1. Tragicamente, são estes os tempos que vivemos: Tempos de Trumps. O pior, na sua terrível desumanidade e crueldade, aquele – Netanyahu – que Trump apoia, inclusive fornecendo-lhe armas, quando poderia talvez ser o único a conseguir travar a chacina que implacavelmente prossegue. As imagens rasgam-nos o coração e suscitam sempre a mesma dolorosa interrogação: como é possível? Como deveremos chamar àqueles que, apesar de todas as mentiras e luvas protetoras, se sabe terem as mãos tão tintas de sangue? E não só de sangue, porque não “sangram” as crianças que morrem de fome, nem (talvez) as que jazem sob os escombros dos bairros, das casas, dos hospitais bombardeados.
Tragicamente, repito, estes são tempos de Trumps. Tempos de – mais circunscritos – Mileis e Bolsonaros, Khameneis e Kims Jongs-uns. Tempos de Putin. Que aparece como aquele que o Presidente dos EUA mais, ou o único que, respeita e admira. Como ainda agora se viu na forma como o “tratou” no encontro no Alasca, comparando-a com a forma como tratou o Presidente da Ucrânia, a presidente da Comissão Europeia e tantos outros.
Trump que é o atual “senhor do mundo”. Com uma canetada no seu país decidindo discricionariamente sobre tudo, mesmo violando direitos humanos e regras democráticas básicas; e procedendo de modo similar em relação ao resto do mundo, desde arrogar-se o direito de impor tarifas arbitrárias, inclusive a aliados de sempre, até decretar/regular a guerra e a paz em qualquer latitude. Podendo até ter êxito, dado as suas propostas e/ou ameaças partirem de alguém imprevisível, Presidente de um país com uma força imensa, uma supremacia universal, do militar ao económico – podendo assim impor múltiplas sanções a quem não aceite as suas propostas ou não obedeça aos seus comandos.
2. Claro que esta realidade também tem grande peso nas “negociações” em que Trump intervém. Nas quais usa métodos primários, próprios de qualquer medíocre advogado, como o de exigir muitíssimo para lá do razoável, para depois poder descer as exigências para metade ou menos. E a parte contrária, em estado de necessidade ou por não ser capaz, ou as duas coisas, fazer um acordo que considera bom, mesmo sendo de facto mau. Foi o que aconteceu na negociação com a UE sobre as tarifas, com a agravante (humilhante) de Ursula von der Leyen se ter deslocado para o efeito a um dos campos de golfe de que Trump é proprietário na Escócia, onde a “recebeu”.
São tão variadas, constantes e contínuas as declarações e decisões de Trump sobre tudo e mais alguma coisa, os abusos, os desmandos, as contradições, que se vão atropelando, e sucessivamente como que normalizando, diminuindo ou mesmo apagando a sua extrema gravidade. Pela natureza da personagem, e decerto também para atingir esse objetivo, é assim. Mas em termos de normalização, ou mesmo apagamento, de ações e intervenções da extrema-direita algo de semelhante acontece, embora a outro nível, um pouco por toda a parte. Mesmo em Portugal, e até no Parlamento, perante a passividade do seu presidente.
Tudo isto me leva a salientar a necessidade de, em defesa da democracia, atentar nos procedimentos destas forças de extrema-direita e, com inteligência e eficácia, denunciá-las, combatê-las, não ser seu cúmplice assumido ou envergonhado. Designadamente mostrando que a proclamada intransigente defesa, por essas forças, dos interesses do seu país acima de todos os outros, é uma total mentira. De facto, elas representam não o patriotismo, mas o seu contrário: o “nacionalismo”, fascista ou demagogicamente populista, simplesmente ignorante ou bacoco – como Eça de Queirós, zurzindo-o, ensinou a Pinheiro Chagas.
3. Que assim é, e mostrando também como Trump é capaz de coisas inimagináveis, evidencia-o o que se passa no e com o Brasil. O anterior Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, um saudoso da ditadura militar, fomentador do ódio entre os cidadãos, negacionista, sob vários aspetos muito parecido com – discípulo de – Trump, está acusado de participação na tentativa de golpe de Estado para impedir a posse, ou derrubar, o Presidente Lula da Silva, democraticamente eleito. Golpe de Estado que poderia incluir o assassínio de Lula, do vice-presidente, Geraldo Alckmin, e de Alexandre Moraes, o juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) relator do processo em curso contra os golpistas.
Pois um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, deputado, foi viver para os EUA visando conseguir, patrioticamente, que Trump aplicasse aos produtos brasileiros um “tarifaço” de 50%! E conseguiu. Com este precioso acrescento: o “tarifaço” deixaria de existir se o STF mudasse a sua decisão e anulasse as acusações contra o pai. Além disso, os EUA proibiram Moraes de entrar no país, e estão a aplicar ou em vias de aplicar, sempre de acordo com as propostas ou os pedidos de Eduardo Bolsonaro, outras “sanções” ao Brasil. Ou seja, e além do mais: Trump entende que tem o direito de “mandar” na Justiça, seja no seu país – como está a fazer ou tentar fazer –, seja fora dele; e usa/abusa da força, com os processos mais baixos, para proteger os amigos e seguidores.
Será muito difícil haver ofensa mais grave à soberania nacional de um país e à essencial regra democrática da separação de poderes. Como será muito difícil encontrar exemplo mais expressivo da verdadeira face dos Trumps, dos Bolsonaros e dos que em várias latitudes os têm como exemplos ou guias, se não faróis… Por isso, se chegados ao poder naturalmente teriam comportamento semelhante, não tendo chegado representará sempre um perigo ou uma ameaça para a democracia a influência que sobre ele exerçam. Mormente se – em particular em certas áreas mais sensíveis – forem de facto seus aliados, embora teórica/retoricamente o negando e querendo sempre mais… Será que Luís Montenegro o ignora?
4. Tragicamente estes são tempos também de valas comuns. Nalgumas se amontoam dezenas e dezenas de milhares de supliciados e mortos inocentes. Noutras se enterram valores civilizacionais e humanistas, de dignidade de povos e pessoas, de respeito mútuo e tolerância, que julgávamos adquiridos para sempre, pelo menos em países considerados democráticos e evoluídos. Afinal…
À MARGEM
CPLP, Guiné-Bissau, jornalistas expulsos
Do que foi o sonho e o projeto da CPLP – que acompanhei e vivi por dentro desde o início, em permanente ligação com o seu grande idealizador e meu amigo embaixador José Aparecido Oliveira – e do que não é hoje, falarei em próxima edição.
Mas desde já quero sublinhar que a sua última cimeira, em julho, na Guiné-Bissau, mostrou exuberantemente o deplorável estado da organização, presidida agora pelo Presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló. Cujo mandato terminou em fevereiro e que… Adiante…
Adiante para sublinhar que a Guiné de Embaló encerrou as delegações da RTP, da RDP e da Lusa e deu ordem de expulsão a todos os seus jornalistas. Uma atitude condenável, vergonhosa, e exatamente contrária a princípios que estiveram na base da criaçãoda CPLP e são essenciais para que exista com dignidade.