A ecologia perdeu-se no marketing. Hoje, tudo é “sustentável”. Dos copos de café às grandes corporações, das marcas de roupa às campanhas políticas. A palavra virou um acessório. Um filtro de imagem. Um argumento de venda.
E isso é trágico, porque quanto mais se fala de sustentabilidade, menos genuína ela parece. O ecológico deixou de ser uma causa e passou a ser uma estratégia.
As empresas não querem mudar o mundo, querem parecer que estão a mudar o mundo. E o “verde” deixou de ser um compromisso para se tornar um produto.
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Falo disto com consciência, porque vivo dentro deste tema todos os dias. Trabalho na indústria da madeira para construção, onde a palavra sustentabilidade não é um conceito — é uma realidade física. A verdadeira força da madeira está na sua sustentabilidade natural — a capacidade de guardar o carbono que o betão e o aço libertam para a atmosfera.
Mas mesmo com as características naturais do produto, há sempre pontos a melhorar, como na extração, na transformação e no transporte. Prefiro ser honesto: fazemos o melhor possível, e ainda há muito por fazer. Porque a sustentabilidade que interessa não é a perfeita, é a autêntica.
Quando se faz uma campanha com uma árvore no logótipo e um parágrafo sobre “respeito pelo planeta”, isso não é sustentabilidade, é teatro. E é precisamente por isso que me custa ver o termo ser esvaziado até à exaustão.
O que devia ser uma missão tornou-se um argumento de marketing. O que devia ser consciência virou tendência. E o que devia unir-nos enquanto sociedade passou a dividir-nos entre os que “parecem” e os que “fazem”.
É por isso que digo, sem hesitar: o futuro não é verde — é humano.
O futuro será feito de autenticidade, de coerência, de coragem para fazer diferente. De marcas que percebem que ser sustentável não é plantar árvores — é mudar mentalidades.
Porque no fim, o planeta não precisa que o salvem — precisa que o respeitem. E quando percebermos isso, talvez deixemos de usar a natureza como cenário e passemos a tratá-la como aquilo que realmente é: a nossa casa.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Filho da cineasta Mira Nair e casado com a artista sírio-americana Rama Duwaji, Zohran Mamdani é o novo mayor de Nova Iorque. Um socialista de 34 anos, muçulmano, nascido no Uganda, que aprendeu com a mãe a filmar o mundo e com a mulher a redesenhá-lo.
Quando Mira Nair filmou Salaam Bombay! em 1988, o seu filho Zohran ainda não tinha nascido. Mas tudo o que viria a moldar o seu olhar talvez estivesse ali: o caos das ruas, os miúdos sem voz, a dignidade possível no meio da pobreza e a convicção de que o cinema, como a política, serve para devolver humanidade a quem o sistema esqueceu. Quase quatro décadas depois, o miúdo cresceu e fez daquelas imagens uma herança moral. Aos 34 anos, Zohran Mamdani é o novo mayor de Nova Iorque, o primeiro muçulmano a chegar ao cargo, o mais jovem desde o século XIX, e o que Donald Trump já classificou como “um comunista lunático”. O que não deixa de ser, no currículo americano, uma espécie de medalha de honra.
A sua vitória é improvável e simbólica: começou com 1% nas sondagens, venceu Andrew Cuomo, ex-governador e peso-pesado do Partido Democrata, e mobilizou mais de noventa mil voluntários numa campanha que misturou política de rua e guerrilha digital. Três ideias simples — autocarros gratuitos, congelamento das rendas e creches acessíveis — bastaram para o transformar num fenómeno popular. Não era só o que dizia, era como o dizia: direto, empático, divertido, filmado em vídeos curtos com um “Z” em fundo. Uma estética de movimento, não de marketing.
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Mas o verdadeiro filme desta história começa muito antes. Mira Nair, a mãe, é uma das cineastas mais respeitadas da Índia e do mundo. Em Salaam Bombay!, deu rosto às crianças invisíveis; em Mississippi Masala, filmou o amor entre uma jovem indiana e um homem negro no sul dos EUA; em Casamento Debaixo de Chuva, transformou um casamento arranjado num retrato vibrante das contradições da sociedade indiana. Sempre à margem de Bollywood, sempre próxima da realidade. O cinema dela é o contrário do exotismo turístico: é político porque é humano. “Se não contarmos as nossas próprias histórias, ninguém o fará”, costuma dizer. Zohran cresceu a ouvir essa frase e a aplicá-la, anos depois, na política.
É fácil perceber de onde vem a sua visão do mundo. Nascido em Kampala, filho de uma indiana e de um antropólogo ugandês, cresceu entre África, a Índia e Nova Iorque, sempre entre culturas, sempre entre fronteiras. A política multicultural que hoje defende — inclusão, habitação, igualdade — não é programa partidário: é biografia. Cada uma das suas propostas tem o mesmo ADN da obra da mãe: dar voz aos que não cabem na narrativa oficial. E se Mira Nair sempre filmou o invisível, Zohran tenta agora governar por eles.
Ao lado dele está Rama Duwaji, 28 anos, a mulher, artista sírio-americana, ilustradora, designer e nova-iorquina por adopção. Conheceram-se no Hinge — sim moderno, um aplicativo de encontros — e casaram-se discretamente não muito antes da eleição. Durante a campanha, Rama ficou longe dos holofotes do marido, mas foi a mente criativa por trás da imagem de Zohran: o logótipo, as cores fortes (amarelo, laranja e azul), a iconografia de movimento. Enquanto os adversários o acusavam de “esconder” a mulher, ela desenhava a revolução.
O trabalho de Rama — exposto na BBC, no New York Times, no Washington Post e na Tate Modern — é um prolongamento artístico das causas do marido: Palestina, migração, desigualdade, resistência feminina. As suas ilustrações, quase sempre a preto e branco, retratam mulheres árabes, comunidades oprimidas e um mundo que se equilibra entre ternura e violência. “A arte é sempre política, mesmo quando finge que não é”, disse recentemente. É o mesmo princípio que orienta Zohran: a política é narrativa, e quem domina o enquadramento domina o poder.
Há uma coerência rara nesta tríade familiar. Mira Nair construiu uma carreira a mostrar o que o mundo preferia ignorar; Zohran aprendeu a dar voz a quem não é ouvido; Rama desenha aquilo que ainda não se consegue dizer. Entre a câmara, a palavra e o traço, formam um retrato improvável do novo poder nova-iorquino: multicultural, feminino, intelectual e empático, mas também combativo.
É cedo para saber se Mamdani conseguirá cumprir as promessas que o elegeram. A máquina que agora dirige tem 300 mil funcionários e um orçamento que ultrapassa o PIB de muitos países. As resistências internas serão ferozes. A imprensa de direita já prepara o guião da queda: cada falha do metro, cada crime nas ruas, cada decisão impopular servirá para provar que “o socialismo não funciona”. Mas, por agora, Zohran encarna o oposto de Trump: juventude, diversidade, empatia. É o retrato de uma América que ainda acredita que a política pode ser mais parecida com um filme da mãe e menos com um reality show de Trump.
No fundo, é esta a beleza da história: o novo mayor de Nova Iorque cresceu num set de filmagens, habituado a ver a câmara apontada para o lado certo. Aprendeu com Mira Nair que o poder de uma imagem é maior do que o de um discurso, e com Rama Duwaji que o design de uma ideia é tão importante quanto o seu conteúdo. Entre o cinema da mãe e a arte da mulher, Zohran Mamdani está agora a tentar filmar o seu próprio guião e, por uma vez, Nova Iorque parece pronta para o papel principal.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Ainda era cedo, talvez. Mas foi onde nasceu a ideia deste livro: reta final da campanha das legislativas de 2024, numa reunião no Expresso onde se decidiam os temas que iríamos tentar explorar naquelas últimas semanas. Recorde-se: o governo de António Costa tinha caído, às mãos de uma investigação judicial que entrara pela porta do Palácio de São Bento, assim como noutros ministérios. Montenegro era candidato, Pedro Nuno tinha assumido a sua cadeira de sonho no PS. André Ventura era ainda, nesses dias, apenas o líder do terceiro maior partido, partindo de apenas 7% dos votos (cerca de 400 mil) e 12 deputados.
Na semana anterior, porém, tínhamos recebido os dados da nossa sondagem com perplexidade: cerca de 20% dos portugueses admitiam votar no Chega naquelas eleições. Hesitámos na formulação – era um salto enorme, inesperado naquela dimensão, apesar de todos sentirmos que era inevitável (para mais, naquele contexto) um novo salto do jovem partido de direita radical. Mas fizemos o que devia ser feito: era a manchete da edição semanal.
Foi nesse contexto que a ideia surgiu naquela reunião: e se fizéssemos o exercício de antecipar o que faria o Chega no governo? A pergunta ecoou sem resposta na sala de reuniões, onde nos observa sempre, da parede, uma fotografia dos três fundadores do Expresso no momento da primeira edição – que Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa e Augusto de Carvalho criaram ainda em ditadura. A maioria dos editores e dos diretores presentes sentiu que aquele trabalho não devia ser feito, usando bons e justos argumentos. Era ainda cedo, talvez.
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Alguns dias depois, sabemos agora, o Chega conseguiu os 18% naquelas legislativas. Um milhão, cento e setenta mil votos. 50 deputados. Um resultado nunca antes visto num terceiro partido, mesmo acima do PRD de 1985. Na Revista da edição seguinte, a Ângela Silva faria um trabalho ilustrado por uma pizza dividida em três quase de forma simétrica, explicando que o nosso sistema político tinha acabado de presenciar uma revolução. Confirmou-se a cada passo dos meses seguintes: três grandes partidos, um populista entre eles, sempre dançando um tango que não era confortável para ninguém.
O telefonema da Porto Editora apareceu no final desse ano, incitando-me a escrever um livro sobre o desafiante momento que vivem as democracias. Eu tinha passado os últimos anos a ler sobre o tema, sem conseguir adivinhar que a dúvida que me assaltava em países como os EUA, a Hungria e a Polónia chegaria aqui tão rapidamente. Mas preparava-me para refletir toda essa informação num adiado doutoramento. Hesitei, mas o incentivo da minha mulher deu-me o impulso: aceitaria escrever sobre o tema, teria apenas de pensar bem na estrutura e no registo. A introdução nasceu pouco depois, por instinto, porque tinha o pressuposto bem claro: o que acontece se o Chega ganhar? Decidi ficcionar esse dia, numa espécie de distopia, apenas para que o leitor sentisse aquele como o seu dia, o dia de uma enorme surpresa.
Depois disso, o livro ficou em suspenso. Apareceu a Spinumviva – dossier que o Expresso acompanhou de forma irrepreensível – e depois a crise política. Não tinha ainda encontrado o tempo, nem o registo para o que teria de escrever. Mas naquele dia 18 de maio, ao conhecer os resultados, percebi que não tinha mais como esperar. Foi por aí, numas curtas férias, que desenhei a estrutura, capítulo a capítulo, e que percebi que o registo só podia ser aquele em que me sinto confortável: seria uma análise perspetiva, sim, mas inteiramente jornalística. Na prática, seria como escrever sete newsletters densas, mas divididas, que pudessem ler-se consoante o interesse do leitor, mas com pés bem assentes na realidade que, entretanto, avançava de forma muito mais rápida do que poderíamos esperar.
Naqueles meses, Trump tinha voltado à Presidência dos EUA, com muito mais força e poder do que antes. Naqueles meses, o Chega, por cá, tinha-se tornado o segundo partido populista com a progressão eleitoral mais rápida da União Europeia.
Foi assim que começou o Como Proteger a Democracia, que está nas livrarias desde o final da semana. Que não é, nem podia ser, um livro sobre o Chega. É sobre a direita radical, claro, mas também sobre nós. Explico-lhe brevemente.
Há muitas notícias, muitos artigos, muitas reportagens, estudos, entrevistas, conversas, até já há alguns livros sobre o Chega e André Ventura. Li muitos deles e são úteis, alguns mesmo bons, para nos dar elementos sobre este novo mundo em que entrámos. Mas excetuando as investigações jornalísticas, ou algumas investigações académicas, a discussão pública sobre o partido segue o espírito dos tempos: há alguns (poucos) livros que são elogios a Ventura e ao movimento que ele criou, e do outro lado muitas críticas, emocionais, apaixonadas, mais ou menos racionais.
O que senti que fazia falta era um exercício diferente: sem prescindir dos factos, mas tentando distanciar-me, perceber e explicar tudo o que está a mudar nas nossas vidas com estes partidos de direita radical que tanta influência e peso eleitoral ganharam no Ocidente, nos últimos anos. É por isso que o livro começa por falar da “nossa desilusão”, que só depois perspetiva os primeiros dias de um governo do Chega com base nas nossas regras, assim como nas promessas e nos discursos de Ventura. É por isso que depois procuro “Um padrão” nos países onde essa direita radical está no poder, para demonstrar que riscos existem, para quem e que impacto terá cada decisão.
Olhando para as decisões, para o método, explico friamente que devemos separar neles – nos populistas – o que são ideias legítimas (gostemos dessas propostas ou detestemo-las) das que podem representar riscos sérios para as democracias. Porque o maior perigo está naqueles passos, naqueles discursos, naquelas ordens desses governos que ultrapassam as regras, minam as instituições, destroem décadas ou séculos de História. E porque a democracia não é só a possibilidade do voto livre, são essas regras, tradições, instituições que nos permitem conviver uns com os outros de forma livre, ainda que divergindo completamente. Leis que permitem a convivência e nos garantem a expectativa de que, um dia, outra eleição pode mudar as coisas.
Neste livro, parto daí para explicar o rasto que essas decisões mais perigosas deixam nos países e em nós, cidadãos. Há um capítulo, também, para contar como correram as experiências dos outros partidos para lhes tirar peso, país a país – é onde entram Luís Montenegro e a sua AD. E outro para demonstrar como o famoso “teto” para o crescimento do Chega não para de subir. O capítulo final, sem querer estragar-lhe o suspense, é mesmo o desafio que paira sobre todos nós: se é assim, se o Chega pode realmente vencer uma das próximas eleições; se nesse momento Ventura poderá legitimamente ser o primeiro-ministro de todo o País; nesse momento, o que nos resta fazer? O que podem fazer os outros partidos, os empresários, as universidades, cada um de nós enquanto cidadãos? E os média?
Escrever o Como Proteger a Democracia foi um exercício de realismo, mas também de contenção. Eu sou jornalista e devo a quem me lê o máximo rigor possível e a maior isenção de que sou capaz. Na verdade, nesta profissão somos escrutinados por todos – serei seguramente lido pelos maiores críticos de Ventura, assim como pelos seus apoiantes. Procurei, como sempre procuro, ser justo. Não perante uns e outros, mas perante os factos. Porque só assim respeito a minha função. E porque só assim conseguirei (espero) chegar a tantos outros leitores e cidadãos, aqueles que se mantêm firmes na vontade de ler, ouvir, refletir para decidirem os seus próximos passos, o próximo voto, ou o seu lugar no mundo. Foi especialmente nesses de nós que pensei ao longo destes meses, naqueles que resistem aos algoritmos, à radicalização absoluta e que mantêm “liberdade para pensar” – o cada vez mais oportuno lema do jornal em que orgulhosamente trabalho.
Ao fim destas 227 páginas, espero ter cumprido pelo menos esse objetivo. No estranho mundo em que estamos, acredito firmemente que cada um de nós tem um pequeno papel a desempenhar, na reconstrução de um sítio que seja melhor para vivermos, juntos e em são convivência. E sim, acredito também que, não sendo já cedo,“ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde”*.
*Do mestre Manuel António Pina
A Europa começa sempre pelo mesmo erro: acreditar que o tempo é infinito. Foi assim em 1914, foi assim em 1939, e é assim agora, quando, pela primeira vez em décadas, se admite sem disfarce que “a Europa está em guerra”. A frase, dita por Ursula von der Leyen no seu discurso sobre o Estado da União, não é apenas um alerta: é uma confissão. A confissão de um continente que perdeu o controlo da sua própria narrativa.
De tanto delegar a sua defesa, a Europa tornou-se refém daquilo que não construiu. Antes fazia outsourcing da segurança aos Estados Unidos através da NATO; agora fá-lo através da Ucrânia. E paga por isso, paga com milhões, com a inflação, com a lentidão do crescimento e com a erosão da confiança política. Desde 2022, a União Europeia já canalizou mais de 170 mil milhões de euros em ajuda à Ucrânia. É o maior esforço financeiro da sua história fora das suas fronteiras, sem que isso lhe traga qualquer retorno estratégico claro, a não ser a promessa de uma segurança que continua dependente dos outros.
Ao mesmo tempo, cresce dentro da própria União o coro da desconfiança. O grupo de Visegrado – Orbán, Fico e o governo checo – questiona o rumo comum, ora por afinidades com Moscovo, ora por mero oportunismo político. Em Espanha, a diferença de tom face à NATO e à guerra de
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Gaza revela outro tipo de fratura: a de quem quer pertencer à Europa, mas não à mesma Europa. Há ainda o mal-estar de muitos partidos que, à direita e à esquerda, exploram a fadiga dos cidadãos e o medo de um futuro sem norte.
É neste contexto que a frase de Von der Leyen ganha peso: se a Europa está em guerra, com que exército, com que comando e com que propósito? O continente que inventou o conceito de soberania partilhada é hoje incapaz de a exercer. Falta-lhe capacidade industrial, falta-lhe defesa integrada, falta-lhe um horizonte económico. Falta-lhe, sobretudo, uma geração de líderes que saiba dizer para que serve a Europa, não como ideia, mas como destino.
Enquanto o mundo se reorganiza – com a Ásia a crescer, o Sul Global a industrializar-se e os EUA a reconstruírem a sua economia com o dinheiro europeu, a Europa hesita. Isto já para não falar do gigante chamado China. O tempo que dedica à gestão das crises internas é o tempo que perde na corrida tecnológica, energética e industrial. A guerra híbrida dos drones e da desinformação é travada com arsenais de 1990. A ambição digital de Bruxelas fica na gaveta quando Berlim e Paris divergem. E o artigo 7º, suposto instrumento para proteger a democracia dentro da União, não passa de uma ameaça sem dentes: exige unanimidade entre os mesmos que dela abusam. Mas o maior perigo é outro – é a erosão da crença. A geração que cresceu com Erasmus, viagens sem fronteiras e a moeda única já não vê na Europa o mesmo farol. Falta-lhe épica, falta-lhe voz. Nenhum líder europeu, neste momento, tem o magnetismo político capaz de reencantar os jovens com o projeto europeu. A Europa não se perderá por um veto de Orbán ou por um orçamento falhado. Perder-se-á no dia em que os europeus deixarem de acreditar que vale a pena defendê-la.A adesão da Ucrânia à União Europeia pode, nesse sentido, ser mais do que um gesto simbólico: pode ser o início de uma refundação. Uma Europa que volta a acreditar em si mesma, que entende a defesa como parte da sua soberania, que percebe que financiar Kiev é, afinal, investir em si própria. Uma Europa que não é apenas um banco nem um espectador de guerra, mas um ator político com vontade, estratégia e memória. Se não o fizer, ficará condenada à irrelevância. E a História será escrita, mais uma vez, por quem não acreditou na Europa, mas soube prever o seu silêncio.
Há quem vá ao ginásio para esculpir músculos; há quem vá à terapia — ou ao confessionário, para os mais tradicionais — para esculpir a alma. E depois há quem, sem sair do sofá, nem levantar um dedo para construir algo de valor, dedique a vida inteira a esculpir reputações alheias. Com a precisão de um escultor renascentista, sim, mas com a ética de um carrasco que cobra por cada golpe. Falamos da maledicência: esse passatempo nacional tão enraizado na cultura portuguesa que já merecia um museu próprio, talvez em plena Baixa lisboeta, entre lojas de souvenirs para os turistas e cafés onde o espresso vem com uma pitada de coscuvilhice. Não se trata apenas de “dizer mal”; trata-se de uma performance social meticulosamente ensaiada, onde o outro é reduzido a matéria-prima para o espetáculo do eu. E, como todo o bom espetáculo, exige plateia: um ouvido complacente, um like, um “pois é, também reparei”, um “não me admira nada”. É nesse pacto mudo entre falador e ouvinte que a faca se afia — e as costas alheias, impiedosamente, se oferecem como alvo.
Gil Vicente, esse mestre do teatro moral e satírico do século XVI, já denunciava essa duplicidade com uma lucidez que faz arder os ouvidos dos hipócritas de todos os tempos. Embora a frase “Mais vale saber calar que saber falar” lhe seja popularmente atribuída — sem que conste nas edições críticas das suas obras —, o espírito está lá, vivo e incisivo. Nos seus autos, padres fingidos pregam caridade enquanto tramam heranças; viúvas choram com os olhos secos; fidalgos gabam-se de virtudes que nunca tiveram. No “Auto da Lusitânia”, alguém adverte: “Quem fala muito, pouco acerta.” Vicente sabia: quem não se cala, muitas vezes, não fala — apenas esfaqueia com palavras. Hoje, os trajes mudaram, mas o jogo é o mesmo. Os beatos de então são os “influenciadores de opinião” de agora; os murmúrios do claustro tornaram-se comentários anónimos sob notícias; a rua transformou-se num golpe de Twitter, onde cada palavra pode ser uma navalha. A diferença? Vicente escrevia sabiamente para provocar reflexão. Muitos dos nossos contemporâneos escrevem — ou melhor, digitam — para provocar o linchamento.
Mas não nos iludamos: a maledicência não é um deslize de linguagem, nem um simples excesso de sociabilidade. É, segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, uma forma de violência simbólica — aquela que não deixa hematomas visíveis, mas corrói a dignidade, mina a autoestima e isola socialmente a vítima. Ao falar mal de alguém — especialmente nas suas costas —, o maldizente não apenas o julga; atribui-se, a ele próprio, um lugar de superioridade moral. Cria, assim, uma hierarquia invisível, mas profundamente sentida: “eu falo, logo sou melhor”. E, como toda a violência, a maledicência também se disfarça. Veste-se de preocupação (“Só estou a alertar…”), de justiça (“É preciso que se saiba a verdade…”), ou até de humor (“É só uma brincadeira…”). Mas por baixo da máscara, a intenção é sempre a mesma: diminuir o outro para se sentir maior. E, num tempo de crise de sentido, onde tantos se sentem pequenos perante um mundo complexo e incerto, espetar uma faca metafórica nas costas alheias torna-se um substituto acessível — e até aditivo — de realização pessoal.
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O filósofo francês Alain — cujo lema poderia muito bem ser “pensar é recusar” — via na crítica fácil um sinal de preguiça intelectual. Quem não consegue confrontar uma ideia com inteligência, ataca covardemente o seu portador. Quem não suporta a ambiguidade da existência, reduz o outro a um rótulo simplório: “falso”, “arrogante”, “invejoso”. É mais fácil destruir um nome do que compreender uma alma. E é ainda mais fácil fazê-lo quando o alvo não está presente para se defender — condição essencial da maledicência, aliás: ela floresce à sombra da ausência. Nas redes sociais, essa ausência é garantida: o outro é apenas um avatar, um nome, uma fotografia. Desumanizado, torna-se alvo perfeito. E os meios de comunicação, por vezes cúmplices conscientes ou inconscientes, amplificam essa lógica ao transformar figuras públicas — e até privadas, arrastadas pela voragem do escândalo — em personagens de uma telenovela moralista, onde o julgamento precede — e substitui — a informação.
Contudo, há antídotos — ou, pelo menos, anteparos éticos que atenuam o veneno. O primeiro é a empatia: essa capacidade rara, mas essencial, de imaginar o que custa ser espetado por mil línguas afiadas sem poder responder. O segundo é o silêncio: não o silêncio cúmplice, mas o silêncio consciente, aquele que se recusa a alimentar a fogueira com lenha alheia. E o terceiro é uma máxima moral de origem antiga, frequentemente — embora incorretamente — atribuída a Sócrates: antes de repetir algo sobre outrem, perguntar-se: “É verdadeiro? É necessário? É benéfico?” Independentemente da sua proveniência exata, a pergunta permanece luminosa. Frases assim não destroem; constroem.
No fundo, a maledicência revela sempre mais sobre quem fala do que sobre quem é falado. Quem passa a vida a espetar facas nas costas dos outros acaba por se tornar, ele próprio, uma sombra — sem rosto definido, sem luz própria e com as mãos, sempre, sujas de sangue alheio. E enquanto uns constroem pontes com palavras, outros constroem cemitérios. A escolha, felizmente, ainda é nossa. Pelo menos até que o algoritmo decida por nós.
Ridendo castigat mores. Rir da hipocrisia ou – ignorá-la – é o primeiro passo para não a praticar.
Barnahus é uma palavra ainda estranha para nós, mas que há muito tem viajado pelos sistemas de proteção das crianças na Europa. Em português significa “casa das crianças” e dá significado a um modelo criado em 1998 na Islândia e que tem sido internacionalmente reconhecido como uma boa prática de intervenção multidisciplinar e adaptativa. Proporciona às crianças e aos jovens vítimas ou testemunhas de violência uma resposta abrangente e coordenada, em ambiente seguro, prevenindo a (re)traumatização nos procedimentos judiciais e possibilitando a obtenção de um meio de prova válido, aumentando as percentagens de condenações.
O modelo consiste em reunir todos os serviços importantes numa casa, ou num espaço físico, que garanta um atendimento multissetorial da criança ou da vítima: acompanhamento médico e/ou psicológico, assistência por técnico de apoio à vítima e, finalmente, a sua audição, para prova no(s) processo(s).
Este modelo foi inicialmente criado para os crimes de abuso sexual de menores, tendo resultado na duplicação do número de condenações na Islândia por esse crime. O seu sucesso levou a que o modelo fosse progressivamente implementado um pouco por toda a Europa.
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Mas os bons resultados do modelo permitiram também que fosse aplicado quando estejam em causa outros tipos de crime com violência, seja física, psicológica e/ou emocional: violência doméstica, mutilação genital, tráfico de pessoas, ciberbullying, etc. E também que tenha sido alargado a vítimas adultas, quando o impacto da violência exija uma resposta eficaz e adaptada.
Portugal é, infelizmente, um dos poucos países que ainda não acolheram este modelo no seu sistema, sem prejuízo de, em 2021, ter lançado (com a iniciativa 4children) as bases para a sua adaptação – que está há dois anos prevista em resoluções do Conselho de Ministros ou na Estratégia Nacional para os Direitos das Vítimas de Crime 2024-2028, que preconiza a adaptação deste modelo à realidade portuguesa e a criação de um projeto-piloto.
A sua implementação é uma urgência nacional, mas o Governo Regional da Madeira iniciou recentemente os trabalhos para a sua introdução no arquipélago. Por outro lado, em algumas comarcas, como Porto ou Faro, já se experimentou um modelo próximo do Barnahus na audição de crianças, por um técnico. Não obstante esta solução estar próxima das orientações e dos princípios internacionais em matéria de justiça child-friendly e adaptações processuais, muitas dúvidas têm sido colocadas quanto à sua legalidade, levando a impugnações das diligências e à sua subsequente repetição.
Desta forma, afigura-se essencial, para a concretização do modelo Barnahus, proceder às necessárias alterações legislativas, desde logo quanto ao regime das declarações para memória futura, de modo a permitir a tomada de declarações num local fora do Tribunal (mas, sim, na referida casa das crianças), com a intervenção ativa de um técnico especializado e a aplicação das adaptações processuais necessárias.
Idealmente, as perguntas serão colocadas pelo técnico, que terá comunicação (por auricular) com os intervenientes processuais – juiz, procurador, advogados –, permitindo uma inquirição ajustada às circunstâncias pessoais da vítima. As declarações serão registadas em suporte áudio e vídeo, podendo ser usadas como meio de prova tanto no processo-crime, como também no processo de promoção e proteção e na regulação das responsabilidades parentais, nos quais são tomadas decisões quanto ao menor.
A alteração do regime das declarações para memória futura, ao abrigo do modelo islandês, permitirá uma maior credibilidade do testemunho e, consequentemente, da valoração desse meio de prova em julgamento, aumentando a probabilidade de condenação do agressor. Deverá, por outro lado, ser estendido o seu âmbito a outras vítimas, como adultos (em crimes violentos) e pessoas especialmente vulneráveis ou fragilizadas (sobretudo vítimas de violência doméstica, idosos e pessoas com deficiência).
Diz o ditado popular que mais vale tarde do que nunca. Esperemos, pois, que o Governo avance rapidamente com a implementação do modelo Barnahus. Quase 30 anos depois, ainda vem muito a tempo de melhorar o nosso sistema de proteção das vítimas e das crianças, em especial.
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No dia 27 de outubro, a OpenAI publicou uma carta aberta, exortando o governo dos Estados Unidos da América a investir na rede energética. Não surpreende. Dias antes, tinha divulgado o acordo com a Oracle para a construção de novos data centers. Esta infraestrutura, a somar a outros data centers já anunciados, só será rentável com energia barata. No seu mais recente relatório, a Agência Internacional de Energia (AIE) estima que o consumo de energia dos data centers atinja 945TWh em 2030, o dobro face ao valor de 415TWh, no ano passado.
O custo ambiental associado é brutal. Atualmente, apenas 27% da energia consumida nos data centers provém de energias renováveis (solar, eólica e hídrica). O gás natural representa 26% da energia consumida, mas estima-se um crescimento significativo face às políticas pró-gás da Administração Trump e uma vez que os data centers serão na sua maioria construídos nos EUA.
Ao custo ambiental soma-se o custo financeiro da construção das infraestruturas de produção de energia. Esse, a ser partilhado com os consumidores. O objetivo da carta é que o Estado (americano e os demais onde data centers sejam anunciados – e há vários anunciados na Europa) suporte o investimento. O Estado são os cidadãos, como consumidores – cuja fatura de eletricidade aumenta – e como contribuintes, impostos que serão priorizados para este fim ou para suportar os juros da dívida pública emitida para construir a infraestrutura. E, embora não se questione o papel do Estado na construção de infraestruturas básicas, importa ter presente que este aumento exponencial de capacidade só é necessário porque as big tech recusam qualquer limitação à quantidade de energia consumida 24/h dia, sete dias por semana.
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Ou seja, a OpenAI quer uma infraestrutura paga pelos consumidores/contribuintes para permitir um consumo a 100%, a 100% do tempo. Na perspetiva do seu negócio, é totalmente justificável. Se todos os utilizadores, às 24 horas do dia 31 de dezembro, pretenderem converter uma foto ao estilo de um desenho animado japonês, deverão poder fazê-lo. Mas numa perspetiva de gestão de recursos, que são finitos e que têm um impacto ambiental muito significativo, impõe-se regulação para uma gestão eficiente da rede elétrica, que é um bem comum.
O consumo de água e o stresse provocado nos lençóis freáticos é outro dark side do negócio, que a OpenAI prefere não abordar na carta aberta. Os chips são sensíveis e para garantir o seu bom funcionamento há que construir os data centers em locais de baixa humidade, com temperaturas amenas (idealmente entre 18°C e 27°C) e com acesso a água. E, embora água dessalinizada possa ser utilizada, as empresas preferem utilizar água doce, pois provoca menos danos no equipamento. Chama-se nuvem, mas os data centers não estão no céu, mas no solo, em zonas com climas áridos, onde os lençóis freáticos já estão muito stressados pelo consumo agrícola e humano.
As big tech têm recusado divulgar dados exatos sobre a utilização quer de energia, quer de água, nos data centers. Na sequência de um estudo aprofundado realizado pela conceituada MIT Technology Review (a revista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts), a Google divulgou que cada promp consumia em média 0.26 mililitros de água. Mas o número por si não significa nada. O objetivo, aliás, parece ser tranquilizar-nos. Afinal, o que são cinco gotas de água… Mas tal é enganador. O Lawrence Berkeley National Laboratory estimou que, em 2023, o consumo de água pelos data centers localizados no território americano atingiu 64 mil milhões de litros e que, em 2028, tal valor poderá quadriplicar, face aos constantes anúncios de novas infraestruturas. Se a utilização de água potável de rios e lençóis freáticos não for regulada, o custo para a ecologia e as populações locais será suportado pela comunidade e não pelos acionistas das big tech. Afinal, em 2028 não vai chover quatro vezes mais…
As ações da Oracle e de outras big tech continuarão a valorizar-se a cada novo anúncio. E com razão… Afinal, grande parte dos investimentos (e dos custos associados) é suportada pelo contribuinte e não pelo acionista. Assim será, enquanto os Estados não assumirem uma regulação efetiva das infraestruturas.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
“É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma.” A famosa citação de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, é repetida com um encolher de ombros por muitos dos desiludidos do Bloco de Esquerda, perante a saída de Mariana Mortágua e o anúncio da sua substituição por José Manuel Pureza. É certo que há uma convenção marcada para o último fim de semana de novembro, mas daí ninguém espera sobressaltos nem novidades face ao que foi anunciado no domingo depois de uma reunião da Moção A, que decidiu que Pureza seria o candidato a coordenador do partido e que o lugar de deputado único seria ocupado rotativamente por Fabian Figueiredo e Andreia Galvão. Se a oposição interna à Moção A vinha sendo minoritária nas últimas convenções, desta vez a saída de cena da Moção E promete fazer com que esta nova direção avance sem qualquer sobressalto.
Instantâneos Francisco Louçã e Batista Bastos com Otelo. Ao lado, com António Costa, o médico e deputado João Semedo, que chegou a ser cocoordenador do BE, com Catarina Martins
Mariana Mortágua saiu da liderança, assumindo ter sido “incapaz de inverter a excessiva centralização da estrutura do Bloco”, que há muito era apontada pelos opositores internos e, até essa carta de demissão de Mortágua, sempre desmentida pela direção. A sucessão faz-se, agora, com José Manuel Pureza que, vindo originalmente da corrente Política XXI, nos últimos anos (e sobretudo depois da morte de Miguel Portas e das saídas de Daniel Oliveira e Ana Drago) se tornou cada vez mais próximo da Rede Anticapitalista, que tem raízes no PSR. Para os críticos internos, José Manuel Pureza é a continuidade do “tratado de Tordesilhas” que, dizem, tem feito o poder no BE ser dividido entre o PSR de Francisco Louçã e a UDP de Luís Fazenda.
Apesar disso e, como vincou Miguel Cardina na apresentação dos resultados da assembleia da Moção A no domingo, a lista que será levada a votos pela direção na convenção, em que José Manuel Pureza é candidato à liderança do Bloco, está “renovada” e “profundamente rejuvenescida”, tendo uma “média de idades de 38 anos”, sendo que “40% das pessoas são apresentadas para estar pela primeira vez na Mesa Nacional”.
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Silêncio e “erros graves”
Contactados pela VISÃO, José Manuel Pureza, Joana Mortágua, Jorge Costa e Fabian Figueiredo recusaram falar sobre a nova fase do partido ou refletir sobre o que se passou. Essa análise ficou para dois históricos: Francisco Louçã, que escreveu um artigo de opinião no Público, e Fernando Rosas, que deu uma entrevista à Renascença e ao Público. Rosas admitiu “erros graves” na estratégia bloquista e deu uma solução de futuro: “É preciso saber aproveitar o terreno social objetivo: ter a ousadia de ir contra a corrente, não temer estar em minoria, defender convicções com pedagogia e empatia, e concentrar-se nos problemas reais das pessoas.” Uma crítica que há muito é feita pelos opositores internos, detratores de uma ação política demasiado centrada no Parlamento e com pouca ligação ao terreno e aos movimentos sociais e sindicais.
Louçã prefere apontar à “passificação” de [Passos] do PS, leia-se a aproximação do maior partido do centro-esquerda à sua direita, ao mesmo tempo que a vida se torna mais difícil com o aumento dos preços da habitação, a crise na saúde e a perda de direitos no trabalho. “É na revolta contra essa vida insuportável que está a força para constituir uma nova maioria, uma nova resposta da esquerda e um novo projeto para Portugal. A palavra é viver. A casta proíbe a esperança de uma vida normal à gente que trabalha e quer respirar. É preciso vencê-la para viver”, conclui Louçã, para quem não faz sentido “a teoria dos três corpos” – ensaiada por Rui Tavares do Livre –, segundo a qual a esquerda mais moderada devia dar a mão à direita democrática para evitar o avanço da direita radical. “Está bem de ver que isso leva a um fracasso que cria vergonha alheia, reduzindo o PS a uma política-amiba que desiste de apresentar alternativas, como no apoio ao Orçamento, que é ‘mau’ e ‘sem credibilidade’, pelo que siga a marinha”, diz, num texto que serve mais para atacar o PS e a recusa de António José Seguro em se assumir como candidato presidencial de esquerda do que para servir de mapa ao futuro do BE.
Memórias Uma foto dos velhos tempos do Bloco, onde se vê José Manuel Pureza ao lado de Francisco Louçã
O artigo de Francisco Louçã mereceu, ainda assim, uma crítica dura de José Bastos, um dos membros da Moção E. Não tanto pelo que diz, mas pelo que não diz. “A comunicação social já deu como certo que o próximo coordenador (presidente? secretário-geral? longe o tempo do porta-voz) do Bloco já está escolhido. Para quê então a Convenção? Ah! Para escolher a linha política! Mas o Francisco Louçã, coincidentemente, no dia a seguir à escolha do tal coordenador, já a veio traçar. Francisco Louçã que é um dos principais responsáveis da situação do Bloco, e o que diz? Nada. Nunca pensei que um camarada tão inteligente fosse capaz de tal vacuidade. Além de constatar o óbvio. Qual a estratégia? Como se vence a casta? Qual é a revolta? Nem uma proposta contra os ataques aos imigrantes, nem uma palavra contra o pacote laboral que significa um retrocesso ao 24 de Abril, nem uma palavra sobre a Greve Geral que um número crescente de sindicatos vem reivindicar e contra a negociação que não passa de uma Câmara Corporativa. Nem uma palavra sobre a organização de base do Bloco que o Francisco tanto combateu. Onde vai o parlamentarismo que há de conduzir ao socialismo, ideia que já o Engels criticava? O revisionismo não morre”, escreveu Bastos no Facebook.
Na direção bloquista, vai-se falando na importância de “reinventar não só o BE, mas as relações políticas à esquerda”, concentrando-se no espaço comum que existe entre o Bloco, o PCP e o Livre. “É preciso polarizar a esquerda e promover a sua unidade”, defendeu Fernando Rosas aos microfones da Renascença, ao mesmo tempo que atacava a opção do PCP de ir sozinho nas autárquicas em Lisboa. Mas essas reflexões não se traduziram (pelo menos, para já) em qualquer iniciativa real de aproximação entre os três partidos mais à esquerda. E a forma como cada um encontrou o seu candidato presidencial é só mais uma prova disso.
“A onda da direita é uma desculpa”, ataca Pedro Soares, que faz parte da Moção E, que, apesar da possibilidade de discutir a liderança do BE, mantém a intenção de não ir à convenção. Para aquele que tem sido um dos mais vocais críticos internos, “o núcleo da direção está enquistado e não admite debate”. Mariana Mortágua, acredita, foi “apanhada neste fogo cruzado” e vítima de uma campanha de ódio. Aliás, nesse ponto os críticos internos e a direção parecem concordar: Mortágua foi vítima de um ataque nunca visto, acentuado pela forma como decidiu integrar a flotilha humanitária rumo a Gaza, quando em Portugal o Parlamento fazia discussões de leis importantes e os portugueses decidiam as autárquicas. “Se fosse um homem, não seria assim. Nunca vi nada semelhante”, analisou Fernando Rosas ao Público.
Baralhar e dar de novo?
José Manuel Pureza, 66 anos, um católico assumido, com muita experiência parlamentar, alguma notoriedade e um estilo muito mais suave do que o de Mariana Mortágua, é agora o senhor que se segue. No Parlamento, Fabian Figueiredo – um dos mais próximos de Mortágua – promete dividir o palco com Andreia Galvão, que é uma das porta-vozes do movimento Vida Justa – que integra bloquistas, comunistas e independentes – e que acabou por se estrear como deputada quando, finalmente, o partido percebeu que o lugar não podia ficar vazio enquanto Mariana Mortágua estava na flotilha humanitária rumo à Palestina.
Esta renovação anunciada não significa, porém, que Mariana Mortágua saia da cena política nem sequer que haja grandes surpresas nos primeiros nomes da lista da Moção A para Mesa Nacional, onde surgem a seguir a Pureza, Isabel Pires, Fabian Figueiredo, Marisa Matias, João Curvelo (durante anos assessor do BE no Parlamento) e Mariana Mortágua (que sai da lista à Comissão Política), no sexto lugar. A lista à Mesa Nacional (que tem 80 nomes no total) integra também Joana Mortágua, José Soeiro, Catarina Martins, Pedro Filipe Soares, Jorge Costa, Adriano Campos e Andreia Galvão. A lista da Moção A à Comissão Política também está recheada de nomes conhecidos: além de Pureza, estão lá Jorge Costa, José Gusmão, Leonor Rosas, Pedro Filipe Soares e Moisés Ferreira.
Momentos marcantes
“Houve erros graves”, acusa Fernando Rosas. Mas a história do Bloco é composta de altos e baixos
— Legislativas 1999 Um novo partido entrava no Parlamento, pelas mãos dos dois deputados eleitos, Luís Fazenda e Francisco Louçã. Com mais de 132 mil votos, uma percentagem de 2,44% e uma agenda “fraturante”.
— 1999-2009 Temas como a IVG, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a despenalização das drogas leves passavam a fazer parte da discussão política. A agenda tardou a dar frutos, mas influenciaria as políticas públicas, na era Sócrates, a partir de 2005.
— Legislativas 2002 O BE obtém mais de 149 600 votos e sobe ligeiramente para 2,75%, conseguindo fazer eleger três deputados.
— Autárquicas 2001 Miguel Portas, oriundo da Plataforma de Esquerda, ex-PCP, e principal rosto da Política XXI, é cofundador do BE e candidata-se a Lisboa em 2001. Curiosamente, um dos adversários foi o irmão, Paulo, cabeça de lista do CDS…
— Legislativas 2005 O BE dá um salto eleitoral para mais de 364 mil votos e obtém 6,38%, nas eleições que dão a maioria absoluta a Sócrates. Elege oito deputados.
— Legislativas 2009 O Bloco ultrapassa o meio milhão de votos, atinge os 9,82% e duplica o número de deputados para 16. Louçã e Fernando Rosas são os rostos mais populares dos bloquistas.
— Legislativas 2011 Líder (já histórico) do BE, Francisco Louçã estende a dureza dos debates parlamentares ao debate na televisão. Quando parece que ganhou, é apanhado por Sócrates, na questão dos PPR e do respetivo desconto no IRS. Louçã está contra e Sócrates demonstra que isso é um ataque à classe média…
— De 2011 a 2025 Depois do chumbo do PEC IV, o BE é punido e desce para 5,17% e oito deputados, em 2011. Recupera em 2015, com Catarina Martins (10,19% e 19 deputados) e mantém o nível em 2019. Em 2022 é penalizado pelo chumbo do Orçamento de Costa e desce para cinco deputados. Mantém-se em 2024, mas obtém em 2025 o pior resultado de sempre, com menos de 2% e uma deputada.
— Presidenciais de 2016 Depois dos 5,31% de Francisco Louçã em 2006, o correspondente a mais de 288 mil votos, Marisa Matias consegue, dez anos depois, quase 470 mil votos e 10,12%, a segunda maior percentagem do BE em todas as eleições (depois das legislativas de 2015). De certa forma, era o canto do cisne…
Belém: Lídia Jorge sondada
Livre e BE lembraram-se da escritora, mas esta recusou
Ao longo de meses, comunistas, bloquistas e dirigentes do Livre fizeram várias tentativas de perceber se António Sampaio da Nóvoa estaria disponível para ser o candidato das esquerdas unidas. Tinha um requisito que parecia essencial: não era militante de nenhum dos três partidos. O PCP foi o primeiro a perceber que não valia a pena esperar e lançou António Filipe, uma figura com aura de senador à esquerda, que fez pontes e granjeou simpatias em vários partidos nos anos em que foi deputado. Fontes do BE e do Livre garantem à VISÃO que não consideraram apoiar António Filipe porque o próprio não fez antes qualquer tentativa de encontrar uma plataforma comum. Contactado pela VISÃO, António Filipe não quis comentar.
A VISÃO sabe que membros do Livre e do BE chegaram a sondar Lídia Jorge para a corrida a Belém, mas a escritora não estava disponível para uma candidatura. O nome de Helena Roseta também terá sido ponderado no Livre, onde, curiosamente, ninguém se lembrou de Ricardo Sá Fernandes – membro do partido que, entretanto, anunciou que irá votar em António José Seguro. “Tentámos encontrar um candidato agregador e levámos a coisa ao limite”, assevera uma fonte da direção do Livre, para quem nunca António Filipe foi hipótese por causa das divergências em relação ao apoio da guerra na Ucrânia, ao rearmamento europeu e ao europeísmo. “Filipe é um patriota de esquerda, nós somos internacionalistas de esquerda.” Sem nomes independentes que pudessem unir BE e Livre, os bloquistas decidiram não desperdiçar a oportunidade de ir a debates que chegam a milhões de telespectadores e avançaram com a candidatura de Catarina Martins.
E Jorge Pinto, deputado do Livre, resolveu entrar também na corrida, deixando a informação vazar para o Observador antes mesmo de Rui Tavares saber das suas pretensões. Pinto, um dos ideólogos do partido que ajudou a fundar com Tavares, acabou por ser o escolhido de 67% dos membros e simpatizantes, em primárias. E há quem acredite que a forma como António José Seguro recusa apresentar-se como de esquerda pode engrossar o apoio a Pinto. Ainda assim, não está fora de hipótese desistir em favor do socialista. “Se houver pacto republicano em que todos da esquerda desistam, ele desiste”, garante uma fonte próxima.
Há sempre um instante em que a alma se entrega. Não à verdade, mas à causa. Que paixão é essa que nos empurra, que nos obriga a escolher bandeiras, a entregarmo-nos a uma encenação de convicção, tão pura quanto verosímil? É o mesmo impulso que fazia os mártires correr para o cadafalso? Essa fome de Deus? Essa fome de pureza? A segunda, vos digo. E quem não a tem arranja um keffieh. Amarra-o ao pescoço, ou faz dele um saiote, e acredita que salvou alguma coisa.
Adere-se como se pode. Há quem o faça por fé, há quem o faça por ajuste directo, assinando minutas com a própria vaidade. Em nenhum dos casos se olha a realidade nos olhos: não se sabe, não se quer, não dá. A realidade é vítrea, reflecte e mostra sempre o que nos desconfirma; e por isso é que mesmo o mais abjecto episódio da série South Park tem sempre qualquer coisa de profético.
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Só assim se entende que a causa palestiniana tenha tantos devotos e há tanto tempo, enquanto o Sudão, pobre Sudão, arde sem ninguém dar por isso. Ou os cristãos da Nigéria, resgatados da insipiência do mundo à força de um ensejo de Donald Trump. Mas não há verso, não há concerto, não há bandeirinha na algibeira de nenhum artista sério — de nenhum artista que procure ser levado a sério.
Foi preciso que um drone filmasse o Sudão, e que alguém o publicasse, para que víssemos o horror como se o horror só existisse depois de filmado. Na imagem, um puzzle de terra e de sangue. Uma mancha encarnada no meio daquela aridez em miniatura. Mas não nos comovamos. A imagem não conta para nada sem o aplauso certo, no salão certo, da audiência certa.
É que vivemos saturados de desgraça, anestesiados pela profusão de tantas agonias. O que verdadeiramente nos move é a própria sensação de movimento. Como crianças no mar, fazendo carreirinhas nas espumas do Verão. E então discute-se de cara séria o boicote a cantores israelitas; embarca-se nas tais flotilhas; e — não fora já assinado o famigerado tratado de paz — participa-se em manifestações de delírio e febre. Como no degelo de uma crença onde a emoção triunfa por afogamento.
O caso é tramado. Nada entusiasma mais os nossos artistas do que confundir a vaidade de parecerem bons com a virtude de o serem; e sempre que a classe artística se une, é sinal de que o Diabo está ali mesmo, de cócoras no estrado, ávido da estetização da má consciência. Sobretudo os músicos: vão de palco em palco, de censura em censura, lavando a piedade em cada verso; erguendo o dedo indicador. De lenço ao pescoço, alardeando a sua virtude, o seu civismo, o seu compromisso com o mundo, essa sensibilidade tão individual que é, afinal, a mesma de toda a gente. Céus, como toda a gente anseia ser como toda a gente. E como escapa a toda a gente que talvez toda a gente não seja medida para ninguém.
Não discuto Gaza. Não discuto nada. Lamento e sofro os factos, como todo o cristão que reza rodeado de ruínas. O que não suporto é a mentira e, hoje mesmo, a mentira ingénua — sobretudo essa. Um gato é um gato, um cão é um cão. etc. etc.: “genocídio” é “genocídio”, a violência em Gaza é a violência em Gaza. A piedade de ocasião é a piedade de ocasião. E a humanidade, essa vedeta obstinada, nunca soube viver senão de pose e de remorso.
Talvez o homem tenha precisado sempre de fingir que sente para se convencer de que existe. Talvez vejamos nas causas esse fragmento de bem que já não conseguimos praticar. Eu às vezes penso que a história se repete no tédio: como se o mundo se aborrecesse de si próprio e reinventasse tragédias para se entreter.
E então o Sudão e a Nigéria, outra coisa qualquer; a própria Palestina, tornar-se-ão sombras; palavras que, outrora, deixaram de rimar. Acabarão, então, por morrer; pelo menos duas vezes: primeiro como lugar, mais tarde como memória.
E isto fez-me lembrar (último suspiro depois do escárnio) aquele verso de Manuel António Pina enquanto viajava por Andorre-la-Veille: “Voltamos sempre ao princípio, estamos perdidos!”
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
30 anos depois da primeira Conferência das Partes (COP), em 1995, chegamos a Belém, no coração da Amazónia, para mais uma cimeira sobre o clima. Três décadas de negociações, promessas, avanços e retrocessos. Três décadas de tentativas para alinhar um sistema económico alicerçado no crescimento com os limites de um planeta – e de enfrentar o maior desafio coletivo da Humanidade: travar o aquecimento global.
Desde a COP1, em Berlim, até à COP30, as conferências das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas produziram marcos importantes. O Protocolo de Quioto, em 1997, estabeleceu as primeiras metas obrigatórias de redução de emissões para países industrializados. O Acordo de Paris, em 2015, fixou o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5°C e introduziu o princípio da responsabilidade partilhada, mas diferenciada, reconhecendo a dívida histórica dos países do Norte Global e a sua maior capacidade para agir. Também houve progressos na criação de fundos climáticos e mecanismos de adaptação, culminando com a decisão histórica de 2022 de criar o Fundo de Perdas e Danos, destinado a apoiar os países mais afetados pelos impactos climáticos.
Longo caminho Apesar dos sinais de esperança com o Acordo de Paris,em 2015, ainda há muito por fazer
Mas a realidade continua a ser dura: as emissões globais ainda crescem. As promessas raramente se traduzem em ações concretas, e os mecanismos de mercado têm servido mais para adiar decisões do que para reduzir gases com efeito de estufa. 30 anos depois, o planeta está em estado febril. Já aqueceu 1,2°C desde a era pré-industrial e a concentração de CO₂ na atmosfera ultrapassa 420 ppm – níveis nunca vistos em milhões de anos. O aquecimento é cumulativo: cada tonelada emitida permanece na atmosfera durante séculos, retendo calor e amplificando fenómenos extremos.
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Indústria no centro do debate
As consequências são evidentes. O derretimento acelerado das calotes polares, a desaceleração das correntes oceânicas, o colapso de ecossistemas e o aumento da frequência de secas, cheias e ondas de calor mostram que nos aproximamos de pontos de não retorno. A ciência é clara: o tempo para agir está a esgotar-se. Em nome da transição energética, multiplicam-se as chamadas “falsas soluções”. Derrubam-se florestas para instalar parques solares ou eólicos, vende-se território amazónico para prospeção de petróleo com o argumento de financiar a transição, promove-se o mercado de carbono como mecanismo de compensação, transformando a crise climática num produto financeiro.
A COP30 deve marcar o fim da hesitação e o início de uma nova era: em que quem polui paga, quem sofre é ouvido e quem decide o faz com o futuro das gerações em mente
A indústria dos combustíveis fósseis, que desde a década de 1960 conhece o impacto dos seus produtos, mantém-se no centro do debate. O gás fóssil continua a ser apresentado como “natural”, os plásticos multiplicam-se e as negociações do Tratado Global sobre Plásticos falharam porque um grupo de Estados produtores de petróleo, liderados pela Rússia, a Arábia Saudita e o Irão, defende que o futuro acordo deve limitar-se à gestão e à reciclagem de resíduos. Para não falar na nova ordem dos EUA, o “Drill, baby, drill”, que já se afastou das negociações. Os mesmos interesses corporativos que alimentaram a crise tentam agora lucrar com as suas supostas soluções, mantendo intacta a lógica do crescimento e do lucro.
Os Princípios de Bali da Justiça Climática, aprovados em 2002, continuam a ser uma referência essencial: reconhecem a responsabilidade histórica dos países industrializados, a assimetria dos impactos entre Norte e Sul, entre ricos e pobres e entre gerações, e sublinham a importância da participação real das comunidades mais afetadas nas decisões, bem como a necessidade de abandonar gradualmente os combustíveis fósseis e as soluções de mercado. Passaram 23 anos e, em 2025, continuamos quase no mesmo ponto. Persistem os subsídios à indústria fóssil e continuam a ser aprovadas novas áreas de prospeção, apesar do investimento em renováveis e da tentativa de limpar a imagem do gás fóssil com o rótulo de “natural”. Não surpreende que, em alguns círculos, já se fale em “expansão energética” em vez de “transição energética”.
Ouvir os povos
É neste contexto que a Cúpula dos Povos ganha um papel fundamental. Trata-se do espaço onde se ouvem as vozes que raramente chegam às mesas de negociação: povos originários, pequenos agricultores, comunidades ribeirinhas, pescadores, mulheres e jovens que vivem da terra e do mar, e que são as primeiras vítimas da crise climática. São os que conhecem, no corpo e na pele, a realidade das secas, das cheias e da perda de território. Representam a base que sustenta a vida, mas que não tem poder de voto nem de decisão em pé de igualdade com os representantes da indústria e dos interesses económicos. A Cúpula dos Povos é, assim, o contraponto ético e humano da COP – o lembrete de que não existe justiça climática sem justiça social, nem soluções reais sem escutar quem vive diariamente as consequências da crise.
A justiça climática é hoje um movimento global. De comunidades indígenas a jovens ativistas, de sindicatos a organizações ambientais
A justiça climática é hoje um movimento global. De comunidades indígenas a jovens ativistas, de sindicatos a organizações ambientais, a sua força cresce também nos tribunais, através dos litígios climáticos que responsabilizam juridicamente governos e empresas pela inação. Na COP30, a Quercus leva uma mensagem clara: o futuro climático depende de políticas livres de combustíveis fósseis. Depende de uma verdadeira transição ecológica.
As prioridades são garantir que a legislação climática não é sequestrada pelos lobbies fósseis, assegurar transparência total nas interações entre políticos e indústria, promover novos impostos globais sobre combustíveis fósseis e grandes fortunas, defender um financiamento climático justo que cumpra o Baku to Belém Roadmap to 1.3T e fortaleça o Fundo de Perdas e Danos, exigir planos concretos para eliminar subsídios fósseis e proteger as florestas autóctones até 2030, e apoiar os países do Sul Global na adaptação, na transição justa e na proteção das populações mais vulneráveis.
Esperança e responsabilidade
Chegamos a Belém com um sentimento entre esperança e responsabilidade. 30 anos de COP mostraram avanços diplomáticos, mas também décadas de adiamentos. O planeta não negoceia. Enquanto se discutem metas, as emissões acumulam-se e as janelas de oportunidade fecham-se. Ainda assim, há esperança. Cada movimento social, cada comunidade que resiste, cada jovem que exige ação, prova que a mudança é possível – mas só se for justa, urgente e real.
A COP30 deve marcar o fim da hesitação e o início de uma nova era: uma era em que quem polui paga, quem sofre é ouvido e quem decide o faz com o futuro das gerações em mente. Porque o clima não espera. Assim o dizem os relatórios científicos e assim o demonstram os fenómenos extremos que já sentimos nas nossas vidas. Chegados aqui, é o momento de agir.