Todos a vaguear entre saúde e doença – e cada leve sobressalto assusta-nos. A temperatura fiscalizada como se fosse uma doida que pode fazer algo de terrível a qualquer momento, uma entidade autónoma. E a mais leve tosse acende também o alarme; alarme tenso demais para ser útil. Dá sinal a cada segundo; um obsessivo a dizer constantemente: atenção, atenção!
Imagino um saudável a acordar a cada meia hora, a meio da noite, para confirmar se ainda está saudável. Eis o processo de fazer loucos; eis o método sem falhas de fazer de um saudável, um doente. Se estiveres atento demais à tua saúde ficarás enfermo, síntese.
Ernst Jünger em O Coração Aventuroso: a “abundância de sintomas separa-nos dos doentes como uma floresta inexpugnável: sabemos muito pouco da saúde e demais das doenças.”
Curioso que no sítio onde estamos não tem sido exatamente assim: uma doença nova é isto: ao início, uma floresta que é necessário rapidamente desbastar; fazer clareiras. Montar tendas provisórias e depois casas lá no meio. A doença ser uma novidade, eis o que é estranho. Estamos habituados a doenças antigas, doenças velhas.
Mas sim, há também uma ignorância em relação à saúde.
E, de facto, é o estado mais passageiro possível, mais efémero: num segundo, a saúde desaparece – se pensarmos, por exemplo, na ocorrência de um acidente. Acidente como doença súbita, doença que ocupa um corpo num segundo; faz um assalto. Por isso se fala de acidentes vasculares, de acidentes cardíacos. Não há aproximações, não se vê a doença chegar vinda de longe. Quando chega está tão perto que já está dentro.
Depois de chegar, a doença não se evapora de um momento para o outro. Para pena nossa, não há um acidente invertido, um acidente bom, um milagre. O acidente é súbito, a doença vai aparecendo aos poucos e a cura tem pelo menos a lentidão da doença lenta.