Morreu o cineasta húngaro Béla Tarr, aos 70 anos — parecia que tinha mais — depois de uma longa doença, que o foi consumindo aos poucos. Morreu devagar, como se impôs que tudo morresse no seu cinema: sem pressa, sem consolo, sem música de fundo para aliviar consciências. Tarr não foi apenas um realizador. Foi um teste de resistência. Ao espectador, ao tempo, à paciência, à própria ideia de entretenimento fácil.
A maioria dos cineastas contam histórias. Béla Tarr observava a decomposição delas. Filmava pessoas cansadas, mundos em ruínas, sociedades que já perderam a fé antes de perderem a casa. O seu cinema não explicava, insistia. Não consolava, esmagava. O Tango de Satanás (1994), esse monumento de mais de sete horas, não é um filme: é uma experiência física, quase penitencial, sobre o fracasso colectivo, a lama moral e a ilusão política do comunismo. Quem sobreviveu e aguentou essa sessão até ao fim, saiu diferente. Ou então, saiu a meio, o que também é uma forma de confissão.
Tarr nasceu dentro de um regime comunista que prometia tudo e entregava pouco. Filmou a Hungria como quem filma um corpo doente: sem pudor, sem metáforas simpáticas. A sua raiva inicial transformou-se em fatalismo lúcido, afinado com o escritor László Krasznahorkai — Prémio Nobel de Literatura 2025 — cúmplice literário de um cinema onde cada plano parecia dizer: isto não vai melhorar.
Quando anunciou O Cavalo de Turim (2011) como o seu último filme, não estava a fazer bluff. Cumpriu. Disse “acabou” e foi mesmo o fim. Num mundo obcecado em continuar, repetir, reciclar, Tarr teve a elegância radical de parar. Preferiu ensinar — ou, como dizia, libertar — outros cineastas, em vez de prolongar a própria lenda.
A sua influência foi subterrânea mas sísmica: do cineasta Gus Van Sant a uma geração inteira de cineastas-autores que aprenderam que o silêncio também fala, e que o plano longo não é estilo é ética. Em Portugal, poucos o viram; quem o viu, não esqueceu. Alguns aprenderam com ele, como o cineasta André Gil Mata, que foi seu aluno.
Béla Tarr filmou o fim do mundo como se já tivesse acontecido. Agora, foi-se embora sem música, sem pressa, sem redenção. Como sempre fez.