Com a venda do Novo Banco ao grupo francês BPCE, por um montante de 6,4 mil milhões de euros, o Estado português poderá encaixar 1,6 mil milhões de euros, mas o valor é muito inferior aos mais de 8 mil milhões de euros de capital público injetado na instituição que resultou da resolução do antigo Banco Espírito Santo (BES). O Estado detém cerca de 25% do Novo Banco através do Fundo de Resolução (13,54%), que poderá receber cerca de 866 milhões de euros, e da Direção-Geral do Tesouro (11,46%), que receberá 733 milhões de euros. Mas o fundo norte-americano Lone Star é que vai sair a ganhar, já que encaixa cerca de 4,8 mil milhões de euros pela venda da sua participação de 75% no banco. Em oito anos, prepara-se para multiplicar quase por cinco vezes o investimento de mil milhões de euros que efetuou quando adquiriu, em outubro de 2017, o controlo da instituição. Mas se somarmos os mil milhões de dividendos entretanto pagos pelo Novo Banco ao seu maior acionista, a Lone Star, sai a lucrar seis vezes mais do que a aplicação inicial.
A compra do quarto maior banco português faz parte dos planos de expansão do grupo Banque Populaire ‒ Caisse d’Épargne (BPCE), que concretiza assim a sua primeira investida fora de portas na área da banca de retalho. Em Portugal, o grupo BPCE já está presente através de um centro tecnológico do banco de investimento Natixis, da Oney, uma empresa focada no crédito ao consumo nas grandes superfícies, e do Banco Primus, vocacionado para o financiamento automóvel.
“A equipa do Novo Banco fez um trabalho incrível. O Novo Banco é um dos bancos mais rentáveis na Europa”, disse Nicolas Namias, presidente-executivo do grupo. Por isso, o BPCE vai manter a equipa de gestão do banco, liderada por Mark Bourke, assim como os 4 200 postos de trabalho e a marca portuguesa.
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“Não vamos cortar postos de trabalho. O nosso projeto em Portugal não se baseia em cortes”, disse ainda o CEO, recordando que os cerca de três mil trabalhadores do grupo francês em Portugal “não se dedicam à atividade bancária, à banca de retalho”.
O grupo BPCE, de estrutura cooperativa, é um dos maiores da Europa e passou a ser o segundo maior grupo bancário em França com a fusão entre o Banque Populaire e a Caisse d’ Épargne. No seu mercado nacional, atua na banca de retalho e nos seguros. No exterior, tem presença em 56 países, exclusivamente na área da banca de investimento. No total, emprega mais de cem mil trabalhadores e gera lucros de 3,5 mil milhões de euros. Já o Novo Banco, com 4 200 trabalhadores e quase 300 balcões, registou lucros de 745 mil milhões de euros em 2024. É o quarto maior banco português, atrás da Caixa, BCP e Santander, com uma quota de mercado ligeiramente superior a 9%.
Na corrida ao Novo Banco, o grupo BPCE venceu os espanhóis do CaixaBank, dono do BPI, a quem o Governo tinha feito saber que o seu interesse na instituição não era do agrado das autoridades portuguesas. O ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, chegou a afirmar que uma maior exposição da banca nacional a grupos espanhóis, que já controlam cerca de 30% do setor financeiro, colocaria em causa a livre concorrência.
No dia do anúncio da escolha do grupo BPCE, o Ministério das Finanças considerou, em comunicado, que a operação representa para Portugal “um sinal muito importante de confiança dos investidores internacionais”, e informou que “esta venda, associada à distribuição de dividendos do Novo Banco que ocorreu este ano, permite ao Estado recuperar quase 2 mil milhões de euros dos fundos públicos injetados na instituição”.
Fatura pesada
O Novo Banco foi criado em 2014 após a derrocada do Banco Espírito Santo (BES). Detido na totalidade pelo Fundo de Resolução (FdR), uma entidade pública financiada por contribuições dos bancos que operam no mercado nacional, recebeu os ativos considerados “bons” da instituição objeto de resolução, designadamente os depósitos dos clientes. Para fazer face às necessidades de capital sentidas após a resolução, o FdR capitalizou o “banco bom” em 4 900 milhões de euros, pedindo ao Estado um empréstimo a longo prazo (a 30 anos) no valor de 3 900 milhões de euros.
Em outubro de 2017, o Novo Banco foi alienado ao fundo de investimento norte-americano Lone Star, que não pagou qualquer valor pela compra de 75% do seu capital. O fundo norte-americano injetou mil milhões de euros na instituição e o Estado aceitou criar um mecanismo de capital contingente através do qual o FdR teria de compensar o banco pela desvalorização de ativos que pusessem em causa os seus rácios de capital, com um limite de 3 890 milhões de euros. No âmbito desse acordo, o Novo Banco recebeu cerca de 3 500 milhões de euros, dos quais mais de dois mil milhões de euros foram disponibilizados ao abrigo de empréstimos do Estado ao FdR. O custo de cerca de 8 mil milhões de euros resulta, em grande parte, deste acordo de capitalização do Novo Banco que o Estado aceitou fazer com a Lone Star. E que esteve sempre rodeado de enorme polémica.
Com efeito, o banco passou por tentativas de venda falhadas, recebeu dinheiros públicos, reduziu postos de trabalho e deixou de ter presença internacional. Foi escrutinado por comissões parlamentares, auditorias e, para agravar a polémica, o Tribunal de Contas criticou severamente a gestão do Novo Banco, na altura liderada por António Ramalho, mas também o acionista Fundo de Resolução, por não ter “minimizado o seu impacto na sustentabilidade das finanças públicas nem reduzido o risco moral”. Na altura, tinham já sido realizadas, além dos 4 900 milhões de euros de capitalização inicial, injeções de capital no valor de quase 3 mil milhões de euros ao abrigo do acordo de capital contingente.
A resolução do BES, imposta pelas autoridades europeias, pode vir a onerar ainda mais a fatura do Estado português. Na Justiça, decorrem centenas de processos judiciais de investidores lesados que reclamam indemnizações ao FdR. A compensação dos lesados do papel comercial do BES custou cerca de 267 milhões de euros emprestados pelo Estado ao FdR. E este, apesar de ter sido reconhecido como credor privilegiado do BES, nunca será ressarcido dos encargos que já teve com a resolução porque o ativo do “banco mau” é de apenas 175 milhões de euros.
Negócio ao raio-x
A compra do Novo Banco pelo grupo francês BPCE foi anunciada como sendo “a maior aquisição transfronteiriça na Zona Euro em mais de dez anos”Novo Banco
No melhor estilo dos líderes supremos, Ali Khamenei, o senhor de tudo no Irão, deve estar enfiado num dos bunkers das instalações nucleares. A prosápia, a bazófia e a arrogância estão juntinhas num buraco. Os iranianos estão a sair de Teerão aos milhares, e, a esta hora, ninguém sabe quem são os chefes militares — se é que ainda existem. Não se sabe, nem eles querem que se saiba.
O Irão está a consumir mísseis balísticos a uma velocidade estonteante, convencido de que consegue ultrapassar a barreira da Cúpula israelita. No entanto, apenas uma percentagem ínfima consegue escapar, por agora, ao maior e mais eficaz sistema de defesa do mundo. É verdadeiramente desolador, para os militares e políticos iranianos — e para o líder supremo — ver que, apesar do investimento maciço no seu armamento, a destruição que anunciavam não está a acontecer.
Ninguém quer Khamenei morto, ou vivo, ou em qualquer outro estado da matéria— mas apenas que aprenda a ser humilde. Mais depressa se extinguiria o Irão do que Israel, e essa lição está a ser aprendida pelos iranianos comuns, que nada têm a ver com questões nucleares nem com ameaças vãs.
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O melhor que poderia acontecer aos iranianos seria o seu líder supremo recolher-se definitivamente ao repouso de um bunker, dedicado exclusivamente à oração e ao Livro Sagrado. Olhando para as imagens, as filas de carros a sair de Teerão são tão longas que a capital rapidamente ficará sem civis. Restará a Guarda Revolucionária, enfiada em túneis, a ver se escapa à força israelita e dos seus aliados.
Quando se diz que um produto é feito a partir de plástico reciclado, o mais certo é que o tenha sido com recurso a pellets de plástico reciclado, pequenos grânulos ou esferas produzidos a partir da reciclagem de resíduos plásticos.
O que uma equipa de investigadores das universidades de Gotemburgo e Leipzig descobriu foi que esses granulados podem libertar uma mistura de mais de 80 produtos químicos na água, alguns tóxicos, perturbando as hormonas e o metabolismo da gordura, neste caso em estudo, das larvas de peixe-zebra. Os investigadores alertam que aditivos desconhecidos e tóxicos tornam as práticas atuais de reciclagem perigosamente imprevisíveis.
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Um único pellet de plástico de polietileno reciclado pode conter mais de 80 químicos diferentes.
“Este é o principal obstáculo à ideia de reciclar o plástico. Nunca temos um conhecimento completo dos produtos químicos que vão parar a um artigo feito de plástico reciclado. E há também um risco significativo de ocorrerem misturas químicas que tornam o plástico reciclado tóxico”, explica Bethanie Carney Almroth, professora da Universidade de Gotemburgo e investigadora principal do projeto.
“Identificámos químicos comuns nos plásticos, incluindo estabilizadores UV e plastificantes, bem como químicos que não são utilizados como aditivos nos plásticos, incluindo pesticidas, produtos farmacêuticos e biocidas. Estes podem ter contaminado os plásticos durante a sua primeira fase de utilização, antes de se tornarem resíduos e serem reciclados. Esta é mais uma prova da complexidade da questão dos fluxos de resíduos plásticos e dos produtos químicos tóxicos que contaminam os plásticos reciclados”, acrescenta, por sua vez, Eric Carmona, investigador do Departamento de Ciências da Exposição do Centro Helmholtz de Investigação Ambiental em Leipzig.
Para este estudo, os investigadores compraram pellets de plástico reciclado a partir de plástico de polietileno (um tipo de plástico utilizado em muitos materiais de embalagem, como tampas de garrafas, sacos de plástico, isolamento de fios e cabos, tubos, cordas, brinquedos e artigos domésticos) de diferentes partes do mundo e deixaram-nos em água durante 48 horas. No passo seguinte, larvas de peixe-zebra foram expostas a essa água durante cinco dias.
Estudos anteriores já tinham mostrado que a exposição a substâncias químicas tóxicas presentes nos plásticos poderia resultar em perturbações hormonais, com potenciais impactos na fertilidade, no desenvolvimento infantil, na ligação a certos tipos de cancro e em distúrbios metabólicos, incluindo obesidade e diabetes.
Quando foi a última vez que esteve num museu? Há quem possa responder à pergunta de forma simples: “Esta manhã, assim que acordei.” São os colecionadores que, sem hipérbole nem caricatura, podem dizer que têm autênticos museus na sua vida privada. Têm acervos que convivem com as frases conceptuais do artista norte-americano Lawrence Weiner inscritas nas suas próprias paredes, ou têm quadros de Julião Sarmento por cima da lareira, pinturas de Paula Rego em corredores, trabalhos de Joseph Kosuth ao lado da aparelhagem, telas cromáticas ou assemblages de Fernão Cruz no sótão, edições de Louise Bourgeois na cozinha ou óleos de Barceló à cabeceira da mesa de jantar. Aliás, a arte é (quase) “mais um filho”. Falam numa “sede”, numa “paixão”, num “amor à primeira vista”, num “vício”, e continuam a adquirir mais e mais obras de arte. Têm listas de desejos a cumprir, apesar dos milhares de trabalhos que já guardam em armazéns climatizados. Muitas vezes, as suas obras são emprestadas para exposições e museus, o que também “valida” estas coleções. Mas partilhar uma coleção privada com o público é um gesto generoso, recorde-se. Os acervos que estas pessoas construíram ao longo de décadas são os seus “museus imaginários”, usando o título do clássico de André Malraux de 1974: lugares que revelam o pensamento de quem reuniu aquelas obras, o percurso de vida que as levou até ali, o gosto de quem as comprou. E “gosto” é a senha de entrada nestas seis histórias tão diferentes de colecionismo em Portugal. Mesmo que o gosto não queira dizer a mesma coisa para todos. Como poderia ter escrito Gertrude Stein, cada gosto é um gosto é um gosto.
O casal fundador da Coleção Maria e Armando Cabral – Rialto6 usa a ironia, ao apontar para uma fotografia da consagrada Cindy Sherman que instalou junto à porta do elevador da casa que lhe serve de quartel-general e galeria. O grande plano do rosto algo grotesco está longe das encenações cinematográficas pelas quais a artista é vendida por milhões: “As pessoas dizem-nos: ‘Ah, que horror, como é que vocês convivem com isto?’” Aplique-se a tinta da realidade: no edifício lisboeta onde residiu o escritor António Lobo Antunes (e onde eles emolduraram dois pedaços de parede com as suas anotações literárias) há ecletismo e risco nas peças omnipresentes, que tanto incluem uma fotografia de grande formato do artista alemão Wolfgang Tillmans como os escritos na parede de Lawrence Weiner.
Obras primeiras Armando Martins fotografado com Música Surda, de Amadeo de Souza-Cardoso, uma das obras modernistas patentes no MACAM
Armando Martins
MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins
“O hotel há de ser o mecenas do MACAM”
O colecionador de 75 anos, nascido em Penamacor, fez carreira como promotor imobiliário. A sua coleção de arte contemporânea, hoje integrada no MACAM, contabiliza até à data mais de 600 obras de artistas nacionais e internacionais, compreendidas entre o final do século XIX e os dias de hoje. No acervo, incluem-se nomes como os de Marina Abramovic, Olafur Eliasson, Vik Muniz, John Baldessari, Juan Muñoz, Ernesto Neto, Alberto Oehlen, Paula Rego, Maria Helena Vieira da Silva, Amadeo, Julião Sarmento, José Pedro Croft, entre muitos outros. A primeira peça que adquiriu foi um óleo de Rogério Ribeiro, Sem Título (1970-1971).
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É prática comum os grandes colecionadores portugueses de arte contemporânea, talvez arrumados numa trintena bem contada, receberem artistas, outros colecionadores internacionais, diretores de museus, delegações da Arco Lisboa, por exemplo, que vão conhecer as coleções privadas nacionais em versão intimista. Os visitantes de Maria e Armando Cabral recordam-se seguramente dessa ocasião em que eles colocaram a imponente instalação Wallenda (1997) do artista João Penalva, em que o artista assobia integralmente A Sagração da Primavera, de Stravinsky, durante 30 minutos… no closet da casa. “O galerista do Penalva não achou piada, mas o Penalva achou”, sorriem os anfitriões.
É um cenário distante dos primeiros tempos em que este casal regressou a Portugal, em 1996, depois de anos a trabalhar em Londres, e comprou duas ou três peças para “pendurar atrás do sofá”. Projeto colecionista não tinham: liam, estudavam teoria da arte, interessavam-se. A galerista Cristina Guerra, figura incontornável do circuito galerista nacional e nome citado por muitos destes colecionadores, deu-lhes um conselho: “Não comprem arte, as pessoas só fazem asneiras quando começam.” Seis meses depois, deu-lhes luz verde, e Maria e Armando Cabral compraram uma fotografia de João Onofre, Levitation in the Studio, um autorretrato do artista evocando um mágico a levitar. Obras de arte contemporânea diferentes começaram, então, a ocupar-lhes o espaço doméstico – como a grande mesa-escultura adornada de esferas e elipses da autoria do norte-americano Matt Mullican, que não deixava espaço para ninguém se mexer à volta e os fazia dizer constantemente aos filhos, então com 4 ou 5 anos: “Não podes tocar, não podes tocar!” Hoje, a respeitada Coleção Maria e Armando Cabral – Rialto6 soma cerca de 350 peças.
“Sempre tivemos uma posição militante de explorar os limites. Viajámos muito, íamos a galerias mais underground, sempre preferimos peças de arte com um certo desafio intelectual”, descrevem. Uma das joias da coleção, e da casa de Maria e Armando Cabral, é o filme de 16 mm criado por João Maria Gusmão e Pedro Paiva, artistas experimentais que exploram as fronteiras do nonsense e da tecnociência. Uma compra arriscada para os então colecionadores novatos: era preciso encontrar um (caro) projetor adequado, que este funcionasse, que os habitantes da casa não se importassem de conviver com o ‘rrrrrrr’ metálico do aparelho… A obra visual é uma das dez peças que Maria e Armando Cabral adquiriram à dupla de artistas portugueses: havia ainda uma décima primeira película, mas o casal ofereceu-a à Tate… no próprio dia em que a comprou. “Deixámo-nos convencer pelo galerista”, contam. A coleção é dominada por vídeo, instalação, fotografia. Pintura? Pouca, garantem. No rés do chão do edifício, funciona a galeria Rialto6, onde os colecionadores organizam exposições num espírito de uma “Kunsthalle Lissabon, uma Galeria Appleton ou uma Zé dos Bois” – projetos que apoiam. “O Rialto tem uma postura quase antidiscursiva. O que queremos dizer com isto? Não sentimos nenhuma necessidade de afirmar uma certa perspetiva, um ângulo. Temos uma forma de intervenção no sistema que é mais orientada para facilitar a produção e o trabalho novo do que propriamente para fazer a exibição da coleção que está a ser construída”, explica Armando Cabral. E partilha que muita gente já foi bater-lhes à porta, acreditando que iam contemplar a sua coleção privada. Mais tarde na conversa, o colecionador avança opiniões fortes: “São muito raras as coleções em que a coleção é mais interessante do que a soma das peças. As coleções falam do colecionador, não acho que as coleções de arte tenham um valor cultural por aí além. Não é pelo facto de alguém ter dinheiro para comprar uma obra do indivíduo A que aquilo se torna a última Coca-Cola do deserto para a Humanidade.”
Com reservas O colecionador José Lima contempla uma pintura de Fernão Cruz, no sótão da sua casa familiar de São João da Madeira; e nas reservas do Centro Oliva, onde estão depositadas cerca de 1 220 peças suas
Norlinda e José Lima
Coleção Norlinda e José Lima
“Sou um coletor”
Empresário ligado à indústria do calçado, José Lima, 85 anos, começou a criar a sua coleção de arte contemporânea aos 40 anos. O acervo privilegia a pintura, mas abrange também desenho, escultura, vídeo e fotografia. Entre as mais de 1580 obras adquiridas, de consagrados e emergentes, estão trabalhos de Vieira da Silva, Miquel Barceló, Paula Rego, Mel Bochner, Andy Warhol, Lourdes Castro, Menez, Fernão Cruz, Ângela Ferreira, Adriana Proganó, João Gabriel. As primeiras obras adquiridas foram dos artistas Álvaro Lapa e Cargaleiro.
Hoje, Portugal parece ter-se aproximado mais da ideia de oásis para a arte contemporânea: novas galerias formigam, a Arco Lisboa, inaugurada em 2016, trouxe mercado e visibilidade, os novos residentes estrangeiros insuflam as vendas, os artistas portugueses ganham mais atenção. José Carlos Santana Pinto diz que gosta dos “artistas que não fazem mais nada”. E que quando compra, não lhe basta ver uma peça isolada: “Preciso de conhecer a obra do artista; tem de haver uma linha, uma pegada, um rasto nas escolhas para a coleção. Algo quase natural. Não tenho dinheiro para me enganar.” A arte conceptual, os jogos de linguagens, citações, as apropriações formais, dominam esta singularíssima coleção privada. “A minha base são sempre os artistas americanos conceptuais e minimalistas: o Joseph Kosuth, o Lawrence Weiner… São artistas velhíssimos, a trabalhar há muito, e tudo isto tem uma história importante na minha vida”, conta. Na sua sala, a obra do gigante Kosuth ganhou a vizinhança de um néon do jovem Fábio Colaço – um gesto curatorial característico deste colecionador que gosta de colocar obras em diálogos e ecos.
“Às vezes, faço disparates. Tenho uma peça do Daniel Buren, que tem o certificado mais bonito que há, e onde ele exige que a obra seja colocada no chão – e eu tenho-a na parede; se esta fosse uma mostra pública, não teria a lata de o fazer.” José Carlos Santana Pinto abre frequentemente as portas da sua casa a artistas, galeristas, diretores de museus, para visitarem aquilo que se assemelha a uma extraordinária coletiva: as mais de cem obras espalhadas por todas as divisões, apenas um quinto da sua coleção privada contabilizada em cerca de 500 obras. No quarto do colecionador, vê-se a peça de Gonçalo Barreiros que mimetiza um bueiro. No quarto do filho, um quadro de Antoni Muntadas conversa com Money, de Rui Valério – grafado tal como a assinatura do pintor impressionista Monet. Há uns tempos, o pai-colecionador forrou esta divisão com 90 desenhos da autoria de Allan McCollum e o filho queixou-se de que não conseguia dormir ali. A pulsão colecionista é, aqui, imediatamente visível: na sala, o olhar demora-se. Aqui, numa peça de Leonor Antunes que se apropriou de uma janela do Sesc Pompeia (o centro cultural paulista concebido por Lina Bo Bardi). Ali, a instalação de Carl Andre (viúvo da artista cubana Ana Mendieta), acolá Cabrita Reis, Doug e Mick Starn, uma peça chamativa de Daniel Van Straalen: David.David, representada por dois bustos do David de Miguel Ângelo com uma bola de Jeff Koons entre eles. Mas a vivência imersiva entre obras da coleção não faz o colecionador gostar do termo “casa-galeria”: “Este não é um espaço comercial, nada tenho para vender.”
Claro objeto de desejo
Falta-lhe aqui a série de fotografias de Helena Almeida que, em 1973, a histórica galerista Dulce Agro tentou convencê-lo a adquirir. Hoje, sabe, valem cerca de 400 mil euros. “Um dos grandes erros da minha vida”, assume o colecionador. Mas as suas escolhas são sempre comandadas pelo gosto. “Sei o que não quero.” “Muitos amigos compravam arte, mostravam-me e eu perguntava-lhes: ‘Porque é que compraste?’ Respondiam que gostavam. Gostar é importante, mas é pouco.” O colecionador crê numa espécie de darwinismo do gosto. “Eu gosto de Erik Satie, mas, se calhar, comecei pelas valsas do Strauss. Quando comecei a colecionar, aos 21 anos, comprei a minha primeira obra na Sociedade Nacional de Belas Artes: um Mário Botas, em vez de uma imagem de uns barquinhos com reflexos na água. Ter algo digno, numerado, assinado, é muito melhor do que ter um ‘menino da lágrima’”, sublinha. E diz mais: “O gosto aprende-se, a sofisticação faz parte do percurso do colecionador. Mas há pessoas que têm mais nariz do que outras. Ter só conhecimento não é tudo.” E o colecionador acha que tem “nariz”? José Carlos Santana Pinto responde filosoficamente: “O tempo é que vai decidir [sobre o valor das obras], o tempo é um absoluto.”
O tempo é também uma testemunha: em miúdo, este colecionador juntava já cromos de futebol, bilhetes de elétricos, caricas… “Fugia da empregada que me levava à escola no Largo do Leão, porque havia ali muitas tabernas castiças. Apanhei uma infeção nas mãos por remexer na serradura do chão, à cata de caricas bonitas.”
Olhar plural A exposição O Vaguear do Olhar, patente no Museu Municipal de Coimbra – Edifício Chiado, curada pela colecionadora Ana Cristina, revela peças de Vasco Araújo, Candida Höfer e Carla Filipe
António Albertino e Ana Cristina Antunes
Coleção AA – António Albertino e Ana Cristina
“Colecionar pelo prazer e pelo gosto”
Colecionadores com fortes ligações a Coimbra, António Albertino, 73 anos, empresário na área de tintas de automóveis e reparação, e Ana Cristina Antunes, 64 anos, psicóloga, construíram um acervo de arte contemporânea que abrange pintura, escultura, fotografia, desenho, colagens, vídeo, e instalações. Entre as cerca de 450 obras, há peças de Julião Sarmento, Helena Almeida, Rui Sanches, Rui Chafes, Christian Boltanski, Carla Filipe, Ângela Ferreira, Vasco Araújo e muitos mais artistas. As primeiras obras adquiridas eram de Ângelo de Sousa e Jorge Martins.
A ideia de casa-galeria também não seduz os fundadores da Coleção AA-Ana Cristina e António Albertino. Ana Cristina explica porquê com uma imagem protetora: “Temos de ter uma pele.” António Albertino acrescenta-lhe pragmatismo: “Esse tipo de projetos tem inteligência e estratégia, mas abdica-se da casa para se ser colecionador: a arte é que habita a casa deles. Eu sou mais conservador. Em nossa casa, temos os nossos [autores] queridos. Na sala, estão obviamente peças de Fernando Calhau, Julião Sarmento, Michael Biberstein, João Queiroz, John Baldessari, duas belas esculturas de Rui Sanches, duas belas fotografias de Thomas Ruff…” Este name dropping é uma destilação doméstica de uma coleção de 450 obras que continua a crescer, mas com limites. “Nos últimos anos, deixámos de comprar obras que, pelas suas dimensões e pelos custos de manutenção, só são possíveis de manter numa grande instituição.” O foco, esse, continua a ser o da arte contemporânea. “São opções de gosto. Não tenho pratas em casa, não há coleção de Companhia das Índias… O que temos é mobiliário, livros e arte”, sumariza António Albertino.
Unido há 45 anos, o casal de colecionadores diz ter criado a Coleção AA “sempre em conjunto, num espírito de partilha”. As primeiras aquisições feitas? Ângelo de Sousa e Jorge Martins, “amor à primeira vista”. “Começámos por comprar arte contemporânea por uma necessidade de dar sentido à nossa própria existência, às interrogações do que somos”, sintetiza António Albertino. “Visitávamos muitos museus, os nossos filhos apanhavam uma seca, mas é aí que se aprende. Sempre que vou a um museu, saio em paz comigo.” Muitos colecionadores defendem que “a arte só faz sentido se for partilhada com os outros”. Mas há desafios lembrados por António Albertino: “Não tenhamos ilusões: a arte contemporânea é elitista. As pessoas passam ao lado, não há hábitos de visita regular aos museus. Podemos colocar a cabeça na areia…” Ou organizar exposições baseadas na sua coleção privada pelo País fora. Há 13 anos, revelaram parte da coleção AA e celebraram o 60º aniversário de António Albertino no espaço abandonado da antiga Sociedade de Porcelanas de Coimbra, limpo do lixo em dois meses com ajuda de amigos. Há sete anos, os colecionadores pagaram do seu bolso a remodelação de um armazém de trabalho com zelo de white cube, para mostrar mais peças. “Sabe quem ia para lá trabalhar? Era eu e a Ana Cristina.”
Militância
Agora, e até 13 de julho, organizaram, no espaço do Museu Municipal de Coimbra – Edifício Chiado, a exposição O Vaguear do Olhar, com curadoria de Ana Cristina. Reuniram desenhos de Ângela Ferreira e Carla Filipe, esculturas de Rui Sanches e Rui Chafes, pinturas de Fernando Calhau, e levaram, em jeito de homenagem, a pintura de Julião Sarmento que têm habitualmente sobre a lareira. Mas os AA apontam o dedo à burocracia e à ausência de políticas culturais para criar condições dignas para mostrar coleções privadas no País. “O que desejamos é um espaço vivo, com orçamento mínimo para fazer três exposições anuais, curadores convidados, transporte, seguros, catálogo. Uma estrutura adequada. E isso não tem sido a realidade encontrada junto de instituições ou autarquias.”
O esforço e a militância para mostrar uma coleção privada com grande ambição é um assunto que os fundadores da Coleção Norlinda e José Lima conhecem bem. A sua coleção soma mais de 1 580 obras de arte, e cerca de 1 200 estão em depósito no Centro Oliva, em São João da Madeira. O projeto sob alçada municipal tem enfrentado desafios públicos: a questão periférica, a falta de equipa, os orçamentos de programação baixos (€80 mil). Soma-se-lhe a frustração de José Lima por não ver cumpridos os desejos de circulação das obras numa programação mais intensa, por sentir falta de maior divulgação, pela inexistência de uma equipa de curadores e conservadores na instituição. “O Estado tem de ajudar as câmaras municipais para estas condições serem cumpridas”, defende. O colecionador encomendou recentemente uma sondagem, que revelou que mesmo os locais não sabiam localizar onde estava a coleção de arte contemporânea em São João da Madeira, e isso ressuscitou uma velha batalha: a da instalação de placas a indicar a direção do Centro Oliva. O colecionador nunca recusou um pedido para empréstimo de obras da coleção privada: “Desde que tenham um sítio digno, digo imediatamente que sim.” Na Coleção Norlinda e José Lima predomina a pintura, mas a enxurrada de artistas, jovens e consagrados, é avassaladora, espalhando-se pela casa, arrumando-se em vários armazéns: Lourdes Castro, Ilda David, Donald Judd, Diogo Pimentão, Tápies, Helena Almeida, Diogo Nogueira, Paula Rego, Fernão Cruz, João Gabriel…
Histórias exemplares
“Tenho muitos clientes estrangeiros que vêm cá, e dizem que querem ver um museu de arte contemporânea. E eu digo-lhes: ‘Porque é que não vens ali a casa?’”, conta o empresário, com tradições na indústria do calçado. Iniciada quando tinha 40 anos e já uns tostões no bolso, a coleção continua a devorar aquisições. A última foi uma peça de Bernardí Roig: “Comprei uma escultura lindíssima, com dois metros, na ARCO Madrid. E arrependi-me: ‘Onde é que eu vou meter isto?’”, ri-se com entusiasmo. Acrescenta: “O meu problema não é a pena do que tenho, é a pena de aquilo estar parado. As obras eram para estar nas ruas, nos teatros, em exposições!”
“Comprar é compulsivo, é-se como um jogador de casino”, assume. Na sala de família, o retrato poderoso de Miquel Barceló exigiu-lhe um telefonema para o banco, a pedir capital. “Comprei o quadro e fiquei teso durante um ano.” No lado oposto, há um objeto carregado de simbolismo: uma rosa do deserto adquirida em Marrocos, onde, convalescendo de um problema de saúde, José Lima se atirou aos 83 anos, num rally. “Tudo o que comprei foi porque gostei. Não tive influências de galeristas. E tenho sorte: tenho trabalhos que mais ninguém tem.” Como a descoberta que fez na Tate, em Inglaterra: “Ao fundo do corredor, vi uma obra pendurada por uns ilhoses. ‘Grande quadro! Não sei quem é, Leon Golub?’ E alguém me diz: ‘É o pintor maldito dos EUA.’ Andei três anos atrás de um quadro dele.” O filho Ricardo Lima, hoje também dedicado à gestão da coleção dos pais, defende o faro do pai a apostar em novos artistas desconhecidos, anos antes de fazerem nome. “Digo muitas vezes que não sou bem um colecionador, sou mais um coletor”, declara José Lima.
Novo equipamento O colecionador Fernando Figueiredo Ribeiro revela a sua coleção privada no Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, em Abrantes, incluindo obras de Rui Valério e André Cepeda
Fernando Figueiredo Ribeiro
Coleção Figueiredo Ribeiro
“Conheço a maioria dos artistas da coleção”
Este gestor financeiro nascido em Moçambique, com raízes familiares goesas, 55 anos, chegou a Portugal com oito anos. A sua coleção de arte contemporânea dedica-se aos jovens artistas portugueses, estendendo-se a estrangeiros ligados ao espaço nacional, e privilegia pequenos e médios formatos. Somando cerca de três mil obras, inclui artistas como Rita Gaspar Vieira, Luísa Cunha, Sara Bichão, Ana Jota, Miguel Palma, Miguel Ângelo, Rocha, Kiluanji Kia Henda, Belén Uriel. A primeira obra de arte foi adquirida aos 21 anos, um quadro a óleo (prefere não revelar o nome do autor)
Em Portugal, há histórias felizes e histórias menos felizes no que respeita à gestão e à divulgação de coleções privadas no espaço público. A coleção de arte contemporânea do comendador Joe Berardo, hoje no limbo institucional, fez tristes manchetes. Já a perseverança do colecionador António Cachola, distinguido com o Prémio “A” de Colecionismo Privado da Fundación Arco em 2016, mantém a sua coleção, dedicada exclusivamente a artistas portugueses, em depósito no Museu de Arte Contemporânea de Elvas – MACE desde 2007. A recente inauguração do Pavilhão Julião Sarmento, localizado num antigo armazém de alimentos reabilitado pelo arquiteto João Luís Carrilho da Graça com um orçamento de seis milhões de euros, a que se somaram 500 mil assegurados pela EGEAC, revela ao público as 1 500 obras colecionadas pelo artista português, desaparecido em 2021. E, em março, houve a inauguração do MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, um game changer, um museu privado com uma coleção com cerca de 600 peças – e um hotel associado como modelo de financiamento próprio. As expectativas, garante Armando Martins à VISÃO, foram superadas: 35 mil visitantes em 52 dias. E houve surpresas: a galeria 1 dedicada ao modernismo português transformou-se num sucesso – e o colecionador vai investir mais nesse núcleo do passado. É uma iniciativa privada que marca o panorama artístico e que impressionou os colecionadores nacionais. Aliás, o MACAM inclui a House of Private Collections, galeria com espaçosos 700 m², destinada a receber mostras de coleções privadas, alternando entre nacionais e estrangeiras. E já houve várias manifestações de interesse… A primeira coleção particular mostrada será a de José Carlos Santana Pinto, referiu o próprio à VISÃO.
“Há acervos que estão guardados em armazéns, como esteve a minha coleção tanto tempo, e que assim não servem para nada – nem mesmo para o próprio colecionador. Talvez seja até um pouco egoísta. Mas isto só tem interesse se nos divertirmos e a partilharmos”, declara Armando Martins. Nos primeiros cinco anos de colecionismo, recorda, o empresário só comprou obras do século XX português, “por falta de capacidade financeira e talvez por falta de conhecimento”. E acrescenta: “Hoje, arrependo-me bastante. Na última Arco Lisboa, um miúdo de 20 anos pediu-me conselhos sobre a arte. Respondi-lhe que se era para começar uma coleção, que começasse já, mas que comprasse artistas nacionais e estrangeiros ao mesmo tempo. E que não fizesse como eu, a quem me foram oferecidas peças do outro mundo, e que não aproveitei.” Exemplos? Armando Martins teve um Gerhard Richter na mão por 66 mil contos e recusou. “Na altura, era muito dinheiro para mim, mas estava capaz de o comprar. Uns anos depois, encontrei essa peça na Feira de Basileia por 23 milhões de euros…” Outro remorso: durante a crise de 2008, o empresário acreditou que iria regressar ao Brasil, onde já vivera durante 11 anos, e vendeu um punhado de obras de artistas brasileiras para ter capital disponível para comprar um pequeno centro comercial lá. “Estou estupidamente arrependido: perdi o dinheiro investido no Brasil e perdi as obras, uma das quais eu adorava: era a melhor peça que já vi da Beatriz Milhazes.” A novela não acaba aqui: quando em 2018 recebeu o Prémio “A” de Coleção pela Fundación Arco, Armando Martins ficou sentado ao lado de uma jovem brasileira da Galeria Fortes Vilaça durante um jantar. Conversa vai, conversa vem, ele contou-lhe a mágoa da perda de Milhazes. Ela abre o telemóvel, mostra uma imagem, e diz: “Era esta peça, não era? Foi o meu pai que a comprou.” O colecionador português “ia morrendo”, diz. O quadro ia ser vendido pela família, a galerista perguntou-se se estava interessado. “Eu agradeci, mas estava a braços com esta obra do MACAM e não tinha condições de ir a jogo…” Armando Martins também perdeu obras importantes de Vieira da Silva, num negócio acertado dois ou três dias antes de o galerista Jorge de Brito falecer repentinamente. Dramas de colecionador. “Umas vezes, perdemos peças; outras vezes, compramos obras sem saber como vamos pagá-las a seguir… É uma guerra interior. Ao colecionismo eu costumo chamar uma droga”, remata o fundador do MACAM.
O colecionador Fernando Figueiredo Ribeiro mantém a sobriedade no discurso e usa metáforas automóveis para falar de um mundo complexo: “A arte é como os automóveis: se não andar, estraga-se.” Mais à frente, recusa qualquer engrandecimento ou drama sobre o destino das coleções privadas: “Eu fiz isto ao longo da vida. Em bom rigor, achava-me mais um ajuntador do que um colecionador. O meu olhar não é um olhar coletivo: o que posso dizer é que gostei desta, desta e daquela obra, e que as comprei.”
Caminhos discretos
A Coleção Figueiredo Ribeiro (assumidamente batizada só com os apelidos, para preparar o legado para a próxima geração) colhe elogios, mas o seu fundador desvia as atenções: “Quando me dizem que sou ‘grande colecionador’, respondo logo que deve ser pela altura.” É, certamente, uma grande história: com a colaboração da investigadora Adelaide Duarte, ele enviou cartas para mais de 20 câmaras a propor a sua coleção. A condição é que não ficassem a mais de 1h30 de Lisboa. Todas responderam, e a maioria queria a sua coleção. Hoje, a Coleção Figueiredo Ribeiro tem um protocolo de comodato com um museu premiado com um acervo nos antípodas da arte contemporânea: o MIAA – Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes. Aí, o colecionador dispõe de duas salas amplas onde agora se mostra a exposição Da Dobra que a Chama Traz, com curadoria de Catarina Mel e Ricardo Escarduça.
Ao falar das obras aí patentes, é evidente a sua proximidade com os artistas maioritariamente das novas gerações: é um colecionador que dá sugestões de apresentação de obras, visita os ateliers, compra por vezes exposições inteiras de um único artista (como fez, por exemplo, com Luísa Cunha), tem mais de 20 obras ou séries grandes de determinados artistas – casos de Sara Bichão, Ana Jota, Miguel Henriques, Miguel Palma, Miguel Ângelo Rocha… Os seus critérios de aquisição de obras são cristalinos: há um critério de gosto; as dimensões das peças têm de ser “caseiras, no sentido em que podem viver em casa”; busca as peças criadas a partir dos anos 1970 para a frente; e privilegia certas técnicas como pintura, desenho, escultura, fotografia, “por esta ordem”. É uma coleção dedicada à arte nacional, porque o colecionador “gosta muito” dos artistas portugueses.. “Tenho três filhos e a coleção é quase como um quarto filho. Vender obras, que nunca fiz, seria aborrecido. Mas se eu analisar o colecionismo, não há grande lógica aqui. Sou católico praticante, e dizer que faço sacrifícios pela arte seria pecado.”
Ser ou não ser mecenas
Os colecionadores assumem o papel de mecenas ou de patronos face aos artistas contemporâneos? As respostas variam. “Temos relações fortes com artistas, também porque a maneira como as exposições acontecem na Rialto6 é muito intimista: preparamos a exposição, subimos até casa para almoçar ou jantar”, sublinha Maria Cabral. O marido acrescenta: “Não gosto da palavra ‘patronos’, tem uma certa hierarquia.” António Albertino e Ana Cristina olham para a big picture: “Em Portugal, há muito poucos colecionadores portugueses que comprem mais de 15 ou 20 obras por ano. E não haverá mais de 30 a 40 colecionadores que alimentem, de forma sistemática, o circuito.” A Coleção AA, defendem os seus fundadores, ajudou muitos artistas portugueses quando ainda não eram conhecidos: Nuno Sousa Vieira, Inês Moura, Vasco Paiva, André Cepeda… “Sem artistas, não haveria colecionadores. E sem colecionadores, os artistas e os galeristas não sobreviveriam. Esta é toda uma cadeia interdependente”, aponta Armando Martins. Este colecionador acrescenta: “Acho que se um colecionador quer ser um mecenas, tem de escolher as obras que tem; o colecionismo completa-se se é mostrado.” Fernando Figueiredo Ribeiro cita bons exemplos: “Maria da Graça Carmona e Costa [galerista e colecionadora desaparecida em 2024] era uma verdadeira mecenas que tive o prazer de conhecer. E era-o pelo seu amor à arte: criava bolsas, apoiava artistas sem pedir nada em troca, apoiava até instituições, fazendo um trabalho notável.” E o colecionador reitera: “Eu não sou mecenas de nada. Esta coleção não será doada a ninguém: será dos meus filhos.”
A compra é, pois, o gesto mecenático por excelência dos colecionadores. “As artes visuais são financiadas por um conjunto de pessoas que têm tempo a menos, dinheiro a mais e um attention span [capacidade de atenção] baixo: muitos nem percebem bem o que estão a ver, se era a capa do leilão ou assim…”, diz, provocatório, Armando Cabral. Mas os responsáveis da Rialto6 abordam também outros temas complicados: comprar obras diretamente a artistas representados por galerias? “Nunca nos passaria pela cabeça, é falta de ética, é aldrabice.” Descontos de preços nas obras? “As obras de arte são um bem etéreo. Se não se respeita o valor socialmente estabelecido para as obras de arte, então não há limites para os preços, estas não valem nada, não têm utilidade.” Diminuir preços alarga a base de compradores? “Fazer uma obra que custa 20 mil euros ser paga por 18 mil não fará com que metade dos portugueses vão comprar arte. Todos os artistas têm peças pequeninas, médias e grandes. O que alarga o público é as pessoas adquirirem pequenas edições.”
Força das imagens Fotografados no espaço da Galeria Rialto6, Maria e Armando Cabral rodeados por peças significativas de videoarte da sua coleção privada
Maria João Santos e Armando Cabral
Maria e Armando Cabral – Rialto6
“Estar na arte de forma diferente”
Engenheiros de formação, 55 anos, o consultor de estratégia empresarial e administrador da Fundação de Serralves e a sua mulher criaram uma coleção constituída por artistas nacionais e estrangeiros, privilegiando obras de inspiração conceptual e pós-conceptual, que usam os novos média como a fotografia, o vídeo e a instalação – entre cerca de 350 peças, encontram-se obras da dupla de artistas portugueses João Maria Gusmão & Pedro Paiva, Ângela Ferreira, Miguel Soares, Cindy Sherman, Wolfgang Tillmans, entre muitos outros. A primeira aquisição foi um trabalho de João Onofre.
Julião Sarmento contou certa vez à VISÃO que uma das suas primeiras paixões, enquanto colecionador, foi uma obra de Joaquim Rodrigo (1912-1997), pintor autodidata, artista conceptual que criaria um reconhecível estilo figurativo. E candidamente confessou ter demorado “anos a pagar o quadro em prestações”. Não é caso único. Armando Martins, fundador do ambicioso MACAM, conta à VISÃO que comprou agora uma peça em Madrid, combinando o pagamento ao longo de 12 meses. Falar de arte é também falar, inevitavelmente, do vil metal. Em grandes quantidades. Como uma rima, perante este facto da vida, os colecionadores falam em “escolhas”. “São investimentos muito grandes, não se está a falar aqui de colecionar com 2% do capital [que se tem]. Em vez de se comprar uma casa no Algarve, tem-se uma coleção destas”, avança Armando Cabral. Ou em vez de “adquirir um Porsche”, diz, com ironia, Fernando Figueiredo Ribeiro.
Falar em valores não é um território confortável. Ainda que haja quem avalie a sua coleção privada em valores como dez milhões de euros. Maria e Armando Cabral, fundadores da Rialto6, dizem desassombradamente: “Já comprámos obras de arte conceptuais a preços absurdos, porque ninguém quer aquilo para nada: somos os 2%. O tipo de arte que apreciamos tem um público-alvo muito reduzido.” O casal de colecionadores coloca na ordem o voyeurismo dos cifrões: “Uma vez, perguntaram-me se tinha obras muito valiosas na coleção. Respondi: ‘Temos, sim senhora, o Ulisses, do James Joyce, Os Lusíadas…’; o que é que um colecionador pode ter de mais culturalmente relevante do que A Montanha Mágica, de Thomas Mann? Ou uma obra de Wagner? A diferença é que uma dessas obras é uma edição em um milhão de exemplares e a outra é única. Essa pergunta sofre de um problema conceptual, porque é dirigida não à qualidade das obras, mas ao seu preço.” Armando Cabral acrescenta: “Há, ainda, outro problema: as obras de arte extraordinárias são muito raras. Em Portugal, existem… dez? Mas as obras extraordinárias têm de estar nos museus. Para a nossa coleção, já adquirimos obras de arte boas, peças importantes. Temos, por exemplo, uma peça importantíssima do John Baldessari que está em muitos museus. Mas dizer que compramos obras extraordinárias seria saloio.”
Amor de alta performance
Colecionar arte contemporânea não é para espíritos fracos. José Carlos Santana Pinto, que usa sempre luvas ao manusear as obras da sua coleção, conta que já teve casa cheia com 30 pessoas em casa e que nunca teve um “acidente”. Mas, em noites de festa e bebedeira, recorda-se de estar sempre a dizer “não” ao “Joãozinho” Onofre porque este insistia em colocar um copo de vinho em cima da escultura de Cabrita Reis, instalada no meio da sala do colecionador… Fora da esfera doméstica, os colecionadores somam armazéns para guardar as centenas e milhares de obras de arte acumuladas. Há custos: manutenção certa, dispositivos para regulação de temperatura e desumidificadores, ajoelhar e rezar para que nenhum fungo consuma a obra. E, se se quiser mostrar obras da coleção privada, há transportes, seguros, montagem, sustos… “Ser colecionador em Portugal não é fácil, sobretudo para quem não olha para a coleção com o guia ArtPrice na mão”, sublinha Fernando Figueiredo Ribeiro.
Não surpreende que o anúncio de taxa de IVA de 23% na venda de obras de arte (logo a seguir à ex-ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, ter anunciado uma nunca concretizada descida para 6%) tenha suscitado revoltas. “Uma obra de arte pagar 23% de IVA é um disparate: equivale a um produto de luxo, e a arte não um produto de luxo. Quer-se adquirir um trabalho que custa um milhão de euros e vai-se pagar 230 mil euros de imposto?! É um disparate, é um travão na cultura. Eu estou a fazer um serviço público que o Estado não faz. Não quero beneficiar mais do que qualquer outro, mas deixem-nos trabalhar, não nos esmaguem. Eu não tenho um euro do Estado – ou da banca – no MACAM. Como se diz na minha zona, estou bonito, mas estou teso”, arenga Armando Martins. “Este valor de 23% em Portugal vai criar uma tentação para as pessoas pagarem por baixo da mesa”, alerta José Carlos Santana Pinto. Não são as únicas batalhas agendadas com o Estado: há o eterno caso do (inexistente, queixam-se) Museu de Arte Contemporânea do Chiado, há a debilidade da lei de mecenato, há um Ministério da Cultura que passou a vizinho da juventude e desporto…
Linguagem singular O colecionadorJosé Carlos Santana Pinto, retratadona sua casa lisboeta, marcada por obras de arte conceptual como o néondo artista emergente Fábio Colaço
Santana Pinto conta que ouviu esta blague em Bruxelas: “80% dos colecionadores são de direita, 20% são de esquerda.” Assumindo-se parte dos 20%, o colecionador acrescenta ainda que não compraria “arte fascizante” e revela um discurso crítico, por exemplo, com a proliferação de feiras de arte: “É só dinheiro.” E conclui: “Socialmente, é muito bem-visto ter obras de arte.” Fernando Figueiredo Ribeiro matiza a questão: “Esta é uma atividade simultaneamente bem-vista e malvista. Porque num país como Portugal, um colecionador qualifica-se como rico, é visto como um sinal exterior de riqueza. Eu sempre trabalhei por conta alheia, paguei uma brutalidade de impostos e desfruto da arte – mas não como arte.” E o futuro das coleções? É uma dor de cabeça anunciada. Armando Martins tem esperança de que os herdeiros continuem o seu legado. Armando Cabral declara isto: “A única coisa realmente ética para fazer a uma coleção de arte é doá-la a um museu. O pior é dá-la aos filhos: a trabalheira brutal que isto dá, a manutenção, os empréstimos… Há quem diga que não é uma liability [uma responsabilidade] porque é um ativo que eles podem vender. Isso é outra conversa: se é para vender, também se pode vender em vida.” E recorda: “Não há um grande historial de coleções doadas que foram perpetuadas.” Resta o presente, o que os faz comprar a obra. Fernando Figueiredo Ribeiro oferece um consolo: “Colecionar arte contemporânea é a paixão pelo que fica.”
José Carlos Santana Pinto
Coleção José Carlos Santana Pinto
“Dizem-me que a minha casa tem um gesto curatorial”
Lisboeta, 76 anos, profissional reformado da aviação civil, colecionador há mais de 50 anos, o seu acervo tem uma preferência pelos artistas conceptuais, minimalistas, nomeadamente da escola americana. A coleção integra trabalhos em vários média, como instalação, vídeo, escultura, fotografia e pintura, com particular atenção aos trabalhos com elementos de linguagem. Dos muitos artistas que integram o seu acervo, destaque para Joseph Kosuth, Pedro Cabrita Reis, Allan McCollun, Christian Boltanski, Donald Judd, Daniel Buren, Mariana Gomes, Fábio Colaço… A sua primeira aquisição foi de uma obra do pintor Mário Botas.
Em 2019, em resposta a um recurso, os juízes da 9ª secção do Tribunal da Relação de Lisboa proferiram um acórdão em que afastavam de qualquer castigo penal as injúrias ou ofensas proferidas no chamado “mundo do futebol”. Para os juízes, chamar nomes a alguém ou ao seu familiar, utilizando palavras obscenas ou até ameaças, eram “comportamentos reveladores de baixeza moral”, mas “tolerados na cena futebolística”.
Na época, o acórdão suscitou alguma polémica, após o então presidente do Comité Olímpico de Portugal, José Manuel Constantino, se ter insurgido contra a sentença que considerava “transmitir um exemplo negativo” e que, na sua leitura, contrariava os “esforços de professores, pais e autoridades desportivas para a regulação dos comportamentos em situação competitiva”. Na opinião daquele que era um dos mais ilustres pensadores do desporto em Portugal, o acórdão decretava, na prática, que “um recinto desportivo é uma espécie de offshore onde se pode praticar o que é criminalizado no exterior”.
A polémica, no entanto, depressa foi esquecida. Até porque o acórdão o que fez, na altura, foi apenas dar espessura jurídica a algo que já se observava há vários anos: a normalização do insulto e dos discursos de ódio no “mundo do futebol”, como se o jogo se tivesse transformado numa guerra, e em que os duelos nos relvados chegam a perder importância em relação às trocas de acusações em frente aos microfones das televisões.
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Depois da normalização dos insultos no futebol, estamos agora a ultrapassar, enquanto sociedade, outro patamar na escala da falta de decência: a normalização da intolerância e do apelo à violência no discurso político. Os dois mundos estão a ficar de tal forma parecidos que só falta mesmo que, qualquer dia, um tribunal superior também apareça a justificar os insultos e as difamações permanentes como “toleradas na cena política”.
Os resultados desta contaminação estão à vista. E de uma forma cada vez mais gritante, já que tudo é aproveitado para ajudar a cavar trincheiras, fazer aumentar a polarização e simplificar qualquer tema a uma luta entre “nós” e os “outros”, com a mesma irracionalidade com que se discute um lance de penálti na área – sempre com a diferença habitual de análise, caso seja uma falta na “nossa” ou na dos “outros”.
O atual ambiente internacional contribui ferozmente para esta espiral de intolerância em que vivemos. E serve de combustível e de exemplo para os casos crescentes de violência. Com a agravante de este clima ser potenciado até ao exagero através dos algoritmos das redes sociais, pela desinformação galopante municiada por máquinas sofisticadas e por canais de TV ávidos por audiências, numa guerra desesperada pela atenção.
Donald Trump normalizou condutas públicas que, até há bem pouco tempo, considerávamos indecorosas ou que, noutra época, fariam qualquer um perder eleições. Com ele no poder, passou a ser considerado normal chamar nomes aos adversários políticos, insultá-los e, sempre que possível, intimidá-los. E, ultimamente, juntou a essa retórica uma ameaça de militarização da sociedade, como se estivesse a preparar uma guerra.
Em Gaza, a impunidade com que o governo de Benjamin Netanyahu continua a dizimar a população palestiniana, de forma planeada e sistemática, sem que exista um verdadeiro sobressalto ou uma atitude de força por parte dos países que afirmam defender os direitos humanos, tem estado a destruir todos os alicerces das leis humanitárias criadas após a barbárie da II Guerra Mundial.
Tudo isto tem reflexos em Portugal. Especialmente depois de, no último ano, se ter aceitado normalizar o insulto e os apelos à violência no Parlamento, manchando a imagem da casa da democracia. Ainda por cima com a agravante de, devido à guerra pela atenção, o insulto ganhar quase sempre mais tempo de antena do que o discurso sério, da mesma forma que as divisões são também mais valorizadas mediaticamente do que os consensos.
Neste estado de coisas, não nos admiremos, portanto, com a ocorrência de cada vez mais casos de violência, perpetrados pela extrema-direita radical, só interessada em eliminar os adversários e ajudar a criar condições para que se instale o caos. E se esses atos não forem punidos, como ditam as leis, não devemos surpreender-nos se, daqui a uns tempos, repararmos que já nem nos indignamos com eles. É o que acontece quando deixamos de nos importar com a decência ou com o respeito pelo outro: passamos a achar que a indecência é “normal” – como no futebol.
A Polícia Judiciária (PJ) deteve, esta terça-feira, seis pessoas por ligações ao grupo de extrema-direita e neonazi Movimento Armilar Lusitano, uma milícia fortemente armada, que, segundo o comunicado da PJ, “pretendia constituir-se como um movimento político”. As detenções ocorreram por estar “fortemente indiciada” a prática dos crimes de infrações relacionadas com grupo e atividades terroristas, discriminação e incitamento ao ódio e à violência e detenção de arma proibida. Entre os detidos está um chefe da PSP que tinha já sido transferido para a Polícia Municipal de Lisboa por ligações à extrema-direita.
A notícia destas detenções surge na sequência de outros incidentes que mostram um aumento das ações violentas da extrema-direita: desde as agressões a manifestantes no desfile do 25 de Abril em Lisboa, às agressões a atores do Teatro A Barraca no 10 de junho, das quais resultou um ferido grave, passando pela notícia de que um ativista antifascista foi atacado por um elemento do grupo neonazi 1143 em Guimarães, neste fim de semana, depois de esse grupo andar a colar autocolantes nas casas onde vivem pessoas identificadas como antifascistas ou imigrantes, ou as agressões a voluntários que distribuíam comida a imigrantes no Porto.
A sucessão de notícias ligadas ao que parece um recrudescimento da violência praticada pela extrema-direita acontece depois de no último Relatório de Segurança Interna (RASI) ter sido apagado um capítulo inteiro sobre estes fenómenos extremistas, sem que tenha sido para isso dada uma explicação cabal por parte do Governo, apesar dos pedidos de vários partidos da oposição.
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“Não somos racistas, os senhores é que estão ultrapassados”, reagiu Ventura
Jorge Pinto, deputado do Livre, levou o tema ao debate sobre o Programa do Governo, fazendo uma relação direta entre o aumento da violência da extrema-direita e o crescimento eleitoral do Chega. Uma alegação que lhe valeu fortes protestos da bancada do partido de André Ventura e uma admoestação de Teresa Morais, que estava a presidir à sessão e que lhe recordou que o Chega é um partido democraticamente eleito.
“Não somos racistas, os senhores é que estão ultrapassados”, reagiu Ventura, afirmando que o “Chega é intransigente na condenação de toda a violência”.
A pergunta de Jorge Pinto não mereceu resposta de Luís Montenegro, mas o Livre voltou à carga. “Há uma aproximação preocupante e clara à extrema-direita”, afirmou, frisando que o Governo diz querer comemorar datas importantes para o País mas adiou as celebrações do 25 de Abril e não celebrou o 1º de Maio”, diria mais tarde a deputada Filipa Pinto, numa intervenção na qual declarou que “a Cultura está sob ataque”, com atores ou autores de livros a serem “alvo de perseguição”.
Filipa Pinto notou que Luís Montenegro assistiu a esses ataques “infelizmente em silêncio” e que o Governo “desvaloriza o que se tem estado a passar”.
Nenhum dos apelos feitos pelo Livre levou Montenegro a falar sobre o tema.
Milícia alvo da PJ planeava invadir o Parlamento
Em conferência de imprensa, o diretor nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves, frisou que na PJ estão “muito preocupados com o crescente desta atividade” de violência da extrema-direita, no dia em que o Expresso e o Now relevaram conversas do Movimento Armilar Lusitano sobre uma possível invasão ao Parlamento.
Segundo aqueles órgãos de comunicação social, alguns membros do Movimento Armilar Lusitano (MAL) falaram em canais fechados das redes sociais, como o Telegram, da hipótese de invadirem o Parlamento.
Manuela Santos, diretora da Unidade Nacional Contra-Terrorismo da PJ, revelou em conferência de imprensa que os suspeitos detidos esta terça-feira “estavam a armar-se” e a “recrutar pessoas” e a desenvolver “capacidade de treino tática para fazerem uma ação”, embora a polícia desconheça qual seria “mas que provavelmente estaria no seu horizonte”.
No que é descrito como uma “grande preparação”, a PJ detetou a realização de treinos com armas airsoft que esta polícia acredita destinarem-se a desencadear mais tarde uma ação criminosa, considerando Manuela Santos surpreendente a “qualidade, quantidade e diversidade” das armas apreendidas, algumas delas feitas com recurso a impressoras de 3D. “É a maior apreensão de armas 3D. É algo inédito em Portugal. É material caro, estamos a falar de muitos milhares de euros”.
Entre as apreensões há também cordão detonante, TNT, artigos explosivos, pistolas semiautomáticas e soqueiras.
“Houve encontros presenciais que nós acompanhamos, com elementos vindos de vários pontos do País. Temos muita informação sobre outras pessoas que integram esta estrutura”, disse Manuela Santos, explicando que alguns dos elementos do grupo pertencem a outras estruturas da extrema-direita entretanto desativadas, como a Nova Ordem Social, que era liderada por Mário Machado, que agora está à frente do Grupo 1143 e cumpre uma pena de prisão por crimes de incitamento ao ódio.
A PJ não descarta que haja no MAL mais membros ligados às forças de segurança ou militares, além do chefe da PSP que foi detido esta terça-feira.
Em termos nacionais, este será o maior grupo de extrema-direita identificado pela PJ com este tipo de capacidade de ação. A PJ acredita que “o grupo poderia, no entanto, contar com a ajuda de outros grupos satélites com as mesmas motivações”, apesar de não encontrar ligação com os ataques feitos aos atores de A Barraca nem aos voluntários que distribuíam comida a imigrantes no Porto.
Luís Montenegro levou para o debate do Programa de Governo uma mão cheia de anúncios, a promessa de “humildade democrática” e “diálogo”, mas nunca se comprometeu nem com acordos à sua esquerda, nem à sua direita. E só se irritou com o Chega e com o PCP, partidos que acuso de estarem a falar de “um país que não existe”. De resto, pôs grande pressão sobre o Chega e o PS, afirmando que o Governo só não durará quatro anos “se os dois maiores partidos da oposição assumirem entre si uma coligação deliberada, ativa e cúmplice politicamente”, mas recusando responder diretamente a José Luís Carneiro, quando o socialista lhe perguntou se pretende aterrar à direita ou à esquerda, uma vez que tem mostrado andar a planar entre os dois lados políticos.
Montenegro só quer marcar golos, não importa com quem
“É um Governo polivalente, que aproveita todos os elementos que tem em campo, mas é um Governo que quer marcar golo, que quando vê um jogador assim mais molengão, não deixa de jogar na mesma para a baliza, e portanto, de rematar para marcar golo, porque é isso que os portugueses exigem, é que sejamos consequentes, que possamos aproveitar a disponibilidade de todos para sermos consequentes e não ficarmos pela retórica política”. Foi com uma imagem futebolística – haveria de usar outra em resposta ao líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto, para lembrar que o partido de Ventura “ainda não está na Champions” – que Montenegro driblou a pergunta de José Luís Carneiro sobre quem seria o seu parceiro preferencial.
Carneiro tinha acabado de fazer uma intervenção na qual dava todos os sinais de estar disposto a viabilizar o Governo, apelando mesmo a um pacto com o PS para uma reforma na Justiça que vá para além do que está no Programa do Executivo e instando a AD a, com o PS, revisitar o modelo de nomeações para cargos públicos. A acusação de que o PSD usou a último a legislatura para colonizar o Estado com os seus militantes foi, aliás, a maior farpa de José Luís Carneiro, num discurso que, na sua maior parte, foi para oferecer apoio ao Governo para várias reformas, incluindo a do Estado.
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“Sabemos bem quem tem mostrado mais estar à altura dessa responsabilidade, e logo veremos se há novos protagonistas e novas forças a mostrar o mesmo sentido de responsabilidade”, disse Montenegro, não fechando a porta nem ao PS nem ao Chega, apesar de ter querido manter uma distância clara em relação a André Ventura no que toca a algum “saudosismo” que possa haver pela ditadura. “Não estou a ver que o senhor deputado queira regressar a esse tempo, espero sinceramente”, disse.
“Se disse que temos de romper inércias e obstáculos, o maior obstáculo dos últimos 50 anos foi o conluio entre PS e PSD”, tinha atacado Ventura, antes de criticar o “descontrolo imigratório”.
Mais polícias, menos IRS
Luís Montenegro anunciou a abertura de concursos para reforçar os quadros da PSP e GNR com mais 1500 efetivos. “Até ao final do ano, prevemos o início de funções de cerca de 1.500 elementos na GNR e na PSP, correspondente sensivelmente 70% a guardas e agentes e 30% a oficiais, sargentos e chefes. Vamos igualmente abrir novos procedimentos para a formação de 600 guardas da GNR e 800 agentes da Polícia de Segurança Pública”, disse.
Se o reforço de polícias foi uma novidade, o anúncio de um alívio de cerca de 500 milhões de euros no IRS até ao 8.º escalão já constava do menu das promessas eleitorais.
“Por isso, nas próximas semanas, vamos decidir a redução de mais 500 milhões de euros no IRS já este ano de 2025. Nova redução essa a operar até ao oitavo escalão, beneficiando os rendimentos mais baixos, mas sobretudo a classe média, a classe que está no ativo”, afirmou, defendendo que essa redução de impostos se concentre sobre “a classe média” por ser “uma exigência de justiça social e de racionalidade económica”.
Uma promessa que pode ser ilegal
Já se sabia que o Governo queria rever a lei da nacionalidade, dificultando a sua atribuição aos imigrantes. O que é novidade é que Luís Montenegro pondera retirar a nacionalidade a quem cometer crimes graves, uma proposta que no passado o Chega já levou ao Parlamento e que nunca passou.
Neste momento, a lei não prevê que se possa retirar a nacionalidade a ninguém, nem faz qualquer distinção entre a nacionalidade conseguida à nascença por quem tem pais portugueses e a que é atribuída a quem vem para Portugal e a obtém pelas vias legais. Segundo a lei em vigor, só o próprio pode renunciar à nacionalidade, não podendo essa perda de nacionalidade ser imposta a ninguém.
A promessa feita por Montenegro pode mesmo esbarrar no Direito Internacional e no Direito da União Europeia, que têm disposições que visam impedir que cidadãos se convertam em apátridas e limitam fortemente a possibilidade de retirada de nacionalidade. Como, em alguns casos, os cidadãos que se naturalizam portugueses têm de prescindir à sua nacionalidade de origem (há países que proíbem a dupla nacionalidade), a retirada da nacionalidade obtida pela naturalização poderia levar a que esses cidadãos se tornassem apátridas, ou seja, deixassem de ter vínculo com qualquer Estado.
“Na política migratória, aprovaremos nos próximos dias uma proposta de revisão da Lei da Nacionalidade, uma proposta de alteração da Lei de Estrangeiros com implicações na limitação do acesso a reagrupamento familiar, na simplificação do processo de repatriamento de imigrantes ilegais e voltaremos a propor a criação de uma unidade de estrangeiros e fronteiras na Polícia de Segurança Pública”, declarou Montenegro, prometendo que em breve serão conhecidos os detalhes do alargamento do prazo necessário para a atribuição da nacionalidade, os critérios do reforço da ligação efetiva ao país, à sua cultura e hábitos, mas também as situações em que se pode perder a nacionalidade, “nomeadamente em comportamentos muito graves e de natureza criminal”.
Montenegro irrita-se com “cheiro a troika” do PCP
Luís Montenegro não gostou do ataque feito pelo PCP ao Programa do Governo, com Paulo Raimundo a acusar o “cheiro a troika” de medidas que incluem a flexibilização da legislação laboral, restrições ao direito à greve e cortes em organismos do Estado que não estavam no programa que a AD levou a votos.
“O seu programa cheira a troika“, disse o líder comunista, lembrando que no passado essa foi a “troika que o nosso povo já rejeitou e derrotou” e afirmando o PCP como a força que nunca dará respaldo a essa política. “Chega e Iniciativa Liberal nunca lhe faltarão para defender os interesses dos grandes grupos económicos. Bem podem encostar-se uns aos outros”, atirou, apontando também à forma como o PS está disponível para viabilizar o Governo, ao contrário do PCP que apresentou uma moção de rejeição do Programa de Governo.
“O seu discruso tresanda ao velho comunismo imobilista”, reagiu um primeiro-ministro visivelmente irritado, a lembrar a forma como por toda a Europa têm desaparecido os partidos comunistas e vaticinando o mesmo fim para o PCP, que nestas eleições perdeu um deputado e tem agora o seu grupo parlamentar reduzido a três eleitos.
“Com essa teimosia vai acabar infelizmente, por se condenar a si próprio”, disse, acusando o PCP de ver “um país que não existe”, curiosamente a mesma expressão que usou para contrariar o ataque que lhe foi feito pela deputada do Chega, Rita Matias, que o acusou de não ter políticas de apoio aos jovens.
Marcelo Rebelo de Sousa avisou que o PRR “está a patinar”. O Conselho de Finanças Públicas diz que “decorrido mais de metade do prazo previsto para a implementação do PRR, três quartos do plano não tem execução orçamental”. E a Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR já avisou que um terço dos investimentos do PRR estão em risco de não serem executados até agosto de 2026, levando a que o país perca esse dinheiro. Com estes alertas em mente, o PCP apresentou uma proposta no Parlamento Europeu para dar mais tempo à execução do PRR, numa altura em que as dificuldades se devem a problemas na contratação pública, mas também à falta de mão de obra disponível para executar as obras.
“Perante esta situação, é essencial o alargamento do prazo de execução por mais dois anos para que o nosso País possa aproveitar os fundos associados ao Mecanismo de Recuperação e Resiliência e colocá-los ao serviço das respostas aos problemas na habitação, na saúde, nos serviços públicos. Desafiamos, por isso, em nome do interesse nacional, os outros deputados portugueses no Parlamento Europeu a acompanharem esta nossa proposta”, defende o eurodeputado João Oliveira.
A proposta comunista prevê “a extensão do prazo para utilização dos fundos associados ao Mecanismo de Recuperação e Resiliência (MRR) e respetivos planos nacionais (PRR) até agosto de 2028” e foi apresentada no âmbito da discussão do relatório sobre “A execução do Mecanismo de Recuperação e Resiliência”.
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Habitação e saúde em risco
A iniciativa do PCP deverá ser votada esta quarta-feira e, na sua fundamentação, lembra precisamente os sucessivos alertas que dão conta das dificuldades de execução do plano que foi desenhado para ajudar à recuperação da economia europeia depois da pandemia de covid-19.
“A proposta tem em conta a execução do PRR em diferentes países, incluindo Portugal, e os alertas efetuados nos planos nacional e da União Europeia para o risco do prazo atualmente fixado para a execução do PRR poder conduzir ao desaproveitamento dos fundos, tendo, inclusive, o Tribunal de Contas da União Europeia chamado a atenção para esse risco num relatório publicado no final do ano de 2024”, notam os comunistas, frisando que não executar significa perder o dinheiro.
“A estes alertas, soma-se o relatório recentemente divulgado pela Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR que destaca que 33% das medidas previstas no PRR português estão em estado crítico ou preocupante, destacando-se aquelas em áreas tão importantes como a habitação ou a saúde, o que representa um risco de não recebimento de verbas associadas e de dificuldades na concretização dos projetos”.
O álcool esteve presente no meu dia a dia desde os 18 anos. Sempre foi algo normal”, começa por contar Vítor (nome fictício), oriundo de uma família “humilde e modesta”. A relação com o álcool foi aumentando, gradualmente e à medida da sua resistência e tolerância, até aos 40 anos. “Aguentava bem a bebida e, mais tarde, consegui perceber que poderia ter evitado o risco, mas o álcool é manhoso, está socialmente integrado, e a compulsão acaba por ser devastadora.”
Progressivamente, o alcoolismo foi-se instalando e pondo em causa o casamento, a relação com o filho e os empregos que ia tendo, um deles na Marinha. Na primeira vez que tentou ficar abstinente, fê-lo em resposta à mulher, que o ameaçou com o divórcio. “Na minha arrogância, tinha aquela ideia distorcida de que, deixando de beber, era ela quem ficava exposta, porque deixaria de ter razões para querer a separação. Eu ganhava bem, levava 160 contos para casa, e o álcool não era um problema”, conta.
Procurou ajuda no Centro Regional de Alcoologia do Sul, atual Unidade de Alcoologia de Lisboa, depois de um episódio que funcionou como um grande alerta. “Um dia, disse a um colega que ia ao café. Sentei-me por volta das 10 da manhã para beber uma imperial e fiquei colado ao balcão. Bebi mais uma e mais outra. Os meus colegas começavam a chegar para almoçar e eu continuava ali.” Foi visto por um médico, começou a tomar medicação e deixou de beber. Não contou nada em casa e assume que mantinha a arrogância de que agora é que ninguém lhe poderia apontar o dedo. “O médico dizia-me que eu era a negação com pernas.” Esteve dois anos sem beber até ter uma recaída.
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Tudo à sua volta desmoronou: o casamento acabou, perdeu o emprego, ficou sem dinheiro e foi passar uma temporada com o irmão, aos EUA. “Fazia algumas paragens no consumo, passava um mês a beber sumos de laranja até ‘atinar’. Já de volta a Portugal, respondia a um anúncio, ia trabalhar, estava bem durante seis meses, recaía novamente e voltava a perder o emprego.” Era um círculo vicioso até chegar ao ponto em que tinha dinheiro para “uns copos”, mas ele não chegava para comer ou pagar a renda. “Numa altura em que devia ajudar os meus velhotes, acabava por lhes bater à porta porque não tinha onde ficar.”
Já sentia tremores nas mãos, mal conseguia agarrar no copo, mas continuava a beber. Tinha sido também alertado para o facto de ter o fígado gordo e em sofrimento, mas nada o fazia recuar. “Defendia-me sempre com a falsa ideia de que o fígado regenera. A doença dá-nos habilidade para justificar a compulsão”, partilha. Acabou por seguir a sugestão da mãe e foi internado no CRAS, durante um mês, e esteve oito anos em recuperação, com a ajuda de consultas de psicologia e de participação em reuniões nos Alcoólicos Anónimos.
Um problema de saúde pública
“O álcool é responsável por várias alterações no fígado e é um grave problema de saúde pública em Portugal”, alerta Rui Tato Marinho, diretor do serviço de Gastrenterologia e de Hepatologia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte e coordenador do Programa Prioritário das Hepatites Virais da Direção-Geral da Saúde (DGS). Estima-se que morrem, em Portugal, 2 500 pessoas por ano devido a doenças no fígado (cirrose e cancro) e, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o nosso país é o décimo do mundo com maior consumo de álcool.
Dados do Plano Nacional de Saúde da DGS (2021-2030), que comparam as principais causas de morte e a percentagem de variação da taxa de mortalidade padronizada pela idade superior a 75 anos em Portugal, confirmam que as doenças crónicas do fígado constituem “a quarta causa de morte precoce”. Apesar dos dados, o fígado continua a ser um órgão muito desconhecido pela população, ainda que os números sejam preocupantes. “No nosso país, cerca de 70% das doenças do fígado devem-se ao álcool.”
Por ser de evolução lenta, a cirrose é a fase mais avançada da doença hepática alcoólica e um estado de maior desorganização e destruição do fígado. “Começa pela morte de células, inflamação, evolui para fibrose [cicatrizes] até chegar à fase em que surgem uns nódulos [caroços] que estão na base da cirrose. Esta pode definir-se como o meio caminho entre a inflamação e o cancro do fígado”, explica Rui Tato Marinho.
O diagnóstico pode ser tardio, porque há sinais muito inespecíficos. É uma verdadeira epidemia silenciosa, defende o médico. “Ou a pessoa faz umas análises ao sangue, e/ou uma ecografia abdominal, e descobre a doença por acaso ou, então, desenvolve sintomas em fases já muito avançadas”, frequentemente de forma irrecuperável, alerta.
Para uma identificação precoce da doença hepática alcoólica, o gastrenterologista defende a inclusão da ALT (alanina aminotransferase) nas análises de rotina, da mesma forma que acontece com o colesterol e o hemograma. “Felizmente, já há muitos médicos que prescrevem esta análise.” Recomenda-se ainda, pelo menos uma vez na vida, a realização dos testes das hepatites C e B.
A par das doenças do fígado, o álcool aumenta o risco de se vir a desenvolver cancros no aparelho digestivo, tumores malignos na laringe, alterações neurológicas, depressão, esquizofrenia, violência familiar, suicídio, homicídios ou acidentes de viação mortais. “A medicação principal é deixar de beber, mas o álcool é uma adição brutal e, em grande parte dos casos, os doentes não aderem à abstinência.”
Por outro lado, Rui Tato Marinho considera que o discurso deve passar a ser o de “redução de riscos”, uma vez que “a ideia de tolerância zero é irreal”. “O álcool é benigno e maligno ao mesmo tempo, tudo depende da quantidade que se ingere. Numa cirrose alcoólica, o mal já está feito. O doente tem de fazer uma ecografia, de seis em seis meses, para que um possível cancro no fígado seja identificado precocemente”, adverte. O risco de cancro é muito elevado, de 10% a 40% ao fim de 10 anos. “Continuar a beber agrava muito a cirrose e encurta a vida… Só se vive uma vez”, sublinha o hepatologista.
Fígado e cabeça
Patrícia António, psicóloga clínica e coordenadora na área de Redução de Riscos e Minimização de Danos da Unidade de Alcoologia de Lisboa (UAL), considera que é importante trabalhar com os doentes desde o início, indicando que a recaída vai fazer parte do processo de recuperação. “Se isso acontecer, somos as primeiras pessoas com quem eles devem falar. Não vamos estigmatizar, culpabilizar, mas entender a recaída como uma fonte de informação. Recaiu, ok, então vamos trabalhar de ‘mão dada’.”
Sendo esta uma doença sistémica, a abordagem multidisciplinar é essencial. Assim, o papel da psiquiatria e da psicologia pode fazer a diferença na minimização de riscos, antes de uma esperada e total abstinência. A UAL recebe pacientes reencaminhados de hospitais, de unidades de transplante ou referenciados pelo Ministério da Justiça. “Também há aqueles que nos procuram devido ao risco de divórcio e à pressão familiar, ou ainda os que são identificados pelas nossas equipas de rua que conseguiram motivá-los a procurar ajuda.”
Nos primeiros seis meses, a intervenção médica e psicológica acontece em conjunto e com o intuito de parar e de estabilizar consumos, porque “é nesta fase que há uma maior possibilidade de recaída”. Num caminho linear em ambulatório clássico, em que a pessoa está motivada e encontra um espaço seguro para enfrentar a sua relação com álcool, tratar-se e reorganizar-se pode exigir o seguimento regular durante dois anos, no mínimo.
Qual a taxa ideal de álcool no sangue?
Há mais de duas décadas que o gastrenterologista e hepatologista Rui Tato Marinho analisa a relação entre o alcoolismo e os acidentes na estrada, defendendo um limite de taxa de álcool no sangue de 0,2 mg/ml para os condutores, ou mesmo 0,0 mg/ml. “De 0,2 mg/ml para 0,5 mg/ml, o risco de acidentes mortais aumenta para o dobro, na população em geral, e 700% nalguns grupos de jovens (sexo masculino dos 16-20 anos)”, conclui, garantindo que este estudo se mantém atual. Nos países em que foi estabelecido um limite de taxa de álcool de 0,2 mg/ml, de forma geral ou restrita, em alguns grupos da população, “assistiu-se à redução da sinistralidade e da mortalidade rodoviária de forma significativa”. Um morto na estrada “é uma catástrofe e, em média, perdem-se cerca de 40 anos de vida”, alerta Rui Tato Marinho.
Passada a barreira semestral e havendo uma perceção dos benefícios associados à abstinência, “há maior possibilidade de o doente ser abordado do ponto de vista psicológico com maior profundidade”. É a psicoterapia que vai ajudar o paciente “a tomar consciência do seu problema, das consequências e dos benefícios que pode obter se reduzir ou suprimir totalmente o consumo”, explica Graça Vilar, assistente graduada de psiquiatria e diretora do Planeamento e Intervenção do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD).
Vítor percebeu-o numa segunda recaída, mais violenta. “A maneira como voltei a beber depois foi mais agressiva. De repente, ia ao supermercado logo cedo e, duas horas depois, já tinha despejado duas garrafas de vinho. Copo cheio, copo vazio; copo cheio, copo vazio”, descreve. Hoje reconhece as vezes em que o álcool adormecia a sua dor e as suas emoções. “Não tinha empatia, não sentia nada”, comenta. Viu na psicoterapia um “tratamento da alma” e uma forma de começar a tentar corrigir comportamentos, pensamentos e formas de estar.
Uma bebida por dia?
A abordagem terapêutica de um doente com perturbação do uso de álcool e com doença hepática em nada difere daquela que é realizada em pessoas sem esta condição, explica Graça Vilar. A única exceção diz respeito à “necessidade de uma maior valorização individual no caso do recurso a psicofármacos com metabolização hepática, os quais, consequentemente, podem contribuir para o agravamento da função hepática. Se a desintoxicação for imperiosa, deve-se, igualmente, ter em conta a doença hepática alcoólica e a coexistência de outras comorbilidades”.
É essencial envolver os familiares que, muitas vezes, sofrem em silêncio. “O alcoolismo é vivenciado, dezenas de anos, à porta fechada, numa família”, explica Patrícia António. Por vezes, é difícil desconstruir uma mensagem que se instalou, e esse trabalho cabe aos psicoterapeutas. “É que a doença não está no fígado, está no cérebro.”
A psicóloga clínica exemplifica algumas situações que servem de aviso: “Se a pessoa percebe que bebe mais do que anteriormente, já não se sente bem e considera que o consumo está a interferir nas suas rotinas, tem um problema associado ao álcool.” Quando não é a própria a pedir ajuda, por vezes é o meio externo – família, Justiça, colegas de trabalho.
Face à complexidade desta problemática, deve estar garantida a acessibilidade aos serviços especializados em comportamentos aditivos e dependências. “E deve também ser proporcionada ao doente uma diversidade de recursos terapêuticos, integrados e articulados em momentos simultâneos ou sucessivos, de acordo com o seu diagnóstico, as suas necessidades e as suas capacidades para se envolver num determinado projeto terapêutico”, refere Graça Vilar.
Há uma média de acordo com a qual se considera que o consumo de álcool é tóxico. Rui Tato Marinho sublinha que o que se defende atualmente é que, “a partir de uma bebida por dia, de forma continuada e ao longo dos anos, o risco de complicações aumenta”. Este depende ainda da história clínica e da quantidade de álcool que se bebe diariamente. “Se não se beber em alguns dias da semana, tanto melhor.” Por outro lado, a precocidade dos consumos leva à precocidade da doença. “Chegamos a receber pessoas com 30 anos e já com cirrose”, alerta Patrícia António.
Além do tratamento farmacológico e não farmacológico, importa apostar na “reinserção sociofamiliar, laboral e na motivação para a adoção de um ‘novo estilo de vida’, assente numa futura abstinência alcoólica total”, defende Graça Vilar.
Vítor, hoje com 60 anos, está há quase uma década sem beber. “Esta é uma doença sistémica que afeta os colegas de trabalho, a família, os vizinhos. O aumento da sinistralidade, da violência doméstica, da criminalidade: tudo isto está relacionado com o álcool”, afirma.
Também ele tem tentado ajudar os outros. Mudou de trabalho, curou-se da hepatite C, apostou numa nova relação. “Mudei de casa, ganho pouco mais do que o ordenado mínimo, mas sinto-me feliz. Recuperei bem também ao nível físico e, hoje, posso afirmar que tenho a minha vida organizada”, remata.
Como saber se já passou o risco?
A psiquiatra Graça Vilar explica quais os sinais de que o limite está a ser ultrapassado, ainda que “as suscetibilidades individuais face ao consumo de álcool sejam muito variadas”
►“Aguenta” cada vez mais o álcool, isto é, bebe maiores quantidades sem que se note aparentemente os efeitos da embriaguez. Isto acontece porque vai criando tolerância.
►Reduz o consumo ou deixa de beber bruscamente e sente um mal-estar físico e psíquico, correspondendo a sintomas de abstinência (tremor nas mãos, náuseas ou vómitos, irritabilidade, ansiedade), que se atenuam ou desaparecem se voltar a beber bebidas alcoólicas.
►Em algumas ocasiões, esforça-se por diminuir ou controlar o uso de álcool, inclusive tenta deixar de beber por si mesmo, mas não consegue.
►Verifica alterações importantes nas atividades sociais, recreativas ou ocupacionais. Tanto em casa como no trabalho, torna-se difícil cumprir com as obrigações e passam a ser frequentes conflitos nas relações interpessoais.
►Tem uma necessidade ou forte desejo incessante de beber, a despeito de todas as consequências negativas da alcoolização.
►Consome em situações em que é fisicamente perigoso, como quando tem de conduzir ou manejar máquinas, quando padece de alguma doença que pode agravar-se com o álcool (doenças do fígado, do estômago, depressão, ansiedade) ou quando está grávida ou a amamentar.
► É frequente negar ou desvalorizar a dependência, minimizando o consumo de álcool.
Artigo publicado originalmente na VISÃO Saúde nº 22