“Há quem passe por um bosque e só veja lenha para a fogueira.”
Leon Tolstói
Retorno com renovada honra esta semana a este projeto, encabeçado por jornalistas livres, sem medo e com a confiança que só a honestidade permite sustentar, desta feita não com os olhos postos nos candidatos que venham a passar à designada segunda volta das eleições presidenciais mas a rever o passado recente.
Há uns anos, seria inimaginável a facilidade com que se deitam fora conquistas de anos, muitas feitas à conta de vidas, entre as quais avultam o direito à dignidade da pessoa humana, ao trabalho, à habitação e à não discriminação.
Vivemos numa época em que parecemos, mais do que instigados, movidos pelo ódio, muitas vezes instalados confortavelmente no sofá, a enxovalhar os outros em redes sociais, umas tantas em nome próprio e outras usando perfis falsos. A estes últimos perfis, juntam-se os criados e pagos por empresas e partidos políticos, também com o objectivo de modificar a (raríssima) opinião pública que ainda subsiste.
Vem isto a propósito do incontornável facto de, no momento em que nos pedem o voto, quase todos os políticos serem ótimos, demonstrando uma preocupação com cada cidadão que não é, nem nunca foi, real.
Em Lisboa, e apesar da grande oposição ao primeiro mandato de Carlos Moedas até ter sido encabeçada pelo Chega, a verdade é que o que já se sabe é apto a demonstrar que o entendimento não tardou e incindiu muito mais nos cargos do que em verdadeiras ideias para melhorar a vida dos lisboetas, seja na recolha de lixo, seja no trânsito caótico, a título de meros exemplos. O que sucedeu na capital pode, aliás, ser replicado por várias autarquias do País, nas quais um categórico “não” rapidamente se transformou num namoro, ora encapotado, ora assumido, quando descoberto.
Infelizmente, não se vislumbra cenário diferente para as presidenciais. Venha quem vier (a não ser um único, que todos, mas todos, exceto os membros da respetiva seita de culto ao grande líder, sabemos ao que vai e com que intuitos exclusivamente pessoais), dificilmente o exercício do mandato será conforme ao que agora se apregoa.
A resposta a este estado de coisas passa, como é óbvio, por não focar apenas a lenha, distinguindo candidatos que possam, pela sua própria personalidade, fazer a diferença, quando mais não seja pela defesa do Estado de Direito Democrático, sendo este o tristíssimo ponto a que nos deixámos chegar.
Mas, acima de tudo, o que me parece que devemos, de facto e desta vez sem peias ou punhos de rendas, fazer é, independentemente da escolha pessoal de cada um no candidato em que põe a cruz, optar por sair da zona de conforto e escrutinar, tão séria quanto serenamente, o incumprimento das promessas feitas e os acordos de corredores.
Portugal sempre foi um país capaz e de gente capaz, apesar de nos dizerem demasiadas vezes que não. Esta é a hora de acordarmos e de resistirmos a deixar que outros tomem as rédeas que nunca deveriam ter deixado de ser dos cidadãos de bem.
Lutar por causas, exigir, resistir, nunca foi tão importante como agora. Nos dias que correm, deixar para o dia seguinte pode ser, pura e simplesmente, tarde demais. É, como na citação que inicia estas linhas, ignorar a floresta e usar a lenha para queimar tudo.
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