Escritor, comissário do BABELL
Como se Tifeu, o monstro dos monstros, se tivesse evadido após milénios de cárcere e andasse a monte pela Terra, as nossas mães ordenavam-nos que não nos aproximássemos de determinados locais: o mundo estava cheio de becos sombrios e sujos, pelos quais deambulavam os drogados, os portadores da perdição chamada sida. Por medo e como defesa, praticava-se a estigmatização – drogado era, de resto, o maior insulto e, na escola, jogava-se à apanhada, tocando-se no colega e dizendo-se: tens sida. Mas os tempos eram também de recessão económica e as avós ainda nos remendavam joelheiras nos jeans comprados na feira, que nós dizíamos aos vizinhos serem da Levi’s, apesar de sabermos serem contrafeitos. Na melhor das hipóteses, nos grandes centros urbanos, vestia-se uma camisola colorida da Benetton, faziam-se as compras do mês nos primeiros hipermercados, com as quais animadamente se atafulhavam as bagageiras dos Fiat Uno, dos Renault Clio, ou dos Opel Corsa, sentindo uma certa prosperidade mas contando todos os escudos, enquanto se aguardava pelo resultado das promessas europeias, como o Tratado de Maastricht e a moeda única, que se chamaria ECU, e se acreditava num futuro de modernidade, com o surgimento das televisões privadas, de autoestradas e até com o anúncio de que a Expo’98 aconteceria em Lisboa.