Qualquer entrevista ou fórum onde se discuta a sociedade do futuro e o impacto da Inteligência Artificial não termina sem que, ao especialista – do Nobel da Economia ao bilionário de Silicon Valley –, se questione: Como preparar crianças e jovens para este mundo novo? O que ensinar? Que competências promover?
Após uns segundos de hesitação, dois momentos: primeiro, o reconhecimento de que ainda ninguém sabe quais serão os novos empregos do futuro, e um segundo, em que, sem se especificar, se fala em promover o pensamento crítico, a empatia, a liderança…
O ano de 2025, no entanto, já consolidou o primeiro dos novos “trabalhos” do mundo do futuro. Para o mesmo não parece ser preciso ser inspirador, saber cuidar ou estudar matemática. AI slop creator, ou seja, quem cria, usando o ChatGPT ou outra ferramenta semelhante, texto, música e vídeos de baixa qualidade que invadem o espaço virtual. O feed do Insta, do TikTok, do Spotify, os links gerados numa pesquisa no Google – todos, progressivamente, dominados por “tralha”. Que cansa, mas cativa. Adormece o cérebro, mas não faz… ainda… desligar o telemóvel.
Segundo as estatísticas disponíveis, cerca de 50% da internet já é slop. Tralha que não acrescenta, mas polui. Consome recursos (água, energia) e utiliza infraestruturas, que o cidadão comum paga nas contas do telemóvel, da luz e da água.
Explora, sem pagar, o trabalho de quem criou conteúdos originais, ora utilizados para gerar textos, canções repetitivas ou filmes com gatos.
O lucro, esse, mantém-se nos donos das plataformas que transformam em euros a atenção e os dados de quem consome slop.
Quem gera slop, assim como quem nas fábricas da Ásia produz mais uma peça de roupa que usamos, duas ou três vezes, e acaba desprezada numa lixeira a céu aberto no continente africano, não fica rico. O mercado slop já representa mais de 100 milhões de dólares em receitas, mas para os slop creators, no Vietname, no Brasil ou na Índia, é apenas um meio para ganhar um punhado de dólares, um “complemento” ao baixo salário.
Com o slop, a internet perde qualidade, com os conteúdos originais e com valor ludibriados pelo slop, que conhece as manhas do algoritmo para se tornar viral. Perde-se também a confiança. Como acreditar no que vemos e lemos, se não sabemos se é verdadeiro e fiável?
Podemos confiar na sorte e esperar que, exaustos do slop, os usuários em massa migrem para sites fidedignos de jornais ou procurem informação em sites de universidades de renome. Mas o ato de fé, que constantemente nos é solicitado – que, desta abundância de alternativas, prevalecerá a qualidade e a verdade – foi o que nos conduziu ao statu quo de uma internet povoada de trolls e fake news.
Melhor seria regular a utilização de material original para treinar LLM e gerar respostas e penalizar quem usa slop nos feeds. Afinal, quem lucra deve não só pagar pelos conteúdos, como pelos recursos e infraestruturas que utiliza. A net parece gratuita, mas não é. As plataformas afirmam ser apenas um meio, mas tornaram-se os principais condicionadores do que pensamos, do que consumimos, de como votamos.
Um caminho a seguir e a melhorar vem da Austrália. Em 2021, reconhecendo que não há democracia sem imprensa livre e de qualidade, publicou legislação que obrigou o Google e a Meta a negociar com os meios de comunicação social o pagamento de compensações pela utilização de conteúdos. O resultado foi, no geral, positivo, permitindo manter meios de comunicação social diversos e fortes. Perante a recusa de renovar contratos, a Austrália discute uma versão melhorada da legislação, que abranja os motores de resposta, impondo o dever de compensação na nova realidade do ChatGPT.
A legislação australiana é um bom exemplo de como o regulador não é impotente perante as Big Tech. Na Europa, uma ação conjunta, mas, desde logo, impulsionada por cada Estado-membro, é fundamental para defender a comunicação social, sem a qual não há democracia, só slop.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.