O mundo não é só Jornada Mundial da Juventude (JMJ), o contínuo de diretos televisivos enjoa, mas, no terreno ou à distância, é difícil não ficar contagiado pela energia do mar de gente que, este fim de semana, se reuniu no Parque Tejo. O cenário ajuda, a fé ajudará ainda mais, mas só os corações muitos empedernidos poderão não ser sensíveis à alegria de um milhão e meio de peregrinos que, vindos dos quatro cantos do mundo, mais ou menos indiferentes às condições, quiseram estar em Lisboa. Cito de cor e, por isso, corro o risco de me enganar (é fazer como disse o Papa no Bairro da Serafina, beber um copo de água e seguir em frente!). Julgo ter sido a escritora Marguerite Duras que, quando lhe perguntaram se acreditava em Deus, terá dito: “Não, mas acredito nos que acreditam em Deus.”
Só os corações muitos empedernidos poderão não ser sensíveis à alegria de um milhão e meio de peregrinos que, vindos dos quatro cantos do mundo, mais ou menos indiferentes às condições, quiseram estar em Lisboa
O balanço da JMJ Lisboa 2023 terá de ser feito, naturalmente. As derrapagens do orçamento, tal como todos os privilégios da Igreja, podem e devem ser fiscalizados. Nada disso está em causa. Mais: em matéria de críticas à JMJ, a Igreja não está isenta de responsabilidades. A organização decorreu sobretudo dentro de portas. Durante quatro anos, pregou-se apenas para os convertidos e só os mais fiéis se interessaram pelo assunto. Com o entusiasmo e o afã que se lhe conhece, Marcelo Rebelo de Sousa mobilizou mais gente – honra lhe seja feita – do que dezenas de padres e de bispos, mais incomodados em cumprir regras e preceitos do que em espalhar a mensagem. Adiante, que isso são contas de outro rosário.
Há uma crise de vocações, e isso não pode ser ignorado. Tal como também não deve ser ignorado que a Igreja Católica está em transformação. Francisco pode não conseguir vir a fazer uma revolução, mas é um Papa com quem até os descrentes simpatizam, o que faz mais pela Igreja do que milhares de credos e homilias (para desespero de uma ala mais conservadora da Igreja, de resto). Como se viu e comprovou em Lisboa, Jorge Bergoglio não faz fretes. Na cara das autoridades civis e eclesiásticas, diz o que tem a dizer sobre o estado do mundo. Acusa os líderes de não conseguirem debelar os problemas e até de não quererem efetivamente resolvê-los. “Parece que as injustiças planetárias, as guerras, as crises climáticas e migratórias correm mais rapidamente do que a capacidade e, muitas vezes, a vontade de enfrentar em conjunto tais desafios”, afirmou, no discurso memorável do Centro Cultural de Belém.
À hierarquia eclesiástica, Francisco responsabiliza-a de fomentar a “aversão” e a “desilusão” com a religião, com a sua inação perante a realidade dos crimes dos abusos sexuais. Em Lisboa, mandou os discursos às urtigas, encurtou e abreviou razões, saltou excertos aborrecidos e preferiu os improvisos. Foi alegre e divertido, como uma verdadeira estrela pop. Privilegiou as imagens simples e a linguagem clara e direta. A mensagem que proferiu, no sábado à noite, na vigília junto ao Tejo – “só é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo para a ajudar a levantar-se” –, é muito poderosa e segue direitinha para todos nós. Incluindo os que, na última semana, têm olhado de lado para os peregrinos. Uma coisa é ser ateu ou agnóstico, outra coisa bem diferente é achar-se que é possível viver olhando para um milhão e meio de pessoas como se fossem estúpidas, ignorantes ou vivessem todas nas trevas. O problema não é não acreditar em Deus, o problema é desconfiar de tudo e de todos. Como dizia Duras, não acreditar nos que acreditam.