A vida política anda esquisita por muitas e diversas razões. Uma delas é que antes tínhamos homens que se tornaram notáveis devido ao seu percurso político. Ou tinham lutado contra a ditadura e sofrido perseguições, prisões, exílios e campanhas negras, ou tinham acreditado que seria possível mudar o regime por dentro e tentaram-no, embora sem sucesso. Outros eram indivíduos que se destacaram pela sua notória craveira intelectual.
De há uns tempos para cá as coisas mudaram. Hoje a política é uma arena de oportunistas, corruptos, gente pouco séria e mesmo criminosos de vários tipos. A democracia tem destas coisas. É tão aberta a qualquer um que nem se sabe defender a si própria.
O problema é que antes o eleitorado sabia discernir os elementos sérios dos outros, desde logo pelo discurso. Mas hoje, mercê das redes sociais, da IA e dum certo deslaçamento da sociedade e da polarização, é muito mais difícil esse exercício de discernimento, intoxicados que estamos pelas notícias falsas e informação manipulada ou desonesta. E é por isso que os extremismos e populismos têm prosperado e confundido tantas cabeças pouco pensantes.
Estamos na última fase duma campanha eleitoral para a Presidência da República. A generalidade dos comentadores concorda que este é um tempo político novo, em termos de presidenciais, visto que já não há figuras de referência do regime democrático.
Eanes foi importante no seu tempo, enquanto militar, na transição para um regime civilista. Soares, o primeiro civil em Belém, era um dos fundadores da República saída do 25 de Abril de 1974. Sampaio vinha das lutas académicas contra o salazarismo e Cavaco tinha governado durante muito tempo. Nos últimos dez anos, o País teve um Presidente de outro patamar, já sem a gravitas dos anteriores e que aligeirou a função presidencial, quer ao vulgarizar a palavra quer ao exagerar os comportamentos na procura da popularidade.
Neste momento, temos quatro candidatos da esquerda e centro-esquerda. Três deles são representantes de pequenos partidos que não têm qualquer hipótese de passar à segunda volta. Votar neles será um desperdício de votos para quem quiser levar adiante alguém deste setor político.
Do centro-direita à extrema-direita temos outros quatro candidatos. O extremista e populista André Ventura, que tem muitos apoiantes e muitos mais ainda que o detestam. Depois vêm dois representantes de partidos ou coligações de partidos, Cotrim de Figueiredo, que procura pescar no eleitorado do PSD e CDS, e Marques Mendes, o facilitador de negócios, que uma vez eleito será um delegado do Governo em Belém.
Finalmente, temos um dito independente, Gouveia e Melo, que deu corpo ao sebastianismo tradicional da mentalidade portuguesa, mas rapidamente (logo que começou a ter que expor ideias) se percebeu que não tinha nem experiência política nem conteúdo, tendo-se tornado um catavento ideológico.
Daqui resulta que apenas António José Seguro parece ter as condições necessárias e suficientes para fazer um bom lugar em Belém. Tem experiência política, tendo trabalhado de perto com homens de referência como Mário Soares. Não é um profissional da política. Esteve afastado da política ativa nos últimos dez anos, período em que se dedicou à profissão de docente universitário e pequeno empresário.
Temos a garantia de que uma vez eleito não será uma correia de transmissão do seu partido, uma vez que, ao contrário dos outros, se apresentou sem negociar ou garantir qualquer apoio partidário. Tem sentido de Estado pois, num momento difícil da vida nacional, soube colocar o interesse geral do País à frente do interesse particular do seu partido, tendo pago um elevado preço político por tal decisão.
É alguém capaz de procurar os consensos de que Portugal precisa para introduzir as reformas necessárias e não é um homem das elites urbanas de Lisboa e Porto, mas sim do interior, que é para onde o País mais precisa de olhar. Sobretudo, não é corrupto nem tem rabos-de-palha.
Portugal não precisa de gigantes nem de anões, apenas de um homem normal e decente. Dêem-nos um homem assim.
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