Não se é filha de Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve impunemente. Coisa que se poderia resumir a um sabedor “filho de peixe sabe nadar”, mas a realidade é que a figura destes pais é de tal forma mítica que a sua sombra lhe pode atrapalhar os movimentos – e, verdade seja dita, Chiara nunca conseguiu repercutir a sua sombra, assim como aconteceu, por exemplo, com Michael Douglas, filho de Kirk; ou Isabella Rossellini, filha de Ingrid Bergman.
O plausível drama de Chiara foi transformado em comédia com o engenho de Christophe Honoré. Marcello Mio é uma comédia desconstruída com um elenco de luxo, atores que gravitam na órbita Mastroianni a fazer de si próprios.
O filme começa como uma sátira que critica o próprio meio, quase que o ridicularizando. Mas depois passa rapidamente à questão da identidade. A identidade de Chiara, que é o centro do filme. Dada a enorme dificuldade de se afastar da imagem dos pais, em busca de uma imagem própria e independente, tem uma espécie de surto psicótico e transforma-se em Marcello Mastroianni.
Aproveitando as óbvias parecenças, dá-se uma transmutação física e psicológica, levando a ideia até às últimas consequências. Há ao mesmo tempo uma efervescência desafiadora e uma certa decadência nesta viagem que nunca perde de vista o registo de comédia.
O mais gratificante do filme talvez seja mesmo a (falsa) sensação de proximidade destas figuras. A ideia enganosa de que chegamos, de alguma forma, à intimidade da relação mãe/filha de Chiara e Catherine, passando por uma teia onde também se encontram o músico Benjamin Biolay, os atores Fabrice Luchini e Melvil Poupaud, ou a realizadora Nicole Garcia.
De resto, o filme é suficientemente despretensioso para não ir mais longe do que isto. Uma interpretação corajosa de Chiara Mastroianni, que serve de bom entretenimento para toda a família. E não apenas a dela.
Marcello Mio > De Christophe Honoré, com Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Fabrice Luchini, Nicole Garcia, Benjamin Biolay, Melvil Poupaud > 122 min