nos seus traços que, praticamente sempre, falam mais das preocupações e referências do seu tempo do que do insondável porvir.

No extraordinário século XIX não terá havido ninguém que se tenha dedicado mais, ao longo da vida, a imaginar o futuro de forma tão continuada, pública e obsessiva. Falamos do francês Júlio Verne, desaparecido há 120 anos, a 24 de março de 1905, aos 77 anos. Mas não é exatamente por ter sido um profeta visionário, um certeiro adivinho barbudo, que o seu nome sobrevive tantos anos depois. Fascinado com os avanços tecnológicos e científicos do seu tempo, Júlio Verne refletiu bem o século em que viveu e deu-lhe uma forma literária única, que nos faz facilmente olhar para o seu nome como um pai, ou avô, da ficção científica, esse género fantástico e cheio de potencialidades que tanto se desenvolveu ao longo do século XX e chegou ainda entusiasmante ao XXI. No meio de tantas maquinetas, mecanismos e profecias, é fácil encontrar elementos que ecoam no presente e nos anos que se seguiram à sua morte, mas é ainda mais fácil perceber que ele foi só mais um a espalhar-se ao comprido tentando, com seriedade, prever realidades.

Mundo quotidiano e mágico Júlio Verne e a mulher, na fase final das suas vidas, em 1900. O imaginário do escritor, presente nas centenas de ilustrações que acompanharam os seus textos, marcaria os anos que aí vinham

Um exemplo? Com o fascínio e o entusiasmo provocados pelo dealbar do século XX, alguém teve a boa ideia de encomendar a Júlio Verne, já um vetusto escritor de barbas brancas, um texto perspetivando as décadas que aí vinham. Essa prosa seria, mesmo, publicada em Portugal na novíssima revista Magazine Bertrand, em 1904. Centrando-se na temática dos transportes e na facilidade e na rapidez das viagens do futuro, o escritor prevê: “É fácil ver que a construção de caminhos de ferro vai tomar rapidamente um desenvolvimento colossal, que transformará a face da Terra.” E imagina mesmo como certo um enorme túnel sob o Atlântico: “Há já quem se proponha abrir um túnel entre Nova Iorque e Brest. Calcula-se que a obra seja realizável em 30 anos, uma vez que se encontre financiamento para ela. É um axioma que o dinheiro não constitui obstáculo quando se impõe a necessidade de uma obra, e os engenheiros do futuro reduzirão facilmente os 30 anos a dois terços desse tempo”, escrevia. Curiosamente, o desenvolvimento da aviação civil e a banalização do transporte aéreo ficavam praticamente de fora destas previsões. Nesse campo, Júlio Verne fantasiava, ainda, com a utilidade dos balões e sonhava com um par de asas individuais: “O balão não substituirá o caminho de ferro. Mas servirá para muitas coisas; por exemplo, para transportar os passageiros australianos que queiram tomar a linha férrea nas estações terminais de Singapura e de Bombaim (…) Em compensação, está reservado um grande futuro às máquinas voadoras. Pela minha parte, abrigo a persuasão de que virá o dia em que será tão vulgar ter em casa um par de asas como é agora possuir uma bicicleta.”

Ficções Mesmo quando fantasiava com criaturas míticas, a ciência era um alicerce seguro nas suas narrativas

Já quando era muito mais jovem, logo a seguir a publicar o seu primeiro sucesso literário, Cinco Semanas em Balão, com o editor que mudou a sua vida, Pierre-Jules Hetzel, não hesitou em tentar adivinhações certeiras. Apresentou-lhe, em 1863, um livro que tinha escrito anos antes, com um título muito direto e aparentemente comercial: Paris no Século XX. Recusado pelo editor, que tinha ficado entusiasmado com o carácter aventureiro e positivo do livro que fantasiava uma viagem de balão sobre o continente africano e não queria publicar algo com um teor mais pessimista e negativo, esse texto só seria publicado em 1994, muitos anos depois da morte de Júlio Verne. Aí, imaginava-se uma sociedade muito tecnocrata, mais focada no lucro e na eficiência do que no conhecimento e nas artes, que são praticamente desprezadas, com as pessoas cada vez mais isoladas em grandes edifícios envidraçados, enquanto se movimentavam em carros a hidrogénio ou rapidíssimos comboios movidos a ar comprimido.

Uma influência americana

Se não é pelas suas capacidades mágicas de prever o futuro, qual Nostradamus, porque é que, 120 anos depois da sua morte, Júlio Verne continua a ser um nome presente e ainda fácil de encontrar em prateleiras de livrarias mais obcecadas com novidades? Por que razões continuamos a lê-lo e a ver a sua obra adaptada em filmes e séries? A resposta só pode estar no seu talento de escritor e contador de histórias que sobrevivem. E, no entanto, ele próprio tinha consciência de que não era visto, e provavelmente nunca seria, como um grande escritor, um nome maior da literatura do seu país. Em entrevista a um jornalista americano, Robert H. Sherard, em 1894, com a sua celebridade já bem estabelecida internacionalmente, diria: “O grande desgosto da minha vida é que nunca contei para a literatura francesa.”

Cinco livros

Nem só de ficção científica avant la lettre se fez a obra literária de Júlio Verne, autor incansável de milhares de páginas. À sua maneira, todos estes títulos foram marcantes no seu percurso

Vinte Mil Léguas Submarinas 1869
Talvez a obra que mais fez pelo imaginário visual ligado ao mundo literário de Verne, um pouco por todo o mundo. Isso deve-se, sobretudo, ao extraordinário Nautilus, o supersubmarino comandado pelo capitão Nemo. Como muitos outros dos romances do escritor, foi primeiro publicado em folhetins periódicos.

Cinco Semanas em Balão 1863
O início de tudo, numa narrativa que já dava pistas para o manancial de aventuras que se seguiriam. Cinco Semanas em Balão é a primeira obra a resultar da profícua relação com o editor Pierre-Jules Hetzel e conta a história de três ingleses que sobrevoam África, de Zanzibar à costa atlântica no Senegal, num extraordinário balão chamado Victoria.

A Volta ao Mundo em 80 Dias 1872
A obra mais célebre do escritor e que, aos 44 anos, lhe deu fama internacional. As aventuras do gentleman Phileas Fogg apaixonaram o mundo. Prova disso foram as sessões esgotadas da sua adaptação teatral em Paris e em Nova Iorque, e o facto de duas jornalistas norte-americanas terem tentado cumprir o desafio do título do livro.

Miguel Strogoff 1876
A aventura deste mensageiro do Czar é uma referência quando se pensa em romances passados na Rússia – todo um manancial literário. Apesar de ter partido da mesma lógica da parceria com o editor Hetzel (foi publicado em folhetins na revista Magasin d’Éducation et de Récréation), distingue-se por ser menos centrado nas Ciências e mais na História.

Mistress Branican 1891
Foi preciso esperar por 1891, depois da invenção de muitas aventuras em todo o planeta, para Júlio Verne criar uma protagonista feminina num dos seus livros. A jovem viúva Branican não hesita em partir numa complexa e arriscada busca pelo seu marido que a leva à Austrália. A inspiração de Verne foi um caso real das buscas da viúva de um explorador inglês, John Franklin.

Esse aparente paradoxo, que foi atravessando as décadas até aos nossos dias, de ser o autor francês mais traduzido no mundo, suscitando interesse em muitos tipos de leitores, mas sem nunca ser equiparado aos grandes nomes da literatura francesa, como Balzac, Zola, Stendhal, o seu ídolo Victor Hugo ou Baudelaire, pode ter uma explicação simples. E ela prende-se com o modo como a sua carreira literária descolou, ao conhecer, em 1862, o já citado editor Pierre-Jules Hetzel, então uma figura já bem estabelecida. Entusiasmado com o talento de Júlio Verne, ele criou mesmo uma revista literária e de divulgação científica para publicar os seus textos: Magasin d’Éducation et de Récréation (algo como “revista de educação e divertimento”), com objetivos didáticos e a pensar, sobretudo, num público juvenil. Quase todos os célebres romances de Júlio Verne foram publicados, periodicamente, em folhetins nessas páginas e só depois chegaram às livrarias num só volume (nalguns casos, em dois). A coleção que englobava todas as aventuras criadas por Verne e publicadas por Hetzel chamava-se Voyages Extraordinaires (Viagens Extraordinárias) e almejava sempre ter um grande contributo educativo, sobretudo na área da geografia. Ou seja, a obra de Júlio Verne foi sendo vista, muitas vezes, como mais próxima da literatura infanto-juvenil, e várias adaptações ao longo do século XX em banda desenhada ainda contribuíram mais para esse facto. Mas a verdade é que Verne foi muito mais do que isso e foi, mesmo, ao longo da História, recolhendo bastantes elogios dos seus pares. A pesquisa científica que fazia antes de se atirar a um novo romance era séria e intensa e gostava de cultivar o seu próprio estilo, aprendendo algo com as suas primeiras experiências como autor de peças de teatro. O facto de os textos saírem em fragmentos obrigava-o a criar motivos de interesse e de suspense a cada capítulo, contribuindo para uma leitura rápida e voraz do resultado final. E se Victor Hugo e Alexandre Dumas eram grandes referências na língua francesa, com quem não ousava comparar-se, um autor norte-americano seduziu-o, e influenciou-o, pelo seu estilo: Edgar Allen Poe (1809-1849), que terá conhecido pelas traduções que Baudelaire fez para francês da obra do autor d’O Corvo, muito mais apreciado, na altura, na Europa do que nos EUA. 

Viajante, mas pouco

Mas como tudo começou? O cenário que rodeou a infância de Júlio propiciava facilmente o lado sonhador com grandes viagens, aguçando a curiosidade sobre mundos longínquos. Nascido em Nantes a 8 de fevereiro de 1928, foi o primeiro filho de Pierre-Gabriel Verne, advogado, e da sua esposa, Sophie. Paul, irmão de quem Júlio foi sempre próximo, nasceria um ano depois, e seguiram-se três irmãs: Anna, Mathilde e Marie. A família vivia bem no centro da cidade, na ilha Feydeau, no meio do rio Loire, então com muitos cais frequentados por grandes embarcações. “Vivi dentro do movimento marítimo de uma grande cidade comercial, ponto de partida e de chegada de muitas viagens de longo curso”, escreveria.

Mas a sua primeira grande viagem, mais no sentido simbólico do que geográfico, foi na direção de Paris, aos 20 anos, onde, depois de dois desgostos de amor, decidiu ir acabar o curso de Direito, agradando ao pai, mas já sabendo que não queria seguir-lhe as pisadas. Quando termina os estudos de leis, em 1951, não regressa a Nantes nem, para desilusão do progenitor, procura trabalho nessa área em Paris… O mundo dos salões literários e do teatro é muito mais sedutor. Avança por aí, temerário. A sua peça Les Pailles Rompues estreia-se no teatro que pertencia a Alexandre Dumas (pai) e Júlio torna-se amigo de Alexandre Dumas (filho). Arriscará ainda, sem grande sucesso, a escrita uma opereta. Os estudiosos da sua obra afirmam que este início na dramaturgia, já ambientada no espírito de vaudeville, lhe foi muito útil na escrita de diálogos e nas tramas das suas “viagens extraordinárias”. Escreveu, por essa altura, as primeiras novelas breves, Martin Paz e Un Voyage en Ballon.

Celebridade Júlio Verne foi muito popular na sua época. Escreveu mais de 60 romances, muitos deles rapidamente traduzidos noutras línguas

Uma personagem que encontrou por essa altura em Paris, e com quem conviveu bastante, foi fundamental para o colocar nos carris da glória literária baseada no fascínio com as viagens. Jacques Arago (1790-1854) já estava cego quando Júlio Verne o conheceu, mas isso não o impedia de ser um excelente contador da sua vida aventurosa de explorador, escritor, dramaturgo e ilustrador, que aos 27 anos embarcou numa viagem de circum-navegação (num barco chamado Uranie) que acabaria em naufrágio. O jovem Verne sonhava alto: com o mundo desconhecido, a glória literária e… um casamento. Olhando para a sua biografia, percebe-se sempre uma tensão entre o apelo de aventura e a tendência para uma pacata vida de burguês, cheia de rotinas quotidianas obrigatórias. Este lado prevaleceu e, depois de se casar, em 1857, com uma jovem viúva de 26 anos, Honorine Devianne, sentiu que tinha os alicerces certos para a sua vida de escritor. Apesar de ter escrito sobre os quatro cantos do mundo (era mesmo esse o contrato com o seu editor), Júlio Verne não foi um grande aventureiro, sempre em busca da próxima viagem aos confins de um deserto, de uma floresta ou de uma cidade longínqua. Viajou, é certo, e o que foi ganhando com a escrita permitiu-lhe comprar três barcos (todos com o mesmo nome, em homenagem ao filho: Saint-Michel I, II e III, este último com 31 metros de comprimento, o que lhe permitiu ir até à costa espanhola, ao Magrebe e a Inglaterra, para grande incómodo da mulher, que detestava navegar): foi até à Escócia, à Escandinávia e, com o irmão Paul, em 1867, aos Estados Unidos.

Um dos episódios mais dramáticos da sua vida impediu-o mesmo, a partir de 1886, de pensar em viajar. Nesse ano, a 9 de março, recebeu em Amiens, para onde se tinha mudado com a esposa já em 1871, a visita do sobrinho Gaston, então com 26 anos, filho de Paul, que muito admirava o tio. No que foi descrito, na altura, como um golpe súbito de loucura, Gaston disparou dois tiros de revólver e com um deles feriu Júlio Verne no pé esquerdo, provocando um ferimento que iria afetá-lo profundamente no resto da vida. O sobrinho seria internado numa instituição psiquiátrica e Paul Verne diria que o que o seu filho tinha querido era atrair a atenção da sociedade para Júlio Verne para que ele pudesse entrar na prestigiada Academia Francesa…Não foi esse o único episódio traumatizante com a segunda geração dos Verne. A relação de Júlio com o filho Michel foi, também, para dizer o mínimo, muito atribulada. O pai considerava-o “insuportável” e “sem regras” e não hesitou, quando ele tinha 15 anos, em enviá-lo para uma instituição penitenciária; quando daí saiu, Michel foi enviado pelo pai numa viagem de barco para Calcutá com a duração prevista de 18 meses… Surpreendentemente, Michel, já adulto, e também com ambições literárias, conseguiu reaproximar-se do pai e depois da morte deste, em 1905, publicou (e completou…) manuscritos de Júlio Verne que tinham ficado inéditos. Para a relação difícil de pai e filho contribuiu, certamente, a disciplina férrea a que o escritor francês se obrigava para cumprir o contrato assinado com Hetzel em 1865 e que implicava a publicação de três aventuras/romances por ano. De alguma forma, Hetzel e Verne, editor e autor, como uma dupla, criaram uma fórmula vencedora que chegou até aos dias de hoje. No século do positivismo e da crença quase infinita no potencial da tecnologia aliada à racionalidade, juntaram as grandes descobertas e pesquisas científicas a enredos aventurosos e escritos com agilidade e realismo, passados nos cinco continentes, estimulando e alimentando a curiosidade dos leitores. Gerações após gerações, em todo o mundo, foram sucumbindo a esse fascínio. Hoje, lendo muitas das obras de Júlio Verne, talvez invejemos, sobretudo, essa velha confiança inabalável num mundo melhor, apoiado na ciência, na tecnologia e na razão humana.

Verne Gyula, o “húngaro”

História caricata, com epicentro na Hungria, de um escritor que viu o seu nome traduzido em várias línguas (incluindo a portuguesa)

Com os autores e filósofos da(s) Antiguidades(s), o fenómeno é comum. Conhecemo-los por um nome português e noutras línguas têm outras nomeações: Sócrates, Horácio, Ovídio e tantos outros… Mas em escritores celebrizados a partir da modernidade isso já não é tão comum. Certo é que Júlio Verne afirmou-se assim mesmo, Júlio, nas edições portuguesas para jovens e adultos (hoje já há capas que optam pelo Jules original). Na Hungria, onde a adaptação incluiu a inversão dos nomes, como lá é habitual, o autor de Viagem ao Centro da Terra foi sempre Verne Gyula. Somando a isso o facto de em muitas edições não haver menção a nenhum tradutor, e de a sua popularidade ser sobretudo grande entre os leitores mais jovens, espalhou–se na sociedade húngara a convicção natural de que este Gyula era um autor local – pois se até tinha escrito várias vezes sobre o rio Danúbio e chamou a um dos seus livros e heróis Sándor Mátyás (tradução do romance Mathias Sandorf, de 1885)… Durante os anos do poder comunista e da cortina de ferro, quando muitos autores ocidentais estavam proscritos no país, as aventuras de Verne Gyula continuavam a ser muito populares e permitidas (com algumas alterações…). Várias gerações de húngaros foram descobrindo, a dado momento, que este Gyula não era um herói nacional, mas sim um francês. E, se calhar, ainda há quem por lá viva nessa ilusão… Podia ser um excelente ponto de partida para uma novela.

Cinco Filmes

São muitas as adaptações, mais ou menos livres, de obras de Júlio Verne para cinema e televisão. O seu imaginário é praticamente inesgotável e muito sedutor, num mundo cheio de ecrãs

Viagem à Lua 1902
Esta pérola de George Méliès, 14 minutos fantásticos produzidos num momento em que o cinema ainda procurava a sua identidade e todo o seu potencial, baseava-se tanto na novela Da Terra à Lua (1865), de Verne, como em The First Men in the Moon (1901), de H. G. Wells.

20.000 Léguas Submarinas 1954
Para muitos, este filme da Disney, realizado por Richard Fleischer, é a melhor adaptação de um texto de Júlio Verne ao cinema. James Mason (como Capitão Nemo), Kirk Douglas e Paul Lukas são os protagonistas deste filme, que venceu dois Oscars, nas categorias de efeitos especiais e direção de arte.

A Volta ao Mundo em 80 Dias 1956
Uma das mais bem sucedidas adaptações de sempre de um livro de Júlio Verne. Com David Niven, Cantinflas e Shirley MacLaine nos principais papéis, este filme realizado por Michael Anderson seria o grande vencedor na cerimónia dos Oscars de 1957, conquistando cinco estatuetas douradas (incluindo o triunfo como Melhor Filme).

Nádia e os Mistérios do Mar 1990/91
Há vários exemplos de séries e filmes de animação baseados em Júlio Verne. Esta série japonesa de 39 episódios foi uma das mais populares e mostra como o escritor francês a tornou universal. Nádia e os Mistérios do Mar partiu de um projeto do lendário Hayao Miyazaki  e inspirou-se nas 20.000 Léguas Submarinas.

Viagem ao Centro da Terra 3D, 2008
Os avanços tecnológicos abrem sempre novas perspetivas nas adaptações cinematográficas de mundos oníricos e textos de ficção científica. Com um argumento muito livre, este filme norte-americano tentou tirar partido da tecnologia 3D, apostando num filme de aventuras, com o imaginário de Verne, para os jovens do século XXI.

A aclamação de Tudo o que Imaginamos como Luz, de Payal Kapadia, parece estar a levar os circuitos independentes de cinema a dar maior atenção a uma nova geração de cineastas indianos que trabalha à margem de Bollywood (que continua a ser a maior indústria de cinema do mundo).

Apesar de ter em comum a atriz Kani Kusruti, estrela do cinema indiano independente, Girls Will Be Girls segue por caminhos estéticos, narrativos e contextuais radicalmente diferentes da obra-prima de Kapadia.

Na sua primeira longa-metragem, Shuchi Talati, que estudou numa escola americana de cinema, centra a ação num colégio interno, de pedagogia e moralidade conservadoras, que recebe os filhos de uma elite indiana. Encontram-se no contexto afinidades naturais com François Truffaut (Os Quatrocentos Golpes) ou António Campos (Afterschool).

Girls Will Be Girls é um filme sobre o crescimento e a descoberta da sexualidade, num ambiente particularmente conservador e inibidor. É esse ambiente que dá ao filme uma aparente carga de inocência pueril que não seria possível em comunidades mais progressistas. Naquele colégio interno tudo é proibido e presidem preceitos morais: as raparigas são aconselhadas a manter a dobra da saia abaixo do joelho e a evitar falar demasiado com rapazes.

Neste contexto, Mira, uma aluna exemplar, apaixona-se timidamente por um novo colega. O controlo social é elevado, mas a sua mãe, com quem tem uma relação turbulenta, acolhe o rapaz, tornando-se este frequentador habitual da casa – ainda que tal vá contra as normas da escola. A par da quase inocente descoberta da sexualidade, o filme ganha com a relação ambígua que se estabelece entre o rapaz e a mãe dela, com movimentos que ultrapassam meras insinuações. Isso, de alguma forma, sugere uma sexualidade reprimida do lado da própria mãe, mas também um outro tipo de controlo sobre a filha.

Girls Will Be Girls encena uma batalha moral, cheia de perigos, ilusões e desilusões, filmada com tal sobriedade e segurança que até custa a crer que seja uma realizadora estreante nas longas-metragens. Não segue o deslumbre fotográfico de Kapadia, mas compensa com toda essa segurança e um elenco de inegável qualidade.

Girls Will Be Girls > De Shuchi Talati, com  Preeti Panigrahi, Kani Kusruti, Kesav Binoy Kiron > 118 min

No início dos anos 90, parecia encontrada a fórmula ideal para uma organização social próspera e satisfatória. Juntava a paz, a democracia e o capitalismo numa combinação tão promissora que o politólogo Francis Fukuyama chamou-lhe mesmo o “fim da História”.

Duas décadas depois, ficou claro que este casamento feliz não duraria para sempre ou, pelo menos, passaria por crises intensas. A ideia de fim da História era, mais do que otimista, um tiro ao lado.

A emoção do ressentimento, uma certa ideia de frustração e de deceção com as respostas que o sistema capitalista democrático entregou a grande parte das populações, catapultou uma crescente exigência de dignidade. Sendo um combustível poderoso, com impactos profundos na nossa sociedade e na nossa vida pública, estava aqui encontrado um filão aproveitado por muitos, que procuraram ser os porta-vozes deste descontentamento.

No programa Anatomia do Ressentimento, emitido na Antena 1 e disponível nas plataformas de podcast habituais, procurou-se “dissecar” esta emoção que perpassa pelas sociedades, e tentar perceber melhor as suas causas e os efeitos psicológicos, sociais e políticos. No final de cada episódio, os 26 convidados – com formações, experiências e ocupações muito distintas – deixaram ideias singelas para combater o ressentimento. Aqui estão elas.

1 André Teodósio
Ator, escritor e encenador
“Gosto pelo desconhecido”
“A minha sugestão é saber ter surpresa sobre o desconhecido, uma pessoa desconhecida, uma obra de arte desconhecida, filtrando informações válidas sobre aquilo que estamos a pensar e sobre aquilo que estamos a ver. Cultivar o gosto por se deixar surpreender, não querer ter segurança em relação a esse desconhecido, deixar-se ir nesse desconhecido… seja um poema, seja um filme, seja um grupo de pessoas que está na nossa rua.”

2 Andreia Galvão
Ativista climática, estudantil e antirracista e uma porta-voz do movimento Vida Justa
“Falar mais”
“O oposto de solidão é comunidade. Neste momento, em que as pessoas atravessam tantos desafios, é sempre bom percebermos que, qualquer coisa que seja, há sempre outras pessoas a passar pelo mesmo. Seja na nossa família, seja no nosso grupo de amigos, sejam as pessoas que encontramos na política ou no trabalho. Penso que precisamos de falar mais e de olhar um bocadinho mais pelas pessoas que estão à nossa volta.”

3 António Araújo
Historiador e diretor de publicações da Fundação Francisco Manuel dos Santos
“Ler mais”
“Promover a leitura e promover também a Ciência e a divulgação de factos objetivos, de informação. As forças extremistas, de um lado ou do outro, gostam muito de se enredar nestas questões de guerras culturais, que já pertencem um bocadinho ao mundo de ontem. Ler livros, ler jornais, é uma forma de as pessoas começarem a perceber um pouco o mundo em que vivem.”

4 António Brito Guterres
Assistente social e especialista em estudos urbanos
“Melhores serviços para todos”
“Melhores políticas públicas para todos. Melhores serviços para todos. Porque nos últimos anos, desde a austeridade, isto também tem contribuído para criar tensão entre grupos e tem fortalecido a questão do outro. A infelicidade geral de nós todos tem contribuído para nos dividirmos. Quanto melhor estivermos todos, mais disponíveis estamos também para que cheguem outros, e para considerar coletivamente todos.”

5 António Costa Pinto
Politólogo e Professor convidado no ISCTE
“Devolução de bens sociais”
“Combater o ressentimento passa fundamentalmente por dois aspetos. Ao Estado, voltar num certo sentido à sociedade e à devolução de bens sociais. Aos partidos políticos, exatamente o mesmo.”

6 Bernardo Pires de Lima
Especialista em relações internacionais e ciência política e conselheiro político do Presidente do Conselho Europeu
“Mais fazedores”
“Um programa praticável pelos líderes políticos responsáveis e maduros e moderados, de grande empatia com os cidadãos, ou seja, mais presença no terreno, serem mais ouvintes, serem mais fazedores do que faladores, terem uma noção de que há zonas do território nacional, europeu, por visitar. Há partes incríveis da Europa esquecida que têm um ressentimento próprio que vai acumulando e que depois se expressa muitas vezes em movimentos e partidos que querem outra coisa: destruir a convivência social e o saudável debate democrático. Sugeria que se regressasse ao terreno com uma mensagem de esperança com as pessoas, associando-se sempre a uma grande eficácia das políticas públicas, que precisam de monitorização, valorização e grande critério na sua aplicação.”

7 Catarina Reis de Oliveira
Professora auxiliar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa e especialista em migrações
“No lugar do outro”
“É colocarmo-nos no lugar do outro. Portugal é um país de emigração. Bastava recordar a nossa experiência como emigrantes para pensar nos imigrantes que hoje recebemos.”

8 Dulce Maria Cardoso
Escritora
“Rendimento básico incondicional”
“Sou há muito tempo defensora do rendimento básico incondicional, porque acho que todos nascemos com as mesmas necessidades, mas nem todos nascemos com as mesmas capacidades. Uma coisa sabemos: o trabalho, o bom trabalho, o trabalho que paga, que remunera dignamente está a escassear, e portanto, como acredito que todos nós temos direito a uma vida digna, creio que isso poderia ajudar a uma sociedade mais justa.”

9 Filipe Duarte Santos
Docente na Universidade de Lisboa, e especialista em ambiente e alterações climáticas
“Temperar com o tempo”
“O ressentimento é uma coisa emotiva. E nós temos essas duas componentes, não é? A da emoção e a componente mais racional, mais calma, mais ponderada. O ressentimento tem a sua função, mas penso que temos de temperar isso com tempo. Sempre o tempo.”

10 Gustavo Cardoso
Professor de Ciências da Comunicação no ISCTE, investigador no CIES e diretor do Obercom
“Encontrar ponto de contacto”
“Em termos de lógica civilizacional, nós devíamos, pelo menos uma vez por semana, tentar encontrar algum ponto negocial possível com alguém de quem discordamos. Isto é válido para o que se passa dentro de casa, no trabalho, seja na universidade ou numa empresa… Tentar encontrar um ponto de contacto para iniciar qualquer tipo de negociação e não viver num mundo em que nos sentimos obrigados àquilo que o Umberto Eco chamava de divérbio – a ideia de que não é um debate, nem discussão, é uma coisa intermédia, ou seja, aquilo que nós vemos na televisão e que acaba por marcar o nosso dia a dia.”

11 Gustavo Jesus
Psiquiatra
“Melhorar a literacia emocional”
“O nosso cérebro está programado para identificar injustiça, para identificar diferenças, porque o meu grupo vai estar prejudicado versus outros. Portanto, há vieses cognitivos que geram emoções de ressentimento, entre outras. Portanto, se eu pudesse tomar uma medida, seria melhorar a literacia emocional e, sobretudo, dar estratégias de gestão emocional, gestão de conflitos, gestão daquilo que o nosso cérebro produz e que toma conta de nós, que são as emoções. A maior parte das pessoas não percebe que as emoções estão a tomar conta delas e não percebe que os vieses com que analisam a realidade vão influenciar grandemente o seu comportamento, mas que, olhadas de fora, aparentemente há ali algumas incongruências na narrativa, por exemplo. Era muito importante educar as crianças, os jovens e os adultos com estratégias de gestão emocional, identificação de vieses cognitivos, de vieses na perceção das injustiças, porque isso, certamente, mesmo que o mundo fosse imperfeito, iria mitigar a sensação de ressentimento e as suas consequências.”

12 Jaime Nogueira Pinto
Politólogo e historiador
“Discurso menos hipócrita”
“O ressentimento tem muitas vezes uma base real entre as profundíssimas desigualdades que as nossas sociedades geram, e, ao mesmo tempo, o discurso completamente igualitário e de certo modo hipócrita das elites. Se o discurso fosse menos hipócrita e as políticas fossem mais verdadeiramente integradoras, portanto corrigindo exatamente aspetos de solidariedade nacional, de justiça tributária, se houvesse esse esforço da parte dos de cima… poderia também haver um esforço da parte dos de baixo para também olharem para aquilo que é positivo. Ou as elites se automudam ou são substituídas por outras elites – esse é o problema.”

13 Joana Guerra Tadeu
Ambientalista e comunicadora
“Voltar ao coletivo”
“Organização popular. Acho que nós temos de voltar à rua, ao coletivo, a conhecer os nossos vizinhos e conhecer as pessoas que têm as mesmas preocupações que nós e unirmo-nos a elas, tanto do ponto de vista emocional como do ponto de vista mais racional. Seja nas lutas seja depois, também, no processamento destas emoções, que são todas elas muito válidas. Lutar sozinhos é o mesmo que não estarmos a lutar, porque ninguém aguenta – cansamo-nos, temos vidas difíceis, a vida é dura, está caro viver, viver é cansativo. Temos de conseguir recapturar este sentido de solidariedade com o próximo e isso só se faz se nos juntarmos em coletivo, em espaços de diálogo, em que nós podemos questionar as coisas sem medo, em espaços de entendimento. Ao resgatar estes valores comunitários e lutarmos por estas mudanças em conjunto, vamos conseguir também fazer esta redistribuição do poder, do poder de decisão e do poder da ação. Já percebemos que infelizmente tudo nos está a levar para este abismo climático e outros, e podemos redistribuir esse poder e essas ações por todos – aí, sim, conseguiremos chegar a uma sociedade que deixe menos ressentimentos aos próximos.”

14 João Cancela
Cientista político e professor auxiliar de Ciência Política na nova FCSH
“Mudar a democracia”
“A minha ideia para combater o ressentimento passa pelo diagnóstico de que a democracia não é muito divertida. Fica difícil defender ativamente a democracia, quando ela pode parecer chata e repetitiva e pouco capaz de trazer coisas novas. A minha sugestão, talvez seja um pouco louca, é mudar aspetos da democracia – não todos, nem os mais fundamentais –, mas permitir que novas pessoas sejam ouvidas. Os jovens, em particular. Vários países europeus têm baixado a idade do voto, e isso pode também contribuir para introduzir assuntos no discurso e no debate político que tendem a ser ignorados, sobretudo num país envelhecido como é o caso português. Podia suscitar um debate na sociedade sobre quem é que devemos ouvir e quem é que devemos dar voz, e isso, só por si, suscitaria novas conversas, o que pode ser um bom antídoto para o ressentimento.”

15 João Maria Jonet
Consultor político e comentador
“Conversas construtivas”
“Tem-me valido este raciocínio: com quantas pedras na mão é que eu estou a partir para esta conversa? Há sempre pessoas com quem nós partimos para conversar com muitas pedras na mão. Como tenho, socialmente, muitos amigos de esquerda radical e, familiarmente, muitas pessoas da direita radical, tento, quando estou a falar com elas, avaliar com quantas pedras na mão é que eu estou, e com quanta raiva, quanto ódio é que esta posição tem, e com quantas pedras na mão é que a outra pessoa está. Eu faço esta conta antes de começar a falar: estou a fazer isto porque eu quero ouvir esta pessoa, ou porque quero agora dizer que rebentei num argumento e os meus primos ouviram e foi um espetáculo…? Tentar ter conversas construtivas com quem se pode ter, com quem de quem nós gostamos, e tentar não dividir. Vê-se muito nos Estados Unidos – já há muitas famílias muito partidas por causa destes temas.”

16 João Rodrigues
Professor auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais
“Redução das desigualdades”
“Um dos problemas que marca as democracias é o sentimento de impotência política e democrática. As pessoas sentem que a mobilização social já não produz resultados económicos significativos, e esse sentimento de impotência alimenta o sentimento de injustiça. O ressentimento nos países europeus combate-se através da redução das desigualdades económicas e sociais, particularmente aquelas que têm que ver com a posição e a situação das classes trabalhadoras. É preciso voltar ao tema clássico da história do capitalismo, que é a questão social. O que nós temos de fazer é relativamente simples: assegurar pleno emprego, direitos laborais, serviços públicos de acesso universal, dar à maioria da população um sentimento de segurança económica e social. Isso torna as pessoas menos avessas à mudança. E, sobretudo, levar a sério as queixas económicas e sociais da gente comum.”

17 José Pacheco Pereira
Historiador, analista político e fundador do arquivo Ephemera
“Mais liberdade”
“É preciso combater a desigualdade, mas vou passar do sofisticado para o bruto: mais dinheiro, mais escola, o mais cedo possível, melhor escola, ou seja uma escola difícil e que não mata a curiosidade, que são as duas coisas fundamentais, mais tempo livre para aqueles que não o têm e melhores procedimentos nas democracias. E que se respire mais liberdade, contra qualquer forma de censura.”

18 José Pedro Zúquete
Politólogo e investigador principal no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
“Ir às raízes”
“Qualquer solução para combater o ressentimento tem de ir às suas raízes. Temos obrigatoriamente de falar do impacto da globalização, porque ela aumentou o sentimento em muitas pessoas de perda de controlo sobre o destino das suas vidas e das suas comunidades, quer a nível socioprofissional quer a nível cultural. A nível socioprofissional, há um aumento da precariedade, da desigualdade e do desespero ligado à perda de estatuto e dignidade.

Na base do apelo antissistema estão emoções negativas, como o ressentimento, a cólera, mas também estão emoções positivas de autoestima, ou seja, de reconhecimento das ansiedades de uma parte substancial da população. E também de emoções como a nostalgia. O sucesso das forças antissistema está também ligado a esta tentativa de recuperar a segurança existencial. Não há uma ideia mágica, mas qualquer ideia para combater o ressentimento tem de partir desta premissa.”

19 Luís Paixão Martins
Consultor de comunicação
“Ressentimento contra ressentimento”
“Vou responder na qualidade de propagandista reformado. Não estou aqui para mudar o mundo, estou aqui para perceber como é que o mundo funciona e agir em conformidade com a maneira como o mundo funciona. Vou pegar na ideia de Edward Bernays, que dizia que a única maneira de combater a propaganda é com mais propaganda ou melhor propaganda. Com o ressentimento é a mesma coisa, ou seja, se eu tiver alguma dificuldade comunicacional relacionada com o ressentimento adversário, tenho de criar uma situação para combater esse ressentimento com outro tipo de ressentimento.”

20 Pedro Adão e Silva
Sociólogo e professor auxiliar do Departamento de Ciência Política e Políticas Públicas do ISCTE
“Atrasar as aprendizagens”
“A minha sugestão é muito concreta: atrasar as aprendizagens. Acho que se gerou nas nossas sociedades a precipitação de que é preciso começar a formalizar a realidade muito cedo, aprendendo a ler, a escrever, a fazer contas. Isso não só promove a miopia, isto é, diminui a nossa capacidade de olhar para o longe e de imaginar, que é aquilo que se espera de uma criança, como cria uma desigualdade de género que está associada às fases distintas de maturação dos rapazes e das raparigas. E, mais tarde, traduz-se num ressentimento que está muito presente nos nossos dias. Acho que precisamos de pensar e parar, e, se calhar, esta ideia de ter notas muito cedo, de avaliações, formalização das aprendizagens já quase no final, antes da primária, tem resultados políticos inesperados e negativos que vale a pena olhar.”

21 Pedro Magalhães
Cientista político e investigador e coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
“Liderança política”
“Eu não estou muito interessado em combater o ressentimento. Porque o ressentimento, em muitos casos, é compreensível e é legítimo. O que eu acho que nos falta, talvez, é, por um lado, distinguir entre o ressentimento legítimo e o ressentimento baseado em coisas evidentemente falsas. Temos que nos perguntar quem é que não está a fazer o seu trabalho se as falsidades permanecem. E precisamos de alguém que mobilize o ressentimento num sentido produtivo. Sinto que falta liderança política que canalize esse ressentimento de forma construtiva.” 

22 Ricardo Paes Mamede
Economista e professor associado e diretor do Mestrado em Economia e Políticas Públicas do ISCTE
“Confiança nas instituições”
“Esta era do ressentimento não é fruto de um fator exclusivo. É fruto de uma conjugação de fatores económicos, culturais, políticos, mediáticos. E, portanto, também não acredito que seja uma medida que vá resolver esta situação e criar uma sociedade mais saudável na forma como as pessoas se relacionam e como os sistemas políticos funcionam. Há muito trabalho a fazer no combate às desigualdades, no combate à precarização da vida das pessoas, na menor instabilidade financeira, mas também há trabalho importante a fazer do ponto de vista de educação cívica, de promover informação rigorosa e também de fortalecer a confiança nas instituições. Isto pressupõe também critérios éticos elevados por parte de quem tem responsabilidades públicas e não podemos deixar de exigi-los.”

23 Rosa Monteiro
Socióloga, professora auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigadora do Centro de Estudos Sociais
“Mais justiça social”
“A minha visão é de que a democracia dá muito trabalho, exige conhecimento e coragem contra os taticismos, exige convicção, exige capacidade de implementação de políticas que nos permita recuperar a confiança nas instituições, na qualidade ou na capacidade do Estado como pilar fundamental da qualidade da democracia. E, portanto, a crença de que é possível continuar um projeto de promoção da justiça social em que os movimentos de emancipação dos indivíduos, das classes sociais, dos grupos subordinados como os movimentos feministas, antirracistas, anticoloniais, LGBTQI e outros, rompam esta ligação algo perigosa que criaram com forças de mercadorização e do capitalismo financeiro, tendo abandonado de alguma maneira a luta pela proteção social.”

24 Susana Peralta
Economista, especialista em Economia Pública e Economia Política e professora na Nova SBE
“Mais redistribuição”
“Julgo que o que é mesmo muito importante é fazer mais redistribuição, ou seja, chegar ao sítio onde o ressentimento nasce, com políticas sociais de diferentes níveis que não envolve apenas dar dinheiro às pessoas. Envolve também uma educação de qualidade, desde a mais tenra idade. E, no fundo, não deixar que as comunidades se sintam abandonadas, o que envolve políticas de proximidade que são multifatoriais e que também têm uma dimensão cultural.”

25 Vicente Valentim
Cientista político
“Focar no lado positivo”
“A minha ideia passa pela forma como se fala dos grupos sociais que convivem numa sociedade e, principalmente, da forma como se fala do outro numa sociedade. Grande parte do ressentimento que leva ao voto da direita radical, por exemplo, vem de uma perceção errada acerca dos efeitos da integração das minorias. A partir do momento em que se fazem campanhas políticas focadas naquilo em que, por exemplo, a imigração tem para oferecer, como seja o foco em diferentes tipos de trabalho, o potencial em termos de inovação, o rejuvenescimento da população, etc., acaba com muito deste ressentimento e do medo infundado que há em relação às minorias e, assim, torna as pessoas muito mais positivas em relação a elas. A minha ideia é esta: as campanhas e a retórica política devem focar-se mais nos lados positivos da integração e nos pontos em comum que os vários grupos sociais têm.”

26 Vítor Matos
Jornalista e biógrafo de André Ventura e Marcelo Rebelo de Sousa
“Dignificação de todos”
“Lembro-me do livro Tirania do Mérito, do Michael Sandel, em que basicamente ele responsabiliza o discurso dos políticos mainstream de elogiar o sucesso das pessoas que se licenciam, que sobem na vida, e a ideia de que subir na vida é que é bom, o que cria todo um exército de derrotados, que são todos os que não conseguem isso. Isto leva à ascensão dos populismos, porque estas pessoas sentem-se excluídas desse sucesso social. Tanto o PS como o PSD deviam ter um discurso não só voltado para o mérito das elites e para o elevador social, que é muito importante, mas também para a dignificação daqueles que não são reconhecidos como tendo sucesso, mas que têm vidas que são bem-sucedidas e reconhecidas, independentemente de serem doutores, médicos ou engenheiros.” 

Anatomia do Ressentimento

Nesta série da Antena 1, da autoria de Mafalda Anjos, o mote foi dissecar o fenómeno do ressentimento e mergulhar nas suas causas e nos seus efeitos sociais e políticos, com 26 convidados que ajudaram a fazer luz sobre o tema. Os 13 episódios estão disponíveis em antena1.rtp.pt e nas plataformas de podcast habituais. 

Uma nova investigação realizada por um consórcio de investigadores da University College de Dublin, no Reino Unido, sugere que a ingestão de granizados por crianças mais pequenas pode ser especialmente perigosa, pela possibilidade de provocar uma intoxicação por glicerol, um dos seus componentes. Publicado recentemente na revista Archives of Disease in Childhood, o estudo baseou-se na análise de 21 casos de crianças – com idades compreendidas entre dois e os sete anos – que adoeceram cerca de uma hora depois de terem consumido um granizado, entre 2018 e 2024. Os sintomas apresentados incluíram a diminuição dos níveis de açúcar e aumento da acidez no sangue e a perda de consciência, levando à hospitalização da maioria das crianças.

Estes efeitos são desencadeados pela presença de glicerol, uma substância utilizada para impedir que as estas bebidas congelem completamente e que é frequentemente encontrada em sabonetes, medicamentos e até produtos para a pele. “Descobrimos que o glicerol presente nas bebidas geladas pode causar a ‘síndrome de intoxicação por glicerol’ em crianças pequenas”, explicou Ellen Crushell principal autora do estudo.

Os investigadores verificaram que após a ingestão destas bebidas, 94% das crianças perderam a consciência, apesar de não existir qualquer historial médico que o explicasse. Já 95% demonstravam um nível de açúcar no sangue perigosamente baixo.

Os dados analisados indicaram ainda que as crianças com menos de 8 anos de idade são as mais suscetíveis aos efeitos provocados pelas bebidas, uma vez que o seu metabolismo ainda está em desenvolvimento, o que dificulta a “limpeza” da substância do organismo. “Há pouca transparência em torno da concentração de glicerol nas bebidas geladas”, pode ler-se no estudo. A quantidade e a velocidade a que um granizado é consumido também são fatores a ter em consideração.

Daqui a nada, pelas seis da tarde desta quinta-feira, 20, “faça chuva ou faça sol”, conforme diz a convocatória da manifestação, haverá um grupo de pessoas indignado em frente à Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. Cada uma levará o que comer e beber e participará numa “roda de conversa” até às dez e meia da noite, a propósito do caso de Ana Paula, mostrando assim a sua solidariedade para com esta história de contornos inexplicáveis e pedindo a resolução desta e de outras situações idênticas.

Lá dentro, estará ainda esta são-tomense a olhar, embevecida, para Heitor, o seu quarto filho, o primeiro do género masculino. Não faltará muito para que tenha de deixá-lo ali, com dois dias, aos cuidados da equipa da maternidade, até que a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) tome conta da ocorrência. O pai é figura ausente neste processo.

Ana Paula não tem para onde ir e os serviços da Segurança Social não permitem que o recém-nascido saia da maternidade sem local certo para viver. Por outro lado, as três filhas, com idades entre os 4 e os 18 anos, também terão de sair da pensão lisboeta em que estão alojadas há seis meses. Como se chegou até ao risco de esta família se desmantelar?

O descalabro começou quando Ana Paula dos Santos, 38 anos, teve de deixar a casa que alugava em Loures, um T1 que lhe custava mais de 400 euros mensais. Além de ser pequeno para as quatro (as duas mais velhas dormiam na sala), e de ter muita humidade, em janeiro do ano passado o senhorio informou que a renda iria disparar para cima dos 500 euros. Nem é preciso fazer muitas contas para perceber que o ordenado mínimo (€870) que ganha como auxiliar num lar de idosos não chegaria para fazer face a todas as despesas de uma mãe solteira com três para quatro filhos.

Construir e destruir

Ana Paula contraiu então um empréstimo de quase quatro mil euros e tratou de mandar construir, muito rapidamente, uma casa de tijolo com mais espaço, dois quartos e melhores condições no bairro Talude Militar. Em maio já lá estava, junto a outros tantos que também seguiram a mesma via. Era tudo ilegal e as demolições não têm parado de acontecer por ali e por outros bairros de características idênticas.

Em setembro de 2024, a polícia apareceu e colou um papel na porta da casa recém-construída, a avisar que a família teria 48 horas para arranjar uma alternativa. Ana Paula, já grávida de Heitor, teve uma crise de hipertensão e foi parar às urgências da maternidade (desde então ficou referenciada como grávida de risco).

No dia anunciado, nem mais uma hora nem menos uma hora, a mãe e as três filhas, estudantes no concelho, assistiram ao derrubar da sua morada, com tudo lá dentro. “O pouco que consegui tirar, fiquei sem um sítio onde o pudesse guardar”, lembra esta imigrante, há sete anos a viver, trabalhar e descontar em Portugal.

O Estado não deve demolir uma casa sem que haja uma solução de realojamento. Tem de se articular ajuda antes de um ato de despejo, que é algo violentíssimo

Maria João Costa, membro da associação Habita

A solução encontrada pela Segurança Social de Loures foi alojá-las na Pensão Midi, em Lisboa, em dois quartos pequenos. “Só podemos lá dormir, não dá para cozinhar nem para lavar roupa”, lamenta. Resultado: há meio ano que ela e as três filhas se alimentam em restaurantes e recorrem a lavandarias para terem limpo o que vestir. Todos os dias, as meninas vão e vêm de camioneta para o concelho de Loures, a partir do Campo Grande, para as suas escolas.

Quando estão na pensão, pouco podem mexer-se ou dar largas à sua condição de crianças, porque há logo quem bata à porta dos quartos a queixar-se do barulho. Isto apesar de haver outras famílias nas mesmas condições neste alojamento, que tem um contrato com a Segurança Social para fazer face a situações desesperadas como esta.

A lei não se aplica?

Dizer para Ana Paula arranjar uma casa para a sua família parece evidente. Mas, atualmente, no caso de uma mãe solteira, com poucos recursos e sotaque que denuncia a sua condição de imigrante, essa tarefa torna-se impossível. Já lhe exigiram três meses de renda em avanço ou um fiador. Às vezes, quando percebem que é imigrante, deixam de lhe responder às chamadas.

De qualquer forma, como poderia ela pagar os 750 a 1 100 euros que lhe pedem por um T2 em Loures, na Amadora ou na Margem Sul, quando só conta mensalmente com 870 euros do salário e €324 do abono de família das três filhas?

Maria João Costa, da Habita, associação pelo direito à habitação e à cidade, que apoia pessoas como Ana Paula, lamenta que neste caso e noutros não se encaminhem logo as famílias para a habitação social. “Além de ser muito difícil fazer uma candidatura para o concelho de Loures, pois envolve imensa papelada e documentos, depois fica-se numa fila de espera imensa”, lamenta. Neste momento, Ana Paula já está nessa fila imensa e também na do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU). Até agora não teve respostas.

“O Estado não deve demolir uma casa sem que haja uma solução de realojamento. Tem de se articular ajuda antes de um ato de despejo, que é algo violentíssimo de se presenciar, com polícias armados”, afirma a ativista, que neste dia acompanhou Ana Paula nas consultas da maternidade, que determinaram o seu internamento antes do tempo, para fazer de tudo para lhe baixarem a tensão e vigiar de perto a diminuição de líquido amniótico. Maria João também esteve ao seu lado no dia do parto, que acabou por acontecer na manhã de terça-feira, dia 18.

Até à hora de fecho da revista, as meninas continuavam na pensão, a mãe e o bebé na maternidade, sem que se vislumbrasse uma resolução do problema. No protesto agendado, explica Maria João, vai pedir-se a aplicação da legislação Porta de Entrada, que “permite, em situações de emergência, que a Câmara possa alugar uma casa para a subalugar a preços sociais. A diferença é suportada pelo Estado, através do IRHU”. Além do mais, segundo dados recolhidos nos Censos de 2021, note-se que existem mais de nove mil fogos vazios, para venda, aluguer ou devolutos, só no concelho em questão.

Contactada pela VISÃO, a assistente social encarregue deste imbróglio remeteu-se ao silêncio. Até quando terá Ana Paula de esperar para reunir a sua prole debaixo do mesmo teto?

Assinaturas indignadas

A petição que pede uma solução para Ana Paula não para de recolher signatários

A Habita, a Rede 8 de Março, a UMAR e a Vida Justa foram os quatro primeiros coletivos dos 59 que assinaram uma petição a oporem-se à retirada de crianças a famílias como as de Ana Paula. Esses agregados de baixos recursos são os exemplos mais evidentes de quem não consegue ter acesso à habitação, apesar de trabalharem, por culpa da especulação imobiliária dos últimos anos.

“O problema da Ana Paula é o mesmo de muitas mulheres, homens e crianças que o vivem em silêncio”, denuncia o abaixo-assinado, que também recolheu mais de mil assinaturas de particulares. Calam-se porque têm medo das ameaças que se seguem aos despejos, feitas pelos “serviços sociais deste País, associados às câmaras municipais, ao Governo, à CPCJ, que os penalizam e culpabilizam por não conseguirem prover as necessidades básicas fundamentais com o rendimento do seu trabalho, devido ao rumo das políticas e do modelo económico e social seguido”.

O documento, que pede “que acabe este modo de verdadeira perseguição às famílias”, já foi entregue ao primeiro-ministro, ao Presidente de República, ao Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, à Câmara de Loures e ao provedor de Justiça.