O futuro do ex-Presidente Jair Bolsonaro está em suspenso, à espera de uma decisão do procurador-geral da República do Brasil, Paulo Gonet, que avalia desde julho a acusação feita pela Polícia Federal para decidir se há ou não matéria para levar Bolsonaro e outros dez arguidos a julgamento, num processo que envolve uma tentativa de apropriação de joias que pertenciam ao Estado brasileiro. O caso abalou o Brasil e fez manchetes em todo o mundo, mas o escândalo provavelmente nunca teria rebentado se não houvesse uma sucessão de acasos, que passou por Portugal. Esta é a história de como se fez uma notícia que pode levar Bolsonaro para a cadeia.
Cascais, uma reunião por WhatsApp
Em janeiro de 2023, o Brasil sentia ainda as ondas de choque causadas pela invasão do Planalto, em Brasília. Deste lado do oceano Atlântico, Luís Carrijo vivia uma vida tranquila, em Cascais, gerindo à distância uma agência de comunicação. Numa tarde do final desse mês, a reunião semanal por WhatsApp com um cliente fê-lo, porém, tropeçar numa informação sensível.

Mauro Silva, o presidente da Associação dos Auditores Fiscais da Receita Federal, aproveitou a chamada para falar numa “fofoca” que corria entre os trabalhadores da autoridade tributária brasileira. “Uma colega chegou com uma informação, uma curiosidade. Ela trouxe essa informação como se fosse algo curioso. E eu queria saber de você se isso aí vale alguma coisa”, comentou Mauro. Do outro lado da linha, Carrijo quis saber pormenores. “Então, a gente tem uma notícia de que umas joias da Arábia Saudita do ex-Presidente Bolsonaro estão retidas na alfândega, no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Acho que tentaram entrar com as joias de um presente da Arábia para o Presidente.” Carrijo não teve dúvidas de que ali havia notícia. “Mauro, isso é muito sério.”
Durante esse mesmo telefonema, Mauro Silva passou a Luís Carrijo todos os dados que tinha e nas horas seguintes o assessor começou a fazer contactos. O primeiro foi para a colega de quem Mauro tinha ouvido a história. Ela repetiu o relato, mas não tinha visto as joias, tinha sabido através de um funcionário da alfândega de Guarulhos. “Eu levei alguns dias para poder levantar as informações básicas, comprovar a realidade dos factos, que aquilo realmente estava acontecendo, que tinha joia, que foi apreendida, que era do Bolsonaro, que estava na aduana”, conta Carrijo à VISÃO.
A escolha dos jornalistas
A história parecia firme, mas havia muito mais para investigar. Luís Carrijo decidiu que não era caso para a Associação dos Auditores Fiscais da Receita Federal fazer um comunicado. O melhor era passar a informação para os jornais. Mas, antes, foi preciso perceber se as personagens-chave estavam dispostas a falar com jornalistas. “Porque, às vezes, tem assuntos que estão sob sigilo muito forte e eles [os funcionários do Fisco] não podem revelar. Isso seria uma infração ética e disciplinar.”
A personagem principal era Mário de Marco Rodrigues Sousa, auditor da Receita desde 2006, que em outubro de 2021 barrou o assessor do então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, quando este foi apanhado num controlo de rotina à chegada ao Aeroporto de Guarulhos e se percebeu que dentro da mochila tinha um conjunto de joias avaliadas em cerca de três milhões de euros, que não tinham sido declaradas e não podiam entrar no Brasil sem pagar o imposto.
Havia joias apreendidas que tinham sido enviadas da Arábia Saudita para o Presidente Bolsonaro. Os ingredientes de uma bela história…
De Marco, como ficou conhecido, não só estava na equipa que detetou as joias como, já em 2022, resistiu à pressão do então secretário especial da Receita, Júlio César Vieira Gomes (o chefe máximo do Fisco), para libertar os itens apreendidos. E estava disposto a falar.
Luís Carrijo foi à agenda procurar os jornalistas a quem passar a história. Normalmente, os repórteres querem exclusividade, mas desta vez Carrijo entendeu que o melhor seria não deixar o caso nas mãos de um só jornalista. “A imprensa valoriza muito a exclusividade, mas como a gente não sabia se aquele assunto iria para frente ou não por conta da disponibilidade do jornalista, do interesse da chefia, do interesse do dono do jornal, por questões políticas, pressões, eu não podia ficar à mercê desse tipo de demora.”
A escolha dos jornalistas foi feita por critérios de “relacionamento, proximidade, confiança, renome, autoridade, credibilidade e seriedade”. E foi assim que Adriana Fernandes, jornalista de macroeconomia com mais de 30 anos de experiência, entrou na história. “A minha primeira reação foi de descrédito. Era muita cena de filme. Parecia mirabolante”, confessa à VISÃO a repórter que, na altura, estava a trabalhar no Estadão (diário de São Paulo). Apesar das dúvidas, Adriana contou a história ao seu editor e decidiu trabalhar no caso com o colega André Borges, que também tem quase 30 anos de experiência e com quem colaborou já em vários textos escritos a quatro mãos. “A gente passou alguns meses apurando essa história. Tinha muitas dicas, mas eram coisas fragmentadas. Faltavam documentos, imagens. Depois, achámos que íamos abandonar a história”, confessa André Borges.
Uma fonte que mudou tudo
Durante várias semanas, Luís Carrijo não voltou a ter notícias de qualquer dos jornalistas a quem passou a informação. “Depois de duas semanas, todos sumiram. Era como se não estivesse nada acontecendo. Mas eles continuavam, só que eu não estava sabendo”, conta.
“Houve períodos em que achava que não ia dar em nada. Foi a persistência. Tem de insistir quando tudo parece que não vai dar certo”, diz Adriana Fernandes. “Sei que havia outros jornalistas que estavam atrás da história. Achava que alguns deles podiam estar na nossa frente, mas ninguém conseguiu. Teve o fator sorte também, mas acho que foi o facto de ter fontes de anos, que é aquilo que a gente cultiva como repórter, que fez a diferença.”

Foi num encontro com uma fonte que Adriana Fernandes e André Borges viram, pela primeira vez, a imagem que tanto procuravam. A foto das joias apreendidas estava no telemóvel da pessoa com quem falaram. “Essa pessoa mostrou na tela do celular que tinha a imagem, num encontro presencial. Só mostrou. Fiquei desesperado.” Sem saber o que fazer, André sugeriu tirar uma fotografia ao ecrã do telemóvel para ficar com a imagem. A fonte acabou por cedê-la. O sigilo nunca foi quebrado. “Já tem um ano e meio da primeira reportagem e não houve fugas de nenhuma das várias fontes”, frisa André Borges.
A manchete que parou o Brasil
“Na semana anterior à publicação, todos os jornalistas, por incrível que pareça, entraram em contacto comigo. Está faltando isto, está faltando aquilo”, recorda Luís Carrijo. O que faltava era a foto das joias. Mas Adriana Fernandes e André Borges já a tinham. A peça foi manchete do Estadão no dia 3 de março de 2023. “O governo Jair Bolsonaro (PL) tentou trazer ilegalmente para o País colar, anel, relógio e um par de brincos de diamantes avaliados em três milhões de euros, o equivalente a 16,5 milhões de reais. As joias eram um presente do regime saudita para o então Presidente e a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e foram apreendidas no Aeroporto de Guarulhos. Estavam na mochila de um militar, assessor do então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, que viajara ao Médio Oriente em outubro de 2021”, lia-se no arranque do texto, que explicava que, segundo as normas do Tribunal de Contas da União, qualquer presente recebido por presidentes do Brasil pertence ao Estado e não à família presidencial.
Segundo a lei, qualquer presente recebido por presidentes do Brasil pertence ao Estado e não à família presidencial
“O que mais me surpreendeu foi que a notícia entrou no portal do Estadão e logo depois estava nas televisões, tamanho era o peso da matéria. Foi muito rápida a repercussão, 15 ou 20 minutos depois estava na televisão”, conta Adriana Fernandes. A manchete do Estadão foi só a primeira de muitas. Depois da história do conjunto de joias de Guarulhos, soube-se que Bolsonaro tinha conseguido fazer entrar ilegalmente no Brasil mais dois pacotes com joias que lhe tinham sido dadas como Presidente e que conseguiu vender nos Estados Unidos.
“Ao todo, foi cerca de um mês, publicando mais ou menos uma história por semana”, conta André Borges. Pelas notícias, o mundo ficou a saber que Jair Bolsonaro tentou pressionar os funcionários da alfândega de Guarulhos e que, depois de conhecido o caso, montou uma verdadeira operação clandestina para ir aos Estados Unidos reaver as joias que tinha vendido. Três homens de confiança de Bolsonaro, Mauro Cid, o então seu braço-direito que haveria de o denunciar num acordo com as autoridades, e dois advogados, foram de manhã aos Estados Unidos e voltaram nessa mesma noite ao Brasil, com as peças que compraram por um valor superior àquele a que tinham sido vendidas. “Fizeram uma operação de resgate e entraram irregularmente no Brasil”, lembra André Borges. A história acabou até por envolver a lenda da Fórmula 1, o bolsonarista Nelson Piquet, que se ofereceu para esconder as joias na sua fazenda em Brasília. Tudo isso foi sendo publicado e fez estragos na reputação de Bolsonaro. Um estudo de opinião do Datafolha mostra que 52% dos brasileiros acreditam que o ex-Presidente cometeu um crime ao vender as joias recebidas como presente para o Brasil.
Pressões de bolsonaristas
Nos dias a seguir à publicação da primeira notícia, André Borges teve de fechar a conta no Twitter, tanta era a pressão dos bolsonaristas. “Caí num lamaçal de extrema-direita. Fechei o perfil algumas semanas e depois retomei”, diz o jornalista, que algumas vezes se sentiu frustrado por achar que o Estadão não estava a dar ao caso o destaque que era devido. “Para nós era muito frustrante, mas era resultado de forças políticas internas no jornal. A gente teve poucas manchetes. Publicavam tudo, mas não era a matéria principal do dia. Isso frustrou bastante, levou a discussões. Mas a notícia se impõe. Era a manchete em todos os outros jornais e citando o Estadão.”
Retrospetivamente, Adriana Fernandes não sabe responder à pergunta sobre se a notícia teria sido publicada caso Bolsonaro ainda fosse Presidente. Mas sublinha a forma como várias instâncias públicas souberam resistir ao bolsonarismo. “Havia uma resistência do serviço público a coisas que não eram certas. Esses servidores da Receita Federal tiveram coragem, mas também o respaldo da estabilidade do serviço público para dizer não.” André Borges também não tem dúvidas de que “a lisura” dos trabalhadores da autoridade tributária brasileira foi fundamental para que o desfecho da história fosse este e frisa a resistência de quem soube dizer não àquilo que no Brasil se chama uma “carteirada” e que, basicamente, é quando alguém usa o seu poder para pressionar um subordinado.

O grau de detalhe com que se contou a história também foi importante. “Conseguimos todos os relatos dessas cenas, escrevemos isso detalhadamente e as imagens de vídeo foram mais tarde publicadas pela TV Globo”, recorda André Borges, que acredita que o facto de o esquema usado por Bolsonaro ser muito mais simples do que os expedientes financeiros usados noutros casos de corrupção foi fulcral para o impacto que teve. “A história mexeu tanto e pegou porque é de fácil compreensão. Está falando de um bandido que rouba joias.”
Apesar de não haver um prazo na lei, a expectativa, no Brasil, é de que o PGR se pronuncie sobre o caso depois das eleições municipais, que estão marcadas para 6 de outubro. Caso seja julgado e tendo em conta os crimes que estão em causa, que incluem associação criminosa, lavagem de dinheiro e peculato, Jair Bolsonaro pode acabar na cadeia.
Luís Carrijo sente-se o “garganta funda” dessa história. “Se não tivesse sido, primeiro, o auditor fiscal, que apreendeu, e a resistência do auditor fiscal às pressões, se não tivesse sido a fofoca, a atitude do presidente da associação de falar comigo e eu a identificar e a divulgar para a imprensa, até hoje isso estaria ainda oculto. Lá numa caixinha em Guarulhos.”








