O XADREZ E A POLÍTICA
Alfonso X, o Papa Leão XIII, Ivan o Terrível, o Rei Eduardo I, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Napoleão, Karl Marx, Lenine, Ernesto “Che” Guevara, Fidel Castro, Jimmy Carter – todos eles gostavam de jogar xadrez. É verdade, estou de facto a saltar para o mundo da política, uma área em que a omnipresença do xadrez é fortemente sentida.
Benjamin Franklin, um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos, foi também um dos primeiros políticos a escrever sobre xadrez. No seu curto ensaio de 1786 intitulado The Morals of Chess, sublinhou que o xadrez é mais do que um divertimento ocioso: “Várias qualidades muito valiosas do espírito, úteis no curso da vida humana, são adquiridas ou reforçadas por ele, de modo a tornarem-se hábitos, prontas para todas as situações.”
Em certa ocasião, Franklin usou o xadrez como desculpa para as suas manobras. Em dezembro de 1774, no período da rebelião dos líderes coloniais britânicos separatistas que em breve desencadeariam a Revolução Americana, encontrou-se diversas vezes com Caroline Howe, irmã do Almirante Richard Howe e do General William Howe. Os dois irmãos tornar-se-iam mais tarde comandantes das forças navais e terrestres britânicas durante a Guerra Revolucionária Americana, mas então ainda simpatizavam um tanto com a causa americana. Franklin jogava xadrez com a Senhora Howe, mas esses encontros eram também para ele uma oportunidade de se encontrar com o Richard, um dos irmãos dela, e debater maneiras possíveis de conciliar o Congresso Continental e as Treze Colónias.

Franklin era um fanático, mas, entre os políticos, Che Guevara era o maior amante de xadrez deles todos. Em rapaz, o pai levou-o às Olimpíadas de Xadrez de Buenos Aires, em 1939, onde Che viu o grande [José Raúl] Capablanca, se interessou por Cuba, e contraiu a febre do xadrez. Mais tarde chamaria ao xadrez “mi segunda novia” [a minha segunda namorada]. Che e Fidel Castro jogavam xadrez para matar o tempo enquanto estiveram presos no México, e, depois da revolução, no seu papel de ministro da Indústria, Che começou a promover o xadrez. Assegurou-se de que Cuba estava representada na Olimpíada de Xadrez de Leipzig, em 1960, e lançou um torneio local de equipas.
O mais significativo legado xadrezista do Che foi ter estabelecido em Havana o Memorial Capablanca anual, que ainda hoje se celebra. Nos primeiros anos, muitos grandes mestres de primeira ordem, soviéticos e europeus, participaram nessa competição, visto que o prémio pecuniário era mais alto do que em muitos outros torneios. Calculo que tenha contribuído para isso que Che fosse ao mesmo tempo ministro da Indústria e diretor do Banco Nacional. Ele e Castro foram visitas diárias no torneio inaugural de 1962 no Hotel Habana Libre, e ambos participaram em exibições simultâneas contra alguns dos grandes mestres visitantes. (Nesta velha tradição, um jogador forte joga simultaneamente contra múltiplos adversários amadores. Enquanto o especialista anda de mesa em mesa, os adversários têm de fazer a sua jogada quando o profissional chega ao tabuleiro deles.)
O Che teve uma influência duradoura no xadrez em Cuba. Durante décadas foi o país latino-americano mais forte em xadrez, só recentemente ultrapassado pelo Brasil e pelo Peru. Quando visitei Cuba em fevereiro de 2016, o amor pelo xadrez ainda era reconhecível. Fiquei surpreendido ao ver um dos principais clubes de xadrez, a Academia de Xadrez, situada no coração de Santiago de Cuba, num prédio mesmo ao lado da catedral e do Parque Céspedes. E, é claro, joguei com alguns dos jogadores de rua, enfrentando forte oposição. Diz um velho ditado que qualquer motorista de táxi russo é um jogador temível. Eu penso que em Cuba todos os condutores de carros clássicos sabem jogar xadrez.
Um dos participantes no torneio do Memorial Capablanca foi um Bobby Fischer de 22 anos. O futuro campeão do mundo, no entanto, jogou sem viajar a Cuba. Devido às tensas relações diplomáticas com os EUA, Fischer não foi autorizado a lá ir, mas os organizadores encontraram uma solução. Em vez disso, jogou no Clube de Xadrez Marshall de Nova Iorque, com as suas jogadas transmitidas a Havana por telex. Tanto o futuro campeão do mundo como os seus adversários em Cuba estavam sentados defronte de cadeiras vazias, recebendo dos árbitros os movimentos dos adversários. Quando Castro, diz-se, chamou a essa notável construção uma “vitória propagandística de Cuba”, Fischer enviou um telegrama que exigia que o líder cubano deixasse de o usar para fins políticos. Na sua resposta, Fidel negou ter feito alguma vez tal declaração e questionou a coragem de Fischer, depois do que Fischer decidiu evitar mais turbulência e limitar-se a disputar o torneio.
Depois de Fischer se ter qualificado para o Campeonato Mundial de 1972, o Presidente Nixon escreveu uma carta a dizer que o país inteiro o apoiava. No entanto, o jogo esteve para não acontecer. Um Fischer casmurro não aceitou as condições iniciais nem a localização (Reiquiavique, Islândia) e continuou a protestar, principalmente a respeito das combinações financeiras. Na cerimónia de abertura no sábado, 1 de julho, a primeira fila tinha um assento vazio visto que Fischer ainda não tinha chegado a Reiquiavique. Uma das coisas que convenceram Fischer a jogar foi que James Slater, um banqueiro de investimento bem-sucedido e amante do xadrez, doou 125 mil dólares para duplicar o prémio até 250 mil dólares. Outra, foi um famigerado telefonema.

Quando Fischer levantou o telefone, na segunda-feira, 3 de julho, quem estava do outro lado era nada menos do que Henry Kissinger, Conselheiro Nacional de Segurança de Nixon e futuro Secretário de Estado. É costume dizer-se que as primeiras palavras de Kissinger foram estas: “Daqui fala o pior jogador de xadrez do mundo para falar com o melhor jogador do mundo.” Kissinger apontou-lhe que aquele match era necessário ao prestígio dos EUA e que Fischer devia disputá-lo. Nessa noite, Fischer apanhou um avião para Reiquiavique. No seu livro de 2011, On China, Kissinger voltou ao jogo de xadrez ao explicar as diferenças entre as estratégias políticas ocidental e chinesa recorrendo à comparação entre o xadrez e o wéiqí (Go). Inventado na China há cerca de 2 500 anos, o Go é ainda mais antigo do que o xadrez e ainda mais complexo. Joga-se numa grelha de 19 por 19, os jogadores têm 180 pedras cada um e revezam-se em pô-las numa das 361 interseções da grelha. Depois de assim colocadas, as pedras não podem deslocar-se, mas podem ser capturadas quando cercadas pelas pedras do adversário. Kissinger observou: “Enquanto o xadrez é sobre uma batalha decisiva, o wéiqí trata de uma campanha prolongada. O jogador de xadrez visa a vitória total. O jogador de wéiqí procura vantagens relativas. No xadrez, o jogador tem sempre em conta a capacidade do jogador defronte dele; todas as peças estão completamente dispostas. O jogador de wéiqí precisa de não só avaliar as peças no tabuleiro, mas também os reforços que o adversário está em condições de utilizar.”
A localização do duelo Fischer-Spassky ficava – o que não era totalmente sem significado – justamente a meio caminho entre os EUA e a União Soviética. Estava-se no auge da Guerra Fria e o match podia facilmente ser visto como um combate simbólico entre o Ocidente capitalista e o Leste comunista, um ponto que os media não perdiam de vista. Em retrospetiva, tudo isto deve ser tomado com um grão de sal, ou seja, com alguma cautela. Spassky não era um indefetível patriota soviético como alguns dos seus colegas, enquanto o comportamento errático e às vezes desagradável de Fischer também não o tornava um representante perfeito do seu país. Além disso, aos mais altos níveis diplomáticos, os EUA e a Rússia não estavam propriamente a esfregar as mãos na expectativa de um recontro militar – talvez para eles o match fosse uma maneira melhor, mais pacífica, de lutar, como sugerira na antiga Índia o sábio Qaflān. A política é uma área que forneceu várias expressões xadrezistas à nossa linguagem. As mais comuns são: “xeque-mate”; uma entidade menor designada como mero “peão” num jogo maior; e um “empate” político. Mas há mais.
Richard Stengel, antigo secretário de Estado na administração Obama, editor na revista Time, analista político na estação MSNBC e autor de um livro de 2019 intitulado Information Wars, publicou no verão de 2024 um tweet a respeito de o Governador do Minnesota, Tim Walz, se ter tornado candidato a vice-presidente de Kamala Harris: “Fala americano, não Washington. É questão de biografia, não de ideologia. Ele é o epítome da americanidade normal, o oposto de esquisito. É uma jogada de xadrez, não de damas, e é uma boa jogada.” Há numerosos exemplos mais, mas gosto particularmente deste a seguir, da antiga Conselheira de Estado Aung San Suu Kyi, pouco após o seu partido Liga Nacional pela Democracia ter vencido as eleições de 2015 [na Birmânia]: “Se olharmos para o processo democrático como um jogo de xadrez, tem de haver muitos, muitos, lances até se chegar ao xeque-mate. E só porque não se faz xeque-mate em três jogadas não quer dizer que há um empate. Há uma grande diferença entre não fazer xeque-mate e um empate. É isto que é o processo democrático.” Um político que não deve ser referido na mesma frase em que se menciona o xadrez – pelo menos no que diz respeito a Garry Kasparov – é Vladimir Putin. Reformado como jogador de xadrez desde 2005, Kasparov é um feroz opositor do líder russo, e numa entrevista ao Der Spiegel, em 2015, proclamou: “Putin é mais um jogador de póquer. No póquer, diferentemente do xadrez, pode-se, com efeito, compensar uma mão fraca fazendo bluff. No xadrez há regras fixas e ninguém sabe como vai acabar o jogo. As coisas são o contrário nos domínios de Putin.”

Há muito que a política russa está profundamente entrelaçada com o xadrez. Deve notar-se que o xadrez já era bastante popular no grande império russo (que incluía partes da atual Polónia e os países bálticos), de onde surgiram grandes nomes como Mikhail Chigorin, Alexander Alekhine, Aron Nimzowitsch e Akiba Rubinstein. Depois da revolução de 1917, o jogo passou a ser um meio de propaganda para os bolcheviques, cujos líderes Vladimir Lenine, Leon Trotsky e Nikolai Krylenko eram todos jogadores de xadrez. Em 1935 e 1936 realizaram-se em Moscovo torneios luxuosos para mostrar ao mundo que na Rússia os grandes mestres eram tratados como reis. Quando a URSS bateu os Estados Unidos por grande margem num match por rádio em 1945, Estaline cumprimentou a sua equipa. O Estado soviético apoiou fortemente o ensino do xadrez a fim de criar os melhores jogadores do mundo, demonstrando assim a inteligência e a sofisticação do povo soviético. Entre 1995 e 2018, a Federação Internacional de Xadrez (FIDE) foi dirigida pelo excêntrico oligarca russo Kirsan Ilyumzhinov, também presidente da República da Calmúquia da Federação Russa, de 1993 a 2010. O mundo do xadrez lembra-se dele principalmente pelos seus laços de amizade com líderes duvidosos como Saddam Hussein, Muammar Gaddafi e Bashar al-Assad, pela sua afirmação de ter sido raptado por extraterrestres, e pelo alegado envolvimento da sua administração no assassinato de um jornalista em 1998, embora não haja provas disso.
Arkady Dvorkovich, antigo vice-primeiro-ministro e antigo assessor do Presidente da Federação Russa, sucedeu a Ilyumzhinov em 2018. Aos olhos das federações de xadrez ocidentais, especialmente, a presidência de Dvorkovich tornou-se problemática quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022. Dvorkovich, porém, foi reeleito em agosto de 2022 para um segundo mandato. Em dezembro de 2023, a FIDE votou pela abolição do limite de dois mandatos na presidência, uma medida de “boas práticas” introduzida pelo próprio Dvorkovich depois de a anunciar durante a sua campanha de 2018. Depois desta notável reviravolta de 180 graus, não se espera que a forte influência russa (do Kremlin?) no mundo do xadrez esteja perto de acabar.
O XADREZ E O DESPORTO
Num vídeo promocional produzido pela Puma em dezembro de 2023, Magnus Carlsen e o treinador de futebol Pep Guardiola conversaram sobre as semelhanças entre o xadrez e o futebol. Carlsen observou que os jogos são comparáveis, dizendo: “Tanto no xadrez como no futebol, o importante é controlar o meio-campo, aí está, portanto, uma coisa. Quem controla o meio-campo controla o terreno de jogo ou o tabuleiro. Outra coisa é que no xadrez muitas vezes atacamos num lado, forçamos o adversário a sobrecarregar esse lado e depois mudamos de lado e temos vantagem sobre o adversário em termos de espaço. É notavelmente parecido.”
Guardiola partilha o interesse pelo xadrez com os seus colegas treinadores Quique Setién e Felix Magath e jogadores do passado e do presente que incluem Edgar Davids, Harry Kane, Christian Pulisic, Mo Salah e Dani Olmo. Fãs do xadrez noutros desportos incluem Steve Davis (bilhar), Boris Becker, Daniil Medvedev, Andrey Rublev, Carlos Alcaraz (ténis), Kareem Abdul-Jabbar, Klay Thompson, Jaylen Brown, Victor Wembanyama (basquetebol), Charles Leclerc, Carlos Sainz, Mick Schumacher (Fórmula 1), John Urschel, Chidobe Awuzie (futebol americano) e Ravichandran Ashwin (cricket). Talvez não seja coincidência que o desporto que se diz ser mais parecido com o xadrez seja aquele em que possivelmente haja o maior número destes entusiastas: o pugilismo.
Lennox Lewis, três vezes campeão de pesos pesados, é fã do xadrez e ensinou a sua equipa de canto a jogar. Os irmãos ucranianos Vitali e Wladimir Klitschko, que acumulam 40 combates vitoriosos na luta pelo título mundial de pesos pesados, também gostam muito de jogar xadrez, o que é também o caso de Manny Pacquiao, Anthony Joshua e os lutadores de MMA Conor McGregor e Aljamain Sterling. Como os seus colegas, Lewis disse que usava o xadrez para se “manter mentalmente aguçado” quando, por exemplo, estava a treinar para a “Batalha de Titãs” de 2003 contra Vitali Klitschko, que comentou antes do combate: “Primeiro venço Lewis no tabuleiro de xadrez e depois encontramo-nos no ringue.” No fim, foi Lewis quem ganhou por KO técnico.

Já agora, a propósito, sabiam que existe o chessboxing? Já tem havido pessoas a jogar xadrez penduradas num paraquedas ou enquanto tomam banho num lago de água gélida; portanto, pôr um tabuleiro e peças num ringue de boxe talvez não seja uma grande maluqueira. No fim de contas, estamos a lidar com outra confrontação entre duas pessoas em que é peça-chave a antecipação dos movimentos do opositor. Funciona como segue: os dois competidores, razoavelmente treinados em ambas as disciplinas, jogam alternadamente rondas de boxe e de xadrez até alguém ganhar por KO ou xeque-mate (ou se o tempo do adversário se esgotar).
Estive presente, por acaso, na primeira competição oficial da modalidade, em 14 de novembro de 2003, montada pela Organização Mundial de Chess Boxing (WCBO) em Paradiso, Amesterdão, entre Luis, o Advogado (Jean-Louis Veenstra) e Iepe, o Joker (Iepe Rubingh). Este último ganhou quando o seu opositor perdeu em tempo tendo uma posição ganhadora. Rubingh, o principal organizador do evento principal, era um artista conceptual holandês que infelizmente morreu em 2020, com 45 anos de idade. A história do chessboxing remonta até ainda mais longe: surgiu em 1979, no filme de kung-fu Mystery of Chess Boxing, de Joseph Kuo (em que se joga o xadrez chinês, xiangqi) a que a banda Wu-Tang Clan se referia na sua canção de 1993 Da Mystery of Chessboxin.
Em 11 de dezembro de 2022, o chessboxing encontrou-se outra vez debaixo dos holofotes quando o popular youtuber Ludwig Ahgren organizou o Campeonato Mogul de Chessboxing. Doze dos maiores criadores de conteúdos no YouTube e no Twitch, todos com um interesse no xadrez, subiram para o ringue perante dez mil fãs no Galen Centre de Los Angeles e 558 mil espectadores online, que tiveram direito aos comentários de Levy Rozman, do campeão mundial de chessboxing Matt Thomas, e do próprio Ludwig. O grande mestre Aman Hambleton ganhou o embate entre os especialistas em xadrez batendo o mestre internacional Lawrence Trent com um KO técnico.
(…) O filósofo e documentarista britânico David Edmonds descreve assim este desporto no BBC News Magazine: “Associar xadrez e boxe parece uma coisa muito estranha, mas eles têm algo em comum. Um é um duelo muitas vezes caracterizado pela sua crueldade, impiedade e violência. E o boxe é muito parecido.”
O XADREZ E O GRANDE ECRÃ
(…) A cena de xadrez do filme de Stanley Kubrick 2001: Odisseia no Espaço, de 1968, é altamente simbólica. Neste que é um dos maiores e mais influentes filmes de ficção científica alguma vez feitos, vemos o Dr. Frank Poole, um dos pilotos da nave espacial Discovery One rumo a Júpiter, a jogar xadrez com o computador de bordo HAL 9000. Frank joga num tabuleiro com as peças em duas dimensões num ecrã que se assemelha a um iPad. Não tem qualquer hipótese contra este computador do futuro. Depois de Frank se resignar ao inevitável e deitar a toalha ao chão, HAL diz: “Obrigado por um jogo muito agradável.” Irritantemente, o computador não só é imbatível, mostrando que é capaz da mais pura forma de intelecto humano, mas também se parece a um ser humano. Examinaremos mais de perto o xadrez e a Inteligência Artificial na segunda parte deste livro.
Que Kubrick usasse o xadrez neste filme não foi surpreendente: era um amante do xadrez desde sempre. Em adolescente, era fácil vê-lo a jogar a dinheiro no Central Park ou na Washington Square de Nova Iorque, ou até nos torneios do Clube de Xadrez Marshall, em Greenwich Village. Kubrick também incluiu cenas de xadrez no seu filme de 1956 Roubo no Hipódromo, e até em Lolita (1962), embora essas cenas não fizessem parte do livro de Nabokov, outro amante do xadrez.

Kubrick também era conhecido por jogar xadrez, às vezes, nos intervalos das filmagens. Como Adam Feinstein escreveu na revista New in Chess, durante a rodagem de 2001, Kubrick jogou muitas partidas com o físico americano Jeremy Bernstein no Hotel Dorchester de Londres. Bernstein lembra-se de Kubrick como um verdadeiro trapaceiro: “Chegámos, finalmente, ao 25º jogo e ficou combinado que seria esse a decidir a questão. Bem entrado o jogo, ele teve um lance que eu tive a certeza que o faria perder. Até se agarrou à barriga para mostrar como aquilo o incomodava. Mas era uma armadilha e fui prontamente arrasado. ‘O que você não sabia é que eu também sou capaz de representar’, observou ele.”
Entre os muitos atores de Hollywood amantes do xadrez (como Marlon Brando, Jane Fonda, Laurence Fishburne, Robin Williams, Susan Sarandon, Arnold Schwarzenegger, Ben Affleck, Matt Damon, Rami Malek e Viola Davis, para referir apenas alguns deles), o mais fanático e talvez melhor jogador era Humphrey Bogart. Antes da sua carreira de ator (e assim como Kubrick), Bogart convencia adversários a jogar com ele por pequenas somas nos parques de Nova Iorque e em Coney Island. Bogart tinha sido diretor de torneios, teve papel ativo na Associação de Xadrez do Estado da Califórnia e visitava com frequência o clube de xadrez de Hollywood. Chegou mesmo, em 1952, a levar a um empate o grande mestre de classe internacional Samuel Reshevsky, numa exibição coletiva em Beverly Hills.
Não é por acaso que vemos Bogart defronte de um tabuleiro de xadrez em Casablanca (1942), muito embora não fizesse parte do guião original. O filme húngaro de 2018, Curtiz, baseado na feitura de Casablanca, pelo realizador Michael Curtiz, forneceu uma explicação interessante: Bogart não sabia o que fazer às mãos nas cenas em que estava sentado e a falar, de modo que sugeriu que usassem um tabuleiro de xadrez. Colocou ele as peças na posição de um jogo por correspondência que estava a jogar. Dado que Curtiz concordou, encontramos o xadrez a fazer parte de um dos mais famosos filmes de sempre.
O LIVRO

A Revolução no Xadrez – O Poder de um Jogo Antigo na Era Digital, de Peter Doggers (Dom Quixote, 456 págs., €22,90), mostra como o xadrez, inventado há mais de 1 500 anos, conhece hoje uma popularidade e uma relevância crescentes. A internet, que possibilita partidas entre jogadores de todo o mundo a cada instante, teve uma grande responsabilidade nesse sucesso




