Diante da adversidade, o Governo deu um atroz festival de incompetência. Foi a ministra da Administração Interna (MAI) que não existiu, logo numa altura em que o País mais precisava dela. Quando disse, diante das câmaras, que não sabia o que tinha falhado no socorro, quando afirmou que desconhecia o plano de emergência (“Qual plano?”) e quando achou normal estar a “aprender” no cargo (o mantra da “aprendizagem coletiva”), está tudo dito.
Depois há o ministro da Defesa que andou a brindar aos militares, para as televisões, e ficou à espera não se sabe do quê para colocar a tropa imediatamente ao serviço da Proteção Civil, na salvaguarda das pessoas e dos bens. Acordou uma semana depois da tragédia.
O ministro da propaganda, perdão, da Presidência, Leitão Amaro, resolveu trabalhar para a imagem com aquele vídeo inconcebível para o TikTok, em vez de fazer alguma coisa de útil para as populações. Salvou-se a Ministra do Ambiente e Energia, que teve uma acuação louvável e à altura dos acontecimentos.
Mas por que razão o primeiro-ministro, que é a chefia do sistema nacional de proteção civil de acordo com a lei, não requisitou imediatamente um helicóptero para ver a extensão do desastre na região, acompanhado da MAI e do comandante operacional da Proteção Civil? Porque tardou em decretar o estado de calamidade? Porque não desencadeou de imediato uma resposta integrada à tempestade, e só muitos dias depois começou a tomar as rédeas da situação? E porque não recorreu atempadamente ao Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia?
Digam o que disserem, Isaltino Morais foi exemplar. O presidente da câmara de Oeiras enviou de imediato para Pombal vários camiões com materiais de construção e equipamentos, juntamente com uma equipa que lá ficaria pelo menos uma semana a acorrer às populações, em articulação com o município local. Ao contrário de grandes municípios como Lisboa, Porto, Sintra, Amadora ou Gaia que nada fizeram, que se saiba.
Portugal não parece ter um plano de prevenção para desastres naturais, nem um plano de emergência para responder de imediato a catástrofes, e nem a própria Proteção Civil consegue sequer uma boa articulação e coordenação no terreno entre as diversas forças que a compõem. Não é que não existam pessoas competentes para essas funções, mas a desgraçada partidarite impede os melhores e mais experientes de serem chamados, por razões de baixa política.
Depois disto, e em condições normais, o primeiro-ministro procederia a uma remodelação governamental logo depois da posse do novo inquilino de Belém, mas certamente tentará não o fazer por ter medo de dar parte de fraco. A Administração Interna, a Saúde, a Defesa, o Trabalho e a Presidência precisam de atores capazes e competentes, que tenham peso político e não sejam apenas erros de casting, indivíduos movidos por ódios pessoais, cristalizados em opções ideológicas rígidas ou fascinados de forma saloia com a sua própria imagem.
E é pena que não o faça porque a partir de agora o Governo, que já não estava bem, vai surgir ferido na asa perante uma extrema-direita que sonha abocanhar o PSD, e vai fazer como os predadores na savana africana, que observam as fraquezas das presas na manada de modo a atacar com sucesso os mais incapazes, frágeis e doentes.
Destas eleições saiu um novo Presidente com legitimidade política como nenhum outro antes. Não terá tarefa fácil à sua frente, contudo Seguro não deve a eleição a ninguém, a não ser ao eleitorado, pelo que tem as mãos livres, o que já não é pouco. Venceu a República, a Democracia, a Decência e a Verdade.
Como bom populista, Ventura fez mais um número político ao desvalorizar as eleições e tentar assim aumentar a abstenção, ao pedir o adiamento da votação, mesmo sabendo que a lei não o permitia. Como se sabe, os extremistas acham as eleições uma maçada, especialmente quando percebem que as vão perder. Mas, como se viu, o eleitorado acorreu às urnas, contrariando assim a tese. E, como era previsível, Ventura já começou a enganar as pessoas, misturando votos partidários com votos pessoais. Está-lhe na massa do sangue. Ontem assumiu-se como líder da direita, mas depende dos partidos dessa mesma direita se o virá a ser ou não no futuro. Por agora só lidera a extrema-direita.
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