“A reforma do Estado não se faz num PowerPoint. Dá um certo trabalho, é preciso chamar as pessoas e, sobretudo, não é uma coisa que se estude quando se está no Governo. É uma coisa que se tem de levar estudada quando se chega ao Governo para depois fazer, ajustar, adaptar, mas fazer.” Palavras duras de Pedro Passos Coelho, na última semana, durante um evento em Lisboa. O antigo primeiro-ministro apareceu, três dias depois das eleições presidenciais, com um conjunto de recados direta e explicitamente dirigidos ao Governo e, em particular, a Luís Montenegro: “Quem vai para o Governo e chama as pessoas para preparar uma grande reforma, vai gerir comunicação política, e reforma não fará nenhuma”, explicou, justificando a sua crítica. Pensando no novo ministério para a Reforma do Estado, atirou, ainda: “A modernização do Estado não deve depender de fatores circunstanciais, como o crescimento da Inteligência Artificial, nem exige um ministro dedicado. Não é preciso nomear um ministro para esse efeito.” No final, e já depois de ter denunciado as falhas do Estado, da Administração Interna, e a falta de financiamento para as estruturas da Proteção Civil, e interrogado sobre que conselhos daria ao primeiro-ministro, no âmbito da crise provocada pelas tempestades que devastaram o País, Passos Coelho foi cáustico: “Sou muito relutante em dar conselhos, até a quem mos pede, quanto mais a quem não mos pede.”
Mal assentou a poeira sobre as eleições presidenciais, Pedro Passos Coelho iniciou, desta forma, um roadshow pelo País, com quatro presenças consecutivas, só no mês de fevereiro. A tournée de Passos iniciou-se na última quarta-feira, 11 de fevereiro, com uma intervenção na Sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglés, a propósito da introdução de Inteligência Artificial como “motor da inovação da Economia”, passou pela apresentação do livro Lideranças Intermédias na Transformação dos Serviços Públicos, de Damasceno Dias, presidente da Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública (CreSAP), onde produziu as declarações com que abrimos este texto, passou por uma conversa com Manuel Monteiro (antigo presidente do CDS) publicada na revista IDL – Instituto Amaro da Costa e termina (para já…), dia 24 de fevereiro, em Leça da Palmeira, na Conferência Final do Fórum Produtividade e Inovação, sob o tema Uma Agenda de Reformas para Portugal. Entre as críticas da última semana, acrescentou ser “patente que o Estado não exerce a função regulatória adequadamente”, que “os serviços não estão adequadamente financiados”, e que “não houve investimento suficiente para que eles possam desempenhar no longo prazo a sua missão”. Neste capítulo, apontou para o contraste entre as possibilidades do Governo de Montenegro e as circunstâncias do tempo em que exerceu as funções de chefe do governo, porque isto ocorre “mesmo num tempo em que há meios para o poder fazer e não se está como em 2010, 2011 ou 2012, em que não havia um tostão para poder investir”.
