Há muitos anos que um derby de Lisboa não era tão escaldante como aquele que vai realizar-se no próximo sábado e pode decidir o campeonato nacional de futebol. Com os dois eternos rivais da capital empatados na liderança a duas jornadas do final da competição, o jogo de dia 10 no Estádio da Luz pode permitir a qualquer um deles festejar a conquista do título de Campeão Nacional ou deixar tudo em aberto para a derradeira jornada, que se realizará, uma semana depois, na véspera das eleições legislativas antecipadas. É, portanto, muito natural que entre os adeptos do Benfica e do Sporting andem todos a pensar no mesmo: o derby eterno!

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Já leva 11 anos a fotografar e a filmar animais selvagens nos locais mais inóspitos do planeta, apesar de ter apenas 31 anos. E ainda assim garante que filmar Os Segredos dos Pinguins, produzido pela National Geographic, o surpreendeu constantemente e o conduziu por uma montanha-russa de emoções.

A nova série documental, que se estreia na segunda-feira, 21, no Disney+ e, no dia seguinte, na National Geographic Wild, elevou a fasquia, admite Bertie Gregory – afinal, chamar “segredos” a um documentário sobre animais que já tantas vezes foram filmados é quase pretensioso. Mas o cineasta britânico garante que as suas próprias expectativas foram superadas, com as câmaras a captarem vários momentos inéditos e surpreendentes, sendo o ponto alto o salto destemido de um grupo de jovens pinguins-imperadores de uma falésia de 15 metros para o mar.

Numa bem-humorada entrevista à VISÃO, em que revelou a mesma energia e entusiasmo que empresta aos seus documentários, Bertie fala sobre as qualidades dos pinguins que os humanos deveriam emular mais, as dificuldades que encontrou a trabalhar no frio extremo, a sua carreira, com dicas para quem queira aventurar-se pela fotografia ou videografia de natureza, e, até, sobre como os pinguins se tornaram personagens improváveis na guerra de tarifas de Donald Trump.

O que espera que as pessoas aprendam ou sintam ao ver Os Segredos dos Pinguins? Um sentimento de admiração? Compaixão? Ou apenas novos conhecimentos?
Eu já tinha filmado pinguins muitas vezes antes e, por isso, pensei que os conhecia. Acontece que estava completamente enganado. Durante os dois anos de filmagens, fiquei impressionado várias vezes, pelo que espero que as pessoas também fiquem impressionadas. E espero que aprendam muito sobre os pinguins, coisas que não sabiam antes. Mas também perguntou o que eu quero que as pessoas sintam… Parece-me que as pessoas vão achar a vida destes pinguins dramática e emocionante. Passámos por uma montanha-russa emocional durante as filmagens, e espero que o espectador passe pela mesma montanha-russa. Vão sentir todo o tipo de emoções ao observar estes pinguins.

Alguma coisa em particular o surpreendeu ou já nada o surpreende, ao fim de tantos anos a filmar animais?
Não, fui constantemente surpreendido. Antes deste projeto, pensava que comprometer-me com uma série chamada Os Segredos dos Pinguins… Bom, não é fantástico para a gestão de expectativas. Os pinguins já foram filmados muitas vezes antes, apesar de viverem em lugares difíceis de filmar, lugares que são logisticamente muito difíceis de alcançar. As pessoas estão familiarizadas com Marcha dos Pinguins e outros documentários icónicos. Por isso, para Os Segredos dos Pinguins, eu sabia que tinha de filmar algo novo. E, na verdade, houve vários momentos que me deixaram sem fôlego. E quando julgava que os pinguins tinham chegado ao seu limite, eles continuavam a surpreender-me. A cena mais icónica da série é quando as crias de pinguim-imperador fazem o caminho errado em direção ao oceano para dar o seu primeiro mergulho e, em vez de se encontrarem na borda do gelo marinho, onde podem saltar de 30 a 60 centímetros de altura, encontram-se no topo de um penhasco de gelo de 15 metros. Isto nunca tinha sido filmado antes! Não sabíamos se estas crias, que fomos conhecendo ao longo de meses, sobreviveriam a uma queda daquela altura. Foi um momento assustador.

Alguns dos laços mais fortes entre pinguins-imperadores ocorrem entre indivíduos sem parentesco. Os pais incentivam as crias, crias sem relação familiar entre elas, a conhecerem-se e a tornarem-se amigas

Estava a falar sobre as dificuldades de filmar em lugares desafiantes. Quais foram os maiores desafios que o Bertie e a sua equipa enfrentaram nesses ambientes tão extremos?
No caso do episódio do pinguim-imperador, o primeiro, estávamos na Antártida. Estes animais vivem em lugares muito frios, e filmar no frio é muito difícil. O dia mais frio de filmagens foi de -54 ºC. É uma temperatura extremamente gelada! E é um desafio filmar com muitas das novas tecnologias de câmara e com os drones, cujos comandos têm joysticks, porque não podemos usar luvas grandes, que é normalmente como se mantêm as mãos quentes. Se o fizermos, perdemos a destreza necessária nos dedos. Então, eu arranjei umas luvas aquecidas muito giras que reconectámos às pilhas da câmara, de modo a que eu pudesse controlar o equipamento. Foi assim que consegui muitas das sequências, como os pinguins-imperadores a saltarem do penhasco, porque não conseguíamos chegar onde eles se encontravam. A única forma de filmar isto era com um drone, o processo durava muitas horas, muitos dias, e o único modo de o fazer, mantendo as mãos estendidas durante tanto tempo ao frio, era com aquelas luvas.

Testemunhou algum impacto das alterações climáticas a afetar os pinguins?
Sim. Onde quer que eu vá, agora, para filmar animais, em todo o mundo, consigo ver como são afetados pelo que estamos a fazer ao planeta. No caso do pinguim-imperador, é particularmente comovente, porque as suas vidas estão intimamente ligadas ao momento sazonal da formação de gelo e do degelo no oceano. Com as mudanças sazonais, à medida que o nosso clima aquece, como resultado das nossas ações, o gelo marinho está a partir-se mais cedo, e isso geralmente significa que as crias estão a ser forçadas a entrar na água antes de estarem prontas. E a maioria dos pinguins-imperadores nunca conhecerá um ser humano. Estes animais provavelmente nunca conhecerão a causa da sua maior ameaça. É um conceito comovente. Mostra que os pinguins podem viver longe de onde geralmente vivemos, mas isso não significa que não estejamos ligados.

Os pinguins, em particular estes, estão entre os animais terrestres que vivem mais afastados de nós. Há algo que possamos fazer para ajudar a protegê-los?
Sim, completamente! Em primeiro lugar, os pinguins são indicadores da saúde dos oceanos, e precisamos de oceanos saudáveis ​​para a nossa própria sobrevivência. Em segundo lugar, todos os oceanos do mundo estão ligados. Ou melhor, estamos todos ligados pelos oceanos. Acho que esta ideia de salvar o mundo é um mau conceito. É um problema tão avassalador, a solução é tão gigantesca e avassaladora… E, como sabemos, o nosso mundo está tão dividido e polarizado… É importante focarmo-nos no que se pode fazer. Todos nós temos acesso a um pequeno lugar selvagem, seja um cantinho no nosso apartamento, um lugar no nosso jardim ou um parque ao fundo da rua. Todos nós podemos defender e cuidar daquele pequeno lugar e torná-lo um pouco mais selvagem do que quando o encontrámos. Se todos fizermos isto, pode parecer uma coisa pequena, mas tudo somado fará a diferença, e acabará por afetar os pinguins que vivem muito, muito longe.

Os pinguins são, à sua maneira, parceiros românticos e pais dedicados. Claro que esta é uma característica de sobrevivência ajustada pela evolução. Mas muitos animais não evoluíram assim. Porque é que os pinguins são como são? É uma consequência do ambiente hostil em que vivem?
Isso é efetivamente o mais importante. Estes pinguins são incrivelmente resistentes como indivíduos, mas não conseguem sobreviver sozinhos. São animais sociais como estratégia de sobrevivência. O que é realmente interessante neles é que alguns dos laços mais fortes não são apenas entre aqueles que esperaríamos, esses que nomeou – o laço entre a mãe e o pai ou entre os pais e a cria. Na verdade, alguns dos laços mais fortes na sociedade entre pinguins-imperadores ocorrem entre indivíduos sem parentesco. Uma das coisas mais giras que filmámos é que os pais incentivam as crias, crias sem relação familiar entre elas, a conhecerem-se e a tornarem-se amigas. Isto parece uma projeção humana, mas não é. Fazem esses amigos, formam esses laços, essas parcerias e, à medida que crescem, mantêm-se juntos. Tal como os amigos humanos, procuram uns nos outros confiança, orientação e segurança. Até as crias se amontoam para se aquecerem. Quando chegam a um obstáculo, olham uns para os outros: “Ok, quem é que vai resolver isto?” E quando um corajoso resolve a situação, os outros dizem: “Ah, é assim que se faz”, e fazem o mesmo. No caso do grande salto do penhasco, estão todos lá em cima com os amigos com quem cresceram. E assim que um deles salta, os outros dizem: “Está bem, eu também consigo.”

Diria que o sentido de cooperação é o comportamento que nós, humanos, deveríamos emular mais?
Uma das coisas mais poderosas é a forma como os pinguins-imperadores se agrupam. É algo com que as pessoas estão bem familiarizadas: quando os adultos se juntam durante grandes tempestades, quando ficam como que amontoados para partilhar o calor do corpo… Estes agrupamentos no mais profundo e escuro do inverno são feitos pelos machos – as fêmeas põem o ovo, dão-no ao macho para cuidar e depois vão para o mar para recuperar algumas reservas de gordura; os machos ficam, então, todos juntos, a equilibrar o ovo nos seus pés, e para se manterem quentes, amontoam-se. Uma das coisas giras deste projeto é que colaborámos com muitos grupos científicos, e a nova ciência está a mostrar que naquele amontoado, ao contrário do que pensávamos, os pinguins não se esforçam para chegar ao centro do grupo, onde está mais calor. Não, na verdade o que vimos é que os pinguins estão constantemente a empurrar-se para fora, para que os recém-chegados ao grupo se possam aquecer. É um ajuntamento muito altruísta. E a razão pela qual o fazem é porque sabem que, se todos lutarem para chegar ao meio, ninguém vai ganhar. Só vão desperdiçar energia. Não vão formar um agrupamento eficaz. Os cientistas estão também a descobrir que os pinguins não se espremem, porque se isso acontecesse não haveria ar preso e o isolamento não seria tão eficaz. Não, deixam um pequeno espaço entre cada adulto para que o ar fique retido, e o calor dos seus corpos aquece esse ar. E esse ar isola-os. É uma estratégia incrível! Por isso, sim, nós, humanos, podemos aprender com os pinguins a ser um pouco mais altruístas em nome do bem maior, em nome de uma sociedade melhor.

Começou a sua carreira muito jovem, logo após terminar o seu curso de Zoologia. O que o fez escolher esse caminho? Foi apenas uma oportunidade que surgiu na altura ou planeou fazer o que está a fazer?
Nunca conheci nada diferente. Sempre fui obcecado pela vida selvagem desde muito cedo, e este trabalho é incrível porque podemos conviver com animais fixes e fazer coisas interessantes, o que é realmente uma grande motivação para mim. Também aprendi desde muito cedo que, se filmamos e fotografamos algo pelo qual somos apaixonados, essa é uma ótima maneira de fazer com que outras pessoas se interessem pelo que fazemos. É uma oportunidade incrível que temos. Foi também por isso que escolhi este caminho.

Podemos ser os melhores cineastas do mundo, mas, se não soubermos como encontrar os animais e chegar perto o suficiente para os filmar sem os perturbar, toda a habilidade técnica será inútil

Tem algum conselho para os jovens que se inspiram no seu trabalho e querem fazer o mesmo que faz? Como podem começar?
Acredito, antes de mais, que toda a gente é demasiado obcecada com a habilidade técnica para se ser cineasta de vida selvagem. Claro que essa habilidade é importante. Dito isto, podemos ser os melhores cineastas do mundo, mas, se não soubermos como encontrar os animais e chegar perto o suficiente para os filmar sem os perturbar, toda a habilidade técnica será inútil. Por isso, o meu conselho para quem está a começar é este: larga a câmara, não te preocupes com isso; passa algum tempo na natureza a aprender a encontrar animais, a aprender a ler as pistas da Mãe Natureza, a prever o que os animais farão a seguir. Essa é realmente a chave. Depois de o fazeres, bom… Vivemos numa era incrível, em que todos têm acesso a uma câmara… Não precisas de usar aqueles equipamentos caros que nós usamos. A melhor câmara é aquela que temos nas mãos, e essa pode até ser a câmara do telemóvel. Basta sair por aí e fazer filmes. Além disso, todos temos acesso a estas plataformas de transmissão totalmente gratuitas: YouTube, Instagram, TikTok, o que quer que seja. Divulga o teu trabalho e receberás feedback. As pessoas são muito rápidas a dizer se é bom ou mau. Aprenderás rapidamente, e alguém estará a observar o que fizeste e poderá dar-te uma oportunidade.

Os pinguins têm sido protagonistas surpreendentes desta guerra comercial, porque Donald Trump decidiu impor tarifas às ilhas Heard e McDonald, que são habitadas basicamente por pinguins. Já viu alguns dos memes e piadas? Acha que estes animais estão a trazer alguma alegria a um momento sombrio?
Com certeza! Quer dizer, as tarifas serão desastrosas para a indústria automóvel dos pinguins. [Risos.] Sabe, eles precisam mesmo de todo este aço… Mas sim, adoro que os pinguins façam parte da cultura popular. Estou sempre a tentar desesperadamente destacar-me e fazer com que as pessoas se interessem pela Mãe Natureza, por isso, sim, este pequeno conflito que envolve os pinguins acaba por ser bom.

Já está a trabalhar no seu próximo projeto? O que é?
Tenho outra série no Disney+ chamada Animals Up Close. A primeira temporada já está disponível. Atualmente, estamos a fazer uma nova temporada, e o primeiro episódio vai sair em breve.

No início da campanha, em Vila Franca de Xira, Paulo Raimundo surpreendeu com um desempenho muito eficaz na retórica própria do PCP. Está cada vez mais um tribuno digno de nota: consegue pôr de pé uma plateia, com aplausos, e domina claramente a oratória política.

Paulo Raimundo é uma surpresa — e boa — para o PCP. Assumiu a liderança discretamente, teve de se adaptar rapidamente ao infindável ciclo noticioso e político, e nesta campanha representa o sobressalto e o espanto que os comunistas precisam. Não é fácil liderar um partido que carrega uma história centenária e, ao mesmo tempo, enfrentar as realidades políticas do século XXI. Mas Raimundo está à altura.

Aparenta ter força para isso. Se Rui Tavares foi a grande surpresa dos debates nas eleições anteriores, o líder do PCP pode agora capitalizar essa mesma sensação de novidade junto do eleitorado que já votou na CDU e hoje está no Bloco ou no Livre. É uma campanha para seguir de perto. Raimundo só tem de abrir o discurso e falar para todos. Os eleitores podem surgir de onde menos se espera.

Trump insulta católicos: A poucos dias do Conclave para a escolha do novo Papa, Donald Trump decidiu posar sentado na cadeira de Pedro, com o dedo em riste. Que tristeza. Não se percebo por que razão o núncio apostólico em Washington não protestou contra tamanha infantilidade, nem sequer o Vaticano. É de mau gosto e insulto direto a quase dois mil milhões de católicos. Trump, não sendo clinicamente louco (palavra que nem consta do DSM), é simplesmente um idiota que insulta, ameaça e agride indiscriminadamente. Esteve no funeral do Papa Francisco há 15 dias!

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Se olharmos para o novo Model Y de perfil, tudo parece igual. Mas as diferenças são notórias na frente e traseira. As óticas dianteiras são novas, com um desenho mais afilado e assinatura luminosa atualizada, que dá ao Model Y um ar mais moderno e tecnológico. Atrás, também há novas luzes, com destaque para a barra LED que liga as óticas. Relativamente a este elemento luminoso, com funções mais decorativas que funcionais, confessamos que não tínhamos percebido que esta luz não é direta: a barra LED está ‘escondida’ numa reentrância, e o que se vê é o reflexo desta luz na carroçaria, criando um efeito de dispersão muito bem conseguido.

As jantes também mudaram, consoante a versão, com novos desenhos que favorecem a aerodinâmica. A carroçaria mantém-se praticamente igual nas proporções, mas a Tesla diz que há melhorias subtis nos encaixes de painéis e na rigidez estrutural, com impacto direto no conforto e na insonorização. É um design funcional, quase minimalista, que continua a dividir opiniões – há quem o ache elegante, há quem o veja como demasiado genérico.

O sistema de visão da Tesla está cada vez melhor. Veja-se como é capaz de detetar vários tipos de veículos, pessoas e sinais de trânsito

Comportamento mais afinado

O Model Y Long Range Dual Motor continua a ser um SUV com alma de desportista. A tração integral e o centro de gravidade baixo ajudam, claro, mas é a afinação do chassis e da entrega de potência que impressiona. A aceleração é vigorosa, mas sempre previsível. A resposta ao acelerador é imediata, como se espera de um Tesla. Em curva, o carro mantém-se estável, com pouca inclinação da carroçaria. Não chega aos níveis de equilíbrio de, por exemplo, um Skoda Enyaq ou um Kia EV6, que são mais giros de conduzir em estradas ‘curvilíneas’. E é, claramente, menos divertido de conduzir que o Model 3. Mas é Model Y com tração integral é muito agarrado à estrada.

A direção, embora algo anestesiada, é precisa e rápida. Neste aspeto, o novo Model Y perdeu aquele ‘nervosinho’ do modelo anterior, junto ao ponto central da direção, quando a conduzir a velocidades mais elevadas, o que é bom. E a suspensão filtra melhor as irregularidades do que em versões anteriores. Ainda não está ao nível do conforto de um Renault Scenic ou de um Audi Q4 e-tron, mas está mais perto.

Mais silencioso, mais sólido

Por dentro, o Model Y é fiel ao espírito Tesla: tudo gira em torno do ecrã central de 15 polegadas. Continua a ser um dos melhores do mercado – rápido, intuitivo e graficamente sofisticado. A qualidade dos materiais evoluiu: há mais superfícies macias, melhores encaixes e menos ruídos parasitas. A insonorização, em particular, está mais trabalhada. Mesmo em autoestrada, o ruído de rolamento e aerodinâmico são contidos.

O espaço, esse, continua a ser um dos pontos fortes. Os passageiros traseiros viajam com folga de pernas e cabeça, e o piso plano facilita o transporte de três adultos. A bagageira, com mais de 850 litros, é das maiores do segmento. E ainda há o “frunk” à frente para guardar cabos ou pequenas malas.

Os bancos dianteiros são confortáveis e oferecem bom apoio, mesmo em viagens longas. O tejadilho panorâmico continua a dar uma sensação de amplitude única, embora penalize um pouco o isolamento térmico nos dias mais quentes.

Eficiência e autonomia

A Tesla anuncia mais de 580 km (WLTP) de autonomia, mas mesmo em utilização real, com autoestrada, subidas, tráfego urbano e alguma diversão ao volante, é possível andar regularmente entre os 450 e 500 km com um carregamento.

A gestão de energia foi otimizada e nota-se, sobretudo, em viagem. A velocidades de cruzeiro, este SUV consome menos do que alguns compactos, e a gestão térmica da bateria está mais refinada. Curiosamente, a eficiência em cidade não é tão impressionante: há rivais que fazem melhor em tráfego urbano, o que confirma a vocação estradista deste Tesla. É um carro que gosta de quilómetros e quanto mais longas forem as viagens, mais se destaca da concorrência. O tal ecossistema que faz toda a diferença

Quem nunca conduziu um Tesla continua a subestimar o valor do ecossistema. Mas quem já viveu com um, sabe: entre a conectividade permanente, as atualizações over-the-air, a rede de carregamento e a app com controlo remoto completo, há uma integração e uma conveniência que mais nenhuma marca consegue replicar. Com destaque para os Superchargers. Em Portugal ainda não são muitos, é verdade, mas são bem distribuídos, fiáveis e rápidos. Mais importante: integram-se perfeitamente no sistema de navegação e funcionam sempre – sem cartões, apps externas ou surpresas desagradáveis.

Uma das viagens de teste levou-nos ao Supercharger de Fátima, onde a potência ainda está limitada a 150 kW (nos postos V3, como os da estação de Loulé, a potência é de 250 kW). Ainda assim, foi possível recuperar 40% da bateria em cerca de 15 minutos

O Model Y suporta carregamentos até 250 kW, o que permite recuperar uma boa parte da autonomia em pouco mais de 20 minutos. É uma experiência de carregamento quase sem fricção. A única desvantagem? A arquitetura de 400 volts impede o aproveitamento total de postos de 800 volts da rede pública, onde concorrentes com suporte para 800 volts, como o Kia EV6 ou o Hyundai Ionic 5, carregam mais rapidamente.

O Autopilot de série é ainda o sistema de assistência à condução mais completo e confiável do mercado, apesar de falhas ocasionais, especialmente agora que a Tesla abdicou de sensores ultrassónicos e radares. O sistema baseado apenas em câmaras tem dificuldade em manobras de baixa velocidade (estacionamento, sobretudo) e ainda não consegue distinguir com precisão todos os obstáculos. É um passo em frente na visão da Tesla, mas é, também, um passo que ainda não está totalmente consolidado. Quanto ao pacote “Full Self-Driving”, continua a ser… marketing. Um opcional de 7500 euros para uma funcionalidade que não existe em contexto europeu e que não compensa, por agora, o investimento.

O sistema de navegação é muito eficiente a calcular a autonomia e tempos de carregamento. A forma como a informação é apresentada ajuda a criar confiança em viagens longas

Veredito

O novo Tesla Model Y não é um carro espetacular no sentido tradicional – não há grandes mudanças estéticas, nem revoluções tecnológicas. Mas é um carro com mais substância. Está mais afinado, mais confortável, mais eficiente e com uma qualidade de construção melhorada. É, ainda, importante reforçar a quantidade de tecnologia e funcionalidade oferecidas de base. De outro modo, o preço é ainda mais competitivo quando consideramos o preço real dos concorrentes quando bem equipados.

Não se deixe enganar pelo minimalismo do interior. Este é um dos carros mais tecnológicos do mercado

Naturalmente, ainda há espaço para melhorias. O sistema de condução autónoma está longe de corresponder às promessas. E há escolhas difíceis de justificar – como a ausência de Android Auto e CarPlay ou sensores de estacionamento convencionais. Mas no que interessa verdadeiramente – comportamento, autonomia, tecnologia, ecossistema – o Model Y mantém-se à frente.

Apesar de não ser o mais dinâmico ou o mais confortável, a verdade é que nenhum outro SUV elétrico oferece tanto por este preço.

Tome Nota
Tesla Model Y Long Range Tração Integral – Desde €52 900

tesla.com

Autonomia Muito bom
Infoentretenimento Excelente
Comunicações Excelente
Apoio à condução Muito bom

Características Potência e binário 378 kW, 493 Nm (estimado, dois motores) ○ Acel. 0-100 km/h: 4,8 s ○ Vel. máx. 201 km/h ○ Bateria: 78 kWh (75 kWh usáveis) ○ Autonomia WLTP 586 km ○ Carregamento: 11 kW em AC e 250 kW em DC (10-80%: 27 min) 4,790×2,129×1,624 m (CxLxA)

Desempenho: 5
Características: 4,5
Qualidade/preço: 3,5

Global: 4,3

Palavras-chave:

Viva, bom-dia  
O Vaticano já fez saber que a chaminé – de onde sairá fumo branco, quando dois terços dos votos dos cardeais estiverem reunidos em torno de um só nome – está a postos. Os Museus do Vaticano já anunciaram que, por ora, foram interrompidas as visitas turísticas à Capela Sistina, obra maior de Michelangelo. As questões logísticas também já estarão asseguradas.    
Na próxima quarta-feira, 7, os cardeais eleitores (cerca de uma centena) cortarão todas as comunicações com o exterior e fechar-se-ão na Capela Sistina para escolher o novo líder da Igreja Católica, naquela que é considerada a eleição menos transparente e também a menos previsível de todas as eleições. O ambiente é propício à especulação e, por isso, vão, igualmente, intensificar-se inúmeras teses e teorias, incluindo as teorias da conspiração mais estapafúrdias. 

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O período oficial de campanha eleitoral às Legislativas inicia-se este domingo, 14 dias antes das eleições – agendadas para 18 de maio -, e termina à meia noite da antevéspera da ida às urnas. O dia terá como destaque o debate televisivo entre os oito líderes da forças atualmente representadas no parlamento.

O debate está agendado para as 21h30 e será transmitido em simultâneo pela RTP1 e RTP3 a partir da faculdade Nova School of Business and Economics (Nova SBE), em Carcavelos, Lisboa, com moderação do jornalista Carlos Daniel.

Durante o dia, apesar do debate na capital, os três maiores partidos optam por começar o contacto com os eleitores no norte do País, com a AD, liderada por Luís Montenegro, a ter agenda nos distritos de Bragança, onde estará, de manhã, em contacto a população na Feira das Cantarinha, e Braga, onde passará a tarde no concelho de Barcelos, na Festa das Cruzes.

A comitiva socialista, liderada pelo secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, vai começar o dia no distrito de Viana do Castelo, no concelho de Ponte de Lima, e segue daí para, tal como Montenegro, passar a tarde no distrito de Braga, mas no concelho de Guimarães, numa ação de contacto com a população.

André Ventura, líder do Chega, estará pelo centro do País, tendo na agenda um almoço de campanha no distrito da Guarda.

Num dia que terminará em Carcavelos para todos os líderes, IL, Livre, CDU, BE e PAN mantêm-se por perto, com agendas distribuídas entre os distritos de Lisboa e Setúbal.

A comitiva liberal, no primeiro dia de campanha oficial, passará a manhã no distrito de Setúbal numa visita ao Mercado do Livramento, seguida de uma ação de contacto com a população e um almoço.

O Livre tem agenda na manhã de domingo, com uma ação de campanha, às 10h00, no Mercado da Vila em Cascais.

A CDU tem marcado um almoço em Vila Franca de Xira de onde seguirá para a Marcha do Trabalho, no Seixal.

O Bloco de Esquerda estará por Almada, distrito de Setúbal, numa iniciativa intitulada “A Esquerda Europeia com o Bloco”, que contará com a intervenção de figuras de partidos da esquerda da Finlândia, Espanha e França. A líder do PAN, Inês de Sousa Real, tem agenda em Cascais.

O voto em mobilidade realiza-se a 11 de maio, uma semana antes das eleições, num local escolhido pelo eleitor em qualquer município do continente ou das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, devendo identificar-se e indicar a freguesia onde está recenseado.

De acordo com o ‘site’ da Comissão Nacional de Eleições (CNE), todos os eleitores recenseados no território nacional podem votar antecipadamente em mobilidade.

Para o fazer, o eleitor tem que comunicar a sua intenção entre hoje e 8 de maio através de meio eletrónico em www.votoantecipado.pt ou por via postal, dirigida à Administração Eleitoral da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, localizada na Praça do Comércio, Ala Oriental, 1149-015 Lisboa.

No pedido via postal devem constar os seguintes dados: Nome completo; Data de nascimento; Número de identificação civil; Morada; Mesa de voto antecipado em mobilidade onde pretende exercer o direito de voto; Contacto telefónico e sempre que possível endereço de correio eletrónico.

Caso o eleitor se inscreva para votar antecipadamente em mobilidade e não consiga fazê-lo, pode votar no dia da eleição (18 de maio) na assembleia ou secção de voto onde se encontra recenseados.

Mais de 10,8 milhões de eleitores residentes em território nacional e no estrangeiro podem votar a 18 de maio na eleições legislativas antecipadas.

O drama desenrola-se bem longe, em Pittsburgh, no Nordeste dos EUA, nas urgências de um sobrelotado e subfinanciado hospital universitário público especializado em cuidados de urgência e traumatismos agudos, mas ressoa a algo próximo e familiar. Até a troca de galhardetes entre a diretora do hospital e o chefe daquele serviço conhecido por the pit (o poço, em inglês), com ela a queixar-se dessa alcunha depreciativa e ele a acusá-la de querer poupar dinheiro eternizando os pacientes ali em baixo, nas urgências, por ser mais barato do que ter um número maior de médicos e enfermeiros lá em cima, no internamento.

Ao longo de 15 episódios, tantos quantas as horas de um turno liderado por Michael “Robby” Robinavitch (o ator Noah Wyle, que protagonizou ER – Serviço de Urgência) a nova série The Pitt, da HBO Max, traz-nos uma realidade feita de emergências médicas à mistura com os problemas e os dilemas dos próprios profissionais, sempre com a tónica nas limitações do sistema de saúde. Os casos sucedem-se a um ritmo frenético; o cenário de falta de meios humanos mantém-se inalterável.

É verdade que nessas urgências de ficção aplaudidas pelo seu realismo há mais gente a correr perigo de vida do que a nascer, mas por estes dias será difícil assistir a The Pitt sem lembrar aquilo que se passa no Serviço Nacional de Saúde (SNS) português. As grávidas devem telefonar para a Linha SNS 24 Grávida, acessível através do número 808 24 24 24, antes de rumarem a um hospital, mas, ao terceiro fim de semana grande em que voltarão a encerrar várias urgências de Obstetrícia e Ginecologia na região de Lisboa e Vale do Tejo, convém consultarem o portal do SNS que vai atualizando a previsão dos sete dias seguintes.

Trancas à porta Está em curso uma auditoria para verificar o cumprimento das normas de organização, incluindo a articulação entre hospitais e outras entidades de saúde Foto: JCC

Tal como aconteceu na Páscoa e no fim de semana do 25 de Abril, sabe-se de antemão quais serão as urgências que se prevê estarem fechadas no feriado de 1 de maio (três, à hora do fecho desta edição), na sexta-feira (quatro), no sábado (nove) e no domingo (oito), a maioria de Obstetrícia e Ginecologia, aqui e ali de Pediatria, com especial incidência na Margem Sul.

A falta de equipas médicas é real. No Dia do Trabalhador entra, por isso, em vigor o já habitual plano de verão, apresentado como um reforço estratégico da capacidade assistencial do SNS que, até ao fim de setembro, obriga os hospitais a comunicarem diariamente à Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) a taxa de ocupação de camas e a afluência às urgências. Segundo o decreto-lei publicado em Diário da República no dia 10 de abril, esse plano de verão prevê ainda que o encerramento de uma urgência só possa acontecer com autorização prévia da DE-SNS.

Tudo ideias boas, dizem os administradores hospitalares, mas que na prática não impedirão o encerramento de urgências. A preocupação também é bem real. Ninguém quer assistir a uma sequela da Páscoa deste ano, em que o tema das urgências acampou nas notícias. Ninguém quer continuar a ver grávidas a entrar em trabalho de parto em ambulâncias – ou a esperar horas por uma vaga num hospital (ou por uma decisão de encaminhamento).

À procura do “gato”

Como no provérbio “casa roubada, trancas na porta”, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) marcou para segunda-feira, 28, o arranque de uma auditoria para apurar responsabilidades e verificar o cumprimento das normas de organização e planeamento dos serviços, incluindo os mapas de férias dos médicos e a articulação entre hospitais e outras entidades de saúde.

Não é a primeira vez que o IGAS avalia o impacto das férias na capacidade dos hospitais: em 2022, houve uma auditoria a cinco hospitais que detetou falhas, nomeadamente na aprovação dos mapas dentro do prazo legal. Agora, o período em análise será entre 13 de abril e 4 de maio, precisamente para incluir a Páscoa e os feriados do 25 de Abril e do 1º de Maio. Os alvos iniciais são o Hospital Garcia de Orta (Unidade Local de Saúde de Almada-Seixal) e o Hospital do Barreiro (ULS do Arco Ribeirinho).

Faz sentido o especial enfoque na Margem Sul. No Domingo de Páscoa, foi notícia o nascimento de um bebé dentro de uma ambulância, pelas 2h30 da madrugada, cerca de meia hora depois da chamada feita para o 112. Como o bloco de partos não estava disponível no Garcia de Orta, em Almada, a parturiente foi encaminhada para o São Francisco Xavier, em Lisboa, sendo acompanhada por uma médica do Hospital de Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, mas acabando por dar à luz num veículo dos bombeiros do Seixal, ainda na Margem Sul. Miguel nasceu às 37 semanas e não precisou de cuidados especiais.

A palavra “caos” já se repetira uns dias antes, ao saber-se do caso de uma grávida, residente na Moita, uma vila pertencente ao distrito de Setúbal, que na quarta-feira, 17, terá estado cerca de três horas numa ambulância, antes de ser finalmente reencaminhada para a Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa.

A grávida de gémeos com 34 semanas de gestação em situação de risco tinha sido observada de manhã no Hospital do Barreiro, onde recusara ser imediatamente transferida para um hospital com unidade de cuidados intensivos neonatais, alegando precisar primeiro de ir a casa resolver uns assuntos familiares. Foi, então, aconselhada a ligar para a linha SNS24 logo que possível. Já numa ambulância dos Bombeiros Voluntários de Alcochete, acionados pelo INEM, acabou por ter de esperar que o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) percebesse para onde deveria ser transportada.

“Pedro e o lobo”

Ainda nesse dia, a Associação Nacional dos Técnicos de Emergência Médica (ANTEM) manifestou “sérias preocupações” sobre a articulação entre os hospitais do SNS e o INEM no acompanhamento dos casos urgentes de grávidas.

Os inspetores do IGAS poderão chegar à conclusão de que os mapas de férias dos médicos não foram bem geridos, agravando a falta de especialistas, nomeadamente de Ginecologia, Obstetrícia e Pediatria. Na região de Lisboa e Vale do Tejo, os números mais recentes deixam bem claro que a manta é curta.

A Ordem dos Médicos tem registados 1 960 ginecologistas e obstetras, mas menos de metade trabalham no SNS (748). Quanto aos pediatras, dos 2 529 registados, pouco mais de metade estão no setor público (1 325).

Na região de Lisboa e Vale do Tejo, os números mais recentes deixam bem claro que a manta é curta. A Ordem dos Médicos tem registados 1 960 ginecologistase obstetras,mas menos de metade trabalham no SNS (748)

Tanto a ordem como os sindicatos médicos já alertaram para a necessidade de fazer uma reforma profunda no setor para atrair mais profissionais. A pouca atração do SNS “tem muito que ver com as condições de trabalho”, acredita Joana Bordalo e Sá, da Federação Nacional dos Médicos, que já em março defendera que “a banalização da falta de médicos leva ao encerramento das urgências”.

O estado a que as coisas chegaram lembra a história infantil Pedro e o Lobo. A verdade é que nada disto é novo – nem sequer os avisos. Em agosto de 2018, o colégio da especialidade de Ginecologia-Obstetrícia da Ordem dos Médicos alertou para o facto de “cerca de 80% das equipas” das urgências de Obstetrícia apresentarem “um défice permanente de recursos médicos”.

O mesmo órgão calculou que, ao longo da década anterior, o “défice teórico” nos “serviços de urgência/blocos de parto” evoluíra ao ritmo de menos 20 especialistas em Ginecologia-Obstetrícia por ano. Apesar de ter havido novos contratados, o saldo foi sempre negativo por causa das passagens para o escalão com idade igual ou superior a 55 anos, idade a partir da qual estão dispensados de fazer urgências. Faltava, então, a geração intermédia, que fora atraída para os privados, ao mesmo tempo que tinha havido uma paragem de entradas no público. O futuro próximo era incerto.

O primeiro-ministro já veio lembrar que a escassez de meios humanos no SNS é um problema que vem de muitos anos. “Estamos a resolver os problemas à medida que o tempo nos permite que eles sejam resolvidos”, afiançou Luís Montenegro, no sábado, 27, à margem da 5ª edição da Maratona da Europa, em Aveiro. “Agora, não podem exigir-nos que façamos em 11 ou 12 meses aquilo que outros não fizeram em mais de 20 anos. Não foram só os oito anos que nos antecederam, o PS governou 22 dos últimos 30 anos.”

A verdade é que, a menos de dois meses de começar mais um verão, altura em que a falta de médicos naturalmente se agudiza, o problema crónico não tem melhorias à vista. Vamos chegar aos feriados de junho a pensar “onde é que já vi este filme”?

Portugal foi o 13º país da OCDE que registou um maior crescimento do seu Produto Interno Bruto per capita, entre 2014 e 2024, a par dos Estados Unidos, da República Checa e da Grécia. O Canadá surge em último lugar, em virtude de ter registado um aumento de 16% da sua população, ao passo que o crescimento da República da Irlanda surge distorcido pelo facto de inúmeras multinacionais ali declararem os seus lucros para beneficiarem dos impostos baixos

Segunda causa de morte em Portugal (e no mundo), o cancro tem revelado uma tendência crescente. Dados do último Registo Oncológico Nacional (RON) mostram que, em 2019, foram diagnosticados quase 58 mil novos casos, a maioria em homens, o que traduz um crescimento de 19,3% em relação a 2010. E as perspetivas não são animadoras, prevendo-se um aumento significativo do número de casos e mortes nos próximos anos – segundo a Organização Mundial da Saúde, um quarto da população portuguesa corre o risco de ter cancro até aos 75 anos e 10% desses casos deverão ser fatais.

Acresce ainda que o risco de contrair a doença aumenta substancialmente com o avançar da idade (segundo a American Cancer Society, 60% dos tipos de cancro atingem pessoas com 60 anos ou mais).

“A maior parte dos casos de cancro ocorre entre os 60 e os 74 anos”, confirma Fátima Vaz, diretora do Serviço de Oncologia Médica do Instituto Português de Oncologia (IPO) Lisboa, para sublinhar que se trata “claramente de uma doença dos mais velhos”, ou seja, “as pessoas com mais idade têm maior probabilidade de ter cancro: aos 40 anos, o risco aumenta, aos 50 aumenta mais e aos 60 mais ainda”.

Mariana Malheiro Rodrigues, oncologista no Hospital CUF Tejo, comprova que “a incidência da maioria dos cancros aumenta com a idade”, adiantando que “cerca de 60% dos diagnósticos são feitos depois dos 65 anos e a idade mediana de diagnóstico é 65-69 anos”, com os idosos a apresentar “10 vezes mais probabilidade de ter uma doença oncológica e 15 vezes mais possibilidade de morrer por esta causa do que pessoas com menos de 65 anos”.

Por isso é que “passar a barreira dos 50 anos deve ser motivo de preocupação”, alerta, por seu turno, Mónica Gomes, bióloga e investigadora da Liga Portuguesa contra o Cancro do Porto, reconhecendo igualmente que “a idade é, de facto, um fator de risco acentuado”.

Em idades avançadas, a doença assume incidências particulares. De acordo com dados do Global Cancer Observatory (Globocan), os cancros mais frequentes em Portugal depois dos 60 anos são, no homem, o da próstata (17,3%), o do pulmão (15,5%) e o colorretal (11,6%). Na mulher, temos o da mama (19%), seguido do colorretal (11,9%) e do pulmão (11,1%). Note-se que nem sempre o maior número de casos corresponde a uma maior mortalidade – apesar do cancro da próstata ser o mais frequente no homem, é o do pulmão que mata mais. Porque, como nota Fátima Vaz, “o cancro da próstata (tal como o da mama) consegue-se ‘cronicizar’, o do pulmão nem sempre”, apesar da “grande evolução” que se tem registado nos últimos anos no tratamento deste tumor.

Envelhecimento celular

Mas a que se deve a maior prevalência e risco nestas idades? A investigadora Mónica Gomes explica que, “com a idade, os genes de reparação, mecanismos do nosso organismo que regulam e corrigem os erros de DNA, vão perdendo capacidade, o que leva às mutações celulares que originam o cancro”.

E esta desregulação acontece não só devido ao envelhecimento natural mas também à exposição continuada a determinados riscos, sejam eles uma alimentação desequilibrada, o tabagismo ou o excesso de sol. “Por isso é que, quando somos mais novos, reagimos muito melhor”, sublinha.

A prevenção do cancro é possível em qualquer idade e nunca é tarde para começar

Mariana Malheiro Rodrigues, Oncologista no Hospital CUF Tejo

Mas, ao contrário daquilo que poderia pensar-se, a doença oncológica a partir dos 60 não tem necessária e exclusivamente que ver com a degeneração natural, em particular com as alterações morfológicas celulares. Na verdade, “a correlação entre o cancro e a idade é complexa e para muitas questões ainda não se tem uma resposta certa”, reconhece a oncologista Mariana Malheiro Rodrigues.

“A idade é um fator importante, mas seria arriscado apontar o envelhecimento celular como causa prioritária porque, geralmente, existem muitos outros fatores, como os ambientais, os genéticos ou história familiar”, acrescenta Fátima Vaz, especificando: “No cancro do ovário, por exemplo, sabe-se agora que a história familiar é muito importante (10% a 15%) e, no do pulmão, o tabaco é um fator muito bem definido”. Outros elementos pesam conforme o tipo de tumores, dependendo de “questões ambientais, como o tabaco, a obesidade, a poluição, a carne vermelha ou o álcool”. Por outras palavras, “cada cancro é um caso especial” e não há que generalizar.

Idade funcional

Outra ideia a desmistificar é a de que o cancro detetado em idades tardias é geralmente menos agressivo. “A idade avançada não significa que um tumor seja mais indolente”, salienta a diretora do Serviço de Oncologia Médica do IPO, insistindo em que “não é garantido que uma pessoa com mais de 60 anos vá ter um tumor menos agressivo”. O importante, defende Fátima Vaz, “é fazer a caracterização do tumor e a caracterização da pessoa”, uma avaliação que fornecerá informações fundamentais para avaliar o estado da doença e do paciente e, a partir daqui, definir a melhor terapia a seguir.

Mas, também no tratamento, a idade não é fator determinante na decisão. “O que conta não é a idade biológica, mas a idade funcional, as comorbilidades [existência de mais de uma doença], os défices que existem, o estar ou não apto”, explica, notando que “os medicamentos para tratar o cancro não provocam todos reações adversas e não é por ter mais de 60 anos que vamos tratar a pessoa de forma diferente”. A propósito, a investigadora Mónica Gomes lembra que “há pessoas com 50 anos num estado muito debilitado e pessoas com 80 num ótimo estado”.

A oncologista Mariana Malheiro Rodrigues concorda: “O importante aqui é definir o envelhecimento para além da idade cronológica e ter em conta a idade funcional – nem todos os jovens são funcionais e ‘fit’ e nem todos os idosos são doentes e dependentes.”

Por outras palavras, como salienta Fátima Vaz, “nós ajustamo-nos ao doente e não deixamos de tratar as pessoas por causa da idade”. E, quando surgem dúvidas, prossegue, pede-se “uma avaliação geriátrica que é feita por uma equipa multidisciplinar”, atualmente simplificada graças à existência de uma ferramenta de triagem de oito itens (a chamada G8), que dá o “alerta” caso exista algum problema que impeça o tratamento. Em suma, mais do que a idade, o que conta é o “estado geral” do paciente.

Os mais frequentes

Depois dos 60 anos, em Portugal, estes são os tumores que mais aparecem

No homem

17,3%
Próstata

15,5%
Pulmão

11,6%
Colorretal

Na mulher

19%
Mama

11,9%
Colorretal

11,1%
Pulmão

Ainda assim, Mariana Malheiro Rodrigues reconhece que, no doente mais velho, “as decisões de tratamento são muitas vezes mais complicadas”, designadamente devido à redução da esperança de vida, aos riscos associados às comorbilidades, à menor tolerância ao tratamento ou a potenciais interações com outra medicação. “Os doentes mais velhos, muitas vezes, apresentam reservas reduzidas em vários sistemas orgânicos, e associar um fator de stresse como a cirurgia, a quimioterapia ou uma infeção aguda podem levar a sintomas gerais em vez de sintomas específicos de órgãos.”

Além de que, nota, nestes casos “os sintomas do cancro podem ser mais difíceis de interpretar pelas comorbilidades, o que pode atrasar o diagnóstico”, uma vez que “estes doentes muitas vezes apresentam sintomas ocultos ou atípicos de apresentação de doenças (por exemplo, podem não ter febre durante uma infeção ou dor no caso de um enfarte agudo do miocárdio)”.

Especificidades que merecem cada vez mais atenção. “Há grupos de trabalho dedicados à oncogeriatria que estudam e tratam os cancros em idades mais avançadas”, porque a doença nestas idades é, de facto, “peculiar” e os “tratamentos têm de ser ajustados e individualizados”, avança a bióloga Mónica Gomes.

Saúde personalizada

Apesar dos avanços nos tratamentos e do aumento da sobrevida nos doentes oncológicos (segundo um relatório da OCDE, em Portugal as taxas de sobrevivência dos cancros mais comuns são superiores às médias em toda a União Europeia), a grande aposta continua na prevenção. Sem alarmismos, Mónica Gomes reconhece que, dados os “riscos acrescidos” aos 60 anos, “é muito importante estar alerta, atento aos sinais” e, claro, fazer sempre os rastreios necessários. Por isso, recorda, “é que os rastreios ao cancro da mama e as colonoscopias são feitos a partir dos 50 anos”.

Mas a prevenção passa também, e sobretudo, pela promoção de hábitos de vida saudáveis. E atenção: vai sempre a tempo!, ou seja, “a prevenção do cancro é possível em qualquer idade e nunca é tarde para começar”, defende Mariana Malheiro Rodrigues. Fátima Vaz partilha da mesma opinião: “O ideal é começar o mais cedo possível a fazer uma vida saudável. Mas mesmo que comece só aos 60 anos, ainda vai a tempo!”, sublinha.

A oncologista do IPO destaca a importância de uma alimentação saudável, dos malefícios do tabaco e do álcool (no limite, duas bebidas diárias no homem e uma na mulher), mas também da importância do controlo do peso e da prática do exercício físico. “O exercício é muito importante. Pode prevenir a obesidade, que é um fator de risco para muitas doenças, e aumentar a capacidade pulmonar. E, ao ajudar a controlar o peso, há uma regulação de algumas hormonas e do sistema imunitário, o que faz com que esteja associado à prevenção de 15 tipos de cancro”.

A maior parte dos casos de cancro ocorre entre os 60 e os 74 anos. É claramente uma doença dos mais velhos

Fátima Vaz, Diretora do Serviço de Oncologia Médica do Instituto Português de Oncologia de Lisboa

De facto, vários estudos têm vindo a comprovar os benefícios do exercício físico na prevenção do cancro (uma pesquisa recente, publicada na JAMA Oncology, e que contou com uma amostra de 22 mil pessoas, revela que apenas um ou dois minutos de exercício vigoroso intermitente por dia são suficientes para reduzir o risco), mas também no tratamento e na recorrência da doença – para os sobreviventes dos diferentes tipos de cancro, a American Cancer Society indica a prática de pelo menos 150 minutos de atividade física de intensidade moderada ou 75 minutos semanais de intensidade vigorosa.

A importância é tal que, em alguns casos, defende Fátima Vaz, “devia ser o médico de família a prescrever exercício físico”, porque há pessoas “que precisam da orientação de um profissional”. Aliás, prossegue, o médico devia ter um papel mais ativo na promoção de estilos de vida saudáveis: “Devia haver planos personalizados de promoção de saúde, adequados a cada pessoa.”

Mariana Malheiro Rodrigues vai mais longe: está provado que “as escolhas de estilo de vida podem afetar as hipóteses de ter uma doença oncológica” diz, mas reconhece que “mudar o comportamento humano não é fácil” e que pouco tem sido feito. “Fazer com que mais pessoas adotem e sigam os comportamentos preventivos, especialmente entre grupos, tem sido pouco promovido e isto poderia reduzir significativamente o número de pessoas diagnosticadas com cancro.”

Com tantas vantagens comprovadas e ainda tanto para fazer, poderá estar na hora de dar o primeiro passo… seja ele qual for. Pela sua saúde.

Berta Teixeira, 72 anos

“Fiquei revoltada!”

Todos os anos, invariavelmente de seis em seis meses, Berta Teixeira fazia consultas e exames de rotina. Por isso, a surpresa não podia ser maior quando lhe foi diagnosticado um cancro nos ovários

Aconteceu há dois anos. Berta Teixeira, então com 70 anos, reformada, estava a estender a roupa quando, ao roçar com a barriga no parapeito, sentiu uma dor. “Aquilo passou, mas quando ia evacuar, a dor voltava… e tornava a passar”, conta. O “grande susto” veio depois, com a urina meio cor-de-rosa, o que parecia indiciar a presença de sangue. Não hesitou e foi à médica, que lhe prescreveu os exames necessários. Dias depois, o relatório da ecografia sugeria “um estudo mais aprofundado”. Novos exames e o diagnóstico cruel: um carcinoma no ovário esquerdo, alojado entre o útero e o intestino.

“A médica disse-me logo que era maligno e que tinha de ser operada”, recorda, confessando ter ficado “um bocadinho revoltada” porque, diz, “eu sou uma pessoa que tem muito cuidado com a saúde: vou ao médico e faço sempre os rastreios a horas, tenho uma alimentação saudável, não fumo nem bebo, faço caminhadas…”. Um pouco “descontrolada”, lá acalmou com as palavras da médica, que lhe explicou que “este tipo de tumor, quando é pequeno, esconde-se, é difícil de ser detetado e, quando já está grande, tenta alojar-se noutro sítio e é assim que geralmente é descoberto, que foi o que me aconteceu”.

Recuperou “muito bem” da cirurgia e, dois meses depois, iniciou os tratamentos de quimioterapia. E foi então que se deu o “grande choque”, conta. “Ao fim de cinco dias da primeira sessão, começou a cair-me o cabelo. Eu sempre disse que não me importava se isso viesse a acontecer, mas quando a minha filha me rapou o cabelo e me vi ao espelho pensei: ‘É o meu fim!’ Foi, de facto, a pior coisa que me aconteceu!”

Na altura, a filha e a neta deram-lhe forças e não a deixaram esmorecer. Acabou por sair de casa da filha com um lenço na cabeça e depressa o choro deu lugar ao riso. “Sempre fui assim e foi isso que sempre me ajudou.” Aceitou o novo visual e até passou a gostar de se ver com lenços e boinas.

A quimioterapia decorreu sem grandes sobressaltos durante três meses, seis sessões de 22 em 22 dias. Tirando as náuseas à carne e ao peixe, que lhe dificultavam a ingestão destes alimentos (a certa altura, ganhou uma anemia), “tudo correu muito bem”. Hoje, já só toma medicação por via oral e aguarda com expectativa os exames finais, que estão para breve. “Estou quase curada”, revela, otimista. O “efeito dos químicos” ainda se faz sentir – os enjoos e as náuseas (que persistem) a certos alimentos, o formigueiro nas pontas dos dedos e as dores nas articulações –, mas sente-se “muito bem”.

“Sou uma sobrevivente!”, dispara. “Só ainda não consigo fazer o meu tricô nem coser à máquina por causa da falta de sensibilidade nos dedos”. Quando ao resto, o cabelo cresceu, já retomou as caminhadas e “os ovários não fazem falta nenhuma”, conta, divertida. E, tal como antes, não para em casa. Faz questão de deixar um elogio sentido a todos os médicos e enfermeiros que lhe “salvaram a vida” mas, reconhece, foi fundamental o rastreio e o diagnóstico atempado. “Só consegui superar tudo porque fui diagnosticada a tempo!”

Artigo publicado na VISÃO Saúde nº 34

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