Lembro-me de chegar a casa, era adolescente, e o meu pai estar com uns indivíduos estranhos. Fui mandado para o quarto e quando eles saíram foi-me dito que nos próximos dias, quando saísse de casa, seria na companhia de polícias. Depois de muitos porquês, lá me disseram que uma organização nos tinha exigido dinheiro. Era, percebi uns anos depois, o imposto revolucionário.
Nunca soubemos se a exigência vinha realmente das FP 25 ou se teriam sido apenas uns oportunistas, mas havia boas razões para o medo. A vaga de atentados e assaltos que esses terroristas praticavam exigia que se levasse a sério aquelas ameaças.
Não me recordo de discursos do tipo “temos de repudiar estes crimes venham da extrema-esquerda ou direita”. A razão era simples: não havia nenhuma ameaça vinda da extrema-direita.
O fenómeno não era local, bem entendido. Foi o tempo das Brigadas Vermelhas em Itália, do Baader-Meinhof na República Federal Alemã, da Ação Direta em França e mais uns quantos movimentos similares pela Europa fora. Todos revolucionários, anticapitalistas, anti-imperialistas e toda a retórica da extrema-esquerda.
Apesar de não terem ligações conhecidas ao bloco comunista nem, em muitos casos, aos partidos comunistas locais (no caso português, não havia mesmo qualquer proximidade, bem pelo contrário), o contexto internacional era o conhecido: meia Europa subjugada ao imperialismo totalitário da União Soviética. E se alguns destes terroristas não eram diretamente financiados pelos soviéticos e satélites, não faltavam organizações apoiadas por eles para minar as democracias.
Havia uma real ameaça vinda dessas ditaduras e dos movimentos terroristas de extrema-esquerda às democracias.
O fim é conhecido: as democracias venceram. O comunismo e as suas variantes são uma memória histórica e os terroristas foram extintos. Não existe hoje qualquer tipo de organização de extrema-esquerda ativa ou sequer adormecida e não há nenhum país que possa financiar esses movimentos.
Não me parece que seja necessário lembrar o que, mais de 35 anos passados, está a acontecer. Basta ter presente que a democracia de que em larga medida as outras dependiam está a caminhar a passos largos para uma autocracia, que nos principais países da Europa a extrema-direita é ou a segunda força política ou está prestes a chegar ao poder ou já lá está. Que os surtos de violência causados por forças nacionalistas, racistas e neonazis são o dia a dia em países como Alemanha, Reino Unido, Itália, Holanda, países nórdicos, só para citar os principais.
Em Portugal, temos como segunda força política um partido com uma narrativa racista, xenófoba, anti-imigração e claramente contra a Constituição e os seus principais valores.
Este discurso objetivamente contra a democracia deixou de ser feito à boca pequena ou de estar apenas nas redes sociais, sendo amplificado pelos média tradicionais, tolerado pelo presidente da Assembleia da República e gritado em todo o lado sem o mínimo de pudor.
Ao mesmo tempo, assistimos a grupos neonazis e doutras extremas-direitas que não só insultam e ameaçam imigrantes, minorias e quem defende valores diferentes dos deles, como partem para a mais bárbara violência, como no dia 10 de Junho em Lisboa, no dia 11, no Porto – foram agredidas mulheres que distribuíam comida a pessoas com fome –, no dia 15, em Guimarães.
De que raio, afinal, falam as pessoas que dizem condenar estes atos e palavras vindos da extrema-direita, mas que também se deve fazer o mesmo aos que vêm da extrema-esquerda? Há alguma ameaça ao regime vinda da extrema-esquerda? São o PCP ou o BE organizações que querem derrubar a democracia e mostram força para isso? Aliás, alguma vez nos últimos 40 anos (no caso do PCP) o foram? É mesmo preciso responder?
E que violência física e atentados têm sido perpetrados pela extrema-esquerda? Que discurso de ódio tem de lá vindo? Ouvi uns patuscos a falar dos perigosos ativistas climáticos, mas só pode ter sido humor involuntário. Ou então estamos perante a maior desonestidade do mundo quando se equiparam uns miúdos com tintas a gorilas com soqueiras.
Onde estão no Portugal de 2025 ameaças à democracia e aos seus valores vindas da extrema-esquerda? Aonde anda a violência física vinda da extrema-esquerda?
De lado nenhum, claro. E as pessoas que o dizem e entram no mais desonesto whataboutismo não o desconhecem. Sim, Carlos Moedas, Leitão Amaro e outros sabem-no perfeitamente.
Aceitam uma mentira absurda e reagem e atuam em função dela – infelizmente, não é só nisto.
A mentira de que também há uma ameaça vinda da extrema-esquerda serve apenas e só para relativizar e até justificar as ações da extrema-direita como legítimas.
Esta gente faz isto porque pensa (e com alguma razão) que há quem no seu quadrante político esteja convencido desse disparate.
Já era suficientemente grave pessoas com a responsabilidade de Moedas, Leitão Amaro e outros participarem e amplificarem mentiras, mas é pior do que isso: comportam-se como autênticos colaboracionistas com a extrema-direita.
Ao entrarem neste jogo de inventar uma ameaça que não existe não tiram apoiantes à extrema-direita, pelo contrário, adubam-lhe mais o terreno, minimizam as atitudes violentas porque as colocam como se também as houvesse do outro lado.
É tempo de combater e derrotar a extrema-direita como se combateu e derrotou a extrema-esquerda e deixar de entrar em paralelos que só servem para reforçar as forças antidemocráticas.
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