“Quero deixar claro que o chumbo do Orçamento de Estado não implica automaticamente dissolução do Parlamento”, afirmou o antigo secretário-geral do PS na apresentação da candidatura a Belém, que decorreu este domingo no Centro Cultural de Congressos das Caldas da Rainha, no distrito de Leiria.

António José Seguro defende que o “País não pode andar de eleições em eleições de ano e meio em ano e meio, nem ter governos a prazo”, alertando que “governos a prazo conduzem Portugal a prazo”.

“Estou preparado para promover a conciliação e os compromissos necessários para mudarmos Portugal”, indicou, sustentando que “Portugal precisa de mudar, e muito, começando na forma como se faz política”.

Para o candidato, “gerir a conjuntura já não basta, nem é maneira de governar”, e é “necessário um projeto nacional, consensualizado, participado por todos, independentemente de quem está no governo”.

“O País tem de ter um rumo, não pode andar aos ziguezages. Portugal precisa de um rumo, não apenas de governo. Precisamos de governos de projeto e não de governos de turnos”, acrescentou.

O candidato a chefe de Estado considerou também que a revisão da Constituição não é um tema prioritário neste momento e propôs um “pacto para a prosperidade”, apontando a necessidade de um “projeto nacional mobilizador”.

“Prioritário é promover o acesso das pessoas à habitação e aos cuidados de saúde a tempo e horas, prioritário é criar riqueza para haver melhores salários e melhores pensões, prioritário é capacitar o país para apoiar as nossas empresas, para que os jovens se fixem e não emigrem”, elencou.

Seguro considerou que “o País precisa de um projeto nacional mobilizador, de um rumo e de uma estratégia”.

“Proponho-me e empenhar-me-ei nesse desígnio: Pacto para a prosperidade. Essa será a minha agenda prioritária, envolvendo todos os partidos políticos, os parceiros sociais, universidades e todos os interessados”, indicou.

A agricultura regenerativa está a ganhar tração em Portugal. Esta forma de produção, que se foca no equilíbrio da natureza e na saúde do solo, e que não utiliza quaisquer produtos químicos de síntese (ao contrário da agricultura biológica, que pode fazê-lo desde que esses químicos também existam na natureza), vai ser apresentada e debatida este sábado, 31 de maio, na 2ª edição do Regenerative Wine Fest.

Os principais objetivos do evento, que vai contar com 14 produtores de vinho que praticam agricultura regenerativa, passam pela partilha de conhecimento e pela informação aos consumidores, explica Luís Serrano Mira, proprietário da Herdade das Servas, anfitrião do acontecimento. “É uma visão diferente da própria vinha. Não é aquilo que o meu pai fazia”, diz o produtor vitivinícola. “O ecossistema está desequilibrado e nós temos de o reequilibrar.”

O Luís pertence à 13ª geração da família a produzir vinho. Porquê esta aposta da Herdade das Servas na agricultura regenerativa? E diria que é uma revolução na forma de produzir?
Não é possível continuar a fazer da mesma forma num planeta sobrecarregado com pesticidas, herbicidas e outras coisas terminadas em “idas”. Tem de existir uma mudança de atitude, e entendo que devo liderar essa mudança. Por norma, são os agricultores com menor dimensão que a lideram. A Herdade das Servas, com os seus 350 hectares, se calhar não seria o projeto que mais facilmente lideraria este tipo de revolução, mas… Na verdade, não gosto muito da palavra revolução. É mesmo uma mudança de atitude. Nós não podemos continuar a matar os [insetos e outros animais] auxiliares quando eles nos fazem falta, não podemos continuar a desequilibrar a natureza…

Pode dar-nos exemplos dessa mudança de atitude? Quais são as principais diferenças na forma de tratar a vinha?
Se olharmos para uma vinha do passado, vemos que não existia uma única erva. A vinha era muito bonita, toda arranjadinha, parecia uma paisagem idílica. Hoje, uma vinha, por exemplo, na Herdade das Servas, está cheia de ervas. As pessoas acham que não temos dinheiro para cuidar da vinha ou que somos uns desleixados de primeira. Parece que a natureza entrou dentro da cultura, o que pode levar a algum antagonismo. É uma visão diferente da própria vinha. Não é aquilo que o meu pai fazia. E eu próprio também matava as ervinhas com herbicidas. Obviamente que não matava só as ervinhas, também estava a matar os auxiliares que estavam nas ervinhas. Hoje, fomentamos o aparecimento de biodiversidade. Aliás, fazemos culturas próprias para que muita microbiologia se possa desenvolver no solo.

Ou seja, o método passa por equilibrar o ecossistema.
Procuramos equilibrar o ecossistema. O ecossistema está desequilibrado e nós temos de o reequilibrar. A natureza nasceu relativamente perfeita e equilibrada; nós, ao longo do tempo, é que a desequilibrámos. Estamos agora a tentar reconstruir o que nós próprios estragámos.

Que impactos positivos já notou no ecossistema ou na regeneração do solo?
No outro dia, estava a trocar umas opiniões com o nosso viticultor e enólogo, e ele observava que este é um ano de muita pressão, com uma série de doenças devido à humidade, ao calor, a várias situações. E as plantas, hoje, já se mostram muito mais resilientes, fazem os seus combates. Conseguimos fortalecer o sistema imunitário das plantas, a tal ponto que são elas a combater as suas próprias doenças. É aí que temos de atuar. As plantas não são muito diferentes de nós, enquanto seres vivos. Todos precisamos de um bom sistema imunitário para responder às agressões externas. Basicamente, o que nós fazemos às plantas é fortalecer-lhes o sistema imunitário através das raízes, que é o estômago delas.

Consegue ter os mesmos níveis de produção com estas técnicas?
Não podemos partir das mesmas premissas, não. Mas a Herdade das Servas já não estava nessas premissas. Dos 350 hectares, só 20% são irrigados. Portanto, a nossa expectativa de produção por hectare é diminuta. Diria que andamos, em termos médios, na ordem dos 4 mil quilos por hectare. Portanto, não, não temos superproduções por hectare.

Qual é a média numa produção convencional?
O dobro: 8 mil por hectare. Mas não é produzir mais por hectare que me move. O que me move é valorizar mais os meus produtos, os meus vinhos, porque se os vinhos não forem valorizados, naturalmente, estou mais distante de ser uma empresa rentável, e a sustentabilidade económica não se pode perder.

Para ter essa sustentabilidade económica com menores produções precisa que os consumidores reconheçam e premeiem vinho produzido com práticas mais sustentáveis. Isso já acontece?
Ainda existe muito greenwashing… O consumidor valoriza o que entende ou interpreta como sustentabilidade, mas muitas vezes essa sustentabilidade não é mais do que práticas sustentáveis ocasionais. O Alentejo tem um programa quase único no mundo, o PSVA [Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo], com 190 pontos muito rigorosos, e nós estamos certificados PSVA em toda a área. Isso é um bocadinho diferente de produtores que estão certificados em pequenas áreas. Mas não sei se o consumidor se apercebe dessa diferença. Temos de ser mais ágeis a comunicar…

Nota diferenças do consumidor nacional para outros consumidores, nomeadamente do Norte da Europa?
Os jornalistas da Alemanha para cima procuram-nos com frequência para perceberem o que fazemos. Há uma avidez natural por parte do jornalismo de perceber como esta região é diferenciadora em relação a outras. Os nossos jornalistas não nos procuram tanto, penso que não por desinteresse mas, talvez, por desconhecimento.

A certificação PSVA ainda não tem, junto dos consumidores em geral, a visibilidade de outras certificações. Além disso, não existe uma certificação oficial para a agricultura regenerativa em particular. Isso é um problema?
Pode ser um problema. Nós temos um sistema de validação de pares, ou seja, validamos as práticas uns dos outros. É um sistema relativamente informal, mas é eficaz. É desejável que, no futuro, exista uma certificação portuguesa que faça sentido, com as exigências a entrarem num caderno de encargos, porque isto não pode ser só dizer “fazemos isto, fazemos aquilo”.

A agricultura biológica tornou-se popular, em parte, pela sua simplicidade: é fácil transmitir ao público que não usa químicos sintéticos. A agricultura regenerativa é mais complexa, porque inclui uma série de métodos e técnicas diferentes. Há alguma forma simples de passar a mensagem para o consumidor comum?
Há uma forma simples: as pessoas que praticam agricultura regenerativa procuram regenerar o berço da vida, que é o solo. A agricultura biológica (e nós estamos certificados também em biológica), não. É um meio caminho, até porque há algumas incoerências na legislação do biológico.

Que incoerências são essas? O facto de poderem usar produtos de síntese, desde que também existam na natureza?
Empresas com muita capacidade de investimento no mercado estão a apostar no mercado biológico. Mas o nosso fim é abandonar por completo tudo o que são produtos de síntese, ou seja, o que é sintetizado em fábrica não é aplicado em agricultura ou viticultura regenerativa. Isso cria-nos algumas limitações, impostas por nós próprios, para podermos regenerar o solo. Um exemplo: para combatermos um fungo, podemos utilizar um extrato de cavalinha, que é a natureza que produz. Portanto, temos elementos naturais para fazer esses combates. Alguns, temos de fabricar, porque não estão disponíveis, outros, como este, são matérias extraídas por nós para adicionarmos ao solo.

As plantas, hoje, já se mostram muito mais resilientes, fazem os seus combates. Conseguimos fortalecer o sistema imunitário das plantas, a tal ponto que são elas a combater as suas próprias doenças

A agricultura regenerativa vai mais além do que a biológica?
Os produtos biológicos, por estarem homologados para biológicos, não quer dizer que não contenham produtos estranhos à natureza. O biológico pode utilizar produtos de síntese. E há alguns cobres que têm alguma toxicidade, e no biológico utiliza-se muito cobre. Na regenerativa isso não pode acontecer. O pensamento maior em termos regenerativo é sempre a microbiologia do solo. Em termos de agricultura biológica, o pensamento é “como é que vamos curar a vinha para que ela produza sem ser em convencional?”. A microbiologia do solo não é defendida pela sistema biológico.

O que gostaria de ver acontecer nos próximos cinco ou dez anos, neste setor?
Era importante acabarmos com alguma demagogia, porque a sustentabilidade é um chavão em que cabe tudo. Temos de ter algum cuidado. O consumidor é bombardeado com sinais, e muitas vezes esses sinais não correspondem à verdadeira prática. Até existe legislação forte, mas falta controlo. Se conseguirmos controlar o que é feito no setor agroalimentar, estamos mais perto de, enquanto consumidores, tomarmos as melhores decisões. Tem de haver um aperto maior às práticas implementadas no terreno.

Um combate mais ativo ao greenwashing, para evitar desequilíbrios competitivos?
Nós só valorizamos algo quando compreendemos que aquilo é mesmo o que diz ser. A dúvida não traz valor. Para existir valor numa agricultura diferenciada tem de existir também quem controle. Devem existir mecanismos fortes de controlo àquilo que eu pratico. A partir desse momento, estamos todos mais perto de não termos greenwashing.

O Regenerative Wine Fest é uma forma de divulgar a mensagem para dentro e para fora? Ou seja, para convencer outros produtores a fazer o mesmo e, simultaneamente, dar a conhecer as vantagens da agricultura regenerativa ao público?
O que quisemos, ao criar o Regenerative Wine Fest, foi liderar uma mudança de atitude. No primeiro ano, convidámos oito produtores, este ano já vamos ser 14 e espero que no próximo sejam mais, e isto quer dizer que há claramente pessoas a pensar neste modo de produção. Atenção que estes 14 são todos validados: a metodologia que empregam nas suas vinhas está validada pelos pares. Houve alguns que quiseram estar connosco e não foi possível, porque não conseguimos validar a metodologia. É importante a credibilização, porque se formos atrás daquilo que é feito genericamente – a comunicação andar à frente do que efetivamente se faz – estaremos a fazer aquilo que não se pretende, que é a fazer de conta que fazemos. E há muito faz de conta… Com o Regenerative Wine Fest, queremos sobretudo mostrar ao público em geral que temos uma metodologia alternativa, que não utilizamos pesticidas nem herbicidas sintetizados em fábricas como forma de exponenciar a produção, mas que, em vez disso, tentamos equilibrar a natureza de forma a extrairmos a melhor qualidade das uvas, e que o resultado é um vinho de maior qualidade.

Este é também um momento para troca de experiências e práticas?
Exatamente. E ao mesmo tempo para arranjar forças. Estamos imbuídos do mesmo espírito, do mesmo objetivo. Quando erramos, temos o nosso par a dizer: “Eh pá, se calhar devias ter ido por este caminho.” E nós ajustamos. Ainda que o ponto de partida não seja igual para nenhum viticultor.

Gostava que na próxima edição já houvesse um selo oficial que ajudasse os consumidores a reconhecer nas prateleiras um vinho produzido desta forma sustentável?
É preciso algum cuidado, porque o consumidor está cheio de sinais. Há um excesso de informação. Não sei se irá bater no selo, mas irá bater, sim, numa credibilização, num caderno de encargos que tenha de ser cumprido.

Em termos legislativos, o que mais poderia ser feito, seja a nível da União Europeia seja a nível nacional, para incentivar estas práticas agrícolas?
É muito fácil: se desincentivamos o greenwashing, estamos a fomentar a criação de valor em modos alternativos. E, quando digo isto, não quero dizer que o regenerativo seja o único conjunto de métodos válido. Há várias metodologias, há muita gente que vai por outro, outros caminhos, que eu preconizo menos, mas que entendo. Mas o que faz sentido é combater o greenwashing. Criarmos legislação forte para que não seja dado valor a quem não faz nada. E isso eu vejo constantemente. Há muita gente a associar-se a símbolos… Por exemplo, não podemos ter um rótulo com uma joaninha e não se fazer nada. Quer dizer, se lá tem joaninha, o consumidor interpreta que é um produto bio ou mais próximo da natureza. Há sinais que deviam ser excluídos à partida, que quem não faz nada seja impedido de usar. E há muito produtor a ser imaginativo, a meter sinais daquilo que não fazem.

Nesta guerra entre Israel e o Irão, por muitas voltas que se dê, o perdedor será sempre o regime de Teerão, mesmo que, para consumo interno e externo, se mostre desafiante, poderoso e capaz de dar uma lição a Telavive. As razões são simples:

  1. Por milhares de mísseis que possa ter — e não tem muitas dezenas de milhar — ou drones a sair das fábricas em direção a Israel, a rapidez do consumo diário eliminará rapidamente os stocks de Teerão, e não há quem possa fornecer essas armas. A Rússia está envolvida na sua própria guerra, e os apoios da China serão sempre muito cautelosos, para não comprometer os equilíbrios globais. Pequim arriscará alguma ajuda, mas nunca aquela que Teerão desejaria.
  2. Israel, pelo contrário, possui uma indústria de armamento que impressiona e, além disso, conta com todos os aliados necessários para o apoiar, tanto em material como na intercepção dos ataques iranianos.
  3. Teerão lançou uma barragem com 300 mísseis e drones, e apenas meia dúzia conseguiu ultrapassar a Cúpula de Ferro. Os que passam matam pessoas e causam destruição, mas nada comparável, de perto ou de longe, com a vastidão e eficácia dos ataques de Israel — precisos na decapitação do comando e controlo das forças armadas iranianas, e devastadores nas instalações nucleares, estruturas de apoio físico, fábricas de armamento e bases militares, por todo o país.
  4. Não será surpreendente que Teerão se veja rapidamente forçado a negociar tréguas e a permitir a inspeção das suas instalações nucleares, embora tente apresentar essa decisão como uma vitória sua.
  5. Atacar bases dos EUA, França ou Reino Unido, como prometeu o regime teocrático, será o pior de todos os erros. É verdade que foi Israel quem lançou o ataque preventivo — com receio real de que o Irão estivesse muito próximo de possuir uma arma nuclear — mas essa decisão terá agradado, nos bastidores, a muitos países da região, bem como à NATO, aos EUA e a vários outros aliados. Um Irão nuclear seria um pesadelo no Médio Oriente. Nesta guerra o derrotado será sempre o regime iraniano. Azar do pai, mãe e padrinho de inúmeros grupos terroristas no mundo.

Paz e amor podia ser o refrão que se escutava nas ruas bem-comportadas de Londres desde os anos 1960, mas no número 430 da Kings Road, em Chelsea, gritavam-se outras palavras de ordem: um par de renegados, fascinados pela rebeldia, tinham aí aberto, em 1971, uma pequena loja de roupa que desalinhava a compostura britânica.

Vivienne Westwood e Malcolm McLaren batizaram-na de Let it Rock, mas a boutique iconoclasta conheceu outros nomes panfletários: Too Fast to Live, Too Young to Die (em homenagem ao ator James Dean); Sex (acrescentado do divertido slogan “roupa de borracha para o escritório”); Seditionaries – Clothes for Heroes (cruzando a estética sadomasoquista com o lema Do It Yourself); e Nostalgia of Mud, mais tarde transformado em World’s End – um último batismo profético, surgido do desencantamento de Vivienne com a canibalização do punk pelo mainstream, e que resiste até hoje.

Dama do caos Vivienne Westwood, reconhecida ruiva, aos 72 anos rapou o cabelo em protesto pelo ambiente. Foto: Andy Rain via LUSA

Lá dentro, existiram primeiro roupas para teddy boys influenciadas pela distorção da alfaiataria britânica. Depois surgiram t-shirts rasgadas, cabedais, fechos-éclaires em sítios inusitados, o símbolo “Joly Roger” com a caveira e ossos cruzados que sinalizava a cultura pirata, a borracha da cultura sadomasoquista – e um rato vivo numa gaiola. A boutique transfigurou-se num epicentro da subcultura londrina. “O país era um pântano de bege e nylon e a loja deles era um oásis. Era preciso liberalismo e bravura para usar aquelas peças na rua. Mas se se comprava roupa lá, não se ia a nenhum outro lugar”, descreveu Marco Pirroni, músico da banda Adam and the Ants, cujo cantor adotou um look de pirata desconstruído – a estética do primeiro desfile de moda de Vivienne em 1981-82.

Subverter o statu quo

Aos 31 anos, Vivienne Isabel Westwood, figura de olhos incendiários e cabelo loiro espetado-à-choque-elétrico, começou nesse espaço-palco a criar roupa, sem formação técnica, mas com uma tesoura nas mãos e sob a influência de McLaren, o segundo marido, manager de bandas punk rock como os New York Dolls e os incontroláveis Sex Pistols – o guitarrista Steve Jones e cantor Johnny Rotten eram clientes assíduos.

“Ela lembrava-se de uma rusga da polícia em que todas as t-shirts impressas com palavras fortes foram removidas da loja, enquanto as outras t-shirts que mostravam como fazer uma bomba ficaram sossegadas nas prateleiras”, recordou o filho de Vivienne e Malcolm, Joseph Corré.

Fundador da marca Agent Provocateur e ativista climático, também ele fez capas por ter queimado a coleção de memorabilia dos Sex Pistols, avaliada em seis milhões de libras, durante os festejos dos 40 anos do single Anarchy in the UK… para denunciar a cultura de consumo. Ao seu lado, pronta para atear mais um fósforo, estava a mãe.

As t-shirts de Vivienne Westwood nunca foram “apenas” t-shirts: formalmente desconstruídas com rasgões, alfinetes de ama, ossos de galinha, símbolos gráficos e purpurinas, eram também conceptualmente provocatórias e politicamente empenhadas. Ostentavam palavras confrontacionais como “perv” (perverso, pervertido), “rock”… Ou efígies da rainha Isabel II com a bandeira Union Jack em fundo, manchadas com as palavras “destroy” ou com a citação-canção dos Sex Pistols, God Save the Queen. Ou dispunham a suástica sobre uma imagem invertida do Cristo crucificado para a Anarchy Shirt (1977). Criações destinadas, dizia, a ser uma ferramenta para “desafiar a geração mais velha”, para dizer: “Nós não aceitamos os vossos valores ou tabus, vocês são todos fascistas.” Vivienne e McLaren chegaram a ser processados pelas autoridades britânicas, ao abrigo da lei de 1959 dedicada às publicações obscenas… O que só os levou a produzir ainda mais t-shirts provocatórias.

Três dessas t-shirts, datadas de 1976 e 1977, e que a curadora Anabela Becho acredita terem sido cosidas pela mão da própria designer, estão presentes na exposição Vivienne Westwood – O Salto da Tigresa: atrás da porta gradeada da entrada na sala dos cofres, e na penumbra, evocam uma matilha tensa.

Em frente, flutua outra peça simbólica: um espartilho, peça polémica associada à contrição do corpo feminino, odiada pelas feministas. “Vivienne fá-la subversiva, uma afirmação de tomada de controlo do próprio corpo pelas mulheres”, sublinha a curadora.

Moda e pintura Um vestido inspirado n’A Jangada da Medusa (1819) de Géricault: drapeados que evocam velas de navios, “cordas” comidas pelo sol. Foto: Luísa Ferreira

Com Westwood, o corpo feminino ganha novas geometrias, plongés, voluptuosidades: sobem os seios, exageram-se as ancas, as saias encurtam-se ao limite ou abalonam-se até ao excesso, (re)criam-se padrões tartã, traz-se à luz a lingerie, explora-se o drapeamento dos tecidos, ama-se roupa de piratas…

A provocadora Vivienne tem um amor pela História em geral, pela história da cultura e pela história da moda e do traje

anabela becho, curadora da exposição

À VISÃO, Anabela Becho recorda: “A provocadora Vivienne tem um amor pela História em geral, pela história da cultura e pela história da moda e do traje.” E dá exemplos: “Ao trabalhar uma modelagem que envolve o corpo de forma mais intuitiva e natural, ela vai recuperar a roupa interior do século XVIII. E faz referências à pintura de Boucher, à sociedade francesa e aos símbolos britânicos, ao rococó, à costura dos anos 1950, ao vegetalismo da natureza numa fase mais tardia… Westwood olhava para o passado, tinha um fascínio pela literatura, pela pintura, que via como uma forma de progredir e viver o presente.”

Lutas e tesouros

O Salto da Tigresa faz referência direta ao “salto do tigre” enunciado pelo ensaísta Walter Benjamin (1892-1940), à sua consciência de que a moda é um fenómeno representativo da modernidade: torna-se uma comodidade, suscita a ânsia pela novidade. Os poetas Baudelaire e Mallarmé também prestam atenção a este objeto de desejo e poder.

A exposição, intimista, organiza as peças em composições: Piratas modernos e crinolinas, Punks e espartilhos, Vive la cocotte, Bustiês e pérolas, Showroom, Tartãs e anquinhas, Anglomania, Cortes inconvencionais, Natureza. Um léxico acompanhado por peças de época vindas do Museu do Traje; por criações de designers que trabalharam a subversão das formas, como Elsa Schiaparelli ou Rei Kawakubo da Comme des Garçons, que sublinham a ambição e a escala da sempre punk Westwood. Há também preciosidades como uns sapatos de brocado com dedos desenhados da autoria da britânica, ou os dois livros, antiquíssimos, belíssimos, pertencentes à coleção particular de Calouste Gulbenkian.

Vivienne Westwood era um dos núcleos fortes das 19 coleções abrigadas no MUDE, este baseado na coleção Francisco Capelo: aqui, arrumam-se 23 coordenados e 20 acessórios, incluindo um par dos célebres Super Elevated Ghillie, sapatos plataforma com 30 centímetros de altura, que em 1993 derrubaram o perfeito gingar de Naomi Campbell na passerelle.

Sapatos de seda brocada e cabedal, coleção primavera/verão 2000. Foto: Luísa Ferreira

Esta exposição enquadra-se bem naquilo que Bárbara Coutinho, diretora do MUDE, diz ter sido uma das ideias-chave da programação no pós-reabertura do museu: “A discussão da identidade como conceito aberto em constante construção e redefinição. Vivienne Westwood é alguém que tomou a moda como uma ferramenta, um discurso ativista, político, ambiental, social, e que foi subvertendo uma série de cânones e estereótipos sociais e inclusive morais. As questões de género, a identidade sexual, o Brexit, o armamento, a falta de poder político sobre domínios financeiros, as catástrofes ambientais, a ausência de reconhecimento de direitos humanos… Ela atuou sobre tudo isto, subvertendo o sistema, mas fazendo parte deste.”

Vivienne resistiu ao sistema vigente, mas, ao mesmo tempo, mercantilizou a moda de rua: ela traz esses códigos mais revolucionários do punk e absorve-os completamente no sistema mercantilista

anabela becho

Também Anabela Becho aponta esta revolução feita por dentro: “Vivienne resistiu ao sistema vigente, mas, ao mesmo tempo, mercantilizou a moda de rua: ela traz esses códigos mais revolucionários do punk e absorve-os completamente no sistema mercantilista. E, por isso, até no final da sua carreira, há uns posicionamentos da criadora panfletários e até discutíveis: o ‘buy less, choose well, make it last’. Tudo bem, mas há um sistema da moda que se autoalimenta, e ela quer muito estar nesse sistema.”

“Estamos a enfrentar a ameaça de uma extinção em massa. E isso é-nos escondido porque os nossos governantes continuam a perseguir os seus interesses, foram treinados para pensar que as pessoas não compreendem o que é benéfico para elas”, declarou ainda a criadora nos seus últimos anos. E anunciou um downsize do seu império de moda em nome da sustentabilidade: qualidade em vez de quantidade.

Questionada sobre o que aconteceria aos que não podiam comprar roupa de designers, a três vezes distinguida Designer Britânica do Ano respondeu assim: “É algo difícil para as pessoas. Mas acho que não é bom elas irem simplesmente a um supermercado e regressarem com sacos e sacos de t-shirts baratas. Todo este consumo não é uma escolha real.” Andreas Kronthaler, o terceiro marido cuja juventude fez alguns levantarem as sobrancelhas, e que ela defendia como sendo “um talento” na moda e no jardim da casa comum, gere agora o seu império, mas a polémica instalou-se quando a neta de Vivienne, Cora Corré, o acusou em 2024 de intimidação e desrespeito pela estilista.

A história de Vivienne era a de todos os inadaptados: nasceu numa aldeia do bucólico Cheshire durante a II Guerra Mundial, filha de uma bordadeira e de um operário. Adolescente, já dessacralizava o uniforme da escola, subvertendo as saias de pregas. Abandonou um curso de joalharia na Universidade de Westminster. “Eu não sabia como é que uma rapariga da classe trabalhadora poderia alguma vez fazer uma carreira no mundo da arte.” Tentou o conformismo: trabalhou numa fábrica, foi professora de escola primária, consolou-se a vender bijutaria na feira de Portobello Road, fez o seu vestido de noiva quando se casou com o piloto de aviação Derek Westwood, e deu à luz um filho, Ben Westwood (fotógrafo erótico e criador de moda alternativa).

O punk revirou-lhe os planos e, muitos desfiles depois, quando Vivienne foi sagrada “Dame” por Isabel II de Inglaterra, rodopiou para as fotografias: não tinha roupa interior. “Acho que a rainha achou graça”, disse a subversiva.

Vivienne Westwood – O Salto da Tigresa > MUDE > R. Augusta, 24, Lisboa > T. 218 171 892 > até 12 out, ter-qui 10h-19h, sex-sáb 10h-21h, dom 10h-19h > €11 a €15, grátis para residentes no concelho de Lisboa sex a partir das 17h e dom 10h-14h

Amor, nostalgia, solidão e as marcas que a passagem do tempo deixa nas pessoas são abordados na primeira série criada e realizada por Wong Kar-wai, temáticas que também cruzam os argumentos de dois dos seus filmes, Disponível para Amar (2000) e 2046 (2004), encerrando assim uma trilogia com um tributo à cidade onde nasceu há 68 anos.

A série Blossoms Shanghai – uma produção que durou três anos durante a pandemia e já foi transmitida na China no final de 2023 – é a adaptação de Blossoms (2013), romance escrito por Jin Yucheng, vencedor do Prémio Mao Dun de Literatura (2015). Uma obra inédita em Portugal, considerada pelo seu tradutor para inglês, John Balcom, um retrato político e histórico da Xangai do século XX, que conta as vidas de várias personagens de diferentes classes sociais durante um dos períodos mais tumultuosos da História moderna.

É no ambiente vibrante de néons dos anos 1990 da maior cidade chinesa que o espectador acompanha, ao longo de 30 episódios (45 minutos cada) – ficam ainda 15 por estrear na Filmin – a ascensão de Ah Bao (Hu Ge) que sobre negócios tudo aprende com o seu tio Ye (Benchang You). A bolsa de valores de Xangai está prestes a abrir, em dezembro de 1990; até então, o mercado de ações funcionava num balcão de rua e era preciso aprender a perder.

Segue-se um boom económico que o tornará milionário, um “Grande Gatsby”. Estilo, teatro e boas relações determinariam a ascensão do jovem depois de perder tudo durante a Revolução Cultural, até ser o Senhor Bao. Uma transformação pessoal e social que contou com três mulheres ao seu lado. Miss Wang (Yan Tang), por quem passam todas as suas transações internacionais, representa a honra e o passado tradicional de Xangai; Ling Zi (Yili Ma), mulher da noite, simboliza a aventura e a ousadia; e Li Li (Zhilei Xin), o amor e a inocência.

Desafios e traições, oportunidades, riscos e rivalidades para gerir numa luta de corretores, a partir do momento em que uma mulher misteriosa abre um restaurante chamado Grand Lisbon.

Blossoms Shanghai > Estreia 17 jun, ter (cinco episódios) > 15 episódios, cinco novos por semana (24 jun, 1 jul)

Grande Gatsby

Contra o genocídio da Palestina, contra a passividade perante as alterações climáticas, contra Donald Trump. Charli , Anohni e Fontaines, os grandes concertos do primeiro dia não esconderam o desconforto perante o estado do mundo e manifestaram-no, de forma diferente: uns mais politizados, outros mais sóbrios.

O segundo dia do festival mais variado entre rock, pop/MPB (Anavitória), com outros públicos mais  divertidos com Beach House, TV on The radio, Amine, Central

O Primavera  Sound continua a ser um festival que junta várias gerações, com muita alegria.

Há um dia intensivo de campanha – ou pré, pré-campanha para sermos mais justos – pela frente, mas à porta do centro de dia de Tercena não se avista nem uma bandeira ou qualquer outro tipo de alarido típico destas ações políticas. Percebemos logo que o estilo de Ana Sofia Antunes, candidata pelo PS à Câmara de Oeiras, não rima com isso. Ela prefere ouvir, tocar, sentir os problemas do território, narrados na primeira pessoa.

A maior comitiva, aliás, é a que a recebe cá fora, desprotegidos do vento agreste que nos despenteia a todos. O diácono Carlos Borges preside ao centro paroquial de Barcarena, responsável por este centro e por mais alguns apoios sociais no concelho, como a creche a que iremos a seguir.

Por ora, estamos aqui a tentar perceber se as 40 vagas são suficientes para tanta procura. “Oeiras está a tornar-se bastante envelhecida, com 163 idosos por cada 100 jovens”, debita Ana Sofia, depois da visita, já no carro conduzido pelo motorista Vítor, que agora está em exclusividade ao seu serviço.

Cartazes A campanha da candidata do PS a Oeiras diz-se de proximidade, mas não deixa de lado os outdoors e eles já estão afixados em locais estratégicosdo concelho

Na sala, que também serve de refeitório, a TV está sintonizada na SIC, há caixas de puzzles em cima da mesa e trabalhos colados nas paredes, tal como nas escolas. As dez utentes (a esta hora só cá está um homem) sentam-se em cadeiras encostadas à parede, onde também se penduraram figuras religiosas. A candidata para no corredor de acesso e desata a questionar – Ana Sofia Antunes faz muitas perguntas e interessa-se mesmo pelas respostas.

A mala, de um branco pálido, nunca há de sair-lhe do ombro. A bengala está fechada em seis e presa entre os dedos de uma mão. Há sempre um qualquer amparo, por isso é raro abri-la para que anuncie os obstáculos que se atravessam a quem não vê. A socialista nasceu em 1981, com uma cegueira congénita. Mas não foi isso que lhe moldou a vida.

Depois de saber que, neste centro de dia, diariamente se negam pedidos de assistência, a ex-deputada avança pela sala adentro, no seu blazer branco Massimo Dutti, por cima de uma blusa de algodão verde, a fazer pendant com as calças também claras. “Quem é que vai ao Chi Kung?”, indaga para a dúzia de pessoas que a ouvem. Às vezes, personaliza, dirigindo-se diretamente a uma utente, guiada pelo som: “Dona Amália, que atividades gosta de fazer?”

Na lapela do casaco, vemos-lhe um microfone e então percebemos que o jovem videógrafo Hugo Nunes está de máquina ligada, a seguir-lhe os passos – redes sociais obligent. Afinal, o seu maior adversário, Isaltino Morais, é o rei do Instagram… Por enquanto, Ana Sofia mantém o seu Facebook pessoal, com quase 5 mil amigos, e criou um perfil no Instagram, mais ainda só tem 12 publicações e 244 seguidores.

Antes de sair do centro de dia, arranja-se tempo para uma fotografia de grupo, pois entretanto chegaram muitos mais utentes e estão todos animados com o interesse da candidata – a alguns dá-lhes até abraços apertados. Só então, Rita Mourinho, a técnica de animação que há seis anos tenta entretê-los, resume: “Esta senhora é candidata à câmara e anda a conhecer os espaços de Oeiras. Tirou a manhã para nos visitar.” Alguns dizem que a reconheceram da televisão, outros ficam absolutamente indiferentes a esta informação.

Ana Sofia sai com os dedos em vê de vitória e atira: “Meus queridos…”

Não há creches para todos 

Dos mais velhos passa agora para os mais novos. E não há de ser por as crianças da creche da Quinta da Politeira, gerida pelo mesmo centro paroquial, e inaugurada em 1998 por Isaltino Morais, não votarem se não daqui a dez anos que a candidata investe menos da sua disponibilidade com eles.

Apesar de pouco passar das 11 da manhã, os mais pequeninos já estão à mesa, de babete de plástico ao pescoço, a ouvir uma canção, antes de comerem a sopa. Ana Sofia desce ao nível das suas cadeiras, fica de cócoras e tenta conversar com os meninos. Não tem grandes respostas, apenas espanto.

Já na sala dos 3 e 4 anos, a advogada (tem o curso, mas pouco exerceu) põe-se de joelhos no chão para falar com os alunos. Quando recebe feedback, acaba por sentar-se num tu cá, tu lá típico de quem tem uma filha que saiu há pouco do pré-escolar. “O que estiveram a fazer esta manhã?” A algazarra instala-se, quando todos querem responder ao mesmo tempo.

É na sala do pré-escolar que tem mais retorno, depois de os meninos de 5 e 6 anos acabarem de cantar uma canção. “Ah, cantam muito bem! Quem vos ensinou esta música?”, pergunta, agora sentada numa cadeira de tamanho mini e pedindo silêncio. Não se sente pressa nesta visita e isso agrada às diretoras técnicas, Rita Soares e Maria Adelaide Pereira, que vão traçando a realidade do concelho, onde não existem vagas suficientes para todos os que precisam delas.

Lamenta-se que Isaltino Morais não tenha ido buscar um cêntimo aos dinheiros do PRR para criar mais lugares em creches públicas.

“Gostei muito de vos conhecer. Beijinhos a todos.”

Sem panfletos ou bandeiras

De Leceia, partimos para o centro da vila, usando o autocarro, viagem que se prevê durar 30 minutos. Esperamos num banco de madeira, ao sol, junto a uma padaria que tem uma providencial máquina de café que nos serve a todos, necessitados, enquanto o 1601 não chega.

“Não existem boas ligações dentro do concelho, falta transporte de proximidade para que as pessoas deixem de andar de carro”, afiança Ana Sofia, secundada pelos dois socialistas que a acompanham neste dia, Teresa Sá Pereira, moradora em Linda-a-Velha e Jorge Rato, que dirige a campanha e vive em Carnaxide. “Oeiras tem muita coisa boa, de facto, mas existem outras que podiam ser melhores, especialmente no setor social. Além disso, o concelho está desenhado para o automóvel”, nota o político, que já teve vários cargos governamentais e municipais.

Teresa, 68 anos, reformada, não poupa em palavras elogiosas em relação à candidata do seu partido, que não conhecia até março, quando se anunciou que entrava nesta corrida: “Está aqui todos os dias, cada vez mais informada. Captou a realidade, mas não anda a distribuir planfletos nem a abanar bandeiras – está realmente interessada em conhecer o que se passa no concelho.”

Dias intensos A mais de três meses das autárquicas, a agenda da socialista divide-se entre freguesias, sempre com foco nas questões sociais

O antigo SATU, que faliu e nunca cumpriu o seu propósito, está de novo na ordem do dia. Há agora um projeto para transformá-lo numa espécie de metro de superfície, com ligação à linha de Sintra, por Barcarena. Ana Sofia torce o nariz a este traçado, mas vai ouvir a outra câmara envolvida para ter certeza da sua posição.

Aproveita-se a deixa para abordar outro dos temas quentes de Oeiras: a falta de estacionamento e o trânsito intenso. “Há muita construção de uma época em que ainda não se faziam garagens. Por isso, achamos que se deviam aproveitar alguns terrenos municipais para estacionamentos verticais”, defende.

A viagem, afinal, demorou 20 minutos e assim chegamos antes da hora ao restaurante do almoço, a Taberna.

“Todos contam”

A mesa está posta na esplanada e há lugar para 15 pessoas. Quem tomou conta da ocorrência foi Bruno Magro, atual presidente da Comissão Política Concelhia, mas também quiseram estar presentes o seu antecessor e vários candidatos a presidentes de junta. O almoço é de trabalho, embora o ambiente seja descontraído.

Ana Sofia aproveita o momento de pausa para pôr as mensagens em dia, de auricular no ouvido. O iPhone que utiliza já traz um sistema que transforma tudo em som e é assim que ela o usa com enorme destreza. O ecrã nunca deixa de ficar escuro. “Habituei-me a ter o telefone assim, na assembleia, porque sentia que as pessoas olhavam para o que estava a fazer. Na realidade, não preciso de ter o ecrã ligado para nada…”, revela, deixando escapar algum gozo.

Quando chega o seu bitoque, safa-se sozinha, sempre com a ajuda das mãos para evitar que a comida se espalhe na mesa. Não deixa uma migalha, nem dentro nem fora do prato. Acompanha a refeição – e a conversa – com um refrigerante à base de chá, que serve com os mesmos truques que foi aprendendo ao longo da vida para não depender de ninguém.

“Todos contam”, lê-se num esboço de flyer com as principais propostas que afinal será distribuído a partir de dia 21, sábado, quando for a apresentação pública da candidatura, com a presença do mais que provável novo líder do partido, José Luís Carneiro. É também esse o slogan dos cartazes que já estão espalhados por sítios cirúrgicos do concelho. Do desaire das eleições de dia 18 de maio, ninguém fala. Agora, são as autárquicas que importam e é por isso que Ana Sofia aproveita para perguntar aos potenciais presidentes de junta aqui presentes (atualmente não há nenhum do PS) o que cada um gostaria de mudar no seu território. “Há uma assimetria muito grande entre freguesias”, frisa a candidata, antes de apanhar boleia de Bruno Magro para a próxima paragem.

Não vai largar Oeiras

Quando descobriu que o Direito não era o que queria para a sua vida, Ana Sofia apostou na veia ativista que a sua condição sempre alimentou. Chegou até a ser presidente da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), ao mesmo tempo que entrou para a Câmara de Lisboa com a missão de ajudar na elaboração do plano de acessibilidades. Em 2015, entrou no governo, pela mão de António Costa, e só então se filiou no partido socialista. Nunca mais quis outra coisa do que a vida política.

Chegamos ao bairro do Espargal e esperam-nos dois dos dirigentes da associação de moradores Assim Não, com um dossier debaixo do braço. A conversa acontece no passeio, de pé, bem perto do terreno que já chegou a prever a construção de duas torres de 19 andares. Esta parcela, perfeitamente orientada para o Parque dos Poetas, pertencia à câmara, mas foi vendida por 14 milhões de euros. “Depois de se alienar o terreno para os privados, permitiu-se a criação de uma barreira arquitetónica, sem explicações”, lamenta José Bandeira, o presidente da associação. “A nossa ação é apartidária, mas ficamos muito contentes por nos terem vindo ouvir. É a primeira vez que o PS o faz.”

“Não existem boas
ligações dentro
do concelho, falta
transporte
de proximidade
para que as pessoas
deixem de andar
de carro”, afiança
a candidata do PS

Bruno Magro, presidente da concelhia, desculpa-se, dizendo que conhecia bem o projeto e que orientou o partido para votar contra ele na Assembleia Municipal. E assim, o tema da habitação e a falta de acesso a ela volta à tona, bem como o problema do excesso de carros, que só piorará com esta construção. “Oeiras já não se mexe, a única via de escoamento é a Marginal e os acessos à A5. Não há soluções para a mobilidade”, lamenta a candidata.

A partir de 2023, a contestação por parte dos moradores subiu tanto de tom e a todas as instâncias que se conseguiu que os “mamarrachos” passassem a um e que esse ganhasse perfil horizontal, o que significa não crescer mais do que os nove andares.

Ana Sofia Antunes pasma-se com esta história, depois de colocar todas as perguntas sobre o assunto aos entendidos: “Como se podem dar ao luxo de vender este terreno, quando se lhe deveria dar outro fim? Um equipamento desportivo, de lazer ou social adequava-se perfeitamente a estas características”, nota.

Embalados pelo som das gaivotas a grasnar por cima de nós, solta-se o verbo para apontar o dedo ao que está mal em Oeiras. A saber: não há oferta cultural, não existe turismo, o número de automóveis é incomportável, faltam ligações de transporte entre as freguesias… Dá ideia de que a conversa podia alongar-se até à noite. Mas a agenda tem de ser cumprida e a proteção civil aguarda por uma reunião.

Discretamente, Hugo Nunes desvia Ana Sofia da encalorada conversa para um ponto estratégico em frente ao terreno da discórdia. É aqui que ela grava um vídeo, uma e outra vez até ficar no ponto, com frases sérias, sem margem para espalhafato: “Esta é questão de fundo com a qual discordamos.” O curto registo irá para as redes sociais e será a prova dos nove da diferença de estilos entre o atual presidente da câmara e a candidata do PS. Mesmo que não ganhe, avisa desde já, não vai largar Oeiras.

“Nem tudo se resolve com alcatrão e betão”

Oeiras não é a sua casa, mas por estes dias anda a auscultar as pessoas no concelho, sempre com o foco nas questões sociais

O que a levou a aceitar esta corrida a Oeiras?
No governo, estava habituada a um trabalho muito executivo. Na AR, estava desmotivada, pois o que fazemos lá é pouco concreto. Além do mais, o ambiente não era bom. Os acontecimentos com o Chega levaram-me a pensar no que estava ali a fazer. Por isso, o desafio por parte do PS veio mesmo a calhar. Sei perfeitamente o que implica esta candidatura, não sou inconsciente. 

Como vai marcar a diferença?
Não estou contra ninguém, nem esperem que vá fazer lavagem de roupa suja ou que ande na rua com a ideia panfletária de que tudo está fantástico em Oeiras. Isso não é para mim. Mas sei que ao fim de tanto tempo, o projeto esgota-se. Há 40 anos, estava eu a entrar no pré-escolar. Há mais Oeiras do outro lado da A5 e existem condições financeiras para fazer melhor. Nem tudo se resolve com alcatrão e betão.

Nota-se que o setor social é uma das suas prioridades…
É defeito profissional, pois foi a área que mais trabalhei nos dez anos em que estive no governo. No campo da habitação, por exemplo, as respostas são muito limitadas. Há construção, mas apenas a preço elevado. Não há alternativas da câmara de intervenção social nem de habitação colaborativa. 

Para já, o que anda a fazer nas ruas?
Sou uma pessoa de causas, pois tive de me impor na vida, sob pena de a vida se impor a mim. Gosto de ir ao terreno e perceber o que faz falta às pessoas, estar nas IPSS, nos agrupamentos de escolas, nas unidades de saúde familiar. Só depois irei alinhavar as principais propostas em cada área, validando as prioridades com os munícipes. Já fizemos o primeiro debate para recolha de depoimentos, para que não seja só a avaliação da minha equipa a contar.

Palavras-chave:

Pode um jogador de futebol jogar mais de 70 jogos ao mais alto nível num só ano e ninguém achar que há aqui alguma coisa que não está a bater certo? A verdade é que pode. E até há um caso que os portugueses conhecem bem, o do argentino Nicolas Otamendi, que, desde junho do ano passado, já tinha disputado, até à última segunda-feira, 9, pelo Benfica e a seleção do seu país, 69 partidas, repartidas pela Copa América, Jogos Olímpicos, qualificação para o Mundial 2026, Liga portuguesa, Liga dos Campeões, Taça de Portugal e Taça da Liga. E ainda poderá juntar a este número mais oito desafios, caso tenha alinhado na madrugada de dia 10 pela Argentina e se atuar, como se espera, em todos os jogos que o Benfica vai disputar no Mundial de Clubes, que serão pelo menos três, mas podem, em caso de uma pouco provável (mas teoricamente possível) ida à final, ser, no total, sete.

Primórdios Antes da globalização do fenómeno televisivo, o futebol chegava aos adeptos pela rádio e pelos jornais

Será humana e fisicamente correto exigir que um atleta (ainda para mais este, que caminha já para os 38 anos) despenda tamanho esforço? A questão divide opiniões e há quem a resolva facilmente, alegando que os jogadores só o fazem porque querem e, a este nível, ganham o suficiente para justificar o tremendo esforço que lhes é exigido. Os mais preocupados, consideram que esta exposição dos jogadores à fadiga física e mental é desumana, propiciadora de lesões graves, e que só se consegue explicar pela ganância desmedida das instituições que gerem o futebol mundial, aliada aos interesses financeiros de federações, proprietários de clubes, patrocinadores e operadores televisivos. Só assim se justifica que, às já habituais e exigentes competições nacionais e continentais de clubes, a que se somam as provas de seleções, a FIFA tenha vindo acrescentar um Mundial de Clubes e que o tenha encravado entre o fim e o início de duas temporadas, altura antes reservada às férias dos jogadores, que todos os especialistas consideram que não deve ser inferior a um mês.

Dir-se-á que este é o resultado inevitável do progresso e da transformação deste desporto, que apaixona milhares de milhões em todo o mundo, numa imparável máquina de fazer o dinheiro necessário para manter a engrenagem a funcionar e a satisfazer os interesses crescentes de todos os intervenientes. Algo com que os inventores desta modalidade e todos aqueles que, na primeira metade do século passado, o ajudaram a crescer e a chegar a todo o mundo, provavelmente, nunca sonharam.

De Inglaterra para o mundo

Sabe-se que o futebol nasceu em Inglaterra na primeira metade do século XIX. As regras escritas datam de 1830 e a primeira organização de clubes, a Football Association, surgiu, no mesmo país, em 1863. A mais antiga competição nacional organizada de que há registo é, precisamente, a FA Cup, a mítica Taça de Inglaterra, cuja edição inaugural decorreu em 1871. Tratava-se, na altura como na atualidade, de uma prova em que clubes de todo país se iam defrontando e eliminando até só sobrarem dois, que disputavam uma final para encontrar o vencedor.

Por cá, o futebol
jogou-se pela
primeira vez em
1875, na Camacha,
Madeira, com uma
bola trazida pelo
jovem britânico
Harry Hinton

Outras competições iguais foram surgindo, nos anos seguintes, nas ilhas britânicas. Primeiro na Escócia (1874) e depois no País de Gales (1877) e só em 1888 surgiu a primeira Liga, na qual as equipas participantes se defrontavam todas contra todas, em duas voltas, até determinar um campeão: a equipa que somasse mais pontos no final de todas a jornadas. Esse primeiro campeonato nacional surgiu, claro está, em Inglaterra. No resto da Europa, o fenómeno tardou a chegar. Em Itália aconteceu em 1898, na Alemanha em 1903, e em Espanha apenas em 1928, apesar de a Copa d’el Rey já se realizar desde 1903.

Por cá, o futebol jogou-se pela primeira vez em 1875, na Camacha, Madeira, com uma bola trazida pelo jovem britânico Harry Hinton, mas só em 1914 surgiu a primeira forma de associativismo nacional, com a União Portuguesa de Futebol, que juntava as associações de clubes do Porto, Lisboa e Portalegre. Em 1922 realizou-se a primeira final do Campeonato de Portugal, disputada entre o campeão do Porto e o de Lisboa. Apenas em 1926 foi criada a Federação Portuguesa de Futebol, que, só em 1938, passou a organizar o Campeonato Nacional e a Taça de Portugal.

No resto do mundo, só mais tarde começaram a surgir competições nacionais de clubes, embora, no que toca a seleções, já em 1916 se realizava a Copa América, competição organizada pela CONMEBOL (Confederação Sul-Americana de Futebol) e que foi pioneira nas provas continentais entre equipas nacionais, fora do âmbito dos Jogos Olímpicos, em que o desporto-rei começou a ser jogado logo em 1900, mas apenas por jogadores totalmente amadores e fora da alçada da FIFA, que viria a ser criada em 1904.

Primeiro Mundial

Foi a partir da determinação do francês Jules Rimet, terceiro presidente do organismo que passou a regular e organizar o futebol em todo o mundo, que se realizou, em 1930, a primeira edição do Campeonato do Mundo de Futebol. Antecipando a exclusão, em 1932, deste desporto do cardápio olímpico dada a sua fraca popularidade nos Estados Unidos da América, Rimet convenceu o Uruguai, a maior potência futebolística mundial à época, e país que celebrava o centenário da sua independência em 1930, a organizar um torneio e a custear as viagens e despesas das seleções participantes, inclusive das quatro (Bélgica, Jugoslávia, Roménia e França) que tiveram de atravessar duas vezes o Atlântico de barco.

Pioneiro Jules Rimet, que aqui segura a taça com o seu nome, foi o grande impulsionador do primeiro Campeonato do Mundo. Passo decisivo para transformação do futebol num desporto planetário, disputado por estrelas que encantaram multidões

Desde então, e apenas com uma interrupção, entre 1938 e 1950, por causa da II Guerra Mundial, de quatro em quatro anos, o mundo trava a sua marcha para assistir àquela que se foi transformando, ao longo do tempo, na competição desportiva mais popular do planeta. Após vários anos em que apenas países europeus e sul-americanos organizavam o torneio, com a chegada do brasileiro João Havelange à presidência do organismo mundial, que chegou a ter mais filiados do que as Nações Unidas, dá-se a globalização do futebol, a reboque da melhoria tecnológica que permitiu as transmissões televisivas para todo o mundo.

Na tentativa de chegar a adeptos e, sobretudo, a mercados em todo o planeta, Havelange e o seu fiel escudeiro Sepp Blatter levaram o Mundial de Futebol até à América do Norte (EUA, em 1994), à Ásia (Coreia do Sul e Japão em 2002) e África do Sul (2010). Mais recentemente, em 2022, já com Gianni Infantino à frente da FIFA, o futebol jogou-se no Catar e, no próximo ano, regressa à América do Norte, numa competição que se vai disputar entre os EUA, o Canadá e o México e contará com a participação de 48 seleções. Mais para a frente, em 2030, África entrará outra vez na lista de organizadores, através de Marrocos, num torneio organizado em parceria com Espanha e Portugal, para que, em 2034, seja a vez da Arábia Saudita. Um trajeto que fez do futebol um fenómeno verdadeiramente global, mas que também revelou a permeabilidade dos organismos às pressões políticas e à corrupção em larga escala.

“Furo” jornalístico

Apesar de ter sido no Velho Continente que o futebol nasceu, a verdade é que o primeiro Campeonato da Europa só se realizou em 1960. A ideia até surgiu em 1927, da cabeça do então secretário-geral da UEFA, Henri Delaunay, mas a grande depressão de 1929 e, depois, a II Guerra Mundial obrigaram a adiar a competição, cuja primeira edição já só veio a ocorrer após a morte do seu ideólogo. Ainda assim, muito a tempo de, com o andar dos anos, se tornar também um dos maiores acontecimentos desportivos globais, apenas atrás do Mundial. Começou por ser um torneio com apenas quatro equipas participantes e foi crescendo, atingindo o atual número de 24 a partir de 2016, precisamente o ano em que Portugal conquistou o seu primeiro e até agora único título de campeão europeu.

Foram dois jornalistas do jornal francês L’Equipe,
Jacques Ferran e Gabriel Hanot, que idealizaram
a Taça dos Campeões
Europeus, a atual
Champions League

Mas antes do aparecimento do primeiro torneio europeu de seleções (as primeiras edições, até 1968, chamavam-se Taça das Nações Europeias), já o futebol do Velho Continente mostrara capacidade de se organizar e de criar uma grande competição internacional. Inspirados pelo sucesso, em 1948, do Campeonato Sul-Americano de Campeões, dois jornalistas do jornal desportivo francês L’Equipe, Jacques Ferran e Gabriel Hanot, idealizaram uma competição que reunisse os 16 campeões de 16 países europeus, que disputariam eliminatórias a duas mãos até apurar dois finalistas, dos quais sairia, anualmente, o Campeão Europeu. Chamaram-lhe a Taça dos Clubes Campeões Europeus e o projeto foi prontamente aprovado pela UEFA e a FIFA, tendo a sua primeira edição decorrido na temporada de 1955/1956. Por curiosidade, assinala-se que o primeiro jogo desta competição foi disputado, em setembro de 1975, entre o Sporting e o Partizan de Belgrado, e que, nas sete primeiras edições, a prova só conheceu dois vencedores, ambos da Península Ibérica: o Real Madrid, por cinco vezes, e o Benfica, nas outras duas. O sucesso alcançado fez com que os sul-americanos se rendessem ao modelo da competição, tendo criado, em 1960, a Copa Libertadores da América.

Depois disso, a UEFA continuou a evoluir nos seus modelos competitivos de clubes e foi criando novas provas que permitiam envolver mais equipas. Primeiro, absorveu a Taça das Cidades com Feiras, que se disputava fora da sua alçada e criou a Taça UEFA. A Taça das Taças passou a reunir os vencedores das respetivas Taças nacionais. Posteriormente, todas elas acabaram por ser reconfiguradas para o modelo que conhecemos atualmente.

Liga milionária

Perante a necessidade de incrementar as receitas (as das federações e clubes, mas sobretudo as suas próprias), a UEFA operou, em 1992, o início de uma autêntica revolução no futebol europeu. A Taça dos Campeões foi substituída pela Liga dos Campeões, uma competição que passava a ter uma fase de grupos em que cada equipa realizava seis jogos e, depois, continuava para sucessivas fases eliminatórias até à final. A ideia era proporcionar mais jogos entre as melhores equipas da Europa e oferecer-lhes a oportunidade de ganhar mais dinheiro, não só das receitas de bilheteira dos jogos em casa mas, sobretudo, através dos prémios de participação e desempenho que a UEFA distribuía a partir da centralização dos direitos publicitários e de transmissão televisiva. O modelo foi um sucesso e acabou por ser alargado não apenas aos campeões mas a várias outras equipas, que passaram a ter acesso não só por vencerem o respetivo campeonato mas também em função da posição que o seu campeonato ocupa no ranking da UEFA.

Cromos Desde cedo, o futebol foi gerador de novos negócios, captando o interesse dos colecionadores até aos nossos dias

Com esta possibilidade de ter uma prova que inclui, anualmente, os quatro melhores de Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália ou França, e de até países como Portugal ou a Holanda poderem contar com mais do que um participante, a UEFA criou a mais aliciante competição futebolística mundial e uma máquina, anual, de fazer dinheiro. Não é por acaso que lhe chamam a Liga Milionária.

Posteriormente, numa espécie de segunda e até terceira divisões europeias, foram criadas a Liga Europa e, mais recentemente, a Liga Conferência, que abrem portas a clubes de menores dimensões ou que não conseguem ter acesso à Champions, distribuindo também importantes prémios pelos participantes. Um modelo vencedor que acabou replicado por quase todas as confederações mundiais. A Copa Libertadores e a Sudamericana, na América do Sul, ou a Taça dos Campeões Asiáticos são disso exemplo.

Génio português

Apesar deste sucesso no que dizia respeito às competições de clubes, a UEFA percebeu que o negócio a nível das seleções estava a ser desaproveitado. Apenas com Europeus ou Mundiais de dois em dois anos, sobravam ainda datas livres, que as federações nacionais se esforçavam para ocupar com jogos de caráter amigável ou de preparação. Sempre sem qualquer interesse competitivo, na maior parte dos casos com adversários pouco exigentes e, por essa razão, pouco ou nada vantajosos em termos financeiros.

O Mundial de Clubes, que se realiza entre 14 de junho e 13 de julho nos
EUA, vai distribuir
930 milhões de euros em prémios pelas 32 equipas participantes

Foi nessa altura que surgiu uma ideia de génio de um português. Tiago Craveiro, à época diretor-geral da Federação Portuguesa de Futebol e acompanhante assíduo na UEFA do presidente Fernando Gomes, idealizou a Liga das Nações. A ideia era aproveitar as datas que a FIFA destinava para jogos de seleções e inventou uma competição organizada em grupos, de acordo com o ranking das seleções. Cada um desses países luta por se manter ou subir de escalão, sendo que o mais alto dá acesso a disputar o troféu final. Com isso, promoveu jogos mais competitivos entre equipas de valia idêntica, atribui-lhes ambição competitiva e, mais importante do que tudo isso, criou uma prova que, à semelhança da Champions League, atrai milhões em receitas publicitárias e direitos televisivos. Uma ideia revolucionária que, além de muito dinheiro, deu a Portugal a oportunidade de erguer já por duas vezes o troféu. Logo na primeira edição, realizada em 2019 em Guimarães e no Porto, e no último domingo, 8, em Munique, diante da Espanha.

O jackpot de Infantino

Vendo o sucesso das operações que a UEFA tem conseguido implementar, o presidente da FIFA começou por cobiçar a ideia da Liga das Nações, esperando poder transformá-la numa competição mundial. Os apertados calendários competitivos atuais é que já não permitiam que tal acontecesse. Virou-se, então, para os clubes, sempre ávidos de mais receitas. E acenou-lhes com uma competição em tudo idêntica ao Campeonato do Mundo de seleções, mas na qual participam, por convite, apenas as principais equipas (definidas a partir de um ranking histórico) dos países mais representativos do futebol mundial.

De Portugal, nesta primeira edição, vão o Benfica e o FC Porto, sacrificando, para isso, grande parte do defeso, aquelas semanas entre temporadas que os jogadores têm para recuperar e os clubes para preparar a época seguinte. Em contrapartida, esperam regressar com os bolsos recheados. Com um bolo total de prémios de quase 930 milhões de euros em jogo, a verdade é que as equipas participantes vão ter ali um belo reforço de tesouraria. No caso dos clubes portugueses, só pela participação, o FC Porto recebe €16,7 milhões e o Benfica amealha €14,6 milhões, de acordo com a respetiva posição no ranking. Depois, na fase de grupos, cada vitória vale €1,85M e o empate rende €926 mil. A partir daí, vencer os oitavos-de-final dá €6,95M, os quartos dão €12,16M, a meia-final rende mais €19,46 e, na final, o vencido fica com €27,8M e o vencedor leva €37M.

Mesmo não sendo previsível que qualquer uma das duas equipas possa aspirar a ir muito longe na competição, a verdade é que qualquer brilharete dará, facilmente, a qualquer uma delas a hipótese de regressar a casa com, pelo menos, uma verba a rondar os 25 milhões. É muito dinheiro, para uma espécie de torneio de pré-época em esteroides.

Jogos de FC Porto e de Benfica*

* Horários de Portugal. Transmissão gratuita nos canais DAZN

GRUPO A:

Domingo, 15 jun:
Palmeiras, Bra – FC Porto, Por (Nova Iorque), 23h00

Quinta-feira, 19 jun:
Inter Miami, EUA – FC Porto, Por (Atlanta), 20h00

Segunda-feira, 23 jun:
FC Porto, Por – Al Ahly, Egi (Nova Iorque), 02h00 de 24 de jun

GRUPO C:

Boca Juniors, Arg – Benfica, Por (Miami), 23h00

Sexta-feira, 20 jun:
Benfica, Por – Auckland City, Nzl (Orlando), 17h00

Terça-feira, 24 jun:
Benfica, Por – Bayern Munique, Ale (Charlotte), 20h

Jornais impulsionadores

Foi a dois jornalistas do desportivo francês L’Equipe que se ficou a dever a ideia da Taça dos Campeões Europeus, agora Liga dos Campeões. Mas não foi apenas no futebol que o negócio dos jornais ajudou a criar grandes competições internacionais.

O Tour de France, a maior prova do ciclismo mundial, nasceu em 1903 por iniciativa de Henri Desgrange, antigo ciclista, e diretor do jornal L’Auto. A ideia era, obviamente, promover o jornal e aumentar as vendas. E resultou de tal forma que, rapidamente, teve seguidores na Europa.

Seis anos volvidos, surgiu o Giro de Itália que, por ter sido criado pelo jornal Gazzetta dello Sport, trocou a habitual cor amarela da camisola do vencedor pelo rosa, a cor das páginas daquele periódico desportivo. Foi também a publicação Informaciones que, em 1935, impulsionou a criação da Vuelta a Espanha. Por cá, já em 1927, tinham também sido vários jornalistas desportivos, do Diário de Notícias e Os Sports, a organizarem a primeira Volta a Portugal.

Verão quente

Benfica e FC Porto são os representantes portugueses na nova prova milionária, que reúne grandes campeões do futebol mundial

A competição vai realizar-se entre os dias 14 de junho e 13 de julho, em várias cidades dos Estados Unidos da América, decorrendo como um campeonato do mundo de seleções. Ao todo, estarão em competição 32 equipas dos quatro continentes, divididas em oito grupos de quatro, que jogarão entre si para apurar as 16 equipas que irão disputar os oitavos-de-final. Daí para a frente, serão sempre jogos a eliminar, para determinar os dois finalistas que, a 13 de julho, vão defrontar-se no MeteLife Stadium de Nova Jérsia para encontrar o primeiro clube a sagrar-se campeão do mundo.

Mesmo não sendo de prever que qualquer um dos dois clubes portugueses em competição consiga chegar a esta final, há a expetativa de que FC Porto e Benfica consigam fazer boa figura e, no mínimo, se apurem para a fase a eliminar da competição. Para o fazer, os dragões parecem ter tarefa mais facilitada, visto terem de defrontar os brasileiros do Palmeiras, os egípcios do Al Ahly e os norte-americanos do Miami FC, sendo que apenas os paulistas pareçam ser um perigo evidente para a equipa portuguesa. Já o Benfica, tem uma tarefa teoricamente mais difícil, pois terá pela frente Bayern Munique, Boca Juniors e Auckland FC. Se os neozelandeses até poderão ser presa fácil para as águias, já argentinos e alemães (sobretudo estes) poderão dificultar muito a tarefa dos encarnados.

A ver vamos em que condições chegarão Benfica e FC Porto a este início do verão, sendo que ambos se apresentarão na competição no seguimento de enormes frustrações. A crise dos Dragões ficou evidente ao longo de toda a época passada e o Benfica, apesar de ter lutado até ao fim, viu fugir-lhe das mãos, à última hora, Campeonato e Taça de Portugal para os eternos rivais do Sporting. Pela frente terão, também, o dilema de apostar tudo nesta competição em nome de um prémio o mais chorudo possível e uma eventual, mas dificílima, glória desportiva e, dessa forma, prolongar a participação na competição e a preparação da próxima temporada, que se inicia já no primeiro fim de semana de agosto, mês durante o qual o Benfica pode ter de realizar 9 jogos, entre uma final da Supertaça (contra o Sporting) e pelo menos uma pré-eliminatória (mas podem e espera-se que sejam duas) da Liga dos Campeões, além das quatro primeiras jornadas da Liga portuguesa.

Palavras-chave:

Dois gastrenterologistas explicam o que é a síndrome do intestino irritável, também conhecida como “colite nervosa” ou “cólon irritável”, quem é mais afetado, as causas, os sintomas e a forma como se trata. E deixam um alerta aos doentes: “Cuidado com as campanhas de desinformação com intuitos comerciais.”

1. O que é o intestino irritável e em que idade surge?

A síndrome do intestino irritável, também conhecida como “colite nervosa”, “colite espástica”, “cólon irritável” ou “doença funcional do intestino”, ocorre quando o tecido muscular do intestino é mais sensível e reage de forma intensa a dois estímulos quotidianos: a alimentação e o stresse. Esta disfunção leva a um atraso (obstipação) ou a uma aceleração (diarreia) do movimento intestinal, tendo como consequência a alteração na forma, na frequência e na consistência das fezes.

Como diz Paulo Ribeiro, gastrenterologista no Hospital Lusíadas Lisboa e na Clínica Longeva, é “uma doença da idade adulta”, com início acima dos 30 anos e atingindo “habitualmente mais mulheres do que homens em todo o mundo”. Estima-se que 10% da população portuguesa a tenha, chegando a 20% em alguns países.

Por causa deste elevado número, o médico deixa um alerta: “Estes doentes têm de ter cuidado por serem muitas vezes alvo de campanhas de desinformação com intuitos comerciais.”

2. Quais são as causas?

Não há uma causa única e ainda não se sabe porque acontece. “É um dos distúrbios mais comuns do tubo digestivo”, nota Ana Catarina Carvalho, gastrenterologista no Hospital CUF Viseu, sendo as causas multifatoriais. “Envolve fatores ambientais, genéticos e psicossociais”, diz, e é bastante frequente em pessoas com “ansiedade e depressão” ou após uma infeção gastrintestinal (gastrenterite).

Os mecanismos envolvidos na “sua génese”, continua a médica, incluem o aumento da sensibilidade intestinal à dor (hipersensibilidade visceral), “disrupção” do funcionamento adequado do eixo cérebro-intestino, alterações da “motilidade intestinal”, inflamação crónica da “mucosa intestinal” e alterações da microbiota.

3. Quais são os sintomas?

O sintoma mais comum é a dor ou o desconforto abdominal, associado à alteração nos hábitos intestinais, como diarreia e/ou obstipação. A distensão abdominal e a flatulência são também sintomas frequentes. Há doentes, observa Paulo Ribeiro, em que a doença está “associada a diarreia, noutros a obstipação e, noutro grupo, há uma alternância entre períodos de obstipação e diarreia”.

4. Como se trata?

Nas suas consultas, o médico Paulo Ribeiro começa sempre por explicar aos doentes como “funciona o intestino” e como tudo o que “fazemos e comemos” pode ter consequências. “É importante desmistificar a doença, que é uma coisa completamente diferente de desvalorizar a doença.” Não é mortal, mas os clínicos sabem que “causa, de facto, imenso desconforto”.

Para os pacientes em que a obstipação é mais recorrente, a “receita” é aumentar o consumo de água e fibras. Nos casos em que a diarreia está mais presente, deve evitar-se a ingestão de alimentos estimulantes que, normalmente, “o doente já sabe quais são”, acrescenta o médico.

A adoção de um estilo de vida saudável, que “fomente o bem-estar físico e psicológico”, acrescenta Ana Catarina Carvalho, é fundamental, já que o stresse e a alimentação podem agravar os sintomas.

Nos casos em que a alteração de hábitos não resulta, pode ser necessária a ajuda de medicamentos, sendo utilizados antiespasmódicos, antidiarreicos, laxantes, probióticos ou moduladores da dor.

5. Que alimentos devem evitar-se?

O “aconselhamento nutricional” nesta doença, atesta Ana Catarina Carvalho, é um “desafio”, já que muitos doentes associam o aparecimento dos sintomas à ingestão de determinados alimentos. “Não existe uma lista de alimentos a evitar e a estratégia nutricional a adotar é individual.” De acordo com a médica, “o aumento da ingestão de fibras e o consumo reduzido de hidratos de carbono facilmente fermentáveis” parecem estar associados a uma melhoria dos sintomas. Além disso, e embora não esteja esclarecido se o glúten agrava os sintomas, alguns doentes, diz, referem que melhoraram após a “redução da ingestão de alimentos ricos em glúten”.

Paulo Ribeiro aconselha uma “boa higiene alimentar”: comer com intervalos regulares, evitar grandes refeições, evitar estimulantes (cafeína, álcool, picantes e gorduras), beber 1,5 litros de água por dia, evitar refrigerantes com adoçantes e gás e estimular o exercício físico (tão simples como caminhar).

6. Como se diagnostica a síndrome do intestino irritável?

Existem normas padronizadas com base nos sintomas para que o diagnóstico seja feito, denominadas Critérios de Roma. A história clínica é fundamental para se tirarem conclusões e está relacionada com presença de “dor abdominal recorrente (igual ou superior a uma vez por semana)”, nota a gastrenterologista da CUF Viseu, associada a pelo menos duas destas características: dor no momento de defecar e dor devido à alteração da frequência das dejeções (diarreia, obstipação ou alternância entre ambas); ou dor por causa da alteração da consistência das fezes (sólidas ou líquidas).

A médica salienta que, em doentes com mais de 50 anos ou “sinais de alarme”, como perda de peso significativa, diarreia noturna ou perdas de sangue, devem ser feitos exames para excluir outras doenças.

7. Esta doença causa hemorragias anorretais?

Não. “Isto é de facto muito importante, pois alguns dos sintomas podem confundir-se com outras doenças graves do tubo digestivo”, explica Paulo Ribeiro.

(Artigo publicado originalmente na VISÃO Saúde nº 34)

Nasceu há 43 anos em Rabat, viveu em Paris e desde 2021 que está em Lisboa. Nesta entrevista à VISÃO, que decorreu na biblioteca do Museu Nacional de Arte Antiga, onde costuma escrever, Leila Slimani conta que achou em Portugal a “calma” e a “tranquilidade” que, na capital francesa, já não conseguia encontrar. Também diz que foi em Lisboa que voltou a ver o “horizonte” da sua infância marroquina. Ao publicar Levarei o Fogo Comigo, acabado de chegar às livrarias portuguesas numa tradução de Tânia Ganho, a autora completa uma trilogia sobre três gerações de mulheres que é também um retrato impressivo do mundo, da história de uma família e, em particular, da condição feminina nas últimas décadas. “Julgo que as mulheres não estão disponíveis para voltar atrás. Vão manter tudo o que conquistaram”, argumenta.

Chegou ao último volume da trilogia iniciada com O País dos Outros. O facto de este livro contar a história da sua geração tornou-o mais fácil de escrever ou, pelo contrário, foi o mais difícil?
Foi o mais difícil, mas não sei explicar porquê. Nem sei explicar porque é que tenho essa sensação. Não sei se tem a ver com a época que estou a relatar, com o assunto, ou se, simplesmente, se deveu ao meu cansaço, ao estado em que estava quando o escrevi. Mas a verdade é essa, este foi o mais difícil de escrever.

Tinha a trilogia pensada desde o princípio?
Mais ou menos. Tinha uma ideia das diferentes épocas que queria tratar, sabia quem eram os personagens principais, mas não tinha uma estrutura muito clara.

Escreveu-o, sobretudo, em Portugal?
Praticamente. Como viajo bastante, acabo sempre por nunca escrever um livro num só sítio, mas maioritariamente foi escrito aqui, sim. Também passei muito tempo nos Açores e em Cascais, numa residência na Fundação D. Luís I.

A trilogia acaba por ser a história de uma família durante décadas. Hoje, vê a família como um lugar de pertença, de refúgio e, ao invés, um lugar de conflito?
Para mim, é evidente que é as duas coisas. Por isso é que a família é um assunto da literatura e do cinema, em geral, um grande tema da história e da narração. A família é uma estrutura muito complexa. Também é uma estrutura política, na qual cada um desempenha o seu papel, tem dominadores, dominados, marginalizados… 

Relações de poder e de dependência?
Sim, claro, relações de domínio e de controlo. A família tem mesmo esses dois aspetos: também é o lugar onde nos sentimos bem, onde podemos encontrar um refúgio, onde podemos beneficiar de um amor incondicional. E é ainda, julgo, o lugar onde temos uma parte da nossa identidade, com uma língua comum, uma história comum, anedotas que todos conhecem… A família é tudo isso e, ao mesmo tempo, também pode ser uma fonte de alienação porque, como acontece em todos os grupos, pode apagar a nossa individualidade e os nossos desejos pessoais. 

Agrada-lhe a palavra “saga”?
Nem por isso… Não é uma palavra de que goste muito, mesmo que, quando era mais nova, tenha lido bastante aquilo a que habitualmente chamamos sagas. Não considero que tenha escrito uma saga porque esta tem códigos muito particulares, grandes eventos históricos, nos quais as personagens são envolvidas, histórias de amores forçados… Nas sagas, também costuma existir qualquer coisa de lírico – e os meus livros não têm, de todo, esse lirismo. 

Prendem-se mais com aquilo a que, habitualmente, chamamos “pequena história”.
Sim, gosto mais do lado que tem a ver com a intimidade das personagens. A estrutura que adoto também é, acho, bastante mais moderna. 

Para as suas mulheres, há sempre o mundo atual, que as faz avançar, e o mundo das tradições, que as identifica, que lhes cria raízes. Estão sempre entre estes dois mundos? 
Elas estão entre dois mundos porque vivem numa família especial: muito cosmopolita, aberta ao mundo e, ao mesmo tempo, com uma ligação muito forte ao país onde vivem, com um estilo de vida muito particular. Aquela jovem não consegue compreender o mundo, sente-se confusa porque não entende bem de que lado se encontra. Em casa, fazem-se e dizem-se determinadas coisas que, lá fora, são proibidas… Ela pertence a duas culturas e a dois países, mas sente-se perdida. Quando somos jovens, quando somos adolescentes, necessitamos de ter as coisas bastante claras, pois entendemos o mundo de maneira bastante radical. Precisamos de ser adultos, de ganhar maturidade, para compreender uma identidade que é bastante complexa, para sermos capazes de viver com ela. 

As mulheres não estão disponíveis para voltar atrás. Vão manter tudo o que conquistaram. Também tenho confiança nos homens das gerações vindouras que vão lutar pelos direitos delas

Ainda assim, elas têm muitas raízes, não estão perdidas.
Claro que têm raízes, toda a gente as tem, de resto. Só que depois também as construímos, cada um à sua maneira. Podemos ter uma visão muito conservadora, muito identitária. Mas raízes também são outras coisas: são as histórias que contamos, é aquela quinta, é a avó, é um modo de vida, são as músicas que se escutam com o pai… E é a escrita, que lhe permite voltar para aquela casa e tentar entender quais são as suas raízes.  

Não esconde que a emancipação destas mulheres é um dos temas da trilogia. São conquistas sem retorno?
Espero que sim, acredito que sim. Julgo, aliás, que as mulheres não estão disponíveis para voltar atrás. Vão manter tudo o que conquistaram, tudo o que conseguiram com tanta dificuldade. Como acontece em todas as lutas fundamentais, existem movimentos pendulares, dão-se dois passos à frente para, depois, dar um passo atrás. É verdade que fica sempre a sensação de que nunca é suficiente, a impressão de que se deveria evoluir mais rapidamente. Tenho muita confiança nas gerações vindouras. E tenho confiança não só nas mulheres, mas também nos homens, naqueles que vão tornar-se feministas, também eles lutarão pelos direitos das mulheres. 

O que vai escrever a seguir?
Não sei, de todo. 

Li que gostaria de escrever sobre qualquer coisa passada em Portugal.
Sim, é verdade, gostaria de escrever qualquer coisa que se passe em Lisboa. Mas ainda não tenho nenhuma ideia.

Há algum tempo que vive em Lisboa, a periferia da periferia da Europa, “o fim do mundo”, como já disse. O que encontrou em Portugal?
A tranquilidade, a solidão, a calma, o horizonte. Em Lisboa, vemos mais longe, temos horizonte…

Faz a comparação com França?
Sim, sobretudo com Paris. Já há muito tempo que não vivo em Marrocos… Embora Lisboa tenha muitas semelhanças com Marrocos… Muitas vezes, sinto-me como se estivesse em Marrocos. Para mim, Lisboa é Marrocos na Europa.

Quando faz essa comparação, fá-la sobretudo do ponto de vista cultural?
Não só, tudo aqui me parece igual. Em primeiro lugar, as pessoas. Quando olhamos para os portugueses, podiam muito bem ser marroquinos (e os marroquinos podiam muito bem ser portugueses). Depois, a língua, entendo muitas coisas, ouço muitas palavras árabes… Também encontro muitas semelhanças na relação com o tempo. Tal como os marroquinos, os portugueses sabem tomar o seu tempo. Já nada disso existe em Paris, onde toda a gente está sempre muito stressada, muito zangada, e é muito difícil arranjar tempo para marcar encontros, por exemplo. Acho que os portugueses ainda têm essa capacidade de usar o tempo, de aproveitar a vida de uma maneira que eu considero bonita e reconfortante. E, depois, a luz… A luz também é a mesma luz de Marrocos. Tudo isto me é familiar, remete-me para as recordações da minha infância.  

Também encontrou alguns desses sentimentos na literatura portuguesa?
Sim, a ideia do tempo… A literatura portuguesa é bastante melancólica, não é? A ideia da solidão também é muito profunda. Encontro ainda algumas semelhanças com Marrocos na questão do segredo, da ligação ao não dito, ao tabu…

Descobriu algum escritor português que a tenha surpreendido particularmente?
É uma pergunta muito abrangente, mas gosto dos textos da Isabela Figueiredo. Dizem-me muito… Também vejo muitas ligações com o meu trabalho, o corpo, o lugar da mulher…

A questão colonial?
Sim, a questão colonial, o exílio, os retornados…

Alguma vez se sentiu um estrangeiro?
Essa questão não se me coloca: sinto-me estrangeiro em todos os lugares e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum. Na verdade, nunca me questiono acerca de como os outros me veem. Isso não me interessa, só me interessa como me sinto interiormente. Mas, sim, na maioria das vezes, sinto-me um estrangeiro, embora isso não me incomode absolutamente nada. Acho até que é uma sensação muito boa, um sentimento de que gosto muito. Adoro ser estrangeiro, adoro não entender a língua, estar numa cidade onde nunca estive, sentir-me anónima, sozinha… 

Apesar de tudo, falamos de um lugar onde a tolerância se impõe, onde se respeitam as diferenças.
Sim, mas podemos sentir-nos estranhos na nossa própria casa, na nossa própria família.

Quando lhe perguntam quem é, o que responde?
Bem, digo que sou a Leila.

Apresenta-se como escritora?
Depende de quem pergunta [Risos]. Às vezes, sou a escritora; às vezes, sou a mãe dos meus filhos; às vezes, sou a filha da minha mãe; às vezes, sou a mulher do meu marido.

Franco-marroquina?
Sim, claro.

E gosta de viver entre mundos, entre línguas…?
Gosto da vida que escolhi ter, de estar sempre em viagem, em movimento, de estar sempre entre mundos. Gosto muito de viver entre mundos. 

Na escrita, é disciplinada?
No romance, sim, sou muito disciplinada. Quando estou a escrever, ocupo todo o tempo com a escrita, de manhã à noite. Nalguns períodos, durante duas semanas ou mais, também preciso de me isolar. Nessas alturas, é quando avanço mais rapidamente, concentro-me, fico sozinha e só escrevo. Os ensaios, apesar de exigentes, são um trabalho diferente.

Começou a publicar há cerca de dez anos, período durante o qual existiram enormes mudanças no mundo: mais cosmopolitismo, mais abertura e, ao mesmo tempo, mais desigualdade, mais exclusão, mais medo. Como olha para esta década? 
É verdade, o mundo transformou-se de uma maneira que nunca imaginámos, não tínhamos previsto nada do que aconteceu. Mas eu sou sobretudo muito prudente, faço por manter a distância porque há muitas coisas que não entendo. Penso que aos escritores compete escrever depois, precisamos de tempo, de distância para entender. Ao mesmo tempo, estou muito preocupada, irritada até, com algumas dessas coisas que estão a acontecer. Sei, claro, que as raízes do que está a acontecer são longínquas, profundas. E não tenho dúvidas de que, na minha geração, também cometemos erros muito grandes. Na forma, por exemplo, como imaginámos as nossas vidas, a nossa relação com a tecnologia. Esforço-me, sobretudo, por colocar perguntas. Perguntas essas para as quais ainda não tenho resposta. Acho, aliás, que o papel do escritor é o de fazer as perguntas certas. 

O escritor não deve concentrar-se na arte?
Na minha opinião, o escritor deve fazer o que ele bem entende. É um ser livre e, como ser livre, se sente necessidade de se envolver, de dar a sua visão do mundo, deve fazê-lo.

Em certo sentido, a sua trilogia também é política.
Claro que sim. A questão é que prefiro dizer o que tenho a dizer num livro do que num ecrã de uma televisão. A palavra não é a mesma. E eu prefiro reservar a minha palavra para os livros.

Devemos tentar compreender o motivo pelo qual as pessoas têm tanto desejo de vingança. Porque é que estão tão zangadas ou sentem tanta injustiça?

Foi membro do júri do Festival de Cannes deste ano. É possível observar o mundo a partir daquela seleção de filmes?
Entre as centenas de filmes selecionados, é possível tirar uma espécie de fotografia do estado do mundo, uma metáfora. Alguns dos temas que surgiram são muito atuais: houve muita reflexão sobre a violência e a corrupção, sobre a brutalidade das nossas sociedades, sobre o sentimento de solidão, sobre o medo de perder a integridade.

A propósito da ascensão das direitas radicais e da expansão das ideias nacionalistas, contrárias ao espírito do cosmopolitismo, fala-se cada vez mais no declínio das democracias ocidentais. Na sua opinião, estão mesmo em perigo?
Parece-me evidente que sim, que estão em perigo. Não estamos a salvo de assistir a um colapso das democracias nos países ocidentais. Basta olhar para o mais poderoso deles todos, para os EUA. Ou observar países como o Brasil, a Argentina ou a Índia, nos quais existem movimentos fascistas e nos quais as instituições democráticas foram atacadas diretamente. Também existe uma perda de confiança na democracia, no Estado, na educação, na justiça, na saúde… E, depois, nos países não democráticos, tudo isto os faz rir. Temos ditadores que se aproveitam da situação para dizer que, afinal, a democracia não funciona. Penso que vivemos um momento muito perigoso.

Também falta esperança, uma ideia de futuro?
Sim, mas, infelizmente, há um outro mundo que está a nascer e que, na minha opinião, deve ser combatido. Não penso, porém, que devamos concentrar-nos no julgamento das pessoas, dizer apenas que são estúpidas e que não percebem. Acho que devemos tentar compreender o motivo pelo qual têm tanto desejo de vingança, de brutalidade. Porque é que as pessoas estão tão zangadas ou sentem tanta injustiça? Porque é que estão desesperadas e querem ser lideradas por bandidos, por mentirosos, por populistas? É muito fácil, hoje em dia, acreditar que a culpa é dos imigrantes ou dos muçulmanos… Tudo isto são métodos antigos, velhas receitas… Durante séculos, disse-se às pessoas que a culpa é do estrangeiro. E sabemos como esses argumentos continuam a funcionar.

A trilogia

Depois de O País dos Outros e de Vejam como Dançamos, Leila Slimani completa a trilogia, inspirada na sua família, com Levarei o Fogo Comigo (Alfaguara, 402 págs., €21,95), através do qual seguimos a vida de Mia e Inès, a terceira geração dos Belhaj. Na capa do livro, uma foto da própria autora, com 18 anos, em Montmartre, Paris.