No início de 2026, Portugal foi seriamente afetado por uma sequência de tempestades que resultaram em condições meteorológicas extremas, com precipitação intensa e persistente, muito acima da média para a época. Este fenómeno, conhecido na meteorologia como um comboio de tempestades, incluiu sistemas designados como Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram inundações generalizadas, transbordos de rios, danos graves em infraestruturas e perdas humanas em várias regiões do País.
Os efeitos destas depressões foram sentidos de norte a sul de Portugal, com consequências humanas e materiais relevantes: em distritos como Leiria, Coimbra e Santarém registaram-se vítimas mortais, desalojamentos, prejuízos significativos em habitações e cortes de energia para dezenas de milhares de pessoas. Um dos episódios mais dramáticos ocorreu junto ao rio Mondego, onde a rutura de um dique levou ao colapso parcial de um troço da auto-estrada A1 – obrigando à evacuação preventiva de cerca de 3000 habitantes em zonas ribeirinhas devido ao risco iminente de novas falhas e ao elevado nível das albufeiras.
Estes acontecimentos, apesar da sua intensidade, não constituem um fenómeno isolado na história de Portugal. Ao longo das últimas décadas, registaram-se vários episódios de cheias severas que moldaram a maneira como o território tem sido gerido e como os riscos naturais foram enfrentados. Um exemplo paradigmático remonta a 1967, quando cheias devastadoras na região de Lisboa causaram centenas de vítimas, desalojamentos em massa e danos materiais consideráveis, evidenciando lacunas no ordenamento do território e nos sistemas de drenagem urbana.
Este contexto histórico demonstra que os eventos de 2026 se inserem num padrão de desafios climáticos e hídricos que Portugal enfrenta há muitos anos, agora agravado por fatores como as alterações climáticas e a crescente urbanização de áreas vulneráveis.
As cheias resultaram de uma combinação complexa de fatores meteorológicos, climáticos e de gestão territorial – muitos deles diretamente relacionados com domínios que a Engenharia Civil pode e deve abordar. Entre estes destacam-se a capacidade de escoamento dos cursos de água e das redes de drenagem urbana; a expansão de superfícies impermeáveis (como estradas, pavimentos e zonas industriais), que diminuem a infiltração natural da água e aceleram o escoamento superficial; e a conceção, execução e manutenção de infra-estruturas hidráulicas (como sistemas pluviais, diques ou barragens) dimensionadas para resistir a cenários de caudais elevados.
Neste contexto, a Engenharia Civil emerge como um pilar essencial para responder às cheias em Portugal, integrando saberes e práticas que combinam planeamento urbano, hidráulica e gestão do risco.
Por exemplo, os engenheiros civis podem contribuir para a definição de mapas de risco com base em dados hidrológicos, topográficos e climáticos, essenciais para orientar o uso do solo e as decisões de ordenamento do território – limitando a ocupação em zonas suscetíveis de cheias e garantindo corredores naturais de escoamento das águas. Além disso, é possível dimensionar adequadamente sistemas de drenagem urbana para responder a volumes extremos, utilizando infraestruturas verdes que aumentam a infiltração, diques reforçados para resistir a caudais elevados, galerias e estações de bombagem, bem como barragens e reservatórios integrados com sistemas de monitorização e descarga controlada de caudais para evitar sobrecargas. Estas soluções exigem conhecimento técnico especializado, complementado por avaliações técnicas regulares e manutenção contínua, recorrendo a tecnologias como sistemas de informação geográfica e sensores para monitorizar níveis de água em tempo real, detetar anomalias e apoiar sistemas de alerta destinados a salvaguardar vidas e bens.
Em zonas urbanas, como Lisboa, estão em curso projetos de grande importância – o melhor exemplo é o Plano Geral de Drenagem de Lisboa (PGDL), que contempla túneis subterrâneos de elevada capacidade e infraestruturas de armazenamento temporário para captar volumes excessivos de chuva e reduzir o risco de inundações.
Após as cheias de 2026, o Governo português ordenou ainda inspeções a infra-estruturas críticas – como rodovias, pontes e sistemas hidráulicos – com vista à identificação de fragilidades e ao planeamento de intervenções técnicas prioritárias.
Contudo, a resposta às cheias exige mais do que obras pontuais. É essencial desenvolver políticas públicas integradas com a Engenharia Civil, incorporando critérios de resiliência climática nas normas de construção e no planeamento urbano, promovendo a participação ativa das ordens profissionais; criando incentivos para que municípios adotem projetos que incorporem modelos de risco e soluções inovadoras; e fomentando a formação contínua de técnicos em gestão do risco hidrológico, hidráulica urbana e análise estrutural em cenários extremos.
Os eventos de 2026 – com tempestades prolongadas, inundações generalizadas, evacuações e danos em infraestruturas críticas – deixaram claro que Portugal enfrenta um novo patamar de desafios climáticos e hídricos e que a resposta a estes exige ser técnica, estratégica e sustentada ao longo do tempo.
A Engenharia Civil, mais do que uma disciplina de construção, é uma ciência de análise, conceção, planeamento e inovação que pode transformar a forma como Portugal gere as suas águas, as suas cidades e o seu território. Com esta ciência integrada nas decisões políticas e urbanas, com infraestruturas corretamente dimensionadas e com sistemas de monitorização avançados, o País pode não só mitigar os efeitos de futuras cheias, como também adaptar-se às realidades climáticas do século XXI, tornando-se mais resiliente, mais seguro e melhor preparado para enfrentar as tempestades que ainda poderão surgir.
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