O Governo, que andou o fim de semana a celebrar os dois anos do desinspirado mandato, preparava-se para iniciar a semana com uma discreta sensação de alívio devido à primeira baixa dos preços dos combustíveis desde 28 de fevereiro, quando Donald Trump decidiu atacar o Irão para desviar atenções do caso Epstein e do chumbo pelo Supremo Tribunal Federal das alterações tarifárias proclamadas no “Dia da Libertação”.
Ao fim de seis semanas de guerra e do assassinato de parte da liderança iraniana, com destaque para o líder supremo Ali Khamenei, parece que os problemas se multiplicam e todos os objetivos estratégicos estão por alcançar. Nem o regime teocrático foi derrubado, nem o povo iraniano saiu à rua a apoiar os bombardeamentos. Os Emiratos do Golfo perderam o estatuto de oásis de segurança para os negócios e o turismo e, com o inusitado bloqueio à navegação, o Estreito de Ormuz tornou-se um gargalo estrangulado que asfixia a economia global.
Portugal tem sido, até agora, o dócil colaboracionista europeu da ação militar americana, mas o Governo parece mais vocacionado para tratar de questões tão decisivas nas preocupações dos portugueses como a proibição da autodeterminação de género, a complicação do acesso à nacionalidade portuguesa ou a eleição de candidatos indicados pelo Chega para o Tribunal Constitucional, o Conselho Superior da Magistratura, o Conselho Superior do Ministério Público ou para o Conselho de Opinião da RTP.
Tal como nas tempestades, a estratégia tem sido a de arrastar os pés, esperar que a tormenta passe e conceder apoios mínimos. Após aumentos de 40 cêntimos no gasóleo e de cerca de 25 cêntimos na gasolina, foram concedidas benesses em ISP inferiores a 10 cêntimos que não compensam o aumento das receitas de IVA.
Os apoios às empresas de transportes são de apenas 150 milhões de euros e aumentam o diferencial relativamente aos operadores espanhóis e penalizam o transporte público.
Repetindo o modelo assente em endividamento já utilizado para apoiar as empresas afetadas pelas tempestades, só na semana passada foi aprovada uma linha de crédito de 600 milhões de euros para as empresas com grande intensidade de utilização energética, como as fábricas de telhas ou de vidro, já martirizadas pela destruição provocada pela Kristin.
Surpreende igualmente, mesmo conhecendo o estilo egocêntrico de Luís Montenegro, a ligeireza arrogante, sem necessitar de esgrimir alternativas, com que o Bloco de Direita AD/Chega rejeitou as propostas de José Luís Carneiro, de redução do IVA dos combustíveis e do gás, do IVA zero nos bens alimentares de primeira necessidade e de um apoio mais robusto aos setores dos transportes de mercadorias e de passageiros.
Certamente a confiança depositada no autocrata americano levou o Governo a confiar que o alívio desta semana em 5 cêntimos no gasóleo, motivado pelo precário cessar-fogo anunciado na iminência da “total destruição da civilização iraniana”, seria o início de uma nova tendência de normalização da economia global.
Claro que Netanyahu imediatamente sabotou a tentativa de moderação do conflito, aproveitando para chacinar mais de 300 civis em Beirute, e as negociações de Islamabad começaram inquinadas pela divergência entre os medianeiros paquistaneses e os de Trump acerca da extensão do cessar-fogo ao Líbano.
Claro que o insucesso da negociação direta de alto nível deste sábado e o bizarro anúncio do bloqueio do estreito de Ormuz como forma de pressionar a sua reabertura irão provocar uma imediata degradação do conflito militar e uma nova escalada dos preços do barril de petróleo nos mercados internacionais.
Entre nós, um Governo que fez um Orçamento calculando o petróleo a 62 dólares por barril e que viu o preço trepar dos 70 dólares de final de fevereiro até aos 110 da semana passada, parece paralisado pelo terror do impacto popular das más notícias. Mas como está subordinado ao mais rasteiro espírito de sobrevivência dia a dia, o Governo de Montenegro e do pregoeiro de boas novas Castro Almeida é incapaz de anunciar uma estratégia de redução do consumo de combustíveis, de apoios massivos à utilização dos transportes públicos, de alargamento do teletrabalho nas áreas em que seja viável e de apoio seletivo às áreas da economia mais afetadas e aos mais carenciados pela explosão dos preços dos combustíveis e dos bens alimentares.
Com um aumento de preços de 2,7% em março relativamente ao ano anterior, empurrado pelo aumento homólogo dos produtos alimentares não transformados em 6,4% e dos combustíveis em 5,8%, Portugal teve a maior variação de preços mensal da Zona Euro com uma inflação em cadeia de 2 por cento. Tudo isto acontece na mesma altura em que se confirma que temos o maior aumento anual dos custos da habitação da Zona Euro, com uns fantásticos 18% atingidos pelo Governo Montenegro a longa distância da evolução dos salários reais.
Por parecer estar acoitado num esconderijo a ver se a borrasca trumpista passa com poucos salpicos nacionais, antes de se tornar numa catástrofe global, o desaparecido ministro dos “apoios atrasados” Castro Almeida merece o prémio Laranja Amarga de mais uma semana de implosão da economia internacional.
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