O XADREZ E A POLÍTICA

Alfonso X, o Papa Leão XIII, Ivan o Terrível, o Rei Eduardo I, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Napoleão, Karl Marx, Lenine, Ernesto “Che” Guevara, Fidel Castro, Jimmy Carter – todos eles gostavam de jogar xadrez. É verdade, estou de facto a saltar para o mundo da política, uma área em que a omnipresença do xadrez é fortemente sentida.

Benjamin Franklin, um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos, foi também um dos primeiros políticos a escrever sobre xadrez. No seu curto ensaio de 1786 intitulado The Morals of Chess, sublinhou que o xadrez é mais do que um divertimento ocioso: “Várias qualidades muito valiosas do espírito, úteis no curso da vida humana, são adquiridas ou reforçadas por ele, de modo a tornarem-se hábitos, prontas para todas as situações.”

Em certa ocasião, Franklin usou o xadrez como desculpa para as suas manobras. Em dezembro de 1774, no período da rebelião dos líderes coloniais britânicos separatistas que em breve desencadeariam a Revolução Americana, encontrou-se diversas vezes com Caroline Howe, irmã do Almirante Richard Howe e do General William Howe. Os dois irmãos tornar-se-iam mais tarde comandantes das forças navais e terrestres britânicas durante a Guerra Revolucionária Americana, mas então ainda simpatizavam um tanto com a causa americana. Franklin jogava xadrez com a Senhora Howe, mas esses encontros eram também para ele uma oportunidade de se encontrar com o Richard, um dos irmãos dela, e debater maneiras possíveis de conciliar o Congresso Continental e as Treze Colónias.

O grande duelo O jogo de xadrez mais célebre de sempre foi recriado no filme O Prodígio, de 2014. Na Islândia, no contexto da Guerra Fria, o russo Boris Spassky (em baixo à dir.) foi desafiado pelo excêntrico americano Bobby Fischer (esq.)

Franklin era um fanático, mas, entre os políticos, Che Guevara era o maior amante de xadrez deles todos. Em rapaz, o pai levou-o às Olimpíadas de Xadrez de Buenos Aires, em 1939, onde Che viu o grande [José Raúl] Capablanca, se interessou por Cuba, e contraiu a febre do xadrez. Mais tarde chamaria ao xadrez “mi segunda novia” [a minha segunda namorada]. Che e Fidel Castro jogavam xadrez para matar o tempo enquanto estiveram presos no México, e, depois da revolução, no seu papel de ministro da Indústria, Che começou a promover o xadrez. Assegurou-se de que Cuba estava representada na Olimpíada de Xadrez de Leipzig, em 1960, e lançou um torneio local de equipas.

O mais significativo legado xadrezista do Che foi ter estabelecido em Havana o Memorial Capablanca anual, que ainda hoje se celebra. Nos primeiros anos, muitos grandes mestres de primeira ordem, soviéticos e europeus, participaram nessa competição, visto que o prémio pecuniário era mais alto do que em muitos outros torneios. Calculo que tenha contribuído para isso que Che fosse ao mesmo tempo ministro da Indústria e diretor do Banco Nacional. Ele e Castro foram visitas diárias no torneio inaugural de 1962 no Hotel Habana Libre, e ambos participaram em exibições simultâneas contra alguns dos grandes mestres visitantes. (Nesta velha tradição, um jogador forte joga simultaneamente contra múltiplos adversários amadores. Enquanto o especialista anda de mesa em mesa, os adversários têm de fazer a sua jogada quando o profissional chega ao tabuleiro deles.)

O Che teve uma influência duradoura no xadrez em Cuba. Durante décadas foi o país latino-americano mais forte em xadrez, só recentemente ultrapassado pelo Brasil e pelo Peru. Quando visitei Cuba em fevereiro de 2016, o amor pelo xadrez ainda era reconhecível. Fiquei surpreendido ao ver um dos principais clubes de xadrez, a Academia de Xadrez, situada no coração de Santiago de Cuba, num prédio mesmo ao lado da catedral e do Parque Céspedes. E, é claro, joguei com alguns dos jogadores de rua, enfrentando forte oposição. Diz um velho ditado que qualquer motorista de táxi russo é um jogador temível. Eu penso que em Cuba todos os condutores de carros clássicos sabem jogar xadrez.

Um dos participantes no torneio do Memorial Capablanca foi um Bobby Fischer de 22 anos. O futuro campeão do mundo, no entanto, jogou sem viajar a Cuba. Devido às tensas relações diplomáticas com os EUA, Fischer não foi autorizado a lá ir, mas os organizadores encontraram uma solução. Em vez disso, jogou no Clube de Xadrez Marshall de Nova Iorque, com as suas jogadas transmitidas a Havana por telex. Tanto o futuro campeão do mundo como os seus adversários em Cuba estavam sentados defronte de cadeiras vazias, recebendo dos árbitros os movimentos dos adversários. Quando Castro, diz-se, chamou a essa notável construção uma “vitória propagandística de Cuba”, Fischer enviou um telegrama que exigia que o líder cubano deixasse de o usar para fins políticos. Na sua resposta, Fidel negou ter feito alguma vez tal declaração e questionou a coragem de Fischer, depois do que Fischer decidiu evitar mais turbulência e limitar-se a disputar o torneio.

Depois de Fischer se ter qualificado para o Campeonato Mundial de 1972, o Presidente Nixon escreveu uma carta a dizer que o país inteiro o apoiava. No entanto, o jogo esteve para não acontecer. Um Fischer casmurro não aceitou as condições iniciais nem a localização (Reiquiavique, Islândia) e continuou a protestar, principalmente a respeito das combinações financeiras. Na cerimónia de abertura no sábado, 1 de julho, a primeira fila tinha um assento vazio visto que Fischer ainda não tinha chegado a Reiquiavique. Uma das coisas que convenceram Fischer a jogar foi que James Slater, um banqueiro de investimento bem-sucedido e amante do xadrez, doou 125 mil dólares para duplicar o prémio até 250 mil dólares. Outra, foi um famigerado telefonema.

Pep e Magnus A marca desportiva Puma juntou, em 2023, o treinador Pep Guardiola com o ex-campeão do mundo de xadrez Magnus Carlsen, que conversaram sobre as semelhanças entre o futebol e o milenar jogo de tabuleiro

Quando Fischer levantou o telefone, na segunda-feira, 3 de julho, quem estava do outro lado era nada menos do que Henry Kissinger, Conselheiro Nacional de Segurança de Nixon e futuro Secretário de Estado. É costume dizer-se que as primeiras palavras de Kissinger foram estas: “Daqui fala o pior jogador de xadrez do mundo para falar com o melhor jogador do mundo.” Kissinger apontou-lhe que aquele match era necessário ao prestígio dos EUA e que Fischer devia disputá-lo. Nessa noite, Fischer apanhou um avião para Reiquiavique. No seu livro de 2011, On China, Kissinger voltou ao jogo de xadrez ao explicar as diferenças entre as estratégias políticas ocidental e chinesa recorrendo à comparação entre o xadrez e o wéiqí (Go). Inventado na China há cerca de 2 500 anos, o Go é ainda mais antigo do que o xadrez e ainda mais complexo. Joga-se numa grelha de 19 por 19, os jogadores têm 180 pedras cada um e revezam-se em pô-las numa das 361 interseções da grelha. Depois de assim colocadas, as pedras não podem deslocar-se, mas podem ser capturadas quando cercadas pelas pedras do adversário. Kissinger observou: “Enquanto o xadrez é sobre uma batalha decisiva, o wéiqí trata de uma campanha prolongada. O jogador de xadrez visa a vitória total. O jogador de wéiqí procura vantagens relativas. No xadrez, o jogador tem sempre em conta a capacidade do jogador defronte dele; todas as peças estão completamente dispostas. O jogador de wéiqí precisa de não só avaliar as peças no tabuleiro, mas também os reforços que o adversário está em condições de utilizar.”

A localização do duelo Fischer-Spassky ficava – o que não era totalmente sem significado – justamente a meio caminho entre os EUA e a União Soviética. Estava-se no auge da Guerra Fria e o match podia facilmente ser visto como um combate simbólico entre o Ocidente capitalista e o Leste comunista, um ponto que os media não perdiam de vista. Em retrospetiva, tudo isto deve ser tomado com um grão de sal, ou seja, com alguma cautela. Spassky não era um indefetível patriota soviético como alguns dos seus colegas, enquanto o comportamento errático e às vezes desagradável de Fischer também não o tornava um representante perfeito do seu país. Além disso, aos mais altos níveis diplomáticos, os EUA e a Rússia não estavam propriamente a esfregar as mãos na expectativa de um recontro militar – talvez para eles o match fosse uma maneira melhor, mais pacífica, de lutar, como sugerira na antiga Índia o sábio Qaflān. A política é uma área que forneceu várias expressões xadrezistas à nossa linguagem. As mais comuns são: “xeque-mate”; uma entidade menor designada como mero “peão” num jogo maior; e um “empate” político. Mas há mais.

Richard Stengel, antigo secretário de Estado na administração Obama, editor na revista Time, analista político na estação MSNBC e autor de um livro de 2019 intitulado Information Wars, publicou no verão de 2024 um tweet a respeito de o Governador do Minnesota, Tim Walz, se ter tornado candidato a vice-presidente de Kamala Harris: “Fala americano, não Washington. É questão de biografia, não de ideologia. Ele é o epítome da americanidade normal, o oposto de esquisito. É uma jogada de xadrez, não de damas, e é uma boa jogada.” Há numerosos exemplos mais, mas gosto particularmente deste a seguir, da antiga Conselheira de Estado Aung San Suu Kyi, pouco após o seu partido Liga Nacional pela Democracia ter vencido as eleições de 2015 [na Birmânia]: “Se olharmos para o processo democrático como um jogo de xadrez, tem de haver muitos, muitos, lances até se chegar ao xeque-mate. E só porque não se faz xeque-mate em três jogadas não quer dizer que há um empate. Há uma grande diferença entre não fazer xeque-mate e um empate. É isto que é o processo democrático.” Um político que não deve ser referido na mesma frase em que se menciona o xadrez – pelo menos no que diz respeito a Garry Kasparov – é Vladimir Putin. Reformado como jogador de xadrez desde 2005, Kasparov é um feroz opositor do líder russo, e numa entrevista ao Der Spiegel, em 2015, proclamou: “Putin é mais um jogador de póquer. No póquer, diferentemente do xadrez, pode-se, com efeito, compensar uma mão fraca fazendo bluff. No xadrez há regras fixas e ninguém sabe como vai acabar o jogo. As coisas são o contrário nos domínios de Putin.”

Che, a lenda Entre os grandes políticos mundiais, Che Guevara era o maior amante de xadrez. Este selo cubano destaca essa sua faceta

Há muito que a política russa está profundamente entrelaçada com o xadrez. Deve notar-se que o xadrez já era bastante popular no grande império russo (que incluía partes da atual Polónia e os países bálticos), de onde surgiram grandes nomes como Mikhail Chigorin, Alexander Alekhine, Aron Nimzowitsch e Akiba Rubinstein. Depois da revolução de 1917, o jogo passou a ser um meio de propaganda para os bolcheviques, cujos líderes Vladimir Lenine, Leon Trotsky e Nikolai Krylenko eram todos jogadores de xadrez. Em 1935 e 1936 realizaram-se em Moscovo torneios luxuosos para mostrar ao mundo que na Rússia os grandes mestres eram tratados como reis. Quando a URSS bateu os Estados Unidos por grande margem num match por rádio em 1945, Estaline cumprimentou a sua equipa. O Estado soviético apoiou fortemente o ensino do xadrez a fim de criar os melhores jogadores do mundo, demonstrando assim a inteligência e a sofisticação do povo soviético. Entre 1995 e 2018, a Federação Internacional de Xadrez (FIDE) foi dirigida pelo excêntrico oligarca russo Kirsan Ilyumzhinov, também presidente da República da Calmúquia da Federação Russa, de 1993 a 2010. O mundo do xadrez lembra-se dele principalmente pelos seus laços de amizade com líderes duvidosos como Saddam Hussein, Muammar Gaddafi e Bashar al-Assad, pela sua afirmação de ter sido raptado por extraterrestres, e pelo alegado envolvimento da sua administração no assassinato de um jornalista em 1998, embora não haja provas disso.

Arkady Dvorkovich, antigo vice-primeiro-ministro e antigo assessor do Presidente da Federação Russa, sucedeu a Ilyumzhinov em 2018. Aos olhos das federações de xadrez ocidentais, especialmente, a presidência de Dvorkovich tornou-se problemática quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022. Dvorkovich, porém, foi reeleito em agosto de 2022 para um segundo mandato. Em dezembro de 2023, a FIDE votou pela abolição do limite de dois mandatos na presidência, uma medida de “boas práticas” introduzida pelo próprio Dvorkovich depois de a anunciar durante a sua campanha de 2018. Depois desta notável reviravolta de 180 graus, não se espera que a forte influência russa (do Kremlin?) no mundo do xadrez esteja perto de acabar.

O XADREZ E O DESPORTO

Num vídeo promocional produzido pela Puma em dezembro de 2023, Magnus Carlsen e o treinador de futebol Pep Guardiola conversaram sobre as semelhanças entre o xadrez e o futebol. Carlsen observou que os jogos são comparáveis, dizendo: “Tanto no xadrez como no futebol, o importante é controlar o meio-campo, aí está, portanto, uma coisa. Quem controla o meio-campo controla o terreno de jogo ou o tabuleiro. Outra coisa é que no xadrez muitas vezes atacamos num lado, forçamos o adversário a sobrecarregar esse lado e depois mudamos de lado e temos vantagem sobre o adversário em termos de espaço. É notavelmente parecido.”

Guardiola partilha o interesse pelo xadrez com os seus colegas treinadores Quique Setién e Felix Magath e jogadores do passado e do presente que incluem Edgar Davids, Harry Kane, Christian Pulisic, Mo Salah e Dani Olmo. Fãs do xadrez noutros desportos incluem Steve Davis (bilhar), Boris Becker, Daniil Medvedev, Andrey Rublev, Carlos Alcaraz (ténis), Kareem Abdul-Jabbar, Klay Thompson, Jaylen Brown, Victor Wembanyama (basquetebol), Charles Leclerc, Carlos Sainz, Mick Schumacher (Fórmula 1), John Urschel, Chidobe Awuzie (futebol americano) e Ravichandran Ashwin (cricket). Talvez não seja coincidência que o desporto que se diz ser mais parecido com o xadrez seja aquele em que possivelmente haja o maior número destes entusiastas: o pugilismo.

Lennox Lewis, três vezes campeão de pesos pesados, é fã do xadrez e ensinou a sua equipa de canto a jogar. Os irmãos ucranianos Vitali e Wladimir Klitschko, que acumulam 40 combates vitoriosos na luta pelo título mundial de pesos pesados, também gostam muito de jogar xadrez, o que é também o caso de Manny Pacquiao, Anthony Joshua e os lutadores de MMA Conor McGregor e Aljamain Sterling. Como os seus colegas, Lewis disse que usava o xadrez para se “manter mentalmente aguçado” quando, por exemplo, estava a treinar para a “Batalha de Titãs” de 2003 contra Vitali Klitschko, que comentou antes do combate: “Primeiro venço Lewis no tabuleiro de xadrez e depois encontramo-nos no ringue.” No fim, foi Lewis quem ganhou por KO técnico.

Casablanca e 2001, Odisseia no Espaço Dois clássicos da história do cinema com protagonistas que não dispensam o tabuleiro de xadrez – no caso do filme de ficção científica, antecipando os atuais iPads

Já agora, a propósito, sabiam que existe o chessboxing? Já tem havido pessoas a jogar xadrez penduradas num paraquedas ou enquanto tomam banho num lago de água gélida; portanto, pôr um tabuleiro e peças num ringue de boxe talvez não seja uma grande maluqueira. No fim de contas, estamos a lidar com outra confrontação entre duas pessoas em que é peça-chave a antecipação dos movimentos do opositor. Funciona como segue: os dois competidores, razoavelmente treinados em ambas as disciplinas, jogam alternadamente rondas de boxe e de xadrez até alguém ganhar por KO ou xeque-mate (ou se o tempo do adversário se esgotar).

Estive presente, por acaso, na primeira competição oficial da modalidade, em 14 de novembro de 2003, montada pela Organização Mundial de Chess Boxing (WCBO) em Paradiso, Amesterdão, entre Luis, o Advogado (Jean-Louis Veenstra) e Iepe, o Joker (Iepe Rubingh). Este último ganhou quando o seu opositor perdeu em tempo tendo uma posição ganhadora. Rubingh, o principal organizador do evento principal, era um artista conceptual holandês que infelizmente morreu em 2020, com 45 anos de idade. A história do chessboxing remonta até ainda mais longe: surgiu em 1979, no filme de kung-fu Mystery of Chess Boxing, de Joseph Kuo (em que se joga o xadrez chinês, xiangqi) a que a banda Wu-Tang Clan se referia na sua canção de 1993 Da Mystery of Chessboxin.

Em 11 de dezembro de 2022, o chessboxing encontrou-se outra vez debaixo dos holofotes quando o popular youtuber Ludwig Ahgren organizou o Campeonato Mogul de Chessboxing. Doze dos maiores criadores de conteúdos no YouTube e no Twitch, todos com um interesse no xadrez, subiram para o ringue perante dez mil fãs no Galen Centre de Los Angeles e 558 mil espectadores online, que tiveram direito aos comentários de Levy Rozman, do campeão mundial de chessboxing Matt Thomas, e do próprio Ludwig. O grande mestre Aman Hambleton ganhou o embate entre os especialistas em xadrez batendo o mestre internacional Lawrence Trent com um KO técnico.

(…) O filósofo e documentarista britânico David Edmonds descreve assim este desporto no BBC News Magazine: “Associar xadrez e boxe parece uma coisa muito estranha, mas eles têm algo em comum. Um é um duelo muitas vezes caracterizado pela sua crueldade, impiedade e violência. E o boxe é muito parecido.”

O XADREZ E O GRANDE ECRÃ

(…) A cena de xadrez do filme de Stanley Kubrick 2001: Odisseia no Espaço, de 1968, é altamente simbólica. Neste que é um dos maiores e mais influentes filmes de ficção científica alguma vez feitos, vemos o Dr. Frank Poole, um dos pilotos da nave espacial Discovery One rumo a Júpiter, a jogar xadrez com o computador de bordo HAL 9000. Frank joga num tabuleiro com as peças em duas dimensões num ecrã que se assemelha a um iPad. Não tem qualquer hipótese contra este computador do futuro. Depois de Frank se resignar ao inevitável e deitar a toalha ao chão, HAL diz: “Obrigado por um jogo muito agradável.” Irritantemente, o computador não só é imbatível, mostrando que é capaz da mais pura forma de intelecto humano, mas também se parece a um ser humano. Examinaremos mais de perto o xadrez e a Inteligência Artificial na segunda parte deste livro.

Que Kubrick usasse o xadrez neste filme não foi surpreendente: era um amante do xadrez desde sempre. Em adolescente, era fácil vê-lo a jogar a dinheiro no Central Park ou na Washington Square de Nova Iorque, ou até nos torneios do Clube de Xadrez Marshall, em Greenwich Village. Kubrick também incluiu cenas de xadrez no seu filme de 1956 Roubo no Hipódromo, e até em Lolita (1962), embora essas cenas não fizessem parte do livro de Nabokov, outro amante do xadrez.

Kubrick também era conhecido por jogar xadrez, às vezes, nos intervalos das filmagens. Como Adam Feinstein escreveu na revista New in Chess, durante a rodagem de 2001, Kubrick jogou muitas partidas com o físico americano Jeremy Bernstein no Hotel Dorchester de Londres. Bernstein lembra-se de Kubrick como um verdadeiro trapaceiro: “Chegámos, finalmente, ao 25º jogo e ficou combinado que seria esse a decidir a questão. Bem entrado o jogo, ele teve um lance que eu tive a certeza que o faria perder. Até se agarrou à barriga para mostrar como aquilo o incomodava. Mas era uma armadilha e fui prontamente arrasado. ‘O que você não sabia é que eu também sou capaz de representar’, observou ele.”

Entre os muitos atores de Hollywood amantes do xadrez (como Marlon Brando, Jane Fonda, Laurence Fishburne, Robin Williams, Susan Sarandon, Arnold Schwarzenegger, Ben Affleck, Matt Damon, Rami Malek e Viola Davis, para referir apenas alguns deles), o mais fanático e talvez melhor jogador era Humphrey Bogart. Antes da sua carreira de ator (e assim como Kubrick), Bogart convencia adversários a jogar com ele por pequenas somas nos parques de Nova Iorque e em Coney Island. Bogart tinha sido diretor de torneios, teve papel ativo na Associação de Xadrez do Estado da Califórnia e visitava com frequência o clube de xadrez de Hollywood. Chegou mesmo, em 1952, a levar a um empate o grande mestre de classe internacional Samuel Reshevsky, numa exibição coletiva em Beverly Hills.

Não é por acaso que vemos Bogart defronte de um tabuleiro de xadrez em Casablanca (1942), muito embora não fizesse parte do guião original. O filme húngaro de 2018, Curtiz, baseado na feitura de Casablanca, pelo realizador Michael Curtiz, forneceu uma explicação interessante: Bogart não sabia o que fazer às mãos nas cenas em que estava sentado e a falar, de modo que sugeriu que usassem um tabuleiro de xadrez. Colocou ele as peças na posição de um jogo por correspondência que estava a jogar. Dado que Curtiz concordou, encontramos o xadrez a fazer parte de um dos mais famosos filmes de sempre.

O LIVRO

A Revolução no Xadrez – O Poder de um Jogo Antigo na Era Digital, de Peter Doggers (Dom Quixote, 456 págs., €22,90), mostra como o xadrez, inventado há mais de 1 500 anos, conhece hoje uma popularidade e uma relevância crescentes. A internet, que possibilita partidas entre jogadores de todo o mundo a cada instante, teve uma grande responsabilidade nesse sucesso

Palavras-chave:

“O Egito está a propor ao [grupo islâmico] Hamas um acordo final e abrangente para acabar com a guerra e com garantias internacionais”, disse este sábado à agência de notícias espanhola EFE uma fonte de segurança do Egito, um dos principais mediadores entre o Hamas e Israel. O acordo visa uma trégua longa e inclui a garantia de que os combatentes do grupo islâmico não serão perseguidos, se o Hamas desistir do controlo da Faixa de Gaza.

A mesma fonte, que pediu anonimato, adiantou que “um acordo final está a ser formulado atualmente para um cessar-fogo e a libertação dos reféns” ainda mantidos pelo grupo islâmico. A proposta sobre a mesa “inclui um período de colocação em prática de um acordo que pode durar até 45 dias”.

O Hamas enviou este sábado, pela segunda vez em menos de uma semana, uma delegação de alto nível ao Cairo.

A pressão sobre o Hamas tem aumentado nas últimas semanas para que o grupo liberte os reféns, entregue suas armas e renuncie ao controlo de Gaza – que mantém desde 2007 – para acabar com a guerra que já matou mais de 51 mil habitantes daquele território desde outubro de 2023.

Na quinta-feira, o Conselho Ministerial da Liga Árabe, composto por 22 países, expressou o seu apoio à entrega do controlo da Faixa de Gaza ao governo da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), do presidente Mahmoud Abbas, afirmando que ele deve ser o único executivo que controla as armas e representa os palestinos perante a comunidade internacional.

No início do mês, o grupo islâmico rejeitou outra proposta de cessar-fogo em Gaza, na qual Israel insistiu no seu desarmamento, e disse que não estava “disposto a abrir mão das armas da resistência”.

A importância das mitocôndrias, essa espécie de pequenas baterias responsáveis pela produção da maior parte da energia química das células do nosso corpo, é uma verdade indisputável. O transplante de órgãos não é uma novidade para ninguém. Juntem-se estas duas certezas e temos a comunidade científica entusiasmada com todas as hipóteses que o transplante mitocondrial pode representar para a nossa saúde.

James McCully, professor de Cirurgia na Escola Médica de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos da América, é um dos investigadores que já têm resultados para apresentar.

Num ensaio clínico com dez bebés prematuros que tinham os músculos cardíacos danificados por isquemias (quando o fluxo de sangue e oxigénio é inadequado), McCully retirou um pequeno pedaço de tecido da parede abdominal de cada criança, partiu-o para libertar as mitocôndrias, separá-las de outros resíduos celulares numa centrifugadora e perfundi-las de novo no coração em insuficiência.

Esses bebés precisariam da assistência de uma máquina coração-pulmão para não morrerem – e, mesmo assim, só 60% sobreviveriam. Os resultados do ensaio, publicados há cerca de quatro anos, demonstram que a intervenção melhorou a taxa de sobrevivência para 80 por cento.

O facto de o procedimento ter envolvido apenas dez bebés doentes não permite afirmar que funciona – o grupo era tão pequeno que os resultados podem ter sido um mero acaso estatístico. Mas o ensaio sugeriu que se trata de uma técnica segura.

McCully e os seus colegas de equipa descobriram que a nova abordagem aumentou imediatamente a produção de moléculas de sinalização nos bebés (essenciais para a comunicação entre células e a regulação de processos biológicos), impedindo a inflamação e o suicídio celular.

Pouco tempo depois, os mesmos investigadores verificaram que as mitocôndrias perfundidas se fixaram no músculo cardíaco danificado, restaurando a sua função a longo prazo.

A FDA (Food and Drug Administration, a agência do medicamento norte-americana, que regula os ensaios clínicos) já está a avaliar a técnica. Se ela for aprovada, tudo indica que será alargada a outros tecidos afetados por isquemias, incluindo corações, pulmões e rins de adultos.

Função neurológica

Mightychondria, chamam-lhe num artigo recente da revista The Economist, jogando com o nome e a palavra “poderosas” (mighty, em inglês). Não se trata de exagero de jornalista.

A função mais conhecida das mitocôndrias é produzir uma substância química chamada ATP (adenosina trifosfato), essencialmente a moeda energética que alimenta quase tudo o que as células fazem. Mas as mitocôndrias são bem mais do que “centrais elétricas”.

Sozinhas, elas desempenham uma série de tarefas vitais, daí que, quando apresentam defeitos, acabam por provocar ou contribuir para várias doenças. O seu desgaste com a idade também pode levar a diabetes ou a problemas cardiovasculares.

Não admira, por isso, que cientistas um pouco por todo o mundo se tenham virado para o transplante de mitocôndrias.

Segundo o mesmo artigo, Lance Becker, do Instituto de Medicina Bioeletrónica do Instituto Feinstein, em Nova Iorque, EUA, planeia testar uma técnica semelhante à de James McCully também em bebés prematuros.

Substituir mitocôndrias danificadas por mitocôndrias totalmente novas é, aliás, algo que esse médico, reconhecido internacionalmente no campo da reanimação, anda a testar há alguns anos. Recentemente, demonstrou que o transplante mitocondrial pode melhorar a sobrevivência e os resultados neurológicos após uma paragem cardíaca.

Num estudo, publicado na revista BMC Medicine, em março de 2023, Becker analisou a capacidade e a eficácia do transplante de mitocôndrias num tubo de ensaio (in vivo) e os seus efeitos em modelos animais de ratinhos (in vitro).

Os resultados mostraram que os animais que receberam a infusão de novas mitocôndrias melhoraram a função neurológica e a sobrevivência, de 55% para 91%, após a paragem cardíaca e a reanimação.

“Quando o nosso corpo, cérebro e órgãos, não recebe oxigénio suficiente, quer seja após um ataque cardíaco ou de outra maneira, surgem complicações e a sobrevivência diminui”, lembrou, então, o investigador. “E o transplante de mitocôndrias poderá restaurar a função cerebral em pessoas após um grave ataque de privação de oxigénio com risco de vida.”

Em células de cancro

No final de 2024, foi a vez de Melanie Walker, professora de Cirurgia Neurológica na Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, em Seattle, EUA, publicar os resultados de uma experiência sobre um tipo de isquemia que provoca acidentes vasculares cerebrais.

Em dezembro do ano passado, no Journal of Cerebral Blood Flow & Metabolism, a médica e investigadora relatou o transplante de mitocôndrias que realizou em quatro pacientes, num ensaio conduzido sobretudo para verificar a segurança do tratamento.

A sua técnica envolveu a infusão de mitocôndrias no local do coágulo sanguíneo que induz a isquemia, como parte de um procedimento normal para remover o coágulo. Os primeiros indicadores de eficácia foram “promissores”, disse, então, Walker.

No futuro, a investigadora planeia conseguir impedir que os neurónios afetados pelo AVC se “suicidem”. Mas, entretanto, já avançou com outros ensaios. Um deles tem como objetivo restaurar a função dos neurónios lesionados por traumatismos físicos e não por acidentes vasculares cerebrais.

Numa fase anterior aos ensaios em humanos, já houve várias experiências com culturas de células e animais de laboratório a terem bons resultados.

Entre elas está o trabalho de Aybuke Celik, colega de McCully em Harvard, que tem investigado o efeito de mitocôndrias transplantadas em células de cancro da próstata e do ovário. A médica e investigadora descobriu que as novas mitocôndrias reduzem a quantidade de quimioterapia necessária para que essas células se matem, relatou na revista Biomedicine & Pharmacotherapy, em maio de 2023.

Mais um possível superpoder do transplante mitocondrial a que vale a pena estarmos atentos.

Doping indetetável

Atletas mais rápidos e durante mais tempo, graças ao transplante mitocondrial?

Já se demonstrou que as mitocôndrias podem ser transferidas de um tipo de músculo para outro, aumentando a quantidade de energia que uma célula produz e, por isso, a resistência e a potência. Num estudo realizado com ratinhos, em 2020, verificou-se que a injeção de mitocôndrias de animais mais jovens em animais mais velhos permitiu-lhes correr 50% mais tempo e 50% mais depressa.

O processo é relativamente fácil e as mitocôndrias são quase impossíveis de detetar depois de injetadas, lembrou James McCully, da Escola Médica de Harvard, durante a conferência anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Boston, EUA, em fevereiro. Acrescentou-se a suspeita de haver já atletas a experimentar para melhorar o seu desempenho.

“Recebo telefonemas constantes sobre isto. É fácil de fazer e os protocolos estão mesmo no nosso site”, contou o investigador aos jornalistas. “Estou a ver o transplante mitocondrial a ajudar muito as pessoas, especialmente em coisas relacionadas com a resistência.”

As chamadas começaram um ano antes dos Jogos Olímpicos de Paris, mas McCully não faz ideia de quem eram, porque os contactos foram feitos por telefone, sem registo em papel. Ainda segundo ele, as autoridades já estão a investigar este novo truque de dopagem que pode ajudar os atletas a correrem mais depressa e durante mais tempo.

Palavras-chave:

Segundo um novo balanço das autoridades iranianas, a explosão deixou mais de 700 pessoas feridas e há 18 mortes confirmadas.

A explosão deu origem a um grave incêndio e as imagens transmitidas pela televisão estatal iraniana mostram uma enorme nuvem negra sobre o porto, bem como cenas de pânico na zona. A violência da explosão danificou edifícios e carros na área envolvente, tendo sido ouvida a mais de 10 quilómetros de distância.

“É altamente provável que a explosão tenha tido origem num depósito de produtos perigosos e produtos químicos localizado na zona portuária”, disse a alfândega do porto de Shahid Rajai, em comunicado.

Por sua vez, o governador da província de Hormozgan, onde ocorreu o acidente, Mohammad Ashuri, disse que “a origem da explosão ainda é desconhecida”, mas apontou para alguns contentores sem dar mais explicações.

Shahid Rajai é um porto comercial e industrial em Bandar Abbas, capital da província de Hormozgan, cobrindo uma área superior a 2.400 hectares e com uma capacidade anual para movimentar mais de 88 milhões de toneladas de carga.

O caixão simples de madeira com o corpo de Jorge Mario Bergoglio (que renunciou à prática de séculos de o papa ser enterrado em três caixões interligados feitos de cipreste, chumbo e carvalho) foi depositado na Basílica de Santa Maria Maior (outra decisão que cortou o tradicional enterro na Basília de São Pedro), o local escolhido por si, num túmulo feito em mármore de origem da Ligúria, região no noroeste de Itália, apenas com a inscrição “FRANCISCUS”, o nome do Papa em latim, e a reprodução da sua cruz peitoral. Fica localizado numa das naves laterais da Basílica, entre a Capela Paulina (onde se encontra o ícone bizantino do século VI Salus Populi Romani, que retrata Maria com Jesus ao colo) e a Capela Sforza, junto ao altar de São Francisco.

O percurso da urna pela cidade de Roma, entre o Vaticano e a Basílica de Santa Maria Maior, teve cerca de seis quilómetros, passando por locais como a Praça Veneza, os Fóruns Imperiais e o Coliseu.

À chegada à Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, o caixão foi acolhido nas escadarias por um grupo de pessoas necessitadas.

Segundo informação da sala de imprensa do Vaticano, o grupo era constituído por cerca de 40 pessoas pobres e necessitadas, migrantes, presos e transgénero.

“Os pobres têm um lugar privilegiado no coração de Deus, bem como no coração e no ensinamento do Santo Padre, que escolheu o nome Francisco para nunca os esquecer”, segundo uma nota do Vaticano justificando a ação de hoje.

A preocupação com os mais pobres e os excluídos foram uma preocupação do pontificado do Papa Francisco, tendo hoje merecido uma referência especial na homilia da missa exequial presidida pelo cardeal Giovanni Battista Re.

Na Praça de São Pedro estiveram presentes vários líderes mundiais, incluindo presidentes dos EUA, França, Itália, Brasil, Argentina e Portugal, assim como os reis de Espanha. Também presentes para assistir ao funeral estiveram a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a presidente do Conselho Europeu, Ursula Von der Leyen, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e o antigo Presidente dos EUA Joe Biden.

Um total de 140 delegações estrangeiras chegaram à praça, onde cerca de 200 mil pessoas – 40 mil na praça e as restantes nos arredores – estiveram presentes para o funeral.

A capela mortuária do Papa Francisco na Basílica de São Pedro fechou na tarde de sexta-feira, depois de três dias em que 250 mil fiéis se despediram do pontífice, após o que o caixão foi fechado.

O Papa Francisco morreu na segunda-feira aos 88 anos, vítima de um acidente vascular cerebral.

À margem do funeral, os presidentes da Ucrânia e dos Estados Unidos tiveram uma breve reunião “muito produtiva”, segundo a Casa Branca.

“A reunião ocorreu e já terminou”, disse aos jornalistas o porta-voz presidencial ucraniano, Sergei Nykyforov, escusando-se a mais detalhes. Por seu lado, a Casa Branca disse que os dois chefes de estado tiveram uma reunião “muito produtiva”.

“O Presidente Trump e o Presidente Zelensky encontraram-se em privado e tiveram uma reunião muito produtiva”, disse o diretor de comunicação da Casa Branca, Steven Cheung, remetendo detalhes para mais tarde.

Segundo o porta-voz de Zelensky, Sergey Nikiforov, as equipas dos dois presidentes estão a tentar organizar ainda para este sábado um novo encontro entre os dois líderes.

Dezenas de chefes de Estado e de governo, bem como outros altos dirigentes, reuniram-se este sábado em Roma para participar no funeral do Papa Francisco, proporcionando diversos encontros e reuniões diplomáticas.

Na sexta-feira à noite, o presidente dos Estados Unidos deixou a garantia que a Rússia e a Ucrânia estavam “muito perto de um acordo”, embora sem revelar pormenores.

Já o seu homólogo russo Vladimir Putin, com quem vem desenvolvendo uma reaproximação significativa há vários meses, admitiu a “possibilidade” de “negociações diretas” entre Moscovo e Kiev.

O mundo católico está em suspenso. Com a morte do Papa Francisco, depois de mais de doze anos de um pontificado transformador, regressa a velha questão: quem será o próximo Papa? Como sempre, especulações multiplicam-se — entre análises geopolíticas, correntes dentro da Igreja, e até… profecias. E é neste ponto que o nome de Nostradamus volta a circular, com um misto de curiosidade, mistério e fascínio.

De entre os seus muitos versos enigmáticos, um em particular chama a atenção de alguns intérpretes modernos: a referência a um sucessor de Roma com “pele escura”, com menos de 80 anos, chamado “Pedro”, que destruirá a “forma papal” tal como a conhecemos. A ideia em si é provocadora. Mas e se a profecia não for lida literalmente? E se “pele escura” não significar tom de pele, mas diferença? E se “Pedro” não for o nome, mas o símbolo do regresso ao essencial, a São Pedro, o primeiro Papa? E se “destruir” a forma papal for, afinal, uma renovação da função, uma evolução da figura do Papa como a conhecemos?

É nesta especulação que o nome de D. José Tolentino Mendonça começa a surgir com força, tanto em círculos religiosos como culturais. Feito cardeal por Francisco e nomeado para funções de alta responsabilidade no Vaticano, Tolentino é uma figura absolutamente singular: poeta, biblista, teólogo, diplomata, humanista. Tem 58 anos — o que o torna um dos cardeais mais jovens com real influência — e é português, da ilha da Madeira.

Há aqui uma convergência rara entre o simbólico e o factual. Um “Pedro” com menos de 80 anos? Tolentino não se chama Pedro, mas representa a espiritualidade original e despojada que a figura de Pedro simboliza. “Pele escura”? Talvez não literal, mas expressão de uma diferença: Tolentino não pertence à elite romana tradicional, não representa o centro, mas sim a periferia do pensamento, o Atlântico, o diálogo. E quanto a “destruir” a forma papal? Se há figura que poderia transformar a imagem do Papa imperial e hierárquico numa liderança mais aberta, fraterna e cultural, é ele.

O próprio aumento do número de países representados no Colégio Cardinalício — de 48 para 71 durante o pontificado de Francisco — reforça a ideia de uma Igreja cada vez mais global e menos eurocêntrica. Mas será esse processo irreversível? Ou, com a morte de Francisco, haverá um movimento de recuo, de regresso ao conservadorismo e ao poder central?

As casas de apostas continuam a apontar para nomes italianos como Pietro Parolin ou Matteo Zuppi. Outros referem o cardeal filipino Luis Antonio Tagle, uma espécie de Francisco asiático. E há os que sonham com um Papa africano, como Peter Turkson. Mas a verdade é que, historicamente, os favoritos quase nunca são escolhidos. Foi assim com o próprio Francisco, que em 2013 não estava sequer entre os cinco mais falados. O conclave, como já vimos antes, é imprevisível. E o Espírito Santo, dizem os crentes, sopra onde quer.

Numa nota curiosa — ou simbólica — Tolentino Mendonça acaba de vencer o Prémio Eduardo Lourenço 2025, uma distinção atribuída a quem se destaca pela sua intervenção cultural no espaço ibérico. Num ano de transição papal, não deixa de ser significativo que seja justamente um cardeal português, com perfil humanista e ecuménico, a receber um prémio que homenageia a inteligência, a reflexão e o diálogo. O prémio surge quase como um sussurro paralelo ao que se discute em surdina nos corredores do Vaticano.

A tradição tem sido clara: os papas vêm sobretudo da Itália, com raras exceções — Polónia, Alemanha e recentemente Argentina. O peso histórico, cultural e político joga quase sempre contra figuras “fora do eixo”. Mas também é verdade que, nos momentos de viragem, a Igreja surpreende. E se há momento propício à surpresa, é este.

D. Tolentino Mendonça tem uma vantagem: não é divisivo. Não pertence a alas polarizadas. Fala ao mundo com linguagem de pontes, de poesia, de fé com sentido. Nunca impõe. Escuta. É essa uma das maiores marcas que Francisco quis deixar na Igreja: uma liderança feita de serviço, não de trono. Se o conclave quiser dar continuidade a essa herança, Tolentino é um nome possível. E desejável.

É claro que tudo isto pode não passar de projeção, esperança ou coincidência. Mas não deixa de ser significativo que, neste preciso momento histórico, um português esteja tão silenciosamente próximo da linha da frente. E que uma profecia obscura de Nostradamus, lida com olhos contemporâneos, possa encaixar mais num poeta da Madeira do que em qualquer outro nome com maior mediatismo.

A probabilidade estatística pode ser baixa. Mas a possibilidade simbólica e espiritual, essa, nunca esteve tão aberta.

No fim de contas, talvez o “Pedro” que vem aí não seja o destruidor da Igreja, mas aquele que lhe devolve o rosto humano. E se for português, tanto melhor.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Os cartazes estão espalhados pelo País. A AD diz que “Portugal não pode parar” e o PS garante que “o futuro é já”. Mas para onde irá o País se Luís Montenegro voltar a ser eleito primeiro-ministro? E o que nos reservará um futuro em que Pedro Nuno Santos chegue ao poder? Uma das formas de tentar percebê-lo é lendo os programas dos partidos. Enredados nos soundbites da campanha, distraídos pelos momentos quentes dos debates ou pelas gaffes, nem sempre nos apercebemos do que verdadeiramente une e separa os projetos dos partidos que vão a votos.

Nas 277 páginas do Programa Eleitoral da AD há uma parte substancial dedicada ao que PSD e CDS acreditam ser os grandes feitos de 11 meses de governação. Não é por acaso que o documento arranca com um “Mais do que promessas, resultados”. A ideia é a de que só votar na AD permitirá continuar um caminho que serviu para repor rendimentos em várias áreas da administração pública, baixar impostos, mudar as regras da imigração e chegar ao fim com um excedente orçamental de 0,7% do PIB.

Onde a AD vê políticas que resultaram e precisam de continuar, o PS vê “um ano perdido para o País nas políticas económicas e sociais”. O “Novo impulso para Portugal” que o PS promete em 236 páginas vai aos números para mostrar que o que aconteceu desde que Luís Montenegro chegou a São Bento foi, no fundo, uma desaceleração do que os socialistas tinham conseguido nos últimos oito anos. Para o atestar, lembram que em 2024 Portugal cresceu menos do que a média das governações socialistas e houve um abrandamento na subida dos salários.

Divergências nos impostos

O diagnóstico é mesmo onde mais divergem sociais-democratas e socialistas. Mas não é só: se o programa de Montenegro assenta em grande medida numa continuação da descida do IRS e do IRC, Pedro Nuno quer descer o IVA nos alimentos essenciais e na eletricidade, tentando puxar dos galões da descida de impostos que já aconteceu. “O PS promoveu, nos últimos anos, várias descidas de impostos”, escrevem os socialistas, vincando que a descida de 1 500 milhões de euros em IRS anunciada pela AD há um ano “afinal, já estava concretizada em 80% pelo governo do PS”. O programa eleitoral do PS lembra que foi António Costa quem no IRC “eliminou o pagamento especial por conta” e “reduziu taxas para PME” e que foi Pedro Nuno Santos que, em 2024, “com o voto contra do PSD e do CDS”, conseguiu aumentar de 600 para 800 euros a dedução dos encargos com rendas em IRS e duplicar o consumo de energia elétrica sujeito à taxa reduzida do IVA.

Alinhamento nos salários e na Defesa

Se o diagnóstico e a descida dos impostos separam claramente as águas entre AD e PS, une-os o mantra das contas certas e a promessa de subida dos salários mínimo e médio. O alinhamento é total: Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos prometem ambos fazer crescer o salário mínimo até aos 1 100 euros em 2029, ano em que querem que o vencimento médio esteja nos 2 000 euros, mesmo que não seja muito claro o caminho para fazer subir essa média.

Outro ponto importante que une AD e PS é a promessa de aumentar os gastos com a Defesa para os 2% do PIB até ao final da legislatura. Um valor que foi acertado entre Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos, já depois da queda do Governo, para responder à pressão que vem nesta matéria da União Europeia e da NATO. Apesar deste alinhamento, nem um nem outro põe nos respetivos programas as contas sobre esses gastos nem faz refletir essa despesa nos cenários macroeconómicos que apresenta. Um e outro prometem que a despesa será investimento e que, como se lê no programa da AD, será feita “nunca pondo em causa o Estado social”.

O PS desenvolve um pouco mais o tema com as promessas de “apoiar a criação de um cluster de Indústria Naval de Defesa”, de “participar em consórcios europeus de produção de equipamento militar” e de “fomentar a participação em empresas portuguesas de fundos de investimento associados a capitais de risco”. Como é que isso se paga? A AD não diz, o PS é vago, mas promete “pugnar por um reforço do investimento europeu em Defesa que não coloque em causa as políticas de coesão e o Estado social, privilegiando o endividamento comunitário como instrumento financeiro”.

PS não promete reversões

Não é, contudo, só na Defesa que AD e PS se encontram ao centro. Consciente dos altos índices de popularidade da governação de Luís Montenegro em todos os estudos de opinião, Pedro Nuno Santos está apostado em apresentar-se como “a mudança segura”. E é por isso que o programa socialista não apresenta uma única reversão. O PS defendeu que a isenção do IMT e do imposto de selo aos menores de 35 anos na compra de casa ajudou a acelerar a escalada dos preços da habitação, mas nem por isso pretende mexer nessas medidas. Foi muito crítico do IRS Jovem (que acabou por aprovar no Orçamento para 2025, numa versão diferente da que a AD tinha apresentado originalmente), mas agora a única menção que faz a esse programa é a criação de um ano zero que permita “aos jovens que ingressam no mercado de trabalho, no segundo semestre de um determinado ano, beneficiar imediatamente do regime sem perda do 1º ano de isenção”. E quanto às PPP na Saúde, critica os anúncios feitos “sem transparência e sem que estivessem concluídos os respetivos estudos de viabilidade económica, obrigatórios por lei”, mas não diz claramente que não seguirá esse caminho.

E os outros? As promessas dos mais pequenos…

O Chega tardou em apresentar o seu programa. A IL quer um departamento ao estilo Elon Musk e um seguro de saúde público, o BE quer taxar os ricos, a CDU reclama aumentos de 15% nos salários, o Livre quer um novo imposto sucessório e o PAN a criminalização da remoção não consentida do preservativo

André Ventura repete que quer ser primeiro-ministro e “acabar com a bandalheira”, mas já adiou duas vezes a apresentação do programa eleitoral do Chega. A última das quais nesta segunda-feira, o dia em que se soube da morte do Papa Francisco. À data de fecho desta edição, não havia, por isso, nenhum documento que explicasse as medidas que Ventura considera essenciais, nem como pretende combater a corrupção e regular a imigração, duas das suas principais bandeiras eleitorais.

Mas se o Chega tarda em publicar o seu programa eleitoral, todos os outros partidos já divulgaram as suas ideias. Apenas um ano depois das últimas eleições legislativas, as várias forças políticas não mudaram muito os programas que levaram a votos em 2024, mas aproveitaram para os atualizar e para puxar por alguns temas que dizem mais aos seus eleitorados.

A inspiração em Elon Musk

No caso da IL, há uma grande novidade (pelo menos, no formato), que parece ter sido inspirada por Elon Musk e o trabalho que tem feito na Administração Trump e que, diga-se, lhe tem valido duras críticas pela forma cega como tem cortado departamentos essenciais do Estado. Se os liberais sempre quiseram cortar no que acham ser “as gorduras do Estado”, este ano propõem um novo departamento para o fazer: “Uma estrutura única para liderar a transformação digital e a modernização do Estado.”

Além disso, voltam a pedir a privatização da TAP, da CGD, da RTP e da CP. Também querem revolucionar a Segurança Social, com uma transição progressiva para um modelo de pensões assente em três pilares, “repartição, capitalização voluntária e capitalização obrigatória”, e mudar por completo o SNS, criando uma espécie de seguro de saúde público obrigatório, “com liberdade de escolha de prestador e financiamento público”. Embora não usem a expressão “cheque-ensino”, propõem o “financiamento ao aluno, permitindo liberdade de escolha entre ensino público, privado e cooperativo” e “valorizar a carreira docente com base no mérito e na competência, não no tempo de serviço”.

Tetos para rendas e leques salariais

“Taxar os ricos” é uma das bandeiras do BE nestas eleições. “Queremos gerar receitas para financiar os serviços públicos e salários justos, através de impostos justos sobre as empresas digitais e as grandes fortunas. Este imposto aplica-se a fortunas acima dos 3 500 salários mínimos nacionais – cerca de três milhões de euros (deduzidos de dívidas), sendo aplicada uma taxa progressiva entre 1,7% e 3,5%”, lê-se no programa eleitoral, que também propõe a criação de “leques salariais nas grandes empresas para que um administrador não possa ganhar mais num mês do que um trabalhador num ano”.

O BE quer travar a privatização da TAP e os projetos de mineração contestados pelas populações, reduzir a semana de trabalho para quatro dias e aumentar o salário mínimo para os mil euros em 2026. Outra medida emblemática é a criação de um sistema de tetos às rendas, que calcule em cada zona o valor máximo que pode ser cobrado por tipologia.

Licença parental de 210 dias

A grande prioridade da CDU é aumentar salários e pensões, com o salário mínimo nos mil euros já em julho de 2025 (em Espanha está nos 1 184 euros) e um aumento geral dos salários na ordem dos 15%, através do reforço da contratação coletiva e da valorização das carreiras públicas. Os comunistas pedem a redução do horário de trabalho para as sete horas diárias, sem diminuição do salário ou outros direitos e remunerações, e a fixação do direito de todos os trabalhadores ao subsídio de refeição, nunca inferior ao da Função Pública.

Do programa da CDU fazem ainda parte o alargamento da licença de maternidade e paternidade para 210 dias, paga a 100%, o controlo do preço dos bens alimentares essenciais e a fixação do preço da botija do gás em 20 euros e uma atualização extraordinária das reformas, “garantindo já em 2025 um aumento, com efeitos a partir de janeiro, em 5% e um valor mínimo de 70 euros”. Os comunistas querem incentivar a dedicação exclusiva ao SNS, com uma majoração de 50% do salário base, uma rede de creches públicas, refeições escolares gratuitas e “a fixação de valores máximos das rendas em contratos em vigor e novos contratos” na habitação.

Taxar os fundos imobiliários

O Livre também quer ajudar a resolver a crise na habitação, com o “reforço da tributação do património imobiliário que não se destine a habitação permanente ou seja propriedade de fundos e sociedades de investimento imobiliário”. Para criar uma “herança social” de cinco mil euros para todos os jovens aos 18 anos, propõem recuperar o imposto sucessório “para grandes heranças e grandes doações”, sem especificar montantes. E querem criar uma rede pública de residências assistidas e de estruturas residenciais para pessoas idosas.

O partido de Rui Tavares também pretende subir o salário mínimo até aos 1 250 euros em 2029 e “regular as diferenças salariais dentro da mesma entidade, através da definição de um limite máximo para a diferença entre o salário mais baixo e o salário mais alto de cada empresa, organização ou ramo de atividade”. O Livre pede ainda o “aumento progressivo da licença parental para 16 meses”, sem estabelecer um calendário, mas dizendo querer recuperar a ideia da “iniciativa legislativa cidadã que caducou na legislatura e propunha, pelo menos, seis meses de licença parental inicial pagos a 100%”.

Violação como crime público

O PAN não deixou de ser animalista, mas este ano faz da violência doméstica e de género a sua grande bandeira, naquilo a que chamou o “compromisso violeta”. Inês Sousa Real quer tornar a violação sexual um crime público (com a possibilidade de, a pedido da vítima, o caso ser arquivado a qualquer momento), a criminalização do stealthing (remoção não consensual do preservativo), a criação de um plano nacional para combater a violência sexual baseada em imagens e que as seguradoras passem a estar legalmente obrigadas a incluir “o realojamento por violência doméstica no âmbito da cobertura dos seguros da habitação”.

O PAN volta a pedir a criação de um SNS Animal, a redução do IVA dos serviços veterinários para 6%, a criação de passes sociais gratuitos para os transportes públicos e incentivos fiscais para empresas que invistam em tecnologias verdes, transição digital e emprego qualificado. Sousa Real também quer baixas médicas com remuneração a 100% para doentes oncológicos e o fim dos apoios públicos às touradas.

Palavras-chave:

Os ânimos na zona do Rossio, em Lisboa, estiveram exaltados mas acalmaram pelas 18h00 desta sexta-feira, depois de confrontos violentos, envolvendo apoiantes de movimentos de extrema-direita, e passou a um clima de festa, sobretudo com os manifestantes que desceram a Avenida da Liberdade.

Entre os cravos vermelhos e bandeiras Portugal, partidos e movimentos associativos, os participantes erguiam também cartazes em que era possível ler mensagens como “Em cada rosto igualdade”, “A revolução será feminista ou não será”, “As mulheres ciganas também fizeram o 25 de abril “. Outros dirigiam-se ao Governo, com avisos de que “Se o país continuar assim, a Assembleia voltará a ser um ninho de lacraus”.

Mais de uma hora depois de as duas chaimites marcarem o arranque da marcha, os primeiros participantes chegavam ao Rossio, onde a Associação 25 de Abril encerrou o desfile com um discurso de Adelino Costa, que substituiu Vasco Lourenço nessa tarefa. “Os ideais do 25 de Abril estiveram presentes no nosso percurso histórico nos últimos 50 anos e continuam bem vivos na sociedade portuguesa, (…) porém, há muitas ameaças a surgir no nosso horizonte”, alertou, defendendo que “Portugal tem de continuar a ser um país livre, justo, solidário e amante da paz”.

No final, ouviu-se novamente uma das senhas da revolução, a “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, entoada em uníssono uma última vez.

Em dia de luto nacional pela morte do Papa Francisco, milhares de pessoas responderam ao apelo para celebrar nas ruas o 25 de Abril e encheram a Avenida da Liberdade para o tradicional desfile comemorativo da Revolução de 1974, ladeadas por outra multidão que assistiu nas laterais.

Com a avenida cheia desde a zona do Marquês de Pombal até à Praça dos Restauradores, ouviram-se gritos de celebração da liberdade e da democracia.

“Venho desde que me lembro de ser gente. É uma manifestação de amor pela liberdade, pela democracia, num tempo em que isso é cada vez mais necessário, dado o ressurgimento da extrema-direita. A única resposta é afirmar a alternativa pela liberdade, pela democracia”, disse à Lusa um dos manifestantes.

JOSÉ SENA GOULÃO/ LUSA

Entre os cravos vermelhos e bandeiras Portugal, partidos e movimentos associativos, os participantes erguiam também cartazes em que era possível ler mensagens como “Em cada rosto igualdade”, “A revolução será feminista ou não será”, “As mulheres ciganas também fizeram o 25 de abril “.

Outros dirigiam-se ao Governo, com avisos de que “Se o país continuar assim, a Assembleia voltará a ser um ninho de lacraus”.

Mais de uma hora depois de as duas chaimites marcarem o arranque da marcha, os primeiros participantes chegavam ao Rossio, onde a Associação 25 de Abril encerrou o desfile com um discurso de Adelino Costa, que substituiu Vasco Lourenço nessa tarefa. “Os ideais do 25 de Abril estiveram presentes no nosso percurso histórico nos últimos 50 anos e continuam bem vivos na sociedade portuguesa, (…) porém, há muitas ameaças a surgir no nosso horizonte”, alertou, defendendo que “Portugal tem de continuar a ser um país livre, justo, solidário e amante da paz”.

No final, ouviu-se novamente uma das senhas da revolução, a “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, entoada em uníssono uma última vez.