O consumo excessivo de bebidas açucaradas e alcoólicas é hoje um dos principais fatores que pressionam os sistemas de saúde. Aquilo que parece, à primeira vista, uma escolha pequena e inofensiva (como o prazer de um copo de álcool ao final do dia, num convívio entre amigos, ou a tentação de aproveitar uma promoção comercial) pode ter um impacto significativo na nossa saúde e bem‑estar.
Isto porque, quando falamos de bebidas açucaradas e alcoólicas, o verdadeiro preço não aparece no talão, mas na qualidade de vida. E também na pressão crescente sobre os hospitais e serviços de saúde.
Nas últimas décadas, estas bebidas tornaram-se progressivamente mais acessíveis. Não porque façam parte de uma alimentação essencial, mas porque os impostos que deveriam refletir o seu impacto na saúde ficaram desajustados. Enquanto muitos bens essenciais encareceram, o preço real do álcool e das bebidas açucaradas, quando ajustado à inflação e aos rendimentos dos portugueses, tem diminuído ou mantém-se estável. E isso tem um efeito direto na procura: quanto mais barato, mais se consome.
Sabemos que o consumo excessivo deste tipo de bebidas está fortemente associado ao aumento da obesidade, de diabetes e de doenças cardiovasculares. Assim o comprovam diversos estudos epidemiológicos. O álcool, por sua vez, não traz consequências apenas à saúde individual, mas aumenta os casos de acidentes, de violência e de lesões. Crianças e jovens são particularmente sensíveis ao preço, à publicidade e à normalização social destes consumos.
A meu ver, existe aqui um paradoxo difícil de ignorar. Estes produtos geram lucros elevados para a indústria, é verdade. Mas enquanto os lucros são privatizados, os custos reais recaem sobre todos nós: nos sistemas de saúde, que ficam sobrecarregados; nas famílias, que lidam com doenças evitáveis; e nos contribuintes, que acabam por pagar uma fatura cada vez maior. E a verdade é que o Estado continua a arrecadar apenas uma fração desse valor para proteger a saúde pública. É claramente insuficiente.
Falar de impostos sobre bebidas açucaradas e alcoólicas continua a causar desconforto. Mas a evidência científica é clara: a tributação é uma das ferramentas mais eficazes para reduzir o consumo nocivo. Não se trata de proibir nem de moralizar comportamentos, mas de corrigir uma distorção. Quando um produto causa danos significativos à saúde, o seu preço deve refletir esse impacto. Contudo, esta não pode ser uma medida isolada, mas sim parte de uma estratégia integrada de prevenção em saúde pública.
Essas receitas podem ser canalizadas para programas de prevenção literacia em saúde e reforço dos cuidados primários. Quando estas políticas são bem desenhadas e transparentes, costumam contar com o apoio da maioria da população.
No entanto, o caminho seguido continua a ser o inverso. Muitos sistemas fiscais persistem em excluir da tributação bebidas claramente ricas em açúcar, enquanto, no caso do álcool, continuam a existir países onde o vinho permanece isento de impostos específicos, apesar dos riscos amplamente documentados para a saúde pública. A falta de atualização destes impostos em função da inflação agrava ainda mais o problema, tornando estes produtos progressivamente mais acessíveis ao longo do tempo e contrariando os objetivos de proteção e cuidado de saúde.
Adiar estas decisões é, na prática, aceitar pagar mais amanhã em sofrimento, doença e desigualdade. E tudo se resume a escolhas coletivas. Queremos sociedades que concentram recursos sobretudo no tratamento da doença ou sociedades com a coragem de apostar seriamente na prevenção? Queremos políticas públicas que protegem a saúde das pessoas ou que continuam a adiar decisões difíceis, transferindo os custos para o futuro?
Tornar estas bebidas menos acessíveis é um ato de responsabilidade social. É reconhecer que a saúde não depende apenas das escolhas pessoais, mas também do contexto económico e social em que essas escolhas são feitas.
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