Donald Trump governa como quem multiplica frentes de combate para testar resistências. Não porque precise delas, mas porque acredita que o conflito permanente é a melhor forma de impor hierarquias. Desde o regresso à Casa Branca, o padrão é claro. Pressão externa, tensão interna, deslegitimação de aliados e a criação de instrumentos políticos com nomes benignos e intenções opacas. O chamado Board of Peace é talvez o melhor exemplo disso.
Apresentado como uma iniciativa para a paz global, o Board of Peace é, na prática, um dispositivo político de alinhamento. A lista de países e figuras que aceitaram integrar esse fórum diz muito menos sobre a paz e muito mais sobre a disposição para legitimar a leitura trumpiana do mundo. Um mundo onde a estabilidade não nasce do direito internacional nem das instituições, mas da proximidade ao poder americano e da aceitação tácita da sua arbitrariedade. A paz, neste contexto, não é um valor. É uma recompensa.
Em paralelo, Trump abriu uma frente interna que tem tudo para se tornar um problema sério e politicamente explosivo. A atuação do ICE, cada vez mais agressiva, com duas mortes, menos escrutinada e mais ideológica, transformou-se num instrumento de sinalização política. Não se trata apenas de imigração ou de segurança interna. Trata-se de afirmar autoridade, testar limites constitucionais e normalizar uma lógica de exceção permanente. É a política como demonstração de força.
Mas foi na Gronelândia que algo mudou. Pela primeira vez desde o regresso de Trump, a Europa reagiu não apenas com comunicados, mas com linguagem de poder. De forma imperfeita, pouco coreografada, mas politicamente relevante, a União Europeia conseguiu alinhar-se em torno de um princípio simples. A Gronelândia não é uma peça num jogo bilateral entre Washington e Copenhaga. É território europeu, com implicações estratégicas europeias.
A simples menção à possibilidade de ativação do Mecanismo Anticoerção não foi um detalhe técnico. Foi um sinal político. Esse instrumento, criado precisamente para responder a pressões económicas e políticas externas, permitiria à União Europeia adotar contramedidas comerciais, financeiras ou regulatórias contra um país que utilizasse coerção para obter vantagens estratégicas. Não foi ativado. Mas foi verbalizado. E isso, em diplomacia, conta.
O mesmo se aplica à dimensão militar. A Europa não moveu meios, não mobilizou forças, não dramatizou. Mas deixou claro que a proteção da Gronelândia não é um assunto indiferente. Para uma Administração americana habituada a uma Europa hesitante, essa disponibilidade, mesmo que apenas declarativa, teve impacto. Revelou uma linha vermelha.
Tudo isto ocorre num momento em que os EUA dizem não acreditar no multilateralismo, mas continuam profundamente dependentes dele. A NATO continua a ser essencial para Washington, não por altruísmo, mas por necessidade estratégica. Ao mesmo tempo, Trump insiste numa lógica bilateral, caso a caso, guerra a guerra, país a país. É um paradoxo apenas aparente. O multilateralismo é útil enquanto estrutura. O bilateralismo é útil enquanto método de imposição.
Há, contudo, um dado que Trump não pode ignorar. Comercialmente, os EUA precisam da Europa. O mercado europeu continua a ser um dos maiores, mais estáveis e mais sofisticados do mundo. E é aqui que a União tem de perceber que a resposta não é apenas política ou militar. É económica.
O acordo com o Mercosul é central neste contexto. Não apenas pelo acesso a mercados, mas pela afirmação estratégica de uma Europa capaz de diversificar relações num mundo fragmentado. A contestação jurídica ao processo de ratificação, movida pelo Parlamento Europeu, receoso das suas consequências internas, revela uma fragilidade estrutural. É verdade que a Comissão Europeia dispõe de mecanismos para a aplicação provisória de acordos comerciais após aprovação política europeia, mesmo antes da ratificação completa. Mas cada atraso é um sinal de indecisão que o mundo lê com atenção e Trump não está nada feliz com o acordo.
O mesmo se aplica à Índia, um mercado colossal, tecnológico, cada vez mais central em serviços e inovação, e à Indonésia, onde a União Europeia tem vindo a construir um acordo estratégico num espaço geopolítico disputado. E aplica-se, sobretudo, a África. Um continente onde a China consolidou influência económica, infraestrutural e política, enquanto a Europa hesitou, moralizou e perdeu terreno.
A Europa só será levada a sério se voltar a pensar como potência económica. Não por nostalgia imperial, mas por realismo estratégico. E essa capacidade existe. Quando há foco, quando há interesse comum, quando há vontade.
Em Davos, Donald Trump voltou a atacar a Europa, como faz sempre que precisa de um adversário externo para consumo interno. No mesmo palco, Volodymyr Zelensky escolheu um tom de frustração que roçou a ingratidão. Foi um gesto político calculado. Um aceno a Trump, mas também uma tentativa de se posicionar como ator europeu com voz própria, num momento em que a Ucrânia ambiciona integrar a União até 2027.
Contrastou com a lucidez do discurso do primeiro-ministro do Canadá, que percebeu algo essencial. Num mundo em rutura, quem abdica de alianças fica sozinho. E quem confunde força com imprevisibilidade acaba refém da própria narrativa.
A Europa não é rápida. Não é elegante. Não é unânime. Mas quando decide agir, ainda é capaz de dizer não. E, neste momento do mundo, isso já não é pouco.
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