1. On Falling, de Laura Carreira
Esta primeira longa-metragem de Laura Carreira nasceu como uma coprodução luso-britânica, entre a Bro Cinema (de Mário Patrocínio) e a Sixteen Films (produtora sediada em Londres e ligada ao realizador Ken Loach).
Durante praticamente todo o filme, somos espectadores da vida quotidiana de Aurora – numa interpretação segura de Joana Santos, que tem sobre si o peso de carregar todo o filme –, uma emigrante portuguesa na Escócia (tal como Laura Carreira) que trabalha como picker.
Em português a tradução mais certeira é “coletora”, mas não estamos familiarizados com ela porque não é um trabalho que exista em Portugal com a dimensão que vemos em On Falling. Os pickers andam quilómetros todos os dias, entre grandes prateleiras, sozinhos, transportando um carrinho com rodas e um leitor de códigos de barras, em forma de pequeno revólver, que disparam centenas de vezes. O seu trabalho é recolher os mais variados produtos que foram comprados online por alguém que os espera rapidamente em casa.
O “bip” que se ouve cada vez que a maquineta lê com sucesso mais um código de barras é a banda sonora por excelência deste filme que nos prende em rotinas repetidas diariamente. É um daqueles trabalhos que todos querem que sejam transitórios, até encontrarem um emprego melhor. Uma colega de Aurora exulta quando sabe que conseguiu o que sempre desejou: um trabalho qualquer à secretária, “sentada durante todo o dia!”.
A própria Aurora, uma espécie de personagem sem qualidades, com quem é fácil simpatizar, mas que nos é apresentada sem grandes características que a definam e distingam, procura outro trabalho, como cuidadora em serviços sociais. É na entrevista a que vai para conseguir esse emprego que melhor sentimos o assustador vazio que a jovem realizadora portuguesa nos quer mostrar. Aurora não consegue responder facilmente quando lhe perguntam o que mais gosta de fazer. Hesita, fala em “tratar da roupa”, diz, sem convicção, o que é suposto (estar com amigos, ir ao cinema…) e, em desespero de causa, até inventa uma viagem recente às Bahamas.
A ideia de “trabalho” é uma das grandes questões do nosso tempo, depois de há muito termos percebido que o desenvolvimento tecnológico, afinal, não nos permite ter vidas melhores e mais ociosas. Laura, aos 30 anos, sabe que a sua geração não olha para o mundo profissional da mesma forma que a dos seus pais e avós, e é essa convicção que dá força a este filme, tão contemporâneo nas suas inquietações. Temos salvação? P.D.A. De Laura Carreira, com Joana Santos, Inês Vaz, Piotr Sikora > 104 min
2. Misericórdia, de Alain Guiraudie
Com o sucesso inesperado de O Desconhecido do Lago (2013), Alain Guiraudie tornou-se um nome a seguir no cinema europeu, pela forma ousada e falsamente ingénua com que soube criar a sua linguagem. Misericórdia, baseado no romance que o próprio escreveu em 2021, é, de alguma forma, o filme da sua reafirmação.
Jérémie regressa a uma aldeia da Occitânia, não muito longe de Toulouse, para o funeral do seu antigo chefe, com quem aprendeu o ofício de padeiro. Entre segredos, mentiras e confissões, parece que toda a aldeia se apaixona por ele: desde a viúva ao filho do falecido, passando pelo padre e até pelo próprio morto. Alguns apaixonam-se ao ponto de o odiar.
Misericórdia começa por desenhar-se como um drama (homo)sexual amoral, cheio de intrigas e entrelinhas, com uma deriva existencialista. Subitamente, quase se transforma num policial. Uma história de crime, com ou sem castigo, que permite deambulações sobre a culpa, explorando uma das muitas frinchas psicológicas abertas por Dostoievski, mas fazendo-o de uma forma relativamente original, através da personagem do padre, que, mais do que absolver crimes, absolve castigos. Os diálogos com o padre são o ex-líbris de Misericórdia, o momento em que este se torna quase um filme-ensaio.
Contudo, a partir de determinada altura, começamos a perceber que o filme espalha, de forma deliberada, elementos de comédia. Essa revelação é feita de um modo claro com a introdução da dupla de agentes da polícia (que inclui a atriz portuguesa Salomé Lopes), que são, por assim dizer, muito patuscos. O humor vai repetindo-se em diversos detalhes. Esse registo de comédia permite a presença de personagens caricaturais e um contexto insólito, feito de coincidências e repetições. Misericórdia é um filme transgénero, em que começamos com um riso tímido e acabamos a rir à gargalhada. De Alain Guiraudie, com Félix Kysyl, Catherine Frot, Jean-Baptiste Durand > 104 min
3. Diamante Bruto, de Agathe Riedinger
A primeira longa-metragem de Agathe Riedinger abre perspetivas para um novo realismo suburbano francês, com um elevado grau de consistência – estética, narrativa e até moral. Diamante Bruto tem lá tudo. Centra-se numa adolescente inquieta, emancipada mas oprimida pelo seu contexto social e financeiro, que vê nas redes sociais, na possibilidade de se tornar uma influencer e participar num reality show, a única saída de um ambiente que lhe é particularmente hostil. Liane é um vulcão, que se exaspera por cumprir os parâmetros (talvez doentios) de beleza que a sociedade lhe impõe; uma personagem visceral interpretada com grande solidez por Malou Khebizi.
Diamante Bruto é um retrato de um mundo suburbano e jovem, onde se vislumbra uma nova ordem de valores. A forma como está filmado, o ritmo da montagem e a colorização correspondem, de forma absolutamente consistente, à linha narrativa. Um filme que tanto nos agita quanto nos desarma. De Agathe Riedinger, com Malou Khebizi, Idir Azougli e Andréa Bescond > 103 min