Não sei em que lugar vai ficar “bolha” naquelas listas que se fazem no fim do ano com as palavras que se utilizaram mais, mas cheira-me que não ficará nada mal classificada.
Os políticos vivem numa bolha e por isso não percebem os problemas das pessoas, os jornalistas vivem numa bolha e depois não contam o que realmente se passa no País, os comentadores vivem numa bolha e depois ficam surpreendidos com os resultados eleitorais, os do litoral vivem numa, os do Sul noutra, e por aí fora.
O facto é que sempre vivemos em bolhas. Ao longo dos tempos fomo-nos agregando em grupos em função da nossa religião, origem geográfica ou pertença social, entre milhares de outras razões. A grande questão sempre foi e continua a ser a forma como coexistiam. E para coexistirem pacificamente (ou não), tem obrigatoriamente de haver um fenómeno: encontrarem-se.
Dá ideia de que é um erro de formulação, já que a coexistência parece exigir encontro, mas não é verdade. Podemos coexistir num espaço e não nos encontrarmos. Aliás, essa é exatamente aquela que penso poder ser a nova definição de bolha: num espaço predefinido, várias bolhas coexistem sem se encontrarem.
As redes sociais têm sido acusadas de muitas maldades e na maior parte das vezes justamente. Aquilo que pensamos poder servir para aumentar a liberdade, para apoiar movimentos pró-democracia, para unir pessoas, para melhorar o sentido de comunidade, teve exatamente o resultado oposto, e em todos estes aspetos.
Fiquemos pelo fator agregador, o tal unir as pessoas. Realmente, conseguiu construir grupos de pessoas em redor de causas. O problema é que a forma como se constroem é quase sempre contra qualquer coisa e utiliza-se uma linguagem e uma atitude que tornam impossível o diálogo com quem defende outra perspetiva.
Aliás, o discurso das novas forças antidemocráticas é uma réplica quase perfeita do das redes sociais. Os novos ditadores perceberam que seria muito mais eficaz atrair e agregar pelo insulto, pela ofensa, pela difamação, do que falar dos problemas das pessoas ou propor soluções. Basta ouvir um desses personagens e comparar a sua linguagem com a das redes sociais.
Mais, as redes sociais são ótimas para criar grupos que, no fundo, não o são. Esses grupos são de pessoas que não se encontram nem nunca se encontrariam porque o seu contacto com o mundo exterior praticamente se resume ao mundo virtual. A falta de contacto físico potencia o agregador de ressentimentos: cada um tem o seu e isso une, apesar de poderem ser díspares e algumas vezes antagónicos. Os sentimentos e a forma de os expressar fazem essa espécie de união.
A falta de contacto físico, da conversa cara a cara, propaga todos os ressentimentos, toda a intolerância e inflama qualquer discussão. A minha cara leitora ou o meu caro leitor já com certeza teve discussões através do WhatsApp que jamais teria cara a cara e não diria as coisas que disse se tivesse de as dizer em frente duma ou de várias pessoas. É tão fácil ser terrorista de teclado.
O trabalho, que é central na nossa vida, está também a contribuir para nos isolar. O trabalho remoto vai ter a curto prazo péssimas consequências na produtividade (ao contrário do que se esperava) porque destrói a consciência de equipa e a troca de experiências profissionais, mas contribuiu ainda mais para o isolamento geral.
Não nos encontramos no trabalho, nos cafés, nem nas associações recreativas, nem nos poucos jardins e até na rua, circulamos como ilhas com auriculares nos ouvidos ou como autómatos de olhos pregados no ecrã do telemóvel.
No entanto, as redes sociais estão longe de ser o único fenómeno a isolar-nos individualmente e aos grupos a que pertencemos. Esse isolamento vem de trás. Os grupos deixaram de se cruzar, a arte deixou de falar dos problemas do dia a dia, as histórias que jornalistas e escritores contam não são as do homem comum.
Lembro-me muitas vezes duma crónica do Pacheco Pereira, no tempo do bloqueio da Ponte 25 de Abril, onde ele descrevia a vida dum cidadão que vivia na zona de Almada e que trabalhava em Lisboa. Textos, livros ou peças de teatro em que se abordem as dificuldades das pessoas comuns em Portugal são pouquíssimos – e isso é particularmente notável depois de termos passado pela crise da Troika e pela pandemia. Há uma falta de empatia que deriva do isolamento e que tem um terrível potencial desagregador da comunidade. E sim, essa falta faz aumentar a revolta e o ressentimento.
Se a isso somarmos este novo mundo neoliberal em que quem é rico é porque merece e quem é pobre ou ganha pouco não passa dum falhado, temos uma bomba nuclear pronta a explodir nas nossas comunidades.
Estávamos nas bolhas. As tais que não se ligam, chocam umas com as outras e se repelem. Os problemas da escola pública e da privatização acelerada da saúde são outros dos dois blindadores das ditas.
A divisão entre ricos e remediados na saúde privada e pobres na saúde pública (os ricos só lá vão quando o perigo é grande) faz crescer a sensação de nós e eles, e, lá está, isola-nos em alturas em que mais parecidos estamos com o nosso semelhante: nas doenças que não escolhem destinatário.
Entre o tipo que é tratado a uma gripe em meia hora e o que tem de estar seis horas numa urgência, cava-se um fosso de revolta.
Quando eu andava na escola, havia gente de todas as origens sociais e económicas, de todas as cores. Não eram só amizades que se formavam, era também a consciencialização da diferença e das dificuldades das vidas das outras pessoas e famílias.
Hoje temos os mais pobres e os mais carenciados social e culturalmente na escola pública, enquanto as famílias que podem põem os filhos em escolas privadas. Isso cava um fosso social e de empatia desde a mais tenra idade.
Não vou agora refletir sobre o que levou a escola pública a este estado, sei apenas que as consequências da fuga das famílias para o privado estão muito para lá do ensino, têm profundas implicações no tecido social e na forma como nos relacionamos como comunidade.
Que fique claro, continuo a pensar que o crescimento da adesão a movimentos antidemocráticos, racistas, xenófobos e que só exploram os ressentimentos e descontentamentos está longe de ter duas ou três explicações. Pior, estou convicto de que mensagens como o ódio aos imigrantes e o racismo têm muitos recetores em Portugal e sempre tiveram. Não tinham era protagonista.
Mas o mundo atual está votado em isolar-nos e, pior, em pôr-nos uns contra os outros. Esses movimentos aproveitam isso e apostam em dividir-nos cada vez mais. Não sei qual é a solução para travar quem quer destruir a democracia e concentrar ainda mais a riqueza nos mais ricos. Sei, porém, que quanto mais vivermos longe uns dos outros, quanto mais nos isolarmos nas redes sociais e em casa, quanto mais formos intolerantes, quanto mais deixarmos de investir na escola e na saúde públicas, quanto mais deixarmos crescer as bolhas, mais perto estamos de dar a vitória a esses novos ditadores.
OUTROS ARTIGOS DESTE AUTOR
+ O parágrafo
+ A ética é boa para os outros
+ Seguimos juntos, Varguitas
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.