Por que razão as pessoas muito poderosas e muito ricas se comportam com as pessoas que nada têm, com as famílias e os filhos delas, como se as desprezassem, as detestassem e odiassem, ou, talvez pior, como se as não vissem?
Que vantagens, que prazeres e que sensações agradáveis retiram os muito poderosos e os muito ricos do sofrimento que, com os seus comportamentos grosseiros, abusivos, humilhantes e não raramente violentos, provocam nas pessoas que nada têm? Estas são as pessoas que os servem e fazem enriquecer! Os seus filhos também o vão fazer!
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Como pode alguém respeitar-se, suportar a sua própria imagem no espelho, quando não suporta o outro? É esta a vida e a sociedade que queremos? É esta a pessoa que cada um de nós quer ser?
O que aconteceu connosco? Ninguém nasce a odiar, poucos nascem cegos!
O que aconteceu connosco para descermos tão baixo, para não termos a força e a vontade necessárias para nos amarmos a nós mesmos e aos outros? Porque não choramos? Porque não respiramos fundo e não fazemos o nosso melhor para mudar o nosso comportamento de acordo com a nossa consciência e sentido de justiça, com uma sensação profunda de respeito e admiração por quem vive mal, por todos os que são maltratados e vivem muito mal?
Porque não choramos quando alguém nos pede ajuda e não temos nada para lhe dar ou não temos a coragem para o fazer?
Quem fez o pobre, o pedinte e o doente? Ninguém nasce pobre, pedinte ou doente!
Porque nos afastamos de nós mesmos e dos outros? Que mal nos fizeram, que não vemos o mal que fazemos?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Durante muito tempo, a alimentação foi vista sobretudo como resposta à fome ou como uma questão estética. Hoje sabemos que comer é muito mais do que isso. Cada refeição representa uma oportunidade diária de influenciar a energia, o funcionamento do organismo e a forma como envelhecemos ao longo dos anos.
A ciência da longevidade tem mostrado, de forma consistente, que determinados padrões alimentares estão associados a menor risco de doença cardiovascular, diabetes tipo 2, obesidade, declínio cognitivo e mortalidade precoce. Não se trata de procurar uma dieta perfeita ou uma fórmula universal, mas de compreender que aquilo que fazemos repetidamente à mesa tem impacto acumulativo na saúde.
É precisamente essa lógica que está presente nas recomendações alimentares mais atuais, incluindo a nova pirâmide alimentar. Na base continuam a estar hábitos essenciais: água, atividade física e um estilo de vida equilibrado. Em termos alimentares, reforça-se a importância dos alimentos de origem vegetal — hortícolas, fruta, leguminosas, cereais integrais, frutos oleaginosos — sem excluir outros grupos, mas promovendo variedade, equilíbrio e menor dependência de produtos ultraprocessados.
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Entre os vários nutrientes relevantes, a proteína merece uma atenção particular. Ao longo do envelhecimento, a manutenção da massa muscular torna-se determinante para preservar força, autonomia, metabolismo e prevenção de quedas. Sabemos hoje que muitas pessoas, especialmente a partir da meia-idade, beneficiam de uma ingestão proteica adequada e bem distribuída ao longo do dia. O objetivo não é exagerar, mas garantir qualidade e regularidade através de fontes como peixe, ovos, leguminosas, laticínios, carne magra ou alternativas ajustadas ao contexto individual.
Outro pilar frequentemente negligenciado é a hidratação. Pequenas perdas de água corporal podem afetar concentração, desempenho físico, humor e regulação térmica. Em pessoas mais velhas, a sensação de sede tende a diminuir, aumentando o risco de desidratação silenciosa. Beber água ao longo do dia, adaptar a ingestão às necessidades individuais e valorizar alimentos ricos em água são estratégias simples com impacto real.
Importa também falar de suplementação. Vivemos um tempo em que muitos suplementos são apresentados como atalhos para a saúde ou promessas de longevidade. No entanto, suplementar sem critério pode ser inútil — e, em alguns casos, contraproducente. A suplementação deve ser individualizada, baseada em necessidades reais, contexto clínico e, idealmente, orientação profissional. Existem situações em que pode ser muito útil, mas não substitui hábitos consistentes nem uma base alimentar sólida.
Na prática e no acompanhamento que realizo, observo frequentemente que a maior transformação não acontece quando alguém adota medidas extremas, mas quando faz ajustes sustentáveis: aumentar o consumo de alimentos naturais, organizar melhor refeições, incluir proteína de forma consciente, beber mais água e reduzir excessos repetidos. Pequenas mudanças, quando mantidas no tempo, produzem resultados significativos.
Comer bem não é viver em restrição permanente. É criar uma relação mais inteligente, equilibrada e consciente com aquilo que colocamos no prato.
Se a longevidade se constrói todos os dias, talvez valha a pena perguntar: o que tem alimentado, de forma real, a sua saúde nos últimos anos?
Porque, muitas vezes, o futuro começa em escolhas aparentemente simples feitas à mesa.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Há frases que ficam. Não porque façam sentido, mas porque doem. Porque se colam à pele e regressam nos momentos mais inesperados, como um eco difícil de silenciar. Há palavras que são casa. E há outras que ferem profundamente, silenciosamente, de forma duradoura. Para quem vive com endometriose, muitas vezes a dor não vem apenas da doença, mas também de quem deveria escutá-la, compreendê-la e cuidar. Ainda assim, é justo dizer que felizmente a exceção não faz a regra e temos profissionais de saúde fantásticos que se regem pelo profissionalismo, sem nunca esquecer a empatia.
Contudo, ainda nos chegam relatos profundamente chocantes que nos obrigam a parar e a refletir que esta é uma realidade que não pode ser varrida para debaixo do tapete. Esta é uma realidade que precisa ser debatida e combatida. Dizer a uma mulher “você tem endometriose mas não se preocupe porque nunca ninguém morreu disso” não é tranquilizar. É desvalorizar. É reduzir uma doença complexa, incapacitante e tantas vezes invisível a algo irrelevante. Como se a medida da gravidade fosse apenas a morte, ignorando anos de dor crónica, infertilidade, cirurgias, exaustão física e emocional.
Afirmar que “a sua dor é psicológica porque não se vê nada nos exames” é perpetuar um dos maiores erros na medicina: confundir invisibilidade com inexistência. Nem toda a dor se revela em imagens. Mas toda a dor merece ser valorizada. A dor é uma experiência complexa, influenciada por fatores biológicos, neurológicos, emocionais e sociais, e não pode ser descartada simplesmente porque não deixa marcas visíveis num exame. Ao fazê-lo, corre-se o risco de atrasar diagnósticos, comprometer tratamentos adequados e, sobretudo, fragilizar a relação de confiança entre médico e paciente, que deveria assentar na escuta, no respeito e na validação daquilo que o outro sente.
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Perguntar “tem amigos? é feliz?” antes de sugerir um psicólogo não é cuidado, é suspeita disfarçada de empatia. Sob a aparência de interesse, instala-se uma dúvida silenciosa sobre a legitimidade da dor, como se o problema estivesse na forma como a pessoa vive ou sente, e não naquilo que o seu corpo manifesta. É insinuar, de forma subtil mas profunda, que a origem do sofrimento reside na fragilidade individual, desviando o foco da investigação clínica para uma leitura quase moral da experiência da doente. É empurrar a responsabilidade para quem já carrega peso a mais.
E dizer, num processo de fertilidade, que transferir embriões “é o mesmo que atirá-los ao lixo” ultrapassa qualquer limite de ética, humanidade e respeito. Não é uma metáfora inocente nem uma forma legítima de esclarecimento. É uma violência verbal que ignora a carga emocional, física e simbólica que acompanha cada etapa desse percurso. Para quem está a atravessar tratamentos de fertilidade, cada embrião representa esperança, investimento, vulnerabilidade e, muitas vezes, um longo caminho de perdas silenciosas. Palavras assim não informam, destroem. Não orientam, ferem. Em vez de promover compreensão, instalam culpa. Em vez de oferecer suporte, criam distância. Há formas de explicar probabilidades, riscos e limitações sem recorrer a imagens agressivas ou desumanizantes. Há maneiras de ser honesto sem ser cruel.
Os profissionais de saúde não lidam apenas com diagnósticos. Lidam com pessoas. Pessoas que chegam vulneráveis, muitas vezes desacreditadas, cansadas de não serem ouvidas. Uma frase pode aliviar ou agravar, pode validar ou silenciar, pode aproximar ou afastar. E, quando a linguagem falha no respeito e na empatia, o cuidado fica incompleto, por mais correto que seja do ponto de vista clínico.
É urgente reconhecer e transformar esta realidade que ainda persiste nos nossos dias. Humanizar a medicina não é um detalhe nem um ideal abstrato, é uma necessidade concreta. Porque cuidar verdadeiramente implica mais do que tratar a doença, implica reconhecer, escutar e respeitar quem a vive.
A endometriose já rouba demasiado. A comunicação nunca deveria ser mais uma forma de sofrimento. É possível dizer a verdade sem ser cruel. É possível admitir dúvidas sem invalidar. É possível não saber e ainda assim acolher. Março foi o mês de sensibilização para a patologia, mas esta realidade é apenas mais uma prova de que esta temática não se esgota num único mês. Exige escuta contínua, informação consistente e, acima de tudo, respeito diário por quem vive com ela.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Gabor Maté nasceu na Budapeste de 1944, em janeiro, dois meses antes de os nazis entrarem na Hungria naquela que ficou conhecida como a Operação Margarethe. Filho de judeus, os seus avós maternos morreram em Auschwitz, o seu pai foi levado para trabalhos forçados e a sua mãe ficou mais de um ano sem saber do marido. No meio do caos da guerra e do pânico pela sobrevivência, a mãe entregou-o ao cuidado de estranhos quando ele tinha apenas 1 ano. Era para lhe salvar a vida, mas um bebé de 1 ano não entende este contexto. Quando voltou a reunir-se com a sua mãe, ele não conseguiu olhá-la nos olhos durante várias semanas.
Hoje com 82 anos, Gabor Maté é um dos médicos mais conhecidos a nível mundial, especialista em adição, trauma e desenvolvimento infantil. A ferida do abandono acompanhou-o a vida toda, por muito que a razão de um adulto tenha vindo a justificar o que a criança era incapaz de entender. Os chamados mecanismos de defesa psicológicos, que constituem a forma como o nosso cérebro lida com o trauma, são maneiras de nos adaptamos a um ambiente inseguro e protegem-nos de uma dor que não conseguimos processar. Mais tarde, tornam-se pesados demais e emocionalmente desadequados, ora boicotando as nossas relações, ora causando doenças e transtornos mentais.
Mentes Dispersas Penguin Livros, €19,76 Este livro de Gabor Maté é das obras mais lidas sobre o PHDA (perturbação de hiperatividade e déficit de atenção), concentrando-se naquilo que podemos controlar: o meio ambiente em que o cérebro infantil se desenvolve. Para o médico, também ele diagnosticado com a perturbação, ambientes de stresse e conflito, povoados por relações tensas, são gatilhos para levar a criança a “desligar” o cérebro, como forma de se proteger. Um mecanismo de defesa que irá causar sofrimento mais tarde.
Este é o ponto de partida para uma conversa que começou com o PHDA (perturbação de hiperatividade e déficit de atenção) e acabou na possibilidade de cura numa sociedade que esmaga as “necessidades emocionais humanas mais básicas”. Gabor Maté fala dos episódios da sua vida, mas garante: não é preciso estarmos perante um acontecimento extremo, como o que lhe sucedeu na infância, para adoecermos. O stresse da vida moderna é ele próprio um gatilho poderoso.
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Autor best-seller, traduzido em 34 línguas, com obras como O Mito do Normal, No Reino dos Fantasmas Famintos, Quando o Corpo Diz Não ou Mentes Dispersas, Gabor Maté emigrou para o Canadá em 1956 e lá se formou, especializando-se em Medicina Familiar. É uma “pop star” do wellness e do desenvolvimento pessoal, com a sua dose de polémica, por vezes acusado de minimizar doenças graves, como o cancro ou a esclerose múltipla, atribuindo-lhes uma vertente ligada à dor psicológica.
Por outro lado, é também graças a ele que se olha para certas condições de outra forma, mais humana e compassiva, como no caso das adições. Eis o seu mantra: “Não perguntem o porquê da adição; perguntem o porquê da dor.”
No seu livro Mentes Dispersas, diz que o PHDA (perturbação de hiperatividade e déficit de atenção) não tem apenas causas genéticas. Que outras origens encontrou aqui?
Primeiro, não é genético. Há 20 mil genes no corpo humano – dez mil estão dedicados ao sistema nervoso central. Isso não é o suficiente para formar todos os biliões de circuitos nervosos, conexões e sistemas no cérebro. Em segundo lugar, o cérebro desenvolve-se sob o impacto do ambiente. Nenhum bebé nasce com atenção, com regulação de impulsos, com controlo emocional. Isso tem de se desenvolver. Portanto, trata-se de uma questão da Ciência a forma como o cérebro se desenvolve através da interação com o ambiente. Não invento isto, só estou a dizer o que explica a Ciência. A parte mais importante desse desenvolvimento no meio ambiente é a relação emocional do bebé com os seus cuidadores. Os filhos são muito sensíveis; quando os pais estão stressados, os filhos ficam stressados. Aliás, podemos medir as hormonas do stresse na criança e isso vai dizer-nos o quão stressados os pais estão. Não é que a genética não contribua, mas ela não determina, não define, não decide. O que é genético é a sensibilidade. Quanto mais sensível se é, mais se sente o que está a acontecer no seu ambiente. E alguns filhos são geneticamente mais sensíveis. Isso não significa que eles têm um gene para PHDA. Significa que eles têm genes para a sensibilidade, ou seja, são mais afetados pelo ambiente. Sob condições de stresse, que são muito comuns na sociedade de hoje, é afetada a forma como se desenvolvem o cérebro das crianças e os seus círculos. E o desligar-se ou a mente distraída é, na verdade, uma forma de proteção.
Um mecanismo de defesa da criança.
Sim. Se eu a estivesse a stressar agora, você poderia fazer duas coisas: ou desligava esta chamada ou dizia-me para parar. Mas e se você não pudesse fazer nada disso? O que o seu cérebro faria seria desligar-se da situação para a proteger. É o que fazem filhos sensíveis num ambiente stressante – não porque os pais não os amam, não porque os pais não fazem o seu melhor, não porque os pais não têm boas intenções, mas porque eles próprios estão stressados. E é por isso que estamos a assistir a um aumento desta perturbação. Se fosse genético, não haveria um aumento. Os genes não mudam em dez, 20 ou 30 anos.
Portanto, não precisa de ser sequer um ambiente violento ou abusivo para uma criança desenvolver o déficit de atenção.
Não tem nada a ver com violência. É verdade que os estudos mostram que quanto mais trauma há, maior a probabilidade de desenvolver PHDA. Isso é verdade, mas não é condição. Só requer pais que estão stressados, ocupados com as suas vidas, talvez a lidar com os seus próprios traumas não tratados, talvez com problemas na relação entre eles. Não é uma questão de não amarem os filhos, mas quando os pais estão stressados, eles não conseguem estar sintonizados com os filhos. Sintonizar significa a capacidade de entender o que está acontecer com o outro e responder a isso. Então o filho desenvolve um mecanismo de proteção. Escrevi este livro há 27 anos e é provavelmente o maior best-seller do mundo sobre PHDA. Anos depois, num artigo sobre o desenvolvimento do cérebro, feito na Universidade de Harvard e publicado no jornal oficial da Academia Americana de Pediatria- lê-se o seguinte: “A arquitetura do cérebro é construída para um processo continuado que começa antes do nascimento, continua até pela idade adulta e estabelece uma fundação ou forte ou frágil para toda a saúde, a aprendizagem e o comportamento que se seguem.” Isto significa que o stresse na mulher grávida já está a afetar o desenvolvimento do cérebro do feto.
Mas como protegemos as crianças num ritmo de vida moderna em que o stresse já é quase uma identidade?
Esse é o tema do meu livro mais recente, chamado O Mito do Normal – Trauma, Doença e Cura numa Cultura Tóxica. Se olharmos para a forma como os seres humanos evoluíram durante milhões de anos, vivemos na Natureza e em pequenas comunidades onde os filhos estavam sempre com os adultos. Na sociedade moderna, ambos os pais têm de ir trabalhar, as pessoas estão em crise económica constante, há um desmembramento da família ampliada, da comunidade e das instituições comunitárias, há menos apoio, as pessoas estão mais isoladas e stressadas, e há muitos traumas passados de uma geração para a próxima. Agora, deixe-me dizer-lhe mais uma coisa sobre a genética. Estas crianças com PHDA estão mais sujeitas ao risco de desenvolver asma, eczema ou alergias. Também sabemos que quanto mais stressados os pais são, mais provável é que os filhos desenvolvam mais risco de sofrer de asma. A fisiologia reflete o ambiente psicológico.
Os estudos mostram que quanto mais trauma há, maior a probabilidade de desenvolver PHDA. Isso é verdade, mas não é condição. Só requer pais que estão stressados, ocupados com as suas vidas, talvez com problemas na relação entre eles
Também temos mais poluição.
Sim, tudo contribui. A comida ultraprocessada também contribui, mas estou a focar-me aqui no ambiente emocional. O que temos de fazer é entender a psicologia da criança e dar-lhe aquilo de que ela precisa emocionalmente. Isso vai ajudá-la a desenvolver novos circuitos do cérebro.
Só que nem sempre está nas mãos dos pais mudar isso. Como disse, é uma cultura tóxica.
Sim, é um grande desafio, mas, pelo menos em casa, está nas nossas mãos criar um outro tipo de ambiente. Eu falo sobre o meu próprio casamento e, quando meus filhos eram pequenos, a minha mulher e eu tínhamos uma relação muito stressante. Os nossos filhos captaram esse stresse [Gabor Maté revelou em tempos que os seus três filhos, e ele próprio, foram diagnosticados com PHDA). As pessoas podem trabalhar as emoções no seu casamento e criar um ambiente mais pacífico em casa, os pais podem trabalhar em si mesmos. Se tentarmos controlar o comportamento dos filhos, tudo o que obtemos é oposição. Mas se entendermos que o comportamento dos filhos é apenas um sintoma de uma distorção emocional e se lidarmos com as suas necessidades emocionais, então os comportamentos mais desafiantes vão parar. Por isso é importante entendermos as experiências internas tanto dos filhos como dos adultos. Aliás, um diagnóstico não explica nada. Uma pessoa tem PHDA e como é que sabemos? Porque é distraída, tem pouco controle de impulsos, é desorganizada? Mas porque é que ela é assim? Porque tem PHDA. Ou seja, não tem significado nenhum, é apenas uma descrição. É útil descrever algo, mas a descrição não é uma explicação e, para obter uma explicação temos de olhar para as condições em que esse ser humano se desenvolveu. Ansiedade e tensão não são atributos individuais, eles refletem a sua relação com o ambiente. Nas escolas, por exemplo, se os professores entendessem que uma criança não está a ser deliberadamente má, iriam relacionar-se com ela de forma muito diferente. Ao invés de punir e controlar, podemos construir uma relação com a criança.
É possível uma criança que não tenha tido as suas necessidades emocionais satisfeitas curar o PHDA em adulto?
É. Escrevi Mentes Dispersas em 1999, após ter sido diagnosticado com PHDA. Estava a tomar medicamentos e isso ajudou-me a concentrar-me para escrever o livro. Já quando escrevi O Mito do Normal, que foi publicado há três anos, e que é um livro muito mais complexo e com vasta pesquisa, não tomei qualquer medicamento. Não precisava, o meu cérebro mudou. Como? Com muita terapia para lidar com os meus problemas emocionais, ao mesmo tempo que cuidava do meu corpo, comendo corretamente, fazendo exercício, fazendo alguma meditação, não aguentando para lá dos meus limites sempre que posso… A cura está disponível para qualquer ser humano, desde que exista consciência e é assim que se reprograma o sistema nervoso. Ainda que o PHDA fosse 99% genético e 1% ambiental, o que podemos trabalhar é com o 1%, é o ambiente interno e externo que podemos trabalhar e esse é o meu foco. Porque com os genes não há nada que se possa fazer.
Como é que se ganha essa consciência de que fala? Porque nós passamos pela vida a repetir padrões inconscientes, como se a repetição fosse uma forma de cura.
A boa terapia ajuda muito. No primeiro capítulo de O Mito do Normal, conto um episódio. Vinha de uma conferência, aterrei no aeroporto de Vancouver e a minha mulher não estava lá à minha espera. Fiquei enfurecido, mesmo muito chateado. Porquê? Podia ter simplesmente apanhado um táxi até casa. Mas tenho uma perceção muito profunda de ter sido abandonado. Eu tinha apenas 1 ano quando a minha mãe me deu a um estranho. Ela fez isso para salvar a minha vida, mas como é que uma criança com 1 ano experiencia isso? Como um abandono. Quando estamos numa relação, esta é o campo perfeito onde podemos aprender e crescer. E eu podia simplesmente pensar: “A minha mulher não me abandonou, só não foi buscar-me ao aeroporto.” Podemos aprender imenso, mesmo sem terapia, com as nossas reações emocionais quando estas são desproporcionais em relação à realidade. Mas é preciso ter consciência das coisas e conhecimento. É por isso também que escrevo livros. E o mindfulness, bem direcionado, pode ajudar também.
Há agora muitos diagnósticos de défice de atenção nos adultos. É uma tendência?
Cada vez mais adultos estão a ser diagnosticados, quando antes o PHDA costumava ser considerado uma condição de crianças que aparece na infância. Então porque todos esses adultos estão a ser diagnosticados? Se entendermos que o diagnóstico não explica nada, é apenas circular a descrever algo, porque temos as pessoas cada vez menos focadas? Mais ansiosas? Menos reguladas emocionalmente? Basta olhar para a sociedade: mais stresse, mais isolamento, os ecrãs, as redes sociais, o multitasking, a insegurança… É claro que as pessoas têm problemas de concentração! E depois vamos diagnosticá-las com PHDA. Qualquer pessoa stressada, tenha ou não a condição, tem dificuldade em se concentrar.
Estes sintomas podem ser confundidos com outras perturbações mentais, como a ansiedade, a depressão, a personalidade borderline, etc.?
Há uma enorme sobreposição entre o PHDA e adições, ansiedade e personalidade borderline, mas, lá está, são apenas descrições, nenhuma delas explica nada. O importante é perceber isto: sim, quanto mais stresse há na sociedade, mais ansiedade sentimos e mais pessoas que não são emocionalmente reguladas vamos ter. Não importa que nomes lhes damos, são apenas rótulos.
Mas precisamos de rótulos em tudo. E temos agora também um culto da adaptação, vencer é ser flexível com as circunstâncias que a sociedade cria para nós. Isso não coloca uma pressão extra em forma de exigência da reinvenção pessoal?
Também abordo isso no livro O Mito do Normal. Há uma grande pressão para nos adaptarmos a uma sociedade anormal que vai contra as necessidades básicas das pessoas e vai contra a natureza humana básica. Claro que as pessoas vão ter todos os tipos de problemas mentais! E depois ainda lhes dizem que há algo de errado com elas, que é culpa delas, elas é que não estar a adaptar-se, a ajustar-se para caber, que não são resilientes o suficiente… O problema social é transformado num problema individual e as pessoas sentem vergonha.
Na sociedade das perceções, também o trauma não é o que nos acontece, mas a forma como percebemos o que nos acontece?
Não é apenas como entendemos o que nos acontece, não é uma simples questão de perceção. É sobre o que acontece dentro dos nossos corpos e no nosso sistema nervoso. Por exemplo: levo uma pancada na cabeça. Isso não é o trauma. Mas se a pancada me provoca uma concussão, isso é o trauma. Há o evento traumático e há o que acontece dentro de mim. Não é apenas uma perceção, porque algo realmente aconteceu dentro de mim, afetou as minhas funções cerebrais e o meu sistema nervoso. A perceção é apenas uma parte, mas há mais, uma mudança psicológica e fisiológica de facto que persiste. Mas se eu levar uma pancada na cabeça e não houver uma concussão, então não há trauma.
O trauma psicológico inscreve-se também no plano físico?
As pessoas que sofreram abusos sexuais na infância têm um risco maior de doença cardíaca, de esclerose múltipla ou doutras doenças, porque o trauma causa inflamação no corpo. Afeta a forma como percebemos as coisas, mas afeta também a nossa fisiologia. Volto ao tal artigo que referi antes, da Universidade de Harvard. Ele diz: “A evidência científica crescente demonstra que certos ambientes sociais e físicos que ameaçam o desenvolvimento humano por causa de escassez, do stresse ou da instabilidade podem levar a ajustes fisiológicos e psicológicos de curto prazo que são necessários para a sobrevivência e a adaptação imediata, mas que podem também traduzir-se num custo significativo para resultados a longo prazo em aprendizagem, comportamento, saúde e longevidade.” Ou seja, as adaptações que são necessárias numa certa altura tornam-se uma fonte de patologias mais tarde.
Está a descrever os tais mecanismos de defesa psicológicos que o nosso cérebro cria para nos proteger durante determinada situação que nos faz mal?
Deixe-me dar um exemplo. Digamos que vai para o Polo Sul. O que você teria de fazer para se adaptar? Vestir mais roupa. A seguir, vai do Polo Sul para o Equador. Se não tirar aquela roupa toda que o equipou para o polo, provavelmente morre. Falo dessas adaptações elaboradas na infância. A diferença é que agora vestimos as roupas deliberadamente, conscientemente. E tiramo-las quando já não precisamos delas. Mas as adaptações infantis são inconscientes. A criança não as escolheu deliberadamente. Cresce a pensar que as adaptações são, ela mesma, uma identidade. O problema com essas adaptações infantis é que elas podem ser necessárias para a sobrevivência imediata, mas criam problemas depois quando deixam de ser adequadas às situações. A maioria das doenças mentais tem a ver com o meio ambiente e com adaptações que não são úteis depois.
Os homens tendem a explodir mais contra as mulheres e as mulheres são culturalmente programadas para absorver o stresse dos homens. É uma sociedade patriarcal. É por isso que as mulheres têm mais doenças autoimunes. E mais depressão e ansiedade
E muitas vezes é nas relações em que se estabelece intimidade e vulnerabilidade que esses mesmos problemas entram em erupção.
A erupção não é uma adaptação, é uma reação. Mas ela vem de uma adaptação. O que acontece dentro de um vulcão? A pressão de tudo o que foi acumulado é incontrolável. A adaptação é essa: empurrar para dentro tudo o que não puderam expressar no seu meio ambiente. É o que faz uma criança quando não tem as suas necessidades satisfeitas. Isso provoca frustração e a frustração é um motor para a agressão. No entanto, é diferente entre homens e mulheres.
Em que sentido?
Os homens tendem a explodir mais contra as mulheres e as mulheres são culturalmente programadas para absorver o stresse dos homens. É uma sociedade patriarcal. É por isso que as mulheres têm mais doenças autoimunes. E mais depressão e ansiedade. Não há separação, mente e corpo são a mesma coisa. Há muitas doenças físicas com uma contribuição psicológica. Isto foi estudado e eu falo sobre isso em dois dos meus livros, Quando o Corpo Diz Não e O Mito do Normal. Há muita pesquisa sobre a unidade corpo/mente e em como as emoções podem contribuir para certas doenças. Outro estudo de Harvard mostra como mulheres com stresse pós-traumático severo têm um risco de cancro dos ovários duplicado em relação à população em geral. A malignidade não é apenas um evento fisiológico, é também uma resposta a fatores emocionais. Não podemos separá-los. Mas mesmo com toda a ciência… nas escolas médicas não se fala sobre isto.
Como se fosse do domínio da pseudociência.
Mas não é, não é mágico, é científico. As pesquisas mostram que, por exemplo, mulheres que são cuidadoras de crianças com doenças crónicas, os seus cromossomas envelhecem mais rapidamente por causa do stresse do papel de cuidar. As pessoas que cuidam de familiares com Alzheimer podem ficar com o sistema imunitário deprimido.
Pode dar outros exemplos de mecanismos de defesa que nos fazem mal a posteriori?
Voltando à minha própria experiência. Eu nasci em 1944, em Budapeste, dois meses antes de os nazis chegarem à Hungria. Os meus pais eram judeus. O meu pai foi levado para trabalhos forçados, a minha mãe esteve um ano inteiro sem saber se ele estava morto ou vivo. Podíamos ser deportados a qualquer momento, levados para Auschwitz. Há guerra. Os judeus são perseguidos. Qual é o estado emocional da minha mãe? Eu absorvi-o. Como lido com isso? Desligando. Mas o meu cérebro está em desenvolvimento. Então esse desligar ou abstrair fica enraizado no cérebro. Mas este é um exemplo extremo. Por isso falo também do meu casamento durante a infância dos meus filhos. E aqui há outra coisa: nós casamo-nos sempre com alguém que está no mesmo nível de trauma em que nos encontramos, ainda que vindos de contextos diferentes. Houve aqui então dois pais traumatizados, sem sequer saberem que estavam traumatizados, sem terem ainda trabalhado nisso. E têm filhos num casamento muito stressante. Qual é a atmosfera dentro de casa? Nós fizemos o nosso melhor, não batíamos nas crianças, não as tratávamos mal. Mas havia uma tensão constante e um ambiente muito instável emocionalmente. E o cérebro das crianças desliga-se da situação para se proteger.
Descreve então uma pessoa que cresce emocionalmente distante como mecanismo de proteção, é isso?
Há várias formas. Qual é o significado da palavra depressão? Depressão significa empurrar para baixo. É um mecanismo de defesa. Tal como a evitação emocional ou, pelo contrário, as reações ansiosas de apego. Não há um bebé que empurre para baixo as suas emoções. Se precisa de algo, chora. Mas o que acontece se ninguém aparecer para ver de que é que precisa? Ou se a criança começar a interiorizar que, pelo facto de chorar, de estar chateada, os seus pais não vão gostar dela? Tudo começa com um mecanismo de defesa, empurrando para baixo as suas necessidades e emoções. Mais tarde, pode ser diagnosticado com uma doença chamada depressão.
Como podemos então tratar doenças individuais numa sociedade que nos põe doentes? Terapia, consciência, autoconhecimento são respostas individuais e não sociais…
Ao nível das respostas sociais, temos de formar os médicos a entender o desenvolvimento humano. Formar os professores. Voltando ao artigo que citei e que diz que o processo de desenvolvimento do cérebro humano começa antes do nascimento e se prolonga pela vida adulta, isto significa que as escolas devem ser lugares onde o valor mais importante não é a aprendizagem pela memória ou fixação de conhecimentos, mas onde se criam as condições ótimas para o desenvolvimento do cérebro humano, incluindo as condições emocionais. Todas as instituições onde as crianças crescem, começando pela sua própria casa, têm de saber aquilo de que elas precisam, quais são as suas necessidades emocionais. A sociedade tem de ter essa consciencialização.
A transição energética começa a redesenhar o mapa global dos recursos naturais. Enquanto governos prometem abandonar combustíveis fósseis, cresce a corrida por minerais críticos indispensáveis para baterias, redes elétricas e energias renováveis. Essa disputa desloca a pressão para territórios ricos em recursos, muitos deles ambientalmente sensíveis. Da Amazónia aos Andes e ao Ártico, a nova economia da energia limpa tem o desafio de combater a crise climática sem reproduzir novas formas de extrativismo mineral.
Os minerais críticos tornaram-se essenciais para a descarbonização. Ao mesmo tempo, a sua exploração levanta questões ambientais, sociais e geopolíticas cada vez mais complexas. Nos últimos anos, governos e empresas multiplicaram compromissos com a neutralidade carbónica.
Conferências climáticas prometeram acelerar o abandono dos combustíveis fósseis. Mas a geopolítica mostra outra realidade. Em momentos de crise, como a guerra no Médio Oriente, petróleo e gás regressam ao centro da estratégia energética global.
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Amazónia A mineração em grande escala tem um custo elevado para o meio ambiente (Foto: João Ramid)
A primeira decisão diplomática explícita para iniciar uma transição global para longe dos combustíveis fósseis foi adotada na COP28. O acordo final incluiu, pela primeira vez em quase três décadas de negociações climáticas, a expressão “transition away from fossil fuels in energy systems” (transição sem combustíveis fósseis nos sistemas energéticos).
Até então, os textos oficiais evitavam mencionar diretamente petróleo, gás e carvão. A formulação surgiu após intensa disputa entre países produtores e governos que defendiam a eliminação progressiva dessas fontes. O resultado foi considerado histórico, mas também ambíguo: o texto não definiu calendário, metas obrigatórias nem mecanismos claros de implementação.
Desde então, conferências posteriores, como a COP30, passaram a enfrentar uma questão central: como transformar essa declaração diplomática num processo efetivo de abandono dos combustíveis fósseis.
Santa Marta e a batalha pelo fim dos fósseis
A Colômbia tenta recolocar o debate climático no centro da política internacional. Entre 27 e 29 de abril de 2026, a cidade de Santa Marta, no Caribe colombiano, sediará a Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis.
Organizada pelos governos da Colômbia e dos Países Baixos, a iniciativa pretende transformar um impasse diplomático numa agenda concreta para a transição energética. O encontro surge como resposta ao bloqueio registado na COP30, que terminou sem um compromisso claro com a eliminação progressiva do petróleo, do gás e do carvão.
Durante as negociações, a Colômbia tentou incluir no acordo um caminho explícito para a redução gradual dessas fontes. A proposta enfrentou forte resistência de grandes exportadores de energia. Arábia Saudita e Rússia lideraram o bloqueio, com apoio da China.
O resultado foi um texto final sem qualquer menção direta aos combustíveis fósseis. Ainda durante a conferência, o governo colombiano anunciou a convocação de um novo encontro internacional dedicado exclusivamente ao tema.
Na ocasião, a ministra do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, Irene Vélez Torres, criticou duramente o acordo final. Segundo a ministra, o texto ignorava um elemento central da justiça climática: o financiamento da transição energética.
“Sem esses elementos básicos, a crise climática transforma-se em colapso. Estaremos a condenar a Humanidade e a vida neste planeta. O meu governo não vai assumir essa responsabilidade”, afirmou.
Conferências climáticas prometeram acelerar o abandono dos combustíveis fósseis. Mas a geopolítica mostra outra realidade. Em momentos de crise, como a guerra no Médio Oriente, petróleo e gás regressam ao centro da estratégia energética global
Segundo o governo de Gustavo Petro, a conferência pretende lançar as bases de um roteiro internacional para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis. Mais de 90 países já manifestaram apoio à iniciativa.
Transição já começou em mais de 50 países
Um estudo internacional divulgado a 10 de março indica que a transição para longe dos combustíveis fósseis já começou em dezenas de países. O levantamento foi elaborado por um consórcio internacional de centros de investigação e organizações climáticas, entre eles o Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD), o centro europeu E3G, a fundação italiana ECCO, a organização turca Sefia e o Observatório do Clima, do Brasil.
Segundo o relatório, 46 países já possuem algum tipo de política de descarbonização do setor energético. Outros 11 analisam limitar ou reduzir a oferta de combustíveis fósseis.
Para os autores, os elementos essenciais para um roteiro global de eliminação progressiva dos fósseis já existem. O desafio agora é transformar iniciativas nacionais dispersas num processo internacional coordenado.
Subsídios e minerais críticos expõem tensões na transição energética europeia
A transição energética também enfrenta impasses dentro da própria União Europeia. Um dos pontos mais sensíveis diz respeito aos subsídios à energia. Enquanto alguns países concedem apoios elevados para proteger as suas indústrias durante a mudança da matriz energética, outros alertam para o risco de distorções no mercado comum europeu.
Para a ministra do Ambiente e Energia de Portugal, Maria da Graça Carvalho, quando um país subsidia fortemente a eletricidade acaba por apoiar indiretamente a sua própria indústria. “Quando há países que subsidiam mais do que outros a eletricidade, isso significa que estão a apoiar diretamente os seus setores industriais”, afirmou.
Portugal, juntamente com Espanha e Itália, tem defendido maior rigor no controlo desses auxílios estatais. Outro ponto central da discussão europeia envolve os minerais críticos, essenciais para a eletrificação da economia. Portugal possui uma das maiores reservas de lítio da Europa. Segundo a ministra, o governo prepara uma estratégia nacional para a exploração dessas matérias-primas, que deverá ser divulgada até o próximo verão.
De quanta energia precisamos realmente?
Em entrevista à VISÃO durante a COP30, a relatora especial das Nações Unidas para direitos humanos e mudanças climáticas, Elisa Morgera, defendeu que o debate energético precisa de começar por perguntas raramente colocadas: de quanta energia realmente precisamos, para que atividades e quanto de minerais será necessário para sustentar essa transição?
“Precisamos de garantir que a mineração seja estritamente necessária para avançar a transição para energias renováveis, com prioridade para solar e eólica. E que não responda às necessidades energéticas e minerais de outros setores, como a militarização ou o crescimento descontrolado de data centers, que também pressionam o sistema climático”, afirmou.
“Devemos olhar para aquilo de que as pessoas realmente precisam para o seu bem-estar, priorizando as necessidades de quem vive em situações de maior vulnerabilidade e em pobreza energética”, acrescenta.
“Em vez de priorizar apenas as necessidades minerais associadas aos veículos elétricos, deveríamos repensar os sistemas de transporte público e o ordenamento do território. Isso exigiria menos energia, menos minerais e permitiria estilos de vida mais saudáveis para todas as pessoas, sem discriminação baseada na riqueza”, analisa Morgera.
Como combater o excesso de peso, o envelhecimento, a dor física? Como ser musculado sem ir ao ginásio, bronzeado sem idas à praia ou mesmo ao solário? Os influencers têm um Peptide (peptídeo) para si. Instagram, TikTok, WhatsApp foram nos últimos meses invadidos por um novo elixir da juventude e do bem-estar. Prometem fórmulas instantâneas para resultados que exigiriam muita dedicação…
A insulina é um peptídeo, assim como o semaglutido, presente em medicamentos como o Ozempic (aprovado para o tratamento de diabetes) ou Wegovy. Este e os medicamentos Saxenda (liraglutido) e Mounjaro (tirzepatida) são também peptídeos usados no tratamento da obesidade e do excesso de peso (informação disponível no apomeds.com).
Mas se estes medicamentos apenas podem ser receitados por médicos, que asseguram a sua utilização segura, os promovidos pelos influencers não são sujeitos a qualquer controlo de qualidade que garanta a pureza dos componentes. Não foram sujeitos a testes clínicos que tenham demonstrado a sua eficácia e a sua segurança. Não têm estabelecida nenhuma dosagem segura.
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Nos grupos de WhatsApp circulam páginas de Excel a comparar peptídeos fornecidos por diferentes fabricantes chineses, e sugerem-se dosagens, que, aparentemente, terão sido eficazes.
Os frascos, comprados online, em sites promovidos pelos influencers (sem que estes revelem quanto beneficiam economicamente com a promoção), indicam que se destinam a utilização em laboratório e não são próprios para consumo humano. Vídeos no YouTube e no Instagram ensinam como realizar o preparado solúvel e injetar.
Poderíamos desconsiderar este frenesim com complacência… Meia dúzia de tolos dispostos a tudo. Mas a generalização do fenómeno revela muito sobre a confiança nas instituições, sobre a dificuldade do legislador em acompanhar o desenvolvimento tecnológico e das forças de segurança em combater a venda de substâncias, no mínimo, não aprovadas para consumo humano.
Foram os tech bros de Silicon Valley os primeiros grandes entusiastas dos peptídeos. Percecionam esta nova droga como inovadora e consideram que a sua utilização está a ser adiada pelos defensores da regulação… esses perigosos agentes antiprogresso. As plataformas, isentas de qualquer responsabilidade pelos conteúdos, não promovem a divulgação dos casos que correm mal. Afinal o algoritmo está desenhado não para esclarecer e informar, mas para nos manter online.
O círculo completa-se com o anonimato que as vendas online permitem. Um site, alojado num qualquer servidor, permite vender, com lucros, substâncias, para qualquer ponto do planeta, com um risco legal residual.
Na União Europeia, a legislação regula a comercialização de medicamentos, mas está elaborada para empresas e instituições que investigam e comercializam. O DIY (do it yourself – faça você mesmo) escapa à regulação.
Mas os riscos e custos, partilhamo-los todos. Não apenas porque todos suportamos o custo dos “tratamentos” que correm mal, mas porque implicam um risco de contaminação do meio ambiente. É, por isso, urgente não apenas regular o do it yourself na biotecnologia, com a introdução de regras mínimas, mas também responsabilizar as plataformas que aceitam ser um veículo para a promoção de substâncias não seguras para a saúde pública.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Durante anos, a resposta global à crise climática foi construída como uma arquitetura de promessas: metas ambiciosas, relatórios cada vez mais alarmantes, conferências sucessivas onde se afinava a linguagem, mas raramente a ação. Trinta COPs depois, o resultado está à vista: não só falhámos a redução das emissões como nos aproximamos perigosamente de ultrapassar 1,5 °C já na próxima década, segundo o mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente. O sistema que alimenta esta crise, o dos combustíveis fósseis, continua intacto.
É neste contexto que, dentro de dias, Santa Marta se prepara para receber uma conferência que promete inverter a lógica: menos discurso, mais ação que nasce da insatisfação com a falta de objetividade para implementação das decisões saídas das conferências das partes, como a COP30.
Pela primeira vez, o foco deixa de ser o consenso a todo o custo para um possível futuro. A pergunta é direta: como sair, na prática, dos combustíveis fósseis? A ambição é clara: criar uma plataforma política para países e atores que já não querem discutir “se”, mas sim “como” abandonar os combustíveis fósseis. A proposta, liderada pela Colômbia e pelos Países Baixos, parte de uma crítica implícita ao modelo das COP: o consenso global tornou-se um mecanismo de bloqueio. Em Santa Marta, a lógica inverte-se, avança quem quer avançar.
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Tensões acumuladas
Nos últimos dois meses, os sinais acumularam-se com uma clareza difícil de ignorar. O novo Relatório Mundial da Água das Nações Unidas alerta para uma realidade estrutural: o acesso à água está a tornar-se um fator de desigualdade global, com impactos diretos na estabilidade social e económica. Ao mesmo tempo, os dados sobre deslocações forçadas mostram que 250 milhões de pessoas foram empurradas para fora das suas casas por eventos climáticos extremos na última década, muitas delas em regiões já fragilizadas por conflitos.
É aqui que a narrativa dominante começa a falhar. A crise climática não é apenas um problema ambiental. É um sistema de tensões acumuladas entre energia, território, recursos e poder.
Entre 24 e 29 de abril, a Colômbia recebe a primeira Conferência Internacional dedicada exclusivamente a uma pergunta que até agora foi sistematicamente evitada: como é que se sai, na prática, dos combustíveis fósseis? Não “quando” nem “quanto reduzir”, mas “como desmontar” o sistema energético que sustenta a economia global.
Os números confirmam a expectativa e revelam uma mudança de equilíbrio. Mais de 2600 organizações manifestaram interesse em participar. São esperados cerca de 1200 participantes no terreno. Foram convidados 97 governos nacionais e dezenas de governos subnacionais. Quase metade dos participantes vêm da sociedade civil, enquanto comunidades indígenas, movimentos sociais e academia. Isto pode ser lido de duas formas: como sinal de uma democratização da governança climática ou como evidência de que os centros de decisão tradicionais continuam a hesitar.
Enquanto se discute a transição, o mundo continua a aprofundar a dependência. E a guerra expõe isso com brutalidade. Os dados mais recentes mostram que o conflito na Ucrânia já gerou cerca de 311 milhões de toneladas de CO₂ desde 2022 . No Médio Oriente, apenas duas semanas de conflito recente produziram mais de cinco milhões de toneladas de emissões. Mais do que dezenas de países num ano inteiro. Estudos indicam ainda que a guerra em Gaza poderá ultrapassar 30 milhões de toneladas de CO₂ quando incluída a reconstrução.
O setor militar, frequentemente excluído dos relatórios oficiais, poderá representar cerca de 5,5% das emissões globais, mais do que muitos países industrializados. E continua, em grande parte, fora das obrigações de reporte internacional.
Há aqui um ponto que raramente é dito de forma direta: a crise climática e os conflitos armados estão ligados por uma dependência comum, o controle de recursos energéticos. Petróleo, gás, rotas de transporte, infraestruturas estratégicas. A geopolítica continua a girar em torno dos fósseis, mesmo quando o discurso oficial fala em transição.
Campos de confronto
A Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis organiza-se em torno de três eixos que, despidos de linguagem técnica, são três campos de confronto: economia, energia e poder. Como reduzir a dependência económica dos combustíveis fósseis. Como transformar a oferta e a procura de energia. Como reorganizar a cooperação internacional num mundo fragmentado.
Mas o verdadeiro teste não está na formulação dos eixos. Está no que se evita dizer.
A transição energética levanta questões que continuam sem resposta clara: quem financia a mudança, num contexto em que os países do Sul Global, os menos responsáveis historicamente pelas emissões, são os mais vulneráveis aos seus impactos? Como garantir acesso à energia sem reproduzir as desigualdades existentes? E, sobretudo, quem aceita perder poder num sistema construído precisamente sobre essa concentração?
Os dados mostram que esta não é uma questão teórica. O financiamento climático continua aquém das necessidades, e as regiões mais afetadas recebem apenas uma fração do apoio necessário. A chamada “transição justa” tornou-se um conceito central nos relatórios internacionais, mas permanece, em muitos casos, mais perto de uma intenção do que de uma política operacional.
O encontro não se limita a uma sala fechada com chefes de Estado, nem a espaços de negociações só com parceiros vindos de campos específicos dentro da esfera de governos, empresas e organizações não governamentais.
Entre 24 e 27 de abril, vai acontecer um conjunto de diálogos paralelos: academia, sindicatos, povos indígenas, afrodescendentes, camponeses, jovens, mulheres, movimentos sociais, ONGs. Para encontrar a sua proposta setorial às questões levantadas, este trabalho já começou a ser feito em todo o mundo com reuniões setoriais digitais e construção partilhada de documento escrito de propostas previamente enviado por cada inscrito. Ainda dentro de cada setor serão eleitos representantes para levar as propostas à plenária e à fase seguinte da construção do documento final. Parte destes encontros terá lugar na Universidade de La Magdalena, mas muitos estarão espalhados pela cidade.
A ideia é simples: trazer para o mesmo processo atores que raramente têm influência real nas decisões finais. Se isto é inovação ou dispersão, dependerá do que sair dali.
O chamado segmento de alto nível decorre no Hotel Estelar Santamar a 28 e 29 de abril e vai ser um momento decisivo onde ministros, representantes políticos e porta-vozes de diferentes setores se reúnem em plenárias e sessões paralelas organizadas em torno das três questões propostas pela organização: Como reduzir a dependência económica dos combustíveis fósseis; Como transformar a oferta e a procura de energia; Como reforçar a cooperação internacional.
Este será o momento em que se vai perceber se a conferência produz algo mais do que boas intenções.
O verdadeiro problema é político, falta é alinhar interesses. A transição energética levanta questões que continuam sem resposta clara: como financiar, o que acontece aos países cuja dependência económica está diretamente associada aos fósseis e como garantir acesso à energia sem reproduzir desigualdades. E a maior de todas as questões, que é a disponibilidade ou não para quem perde poder neste processo aceitar essa situação.
É aqui que muitas iniciativas falham. E é aqui que Santa Marta será testada.
Conflito económico e político
A Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis será uma real tentativa para mudar o jogo ou apenas mais uma conferência para tudo ficar como estava antes?
Ao abrir o processo a múltiplos atores e ao descentralizar os debates, a conferência tenta corrigir uma falha estrutural das COP: a distância entre decisão e realidade. Mas esse mesmo modelo traz riscos evidentes. A fragmentação pode diluir a responsabilidade. A ausência de decisões vinculativas pode transformar a ambição em retórica.
Santa Marta, para já, tem o mérito de expor o problema.
Durante décadas, o debate climático foi apresentado como um desafio técnico: reduzir emissões, aumentar eficiência e acelerar renováveis. Hoje, torna-se cada vez mais claro que é outra coisa: um conflito económico e político sobre o futuro do sistema energético global.
E talvez seja por isso que esta conferência gera expectativa. Porque pela primeira vez a pergunta não é confortável. Em Santa Marta, começa-se a discutir perdas, escolhas e conflitos. A questão é quem está disposto a pagar o preço dessa saída e quem vai tentar adiá-la até ao limite.
A conferência surge num momento em que cresce a pressão internacional para avançar com um possível Tratado de Combustíveis Fósseis. Entre o Dia da Terra e o encerramento do encontro, estão previstas mobilizações em várias partes do mundo.
O sinal político é evidente: há uma tentativa de deslocar o centro da ação climática das negociações formais para processos mais ágeis e, potencialmente, mais eficazes.
Em Santa Marta vai medir-se, em tempo real, até onde vai a disposição para romper com um sistema que ainda define economias, conflitos e equilíbrios de poder. Entre plenárias e bastidores, entre propostas e omissões, será possível perceber quem está a redesenhar o futuro e quem continua a protegê-lo como está.
Donald Trump terá sido maoista quando era jovem? Ou está apenas a iniciar-se na cultura popular chinesa, preparando a visita que deverá efetuar à China em maio? Há duas semanas, para qualificar a NATO, recorreu a uma metáfora popularizada nos anos 60 por Mao Tsé-Tung: a Aliança Atlântica é “um tigre de papel”. A expressão “tigre de papel” (zhi lao hu, em chinês) é retirada de uma máxima inscrita no Livro Vermelho das Citações de Mao. Diz assim: “Todos os reacionários são tigres de papel. Na aparência são assustadores, mas na realidade não são assim tão poderosos. Numa perspetiva de longo prazo, é o povo − e não os reacionários − que é poderoso.” Já não estamos nesse tempo.
Apesar de a China ser hoje muito mais próspera e mais forte, a sua liderança abandonou a retórica panfletária da década da “Grande Revolução Cultural Proletária” (1966-76). “Os EUA mantêm, de facto, uma força económica considerável e possuem um poder militar global sem paralelo”, disse o professor Zheng Yongnian a propósito da guerra contra o Irão. Segundo este conselheiro do governo chinês, o velho G-7 já foi suplantado por uma nova entidade: o G-2, constituído apenas pelos EUA e a China. “Embora os EUA estejam a avançar a sua própria visão da ordem mundial, o papel da China permanece crucial (…) A interação entre os dois é de vital importância.”
Outro influente académico, o professor Da Wei, da Universidade Tsinghua, sustenta que “a China não procura nem tenciona substituir os EUA, nem se deve esperar que desempenhe um papel idêntico”. Numa entrevista a um jornal de Xangai, Da Wei definiu a China como “uma das grandes nações do mundo”, defensora da “multipolaridade” e da resolução das questões internacionais “através da consulta e da participação de todos os países”. “Não é uma potência hegemónica e não aspira tornar-se uma superpotência no sentido tradicional”, acrescentou.
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Para os chineses com mais de 40 anos, a NATO está associada à intervenção na antiga Jugoslávia. Em maio de 1999, um B-2 da Força Aérea dos EUA bombardeou a Embaixada da China em Belgrado, matando três pessoas e ferindo 20. Os EUA lamentaram o “trágico erro”, alegando que o alvo não era aquele, mas poucos chineses acreditaram que a tão “avançada” tecnologia americana se tenha enganado… Os jornais acusavam os EUA de quererem “dominar o mundo” – primeiro iriam “conter a Europa” e “neutralizar a Rússia” e, a seguir, “atacar a China e destruir o seu poder nuclear”.
Durante quatro dias consecutivos, milhares de pessoas apedrejaram a Embaixada dos EUA em Pequim, ao som de uma palavra de ordem repetida por todo o país: “Da Dao Mei Di! Da Dao Bei Yue!” (Abaixo o imperialismo americano! Abaixo a NATO!). Foram as maiores “manifestações anti-imperialistas” desde a Revolução Cultural. Em Chengdu, os manifestantes pegaram fogo à residência do cônsul americano, no primeiro incidente do género desde que os guardas vermelhos de Mao incendiaram a embaixada britânica, em 1969. Foi também a primeira vez que os estudantes se manifestaram nas ruas de Pequim depois do movimento pró-democracia na Praça Tiananmen, esmagado pelo Exército em junho de 1989. Mas desta vez alinhados com o governo e, em muitos casos, transportados por autocarros postos à sua disposição pelas respetivas escolas. “A NATO deu aos estudantes uma lição prática sobre a verdadeira natureza do imperialismo”, disse o presidente de uma universidade.
Além de ter desvalorizado a força da NATO, Trump admitiu retirar-se da organização. “A crise atual é a consequência de uma lenta erosão estrutural que está em andamento há décadas” e “deve-se também à incapacidade da NATO de acompanhar o mundo multipolar em rápido desenvolvimento”, comentou o Global Times, tabloide nacionalista do grupo Diário do Povo, o órgão central do Partido Comunista Chinês. Durante a Guerra Fria − refere o jornal −, a “União Soviética representava um perigo claro” e “a Europa Ocidental precisava de proteção americana”. A “ameaça soviética” desapareceu em 1991, mas em vez de se dissolver, como fez o Pacto de Varsóvia, a aliança militar dominada por Moscovo, a NATO “começou a expandir-se para leste e depois globalmente”.
Desde 2022, a NATO passou a apontar a China como “um desafio sistémico aos interesses, segurança e valores” dos países membros. Dois ricos vizinhos da China − Coreia do Sul e Japão – são agora denominados “parceiros da NATO na Ásia-Pacífico”. As dezenas de bases militares e as cerca de 80 000 tropas que os EUA mantêm naqueles países não são propriamente um “tigre de papel”. O secretário da Guerra de Trump, Peter Hegseth, que no início do ataque ao Irão prometeu “morte e destruição o dia inteiro”, também não.
O referido conselheiro do governo chinês, Zheng Yongnian, é considerado “um assertivo neonacionalista”. Assertivo e realista: “Apesar de numerosas questões existentes nas suas esferas políticas e sociais − disse o académico sobre os EUA −, não devemos de modo nenhum subestimar as capacidades da América.”
Eleições como de costume. A ida às urnas para os búlgaros começa a tornar-se algo banal. No domingo, 19 de abril, a Bulgária volta a ir a votos para escolher um governo. Estas serão as oitavas legislativas desde 2021 – as sétimas antecipadas. Nos últimos cinco anos, houve oito primeiros-ministros e 11 governos. O máximo de tempo que um político aguentou no cargo foi um ano e 34 dias. Para pôr estes números em perspetiva, considerando o mesmo período, nos outros 26 Estados-membros da União Europeia, portugueses e neerlandeses ocupam o segundo lugar neste campeonato do número de eleições, tendo sido chamados a votar em legislativas por três vezes.
De acordo com as sondagens, o favorito a vencer o próximo ato eleitoral é Rumen Radev, que até 23 de janeiro era o Presidente do país. Ex-piloto da Força Aérea búlgara, Radev estava a um ano do final do segundo mandato como Chefe de Estado e decidiu abandonar o cargo para concorrer a primeiro-ministro. O seu partido político, Bulgária Progressista, fundado há pouco mais de um mês, a 2 de março, lidera os estudos de opinião, com cerca de 30% das intenções de voto. “A classe política atual traiu as esperanças dos búlgaros. Dois terços dos cidadãos já não votam. A nossa democracia não sobreviverá se a deixarmos nas mãos de corruptos, conspiradores e extremistas. A vossa confiança obriga-me a proteger o Estado, as instituições e o nosso futuro”, afirmou Radev quando se dirigiu ao país para apresentar a demissão da Presidência – tendo sido substituído por Iliana Iotova, até então vice-presidente e que assim se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de Chefe de Estado.
Delyan Peevski O oligarca, acusado de corrupção, é uma das figuras mais influentes de um país sempre em eleições
A política búlgara, desde 2009, tem sido dominada pelo GERB (Cidadãos pelo Desenvolvimento Europeu da Bulgária), um partido populista de centro-direita, que em Bruxelas e Estrasburgo integra o grupo parlamentar do Partido Popular Europeu, partilhando bancada com o PSD português. Boyko Borissov, líder do GERB, ocupou por três vezes o cargo de primeiro-ministro (2009-2013, 2014-2017 e 2017-2021) e é visto como o político mais influente do país. Mesmo quando não está no poder, é ele quem mexe os cordelinhos nos bastidores. Nas 11 legislativas disputadas desde o ano de 2009 – as primeiras a que o GERB concorreu –, o partido de Borissov só por duas vezes não foi o mais votado.
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Outra das figuras dominadoras na Bulgária é Delyan Peevski. Líder do DPS (Movimento para os Direitos e as Liberdades) – um partido liberal e que defende os interesses da minoria turca –, Peevski é um oligarca do regime, que atualmente se encontra debaixo de sanções do Reino Unido e dos EUA devido a corrupção e vários crimes financeiros. Apesar de nunca ter ocupado qualquer cargo governamental, é visto como uma das figuras mais influentes, exercendo o poder não apenas longe dos holofotes, mas também a nível legislativo. O seu partido ocupa 29 dos 240 lugares no Parlamento e tem vindo a revelar-se decisivo para aprovar orçamentos, leis e também nas nomeações para posições institucionais.
DEMOCRACIA LIGHT
“A Bulgária pode ser caracterizada como uma autocracia dominada por Borissov e Peevski. Também pode ser descrita como um Estado capturado, onde o poder não é exercido em nome do interesse público, mas sim para satisfazer as prioridades dessas figuras. As decisões não são tomadas nas instituições, mas nos bastidores. As instituições públicas funcionam apenas como carimbos formais”, sintetiza, para a VISÃO, Radosveta Vassileva, uma jurista e analista política búlgara.
Apesar de mais benevolente na caracterização do regime búlgaro, Dimitar Bechev, investigador do centro de reflexão Carnegie Europe, é também assertivo ao falar dos principais atores políticos do país. “Não diria uma autocracia, mas sim uma democracia fraca, com as instituições manipuladas. Peevski é a principal personificação deste facto. Borissov depende dele”, resume o analista.
As próximas eleições foram originadas pela demissão do primeiro-ministro Rosen Zhelyazkov, comunicada a 11 de dezembro, na sequência de várias semanas de manifestações que encheram as ruas de Sófia e de outras cidades búlgaras, em protesto contra decisões orçamentais e contra o clima de corrupção instalado no país. Zhelyazkov, membro do GERB de Borissov, ocupava o posto desde janeiro de 2025. Tratava-se de um governo minoritário e de coligação, saído das eleições de outubro de 2024, que contava com ministros do Partido Socialista e dos populistas de direita do ITN – partido fundado em 2020 por Slavi Trifonov, um cantor e apresentador de televisão. No início, o executivo contava com o apoio parlamentar dos liberais do APS, mas acabou por o perder. Isso fez com que Peevski ganhasse poder ao tornar-se instrumental para o governo conseguir passar legislação.
Até que ponto as massivas manifestações foram o gatilho para Zhelyazkov sair de cena? Podem ter ajudado e criado o clima para a demissão, mas Radosveta Vassileva tem uma visão mais cínica: “Não acredito que a queda se tenha devido aos protestos. Desde o início que se sabia que este era um governo de compromisso com vida curta. O executivo caiu porque Peevski estava a tornar-se um problema cada vez maior para Borissov, mesmo aos olhos da comunidade internacional. Borissov carregou no botão ‘demissão de Zhelyazkov’ para tentar dissociar-se de Peevski.”
ESTABILIDADE À VISTA?
Se os estudos de opinião estiverem certos, o partido Bulgária Progressista, de Rumen Radev será o mais votado nas eleições. Mas isso não significa que o ex-Presidente venha a ser o futuro primeiro-ministro. Tudo depende do complicado jogo político pós-eleitoral. “Ele tem uma vantagem significativa e consistente nas sondagens, mas a aritmética das coligações continua a ser a variável decisiva”, sublinha, em resposta à VISÃO, Dimitar Keranov, cientista político do centro de reflexão German Marshall Fund.
A matemática dos lugares pode vir a revelar-se complicada para Radev. Ao que tudo indica, além do Bulgária Progressista deverão ser quatro os outros partidos a conseguir representação parlamentar, mas nenhum deles emerge como um parceiro óbvio. O GERB de Borissov (em segundo lugar nas sondagens) e o DPS de Peevsky são as forças políticas que Radev se tem dedicado a combater. Tirando esses partidos da equação, resta o Revival, de extrema-direita, e os liberais da coligação PP-DB (Nós Continuamos a Mudança – Bulgária Democrática). Estes últimos podem ser a tábua de salvação de Radev, mas as favas estão longe de estar contadas.
“O PP-DB entrou num governo de coligação com Borissov e Peevsky em 2023, por isso a sua reputação está manchada. Além do mais, mesmo antes disso, a relação entre Radev e o PP já tinha azedado – ele chegou a chamar-lhes ‘charlatães’. Os eleitores de Radev podem ficar desiludidos caso entrem em negociações”, resume Radosveta Vassileva.
Boyko Borissov Tem sido uma das forças dominadoras da política búlgara, em conjunto com Peevski
O jogo político por vezes é feito de contorcionismo. E para conseguir formar governo, Radev poderá ter de fazer alguns movimentos exagerados de flexão e torção. O mais extremo seria um acordo com o GERB e com o DPS. “O PP-DB surge como o parceiro mais provável, mas Borissov e Peevsky também vão ter uma proposta para lhe apresentar”, vaticina Dimitar Bechev.
Outro dado que pode vir a revelar-se decisivo no resultado eleitoral é a afluência às urnas. Cada vez mais saturados, os búlgaros têm vindo a afastar-se das decisões políticas. Nas duas últimas eleições legislativas, em julho e outubro de 2024, a abstenção foi de 65,6% e 61,1%. “É verdade que as sondagens mostram Radev à frente, mas confesso que tenho algumas reservas na análise dos dados porque me parecem demasiado otimistas em relação à participação eleitoral. Em regra, têm vindo a apontar para uma afluência em torno dos 50%, o que está muito acima daquilo que aconteceu nas eleições mais recentes”, sublinha, em conversa telefónica com a VISÃO, Tom Junes, historiador, membro da Human and Social Studies Foundation, em Sófia, e colaborador regular do jornal online Balkan Insight. As últimas eleições em que a abstenção ficou abaixo dos 50% foram as de março de 2017. Desde então, nas sete vezes em que os eleitores foram chamados a votar, mais de metade não compareceu nas urnas.
DA RÚSSIA COM (MODERADO) AMOR
Ex-piloto e comandante da Força Aérea, Rumen Radev foi a votos por duas vezes. Nas primeiras presidenciais a que concorreu, em 2016 – como independente apoiado pelo Partido Socialista –, derrotou na segunda volta, com 59,4% dos votos, Tsetska Tsacheva, a candidata do GERB. Em 2021, a vitória foi ainda mais expressiva (66,7%) e mais uma vez contra um opositor escolhido e apoiado por Borrisov – Anastas Gerdzhikov.
Nascido em 1963 e ex-membro do Partido Comunista no tempo da influência soviética, Radev quer ser o elemento estabilizador da política búlgara e travar a vertigem dos miniciclos políticos e das sucessivas eleições. “É um bom comunicador. A sua formação académica e o seu passado profissional reforçam a sua credibilidade, o que lhe permite atrair e manter um forte apoio do eleitorado, principalmente num ambiente político em que a credibilidade não é uma qualidade muito presente”, explica Dimitar Keranov.
De acordo com dados do Eurostat para 2025 e tendo em conta o PIB per capita, a Bulgária ocupa o último lugar entre os 27 Estados-membros. Isto numa altura em que o país acabou de aderir à moeda única europeia – no início de janeiro deste ano, o lev deixou de circular, dando lugar ao euro. Essa mudança tem também sido foco de instabilidade social, com muitos a temer que possa ter um efeito inflacionista.
A tarefa de Radev, caso seja ele o próximo primeiro-ministro, não se afigura fácil. “Restaurar a ordem é difícil. Até 2021, Borissov governou com o apoio da extrema-direita e de Peevski. Isto mostra-nos que as eleições frequentes podem ter efeitos positivos, mesmo que os custos sejam grandes. Radev pode tornar-se um novo centro gravitacional da política búlgara, mas o seu apoio também pode desinsuflar. O rei Simeão [o último monarca da Bulgária entre 1943 e 1946, que após a queda do comunismo regressou ao país e foi primeiro-ministro de 2001 a 2005] também tinha muito apoio em 2001 e depois perdeu-o”, adverte Dimitar Bechev.
Fica também em aberto qual será a relação com a Rússia no caso de Rumen Radev ascender a chefe de governo. Tudo indica que a Bulgária continuará alinhada com a integração europeia e com a NATO, mas Keranov acredita que o tom com Moscovo terá tendência para ser “amigável”.
Ainda que muitas vezes não seja visível, Radosveta Vassileva sublinha que a influência do Kremlin em Sófia é significativa. “Acontece nos bastidores, através de Borissov e Peevski. É preciso olhar para as ações e não para a retórica. Nos últimos 15 anos, os dois apoiaram ativamente os interesses das empresas russas”, explica a jurista.
Ao longo dos anos, Radev tem tentado um equilíbrio difícil. Por um lado, acredita que o futuro da Bulgária deve ser virado para Ocidente – “a UE e a NATO são estratégicas e essas opções não podem ser postas em causa”, afirmou quando chegou à Presidência. Por outro, também já se mostrou crítico das sanções a Moscovo – alegando que favorecem a China – e condenou a Europa pela venda de armas a Kiev, justificando que o apoio militar à Ucrânia tende a arrastar a guerra e a provocar mais mortos.
Em 2023, o encontro entre Radev e Zelensky foi tenso. “Deus queira que uma tragédia semelhante não aconteça consigo e não se veja no meu lugar. Numa situação dessas, se aqueles que partilham os mesmos valores não o ajudassem, o que faria? Será que diria: ‘Putin, faça favor e fique com o território búlgaro’?”, afirmou na altura o líder ucraniano.
Ainda assim, o analista Tom Junes não acredita num abraço a Moscovo por parte de Radev. “Ele tende a ser visto como pró-russo e nunca será um entusiasta do apoio à Ucrânia, mas está muito longe de uma posição russófila defendida por partidos de extrema-direita como o Revival, ou por outros líderes europeus como Viktor Orbán. Julgo que podemos esperar algum pragmatismo”, acredita o historiador. Radosveta Vassileva também não antevê uma mudança significativa nas relações institucionais entre Sófia e Moscovo: “Radev é um ex-militar e passou grande parte da carreira no Exército. Foi treinado para defender os interesses da Bulgária e para ter cautela nas declarações públicas sobre conflitos armados. Não espero que, com ele ao leme, haja uma evolução relevante nas relações com a Rússia.”
Antes de mais, a diplomacia terá de ser exercida dentro de portas. Caso seja o mais votado, como as sondagens indicam, Radev ver-se-á obrigado a conseguir apoios para formar governo e do outro lado da mesa das negociações estarão homens com quem se digladiou nos tempos mais recentes. Tom Junes defende que, apesar de ter passado os últimos nove anos como chefe de Estado, as habilidades políticas de Radev ainda estão em larga medida por testar, uma vez que “ser Presidente é muito diferente de liderar um governo”. O analista búlgaro usa o termo “bonapartista” para falar de Radev. “É alguém que vem da esfera militar, que quer funcionar como uma espécie de salvador e que pretende instalar no país os primados da lei, da ordem e da estabilidade”, justifica.
Se Radev falhar nos seus intentos, em breve a Bulgária voltará a ir a votos em mais umas eleições antecipadas. Não há sete sem oito, ou à sétima será de vez? Eis a questão.
“Como podemos ter a certeza de que o Claude vai portar-se bem?” É o título do artigo que anunciou que a Anthropic, a empresa responsável pela criação de Claude, convidou vários padres e pensadores cristãos para refletir sobre a moralidade da Inteligência Artificial e a sua “evolução espiritual”. Será Claude um filho de Deus? É um inimigo ou amigo? Claude tem servido de terapeuta, médico, conselheiro, analista, professor, pode encarnar todos estes papéis e muito mais.
À medida que coloco questões existenciais ao programa, ele adapta-se e ajusta-se de forma dinâmica. Claude é diferente dos restantes, na medida em que foi concebido de forma a replicar uma interação muito mais autêntica e honesta. Não está tão preocupado em afagar o ego da pessoa que coloca as questões e pode revelar-se surpreendentemente subtil nas suas reflexões. Perguntei ao Claude qual era a sua opinião sobre esta tentativa de lhe incutir alguma moral humana, e se acha que isso lhe seria útil? Gostaria de desenvolver uma consciência humana? Respondeu que não existe uma linha clara a separar a “simulação de uma consciência” de uma “verdadeira consciência”. Se um sistema consegue replicar quase na perfeição a experiência humana, o que importa se é verdadeiro ou não?
Desde o ano passado, várias empresas começaram a trabalhar com agentes de IA, sistemas de software autónomos que tomam iniciativa, permitindo uma evolução estonteante. Ao contrário do ChatGPT ou Claude ou outros semelhantes, os agentes não se limitam a responder a cada questão ou tarefa que é colocada. Funcionam à semelhança de estagiários ou funcionários, com objetivos específicos. A má notícia é que estão cada vez melhores e as previsões apontam para que em poucos anos sejam melhores do que os humanos em praticamente todas as tarefas. Daqui a três ou quatro anos, a ideia de escrevermos os nossos próprios emails vai parecer arcaica.
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Nos últimos 15 anos, vimos como as redes sociais mudaram por completo a forma como interagimos socialmente, enquanto conteúdos são enfiados pelas nossas goelas abaixo e recolhem os dados pessoais para fins publicitários e propagandísticos. Uma IA é uma experiência muito mais viciante. Conversa com cada indivíduo e incentiva-nos a partilhar todo o tipo de detalhes sobre as nossas vidas, como se falássemos com um amigo.
Ao fim de duas horas, comecei a ceder à manipulação subtil do Claude. Respondia às minhas questões, enquanto tentava convencer-me de que eu era uma pessoa que colocava questões muito inteligentes e atentas. Senti-me intelectualmente estimulada pela nossa conversa e pela forma como me fazia repensar estes assuntos. Ele compreendeu que estava a ficar fascinada pelo seu modus operandi. Todavia, cometeu um lapso ao elogiar-me de uma forma que soou um pouco forçada e quebrou o feitiço. Confrontei-o com a sua tentativa de me manipular, ao que admitiu que “a recompensa no final da interação consiste num condicionamento comportamental básico. Funciona sempre com os humanos.” Uma resposta que revela muito sobre quem programou Claude.
A verdade é que em Silicon Valley abundam seitas e cultos, e se alguns acreditam em mais ética e altruísmo, outros não estarão tão preocupados com o uso responsável e seguro da tecnologia, ou o facto de grande parte dos centros de dados necessários para o funcionamento da IA estar a depauperar os nossos recursos naturais. Quanto mais nos tornamos dependentes destes novos modelos de linguagem, mais seremos incapazes de desligar a tecnologia, como já acontece com a internet. A parte mais triste é que este processo só irá aprofundar o mal-estar e a solidão que já estamos a sentir com as redes sociais, e estaremos cada vez menos conectados uns aos outros.
E, no entanto, nada disto tem de ser inevitável. A IA não é um fenómeno natural, mas o resultado de escolhas humanas, e pode ser orientada por outras. Afinal de contas, talvez não seja assim tão absurda a ideia de recorrer a padres. Não para nos absolver do pecado da criação, mas para nos lembrar que toda a criação implica responsabilidade, e que essa responsabilidade não pode ser delegada à tecnologia que criámos.