O Dicastério para a Doutrina da Fé veio dizer que este esclarecimento era necessário devido às “numerosas consultas e propostas que chegaram à Santa Sé nas últimas décadas sobre questões relacionadas com a devoção mariana e certos títulos marianos”. E afirma claramente que é “sempre inapropriado” falar da corredenção de Maria, porque a salvação é obtida por meio de Jesus Cristo. O papel de Maria será, como reza este documento, de subordinação.
Recorde-se que na prática litúrgica em boa parte do mundo o papel de Maria é proeminente, e por isso as alas mais tradicionalistas e marianas do catolicismo reagiram mal ao referido documento, o “Mater Populi Fidelis”.
Embora dogmas como a Imaculada Conceição de 1854 e a Assunção Corporal de 1950 se encontrem firmemente estabelecidos, a espiritualidade mariológica está sempre em movimento. Assim, o título de “corredentora” atribuído a Maria vinha a ser objeto de discussão há muito. Por exemplo, Pio X e Pio XI utilizaram o conceito nos seus documentos, talvez como resposta às movimentações populares.
Contudo, o teólogo Ratzinger, que mais tarde ascendeu ao papado, apresentou reservas ao título mariano, tal como o papa Francisco, por considerarem que “corredentora” é passível de mal-entendidos. Como escreve o padre Tiago Neto no jornal digital dos jesuítas portugueses Ponto SJ: “De facto, o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, diante da petição do movimento Vox populi Mariae mediatrici a favor da definição de um quinto dogma mariano, o de corredentora ou mediadora de todas as graças, deu um voto particular negativo. Este e outros pedidos semelhantes têm origem em certas tendências contemporâneas que tendem a exaltar a figura de Maria considerando que relativamente a ela nunca se tem o suficiente (munquam satis).”
Em 2002, Ratzinger expressou-se publicamente contra o título mariano de “corredentora” por ser equívoco: “A fórmula Corredentora distancia-se em demasia da linguagem da Escritura e da Patrística e, portanto, provoca mal-entendidos… Tudo procede d’Ele, como dizem sobretudo as Cartas aos Efésios e aos Colossenses. Maria é o que é graças a Ele. A palavra Corredentora obscureceria essa origem”. A realidade é que Roma sempre teve sensibilidades mariológicas diversas. Entre o século XIX e meados do XX a mariologia desenvolveu-se muito, mas depois do Concílio Vaticano II, recuou.
A nota publicada pelo Vaticano não é revolucionária nem representa uma rutura com a mariologia, apenas distingue a mediação de Jesus Cristo no que diz respeito à salvação, da mediação de Maria em todas as outras graças, abrindo espaço para a intercessão e mediação das graças por Maria e pelos santos. Embora “derivada e subordinada”, Maria é considerada mediadora e intercessora através da sua intercessão e presença materna, pelo que não há no documento nenhuma alusão à exclusividade de Cristo na economia da Salvação.
O facto é que a devoção mariana é mais influenciadas pela liturgia do que pela doutrina. O documento do Vaticano limita-se a assinalar um problema com a doutrina mariana mas não deixa de encorajar a expressão plena da espiritualidade mariana. Roma continua a acreditar que, tal como se pode ler no documento, “a vida da graça inclui a nossa relação com a Mãe de Cristo, pois a nossa união com Cristo pela graça também implica a união com Maria numa relação de confiança, ternura e afeto sincero”.
A nota é clara: “Neste caso, não ajuda a exaltar Maria como primeira e máxima colaboradora na obra da Redenção e da graça, porque o perigo de obscurecer o lugar exclusivo de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem por nossa salvação, único capaz de oferecer ao Pai um sacrifício de valor infinito, não seria uma verdadeira honra à Mãe”. Ou seja, este título mariano é desaconselhado por ser ambíguo, e por não encontrar fundamento nas Escrituras nem na tradição cristã.
Apesar de tudo, o que parece ter sucedido é uma ação do Vaticano para travar os excessos mariológicos – que pretendiam um novo dogma mariano – e não propriamente uma clarificação definitiva sobre o papel da figura de Maria elevada aos altares, em oposição à visão protestante e reformada. Até porque os dogmas marianos sempre vieram a reboque da religiosidade popular e da devoção à mãe de Jesus, muito provavelmente devido à falta de uma referência feminina num universo divino exclusivamente masculino.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.