A inauguração do Muzeu — Pensamento e Arte Contemporânea dst, em Braga, marca um momento singular na vida cultural portuguesa. Mais do que a abertura de um novo espaço expositivo, trata-se da afirmação de um projeto que cruza arte, pensamento e cidadania, convocando o passado e o presente para refletir sobre o futuro. A cerimónia, que contou com a presença do Presidente da República e a bênção do cardeal e poeta Tolentino Mendonça, sublinhou a dimensão simbólica e espiritual deste novo museu.
Neste contexto, a poesia de Filipa Leal ecoa como um retrato sensível do espírito do seu fundador, o engenheiro José Teixeira, cuja visão está profundamente enraizada na ideia de Abril enquanto horizonte aberto e permanente construção coletiva: “Quando nós pensámos em abril, nós pensámos na hipótese de suscitar a discussão de abrir abril (…) para abril ser o dia-a-dia de todos os portugueses.” A arte surge, assim, como ferramenta essencial desse caminho um percurso sem fim, onde a criação e o pensamento mantêm viva a liberdade conquistada.
Erguer um museu de arte contemporânea em Braga não foi um gesto impossível, mas antes necessário. Numa das cidades culturalmente mais dinâmicas do País, ainda pouco servida por museus do Estado central, nasce agora um espaço que vem colmatar essa lacuna e afirmar um novo centro de reflexão artística. Com um investimento de 40 milhões de euros, José Teixeira assume-se como um mecenas contemporâneo, dando corpo a um projeto que é simultaneamente cultural e político. O nome escolhido – Muzeu – não deixa margem para dúvidas: este é um lugar de pensamento ativo, de questionamento e de intervenção, onde a arte se torna instrumento para continuar a “abrir abril” todos os dias.
Newsletter
Há uma escada dentro da escada. Infinita como a biblioteca de Borges. Infinita como a obra de Kiefer. Para subir a escada de dentro, é preciso sair da escada de fora. Como na arte, como no amor. Para subir a escada de fora, às vezes também é preciso sair da escada de dentro. Como nos dias em que andamos à chuva. Há quem prefira a escada de fora. Há quem evite a escada de dentro. Depende da dança, depende do vento. Dançar por dentro da escada deveria provocar menos vertigens do que dançar por fora da escada. (Mas a escada, qualquer escada, é sempre uma hipótese vertiginosa.) Dança-se mais por dentro na escada de dentro. Vive-se mais por fora na escada de fora. Dizem as más-línguas que a escada de dentro dá directamente
para o pensamento. ( Filipa Leal Poeta, Inédito, Abril 2026)
O 25 de Abril de 1974 calhou a uma quinta-feira. Na verdade, não calhou. O dia que agora está nos calendários como o feriado da revolução e da liberdade foi escolhido por motivos táticos. Como o País, mesmo pequeno, se fazia grande, com estradas miseráveis que agigantavam os trajetos, os soldados demoravam muito a ir e a vir das visitas às terras e era preciso escolher um dia da semana em que a maioria já tivesse regressado das folgas. Ora, era na noite de quarta para quinta-feira, a meio da semana, que mais gente estava nos quartéis. Era também preciso que a revolução não se fizesse no 1º de Maio, porque nessa data, Dia do Trabalhador, as forças do regime estariam completamente mobilizadas, atentas a qualquer movimentação estranha. Era preciso apanhá-los desprevenidos. Por isso e sabendo que os inimigos são muitas vezes aqueles de que menos suspeitamos, os capitães de Abril fizeram, nos dias antes do golpe, passar a mensagem de que se estava a preparar alguma coisa para outro dia. Cada um passou a informação a dez dos que considerava mais insuspeitos e leais. E, já depois da revolução feita, vieram a descobrir que a informação falsa achou mesmo o caminho da PIDE.
A história que aqui descrevo foi-me contada pelo coronel António Rosado da Luz, um dos capitães de Abril. E ela mostra-nos como a História se faz de acasos, de circunstâncias e de traições. Também nos mostra como, entre aqueles que os militares de Abril consideravam os mais leais, havia bufos. Eles sabiam-no. Foi precisamente por o saberem que fizeram circular por eles uma informação falsa para despistar a PIDE. Este pequeno pormenor, uma nota de rodapé sem importância para a História, ilustra bem o País que esteve debaixo de uma ditadura durante 48 anos. Um regime político não se sustenta sem uma massa de gente que ou o apoie ativamente – como aconteceu durante a maior parte do Estado Novo – ou, pelo menos, o suporte por inércia e medo, como acontecia já perto do fim do regime.
Durante décadas, os que fizeram frente a Salazar eram muito poucos. Os do reviralho, os velhos republicanos, os intelectuais de esquerda, os comunistas eram uma exceção. Um desvio. Ser opositor a uma ditadura não é para todos. Exige coragem física. Exige enfrentar o terror. Exige estar disponível para andar escondido, para ser perseguido, para ficar sem trabalho, para deixar o país e a família, para ser preso, para ser torturado, para ser morto. Os heróis desses 48 anos foram, por isso, um punhado de gente de quem os “portugueses de bem” queriam uma distância higiénica, para não terem chatices. Era (como em certa medida nunca deixou de o ser) o País do “cá se vai andando”.
Newsletter
Havia fome, havia miséria, havia crianças descalças a andarem quilómetros para chegar à escola, havia humilhações constantes para os mais pobres, destituídos de qualquer direito, merecedores apenas das migalhas inconstantes da caridade, pelas quais deviam mostrar-se agradecidos. E havia os que iam fazendo pela vida. Os que mantinham um certo estatuto social, fazendo da conivência com os poderes uma alavanca social, aproveitando a pobreza dos outros para ter criados que de outra forma não teriam como pagar. Havia ainda, menos numerosos e visíveis, os incrivelmente ricos. Umas quantas famílias a quem o velho ditador que morreu pobre garantiu a riqueza, através de monopólios e rendas, oleando com essas trocas de favor uma máquina do Estado profundamente corrupta, que se fazia de pequenos e grandes favores, cunhas, pedidos, atenções. Era uma hierarquia perfeita, admirada por aqueles que acham que a desigualdade é uma coisa natural. “Cada um é para o que nasce.”
Durante 50 anos e porque era preciso criar um chão comum onde a democracia pudesse medrar, varreram-se estas memórias para debaixo do tapete da sala da História. Toda a gente garantiu que o 25 de Abril tinha sido o dia mais feliz das suas vidas. Toda a gente tinha sido, afinal, antifascista. Mesmo que a narrativa viesse cheia de “mas”, eles ficavam reservados à caricatura do taxista que suspirava por “um Salazar em cada esquina”, às conversas em surdina nos cafés, às caixas de comentários das notícias online.
Está na altura de sermos claros. O 25 de Abril não é consensual. As revoluções não são consensuais. Como poderiam sê-lo? Se uma ditadura garante que o poder se concentra na mão de muito poucos, como poderiam esses muito poucos ver de bom grado fugir-lhes o poder para a mão de tantos? Ainda por cima, se esses tantos eram o povo, iletrado, maltrapilho, desqualificado. Sob a capa democrática, manteve-se o nojo ao povo. E assentada a poeira revolucionária, os velhos poderosos voltaram, de uma forma ou de outra, a ocupar os seus lugares. Como se isso fosse natural e não pudesse ser de outra maneira. Porque é perigoso que se perceba que a saúde pode ser gratuita para todos, que o trabalho pode ter direitos, que o ensino público pode ser universal. Perigosas não são as utopias, são as construções reais que mostram que o que foi sonhado é possível. E foi por isso que se começou a armadilhar e a desmontar as conquistas de Abril, debaixo do mantra das inevitabilidades. Não há alternativa. “Manda quem pode, obedece quem deve.”
Vi na exposição Venham Mais Cinco, sobre o PREC (Processo Revolucionário em Curso), uma imagem que me impressionou muito. Era a fotografia de uma menina camponesa, de roupa pobre, sentada numa cama, em cima de uma colcha delicada, com uma bonita boneca nos braços. Era a filha dos trabalhadores que invadiram a casa da herdade. E a menina viu-se assim no quarto de outra criança, a filha dos proprietários. O rosto da menina revela espanto, alegria e o medo de quem sabe que está onde não deve estar. Meio século depois, onde estará aquela rapariga? Fará parte daqueles que, graças ao ensino público, conseguiu chegar à universidade, apenas para perceber que o canudo que tudo prometia vale pouco sem os contactos certos? Que o mérito é uma coisa que vale pouco sem um apelido? É provável que assim seja. Que ela se mate a trabalhar e o dinheiro não lhe sobre, que pague pela saúde e pela educação que deviam ser gratuitas, que se revolte pelos impostos que paga e pela corrupção que sustenta. E é natural que se sinta traída e zangada. Só é triste que a sua zanga esteja contra aqueles que lhe abriram a porta do quarto onde ela descobriu que havia colchas finas e bonecas com que nunca tinha sonhado. E não contra os que têm feito tudo para que ela e os seus nunca mais ousem sonhar com nada.
As áreas de soberania são domínios de política pública em que o sentido de Estado é especialmente necessário e em que é fundamental manter um quadro de intervenção que preserve o prestígio das instituições.
Ao longo de dois anos, a impreparação de Luís Montenegro e o radicalismo do propagandista trauliteiro Leitão Amaro, associados a um perfil deliberadamente desajustado nas duas nomeações para o MAI, colocaram em risco a segurança dos portugueses e transformaram a área da segurança interna num território de perigosa dependência ideológica do Governo relativamente ao Chega.
Antes de mais, tivemos o amadorismo atrevido que levou a desvalorizar a prevenção de riscos e conduziu ao fracasso do Governo em todas as situações de emergência, sejam incêndios rurais, apagões ou tempestades.
Newsletter
A prioridade da limpeza dos terrenos, das casas e das aldeias desapareceu do discurso político com a chegada de Montenegro ao poder. O ordenamento das florestas foi subordinado à lógica de gestor de subsídios do ministro da Agricultura e foi degradado o papel da AGIF, a agência criada por recomendação da CTI de 2017, que deixou de depender do primeiro-ministro e passou a ser ignorada junto do Secretário de Estado das Florestas. Estes factos contribuíram para os desastres da gestão dos incêndios rurais em 2024 e 2025.
Em 2024, foi só em setembro que Montenegro veio tentar desviar as atenções da incompetência do Governo na prevenção e combate aos incêndios, com uma fantasia sobre redes de incendiários e apelos à mão pesada da Justiça, qual imitador de André Ventura, que não preveniu nada e fez esquecer o tema mal começou a chover.
Em 2025 foi ainda pior, com a festa do Pontal a prosseguir enquanto o País ardia, com apoios logo anunciados mas que ainda hoje não foram pagos e com a formação de uma nova Comissão Técnica Independente tão urgente, que só foi nomeada em abril de 2026.
Pelo meio, o Governo mostrou impreparação na resposta ao apagão, com umas vagas insinuações sobre o SIRESP mas sem qualquer mudança no sistema ao fim de um ano, e respondeu com desleixo e vídeos de propaganda à tempestade Kristin.
É, por isso, muito positivo o regresso do discurso da prevenção de riscos feito esta semana pelo MAI Luís Neves, avisando que é essencial limpar os terrenos e que poderemos enfrentar “um verão terrível”, tal como foi uma boa decisão a criação de unidades especiais de proteção civil para recolher as árvores derrubadas pelas tempestades e que são rastilho perigoso para os próximos incêndios.
Foi também prudente adiar para depois do verão o debate retrógrado, exigido pela Liga, a estrutura corporativa das associações de bombeiros, sobre o regresso ao modelo distrital de coordenação da proteção civil, sem qualquer articulação com a forma de organização sub-regional dos municípios que são as autoridades locais de proteção civil.
Esteve igualmente bem o novo MAI ao dizer na Assembleia da República, deixando a arder as orelhas de Leitão Amaro, que a operação de instrumentalização política da PSP efetuada na rua do Benformoso com ele não se realizaria daquele modo humilhante e inconsequente.
Foi igualmente claro e coerente o ministro Luís Neves ao negar dois chavões da extrema-direita populista, replicados por Luís Montenegro nas suas charlas dramáticas de abertura de telejornal.
Segundo o ministro, existem obviamente novos problemas de segurança, mas não existe qualquer aumento descontrolado da criminalidade gerador de uma crise de insegurança. Em segundo lugar ,foi cristalino na recusa de existência de qualquer correlação entre as dinâmicas de criminalidade e o aumento da população imigrante.
Mas a parte mais relevante da defesa de forças de segurança prestigiadas foi quando declarou ter despachado em poucas semanas dezenas de processos, pendentes há vários anos, de afastamento das polícias de elementos responsáveis por atos de violência contra os cidadãos, em especial de setores mais frágeis como imigrantes ou pessoas sem-abrigo.
Ainda desiludiu mais a extrema-direita parlamentar quando referiu a preocupação a nível europeu com o aumento da atuação de movimentos neonazis, como o 1143, bem conhecido de dirigentes do Chega, e referiu o caráter pontual do caso ocorrido durante a recente manifestação de um movimento anti-aborto.
Para completar a tentativa de inversão do sinal de desnorte e manipulação ideológica do Governo Montenegro na área da segurança interna, concluiu anunciando o alargamento do recrutamento de novos elementos para a PSP já este ano, com dois novos cursos de formação de agentes, para tentar compensar a redução do efetivo em 183 polícias, verificada em 2024, e de 331 em 2025, revelado ontem pelo Balanço Social da PSP relativo ao ano passado. O desafio não será fácil quando cerca de 20% dos elementos da PSP superam já os 55 anos, idade em que já se podem candidatar à pré-aposentação.
Provavelmente pela clareza de discurso, e por desmentir quase tudo o que foi dito por Montenegro, Leitão Amaro e André Ventura ao longo de dois anos, Luís Neves é um caso raro de popularidade nas sondagens no meio de um Governo com resultados desanimadores, pelo que merece o benefício da dúvida de um prémio Laranja Doce.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
“Leitão Amaro tem um poder enorme. O primeiro-ministro ouve-o mais do que a Hugo Soares”, garante uma fonte do Governo, explicando que não há saída pública, conferência de imprensa ou entrevista de um ministro que não seja antes validada pelo ministro da Presidência. Este poder tem mesmo relegado para segundo plano o responsável pela Comunicação do Governo, Pedro Esteves, cada vez mais entregue apenas à gestão da comunicação de Luís Montenegro e menos à coordenação política, que é agora acertada todas as semanas numa reunião conjunta dos assessores do Governo com a equipa de António Leitão Amaro. Conta quem está no Executivo que esse poder de Leitão Amaro foi crescendo ao longo do tempo, tendo começado a ser mais visível no auge da crise desencadeada pelo caso Spinumviva, que levaria à queda do primeiro governo de Luís Montenegro. Nessa altura, grande parte da estratégia política – incluindo a apresentação de uma moção de confiança e a tentativa de negociação pública com Pedro Nuno Santos a meio do debate no Parlamento – saiu da cabeça de Leitão Amaro.
A forma como Luís Montenegro ouve Leitão Amaro dá-lhe poder, mas, segundo fontes do Executivo, também cria “alguma rivalidade” com Hugo Soares, o líder da bancada parlamentar social-democrata, secretário-geral do PSD e há muito visto como o verdadeiro braço-direito de Montenegro. Por mais que no PSD ninguém duvide do peso que Soares tem junto do primeiro-ministro, no Governo é claro que Leitão Amaro tem um papel fundamental. Tanto, que é Leitão Amaro quem decide que ministros devem ou não falar em momentos críticos e, conta-se no Campus XXI (a sede do Governo), que já chegou a cancelar uma entrevista que o ministro da Agricultura tinha marcada por entender que não era o momento para José Manuel Fernandes falar.
Omnipresente Leitão Amaro é o ministro mais ouvido por Montenegro. Por trás de ambos, espreita Miguel Pinto Luz, o único que, em termos de comunicação, corre em pista própria…
É a António Leitão Amaro que responde diretamente a secretaria-adjunta para a Comunicação, conhecida como a “central de comunicação do Governo”. Mas a máquina que existe está ainda muito longe de ter o poder de fogo que algumas notícias lhe atribuem. Para já, além do coordenador Daniel do Rosário – que tem no currículo ter sido assessor do PCP no Parlamento Europeu, jornalista da Rádio Renascença e porta-voz na Comissão Europeia –, não houve mais nenhuma contratação. Isto, apesar de chegar a ter sido pedido a assessores dos ministros que indicassem nomes de jornalistas – nomeadamente do serviço público de rádio e televisão – que pudessem ter interesse em ir para lá trabalhar. Uma fonte do Ministério da Presidência nota que a secretaria-geral do Governo “tem o mesmo número de funcionários das entidades fundidas [na sua criação] e do CEGER”, o Centro de Gestão da Rede Informática do Governo que António Costa usou como base para criar a sua “central de comunicação”. Esta estrutura tem, segundo a mesma fonte, “administrativos, técnicos, comunicação interna, gestão do portal e comunicação externa, um tradutor, fotógrafos e videógrafos”, num total de 20 pessoas. “É normal que possa crescer alguma coisa, mas não há nenhuma legião de pessoas”, assevera fonte governamental. O que também não haverá, segundo afiançou Leitão Amaro numa audição no Parlamento, é um ranking de jornalistas, apesar de o software adquirido à NewsWhip por 39 999 euros mais IVA o permitir. “Enquanto eu estiver no Governo, seja com a ferramenta NewsWhip, seja com uma legião de assessores, seja com o que se quiser, não é uma prática aceitável”, declarou, explicando que a polémica aplicação de Inteligência Artificial, que monitoriza média e redes sociais, servirá, sim, para “perceber melhor o que pensam os portugueses sobre várias matérias”.
Newsletter
Por enquanto, esta estrutura de comunicação montada no seio do Governo, que pode ser requisitada por qualquer ministério, funciona numa pequena sala, mas estão a decorrer obras no edifício da Av. João XXI (Lisboa) para que tenha novas instalações, que incluirão um pequeno estúdio de televisão. O que já existe na sede do Governo é uma sala de maquilhagem, cujo grande utilizador é precisamente António Leitão Amaro, nos dias de briefing do Conselho de Ministros. Por muito que o PSD tenha criticado a “central de comunicação” de António Costa, o Governo de Montenegro assume agora querer criar uma estrutura que fique para lá das legislaturas. Para uma fonte próxima de Leitão Amaro, o que está em causa é a “racionalização, a profissionalização e a despolitização” da comunicação dos governos. Isso mesmo foi defendido pelo próprio numa conferência de imprensa do Conselho de Ministros em outubro de 2025. “É desejável que o Estado português invista em recursos que sirvam os governos do País e não unicamente um partido no governo”, argumentou. Uma fonte do seu gabinete explica que no médio prazo a criação desta estrutura pode levar a dispensar equipas que hoje estão nos ministérios. “É uma estrutura que tem como vocação poupar em assessorias externas e na multiplicação de recursos nos ministérios.”
Manifestação Já em 2019, os trabalhadores da Lusa temiam pelo futuro da agência noticiosa
Apesar dessa intenção anunciada, para já, todos os ministros têm as suas assessorias de comunicação. Miguel Pinto Luz tem mesmo uma equipa multimédia a trabalhar para si, alimentando vários canais de comunicação e até criando um formato próprio no Instagram, a rubrica Tens um Minuto?, onde explica alguns dos temas do Ministério das Infraestruturas. “É o único que corre em pista própria”, nota uma fonte governamental, notando que Leitão Amaro tem mostrado uma preocupação especial com o que sai do Ministério da Educação, para evitar polémicas, depois de o ministro Fernando Alexandre ter sido pouco hábil a comunicar quando fez declarações sobre estudantes pobres a usar residências públicas.
As falhas de Leitão Amaro
Ainda assim, foi precisamente António Leitão Amaro quem protagonizou uma das mais recentes gaffes do elenco governativo, ao publicar nas redes sociais um vídeo em que aparecia a preto e branco, a falar ao telefone, em mangas de camisa, durante as tempestades que devastaram a região Centro do País. A ideia era mostrar que o Governo tinha tudo sob controlo, mas o desfasamento entre essas imagens e o que se passava no terreno gerou uma onda de críticas que levou o ministro a retirar o vídeo. “Não devia estar publicado, foi retirado”, disse na altura aos jornalistas, recusando ser claro sobre se tinha validado ou não a publicação, numa altura em que o Observador noticiava que as imagens não tinham sido aprovadas pelo ministro. Se assim foi, terá sido uma exceção. Fontes do Governo asseguram que não há nenhum ministro que não valide previamente tudo o que é publicado nas suas redes sociais.
Outra falha de comunicação que há quem note no Governo é a forma como raramente Leitão Amaro consegue diretos nos briefings do Conselho de Ministros, a não ser na RTP “e nunca por muito tempo”. As longas pausas que faz nos discursos e a forma mecânica de falar não ajudam a torná-lo televisivo, mas é quase sempre o grande protagonista das reuniões semanais do Conselho de Ministros, mesmo quando há anúncios de medidas de áreas setoriais.
O braço de ferro com a VASP
Houve, pelo menos, um momento em que António Leitão Amaro se sentou na cadeira do primeiro-ministro. Foi no dia em que recebeu os diretores de jornais e revistas na sala onde habitualmente se reúne o Conselho de Ministros para falar sobre a iminência de oito distritos do interior do País ficarem sem distribuição de imprensa em papel, depois de a única empresa que presta esse serviço, a VASP, ter ameaçado cortar rotas que são deficitárias. O braço de ferro ainda não tem solução à vista, apesar de no fim de semana passado Leitão Amaro ter dito, num congresso sobre jornalismo, no Fundão, que “está no Orçamento do Estado uma verba relevante para financiar a distribuição dos jornais em banca”, porque “não podemos correr o risco de fechar ao interior o acesso aos jornais”. Em causa está a abertura de dois concursos públicos internacionais – um para o norte, outro para o sul do País – para a distribuição de imprensa em papel no valor total de 3,5 milhões de euros para três anos. O anúncio foi feito em março, mas na VASP – que nunca deu um prazo para acabar a distribuição no interior – há alguma desconfiança sobre a iniciativa, até por não haver em Portugal nenhuma outra operadora com a mesma experiência. A ideia do Governo será precisamente a de acabar com o monopólio, mas há ainda incerteza sobre quem, além da VASP, poderá apresentar-se a estes concursos.
As guerras na Lusa e na RTP
Os novos estatutos da Lusa são outra frente de batalha para Leitão Amaro. Neste caso, com os trabalhadores da agência noticiosa e com o Sindicato dos Jornalistas, que temem que o aumento de um para três membros do Conselho de Administração (designados pelo acionista único que é o Estado), a indicação de seis dos 13 membros do conselho consultivo por órgãos políticos (Parlamento, regiões autónomas e Associação Nacional de Municípios) e a obrigação de a direção editorial passar a ter de responder aos deputados possam levar a uma politização do controlo da Lusa. O Sindicato dos Jornalistas entregou mesmo uma queixa à Provedoria de Justiça e à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), alegando que os novos estatutos agravam os riscos de “influência política e de controlo sobre a linha editorial, o que contraria quer preceitos constitucionais, quer o direito europeu”.
Contactado pela VISÃO, António Leitão Amaro recusou fazer qualquer comentário, mas uma fonte próxima garante que o efeito será o contrário. “Diminuímos a intervenção do Governo na escolha do Conselho de Administração da Lusa”, assevera a mesma fonte, explicando que agora a CRESAP é ouvida no processo de indicação e defendendo o aumento do número de administradores com “maior pluralismo”. De resto, a mesma fonte nota que a obrigação de prestar contas ao Parlamento já existe em relação à RTP “e nunca foi um problema”.
Referenciado O Ministério da Educação tem sido alvo da atenção de Leitão Amaro, depois de o ministro Fernando Alexandre ter sido pouco hábil a comunicar, em declarações sobre estudantes pobres em residências públicas
Nas reuniões com representantes dos trabalhadores da agência, Leitão Amaro referiu-se à Lusa como “a joia da coroa”, mas quem lá trabalha queixa-se de que nestes encontros o ministro “só falou”, a redação tem cada vez menos pessoas para fazer o trabalho e há incerteza sobre o que acontecerá ao edifício em Benfica, com a ideia de fazer da sede da RTP (instalações arrendadas) uma nova “Casa das Notícias”, onde funcionem todas as redações do Estado. No Ministério da Presidência, diz-se que a ideia é pôr “Lusa e RTP a trabalhar num projeto de colaboração, não de fusão tal como aconteceu em Espanha” e criar “uma grande redação pública em Bruxelas” conjunta para estes órgãos. Para se ter uma ideia da escassez de pessoal, durante toda a madrugada o turno da Lusa é assegurado por Macau. Não há ninguém de serviço em Lisboa.
O simples facto de se falar apenas em RTP, acabando com 90 anos de história da marca RDP (onde estavam as rádios públicas), é um problema para quem está no serviço público de rádio e televisão e teme o seu desmantelamento. “Não está em causa fazer parte do grupo RTP, que é algo que nunca foi contestado. O que nos preocupa é o esvaziamento de uma marca que é valorizada, a RDP, que foi a única que se manteve em FM a emitir durante o apagão e está a crescer em audiências desde 2018”, diz à VISÃO Cláudia Martins do conselho de redação da rádio pública, notando que o rebranding feito a 30 de março nunca foi discutido com os trabalhadores. “Tememos que isto seja o início de algo mais perigoso”, comenta sobre o facto de agora televisão e rádio terem esponjas indistinguíveis nos microfones. “Pode dar a ideia de que se há dois micros iguais, só é preciso ir um, quando o trabalho e até os ritmos das notícias de rádio e televisão são completamente diferentes.”
Ainda antes de uma possível fusão (que até agora o Governo tem recusado que vá avançar), as queixas de falta de pessoal já são muitas: neste momento, a rádio já não tem editorias de economia nem de internacional, apenas de política e de desporto, e as madrugadas (das 2h às 6h) são feitas apenas por uma pessoa. Além disso, há a questão da confusão entre marcas: como distinguir o serviço África de rádio ou de televisão, se ambos se chamam agora RTP África e acabou a RDP África?
RTP O rebranding da rádio e da televisão públicas, feito sem a auscultação dos profissionais, motiva dúvidas e perplexidades
Virgílio Matos, da Comissão de Trabalhadores da RTP, queixa-se de que este órgão foi eleito em finais de janeiro e ainda não foi recebido por Leitão Amaro. “Já fizemos três tentativas de marcar reunião com o ministro. Até agora, não há resposta.” Mas o maior problema é que “a RTP está em gestão corrente” porque “ainda não foi aprovado o plano de atividades e orçamento para este ano e estamos em abril”.
O Conselho de Administração da RTP fala no “maior investimento público deste século” na empresa, com uma injeção de 20 milhões de euros prevista para este ano para “investimento e modernização” na RTP e na Lusa. Mas desde 2016 que a CAV (Contribuição Audiovisual) não é atualizada, o que só por si pressuporia um acréscimo de cerca de 180 milhões de euros ao longo destes anos, segundo uma fonte da RTP.
Com tantos assuntos pendentes, ficou na gaveta de Leitão Amaro o grande projeto de literacia mediática, que tinha tido aval do seu antecessor Pedro Duarte, e tinha sido desenhado pelo então secretário de Estado para a Comunicação Social, Carlos Abreu Amorim, envolvendo vários agentes do setor. Há um ano que se espera pela sua aprovação final. E há quem garanta que o lado “muito centralizador” de um ministro que tem sempre muitos fogos a que acorrer pode estar a empatar o plano que ia ajudar a combater a desinformação.
Há momentos, cada vez mais frequentes, em que o ecrã acende — e, no lugar de uma resposta, surge um ícone. Um polegar erguido. Seco. Asséptico. Encerrado em si mesmo. E, nesse instante insignificante, algo se quebra. Não estrepitosamente, mas de forma íntima e persistente. Porque esse gesto, vendido como neutro, está longe de o ser.
O polegar não responde: despacha. Não dialoga: encerra. É a versão digital de um silêncio que se quer educado, mas que, na verdade, comunica desinteresse. Quem o recebe sente‑o como uma tradução sumária do que acabou de acontecer: horas de pensamento, cuidado, nuance ou vulnerabilidade devolvidas com um símbolo que cabe num pixel. É pouco. E sabe‑se que é pouco.
Newsletter
Talvez por isso este gesto carregue um peso simbólico maior do que parece. Ao longo da história, o polegar nunca foi um mero ornamento do corpo. Na Roma antiga, um simples movimento desse dedo decidia destinos: absolvia ou condenava na arena, conferia vida ou sentenciava a morte. Hoje, longe dos coliseus, o gesto regressa desinfetado e digital, mas não inocente. Já não julga corpos, mas avalia discursos; já não decreta o fim físico, mas distribui reconhecimento ou negação simbólica. Continua, ainda assim, a exercer poder — rápido, unilateral, sem explicação. Mata!
Vivemos uma época que se orgulha da comunicação instantânea, mas que parece cada vez menos interessada na reciprocidade. O polegar transforma a relação em transação e o interlocutor num ficheiro arquivado. Não é cansaço inocente nem simples economia de tempo. É desistência. É abdicação da presença. Onde não há palavra, o outro deixa de existir como sujeito e passa a ser apenas um elemento funcional da conversa.
Há algo de particularmente inquietante quando este gesto parte de quem sabe escrever. De quem lê, articula ideias, domina a sintaxe e conhece o valor da palavra. Nesse caso, o polegar não é ignorância: é opção. Revela que a cultura sem caráter é apenas verniz. Mostra que a erudição, quando prescinde da cortesia, se transforma em vaidade. Saber escrever e escolher não o fazer é uma forma polida — e socialmente aceite — de desprezo.
Não há aqui neutralidade: há uma escolha clara entre relação e utilidade. Entre reconhecer o outro como presença ou reduzi‑lo a um gesto automático que encerra a conversa antes mesmo de ela existir. As palavras exigem risco, atenção, responsabilidade. O ícone oferece conforto: diz tudo sem dizer nada, aprova sem compromisso, fecha sem se expor.
As palavras são a mais antiga tecnologia de empatia que conhecemos. Com elas hesitamos, corrigimos, afinamos o pensamento e reconhecemos o outro como alguém. Substituí‑las sistematicamente por símbolos é empobrecer a relação humana até ao osso. Não se trata de poupar tempo; trata‑se de abdicar de humanidade. Quando a palavra deixa de circular, deixa também de haver encontro.
Talvez esteja na hora de recusar esta pobreza comunicacional. De exigir, sem alarido e sem arrogância, aquilo que sempre sustentou a convivência humana: uma resposta. Uma palavra. Um sinal de presença real. Porque responder é reconhecer — e fingir que se respondeu é já uma forma de negar. Não se trata de exigir longos discursos nem de impor consensos; trata‑se apenas de não reduzir o outro a um reflexo apressado, a um gesto mecânico que encerra a relação antes mesmo de a assumir.
O polegar continuará a erguer‑se nos ecrãs, sinal mínimo de uma relação cada vez mais reduzida. Mas nós, seres de língua, pensamento e relação, talvez devêssemos fazer o movimento inverso: descer do pedestal confortável da indiferença e regressar ao chão exigente das palavras. Mesmo quando discordam. Mesmo quando custam. Porque escrever — e responder — continua a ser um ato de coragem, de consideração e de humanidade. E porque, no fim, aquilo que nos separa do vazio não é a tecnologia que usamos, mas a escolha de ainda nos darmos ao trabalho de dizer algo a alguém.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Sentados no Cardoso – é assim que toda a gente chama ao Restaurante Estrela de Ouro –, ouvimos as histórias do senhor Zé, o barbeiro reformado da Rua da Verónica, hoje com 92 anos. E da dona Silvina, que toma conta da Capela de Nossa Senhora da Glória, onde era “a forca”. A forca? “Sim, no tempo da Inquisição.” Depois senta-se o João, também barbeiro mas no ativo, dono da Barbearia João, na Rua da Graça, o barbeiro favorito de grandes nomes do futebol como Cristiano Ronaldo ou Pepe.
Newsletter
Vão todos ao dia do bacalhau à minhota, quarta-feira, e encontram-se por acaso. É que no Cardoso, com apenas 22 lugares dispostos em mesas corridas, quem não se conhece fica a conhecer-se e as conversas saltam de mesa em mesa, animadas com tanta liberdade. Na “Graça que resiste”, a hora de almoço, seja no Cardoso, na Cabreira, no Pitéu ou noutros quantos, é aquele momento sem WhatsApp, ChatGPT nem Instagram, sem brunches nem sunsets… A hora de almoço é o tempo da comunidade, dois dedos de conversa, uma risada e voltamos ao trabalho com outra disposição.
Rua da Verónica Apreciar a vista do Panteão em dia de Feira da Ladra. Foto: Gonçalo Villaverde
Parece coisa de outros tempos? Na rua, os tuk-tuks passam com música em altos berros, o Elétrico 28, apinhado de turistas, apita desalmadamente porque um carro estacionou na linha e não o deixa passar (há coisas que nunca mudam nem nunca irão mudar) e as esplanadas do Aperol e das tostas de abacate fervilham de gente já de alcinhas e calções no sol de abril.
Estamos num bairro em que todos os tempos ainda coexistem, no fio da navalha, à sombra de uma Lisboa histórica e cheia de carácter que teima em permanecer para lá das modas. O que aconteceu em Alfama nos últimos anos, esvaziada dos seus moradores e “habitada” agora por gente de passagem breve nos prédios do Airbnb, porta sim, porta sim, mostra bem o que acontece quando se deixa um elefante à solta numa loja de porcelanas.
Aqui na Graça vive-se esse equilíbrio delicadíssimo. Convidamo-lo, caro leitor, a vir connosco, dois repórteres que habitam no bairro há largos anos, conhecer os tesouros escondidos de um roteiro muito pouco turístico, mas onde ainda tropeçamos nos afetos de uma Lisboa castiça.
Nesta aldeia de Lisboa
Polvo à lagareiro que leva o cérebro a encher-nos de dopamina é o de Laura Cardoso, a cozinheira do Estrela de Ouro. A família veio de Tábua, na Beira Alta, teve um restaurante no Poço dos Mouros e abriu “O Cardoso” em 1990. Nuno, o filho, toma agora conta da casa que está sempre cheia, tanto ao almoço como ao jantar. “Continuo a ter muitos clientes do bairro. Também aparecem turistas, sim, julgo que vêm com a recomendação dos donos das casas de alojamento local. E é deles que recebo as maiores pontuações no Google”, vai dizendo Nuno, 48 anos, que fica sempre de coração apertado quando tem a casa cheia e não consegue sentar um dos clientes habituais.
“Durante anos, temos sido aliciados a mudar o estilo da Cabreira para nos adaptarmos mais aos clientes estrangeiros. O imediato é tentador, mas quando o turismo se vai, quem nos vale? Nunca me deslumbrei com isso. Venho da aldeia, guardei cabras, e aprendi a contar só com o que é certo”, realça Rui Gonçalves, 46 anos, um dos sócios da pastelaria que é uma autêntica montra da comunidade que habita a Graça hoje em dia: lá dentro ou na esplanada, ao pequeno-almoço ou ao almoço (porque se servem pratos rápidos e económicos de gastronomia nacional), sentam-se as senhoras idosas que chegam da missa e os jovens hipsters, os operários da construção civil e os intelectuais e artistas, os adolescentes da escola e os professores do Liceu Gil Vicente ou da Voz do Operário, os locais antigos e os novos locais chamados de expats, ou seja, imigrantes de países europeus que vieram morar para o centro de Lisboa.
Pérolas do bairro O artesanato de Rosa Mae, o polvo à lagareiro d’O Cardoso e um mural de Obey Giant, na Rua Natália Correia. Fotos: Gonçalo Villaverde
Turistas, poucos, e menos ainda os que se aventuram naquelas favas com entrecosto que nos fazem esperar, sem stresse, por uma mesa vaga. Aqui um almoço ainda ronda os dez euros, mas o segredo da Cabreira está nas traseiras: a fábrica onde Carlos Santos, 60 anos, o chefe pasteleiro, entra às 4h da manhã porque as massas dos bolos, feitas ainda de forma tradicional e com o mínimo dos mínimos de aditivos artificiais, levam o seu tempo.
A Cabreira abriu em 1977 como leitaria pela mão de um grupo de irmãos vindos da freguesia de Fajão, na Pampilhosa da Serra. Rui Gonçalves começou a trabalhar ali com 16 anos e tornou-se sócio em 2010. A sociedade foi mudando, mas mantendo sempre um cunho familiar. “A nossa vantagem é que um dos sócios fundadores é proprietário do prédio, caso contrário já nos teria acontecido o que sucedeu à Ideal”, diz.
A pastelaria Centro Ideal da Graça, um ícone do bairro, fechou portas no verão passado. Não definhou por falta de clientes, pois difícil era lá apanhar mesa vaga, mas porque o fundo de investimento estrangeiro que adquiriu o prédio lhes pediu 1,7 milhões de euros se quisessem ficar com o espaço. O edifício está agora em obras, com apartamentos em pré-venda, que oferecem “uma experiência de vida incomparável, onde o luxo é mais do que um estado de espírito”. Venderam-se num instante, com preços entre os 500 mil (o T1) e o milhão de euros.
Uma experiência de vida incomparável são as enguias fritas do Pitéu ou os filetes de peixe com arroz de grelos. É um dos mais conceituados restaurantes da Graça e merece a fama.
Outro luxo que aqui se encontra é o talho Luís & Edgar, toda uma experiência imersiva de bairro e conversas com vizinhos, que saem de lá carregados de carne portuguesa bem selecionada. Uma vez por mês, por volta do dia 15, Silvino Fernandes Pereira, 54 anos, faz-se à estrada desde a zona de Coimbra, onde vive, e monta uma banca no passeio à porta do talho, para vender queijos e enchidos tradicionais. Do porco preto alentejano ao queijo do Rabaçal, do concelho de Penela, nas Terras de Sicó, desenjoamos da fast food da vida moderna, tão visível já nas prateleiras dos supermercados de grandes cadeias nacionais que abriram nos últimos anos no bairro – já sem secções de talho ou peixaria, mas com uma grande variedade de refeições prontas embaladas.
Dois copinhos de vinho branco e uma flute de espumante
Ainda nem saímos desta Graça central que gira em torno do largo, um nome que mexe nas profundezas da memória de toda uma geração de portugueses que cresceu com os anúncios televisivos da Moviflor, “Largo da Graça, 28, Lisboa”, assim dizia a voz off. A Moviflor já fechou há muitos anos, depois foi uma loja chinesa e agora é um supermercado Continente.
A roda está sempre a girar e a pequena rua que é a Travessa do Monte, onde há alguns anos se vinha de propósito à Graça para comer no indiano, enche-se hoje de turistas em volta dos bares especializados em vinho e comida italiana. Mas o Haweli Tandoori ainda resiste.
Ignoramos os cafés que prometem “brunch & bites”, além de “good vibes”, e vamos diretos à Tasca do Jaime, onde, aos fins de semana e feriados, há sempre fado vadio. É daqueles sítios onde nos vem logo à cabeça o diálogo do filme Pai Tirano: “Ainda nem jantei… traga-me dois pastelinhos de camarão muito fresquinhos”; “pastéis de camarão não temos”; “então dê-me dois copinhos de vinho branco”…
Figuras André Biveti, presidente da Junta de Freguesia de São Vicente; o campo e a esplanada do Clube Desportivo da Graça; e Carlos Santos e Rui Gonçalves, da pastelaria A Cabreira. Fotos: Gonçalo Villaverde
Jaime Candeias Nunes e Laura Nunes, 67 e 60 anos, ficaram com as quotas de uma tasca ainda com o chão em terra batida há 38 anos. Era uma casa de jogos, com dominó, damas e muito álcool. Jaime tinha o gosto dos instrumentos e, aos poucos, foi pondo uma concertina, depois uma guitarra, na montra. Amigo puxa amigo e começaram a aparecer os músicos e os fadistas. Nomes como Carminho e Ricardo Ribeiro passaram por ali.
Jaime e Laura vieram das beiras, ele da Baixa, ela da Alta, abriram entretanto uma casa em Alfama e, apesar das propostas, nunca quiseram vender a Tasca do Jaime. “Alguns turistas duvidam das minhas contas porque as faço à mão, confirmam com o telemóvel, mas nunca falhei uma”, orgulha-se o dono.
E já estamos atrasados para a “Golden Hour” da Igreja da Graça, protagonista de uma das mais antigas tradições religiosas de Lisboa, a Procissão do Senhor dos Passos. Este programa turístico de dez euros dá-nos acesso aos terraços da igreja para ver o pôr do sol, com uma flute de espumante e um pacote de batatas fritas.
Como assim uma “golden hour”, em inglês e tudo, numa igreja que, ainda há dois anos, se viu obrigada colocar um aviso na entrada da capela mortuária: “This is a private funeral. No photos please” (É um funeral privado, fotografias não, por favor)? O negócio de verão para turistas tem, afinal, uma causa nobre: a paróquia está a juntar fundos para conseguir fazer as tão necessárias obras no telhado.
Subamos então ao telhado para um pôr do sol estonteante sobre a Lisboa que entardece. Dali vemos o Miradouro da Graça apinhado de turistas. É lá que está o busto de Sophia de Mello Breyner Andresen, que viveu na Travessa das Mónicas, nos anos 50. Vemos sobretudo a cidade em todo o seu esplendor, a colina do Castelo de São Jorge, a Ponte 25 de Abril sobre o rio Tejo, a Basílica da Estrela, as Amoreiras, o Martim Moniz… e as traseiras do Quartel da Graça, já em trabalhos de terraplanagem.
A gente… trificada
Ainda não tínhamos falado deste grande elefante. Ainda há poucos anos, era ali que se alinhavam em fila indiana centenas de jovens que iam à inspeção da tropa. Abandonado, este monumento nacional assim classificado desde 1910, foi concessionado ao Grupo Sana para ali construir um hotel de luxo com 120 camas, ao abrigo do Programa Revive.
Ao mesmo tempo, e ali bem perto, o Convento das Mónicas também foi licenciado para uma unidade hoteleira de 128 camas, com um parque de estacionamento de 159 lugares. E um pouco mais abaixo, na Feira da Ladra, o antigo Hospital da Marinha prepara-se para renascer como The Standard Lisbon, um hotel de luxo do grupo Hyatt, com 173 quartos, spa, rooftop e um condomínio privado de 32 apartamentos associados, em formato de branded residences.
A vida da Graça vai mudar radicalmente. Nas janelas já se colocam as faixas amarelas: Menos turismo, mais bairro. E a contestação centra-se em torno do edifício do Quartel, que os moradores querem transformar num centro para a comunidade.
Deem-nos música! Jaime e Laura, donos da Tasca do Jaime, onde se ouvem fados; e os ensaios da Marcha da Graça, no Liceu Gil Vicente. Fotos: Gonçalo Villaverde
“Precisamos de um centro de dia para os idosos, de uma creche, de uma biblioteca, de um teatro… O Quartel da Graça pode ainda albergar equipamentos desportivos, tem espaço para tudo isso”, refere André Biveti, 33 anos, presidente da Junta de Freguesia de São Vicente, criado nas travessas da Graça. “Não somos contra o turismo, de todo, mas esta visão desequilibrada da cidade é bastante radical porque radical é achar que o turismo não deve ser sustentável e regulado. Não se pode só construir equipamentos para os turistas e abandonar as comunidades”, continua.
Equilíbrio e menos deslumbramento, já avisava o sr. Gonçalves, da Cabreira. E o abandono dos moradores vê-se todos os dias na tensão em torno do Elétrico 28 que, à falta de outras alternativas, era o que servia para as deslocações dos mais velhos. Agora, só aos encontrões se entra dentro do 28. Igualmente, o trânsito está fora de controlo com o vaivém de tuk-tuks e tem havido vários atropelamentos mortais. Já para não falar do lixo acumulado nos ecopontos, problema a que a câmara continua a não dar solução.
A par disso, e como movimento de fundo, a freguesia tem perdido população. Há largos anos, a Graça ficou na moda entre intelectuais e artistas, mas André Biveti não fala aqui de um processo de gentrificação, como aconteceu com Brooklyn, em Nova Iorque, por exemplo. “Porque não houve uma substituição da população propriamente dita. O que está a acontecer é outra coisa, é perda de população residente porque os apartamentos foram destinados ao alojamento local para turistas”, nota.
Os efeitos são bem visíveis nos preços das casas, onde qualquer pequeno T2 de 70 metros quadrados ascende aos 400 mil euros na compra e aos 1500 euros no arrendamento.
Ao som da morna
Estas são as questões que todos os dias se discutem à mesa. E os imigrantes. Não aqueles que habitualmente são o alvo dos populismos, os que abriram mercearias de bairro e tanto ajudaram a população no dia do apagão, quando as grandes cadeias de supermercados optaram por fechar portas em vez de dar a mão à vizinhança. Foram as lojas dos imigrantes do Bangladesh que estiveram a vender fiado, à confiança, pois sem eletricidade não havia métodos de pagamento para quem não tinha dinheiro vivo.
Além do turismo, são os imigrantes ricos europeus e americanos, os nómadas digitais, quem agora consegue pagar as rendas pedidas na Graça. Ricos à parte, o bairro tem uma grande comunidade de expats da classe média bem integrada, italianos, franceses e ingleses que vieram com as famílias e aqui construíram a sua vida.
“São pessoas que vieram mesmo habitar o bairro, construir comunidade. Esforçam-se para falar a língua e conhecer a História”, considera Ana Mafalda, 50 anos, que há uma década explora a Casa Mocambo, na Rua do Vale de Santo António, um restaurante de cultura lusófona com música ao vivo, habitualmente africana. “No início éramos olhados de lado, chegámos a ter a fachada vandalizada com a frase ‘Vai para a tua terra’. Agora os vizinhos pedem-nos para abrir de manhã, para terem um sítio onde tomar café, pois tudo foi fechando à volta”, conta Ana Mafalda.
Na Lisboa que entardece O pôr do sol nos miradouros da Graça é um acontecimento que arrasta multidões de turistas. Foto: Gonçalo Villaverde
E foi com os vizinhos e com as encomendas de takeaway que a Casa Mocambo sobreviveu à pandemia. Enquanto devoramos uma moamba de galinha e uma moqueca de camarão, ouvimos a extraordinária voz de Steffy Lima, que canta cada morna como se as tivesse vivido todas intensamente. É o dia dos amigos que aparecem para a Cachupa Jam Jam, um encontro livre de músicos que, invariavelmente, acaba com os clientes a dançar no restaurante.
“Não acredito que estes hotéis todos venham a trazer mais clientes para a minha loja. O turismo de luxo traz clientes para as lojas da Avenida da Liberdade e o turismo dos cruzeiros não traz clientes a ninguém, esses gastam menos de dois euros por dia em Lisboa”, afirma Rosa Mae, 53 anos, artesã de joalharia com loja na Rua da Voz do Operário, a Arts&Crafts.Lx, onde expõe peças feitas à mão, com padrões únicos, o oposto do comércio do postal e das latas de sardinha.
“A teimosia de navegar contra a corrente paga-se cara”, vai dizendo, recordando-se do tempo em que viajar era um acontecimento mais raro e se levava lembranças para a família. Hoje em dia, com as low costs, estamos na era das “escapadinhas” a uma cidade europeia.
A marcha é lindaaa!
Acontece que Lisboa é uma cidade perfeita para essas escapadinhas e, sobretudo, motivo de orgulho, o destino ideal para uma mulher viajar sozinha em segurança. Como bem atesta a belga Louise, 27 anos, estudante de Cinema, a única turista que encontramos no café do sr. Carlos.
As noites da Graça passam pelo Botequim, o histórico café de Natália Correia, pelo Damas, uma grande casa de resistência, lugar de eleição da “malta nova”, e pela tasca do sr. Carlos, que no correr dos anos já perdeu até o nome. Fica na Rua do Sol à Graça e é uma preciosidade. Dizem-nos que tem “o melhor pica-pau de Lisboa” e tivemos de ir lá provar para crer.
Numa chapa toda torta que mandou fazer há mais de 40 anos numa fundição da Vila Berta, Carlos Esteves, 69 anos, atira para lá o alho com fartura e a carne, o segredo dos seus impressionantes pregos e do famoso pica-pau. Batatas fritas descascadas à mão e bem salgadinhas, lambem-se os dedos que vão pegar depois no copo de imperial. Os jovens hipsters discutem ali política, animadamente, com os velhotes. É uma casa de todos.
Carlos Esteves veio de Trás-os-Montes com 11 anos trabalhar naquele mesmo café, na época em que era uma leitaria. Às cinco da manhã, já andava a distribuir garrafas de leite porta a porta. Tinha 18 anos quando o dono morreu e acabou por adquirir as quotas. Está já reformado, mas não larga o trabalho. Perguntamos-lhe se tira folga. “Só se for obrigado”, responde. O café está aberto a partir das 18h, sete dias por semana. E fica todo contente por ver entrar a “malta nova”, uns chamam os outros e a fama espalha-se. Deixa ainda o aviso: “Agora vem a época dos caracóis.”
Resistentes Ana Mafalda, do restaurante lusófono Casa Mocambo; Carlos Esteves a preparar o seu famoso pica-pau; Silvino Pereira, a vender produtos regionais à porta do talho Luís & Edgar; e uma inscrição a pedir “mais vizinhos e menos hotéis”, no Quartel da Graça. Fotos: Gonçalo Villaverde
Mas nós já subimos a Rua Senhora da Glória para ir comer uns percebes ao Clube Desportivo da Graça. Petisca-se muito nesta que é das mais importantes coletividades do bairro, fundada em 1935. As famílias estão bem ali, à mesa da esplanada com vista para o campo de jogos, onde as crianças jogam à bola.
As coletividades estão a ter um renascimento, já não são aqueles sítios onde se jogava languidamente o dominó. Tornaram-se até lugares trendy. Para começar, estão cheias de crianças e jovens nas várias modalidades desportivas. Depois, adaptaram-se às diversas culturas da Lisboa cosmopolita e abrem para fazer rodas de samba e de choro, por exemplo.
A Colombina Clandestina é bastante recente, mas já faz o grande Carnaval de Lisboa e move milhares de pessoas numa festa ativista e vibrante. A Associação Desportiva e Recreativa “O Relâmpago”, também recente, começou a reeditar a mítica subida em bicicleta da rampa do Vale de Santo António… e avisamos já que aquilo não é para meninos.
Depois há o Maria Pia, a caminho da Senhora do Monte, o Mirantense, famoso pelo futebol, o Centro de Cultura Popular de Santa Engrácia, no espaço d’Os Tabacos, na Calçada dos Barbadinhos, todos com belas esplanadas, e voltamos ao Clube Desportivo da Graça, que coordena a Marcha da Graça.
No início de abril, quando se ouvem os primeiros acordes dos ensaios da marcha, é como se o verão começasse ali, nesse som. A ensaiar num pavilhão do Liceu Gil Vicente, vamos dar com 24 pares coreografados por Armando Tinita e Alexandra Serra.
Filipe Coelho, 39 anos, um dos marchantes, é também da direção do clube e explica-nos que, de ano para ano, vai sendo cada vez mais difícil encontrar homens para a marcha. Já as mulheres esgotam as inscrições. Muitas vêm dos arredores de Lisboa, de Barcarena, Odivelas ou da Margem Sul, viver a experiência das Marchas de Santo António. Com ensaios todas as noites, costura de figurinos e construção da cenografia até se chegar ao grande dia. E com uma certeza, diz Filipe: “A marcha tem sempre de continuar.”
A segunda certeza, dizemos nós, é que, no fim, ganha sempre Alfama. Pouco importa. Chegou o verão, há caracóis e imperiais, a rulote do Zeca Diabo não tarda a assentar arraiais no largo, com as suas bifanas e os couratos e, acima de tudo, a “Graça é lindaaa!”. Assim saibam conservá-la.
Conversa VISÃO na Feira Insólita
Está a decorrer no Largo da Graça a Feira Insólita, um evento que junta feira de artesanato, artes e agricultura biológica com música, conversas e workshops. A VISÃO associa-se à iniciativa e, esta quinta-feira, dia 23, às 17h30, promove uma conversa sob o tema Jornalismo e Democracia: Uma História de Amor em Tempos Tóxicos. Aqui ficam alguns pontos altos da Feira Insólita:
Conversa VISÃO Jornalismo e Democracia: Uma História de Amor em Tempos Tóxicos, com Margarida Davim, Filipe Luís e Pedro Santos, dia 23, às 17h30
− Do Humor Angolano e a(s) Literatura(as), conversa com João Melo e Telma Tvon, dia 24, às 18h30
− Redescobertas Portugais e Brasis, A Escrita de Susana Ventura, dia 26, às 14h
− A Política do Preço Certo, conversa com Rui Tavares e Pedro Mafama, dia 27, às 17h30
− A Imagem não é Inocente, conversa com Joana Barrios e Paula Cardoso, dia 30, às 17h30
A fotografia escolhida foi tirada no interior de um dos poucos edifícios federais usados pelo ICE (Serviço de Controlo de Imigração e Fronteiras dos EUA, na sigla em inglês) a que os fotógrafos tiveram acesso. Carol Guzi, para o Miami Herald, captou o momento em que uma família é separada: O equatoriano Luis é detido pelos agentes do ICE, a 26 de agosto do ano passado, deixando para trás a mulher e três filhos, de 7, 13 e 15 anos.
A imagem agora premiada faz parte de um trabalho mais extenso, que o World Press Photo distinguiu na categoria Stories da região da América Central e do Norte.
Newsletter
“Este prémio destaca a importância crucial desta história a nível mundial. Testemunhamos o sofrimento de inúmeras famílias, mas também a sua dignidade e resiliência, que transcendem a adversidade, o que tem sido uma verdadeira lição de humildade. A coragem de abrirem as suas vidas às nossas câmaras permitiu-nos contar as suas histórias. E, sem dúvida, este prémio pertence-lhes a eles, não a mim”, comenta a autora da foto.
As outras duas imagens finalistas
Ajuda de emergência em Gaza, por Saber Nuraldin, para a EPA
Saber Nuraldin, EPA Images
Uma multidão de palestinianos a tentar subir para um camião de ajuda humanitária, na Faixa de Gaza, para receberem farinha. A imagem, captada a 27 de julho de 2025 era uma das candidatas ao título de Foto do Ano.
O júri salienta que a fotografia torna visível a escala e a urgência da fome neste segundo ano de conflito em Gaza.
O julgamento das mulheres Achi, por Victor J. Blue, para a The New York Times Magazine
Victor J. Blue, para a The New York Times Magazine
Doña Paulina Ixpatá Alvarado foi mantida em cativeiro e agredida durante 25 dias em 1983, ao lado de outras mulheres da etnia Achi, à porta de um tribunal da Cidade da Guatemala, em 30 de maio de 2025. Nessa tarde, três ex-membros da patrulha da defesa civil foram condenados a 40 anos de prisão por violação e crimes contra a humanidade.
Durante quatro décadas, um grupo de mulheres indígenas Maya Achi de Rabinal viveu nas mesmas comunidades que os homens que as tinham violado.. A guerra civil na Guatemala conduziu ao genocídio de milhares de pessoas do povo Maya Achi pelas forças militares e pelas forças paramilitares locais apoiadas pelo Estado, que utilizaram a violência sexual como arma sistemática para subjugar as comunidades indígenas. Em 2011, 36 mulheres quebraram o silêncio, dando início e vencendo uma batalha judicial de 14 anos contra os seus agressores.
Muitos dirão amor, alguns excitação, outros prazer, haverá quem diga paz ou calma e muitas mais hipóteses surgirão, várias delas interligadas ou conducentes a outras sensações ou outros estados. Eu, como coisa que mais gosto de sentir, elejo o entusiasmo. Na origem grega, entusiasmo significa inspiração divina – e como não adorar a fervilhante vontade de agir que tal bênção instala em nós? Para quem é um pouco como Erasmo de Roterdão, que gastava todo o dinheiro nas livrarias e só depois pensava em necessidades como a comida ou a roupa, poucas coisas entusiasmam tanto quanto comprar livros. Na procura e, sobretudo, na descoberta de novas leituras, não só antecipamos como começamos já a sentir o entusiasmo que vai tomar conta de nós quando começarmos a ler a obra que, naquele momento, nos atrai. E isso dá-se porque poucas coisas satisfazem tanto como ler um bom livro. Acontece-nos o mesmo com as viagens, por isso se diz amiúde que planear férias pode chegar a ser melhor do que vivê-las. Com os livros, por vezes, sucede comprarmos e lermos vários, até encontrarmos aqueles que parecem ter sido escritos para nós – obras e autores que nos falam ao ouvido, como se nos conhecessem, e que nos oferecem tão perfeitamente aquilo que apreciamos, que não queremos experimentar mais nada, ou então que nos mostram aquilo de que ainda não sabíamos que gostávamos, mas que passa a ser fundamental para nós. Com a música, por exemplo, acontece o mesmo e ainda bem que a experiência humana tem destas coisas: mesmo que uns se dediquem a estragar o mundo, com ódios e guerras, há sempre gente a criar coisas que melhoram a vida de outras pessoas. Não sendo porventura capazes de salvar o mundo, os livros são das mais extraordinárias criações de sempre, porque podem melhorar a vida de muitas pessoas por pouco dinheiro e durante vários séculos. Basta que pensemos na obra de Shakespeare, ou, dando agora um dos exemplos que mais me apaixonam, em Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes, que há mais de 400 anos demonstra a quem o lê por que motivos a literatura e a ficção literária, em concreto, podem ser tão maravilhosas.
Livros assim não só seduzem, mas também enfeitiçam e arrebatam. Hospedam nos leitores um entusiasmo que os faz desejar voltar a eles a todo o instante, quando se veem obrigados a parar a leitura para se entregarem a todas as inoportunas obrigações quotidianas – ou, se preferirmos, a quaisquer atos que não continuar a lê-los. A isso, há 120 anos, referindo-se aos dias passados na infância com um livro preferido, Proust chamou prazer divino. É certo que, à época, os outros atrativos eram muito distintos da criminosa concorrência digital, baseada em algoritmos construídos para viciar, que hoje os livros enfrentam na vida de uma criança e que leva o neurocientista Michel Desmurget a alertar-nos para o facto de estarmos a criar as primeiras gerações menos desenvolvidas do ponto de vista cognitivo do que os próprios pais. É também por isso, e não é nada pouco, que vale a pena assinalar o Dia Mundial do Livro e celebrar a leitura.
A bela “maldição” Depois dos êxitos de Baiôa sem Data para Morrer (2022) e de Morro da Pena Ventosa (2025), Rui Couceiro, autor deste ensaio, acaba de publicar A Mais Bela Maldição (ed. Porto Editora): uma coleção de histórias de pessoas apaixonadas por livros. Quatro destas dez histórias foram publicadas, em primeira mão, na VISÃO; outras foram escritas de propósito para este volume. Todas têm, no entanto, um denominador comum: a intensa paixão pela literatura. E um prazer enorme, visível na escrita do autor, em partilhá-lo.
Em 2026, a comemoração ganha especial importância porque, em certas geografias, parece ter havido gente a viajar no tempo. E o que direi não cheira a ficção científica, mas sim a ficção histórica: há um país que voltou a proibir livros – coisa que, já no longínquo ano de 1763, no livro Carta Sobre o Comércio dos Livros, Diderot afirmava abominar e considerava “uma contradição estranhíssima”. Mas, de facto, os nossos dias parecem regidos por gente vinda dos atrasos de outras épocas. No ensaio Esse Vício Ainda Impune, de 2006, o crítico literário Michel Crépu já dizia, sem saber que tais palavras fariam ainda mais sentido 20 anos depois, que éramos guiados por “um exército de patetas radiantes de estupidez e de uma ambição feroz”, “imbecis (…) reconhecíveis pelo mau gosto, pela incapacidade de usarem com bom senso e justeza o poder de que gozam”. Este parece um texto escrito a propósito do mundo de hoje, razão pela qual, além de fonte de entusiasmo e prazer, ler será também, e cada vez mais, um imprescindível ato político. Ler para se saber mais, para se pensar melhor, para se ser livre e capaz de recusar o retrocesso. O que, naturalmente, perante medidas proibicionistas adotadas na maior potência global, só reforça a importância deste Dia Mundial do Livro. Obras de autores como Gabriel García Márquez, Toni Morrison, George Orwell ou Margaret Atwood, ou seja, algumas das mais importantes da história da literatura do último século, foram proibidas em escolas e estados americanos. Até certos volumes de Harry Potter, que tanto fez pela imaginação de tantas crianças e jovens, foram retirados de bibliotecas escolares daquele país.
Newsletter
O PEN America, que se dedica “a proteger o poder das palavras” e a “liberdade de escrita”, tem alertado para a banalização da proibição de livros – ou da censura, se preferirmos – nos Estados Unidos. Num relatório divulgado em outubro de 2025, refere-se de modo claro à “preocupante normalização” desse tipo de medidas nas escolas norte-americanas. Não é para menos: desde 2021, o PEN detetou mais de 23 mil casos de proibição de livros em 45 dos 50 estados que compõem o país e em 451 agrupamentos escolares. A Flórida, o Texas e o Tennessee são os estados que mais livros censuram e uma das responsáveis do PEN, Sabrina Baêta, considera que nenhuma biblioteca ficará imune às proibições e que, “com a Casa Branca de Trump também a promover agora uma clara cultura de censura, os nossos princípios fundamentais de liberdade de expressão, investigação aberta e acesso a livros diversos e inclusivos estão seriamente em risco”. Para Baêta, as proibições de livros não só “inibem a liberdade de leitura e restringem os direitos dos alunos de aceder à informação e de ler livremente”, como “constituem um obstáculo a um mundo mais justo, informado e com mais igualdade”.
É igualmente nesse país que estão sediadas as cinco maiores empresas de Inteligência Artificial do mundo e importa falar do assunto, visto que o Dia Mundial do Livro é também o Dia Mundial dos Direitos de Autor. Tais empresas, através do chamado “text and data mining”, isto é, de colossal pesquisa de informação feita para treinarem e alimentarem as suas ferramentas, como o famoso ChatGPT, reutilizam de modo abusivo material criado por outrem, sem respeito pela propriedade intelectual e pelo direito autoral. Isto acontece ainda que os autores possam opor-se à utilização, embora ninguém saiba muito bem como. Não só não há forma clara de optar por não permitir que a IA utilize o que um autor criou, como não há controlo nem fiscalização e muito menos um sistema de pagamento aos autores.
A nação que ergueu uma estátua à liberdade e fez dela símbolo nacional enfrenta uma gravíssima crise de identidade. Obcecado pelo belicismo, regido pela mentira e pelo mais chocante egoísmo económico, o Presidente do país demonstra a cada intervenção pública, e sem disso ter noção, qual deverá ser o papel da Europa no mundo atual. Poderão dizer-me que de nada valem palavras contra canhões, mas foram sempre as ideias e o diálogo a acabar com as guerras. Com a sua matriz humanista, um ideal orientador baseado na razão, na igualdade e nos direitos humanos, caberá à Europa assumir um papel de interventiva rejeição e condenação do retrocesso para o qual temos sido conduzidos, baseando-a no conhecimento histórico-social e filosófico-moral. A afirmação de tal postura conduzirá sempre, porque neles baseada, à valorização do livro e da leitura. Aliás, num texto em que, não por acaso, citei tantos franceses, vale a pena dizer que a ideia do Dia Mundial do Livro partiu de Espanha, que já há muito celebrava o livro através do famoso Sant Jordi, que leva livros e leitores para as ruas, no Dia de São Jorge, que é também o dia da morte de Cervantes (e de Shakespeare). Em 1995, a UNESCO aprovou a proposta espanhola de que 23 de abril passasse a ser uma celebração global da maravilha que, enquanto grandes promotores do conhecimento e da empatia, o livro e a leitura representam. Foi uma boa ideia. Saibamos continuar a honrá-la e engrandecê-la. Só fará bem ao mundo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
No ano passado, senti falta de descer a Avenida integrada n’As Toupeiras, mas ainda estava atordoada pela recente orfandade. Este ano, a ficha já caiu e com estrondo: ao fim de uma década de luta e arte, 2024 foi mesmo o último ano dos melhores cartazes do 25 de Abril (de) sempre.
O que fazer se sigo inquieta, talvez mais inquieta do que nunca?
Estive a rever as fotografias publicadas há quase dois anos no Facebook e os cartazes ficavam lindos Avenida da Liberdade abaixo, à boleia do grupo que continua a reivindicar 1% para a cultura no Orçamento do Estado. Alguns deles fazem agora parte do Ephemera, o maior arquivo privado em Portugal, fundado pelo historiador José Pacheco Pereira.
Newsletter
Na minha sala, tenho exposto o cartaz alusivo ao Maio de 68 com que desfilei em 2018. Num lado, lê-se “A imaginação ao poder”, a famosa frase dita por Jean-Paul Sartre a Daniel Cohn-Bendit, durante uma entrevista publicada no Nouvel Observateur, a 20 de maio de 1968 (“O que é interessante nas suas ações é que põem a imaginação no poder. Tem uma imaginação limitada como toda a gente, mas tem muito mais ideias do que os seus antepassados”). No outro lado, lê-se “Les peuples vaincront les impérialismes et la répression” (os povos vencerão o imperialismo e a repressão), a acompanhar um punho que destrói um tanque, imagem criada pelo Atelier Populaire da antiga École des Beaux-Arts para fazer eco das lutas internacionais e nacionais da época.
2018 foi o quinto ano d’As Toupeiras, assinalado pelo Público com uma reportagem que para muitos desvendou finalmente a origem do grupo de quatro amigas que um dia decidiram que gostariam de animar a manifestação da Avenida. “Eram os 40 anos da Revolução e parecia-nos que a Esquerda andava um pouco cabisbaixa e a precisar de se lhe levantar o moral”, explicava então Piedade Gralha. “Foi o que procurámos fazer em 2014: trazer a Esquerda à rua e lembrar que a Esquerda tem muito para dar e que deu muito.”
Além da professora de História, o quarteto era composto pelas artistas plásticas Bárbara Assis Pacheco e Margarida e Teresa Dias Coelho, todas com “o coração a bater à Esquerda”. Se no livro O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, Marx escreve “bem escavado, velha toupeira”, sendo a “velha toupeira” a revolução, durante dez anos desceu-se a Avenida a cantar Zeca Afonso: “Eu vou ser como a toupeira / Que esburaca.”
Nesse quinto ano, a faixa congratulava-se com a luta das mulheres de uma conhecida marca de lingerie (“Viva o triumph das operárias”) e os cartazes assinalavam várias efemérides, sem esquecer a atualidade. Tanto se lia “Trump: não há mísseis ‘nice’”, como “A habitação é uma necessidade, não um lucro” ou “Os nossos sonhos não cabem nos vossos boletins de voto”.
Em 2024, ano em que a democracia fez 50 anos, As Toupeiras lembraram que “Foram dias, foram anos a esperar por um só dia” (Manuel Alegre), acreditando que “Isto vai, meus amigos, isto vai / Um passo atrás são sempre dois em frente” (Ary dos Santos). E escreveram a vermelho as derradeiras palavras de ordem (Resistência / Luta / Inquietação), prometendo continuar a cuidar da liberdade nos bastidores. Como dizia Bertolt Brecht: “Quem luta pode perder. Quem não luta já perdeu.”