“A chacun son pain” [a cada um o seu pão]. Pintadas em francês, num azulejo tipicamente português, as palavras deixadas por Ana Jotta (AJ) à entrada de beaucoup, peu, rien, exposição individual da artista, proposta e organizada pela plataforma artística Ampersand, que se inaugurou a 21 de março em Paris, soam a provocação.
É que a expressão “A chacun son pain” ganha duplo significado, sublinha a artista, se pensarmos que “pain”, em inglês, quer dizer dor.
Como se Ana Jotta a tivesse escrito só para poder ficar à espreita, divertida, estudando a forma como cada um de nós reage ao deparar-se com a óbvia, mas frequentemente ignorada, impossibilidade de passar pela vida sem sofrer.
É como se lê numa imagem pendurada mais abaixo: “Sometimes you eat the bar, sometimes the bar eats you” [em português: há dias em que vencemos os obstáculos e dias em que são os obstáculos a vencer-nos].

Perante tal inevitabilidade, resta-nos escolher se queremos viver a dor a rir ou a chorar. “Pessoalmente prefiro rir, depois dá muito menos trabalho a limpar”, costumava dizer Kurt Vonnegut. A julgar pela ironia latente nas obras apresentadas em beaucoup, peu, rien, ousaríamos dizer que AJ partilha da mesma opinião.
Patente na Galeria Marian Goodman, em Paris, até dia 10 de maio, a exposição é composta por uma decoração, feita de criações e desenhos na parede, que toma conta do espaço na sua globalidade.
As paredes, pintadas de cinzento arenoso e verde azeitona, as cores das fachadas de Paris, são a tela, a cor e a matéria sobre as quais AJ desenha, cola, pendura ou escreve referências, pedaços de vida, pistas para uma caça ao tesouro sem fim, já que o tesouro parece ser a própria caça.
Através da sua experiência, [Ana Jotta] cria uma espécie de coleção de frases, ideias, referências e objetos encontrados, que enriquecem tanto a sua vida como o seu trabalho
Nicolas Diaz – coordenador galeria Marian Goodman Paris
“É uma pessoa profundamente rica e interessante, cheia de histórias e com uma forma muito íntima e pessoal de trabalhar. Através da sua experiência, cria uma espécie de coleção de frases, ideias, referências e objetos encontrados, que enriquecem tanto a sua vida como o seu trabalho”, afirma Nicolas Diaz (ND), coordenador da Marian Goodman em Paris.
“It Is What It Is”
Beaucoup, peu, rien inicia-se na parede onde, além do azulejo com a frase referente à dor, encontramos pendurados e desenhados diretamente na parede excertos de textos, frases e palavras, como “J ‘ai beau être un artiste , je suis quand même très triste” [apesar de ser artista , sou triste], “Femme – Variable” ou “Moi”, mas também pequenos objetos, antigos postais, desenhos e fotografias. São coisas que a artista define como “as suas notas de rodapé”, revela ND.
Notas de rodapé lidas, acabaram-se as regras. A partir daqui não há um sentido predefinido para ver a exposição. Cada um lerá a “enciclopédia” como quiser e na direção que quiser, até porque, quanto mais tempo deambularmos de um lado para o outro, mais aprenderemos a ver novas todas as coisas.

Alguns irão perder-se numa descrição exaustiva, escrita à mão numa parede, sobre a função das mãos, outros preferirão entregar-se à tarefa hercúlea de descodificar uma conversa em inglês e francês, da qual só se percebe mesmo que “o prazer não tem preço”.
Outros ainda não poderão evitar sorrir perante uma placa desenhada junto ao chão, onde as palavras Amador Profissional dão a melhor definição do que significa ser artista, fazer da constante descoberta um ofício.
Haverá também quem decida seguir, um a um, os desenhos feitos diretamente nas paredes, dos 11 ratos que jogam ao jogo da corda às quatro galinhas penduradas pelo pescoço, uma chaleira de onde sai fumo em forma de J ou dois mal-me-queres desfolhados, em nome do amor, ao ritmo de beaucoup, peu, rien [muito, pouco, nada].
Que história se quer contar? Será que importa mesmo saber? “It Is What It Is”, escreve numa parede a artista, como se adivinhasse a pergunta.

Independentemente da história que cada um encontrar nas obras, ND sublinha a importância de conseguir descobrir algo novo de cada vez que se olha para a aparente simplicidade das mesmas.
“O trabalho da Ana é um trabalho que não faria sentido se ela não fosse a pessoa que é. Encontra-se entre as ideias do momento e as ideias que podem surgir de referências, as quais, no fim de contas, não são assim tão importantes, porque a Ana torna de tal forma seu o material com que trabalha, que este, de alguma maneira, transforma-se no que ela é”.
Uma conversa entre amigos
De Paris, saltamos para a Galeria da Brotéria, em Lisboa, onde, seis dias mais tarde, a 27 de março, inaugurou-se outra exposição da artista, Conversation Pieces, desta vez com Jorge Nesbitt (JN).
Se em beaucoup, peu, rien, AJ transformou um mergulho no seu percurso de arte e de vida em matéria plástica, em Conversation Pieces fez a mesma coisa, mas usando o universo artístico do pintor emiliano Giorgio Morandi.

Patente até dia 5 de maio na Brotéria, a exposição apresenta um conjunto de peças em cerâmica, realizadas por AJ e JN a partir de uma visita ao estúdio de Morandi, famoso pelas suas naturezas mortas, que denotam uma enorme capacidade de encontrar beleza na aparente simplicidade do mundo e reproduzi-la com grande contenção.
Dispostas em torno da galeria, as obras recordam as naturezas mortas de Morandi, mas reinterpretadas em três dimensões, como se estivéssemos perante pequenos cenários de uma peça de teatro.
Embora visualmente muito diferentes, as exposições de Lisboa e de Paris parecem concorrer para o mesmo fim: explorar a essência dos objetos, das ideias e das situações simples do dia-a-dia.
“A chacun son pain” dizia-nos abertamente num azulejo, a artista, em Paris. “A chacun son pain” parece voltar a dizer-nos, com mais contenção, em Lisboa, numa obra feita a quatro mãos com JN, na qual um pão [pain, em francês] feito de cerâmica repousa sobre uma mesa.
“Não interessa saber quem fez o quê”, sublinha Catarina Ricciardi (CR), da equipa da galeria da Brotéria, explicando que o que se tenta mapear através das obras de tons terra é uma conversa entre dois amigos, onde se abordam questões que ultrapassam largamente o trabalho de Morandi.
Parte-se de uma coisa muito concreta, que é uma visita ao atelier do artista, para, daquilo que interessa – a ponte com os quadros, a vibração das linhas, as matérias e a força interior – a exposição tornar-se noutra coisa
João Sarmento sj – diretor artístico da Brotéria.
“Parte-se de uma coisa muito concreta, que é uma visita ao atelier do artista, para, daquilo que interessa – a ponte com os quadros, a vibração das linhas, as matérias e a força interior – a exposição tornar-se noutra coisa”, acrescenta João Sarmento sj, diretor artístico da Brotéria.
Essa “outra coisa” tanto pode ser o gosto que AJ e JN partilham pela exploração das potencialidades plásticas do paperclay, material do qual são feitas as obras, como a vontade que ambos têm de criar enquanto lhes der prazer fazê-lo e, sobretudo, porque lhes dá prazer fazê-lo.



