Loujain al-Hathloul é uma ativista da Arábia Saudita e uma importante voz na luta pelos direitos das mulheres sauditas. Desafiou publicamente a proibição de as mulheres conduzirem (que desde 2017 já é possível), e outras restrições, como é o caso do sistema de tutela, que dita que as mulheres sauditas têm de viver sob a tutela de um guardião, normalmente o pai ou o marido, que é responsável por lhes dar permissão para trabalhar, ter acesso a um plano de saúde, ou outras atividades tão mundanas como interagir com homens fora da família.
Hathloul ganhou notoriedade em 2014 quando postou online um vídeo de si própria a conduzir um carro. Este ato de “rebeldia” fez com que fosse presa durante 70 dias.
Mais tarde, em 2018, foi presa nos Emirados Árabes Unidos, país onde estudava. Daí foi transferida para a Arábia Saudita, onde foi detida apenas por um breve período tempo. Foi novamente presa uns meses depois e, desta vez, não sairia tão cedo. Em dezembro de 2020 foi formalmente condenada a cinco anos e oito meses de prisão, em conjunto com mais uma dezena de mulheres ativistas.
Na altura, os especialistas em direitos humanos da ONU pediram a libertação imediata da ativista, assim como várias organizações de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional (AI).
Tortura na prisão
Segundo a AI, vários ativistas, incluindo Loujain al-Hathloul, permaneceram detidos sem acusação e sem representação legal. Deixaram-nos incontactáveis e em confinamento solitário durante os primeiros três meses de detenção.
A ativista relatou, durante o julgamento, que foi vítima de tortura, agressões sexuais e outros tratamentos desumanos, mas perante isto o tribunal alegou que havia falta de provas, descredibilizando a situação.
“Esses relatos chocantes de tortura, assédio sexual e outras formas de maus tratos, se verificados, expõem outras violações ultrajantes dos direitos humanos por parte das autoridades sauditas”, disse Lynn Maalouf, diretora de pesquisas da Amnistia Internacional para o Médio Oriente.
A joverm afirma que, durante os interrogatórios, homens encapuçados a ameaçaram de violação, forçaram-na a atos sexuais e a torturaram. Várias mulheres disseram que foram obrigadas a ver pornografia, apalpadas e submetidas a conhecidos atos de tortura como os choques elétricos e o waterboarding (que simula um afogamento).
A AI reforça que muitos detidos sauditas relataram durante os julgamentos “que esta tortura foi usada para lhes extrair ‘confissões’, para os punir por se recusarem a “arrepender-se” ou para forçá-los a prometer não criticar o governo. Tais “confissões” têm servido de base para sentenças severas, incluindo a pena de morte.”
Em 2019, a ativista recusou-se a retirar as suas acusações de tortura, em troca da sua libertação. Mais tarde iniciou uma greve de fome na prisão.
Libertação
Depois de 1001 dias, quase 3 anos encarcerada, Loujain foi, finalmente, libertada. A notícia fez com que o Twitter se inundasse de mensagens e partilhas calorosas.
Esta libertação envolve, no entanto, algumas restrições: Loujain vai estar proibida de sair do país durante 5 anos, e vai estar 3 anos em regime de liberdade condicional.
Hannah Neumann, presidente da Delegação (da UE) para as Relações com a Península Arábica, sobre a libertação de Loujain al-Hathloul, afirma que “apesar desses desenvolvimentos positivos, é importante lembrar que a Sra. Al-Hathloul foi libertada, mas não está livre. Ela conseguiu sair da prisão, no entanto, a sua sentença está apenas suspensa e foi-lhe imposta uma proibição de viajar.”
Como Loujain al-Hathloul, muitos outros têm vindo a ser alvo de prisões e mortes. Como foi o caso de Jamal Khashoggi, de Raif Badawi ou das inúmeras mulheres ainda nos centros de detenção na Arábia Saudita.
Segundo uma notícia avançada pelo jornal britânico Guardian, a decisão de libertar a ativista foi uma maneira do Príncipe Mohammed “cair nas boas graças” da administração Biden, uma vez que esta, ao contrário de Trump, já mostrou que a questão dos direitos humanos é algo que é tido em conta nas relações bilaterais.