Os Jogos Olímpicos de 2024 estão a provocar uma onda de entusiasmo e celebrações em Paris, França, de até 11 de agosto, e a iServices já está preparada.
A marca líder em reparações multimarca lançou uma campanha internacional com o mote “Reparações em Tempo Recorde!”, que vai abranger mais de 70 lojas em quatro geografias: Portugal, Espanha, França e Bélgica.
Com cinco lojas abertas na capital francesa, onde as competições vão decorrer, a iServices apresenta-se totalmente alinhada com o espírito Olímpico. Os atletas competem pela excelência e a iServices também trabalha para oferecer serviços de alta qualidade e eficiência dos clientes. Até 11 de agosto, todas as lojas iServices, em quatro países, estarão decoradas com esta campanha.
Além de ampliar presença da marca no mercado europeu, esta campanha pretende “provar a capacidade de atender a um público diversificado e exigente”. Além disso, é “um passo estratégico” para a iServices, que continua a “expandir suas operações nos mercados internacionais”, refere a marca.
Um recorde nas reparações, sem marcação
O objetivo da campanha? Celebrar os Jogos Olímpicos e, ao mesmo tempo, reforçar a posição da iServices como líder de mercado em reparações de telemóveis multimarca, garantindo areparação de ecrãs em 30 minutos e areparação de baterias em 20 minutos – ambas na hora e sem marcação.
Estamos perante os dois tipos de reparações – ecrã e bateria – mais procuradas por quem usa equipamentos móveis. Afinal, o vidro do ecrã é essencial para que seja possível consumir os conteúdos e até mesmo utilizar apenas o telemóvel com nitidez. E uma bateria gasta acaba por influenciar o desempenho dos equipamentos.
Problemas no ecrã são dos danos físicos mais comuns em dispositivos móveis, podendo manifestar-se através de vidro estalado, partido, ecrã táctil não funcional ou imagem distorcida. Outros defeitos de display incluem:
Ecrã do telemóvel com riscas verticais ou horizontais;
Ecrã e imagem pixelizada;
Ecrã escuro;
Ecrã intermitente;
Ecrã táctil descalibrado;
Imagem a preto e branco;
Imagem distorcida;
Qualidade da imagem reduzida;
Manchas no ecrã do telemóvel.
As baterias, geralmente fabricadas em lítio, são componentes sensíveis e sujeitos a desgaste. Para prolongar a vida útil das baterias, é aconselhável adotar boas práticas diárias. Com o tempo, é normal que as baterias se deteriorem, apresentando sintomas como:
Descarregamento rápido;
Aplicações ou sistema lentos ou sem resposta;
Encerramento ou reinício inesperado do dispositivo;
Equipamento que não desliga ou não liga;
Sinais de bateria inchada (todas as baterias têm um tempo de vida útil limitado).
A 15 de julho de 2010, o recém-eleito líder do PSD, Pedro Passos Coelho, revitalizava uma iniciativa política, que, nos últimos anos do pós-cavaquismo, se tinha quase perdido: a Festa do Pontal. Nessa tarde de calor e num espaço renovado, no Calçadão da Quarteira, as equipas de funcionários do PSD e as das empresas de eventos, contratadas pelo partido, azafamavam-se a dispor palco e mesas, enquanto os restaurantes da zona, fornecedores do catering, aqueciam as brasas para grelhar as febras. Num hotel de Vilamoura, paredes-meias com a Quarteira, Passos Coelho confraternizava com alguns dos notáveis locais algarvios, onde pontificava Mendes Bota, o grande animador histórico do Pontal, que não cabia em si de contente: um líder do PSD voltava a pisar o palco da Festa e, o que era mais importante, essa seria a sua primeira grande intervenção pública, o que havia arrastado legiões de jornalistas e todas as televisões nacionais. Figuras como Miguel Relvas ou Nuno Morais Sarmento rodeavam o grande líder, ajudando-o a afinar o discurso. De camisa branca e mangas arregaçadas, Passos Coelho imporia, horas depois, a sua voz de barítono, num longo e sério aviso ao governo do PS, então liderado por José Sócrates, já sem maioria absoluta e dependente da abstenção social-democrata para a aprovação do Orçamento do Estado (OE) para 2011. Ao jantar, ingerido antes das intervenções políticas, mal tocou na comida. Para Vilamoura, estava marcada uma ceia tardia, num restaurante exclusivo, que abriria um espaço especial, num pátio interior, especificamente reservado ao pequeno grupo de dirigentes que ali haveria, agora, sim, de matar a fome, degustando uma ementa mais sofisticada do que a que fora disponibilizada à populaça, no Calçadão. Passos Coelho, o staff mais próximo e alguns notáveis algarvios formaram o grupo restrito, em que foram admitidos dois jornalistas com o compromisso de nada revelarem do que ali fosse dito – até porque Passos Coelho tinha um recado privado que não pudera dar, com palavras tão cruas, em público: “Preparem-se, porque a porrada vai começar.”
Não se sabe que importância terá o Pontal deste ano na agenda política, mas é bem provável que os sonhos – e pesadelos – dos principais dirigentes partidários ocupem muitas das suas noites de verão. É verdade que Marcelo facilitou as coisas, ao promulgar os diplomas fiscais aprovados pela oposição no Parlamento. Esta promulgação, que o Governo teve de aceitar e que vai aplicar ainda no decurso do presente ano fiscal, retira o principal “irritante” político que poderia emperrar as negociações entre o PS e o PSD, no que toca à viabilização do próximo OE. Mas, ainda assim, os líderes terão razões para algumas insónias, durante as férias e o correspondente defeso político: com a economia a dar sinais de abrandamento – soubemos, nesta semana, que o crescimento, no segundo trimestre, foi apenas 0,1%, relativamente ao primeiro, o que se revela preocupante, dado o incremento do investimento e do consumo interno – e com esta descida nos impostos, como vai o Governo compensar e recuperar receita para aplicar o seu programa económico – baseado, recorde-se, num crescimento económico muito superior ao previsto por qualquer entidade independente… – e cumprir os muitos acordos com as classes profissionais da Administração Pública (polícias, professores, oficiais de justiça, militares), que lhe bateram a porta mal tomou posse? E Pedro Nuno Santos, como vai manter o estatuto de líder da oposição, salvando a face, ao mesmo tempo que viabiliza um OE que, palavras suas, seria quase impossível ao PS viabilizar? E André Ventura, como vai continuar a justificar, perante o seu eleitorado, a constante oposição destrutiva a um Governo de direita, liderado por um primeiro-ministro pessoalmente bem-visto nas sondagens e que está a dar sinais de querer “fazer coisas”?
PS: Noites de insónia bem poderá tê-las Fernando Medina, depois de ter acontecido o inevitável, razão pela qual preferiu não enfrentar Pedro Nuno Santos nas últimas diretas do PS – foi mesmo constituído arguido na operação com o nome mais criativo da história recente do Ministério Público: a Tutti-Frutti. É bem provável que o sonho (molhado) da procuradora-geral da República, Lucília Gago, seja acabar o mandato deixando um legado de nomes sonantes na condição de arguidos. Processos com nomes criativos não lhe faltam.
O jornalista norte-americano, vencedor do Prémio Pulitzer, antigo editor do The New York Times, autor do bestseller A Força do Hábito, escreve para a revista The New Yorker e outras publicações. Agora, Duhigg lançou Supercomunicadores, “um guia para conversarmos melhor” e, no fundo, termos relações humanas mais significativas. A videochamada com a VISÃO, feita a partir da sua casa em Santa Cruz, na Califórnia, não impediu o autor de pôr em prática algumas das dicas ensinadas no último livro. Como fazer perguntas pessoais à entrevistadora… aqui não reveladas
Para alguém que é um comunicador profissional e que trabalhou para alguns dos melhores jornais e revistas do mundo, foi muito humilde da sua parte reconhecer as falhas na comunicação. O que lhe faltava?
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Fiz o meu melhor para ser um supercomunicador. O problema estava no facto de eu não saber o que era um supercomunicador. Não entendia que a comunicação era um conjunto de ferramentas e que, uma vez aprendendo essas ferramentas, eu podia usá-las em qualquer situação. Chegar a essa conclusão foi fundamental e algo muito poderoso: entender que, se eu passasse algum tempo a praticar essas habilidades, nem que fosse apenas um pouco, isso acabaria por ser transformador na forma como comunico com outras pessoas.
Quando começou a fazer pesquisas para o livro e a falar com especialistas, mudou de ideias sobre o que era um supercomunicador?
Inicialmente, pensava que eram pessoas muito carismáticas ou extrovertidas. Na verdade, percebi que nenhuma dessas coisas importa. O que importa é estar realmente concentrado em conectar-me com os outros. Se conseguirmos fazer um bom trabalho, e se estivermos verdadeiramente atentos, de repente descobrimos a nossa capacidade de nos conectarmos.
Costuma dizer que todos os seus livros surgiram da necessidade de resolver um problema na sua vida. O que desencadeou este?
Tinha caído num padrão com a minha mulher: voltava para casa, depois de um longo dia de trabalho, reclamava de alguns problemas que tinha tido, ela dava-me bons conselhos, mas eu, simplesmente, não era capaz de os ouvir. Ficava chateado, dizia “porque não me estás a apoiar? Devias estar do meu lado”. Por sua vez, ela ficava aborrecida, porque eu a atacava quando ela estava a dar-me bons conselhos. O mesmo tipo de coisa acontecia no trabalho. Pediram-me para gerir um projeto, e era a primeira vez que eu assumia um cargo de gestão. Mas as pessoas traziam-me problemas, e eu não sabia mostrar que as estava a ouvir e elas sentiam-se ignoradas.
Decidi então que queria passar mais tempo a entender por que razão estava a fazer um péssimo trabalho de comunicação. Procurei vários especialistas, neurologistas e neurocientistas, e perguntei-lhes o que se passava. Explicaram-me que tendemos a pensar que uma discussão é sobre uma coisa, certo?
Mas, na verdade, toda a discussão é composta por diferentes tipos de conversas, e essas conversas tendem a cair em três grupos: a prática, que trata de resolver problemas ou de fazer planos; a emocional, em que posso contar-te o que estou a sentir, mas não quero que resolvas os meus sentimentos, quero apenas que tenhas empatia, e a social, que explora quem somos.
Os especialistas explicaram-me que, se duas pessoas estão a ter diferentes tipos de conversas ao mesmo tempo, então terão muita dificuldade em ouvir o outro. Era isso que acontecia comigo. Eu estava a ter uma conversa emocional, enquanto a minha mulher tinha uma conversa prática. Então, como resultado, não nos conseguíamos ouvir.
Mas nem sempre as pessoas são muito diretas sobre aquilo que querem falar.
Isso é verdade. Às vezes, é difícil tentar perceber exatamente o que devíamos estar a falar. Nesses casos, precisamos de passar um pouco de tempo a fazer perguntas, em particular perguntas profundas. Questionar as pessoas sobre os seus valores, experiências e crenças. Pode parecer um pouco intimidatório, mas, em certas ocasiões, é tão simples como perguntar “qual é a tua opinião sobre este tema?” Ou, se conhecemos alguém que é médico, perguntar-lhe “o que o levou a optar por essa profissão?” Quando fazemos estas perguntas, estamos a pedir-lhes para nos contarem algo que é importante para elas. E, muitas vezes, isso acaba por nos revelar o seu mindset e qual o tipo de conversa estamos a ter. Não devemos ter medo de fazer perguntas profundas, devemos abraçá-las, são elas que nos vão ajudar a criar conexões.
Fala no livro sobre o que acontece quando há uma boa conversa e duas pessoas criam uma conexão. O que diz a neurociência?
Quando estamos a conversar com alguém, o nosso corpo começa a mudar, para se encaixar com aquela pessoa. Os nossos ritmos de coração tornam-se semelhantes, assim como os patrões respiratórios e as ondas cerebrais. Essa é uma parte importante de como a comunicação ocorre e deve-se a um fenómeno de arrastamento neuronal. Se pensarmos nisso, faz sentido que, se falo sobre uma emoção que estou a sentir, quem ouve sinta um pouco dessa emoção. Quando há esta simultaneidade neuronal, isso é maravilhoso. É por isso que nos sentimos tão bem depois de uma conversa especial. E isso ajuda a explicar por que razão os tais três tipos de conversas são tão importantes, porque usam diferentes partes do nosso cérebro. Então, é muito difícil criar uma ligação, porque falamos literalmente diferentes línguas cognitivas. Para nos conectarmos e conseguirmos comunicar, precisamos de ter o mesmo tipo de conversa ao mesmo tempo.
Escrever este livro mudou a sua vida?
Sim, muito. Definitivamente, mudou a forma como comunico com a minha família. Passo mais tempo a tentar entender as outras pessoas, ao invés de tentar impressioná-las com a minha inteligência ou de fazer com que concordem comigo.
Temos atualmente uma polarização profunda da sociedade. Precisamos urgentemente de supercomunicadores?
Sim, absolutamente. Vivemos uma época política muito difícil, e parece que não podemos falar com o nosso vizinho sobre política, sobre economia, sobre o que está a acontecer nas escolas dos nossos filhos. Mas a verdade é que todos queremos ser amigos dos nossos vizinhos, certo? O que temos em comum é muito maior do que as nossas diferenças. Ambos estamos preocupados com os filhos, com o buraco na rua, com o ambiente. Se procurarmos formas de nos conectarmos, então o que nos diferencia – em quem votamos ou a ideia que temos do mundo – pode ser explicado e discutido, ao invés de constituírem barreiras gigantes ao entendimento. E é aí que nos sentimos incríveis.
Retiraram-se do palco político, mas nem por isso deixaram de estar sob as luzes da ribalta. Muitos ex-políticos veem na atividade de palestrante ou de comentador uma forma de se manterem relevantes, partilhando a experiência acumulada na gestão de pastas de especial importância. “Para o público, é sempre muito interessante; são pessoas que têm um capital de conhecimento muito grande e acesso a informação, que a maioria das pessoas não tem. Por isso, temos picos de público, quando vemos o Marques Mendes e o Paulo Portas na televisão”, aponta Francisca Seabra, CEO da agência de comunicação Burson.
O retorno financeiro destas aparições também pode ser considerável, principalmente para quem tenha andado pela alta-roda da política internacional. Após abandonarem os cargos, há quem pague pequenas fortunas para garantir a presença, por poucas horas, de uma figura de Estado reformada, seja numa conferência seja num jantar. Os ex-Presidentes dos EUA são a maior atração no circuito internacional de keynote speakers, com o público sedento de alguma visão iluminada sobre o panorama político ou da partilha de um episódio particular da vida na Casa Branca.
No topo, está Barack Obama, reconhecido pelos dotes de oratória, cujos discursos rondam o meio milhão de euros – embora a quantia certa esteja blindada por acordos de confidencialidade. A representá-lo está a The Harry Walker Agency, com palestrantes de impressionante calibre no seu portefólio, como o casal Clinton, Al Gore, Dick Cheney ou Boris Johnson, que recebem centenas de milhares de dólares de bancos, hedge funds e empresas pelos discursos, em iniciativas muitas vezes privadas. Na Washington Speakers Bureau, o catálogo de antigos líderes mundiais é igualmente de luxo, com nomes como George W. Bush, Tony Blair, Theresa May ou Condoleezza Rice.
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Não foi a comunicação a alavancar o meu sucesso; foi o facto de estar a fazer um bom trabalho. Porém, este é irrelevante, se não tiver visibilidade
Mafalda Rebordão Economista, palestrante
Em alguns casos, ganham mais numa aparição do que num ano enquanto Presidentes – Bill Clinton, por exemplo, chegou a amealhar 750 mil dólares por discursar para a empresa de telecomunicações Ericsson, em Hong Kong.
Contudo, os ganhos obtidos com estas presenças não estão isentos de polémicas. O próprio casal Obama, visto como exemplo de retidão no percurso político, alguns meses após deixar a Casa Branca, voltou à ribalta, com Barack a ser criticado pelos 400 milhares de dólares cobrados por uma conferência, em 2017, patrocinada por um banco de investimentos. “O Presidente Obama fará discursos de tempos em tempos. Alguns desses discursos serão pagos, outros não, e, independentemente do local ou do patrocinador, o Presidente Obama será fiel aos seus valores, visão e histórico”, apressou-se a dizer, na altura, o seu conselheiro sénior, Eric Schultz.
Quando deixou de ser secretária de Estado, Hillary Clinton recebeu 2,9 milhões de dólares por 12 presenças em iniciativas organizadas por instituições financeiras, facto que a pôs na mira dos ataques dos opositores – inclusive, de democratas como Bernie Sanders. Já o marido, Bill Clinton, enquanto Hillary exercia o cargo, ganhou 17 milhões de dólares em conversas com bancos, seguradoras, hedge funds, negócios imobiliários e outras empresas financeiras.
O circuito das palestras é igualmente bem pago no Reino Unido. David Cameron, depois de ter servido como primeiro-ministro (2010-2016), conseguiu ser muito bem recompensado nestas palestras, tendo inclusive comentado entre amigos: “It is time to put some hay in the barn” (está na hora de colocar um pouco de feno no celeiro). Boris Johnson seguiu pela mesma bitola, tendo arrecadado uns impressionantes 4,7 milhões de libras, em 2022. O carismático político britânico pode ter caído em desgraça em terras de Sua Majestade, mas tem aparecido frequentemente nos EUA, inclusive fazendo lóbi em nome da Ucrânia, pedindo o reforço do apoio à guerra em vacilantes redutos republicanos.
Dois políticos portugueses também figuram nas grandes agências internacionais de speakers: o perfil de Durão Barroso aparece em várias, destacando-se o facto de ter sido presidente da Comissão Europeia (2004-2014) e primeiro-ministro de Portugal (2002-2004); Paulo Portas é representado pela Thinking Heads, empresa de origem espanhola, que, além de elencar os cargos que exerceu, o descreve como “politicamente provocador, irónico, pragmático, carismático, culto e decidido”, bem como “uma figura incontornável da política portuguesa”.
Após ter abandonado a cadeira de primeiro-ministro, a agência britânica Chartwell Speakers anunciou que António Costa iria fazer parte do seu leque de oradores – entre os líderes mundiais, estão nomes como François Hollande, Gordon Brown, Mario Monti e Liz Truss –, caracterizando-o como “um dos chefes de governo e líderes políticos mais experientes e distintos”. Presume-se que, com a eleição de Costa para novo presidente do Conselho Europeu, estes compromissos terão de ser adiados, mas o desafio europeu beneficiará certamente o seu currículo no futuro.
O à-vontade no palco foi conquistado nos 16 anos passados a praticar danças de salão. Foi também nessa altura que Mafalda Rebordão começou a desenhar as próprias roupas, com cortes, padrões e cores exuberantes, que agora se destacam num qualquer painel cinzentão de palestrantes. “Quando comecei a dar aulas na faculdade [de Cálculo, na Nova SBE], um professor, que eu admirava imenso, comentou que o tipo de roupa que eu usava não era apropriado à minha inteligência. No dia seguinte, fui ao seu gabinete e disse-lhe que provavelmente ele tinha razão e que eu seria julgada, em muitos sítios, pela forma como me vestia, mas até preferia essa seleção natural, porque não queria estar nesse tipo de ecossistemas”, conta a economista. Aos 27 anos, Mafalda ainda sente, muitas vezes, essa resistência inicial, principalmente quando é a única jovem mulher na sala. “Mas isso é rapidamente ultrapassado quando começo a falar”, esclarece.
Quem a ouve, durante alguns minutos, deixa-se contagiar imediatamente pelo entusiasmo e pela frescura das ideias. Valeram-lhe o convite para trabalhar na Google de Londres, nos últimos cinco anos, a integração no Executive Board da Nova SBE, o convite do Presidente da República para fazer parte dos 30 jovens pertencentes ao grupo de reflexão “O Futuro já Começou” ou a seleção como Líder Mundial Promissora, pelo St. Gallen Symposium. “Fui a primeira portuguesa, algo que se repetiu noutras ocasiões… Inicialmente, pensava que o meu papel era abrir a porta, mas não, é deixar a porta aberta, para garantir que outros portugueses possam entrar.”
Logo no início da carreira, aprendeu que “devemos comunicar ativamente os nossos interesses, competências e superpoderes”, algo que considera ser visto com muito preconceito em Portugal. “É uma sociedade que critica muito o sucesso do outro e que não aceita muito bem a ambição”, aponta. Contudo, “não foi a comunicação a alavancar o meu sucesso; foi o facto de estar a fazer um bom trabalho. Porém, este é irrelevante se não tiver visibilidade, se eu não fizer uma comunicação intencional”, sublinha Mafalda.
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Foi o que procurou transmitir em centenas de sessões de mentoria, nomeadamente na C-Level Mentorship Academy, um projeto criado em conjunto com Sara Aguiar, com o qual visa ajudar no desenvolvimento e na promoção de jovens mulheres a lugares de liderança. “Como nos podemos ‘vender’ no mercado de trabalho? Esta expressão nunca é muito bem recebida. Mas as empresas estão à procura de alguma coisa, e nós temos de perceber como nos podemos posicionar.”
Quando faz uma apresentação, Mafalda Rebordão recorda as primeiras aulas de Cálculo dadas a 150 alunos, “uma cadeira que não era propriamente adorada”, mas que ela soube desconstruir a sua complexidade. “A primeira coisa em que penso é: o que eu quero que estas pessoas levem quando saírem da sala? A segunda é: porque vão elas preocupar-se com aquilo que eu digo; como vou prender a sua atenção? E depois é importante mostrar o impacto do que fazemos, trazer números, dados, gráficos, imagens.”
Como qualquer outro talento, Mafalda treinou-se muito, posicionando-se em palco com redobrada paixão. “Para mim, comunicar é muito natural, mas tento sempre expor-me a ambientes muito diferentes, sair da minha zona de conforto, e isso faz com que eu fique cada vez melhor.” Trata-se, afinal, da metodologia que Anders Ericsson e Robert Pool falam no seu livro, Peak, a da prática deliberada, necessária para nos tornarmos exímios em qualquer área.
A minha mensagem tem de se destacar, não tem de ter néones nem eu tenho de fazer sapateado, mas quem me ouvir tem de pensar que vai ganhar algo
Carla Rocha Radialista, fundou uma empresa de formação de líderes
Do prazer em dar palestras, a economista retira muita da energia para fazer tudo o resto – e o tudo é realmente muito. Para aprimorar, “primeiro, sempre que termino uma intervenção, peço um feedback honesto a quem me ouviu, e esse tem sido o principal motor da minha aprendizagem; segundo, ouço outras pessoas, seja em palestras, podcasts ou audiobooks, para perceber as técnicas que usam para prender o público”.
O conteúdo da apresentação também não pode ser descurado. “Atualmente, há um overload enorme de talks, e muitas vezes espreme-se a laranja e ela não tem sumo. Ouço coisas repetidas em imensos sítios, ou chavões que nem sequer são aplicáveis, e esta banalização da oratória é perigosa.”
Não fosse Mafalda Rebordão convidada para falar muitas vezes sobre Inteligência Artificial (é membro do conselho do Centro para a IA Responsável), mas igualmente sobre os desafios da Geração Z (nomeadamente, a sua adaptação ao mundo corporativo) e de como Portugal pode ser um país aberto ao mundo – e esta jovem emigrante já está a fazer o seu papel.
A importância da narrativa
Se há palestras que os oradores exibem com orgulho no currículo, estas são as TED Talks. Com o mote Ideas Worth Spreading (ideias que valem a pena partilhar), nasceram em 1984 (a conferência era sobre Tecnologia, Entretenimento e Design, daí a origem do acrónimo), nos Estados Unidos da América, mas tornaram-se um fenómeno viral, replicado em centenas de cidades, tendo como base uma organização apartidária, sem fins lucrativos. A divulgação online gratuita das talks tem o objetivo, explicam no site, de “fornecer uma plataforma para pensadores, visionários e professores, para que as pessoas ao redor do globo possam obter uma melhor compreensão dos maiores problemas enfrentados pelo mundo e alimentar o desejo de ajudar a criar um futuro melhor”.
Uma missão partilhada pelo TEDxPorto, uma das iniciativas organizadas localmente, de forma independente (mediante a atribuição de uma licença das TED). Realizam-se anualmente desde 2010 e pretendem “partilhar ideias ou projetos com potencial para mudar a nossa comunidade e o mundo”, sublinha Norberto Amaral, que coordena a equipa de organização, só com voluntários – embora a aprendizagem proporcionada tenha levado Norberto a mudar de ramo e a trabalhar como consultor de comunicação.
Não há propriamente um “perfil TED”, aponta Norberto, “procuramos pessoas que tenham criado conhecimento numa determinada área, que pode ir das neurociências à arte, e que se entreguem de corpo e alma aos projetos”. As melhores talks vêm de “pessoas que procuram conhecer o seu público e são simultaneamente informativas, catalisadoras de mudança, trazem uma perspetiva original, mas também são divertidas e criam um bom momento”.
Não se deve desviar o olhar, refugiar-se nos apontamentos, falar demais, repetir-se, falar de improviso – é preciso ter muita experiência e nem sempre sai bem
Francisca Seabra CEO da agência de comunicação Burson
Tudo isto pode ser trabalhado, defende o consultor de comunicação, acrescentando “uma sequência lógica de ideias, sem ser um simples debitar de informação, mas criando-se uma narrativa com princípio, meio e fim, enriquecida com exemplos ou pequenas histórias”.
No público TED encontra, sobretudo, “uma curiosidade por ideias e novas formas de ver o mundo”. A informalidade e a proximidade entre participantes e palestrantes ajudam ao sucesso da iniciativa. “Já fizemos quase 300 talks, e nota-se que, no final, as pessoas vão ter com os oradores, querem envolver-se e muitas, passados uns anos, vêm ter connosco e dizem o quão transformador foi ter ido àquela edição em particular e ouvir aquela pessoa, porque era exatamente aquilo de que estava à procura… É isso que faz tudo valer a pena”, admite.
O filão da oratória
Se o circuito de oradores, sobretudo no mercado anglo-saxónico, está altamente desenvolvido, com agências a representar líderes mundiais [ver caixa], prémios Nobel, autores prestigiados e os maiores especialistas em várias áreas, em Portugal ainda se vive muito da informalidade, com os contactos a passar de mão em mão.
A multiplicação de conferências, palestras e encontros, pelo País, abarcando as mais diversas temáticas, mostra que “é preciso profissionalizar este setor”, defende Martha Guedes, diretora-executiva da The Speakers House, agência de oradores de língua portuguesa, que iniciou atividade em meados de julho. Fazem aquilo que denominam como “curadoria do conhecimento”: “Tentamos encontrar oradores que sejam não só verdadeiros especialistas e autoridades nos seus temas, mas cujas histórias e percurso possam dar-lhes legitimidade para fazerem os seus discursos”, sublinha Martha Guedes.
Atualmente, representam em exclusivo 24 comunicadores, abarcando áreas que vão desde a liderança à saúde preventiva, da Inteligência Artificial à inclusão e acessibilidade. “Isso permite-nos um investimento na carreira do orador, conhecer as suas valências e debilidades, ajudá-los e treiná-los para determinado tipo de contextos ou formatos”, acrescenta.
A agência centra-se “no desenvolvimento do talento, na preparação e colocação nos projetos, defendendo os seus interesses e combinando-os da melhor forma com os interesses dos clientes”. Destes, a grande maioria é empresas, mas também há agências de eventos, que “estão muito focadas na produção (e existem imensas em Portugal), mas que ao nível de curadoria de conteúdos sofrem alguma deficiência”, aponta Martha.
Quando estamos a conversar com alguém, o nosso corpo muda para se encaixar com a pessoa. Quando há simultaneidade neuronal, sentimo-nos bem, depois de uma conversa especial
Charles Duhigg Jornalista e bestseller
A própria The Speakers House tem na sua génese a WIN World, dedicada à produção de conferências premium, mas também iniciativas corporativas e retiros de liderança. “Fizemos mais de 800 conferências nos últimos 15 anos, ficamos com uma extraordinário portefólio de oradores, das mais diversas áreas, e percebemos a necessidade que as empresas têm de ficar ligadas a estes oradores, cada vez mais, porque, quer seja em encontros de quadros quer seja em encontros anuais, as pessoas já não querem só diversão, precisam de conteúdo”, explica. Perante esta necessidade crescente do mercado, “quisemos reunir este talento numa agência de oradores de língua portuguesa”.
O objetivo da The Speakers House “é começar a expandir para o mundo lusófono, fazendo uma ligação muito concreta com o Brasil, que é um mercado gigante e com um potencial enorme, mas também com Angola, Moçambique e outros países que possam ser interessantes de explorar por causa desta ligação da língua – tanto trazer esses oradores que se calhar não têm ainda muita expressão e visibilidade por cá como quero levar os nossos para lá e fazer este intercâmbio cultural da lusofonia”, refere Martha Guedes.
“É um mercado muito apetecível, as empresas têm orçamentos para apostar num keynote speaker, que vai fechar um encontro de quadros ou uma conferência, e aquilo gera um boom na plateia, põe as pessoas a pensar”, adianta a diretora-executiva da The Speakers House. Do ponto de vista dos oradores, “alguns, há cinco anos, eram capazes de cobrar uma quantia simbólica e, hoje, por cada atuação, podem receber mais do que os próprios salários. Mas isso também tem que ver com a aposta que fazem na sua profissionalização”, afirma Martha.
Existem caraterísticas imprescindíveis a um bom orador, considera a representante da The Speakers House: “A confiança, a habilidade para ‘ler’ uma sala, o entusiasmo, o autoconhecimento, a autenticidade e a adaptabilidade”, mas o que realmente o distingue é a “relevância e credibilidade do conhecimento, a preparação e a capacidade de trazer algo da sua verdade para os outros. Alguém que se encontrou consigo próprio através da sua maneira de contar uma história”.
A busca de conhecimento
Apesar de o circuito das palestras estar a ganhar maior dimensão, Rui Ribeiro, CEO e fundador do QSP Summit, diz que não trabalham com agências em Portugal, têm acesso direto aos oradores. O facto de se tratar de uma das maiores conferências de gestão e de marketing da Europa e uma das mais relevantes ao nível mundial já funciona como cartão de visita. No mercado internacional, “algumas vezes trabalhamos com agências, outras vezes falamos diretamente com os oradores… Mas temos sempre briefings com os comunicadores, porque não queremos uma apresentação-tipo, igual em todo o mundo. Normalmente, escolhemos um tema e pretendemos que o orador se debruce nele, para determinada iniciativa, com determinado público. É uma apresentação única”, caso contrário, “há um risco enorme de não se estar sintonizado com os restantes oradores e de não se trazer temas complementares, tornando-se repetitivo”.
A 17ª edição, que decorreu no início de julho, foi a maior de sempre, segundo a organização, com mais de 3 500 participantes, sobretudo quadros médios e superiores, que pagaram bilhetes entre os €600 e os €680. “Os participantes vão em busca de conhecimento e de ferramentas para o seu trabalho. O nosso ensino não está adaptado à realidade empresarial; hoje a velocidade com que a economia evolui é muito grande, e isso abre espaço para que o QSP Summit seja inspirador. As pessoas são inundadas por tecnologia, excesso de trabalho e falta de tempo, e encontram aqui uma oportunidade para terem alguma atualização do que será a realidade empresarial, nas diversas vertentes”, aponta Rui Ribeiro.
Pelos pavilhões da Exponor, em Matosinhos, estavam distribuídos sete palcos, que acolheram 100 oradores – alguns de renome internacional, como Linda Hill, professora da Harvard Business School, Ravin Jesuthasan (Mercer), Scott Morrison (The Boom!), Rohit Bhargava (Non-Obvious Company), Christina Stathopoulos (Dare To Data) ou Costas Markides (London Business School). “A minha expectativa neste tipo de iniciativas é do pouco fazer muito, bastam-me pequenos take aways, como esta perspetiva que ouvi do Scott Morrison, que defende que os próximos analfabetos serão aqueles que serão incapazes de aprender e de desaprender para reaprender. Essa reformatação que temos de interiorizar é algo que vou utilizar. Precisamos destes lampejos do futuro, que nos obrigam a ser uma pessoa diferente”, apontava o empresário André Vieira de Castro, um repetente na plateia do QSP Summit, à saída de uma das conferências.
Noutras edições, por ali passaram figuras tão distintas como o físico e futurista Michio Kaku, o antigo presidente da Câmara dos Comuns do Parlamento do Reino Unido, John Bercow, com o seu inconfundível “Order! Order!” (Ordem! Ordem!), ou um dos preferidos de Rui Ribeiro, o jornalista Fareed Zakaria. “Foi surpreendente, porque conseguiu estar uma hora a falar sem um único slide e não se ouvia uma mosca na sala. Isso é sinal de que o público está a adorar. Foi uma lição de comunicação muito bem preparada”, recorda.
Para o fundador do QSP Summit, “um speaker, além de ser bom e consistente nos conteúdos, tem de ter performance, poder de síntese, perceber o público, saber ouvir a organização. E porquê? Quando o orador nos quer ouvir, isso é sinal de que está interessado em entregar algo diferenciado, de que está interessado na marca dele, mas também na nossa, no sucesso da iniciativa”.
Neste ano, a área de exposição com mais de 130 marcas era a preferida para o networking – ver e ser visto, no fundo, essencial neste tipo de encontros –, com muitas conversas paralelas sobre a atualidade, um estreitar de relações iniciadas à distância. “É quase como um segundo evento e uma das razões para estar presente. Encontro aqui pessoas qualificadas, com afinidades intelectuais, sobretudo nesta área dos negócios”, acrescentava André Vieira de Castro.
Por lá deve-se ter cruzado com Ricardo Costa, conhecido de outras andanças e orador numa das sessões especiais. O chairman do grupo bracarense Bernardo da Costa, com 45 anos, é considerado um dos portugueses com maior influência no LinkedIn. A rede social, admite, “é também uma forma de ter voz… mudou a minha vida, deu-me acesso a várias pessoas, que me inspiram muito, e foi a partir daí que comecei a ser convidado para eventos”.
Quando foi eleito presidente da Associação Empresarial do Minho, em maio de 2022 (cargo que, entretanto, abandonou), a exposição aumentou, mas já em 2017 chamou a atenção quando criou na sua empresa um Departamento da Felicidade – que se traduz, sobretudo, “em ouvir os trabalhadores e perceber quais são as suas expectativas”, explica, e em medidas concretas tão distintas como a flexibilidade do horário e do espaço laboral, prémios individuais ou até férias tropicais para todos os trabalhadores. “Como fomos pioneiros, enquanto empresário que pratica esta liderança humanizada, comecei a ser muito requisitado como orador”, conta.
Entre pares “chamaram-me de tudo: louco, lamechas, pouco profissional. Felizmente, hoje olho para trás e vejo que estávamos certos; muitas empresas seguiram o mesmo caminho”, reconhece. Cumpriu o seu principal objetivo: “Deixar um legado positivo na sociedade. Recebo seguramente dezenas de mensagens por semana, de pessoas que dizem que eu fiz a diferença.”
O segredo é a autenticidade, quando dizemos às pessoas exatamente aquilo que pensamos. A liberdade de pensar e de dizer, sem medo de represálias ou de ser criticado
Ricardo Costa Chairman do grupo Bernardo da Costa e voz influente no LinkedIn
Entretanto, escreveu o livro A Felicidade é Lucrativa, em que expõe a sua filosofia de que colaboradores felizes são mais produtivos. As dez empresas do grupo, dedicadas a áreas como a importação de equipamentos de segurança eletrónica e de domótica ou a instalação e manutenção de segurança e telecomunicações, têm cerca de 300 trabalhadores, espalhados por cinco países. Ricardo não se considera um profissional da área da comunicação; aliás, reconhece que nunca preparou uma palestra, mas a experiência de falar “às massas”, acumulada desde o tempo em que foi presidente da Associação Académica da Universidade Lusíada de Famalicão, foi decisiva. Nota (e dizem-lhe) que teve “uma evolução enorme, até porque vou a muitas palestras, vejo muitas pessoas que me inspiram e retiro alguns inputs que adapto ao meu discurso”.
Atualmente, não é representado por uma agência, mas cobra pelas suas intervenções quando feitas em iniciativas com fins lucrativos. Até ao final do ano, tem várias palestras agendadas, em Portugal e também no Brasil, em Angola e em Moçambique. “Sou um empresário, não é isto que paga as minhas contas, mas confesso que me dá gosto partilhar as minhas ideias. O segredo é a autenticidade, quando dizemos às pessoas exatamente aquilo que pensamos. E esta liberdade de pensar, de sentir e de dizer exatamente a mesma coisa, sem medo de represálias ou de ser criticado, foi algo que eu construí ao longo do tempo.”
Com a mudança recente de CEO para chairman do grupo Bernardo da Costa, ganhou tempo, mas “o que vou fazer no futuro é uma incógnita”. A política vai ter de aguardar – recusou os desafios insistentes para se candidatar à Câmara Municipal de Braga, em nome da felicidade pessoal.
A prática faz a perfeição
A falta de preparação, entre oradores com tarimba, não é a norma e nem se pense que o treino mata a autenticidade. “Aquilo que fazemos é treinar as pessoas para ganharem uma maior consciência das suas competências de comunicação, do que já fazem bem e dos pontos a melhorar. Podem ser espontâneos, mas a espontaneidade vem de um trabalho prévio, de uma consciência grande sobre a postura adotada. Não posso estar ao sabor das emoções. Devo concentrar-me naquilo que é o objetivo da comunicação, no que quero alcançar e provocar nas pessoas, para ter o impacto desejado”, defende Carla Rocha, voz bem conhecida das nossas rádios.
Winston Churchill
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Londres, 1 de janeiro de 1945, durante uma reunião do Partido Conservador. A oratória brilhante do estadista, primeiro-ministro e líder britânico foi absolutamente marcante, quando levou o Reino Unido à vitória, na II Guerra Mundial, com o discurso sobre “sangue, esforço, lágrimas e suor”. Em criança, Churchill era tímido, gago e ceceava. Mesmo o início da carreira como parlamentar não foi brilhante. Graças à prática e à preparação (escrevia os discursos na totalidade e até indicava as pausas), conseguiu arrebatar toda uma nação.
John F. Kennedy
Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images
Washington D.C., conferência de Imprensa em 1962. Conhecido pelas iniciais, JFK foi o 35.º Presidente dos Estados Unidos da América, e os seus discursos eram um exemplo do poder milagroso das palavras, capazes de prender os ouvintes com mensagens inspiradoras e num tom enfático… de ganhar eleições. Ficou famoso um trecho do seu discurso de posse: “Não perguntes o que a tua pátria pode fazer por ti. Pergunta o que tu podes fazer por ela.”
Nelson Mandela
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África do Sul, outubro de 1990, a falar numa reunião. Em 1994, quatro anos depois da sua libertação da prisão, onde esteve por 27 anos, tornou-se o primeiro Presidente negro de uma África do Sul democrática. “Chegou o momento de sarar as feridas”, disse no poderoso discurso de tomada de posse. “Chegou o momento de construir.” O líder de “uma nação arco-íris” manteve-se fiel aos ideais de liberdade e de igualdade, em nome dos quais estava disposto a morrer. Tinha uma voz impactante, com uma modulação muito própria.
Gandhi
Universal History Archive/Getty Images
Londres, numa visita ao primeiro-ministro britânico, em 1931, no n.º 10 de Downing Street. O pacifista líder indiano usava as palavras como arma, e os seus discursos tiveram um papel fundamental na luta pela independência da Índia. Defensor da resistência não violenta e da desobediência civil em massa, na sua voz, calma e ponderada, apelava: “Seja a mudança que quer ver no mundo.”
Em 2015, empurrada pelo feedback positivo que recebia de antigos profissionais da rádio, com quem refrescava os conteúdos do meio, fundou a empresa Carla Rocha Comunicação, que se dedica à formação e treino de líderes e equipas. “Vejo pessoas, que não se preparam, a fazer comunicações em público e são um desastre, quando podiam ter tudo, porque têm experiência, têm know-how, têm estatuto… Estragam tudo porque não têm a noção do que devem dizer, não têm uma apresentação estruturada, não têm uma mensagem-chave, vão ao sabor do vento. E isso não é garantia de consistência. Afetam a credibilidade, a compreensão e perdem uma oportunidade de mostrar o que são”, aponta.
Para Francisca Seabra, CEO da agência de comunicação Burson Portugal, “hoje em dia é difícil ser um gestor ou um CEO de uma empresa, se não se tiver essa capacidade de falar em público, porque cada vez mais se exige dessas pessoas, não só competências técnicas na área específica em que trabalham mas também a forma como expõem o que fazem”. O escrutínio público é cada vez maior, “as empresas expõem-se mais nos órgãos de comunicação social, e é natural que também se queira perceber como é feito esse trabalho de forma mais aprofundada”, acrescenta.
Quando na agência fazem formações de public speaking e media training com os clientes, e estes se comprometem a dar o seu melhor, “é muito interessante assistir à evolução”. “Alguns não assumem isto como algo importante, e é uma pena, porque a comunicação externa também facilita a comunicação interna, a forma clara e assertiva como se expressam perante os colaboradores. O saber dizer exatamente aquilo que se quer dizer é importante em qualquer contexto”, reconhece Francisca.
O certo é que as transformações acontecem. “Pessoas que nunca pensávamos que seriam capazes de dar uma entrevista e depois acabam a fazer podcasts ou estão à frente de uma plateia de 200 pessoas, sem olhar para o cartão, com um enorme à-vontade e com prestações positivas. Uns terão mais habilidade do que outros, mas é como outra ferramenta qualquer que pode ser trabalhada.”
A consultora de comunicação sabe que “há, certamente, empresas fantásticas, com crescimento económico, em que os líderes não falam. Mas não tenho dúvidas de que há sempre alguém a falar por eles.”
Dicas preciosas
Numa época em que estamos assoberbados de informação, com a paciência e a concentração nos mínimos, porque vamos prestar atenção àquela pessoa? “A minha mensagem tem de se destacar, não tem de ter néones nem eu tenho de fazer sapateado, mas tenho de estar minimamente organizado e ser minimamente apelativo. Quem me ouvir tem de pensar que vai ganhar algo”, diz Carla Rocha.
Desde que se aventurou na esfera da consultoria de comunicação, a radialista deu inúmeras palestras, cursos online, formações, escreveu os livros Fale Menos Comunique Mais – 10 Estratégias para se Tornar Um Grande Comunicador e Fale Menos Influencie Mais – 5 Estratégias para Ser Ouvido e Comunicar com Influência. “Essencialmente, treinamos líderes de empresas, que devem ser bons comunicadores. É uma competência não negociável, porque as empresas mudam a um ritmo alucinante e, se não comunicarem essa mudança, vai estar a perder”, indica.
Para Carla, o que distingue um bom comunicador, sobretudo quando vivemos em sociedades muito polarizadas, “é alguém que consegue chegar a meio, ouvir e entender outras perspetivas, e que não vive de verdades absolutas. Aquele entendimento de que um bom orador é alguém que consegue persuadir os outros está a mudar – comunicar é pôr em comum e, para isso, tenho de aproximar-me do outro, de forma mais empática”.
Francisca Seabra acrescenta mais uns pontos: “Não desviar o olhar, não se refugiar nos apontamentos, não falar demais (o silêncio também deve ser bem gerido), não se repetir, não falar de improviso – é preciso ter muita experiência e nem sempre sai bem, mesmo para o nosso Presidente da República.”
Não faltam ângulos nem abordagens diferentes sobre o tema da comunicação e do desenvolvimento pessoal. Contudo, Carla Rocha acredita que este é um filão com muito por explorar. “A evolução humana é um processo constante. Por muito que ouçamos dizer que é importante escutar, ou que devemos ser empáticos e integrar o contributo de todos, ainda não o fazemos bem. Tenho muitas vezes a sensação de que a comunicação nas organizações continua a ser unidirecional. Enquanto isso acontecer, haverá sempre espaço para pessoas que nos desafiam e que nos fazem transpor a outro patamar.”
Depois do supercomunicador, que venha o superouvinte.
AS DICAS DOS COMUNICADORES
Três livros, escritos por três jornalistas, ensinam a arte de comunicar, em contextos distintos
Para conversar melhor Supercomunicadores, de Charles Duhigg
Tipos de diálogos dominantes:
– Do que se trata, afinal? (diálogos práticos de decisão)
– Como nos sentimos? (diálogos emotivos)
– Quem somos? (diálogos sobre identidade)
Os interlocutores devem aprender a reconhecer o tipo de diálogo que estão a ter – porque cada um deles assenta num tipo de mentalidade e de processamento mental. “Quando correspondemos ao estado mental de alguém, é como se nos fosse conferida permissão para entrar na sua cabeça, para ver o mundo pelos olhos dessa pessoa, compreender o que gosta e o que a preocupa. E, pelo nosso lado, damos permissão para que ela nos compreenda – e oiça”, sublinha Duhigg.
Regras para uma conversa com significado:
– Preste atenção ao tipo de conversa que está a decorrer
– Partilhe os seus objetivos e pergunte aos outros o que procuram: prepare-se para o diálogo, anote alguns tópicos de conversa
– Faça perguntas sobre os sentimentos dos outros e partilhe os seus: não receie fazer perguntas profundas, questione sobre crenças, valores, juízos e experiências
– Tente perceber se as identidades são relevantes para a conversa: pergunte sobre origens, comunidades, organizações e causas que defendem, e retribua; garanta que todos estão em pé de igualdade; reconheça as experiências dos outros e procure as semelhanças; faça a gestão do ambiente em que a conversa decorre, para dar uma maior sensação de segurança e de pertença
Para ganhar um debate Vença Todas as Discussões, de Mehdi Hasan
Com o subtítulo A Arte de Debater, Persuadir e Falar em Público, o jornalista britânico, conhecido pelo estilo agressivo nas entrevistas – após o cancelamento do seu programa no canal norte-americano MSNBC (crê-se que as críticas constantes à atuação do governo de Israel terão sido a causa), Hasan criou o Zeteo, uma empresa de comunicação –, partilha com os leitores os segredos de como apresentar um argumento vencedor.
Conquistar um público no primeiro minuto:
– Antes mesmo de começar a falar, conheça o público: veja qual é o tamanho da plateia, saiba por quem é constituída e adapte a linguagem e o conteúdo aos ouvintes
– Prenda-lhes a atenção: faça uma abertura forte, comece com uma pergunta (provocadora, de preferência), conte uma história pessoal (engraçada, para descontrair)
– Mais do que apelar à cabeça, há que apelar ao coração: os comportamentos e as crenças são mais regidos pelas emoções do que pela racionalidade
– Conte uma história: o cérebro humano não evoluiu para absorver factos puros e duros, ele está programado para a narrativa
– Escolha as palavras com cuidado: é preciso usar linguagem que crie laços com as emoções
– Mostre as suas emoções, genuinamente, e não se limite a falar delas
Como atacar um debate:
– Mostre as faturas: se quiser convencer, tem de estar na posse de provas factuais condenatórias (factos, números, citações), e tem de ser capaz de as usar contra o adversário, em tempo real
– Faça-se à bola… e ao homem: teoricamente, devemos atacar os méritos do argumento e não a pessoa que o está a apresentar. Porém, desacreditar o adversário pode ser uma tática eficaz, pondo em causa o seu caráter, as credenciais e as citações. O argumento ad hominem é de alto risco, mas de grande retorno. Se errar, o tiro pode sair-lhe pela culatra.
– Não fale (só), escute: absorva, processe e compreenda o que ouvir. Pratique uma escuta crítica, criando uma ligação mental com o que está a ser dito. Mantenha o espírito aberto, limpe a mente de distrações e tire apontamentos. Seja um ouvinte empático, sobretudo com o público
– Faça-os rir: uma das melhores maneiras de vencer um debate é usando o humor para captar a atenção do público, por forma a lidar com coisas sérias e até derrubar o adversário (com peso e medida)
– Use alguns golpes de judo: seja flexível e esteja disposto a ceder, ao estilo judo, para usar a energia do oponente contra ele e derrubá-lo ao chão. Ao conceder, ao antecipar, ao reenquadrar a proposta em causa ou o argumento, poderá desequilibrá-lo e depois triunfar
– Espalhe armadilhas: encurrale o adversário com as palavras dele, com uma contradição ou com uma pergunta
– É tão importante estar confiante como mostrar confiança: visualize o êxito; corra mais riscos; rodeie-se de pessoas que promovam a sua confiança; finja até ser!
– Mantenha-se calmo: as emoções são suas – pode dominá-las
– A prática faz a perfeição: pratique o seu aspeto, como soa e o tempo da apresentação
– Faça o trabalho de casa: com brainstorming, muitas pesquisas e representação daquilo que vai apresentar
A arte da explicação Comunicar com Clareza e Confiança, de Ros Atkins
O editor da BBC News, jornalista e apresentador de rádio e de televisão há 20 anos, passou a vida profissional a ver como agarrar a complexidade da atualidade mundial e dar-lhe forma, clareza e relevância. Neste livro, demonstra o seu sistema de explicação
Anatomia de uma boa explicação: simplicidade; pormenores essenciais; complexidade (se o tema for complexo, há que enfrentá-lo); eficácia; precisão; contexto; ausência de distrações; cativante; utilidade; clareza de objetivo
Os sete passos de uma explicação:
1. Preparação Comece com uma série de questões: O que esperamos comunicar? Para quem é a explicação? Como resumiríamos o que o público quer aprender connosco? A que questões específicas esta explicação tem de responder?
O meu primeiro emprego foi na Lisnave, Estaleiros Navais de Lisboa, em janeiro de 1971. Eu sou de 1953, é fácil fazer as contas. A Lisnave era então o maior estaleiro de reparação naval do mundo, tinha acabado de inaugurar a chamada Doca 13, que docava navios enormes, de até um milhão de toneladas, os maiores petroleiros do mundo. A Lisnave admitia todos os jovens saídos das escolas industriais, e eu sou filho da Escola Machado de Castro. Acabada essa escola, a Lisnave estava a absorver tudo, estava a crescer muito e precisava dessa mão de obra já algo especializada, que saía dessas escolas. Eu, contra a vontade dos meus pais – que alimentavam o sonho de que eu continuasse a estudar e fosse Doutor ou Engenheiro –, fui inscrever-me na Lisnave e fiquei. Tinha começado a namorar a minha mulher muito cedo, eu tinha 15 anos e ela 20; eu era atrevido. E comecei a pensar que, se não fosse para a guerra, gostaria de casar e constituir família. E tinha de ganhar dinheiro para esse objetivo, mais tarde.
Portanto, tornei-me operário de manutenção, andei dois anos a bordo, e devo dizer que ir para o fundo dum tanque vedar válvulas de fundo – que foi o meu primeiro trabalho – era muito violento. Ganhava 2 600 escudos por mês, mas era duro. Um tanque tem muitos metros de fundo, desce-se por umas escadinhas de bombeiros e, por mais limpo que fosse o tanque, tinha sempre restos de nafta e outros resíduos e um odor permanente a gás. Tanto assim era que tínhamos ordens para estar meia hora a trabalhar lá em baixo e a meia hora seguinte cá em cima, para limpar e respirar. Andei nisto dois anos, quer a bordo quer nas oficinas.
Aí, amarguei a decisão de ir trabalhar, até porque a mala de ferramentas que andava sempre comigo para cima e para baixo tinha uns 25 quilos. Depois, quando fui para a oficina de mecânica, o trabalho já era um pouco mais leve, tinha outras condições. Portanto, a minha primeira experiência no mundo do trabalho foi esta. E foi uma aprendizagem que ainda hoje me acompanha. Explico porquê.
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Todos os dias tínhamos a distribuição de trabalho e, um dia, o Senhor Branco diz-me que vai abrir uma secção nova, no Palácio de Cristal, o edifício da administração, assim chamado porque era todo envidraçado. Estava a ser formada a secção de planeamento, precisavam de um aprendiz e perguntaram-me se queria ir para lá. Depois do que sofri, é claro que queria. E assim foi, aos 19 anos. Saí da oficina para o edifício da administração. Nós brincávamos que, na Lisnave, só havia dois tipos de pessoas: os de fato-macaco e os macacos de fato, e eu passei de um para outro.
Esse trabalho foi riquíssimo e aprendi muita coisa. A função do planeamento era ver, com uns meses de antecedência, qual o trabalho que íamos ter e como íamos distribuir os funcionários, se tínhamos toda a força a trabalhar ou se era preciso buscar mais clientes ou, pelo contrário, faltaria gente e tínhamos de ir buscar mão de obra. Esta foi a minha primeira experiência com um pensamento de organização, de gestão, de busca de eficiência, que me foi muito útil toda a vida. Estive 26 anos no grupo de empresas da Lisnave; por isso, costumo dizer que só tive um patrão em toda a vida: o Grupo José de Mello. Porque, nos anos 80, era administrador da Luso-Italiana, das torneiras Zenite, e comprei a empresa ao Grupo Mello. Tornei-me assim patrão, até de mim próprio.
De facto, o meu primeiro emprego foi como operário, mas, para mim, o primeiro emprego é todo esse tempo na Lisnave, onde fui mudando de funções e aprendi muito. Até quando estive à frente da comissão de trabalhadores depois de derrotar uma lista da CGTP, que ganhava sempre, e fechámos um acordo de empresa que, na minha opinião, foi muito importante para salvar a Lisnave da falência. Foi onde me fiz, em inúmeros sentidos, e ainda tenho sensações fortes, por exemplo, quando sinto o cheiro da maresia. Ficaram-me muitas lições, desde a resiliência, o não desistir – dos tempos de trabalhar nos tanques – até à capacidade de diálogo e negociação e o entender o que é a organização de uma empresa daquele tamanho.
Diana Tinoco
Artigo originalmente publicado na Exame de maio de 2024
Todos os anos, esta data é assinalada num dia diferente e cada vez mais cedo no calendário – um cálculo da Global Footprint Network, organização internacional de sustentabilidade, pioneira na pesquisa e medição da pegada ecológica.
Se todos os resíduos eletrónicos fossem reciclados ou reutilizados seria possível atrasar a efeméride em aproximadamente quatro dias.
Na verdade, não é apenas com as entidades bancárias que as pessoas contraem dívidas. Neste momento, os mais de 8,2 mil milhões de habitantes do planeta Terra estão a viver a crédito dos recursos naturais, ou seja, consome-se mais do que a capacidade do planeta para regenerar esses recursos.
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Estamos (sim, porque a culpa tem de ser acarretada por todos) a usar a natureza 1,7 vezes mais rápido do que os ecossistemas do nosso planeta se podem regenerar. Usar não será bem a palavra certa, abusar talvez seja melhor.
Ainda não reduzimos o consumo o suficiente, nem reciclamos, reutilizamos e recondicionamos que chegue para equilibrar a balança natural e ambiental.
“As consequências dos gastos ecológicos excessivos são evidentes na desflorestação, na erosão do solo, na perda de biodiversidade e na acumulação de dióxido de carbono na atmosfera, o que leva a fenómenos meteorológicos extremos [secas, inundações e incêndios florestais] mais frequentes e à redução da produção de alimentos”, lê-se no site da Global Footprint Network. E ainda, segundo a Associação Zero, o colapso dos stocks de peixes, a escassez e a poluição da água.
A empresa independente com sede nos EUA, Bélgica e Suíça aconselha a população mundial a progredir através do foco para ter sucesso e acabar com o excesso intencional.
“Em 1968, Dick Fosbury revolucionou o salto em altura nas Olimpíadas do México, numa época em que a humanidade usava apenas 0,9 Terras. Em 1988, quando o velejador olímpico Lawrence Lemieux parou no meio da corrida para resgatar dois competidores que se viraram, a procura da humanidade pela natureza cresceu para 1,3 Terras. Em 2008, quando Usain Bolt bateu os seus primeiros recordes olímpicos, o número cresceu para 1,6 Terras. Poderemos invocar a mesma determinação para reverter o nosso excesso ecológico?”, questiona a Global Footprint Network.
Mas existem soluções práticas para amortizar o crédito e sermos menos devedores? Sim. Vamos a alguns exemplos: reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO2) dos combustíveis fósseis em 50% significaria um recuo de três meses no Dia da Sobrecarga da Terra.
Segundo as Nações Unidas, a produção mundial de resíduos eletrónicos atingiu 62 milhões de toneladas em 2022, o suficiente para encher 24 800 piscinas olímpicas, mais 82% do que em 2010. Destas, 4,6 milhões de toneladas de resíduos eletrónicos provêm da categoria de pequenos equipamentos tecnológicos e de telecomunicações, como computadores portáteis ou telemóveis e apenas 22,3% foram reciclados de forma adequada.
Um estudo da refurbed, mercado online de produtos recondicionados, fundada em 2017, em Viena, na Áustria, contabilizou que em média, cada pessoa, guarda 2,72 smartphones sem uso. O recondicionamento desses e outros aparelhos eletrónicos, em comparação com os novos, pouparia em média 83% de CO2, 89% de água e 77% de resíduos.
Com os computadores recondicionados a poupança pode chegar a 872,9 kg de CO2 por unidade.
Se cinco em cada dez smartphones vendidos em Portugal fossem recondicionados poupar-se-ia o equivalente a um dia de emissões de CO2 no País, de acordo com dados da refurbed e da Fraunhofer.
Portugal esgotou os seus recursos a 28 de maio (o ano passado aconteceu 21 dias antes), enquanto a totalidade da União Europeia (UE), com 27 Estados-Membros, já tinha consumido o plafond a 3 de maio. “Apesar de a UE representar apenas 7% da população mundial, seriam necessários três planetas Terra para satisfazer a procura se toda a gente na Terra vivesse como os europeus”, alerta a Associação Zero.
“A Europa está a caminhar para sofrer aumentos de temperatura duas vezes superiores aos de outros continentes devido às alterações climáticas. E os riscos ligados à exploração dos recursos, como a violência, a pobreza e a má governação, põem em risco a paz e a segurança mundiais”, sublinha a organização não governamental.
É preciso recuar mais de 50 anos, até 1973, para encontrar um Dia da Sobrecarga da Terra atingido só no final do ano (3 de dezembro).
Se cada pessoa no planeta vivesse como uma pessoa portuguesa, a humanidade precisaria de 2,9 planetas para sustentar a sua utilização de recursos. O consumo de alimentos (30% da pegada global do país) e a mobilidade (18%) estão, assinala a Zero, entre as atividades que mais contribuem para a pegada ecológica de Portugal.
Quase 40 polícias ficaram feridos na terça-feira à noite devido a confrontos violentos em Southport, no noroeste da Inglaterra, após uma vigília pela morte de três crianças, uma das quais de nacionalidade portuguesa, num ataque realizado num centro comunitário. As autoridades locais divulgaram que os manifestantes incendiaram carros, atiraram tijolos a uma mesquita local, danificaram uma loja e atearam fogo a caixotes do lixo.
“Atendemos 39 pacientes no total, todos policiais: 27 foram levados ao hospital e 12 foram atendidos e tiveram alta no local”, informou, em comunicado, o Serviço de Ambulâncias inglês. Oito polícias sofreram ferimentos graves, incluindo fraturas, enquanto outros sofreram ferimentos na cabeça e no rosto.
A polícia de Merseyside já admitiu que os envolvidos nos desacatos podem ser apoiantes da Liga de Defesa Inglesa de extrema-direita.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, explicou que o grupo tinha “ invadido” uma vigília pacífica realizada em homenagem aos mortos e feridos no ataque “com violência e brutalidade” e “insultado a comunidade que está de luto”. Os envolvidos “sentirão toda a força da lei”, escreveu Starmer, numa declaração publicada na rede social X (antigo Twitter).
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Extrema-direita portuguesa aproveita o caso
Como habitualmente, os grupos de extrema-direita têm utilizado este ataque para espalhar teorias racistas e xenófobas. Também em Portugal, o Grupo 1143, liderado pelo neonazi Mário Machado, tem aproveitado a tragédia para espalhar o seu discurso anti-imigração e anti-islão. Na noite de terça-feira, vários elementos deste movimento de extrema-direita realizaram ações de homenagem à criança portuguesa em duas das principais artérias de Lisboa e Porto. O grupo tem usado o caso para defender a remigração massiva – um conceito político que visa o repatriamento forçado de imigrantes não brancos.
As autoridades já confirmaram que o autor do ataque vivia numa localidade a cerca de oito quilómetros do sítio do ataque. O jovem de 17 anos está detido e a arma utilizada foi apreendida. Desconhece-se, para já, a sua identidade e as motivações para o ataque. A investigação já terá descartado a possibilidade de tratar-se de um ataque terrorista. As investigações prosseguem.
Recorde-se que, na manhã de segunda-feira, um jovem de 17 anos atacou um centro comunitário para crianças e grávidas na cidade de Southport, onde decorria um evento de dança e ioga para crianças dos seis aos 11 anos, inspirado na cantora norte-americana Taylor Swift. O ataque resultou em três vítimas mortais, com idades compreendidas entre os 6 e os 9 anos.
Uma das vítimas mortais era portuguesa. A menina, de apenas nove anos, vivia com os pais, naturais da Madeira, em Southport. A criança faria 10 anos no próximo mês de outubro. As autoridades confirmam ainda que há cinco crianças e dois adultos internados em estado considerado crítico.