O historial democrático português é pautado por desígnios claros de governação: os executivos de Cavaco Silva focaram-se no aproveitamento dos fundos europeus para o desenvolvimento; António Guterres na modernização do Estado, combate às desigualdades e afirmação externa; José Sócrates na modernização do estado e da economia; Passos Coelho na agenda de “ir além da troika”; e António Costa no fim da austeridade, na devolução de rendimentos e no rigor das contas públicas.
Ora, olhando para ano e meio destes dois governos da AD, constatamos, infelizmente, que o seu único desígnio é a resposta diária ao briefing matinal dos jornais, numa gestão reativa e efémera, não apresentando uma agenda reformista, inspiradora ou criadora de esperança num futuro melhor. Não existe visão nem estratégia, nem, tão-pouco, a competência e a audácia necessárias para enfrentar os problemas que se agudizam a cada dia.
Na Saúde, temos saudades do que Luís Montenegro chamava, ainda há dois anos, de caos. Na habitação, as políticas de estímulo da procura têm agudizado o problema, a economia abranda e falha em atrair e reter empresas que criem produtos de alto valor acrescentado e remunerem condignamente a geração mais qualificada de sempre.
Pior, não se fala de futuro. As alterações climáticas, a sustentabilidade, a economia verde, cidades mais verdes e promotoras de saúde e qualidade de vida, atração de indústrias de futuro, a sustentabilidade da segurança social, a saúde mental, a desertificação do interior, o combate às desigualdades, a promoção de uma melhor conciliação entre a vida pessoal e profissional… saiu tudo da agenda mediática e política.
Paralelamente a este vazio, o eixo político mudou-se para a direita, a esquerda perdeu o voto de protesto e o Partido Socialista tenta mudar o chip da governação para a oposição, tendo a obrigação de se posicionar como a única alternativa democrática e popular credível a este desgoverno.
No rescaldo das últimas eleições legislativas, defendi que o PS devia adiar a eleição do secretário-geral. Estava errado. O trabalho de José Luís Carneiro demonstrou a importância de um líder que não se fecha no Rato e que correu o País acrescentando valor ao debate nas eleições autárquicas. José Luís Carneiro, com a sua fiabilidade, rigor e empenho constante (uma autêntica “relojoaria suíça”, espero que não leve a mal a comparação) é um ativo valioso.
No entanto, só o trabalho e a fiabilidade não bastam para reabilitar e reerguer o PS como alternativa junto da população. Após oito anos de governação e três derrotas eleitorais, o Partido Socialista deve assumir dois objetivos estratégicos: abrir o partido à sociedade civil e construir uma nova agenda, uma visão e uma estratégia para os próximos 10 anos.
É urgente organizar uns Estados Gerais que procurem incluir autarcas, especialistas, as principais forças vivas do País e da sociedade civil. Esta iniciativa deve levar a reflexão e o debate ao interior, às ilhas e até aos portugueses emigrantes. É preciso sentir o pulsar do País, ouvir as pessoas e construir um caminho a partir da base. É preciso ir à rua, literalmente, ouvir quem trabalha, quem vota, quem não vota e o porquê.
Esta agenda tem de ser um manifesto transformador, alheio à “espuma dos dias” e concentrado em resolver os grandes problemas estruturais de Portugal: políticas de captação de investimento produtivo, aumento de salários, o futuro do estado social, universalização das creches e lares/centros de dia, aproximação à média europeia do peso da habitação pública no mercado total, alterações climáticas e ordenamento do território, mobilidade e, em particular, ferrovia, políticas educativas e formação cívica dos nossos jovens, e, por fim mas não menos importante, a definição de um papel estratégico de Portugal na Europa e no mundo envolvendo a diáspora.
Esta agenda deve identificar indicadores sociais e económicos a melhorar, estabelecer compromissos e metas claras, realistas, mas ambiciosas. Uma agenda reformista e transformadora do País que servirá de base a futuros programas eleitorais do Partido Socialista, a trabalho parlamentar e a uma comunicação positiva e propositiva junto do eleitorado.
Após a construção desta agenda para a década, e apesar de ter, ao longo do tempo, as minhas dúvidas sobre as vantagens de eleições primárias, neste momento estas podem servir para abrir as estruturas locais à comunidade, libertá-las de uma visão puramente utilitária do poder, reforçar a captação de novos militantes e conferir uma legitimidade reforçada ao futuro líder do Partido.
O Partido Socialista tem todas as condições para voltar a ser visto como o partido dos trabalhadores e dos empreendedores, que oferece esperança e um caminho aos mais jovens, dignidade aos mais velhos defendendo o progresso e o Estado Social.
Para isso, é preciso um golpe de asa: descobrir caras e ideias novas, questionar a forma como se comunica, como se trabalha politicamente e, acima de tudo, ouvir o povo. A democracia portuguesa precisa de um partido popular, com história e confiável, renovado e renovador, que tenha uma visão e esperança para o futuro da nossa comunidade.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.