Há fenómenos que transcendem a linguagem exata da Ciência e requerem outras formas de interpretação e expressão. O teatro, por exemplo, não é, à partida, o espaço expectável para abordar o degelo ou os conflitos territoriais do Ártico. E, no entanto, é precisamente nesse território híbrido, entre o que se quantifica e o que se sente, que se torna possível compreender o que está a acontecer no extremo norte do planeta.

Há poucas semanas, foi noticiado um mínimo alarmante de gelo marinho no Ártico, a par da aceleração do degelo do permafrost, subsolo da crosta terrestre que permanece congelado. Menos gelo implica maior absorção de calor e, consequentemente, um aumento da temperatura ainda mais rápido, convertendo o Ártico num agente ativo do aquecimento global. O território passa, portanto, de vítima a um potencial amplificador do problema. Este ciclo, há muito descrito por investigadores como um “caminho sem retorno”, está a redesenhar o mapa físico do Ártico e a abrir novas rotas marítimas onde outrora existira somente uma vasta imensidão branca.

Entretanto, as comunidades indígenas, habituadas a uma relação íntima com um ambiente extremo, observam esta mutação com uma lucidez que raramente chega às cimeiras internacionais. A alteração dos ciclos de gelo afeta a caça, as deslocações e compromete a sua própria continuidade cultural, que provoca uma erosão gradual de modos de vida que dependem diretamente da estabilidade do território. De facto, as alterações climáticas põem em causa os direitos humanos destes povos.

A este cenário soma-se uma camada de ironia geopolítica. A crescente atenção internacional sobre a região, incluindo a Gronelândia, resulta do potencial económico e estratégico associado aos recursos minerais do degelo. Um dos exemplos mais alarmantes sobre esta realidade é a sugestão de Donald Trump de “comprar” a ilha, como se o Ártico fosse uma propriedade disponível num catálogo global. O gelo derrete, à medida que parecem diluir-se certas noções de soberania, e o frio é substituído por uma temperatura política cada vez mais elevada.

Perante esta complexidade, o teatro, ao contrário dos relatórios técnicos ou das declarações diplomáticas, permite materializar o silêncio das comunidades deslocadas, ou o som do estalar do gelo. Através da encenação, o Ártico passa de uma abstração distante para uma experiência sensorial.

No fundo, o teatro pode confrontar o público com a dimensão humana das alterações climáticas e dos conflitos que delas decorrem. Ao reunir em cena vozes indígenas, cientistas, pescadores ou militares, cria-se um espaço onde as contradições do mundo contemporâneo passam a ser vividas. Talvez nesse encontro, entre o degelo representado e o degelo real, se abra a possibilidade de uma consciência mais profunda sobre os desafios do presente e, quem sabe, de uma mudança.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


Reformar deve ser sempre sinónimo de reforçar e melhorar, nunca de piorar ou retardar. Duvido que este seja o entendimento do atual Executivo, num momento em que é cada vez mais consensual a importância de reforçar os direitos dos trabalhadores, sobretudo no que diz respeito à conciliação entre a vida pessoal e profissional.

Assistimos a um Governo que parece ter mais interesse em substituir “trabalhadores” por “colaboradores”, esvaziando o conceito de relação laboral.

Numa altura em que a Inteligência Artificial faz parte do futuro e que pode tornar o trabalho mais eficiente, não vemos propostas claras que promovam a sua adoção. Pelo contrário, ouvem-se discursos que insistem em apontar falhas aos trabalhadores, em vez de valorizar o seu papel.

O mais caricato é falar-se em melhorar o mercado laboral enquanto se propõem medidas que desfazem avanços alcançados nos últimos anos e que permitiram os resultados no mercado laboral e na nossa economia que este Governo tentar reclamar como seus…

Mas analisemos alguns exemplos de como este Governo pretende melhorar a eficiência dos trabalhadores e por sua vez o mercado laboral:

Ora para aumentar a “eficiência”, pretende-se alargar a carga semanal até às 50 horas, obviamente por acordo individual, quando várias análises apontam precisamente para a redução do tempo de trabalho como fator de produtividade;

Para conciliar a vida profissional e pessoal do trabalhador, pretende-se a possibilidade de impor até 150 horas extraordinárias anuais sem acordo prévio e sem remuneração adicional;


Para dar mais estabilidade, propõe-se aumentar a duração e o número de renovações dos contratos a termo.
Como o mérito deve estar acima de tudo, Em em seu nome, admite-se a redução do escalão remuneratório sem qualquer justificação clara por parte da entidade patronal;


O Estado de Direito é uma das nossas maiores conquistas e por isso coloca-se em cima da mesa a possibilidade de despedimentos sem fundamentação e sem garantias adequadas de defesa para o trabalhador.

A qualificação regular dos trabalhadores é essencial para uma maior produtividade e eficiência, assim pretende-se a redução da formação anual de 40 para 20 horas;


Por fim, para reforçar a confiança nos trabalhadores, pondera-se eliminar o prazo de 12 meses que impedia a contratação de outsourcing após despedimentos coletivos.

Estas são apenas algumas das medidas que têm sido discutidas nos últimos tempos. Torna-se difícil compreender a incapacidade de alcançar um acordo em concertação social…

Fica a sensação de que os direitos laborais “não” estão em risco e que os “colaboradores”… perdão, os trabalhadores, não saem prejudicados.

Na realidade, o que vemos é um Governo do em pleno século XXI a propor um pacote de medidas saído do século XIX.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Ontem foi dia de muitas celebrações pouco recomendáveis que o Governo mais minoritário da democracia, filho da golpada constitucional de novembro de 2024 e com um primeiro-ministro patrocinado por empresas amigas, resolveu assinalar com mais um plano atrevido, desta vez até 2034, quais gloriosos amanhãs que cantam para calar as misérias do quotidiano.

A 28 de abril verificou-se a insólita coincidência do aniversário do apagão de 2025, dos três meses sobre a tempestade Kristin e dos dois meses sobre o início da guerra lançada por Netanyahu e Trump contra o Irão.

Ao fim de um ano de apagão, em que toda a redundância e resiliência falharam, em que a Proteção Civil foi impedida de agir de imediato e o Governo preferiu a propaganda, grande parte das 31 medidas então anunciadas está ainda por concretizar. O relatório técnico agora divulgado confirma que as medidas estruturais de reforço da rede elétrica estão por executar, não tendo sequer sido ainda lançados os concursos públicos para a sua concretização. Igualmente, o amplo armazenamento de energia por baterias, previsto até janeiro de 2026, está por concretizar sem concursos sequer lançados, tal como está por cumprir o anúncio do reforço da resiliência de infraestruturas críticas, como hospitais, serviços de proteção civil ou postos e esquadras das forças de segurança.

O que torna quase cómico, depois de ter sido feito pelo Governo um grande alarde conspirativo sobre o colapso do SIRESP durante o apagão, é que a primeira medida anunciada agora por Montenegro seja distribuir rádios SIRESP por todas as juntas de freguesia.

Estão igualmente por pagar grande parte dos apoios propagandeados por Castro Almeida a seguir aos incêndios do verão passado, pelo que ninguém se espanta que decorridos 3 meses sobre a tempestade Kristin estejam por pagar cerca de 80% dos apoios à recuperação de casas, apesar da muito cantada promessa de pagamento em 3 dias nos casos mais simples e em 15 dias nos mais complexos.

O mesmo sobre os apoios à agricultura, de que só foram pagos 2 milhões de euros, apesar de José Manuel Fernandes ter falado em 500 milhões de euros de prejuízos.

Aparentemente, a única medida de funcionamento célere foi o endividamento adicional das empresas através do recurso às linhas de crédito para apoio à tesouraria. Mas para celebrar os três meses de atrasos de um Governo relapso, terminaram esta semana as moratórias para pagamento de obrigações fiscais e de empréstimos aumentando a pressão sobre empresas e famílias ainda a viver dificuldades extremas. E parece irrelevante que ao fim de 3 meses ainda estejam cerca de 20 mil clientes sem as comunicações repostas perante a placidez do Governo e a tolerância da ANACOM.

Finalmente, o modelo português de apoio aos efeitos da guerra trumpista é marcado pelo princípio consagrado de empurrar com a barriga o impacto da inflação na economia e ter custos mínimos nas medidas paliativas, as quais são reduzidas sempre que há um cêntimo de abrandamento dos preços dos combustíveis. Por outro lado, Portugal distingue-se pelo seguidismo relativamente às barbaridades de Trump, sendo até penoso comparar a cobardia de Montenegro com as declarações de Merz, Starmer ou até de Meloni.

A 27 de fevereiro, o barril de petróleo estava a 70 dólares, ontem foi transacionado a 111 dólares, pelo que é ridículo vermos um Governo que fez um Orçamento com cálculos do petróleo a 62 dólares, apresentar agora um pomposo plano até 2034 perante tanta incapacidade para responder de forma convincente à catástrofe energética imediata.

Para fugir da sucessão de berbicachos com que se defronta, nada melhor do que mais um plano, agora até 2034, daqui a duas legislaturas, com financiamento incerto (mais de 1/3 proveniente de privados sem se perceber como), mais uma agência do Estado para o aplicar e um escrutínio político diluído, dado que as conclusões finais só podem ser tiradas lá para 2035 daqui a vários Governos e provavelmente vários primeiros-ministros.

Basicamente, repete-se com pouca imaginação a receita já fracassada do Plano de Emergência para a Saúde de maio de 2024, do fantástico Construir Portugal igualmente de maio de 2024, que tem garantido menos construção e recordes estratosféricos dos preços das casas, ou do Plano para a Imigração que está a causar já problemas graves de falta de mão-de-obra na construção, no turismo e na agricultura.

Entre voltar a embrulhar investimentos já diversas vezes anunciados, como várias barragens, replicar as medidas para a área da energia há um ano por concretizar e empacotar os fundos europeus do PT 2030, em execução em velocidade de cruzeiro, com os do próximo quadro até 2034 ainda por aprovar, o PTRR tem pouca credibilidade ao juntar banalidades, com muita propaganda e uma reiterada má capacidade de execução de promessas e planos.

Mesmo medidas razoáveis, como o seguro obrigatório das habitações, não são acompanhadas de medidas de controlo por parte do Governo ou dos reguladores, que toleram tropelias como o facto de a maioria dos seguros das tempestades de fevereiro ainda estar por pagar, da recusa das empresas de energia de programar o enterramento das redes ou o colapso das telecomunicações sempre que há uma ocorrência significativa.

A falta de credibilidade de sucessivos planos do Governo e a disparidade gritante entre a propaganda sempre que há uma crise e a pobreza dos resultados levam a que o PTRR do Governo seja recebido com as maiores reservas e desinteresse por quase todos, mais preocupados com os dramas imediatos do que com os anúncios de Montenegro e Leitão Amaro.

Por ser reincidente na estratégia de Planos e promessas, quando fracassou na resposta ao apagão, aos incêndios, às tempestades e à guerra, o PTRR de Montenegro dá-lhe mais um prémio Laranja sem Sumo.

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O balanço é feito num relatório sobre o clima na Europa em 2025, que destaca temperaturas recorde no continente, a maior área ardida de sempre, resultado dos incêndios florestais, caudais de rios constantemente abaixo da média e tempestades e inundações.

No relatório “European State of the Climate” (ESOTC) de 2025 Portugal é referido especialmente pelas ondas de calor no mar, incêndios no verão, tempestades e cheias e ano de humidade excecional.

Em março e novembro de 2025, o País registou tempestades que causaram inundações, como a tempestade Cláudia em novembro passado, observa o relatório, elaborado pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), responsável pela implementação do Serviço de Alterações Climáticas do programa europeu de observação da Terra Copernicus, e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Apesar do tempo seco no verão, Portugal teve condições mais húmidas do que a média Europeia, a braços com temperaturas muito altas, especialmente o centro e norte da Europa e o Mediterrâneo.

Em março do ano passado, a Península Ibérica tinha os solos 31% mais húmidos do que a média para o mês, tendo Portugal recebido 229% mais chuva do que a média dos meses de março.

Apesar de a generalidade dos rios europeus registarem um caudal inferior ao normal, na Península Ibérica durante a primavera os caudais foram muito superiores à média, nomeadamente nas bacias do Tejo e do Guadiana, devido a uma sucessão de tempestades e chuvas fortes e persistentes, que causaram várias inundações, como por exemplo a Martinho, em março.


Segundo o relatório, 2025 foi o quinto mais quente em Portugal continental desde 1931 (e o terceiro mais chuvoso desde 2000) e teve seis ondas de calor, três no verão, uma na primavera e duas no outono. De julho a outubro mais de metade do continente esteve em seca meteorológica.

Os incêndios florestais provocaram quatro mortes em Portugal e os incêndios de agosto em Portugal e Espanha levaram à maior emissão anual de gases relacionadas com os fogos na Europa nos últimos 23 anos e a recordes de áreas ardidas.

Em termos gerais, o relatório indica que 2025 será o terceiro mais quente de que há registo, depois de temperaturas sem precedentes em 2023 e 2024, este o ano mais quente e o primeiro com uma temperatura média superior a 1,5ºC acima do nível pré-industrial.


A temperatura média global foi de 14,97°C, 0,59°C acima da média de 1991-2020 e 0,13°C mais baixa do que 2024, o ano mais quente.

Segundo o documento, a Europa em 2025 registou temperaturas excecionais junto à superfície do ar e da água do mar, e eventos extremos, incluindo inundações, ondas de calor e incêndios florestais. E os dados preliminares indicam que as concentrações de gases com efeito de estufa continuaram a aumentar em 2025.

O Diabo Veste Prada 2 regressa vinte anos depois do primeiro filme com a elegância de quem sabe que envelhecemos todos, menos Meryl Streep, que terá certamente assinado um contrato secreto com as trevas, em papel couché, letra Garamond e cláusula de rejuvenescimento facial incluída. David Frankel volta à realização, Aline Brosh McKenna ao argumento, e Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci regressam ao universo da revista Runway, esse templo do terror editorial onde uma mulher podia destruir uma carreira apenas pousando a mala na secretária.

À primeira vista, a sequela é o reencontro de Andy Sachs (Anne Hathaway) com Miranda Priestly (Meryl Streep), num mundo da imprensa de moda em plena transformação, com Emily Charlton (Emily Blunt) agora convertida numa poderosa figura do luxo, capaz de ter o dinheiro que pode salvar a revista. Ou seja: a antiga assistente faminta, nervosa e maravilhosamente venenosa tornou-se aquilo que todos os assistentes sonhavam ser quando estavam a fotocopiar laudas às três da manhã: alguém que, um dia, pode fazer o chefe engolir a própria agenda e, se possível, ficar-lhe com o gabinete, a cadeira ergonómica e o lugar de estacionamento.

Mas o verdadeiro tema do filme não é apenas a moda, nem a nostalgia, nem a alegria de ver Meryl Streep pronunciar uma frase como se estivesse a assinar uma sentença de morte com batom Chanel. O verdadeiro tema é a crise da imprensa escrita. A morte anunciada dos jornais. A agonia das revistas. A transformação dos grupos editoriais em empresas de “conteúdos”. A passagem de um mundo onde ainda havia diretores, repórteres, editores, fotógrafos, fechos de edição e discussões sobre títulos para um mundo onde há “engagement”, “performance”, “KPIs”, “tráfego orgânico”, “branded content” e pessoas a dizer “storytelling” com a mesma gravidade com que antigamente se dizia “democracia”.

O filme começa, e é aí que acerta com a precisão de uma tesoura de estilista, com Andy Sachs, agora adulta, experiente e jornalista respeitada, a ser despedida do grande jornal Vanguard por mensagem. Não é despedida numa reunião. Não é chamada a um gabinete. Não lhe oferecem sequer um café miserável de máquina antes da execução. Ela e uma equipa de repórteres de elite recebem a notícia enquanto estão a ser premiados. É difícil imaginar metáfora mais brutal para o estado atual da imprensa: jornalistas a receber prémios pelo trabalho que os patrões acabaram de considerar dispensável. Aplaude-se a excelência com uma mão e carrega-se no botão do despedimento coletivo com a outra. É a meritocracia, mas em modo guilhotina digital.

E isto, convenhamos, já nem parece propriamente uma sátira. Parece uma ata de reunião de conselho de administração. Antigamente, despedir jornalistas exigia pelo menos algum teatro: comunicados internos, discursos vagamente humanos, um diretor com ar fúnebre, uma frase sobre “reestruturação inevitável”, o sindicato e o conselho de redação a reclamarem. Hoje basta uma mensagem por SMS ou WhatsApp. “Obrigado pelo vosso contributo.” “O vosso trabalho foi fundamental.” “Desejamos os maiores sucessos.” Tradução: levem as vossas plantas, os vossos cadernos de apontamentos, o arquivo de artigos, a vossa vocação e essa mania antiquada de verificar factos antes de publicar. A empresa acredita muito em jornalismo, só não acredita em jornalistas.

É aqui que O Diabo Veste Prada 2 encontra o seu melhor dispositivo dramático: Andy, a antiga assistente que fugiu da Runway para salvar a alma, é chamada de volta pelos grandes patrões do grupo editorial para criar uma nova secção de reportagem. Leva consigo colegas despedidos, repórteres sobreviventes, gente que ainda sabe fazer perguntas antes de fazer posts, e regressa ao lugar onde começou tudo. Há nisto uma ironia deliciosa: Andy sai do jornalismo “sério” despedida por SMS e volta à revista de moda como quem regressa ao inferno, mas descobre que, afinal, talvez o inferno ainda tenha orçamento para fazer jornalismo de investigação.

No primeiro filme, Andy queria ser jornalista. Queria escrever, investigar, entrar numa redação, talvez mudar o mundo com palavras, aquela coisa ingénua que as escolas de jornalismo ainda vendem aos estudantes antes de os lançarem para estágios não remunerados e recibos verdes com síndrome de Estocolmo. A Andy de 2026 já sabe melhor. Sabe que os jornais fecham, que as revistas emagrecem até ficarem só capa e publicidade própria ou a página de assinaturas, que as redações se transformaram em aquários de ansiedade e que qualquer texto, por melhor que seja, pode ser esmagado por um vídeo de 12 segundos onde alguém explica como combinar uma botas altas de salto com trauma emocional.

O regresso à Runway tem, por isso, uma camada muito interessante. A revista que no primeiro filme parecia o centro imperial do mundo — arrogante, cruel, inacessível, cheia de assistentes a correr com cafés como se transportassem órgãos para transplante — aparece agora como uma rainha velha a tentar não vender o palácio aos investidores. Miranda Priestly continua a mandar, claro. Mas já não manda no mundo como mandava. O mundo mudou de fechadura. A autoridade editorial foi substituída por métricas. O instinto foi substituído por relatórios. O gosto foi substituído por dados. E os dados, como se sabe, nunca têm olheiras, nunca choram na casa de banho e nunca pedem aumento.

Miranda, interpretada por Meryl Streep com aquela mistura perfeita de gelo, inteligência e ameaça em voz baixa, continua a ser uma das grandes criações do cinema popular contemporâneo. Não é apenas uma chefe difícil. É uma instituição. Uma mulher que transformou o silêncio numa arma de destruição profissional. Em 2006, bastava-lhe dizer “That’s all” para encerrar uma conversa, uma ambição e talvez uma pequena parte da coluna vertebral da pessoa à sua frente. Em 2026, a pergunta é outra: como sobrevive uma Miranda Priestly num mundo onde já ninguém espera pela edição de setembro porque está toda a gente a comentar a passadeira vermelha — ou azul, neste caso — em direto no telemóvel?

O filme percebe que Miranda já não pode ser apenas o monstro fascinante. Tem de ser também uma figura em crise. Uma imperatriz confrontada com a queda do império. Uma mulher que construiu poder dentro de uma lógica editorial, estética e cultural agora desmantelada por gestores que talvez não saibam distinguir uma reportagem de uma campanha de “influencers”, mas sabem perfeitamente cortar 30% da massa salarial antes do almoço. Miranda não se tornou simpática — Deus nos livre, há limites para a fantasia —, mas tornou-se quase trágica. Porque uma coisa é ser tirana num reino poderoso; outra é ser tirana num castelo onde já estão a vender as cadeiras.

É neste ponto que O Diabo Veste Prada 2 se torna muito mais interessante do que a sua própria vontade de agradar aos espectadores comuns de cinema. Há nostalgia, roupa, olhares, frases prontas para serem transformadas em memes por pessoas que fingem desprezar Hollywood mas vão correr para o cinema no primeiro fim-de-semana. Há o prazer de rever Nigel, o extraordinário Stanley Tucci, esse homem que devia ser obrigatório em qualquer democracia funcional e editorial. Há Emily Blunt com aquele talento raro para transformar uma vírgula em insulto e Anne Hathaway a regressar ao sítio onde aprendeu que a inocência não paga a renda de casa. E há ainda as participações e cameos que transformam o filme numa espécie de Met Gala com argumento: Justin Theroux, Kenneth Branagh, Lucy Liu, Rachel Bloom e Lady Gaga, porque, claro, se há universo onde Lady Gaga entra com enorme à vontade é este: moda, espetáculo, dor lombar em sapatos impossíveis e reinvenção com maquilhagem profissional.

Mas há também uma questão séria: o que acontece quando a imprensa deixa de pertencer a grupos editoriais e passa a pertencer a grandes conglomerados económicos para quem uma redação é apenas uma linha no Excel ou uma extensão dos seus interesses?

Durante décadas, jornais e revistas foram negócios rentáveis. Nunca foram conventos de frades iluminados e isentos de opinião e subjetividade, a viver apenas de vocação, tinta e máquinas de escrever. Mas havia, pelo menos, uma tensão produtiva entre dinheiro e missão editorial. Havia patrões, mas também havia diretores com autoridade, redações com cultura própria, secções com identidade, revistas que sabiam ao que vinham. Hoje, muitas publicações parecem viver numa espécie de coma assistido por publicidade nativa, eventos, newsletters, podcasts, parcerias comerciais e aquele maravilhoso género literário contemporâneo chamado “conteúdo patrocinado”, onde ninguém mente exatamente, mas toda a gente toma duche a seguir, depois de “engolir uns sapos”.

As revistas de moda sofreram isto de maneira particularmente visível. Durante anos, foram máquinas de sonho, desejo, exclusão e consagração. A Vogue, a Harper’s Bazaar, a Elle, a Vanity Fair, a GQ: cada uma tinha uma gramática própria, um mundo, uma promessa. Podíamos criticá-las — e devíamos — pelo elitismo, pela obsessão com corpos impossíveis, pela reverência perante o luxo, pela capacidade de transformar uma mala ou um acessório num acontecimento civilizacional. Mas havia nelas uma espécie de arquitetura cultural. Um número de revista era bem pensado, fotografado, editado, paginado, defendido. Hoje, muitas vezes, a revista é uma marca que tenta existir em todos os sítios ao mesmo tempo: papel, site, Instagram, TikTok, YouTube, eventos, galas, listas, vídeos de bastidores, diretos, cápsulas, colaborações e talvez, se sobrar tempo, uma peça escrita.

E depois há ainda a inteligência artificial, essa nova estagiária universal que nunca dorme, nunca almoça, nunca reclama, nunca se sindicaliza e nunca pergunta se pode assinar o texto. A IA paira sobre a imprensa como uma ameaça educadamente formulada em linguagem de consultoria. Promete eficiência, rapidez, automatização, resumos, títulos, traduções, SEO, relatórios, transcrições. Tudo muito útil, tudo muito bonito, mas também tudo demasiado perigoso quando começa a substituir aquilo que não devia substituir: critério, experiência, presença, dúvida, olhar, responsabilidade e, sobretudo, conhecimento, competência e rigor. Uma máquina pode escrever sobre um desfile de moda. Mas esteve lá? Sentiu o ridículo? Viu a editora cair no degrau? Percebeu que a celebridade da primeira fila estava mais interessada nas notificações do telemóvel do que na roupa? Teve vergonha? Teve graça? Teve mundo?

O Diabo Veste Prada 2 toca bem nesta ferida — que pode ser extensiva a toda a imprensa escrita, incluindo os jornais — ao fazer da Runway uma revista que precisa de se reinventar para continuar a existir. Miranda percebe que a moda, sozinha, talvez já não chegue. É preciso reportagem. É preciso contexto. É preciso voltar a dar substância ao brilho. Andy entra precisamente aí: como alguém que vem do jornalismo  sério e responsável e pode trazer à revista de moda uma nova ambição editorial. Não para salvar o papel como relíquia de museu, mas para lembrar que a imprensa só sobrevive se tiver alguma coisa para dizer. A questão não é se o futuro está no papel ou no digital. A questão é se ainda há futuro para publicações que não se limitem a transformar tudo em superfície e banalidade.

O problema do filme, pelo que se percebe no seu desenvolvimento, é que nem sempre tem coragem para ir tão longe quanto promete. O início é forte, o fim encontra emoção e síntese, mas pelo meio há alguma palha, alguma vontade de repetir o conforto do primeiro filme, algumas voltas narrativas mais interessadas em devolver-nos gestos reconhecíveis do que em morder verdadeiramente a mão que alimenta a indústria. É compreensível. Uma sequela destas tem de agradar aos fãs, aos estúdios, às marcas, ao público que quer frases icónicas, roupa, nostalgia e a doce ilusão de que uma redação ainda pode ser salva por uma boa reunião de alinhamento. Ainda assim, fica a sensação de que o filme é melhor quando se esquece de ser O Diabo Veste Prada 2 e se lembra de ser uma comédia amarga sobre o enterro luxuoso da imprensa.

E depois há Anna Wintour, claro. Não se pode falar de Miranda Priestly sem evocar novamente a mítica diretora da Vogue, embora seja prudente fazê-lo com luvas brancas, porque a moda tem memória, advogados e pessoas capazes de nos julgar pela bainha das calças. Miranda não é Anna Wintour. Ou melhor: não é só Anna Wintour. A personagem nasceu do romance de Lauren Weisberger, que trabalhou como assistente na Vogue, e o cinema fez o resto: pegou numa sombra real e transformou-a num arquétipo. A editora imperial. A mulher dos óculos escuros em interiores. A sacerdotisa do gosto. A pessoa que parece dizer, mesmo quando está calada: “eu vejo-vos, mas vocês não têm direito a saber se vos aprovei.”

Wintour representa uma forma de poder cultural que hoje parece quase antiga e ultrapassada. A editora como filtro. A revista como tribunal. A capa como sentença. Durante décadas, estar ou não estar numa revista podia significar ascensão, consagração, exílio ou morte simbólica. Hoje, esse poder fragmentou-se. Uma boa capa ainda importa, mas também importa um “post”, um vídeo viral, uma celebridade a usar uma marca por acaso, uma polémica fabricada, uma tendência que nasce numa rede social e morre 36 horas depois, exausta e substituída por outra igualmente indispensável e igualmente inútil.

É isso que torna Miranda tão fascinante agora. Ela vem de um mundo onde o poder era vertical. Ela decidia. Os outros obedeciam. Agora vive num mundo horizontal, histérico, permanentemente ligado, onde toda a gente opina, toda a gente publica, toda a gente corrige, toda a gente cancela, toda a gente se promove e quase ninguém lê até ao fim um texto porque é “muito grande”. Miranda tem agora de enfrentar a dispersão. E talvez por isso a sua figura ganhe inesperada melancolia. Continuamos a temer a sua crueldade, mas também percebemos que, no caos atual, uma pessoa com critério — mesmo terrível, injusta e insuportável — pode parecer quase uma defensora da civilização. Uma ditadora estética, mas pelo menos sabe a diferença entre edição e enchimento.

O primeiro O Diabo Veste Prada ficou porque nunca foi apenas sobre moda. Era sobre trabalho, ambição, classe, sacrifício, sedução profissional e abuso normalizado. Todos conhecemos uma Miranda. Talvez não use Prada. Talvez use blazer azul-marinho e diga “somos uma família” antes de despedir metade da equipa. Talvez fale em “resiliência” quando quer dizer “façam o dobro com metade das pessoas”. Talvez chame “desafio” a uma exploração e “oportunidade” a uma humilhação. O filme de 2006 sobreviveu porque todos já estivemos, de alguma forma, naquela secretária.

A sequela acrescenta outra camada: todos — falo pelos jornalistas e pela minha experiência pessoal — já estivemos também naquela redação em risco. Ou conhecemos alguém que esteve. Jornais encerrados. Revistas reduzidas ou fechadas. Secções culturais amputadas. Críticos substituídos por agregadores. Repórteres experientes tratados como custos. Jovens jornalistas lançados para uma máquina que lhes pede vocação, velocidade, disponibilidade total e gratidão por poderem ser explorados com vista para um “open space”. A crise da imprensa não é apenas económica. É moral. É cultural. É democrática. Quando se despede um jornalista, não se corta apenas uma despesa. Corta-se memória, verificação, incómodo, contexto. Corta-se alguém que fazia perguntas, que questionava. E as sociedades onde já quase ninguém faz perguntas costumam acabar muito satisfeitas consigo próprias, mas pessimamente informadas.

Por isso, O Diabo Veste Prada 2 pode ser visto não apenas como uma comédia de moda, um regresso nostálgico, uma montra de estrelas, um desfile de roupa e veneno. Também pode ser lido como uma elegia tragicómica da imprensa. Uma missa de sétimo dia com sapatos de salto alto vermelhos e caríssimos. O filme sabe que o papel já não manda como mandava, que as revistas perderam o trono, que os jornais perderam leitores, dinheiro, prestígio e, muitas vezes, coragem. Mas também sugere que ainda há qualquer coisa a salvar. Não necessariamente o formato antigo. Não o romantismo bafiento das redações cheias de fumo, machismo e telefones fixos. Mas a ideia de que a imprensa existe para olhar melhor, perguntar melhor, escrever melhor, incomodar mais e melhor.

No fim, talvez seja isso que Miranda e Andy têm em comum, apesar de tudo: ambas ainda acreditam que o trabalho sério importa. Uma acredita no poder absoluto da edição, da imagem, do gosto e da autoridade. A outra acredita na reportagem, na palavra, no mundo para lá dos gabinetes e das redações. Entre as duas pode nascer uma tensão mais interessante do que qualquer desfile: a possibilidade de uma revista que não seja apenas superfície, nem apenas moralismo, mas uma forma de olhar para o presente com beleza, inteligência e dentes.

E nós, claro, cá estamos. A fingir que vemos o filme por interesse sociológico e crítico. A dizer que, afinal, é para estudarmos a crise dos media, os conglomerados económicos, a precariedade laboral, a inteligência artificial e a erosão da autoridade editorial. Tudo verdade. Absolutamente verdade. A imprensa morreu? Talvez não. Talvez esteja apenas muito mal vestida, muito mal paga, muito maltratada e à espera que alguém lhe devolva orçamento, coluna vertebral e uma boa primeira página. Miranda Priestly voltou. Andy Sachs também. A Runway tenta sobreviver, com novos investidores que não querem apenas o poder de influenciar. E nós continuamos aqui, a escrever, a ler, a duvidar, a rir e a fingir — eu, felizmente, já não — que não trememos quando chega uma mensagem do patrão.

That’s all.

Todos os seres humanos minimamente conscientes sofrem por alguma razão ao longo da vida. O que varia é o grau de sofrimento que enfrentam a cada momento. Alguém disse que a dor “é uma escola de força”. Mas todos procuram escapar ao sofrimento e para isso recorrem ao álcool, a substâncias químicas, ou a estilos de vida que lhes pareçam proporcionar um escape para o seu mau estar.

Mas quando se compreende e aceita que o sofrimento faz parte da vida, isso representa saúde para o indivíduo, favorece o conhecimento e domínio de si próprio, pois permite-lhe desenvolver valor humano e espiritual, treina a inteligência, ajuda a encontrar o significado da vida e aprofunda tanto as convicções como os limites pessoais. Tal experiência torna o indivíduo mais humano, mais próximo dos outros e ajuda-o a combater o mito moderno de encarar a felicidade como um estado e não um momento.

Esse momento é o justo equilíbrio entre o que a pessoa deseja e aquilo que ela consegue. Por outro lado, o que determina a sensação de felicidade nem sequer é que lhe vai sucedendo na vida mas sim o modo como ela o encara, ou seja, como a pessoa interpreta a sua realidade.

Nesta matéria a gestão de expectativas é fundamental. Se o indivíduo as coloca muito alto, tanto relativamente a pessoas como a situações, será desiludido muitas vezes, ficará frustrado e dificilmente se sentirá feliz. O melhor é viver o presente de forma equilibrada, enquanto supera eventuais traumas e feridas do passado e encara o futuro com uma atitude esperançosa.

Mas haverá algum antídoto para o sofrimento? Algo que funcione mesmo, já que o álcool, as drogas, as adições de toda a espécie ou a vida dissoluta são falsas soluções, não só porque não conseguem preencher o vazio interior provocado pelo sofrimento, como ainda o agravam com consequências funestas no âmbito mental, emocional, físico e social?

E é aqui que voltamos ao amor. Não apenas o amor romântico mas o amor pelos outros em geral, sejam eles do nosso sangue ou não. É o que pensa a psiquiatra espanhola Marian Rojas Estapé, autora da obra “Como Fazer para Acontecerem Coisas Boas”: “É a coisa mais importante na vida e o único antídoto para o sofrimento. É a resposta para tudo. Não há nada na história que cure e proteja tanto quanto o amor.”

Pode parecer lamechice mas é pura ciência, como comprova a autora: “Existe um estudo muito importante de Harvard que mostra que o parâmetro que mais condiciona as pessoas a envelhecer saudáveis e felizes é o amor. A solidão (involuntária) mata, sentir-se sozinho mata, a solidão tem um efeito na saúde equivalente ao do tabaco. É uma pena que tenhamos de dar uma base científica às coisas mais óbvias para que as pessoas acreditem nelas. Mas, sim, é preciso voltar ao amor. E isto é medicina, não é pseudociência. O que acontece é que vivemos numa sociedade em que deitamos fora o que está estragado, em vez de o consertar. Também o amor. A esse respeito, teríamos muito a aprender com os nossos pais e avós.”

É que, como dizia William Shakespeare: “O amor não se vê com os olhos, mas com o coração.”

Talvez seja desconcertante para muitos, mas para os crentes não é difícil compreender esta verdade profunda, que o amor cura, porque o amor é precisamente a essência de Deus, como diz João Evangelista, o apóstolo: “Deus é amor” (I João 4:8b). E se os homens fizessem o que Deus espera e deseja, o mundo seria bem diferente: “Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor” (1 João 4:7,8).

A Madre Teresa de Calcutá, que devotou a sua vida aos outros, aos pobres dos mais pobres, afirmava: “Um coração feliz é o resultado inevitável de um coração ardente de amor”. Nem mais.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

À medida que a tecnologia se torna mais acessível e escalável, caminhamos para um futuro onde cada projeto de infraestrutura, cada hectare agrícola e cada decisão ambiental poderá ser tomada com base em dados precisos obtidos em tempo útil. Não se trata apenas de medir o impacto: trata-se de compreender, minimizar e, sempre que possível, transformar a nossa presença num legado positivo para a biodiversidade.

A biodiversidade está em risco e sendo esta responsável pela nossa alimentação, pelo nosso solo, água, clima e até pelo ar que respiramos, não é difícil perceber a urgência da sua proteção. Quando se trata da forma como monitorizamos e protegemos a natureza, há uma ferramenta que tem vindo a ganhar destaque na comunidade científica, o ADN Ambiental. Todos os seres vivos, ao passarem por um local, deixam “rastos” — escamas, muco, fezes, pólen — que contêm restos de ADN, a que se apelidou de ADN Ambiental. Uma descoberta que permite, nos dias de hoje, a partir de uma amostra de água, solo, vegetação ou mesmo ar, graças à sequenciação genética, identificar todas as espécies que ali estiveram sem nunca as termos visto. É como tirar uma “fotografia genética” de um ecossistema e é o mais perto que temos de um CSI da Natureza.

Porque é que isto importa? Imaginemos o estudo de uma barragem, um ativo essencial para a transição energética, mas que introduz uma barreira num rio. Esta ação tem impacto e esse impacto tem de ser avaliado antes da construção da mesma, durante a operação e no final, se esse ativo for desmantelado.

Utilizando métodos de ecologia tradicional, os biólogos teriam de pescar, observar e devolver os peixes à água, um processo moroso, extremamente invasivo e que requer um conhecimento avançado de taxonomia para identificação da espécie de peixe, que nem sempre está acessível com facilidade. Através do ADN Ambiental, podemos facilmente complementar ou até substituir este estudo. Basta a recolha de alguns litros de água em pontos-chave daquele ecossistema e, após a sequenciação, podemos tipicamente detetar não só os peixes presentes, mas também anfíbios, insetos, mamíferos que lá foram beber, bactérias, etc… É mais rápido, escalável, deteta espécies raras que os humanos não veem e não perturba o habitat.

Neste ‘CSI da Natureza’, tudo acontece em três grandes etapas: a primeira é a captura do ADN invisível, uma tarefa que começa no campo, com um técnico na margem de um rio ou numa floresta, a recolher uma amostra, que pode ser um pouco de solo, uns litros de água, um esfregaço de uma superfície ou mesmo muitos litros de ar. O que ele está a capturar é uma ‘sopa genética’, filtrada ali mesmo, com o ADN a ser preservado para evitar a sua degradação. Esse pequeno filtro guarda a memória biológica de quem esteve naquele local nas últimas horas ou dias.

O segundo passo é o da descodificação, que acontece no laboratório, onde se extrai o ADN desse filtro e se ‘fotocopia’ esses fragmentos milhões de vezes até os tornarmos legíveis com recurso a uma técnica, o famoso PCR. Depois, as mais avançadas máquinas de sequenciação de ADN leem as letras químicas desse ADN que, sozinhas, são apenas ruído. É aí que entra a nossa inteligência de dados: cruzamos esse código com a ‘Biblioteca da Vida’, bases de dados globais que nos dizem exatamente a que espécie pertence cada fragmento.

O último passo é o da decisão. É aqui que a viagem termina e o valor real aparece. Transformamos milhões de sequências genéticas em algo que responde à pergunta que foi feita e informa a tomada de decisões. Não entregamos uma mera lista técnica de nomes em latim, mas sim indicadores claros: ‘o local A é mais biodiverso que o local B’, ou ‘encontrámos uma espécie invasora no início da sua propagação’, ou ‘detetámos a presença desta espécie protegida’.

E em que áreas podemos aplicar esta tecnologia? A agricultura é uma delas. Aqui, estamos a falar em medir a diversidade ou saúde microbiana do solo, monitorizar a presença de insetos auxiliares, monitorizar pragas de forma precoce para podermos atuar antes que seja tarde demais.

No setor da energia, por exemplo, nas eólicas no mar, a monitorização da biodiversidade no meio do oceano é tradicionalmente caríssima e perigosa. Com o ADN Ambiental, mudamos o jogo: basta uma amostra de água para detetar a passagem de baleias, golfinhos ou cardumes em redor das turbinas.

Em terra, podemos olhar para os parques solares, onde têm surgido projetos que juntam solar e agricultura, apelidados de agrivoltaico. Nestes projetos, que têm o objetivo de produzir energia e alimentos no mesmo terreno, os nossos dados focam-se em três pontos essenciais: a saúde do solo, em que medimos se o microbioma evidencia um solo saudável; os polinizadores, em que monitorizamos se o parque solar atrai, por exemplo, abelhas, ou outros polinizadores e insetos auxiliares que beneficiam as culturas vizinhas; e os refúgios de biodiversidade, em que provamos que estes parques não são ‘desertos de painéis’, mas sim ecossistemas protegidos onde a biodiversidade pode florescer.

Nos setores como mineração, construção, transportes, setores de alto impacto, onde existe por parte dos governos e da sociedade uma “licença social para operar”, o ADN Ambiental já é usado para monitorizar, por exemplo, espécies protegidas, evitando paragens inesperadas por falta de informação ambiental.

A tecnologia existe. O conhecimento está disponível. Agora, cabe-nos a todos, empresas, governos e sociedade civil, integrar ferramentas como o ADN Ambiental nas nossas práticas e decisões. Porque proteger a biodiversidade não é um luxo nem uma escolha, mas a única forma de garantirmos que as gerações futuras terão acesso aos mesmos recursos naturais de que dependemos hoje.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Há um ano, faltou a luz e, de repente, apareceu tudo o resto.

As conversas que estavam adiadas. O vizinho que afinal conhecíamos só de vista. O jantar sem televisão ligada. O silêncio estranho de uma casa sem notificações. A sensação quase desconfortável de não haver nada para distrair.

Durante algumas horas, fomos obrigados a parar. Curiosamente, foi nesse parar que muita gente sentiu uma proximidade que já não sabia como lhe chamar.

Dissemos que o apagão nos aproximou. Mas talvez isso não seja totalmente verdade.

Não foi o apagão não nos aproximou. Foi o que fizemos com ele.

Foi a porta que se abriu para perguntar se estava tudo bem. Foi a conversa que finalmente aconteceu. Foi o tempo que apareceu quando o ruído desapareceu.

Aqui entra uma verdade pouco romântica: nós não estamos assim tão sem tempo. Estamos, muitas vezes, demasiado distraídos para aquilo que realmente importa.

Quantas vezes dizemos que não conseguimos estar mais com quem gostamos, mas passamos horas em piloto automático fazer scroll no telemóvel, a saltar entre tarefas, ecrãs e urgências que amanhã já nem nos lembramos?

É certo que o nosso cérebro se habituou à recompensa imediata: a notificação, a resposta rápida, o estímulo constante. A dopamina gosta de novidade, de rapidez, de movimento. Estar parado exige mais esforço do que parece.

Talvez por isso o apagão tenha sido tão desconcertante, e não foi apenas pela falta de eletricidade. Foi sobretudo pela ausência de fuga. Sem distrações, sobrou o essencial

Um ano depois, tudo voltou ao normal. Demasiado normal. Voltámos a dizer que não temos tempo. Voltámos a adiar cafés, conversas e visitas. Voltámos a precisar de circunstâncias extraordinárias para fazer aquilo que, no fundo, sabemos ser importante.

Talvez essa seja a parte mais incómoda: às vezes, não é a rotina que nos afasta. Somos nós que a usamos como desculpa. É mais fácil culpar o ritmo do que admitir que também escolhemos onde colocamos a atenção.

Não precisamos de outro apagão para desligar. Precisamos, talvez, de mais honestidade. De reconhecer que proximidade não nasce da falta de luz, mas da decisão de estar. De ouvir. De interromper o circuito automático.

Hoje, podemos escolher fazer o mesmo. Sem desculpas.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Na Poética, de Aristóteles, somos ensinados que quanto mais intensos são os sentimentos inspirados por uma tragédia – medo, horror, revolta, compaixão –, maior é a catarse do público. Uma história bem contada, em que as tensões presentes na peça permitem à audiência identificar-se com as emoções das personagens, conduz à resolução do conflito e ao desfazer de tensões, atingindo-se então a catarse.

Se para Aristóteles a catarse era sobretudo experienciada pela audiência, hoje em dia é comum referirmo-nos à escrita como processo terapêutico – catártico – do próprio autor ou da autora. Afinal, é preciso um especial tipo de coragem para decidir enfrentar o abismo que devolve a nossa reflexão ao espelho. Sem coragem, como seríamos capazes de pôr fim às trevas e preenchê-las de luz?

Vem isto a propósito de uma conversa em que participei, a convite do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e do coletivo feminista Insurgentes, com a participação de várias autoras com obras sobre migração, cultura e desenraizamento, e que me fez regressar a esta ideia aristotélica de catarse.

Fiquei a conhecer a história de Margarita Sharapova que vivera toda a vida na Rússia e, durante o regime de Putin, começou a ser perseguida por ser uma autora lésbica e que escrevera sobre temáticas LGBT. No livro Três Histórias de Mulheres Refugiadas (Edições Insurgentes), partilha a sua história e revela como foi constantemente perseguida em Moscovo devido à sua escrita, insultada e espancada pela polícia e por neonazis russos. Não adiantava recorrer às autoridades porque estavam em conluio com o regime. Sharapova não queria abandonar a sua terra natal, mas após a morte trágica da sua companheira, vítima de violência policial, a vida tornou-se impossível na Rússia. Fugiu para Portugal sem conhecer a língua nem o país, e pediu asilo político. 

Quando falamos de violência e perseguição política, de refugiados e guerras, quando falamos de descolonização, deslocamento forçado e outros processos de enorme violência, esquecemo-nos com frequência de que cada história tem um rosto e um nome. Há todo um passado que fica para trás, e a pessoa que éramos ontem já não é a pessoa que somos hoje. O que seria dos escritores se não fosse a força de vontade para detalhar em papel essas vivências, numa tentativa de sensibilizar os leitores para a indignidade e a crueldade crescente dos nossos tempos?

Recordo-me de ter ficado profundamente impressionada com O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch, permitindo-me uma compreensão das circunstâncias históricas esmagadoras, antes e depois do regime soviético, e as promessas que foram feitas e a seguir estilhaçadas.

Recordo-me do álbum autobiográfico de banda desenhada Assombrada, da iraniana Shaghayegh Moazzami. Imigrou para o Canadá, numa tentativa de fugir à vida opressiva sob o regime iraniano, mas não consegue desligar-se do seu país de origem. Essa ligação transforma-se na figura de uma mulher iraniana conservadora, vestida com um chador preto, que a assombra e a acusa de ter abandonado os costumes e a religião. Moazzami está de tal forma atormentada pela culpa que só através do processo catártico da sua arte consegue finalmente deixar para trás os seus fantasmas.

Recordo-me também da banda desenhada autobiográfica da libanesa Zeina Abirached, que conta em A Dança das Andorinhas a história da sua infância durante a guerra civil libanesa, e de como os vizinhos formaram uma comunidade que lhes permitiu ultrapassar a vida absurda numa cidade dividida por campos de batalha e sob a constante ameaça dos mísseis. No meio da devastação em redor, os vizinhos procuram manter a normalidade, e enquanto uns ponderam o exílio, outros sabem que jamais irão partir.

Tantas histórias de violência que foram transformadas em literatura em vez de ficarem guardadas numa gaveta profunda de memória. Tantas autoras a passarem pelos seus processos de catarse. Talvez seja nesse gesto de escrita que reside não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a de partilha. E talvez seja aí, nesse encontro entre quem escreve e quem lê, que começamos a compreender melhor aquilo que, de outra forma, permaneceria distante.

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Palavras-chave:

A notícia de que parte dos crimes de corrupção relacionados com o empreendimento de Vale do Lobo, no âmbito da chamada Operação Marquês, estará prestes a prescrever é mais do que um episódio jurídico. É um sinal preocupante sobre o funcionamento da justiça em Portugal e sobre a perceção que os cidadãos constroem e reforçam em relação às instituições.

A prescrição não equivale a absolvição. Trata-se de um mecanismo legal que determina que, passado um certo período de tempo, o Estado perde o direito de punir e quando aplicada a processos de grande complexidade e relevância pública, como este, levanta inevitavelmente questões sobre a eficácia do sistema judicial.

O que está em causa não é apenas um detalhe técnico. Quando crimes graves, associados a suspeitas de corrupção envolvendo pessoas influentes, chegam ao fim sem julgamento efetivo devido ao decurso do tempo, instala-se a ideia, justa ou não, de que a justiça é mais lenta, mais tolerante ou simplesmente menos eficaz quando lida com os chamados “poderosos”. Essa perceção corrói um dos pilares fundamentais da democracia, a igualdade perante a lei.

É difícil explicar ao cidadão comum que pequenos delitos são julgados com relativa rapidez, enquanto processos complexos, com meios e recursos muito superiores, se arrastam durante anos até perderem relevância penal. A sensação de que existe uma justiça “parca com os fortes” não nasce do acaso, constrói-se a partir de episódios repetidos em que o desfecho parece confirmar essa desigualdade.

Este tipo de situações tem também um impacto profundo na relação entre os cidadãos e a política. Quando casos mediáticos, associados a suspeitas de corrupção ao mais alto nível, não chegam a uma conclusão clara em tribunal, alimenta-se a desconfiança. A política passa a ser vista, por muitos, como um espaço de impunidade, onde as consequências são sempre adiadas ou evitadas.

O afastamento dos cidadãos da vida pública não acontece de um dia para o outro, pois é um processo gradual, feito de desilusões acumuladas. Cada processo que termina sem resposta efetiva reforça a ideia de que participar, votar ou confiar nas instituições pode ser inútil. E essa erosão silenciosa é, talvez, uma das consequências mais graves.

Importa, por isso, olhar para além do caso concreto e refletir sobre o sistema. A complexidade dos processos, os sucessivos recursos, a escassez de meios e a própria arquitetura legal contribuem para atrasos significativos, mas reconhecer estas dificuldades não pode servir de desculpa permanente. Um sistema de justiça que não consegue responder em tempo útil a casos desta magnitude arrisca-se a falhar na sua função essencial.

Mais do que apontar culpados individuais, é necessário questionar se o modelo atual está preparado para lidar com a criminalidade económico-financeira de forma eficaz, pois a confiança dos cidadãos não se reconstrói com declarações, mas com resultados visíveis e consistentes.

No fim, o que fica não é apenas a prescrição de determinados crimes, fica a dúvida e a sensação de que a verdade nunca foi plenamente apurada. E, sobretudo, fica mais um contributo para o distanciamento entre os cidadãos, a justiça e a política, um afastamento que, se não for travado, pode ter consequências profundas na qualidade da nossa democracia.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.