O “grande rejuvenescimento da nação chinesa” anunciado por Xi Jinping quando atingiu o topo do poder, em novembro de 2012, envolve também o futebol. Neste campo, o “sonho chinês” passa por três fases: qualificar-se para o Mundial, organizar um Mundial e sagrar-se campeão do mundo. É mais do que um sonho. Há 24 anos que a China não consegue qualificar-se para a fase final de um Mundial, ocupando hoje o 94º lugar no ranking da FIFA. Uma classificação imprópria para uma grande potência emergente, reconhecida como campeã da globalização.

Até 1992, o ano em que o Partido Comunista Chinês se converteu à “economia de mercado socialista”, os futebolistas eram assalariados da Comissão Estatal de Educação Física e Desporto, ganhando de acordo com a tabela em vigor na função pública. Quando iam jogar fora, viajavam de comboio, “como qualquer outro trabalhador”, e eram eles próprios que transportavam as bolas e o equipamento. Com a “reforma do futebol”, um jogador profissional passou a ganhar no mínimo 50 000 yuan por ano (cerca de 6500 euros) – 40 vezes mais do que o rendimento anual per capita nas zonas rurais, onde viviam dois terços da população – e alguns chegavam a receber 26 000 euros. A nova política autorizou também a contratação de jogadores e técnicos estrangeiros, o que contribuiu igualmente para aumentar a qualidade do futebol e a afluência aos estádios. “O nosso sonho é ir um dia ao Mundial”, dizia, já nessa altura, um diretor da Associação Chinesa de Futebol, Ma Kejian, ex-guarda-redes da seleção chinesa.

Em 2002, pela primeira e única vez, a China qualificou-se para um Mundial. Foi na Coreia do Sul, um dos organizadores da competição, juntamente com o Japão, o que aumentou o número de países asiáticos apurados para a fase final. A estreia não deixou saudades: a seleção perdeu os três jogos que disputou e não conseguiu marcar um único golo. Entretanto, surgiu um problema endémico na sociedade chinesa: a corrupção. Dezenas de técnicos, dirigentes e jogadores, entre os quais um antigo selecionador nacional – o internacional Li Tie, que chegou a jogar num clube inglês −, foram presos e condenados. Um ex-presidente da Associação Chinesa de Futebol, Chen Xuyuan, está a cumprir uma pena de prisão perpétua por envolvimento em “manipulação de resultados e outros crimes financeiros”.

Embora o basquetebol tenha mais adeptos, a paixão pelo futebol está a crescer. Mas a popularidade não é correspondida pela seleção nacional. Cúmulo da humilhação, na última fase de apuramento, o Japão venceu a China por 7-0. Pior do que isso só em 2013, quando a seleção chinesa perdeu em casa frente a uma espécie de equipa B da Tailândia por 5-1, um resultado visto como “uma vergonha nacional” e que gerou até tumultos violentos. Ainda por cima, a “desgraça” coincidiu com o 60º aniversário do Presidente Xi Jinping, um assumido adepto da modalidade e cuja liderança patrocinou a “grande reforma” do futebol aprovada há dez anos.

“Devemos desenvolver e revitalizar o futebol para assegurar que somos uma forte nação no domínio desportivo”, proclamou então o Grupo Central Dirigente do PCC para o Aprofundamento das Reformas, organismo presidido por Xi Jinping. A prática do futebol passou a ser uma “componente obrigatória” da disciplina de Educação Física em 20 000 escolas e em 2025 chegaria às 50 000.

Por ora, o “sonho chinês” para o futebol permanece uma miragem distante. O Mundial, no entanto, “continua a ser um grande acontecimento para os adeptos, cujo entusiasmo sobreviveu às tardias transmissões televisivas e à longa ausência da sua equipa da competição”, segundo o Global Times, do grupo Diário do Povo, o órgão central do PCC. Os mais entusiastas têm até por quem torcer: um dos 53 árbitros escolhidos pela FIFA para o Mundial de 2026 é o chinês Ma Ning.

“Sem equipa no Mundial, a China une-se em torno de um árbitro”, observou a plataforma online Sixth Tone, sediada em Xangai. Até 6 de junho – indicou a mesma fonte –, tópicos relacionados com este árbitro já tinham sido vistos mais de três mil milhões de vezes no Douyin, a versão chinesa do TikTok. Um grande jornal de Hong Kong, o South China Morning Post, assinalou o mesmo fenómeno: “A China põe as suas esperanças em Ma Ning.” E a FIFA, por sua vez, também espera muito da China. Segundo disse ao Global Times uma responsável da organização, “a China tem uma das maiores audiências do mundo e o público chinês é fundamental para o sucesso global do Mundial”.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Palavras-chave:

Há datas que não se fecham no calendário. Permanecem abertas,  para que o País possa regressar a elas todos os anos para confirmar que pouco mudou. 

Passaram nove anos desde os incêndios de Pedrógão Grande. Nove anos desde que Portugal assistiu, em direto, a uma das maiores tragédias da sua história recente. Nove anos desde que dezenas de pessoas perderam a vida numa combinação devastadora de condições meteorológicas extremas, vulnerabilidades territoriais acumuladas e falhas de resposta que chocaram o País.

Na altura prometeram-se reformas estruturais. Prometeu-se reorganizar a floresta, reduzir a vulnerabilidade do território, melhorar a coordenação operacional, completar o cadastro da propriedade rural e enfrentar o abandono que alimenta o risco. Prometeu-se que Pedrógão não voltaria a acontecer.

Em 2026, Portugal entra novamente no verão sob sinais preocupantes. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas têm vindo a alertar para condições favoráveis à ignição e propagação rápida de incêndios. Ondas de calor mais frequentes, secas mais prolongadas e uma atmosfera mais energética são hoje características consistentes com aquilo que a ciência climática tem vindo a documentar nas últimas décadas.[1]

A isto juntam-se os efeitos das tempestades que atingiram o território durante o inverno. Em várias regiões, permaneceram no terreno grandes quantidades de árvores derrubadas e biomassa acumulada. Em muitos locais, o combustível do próximo incêndio já está preparado antes mesmo de o verão começar.

Ao mesmo tempo, algumas das fragilidades identificadas após 2017 continuam presentes.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico voltou recentemente a sublinhar a necessidade de reforçar uma abordagem integrada da gestão do fogo rural, alertando para desafios persistentes na coordenação institucional, na articulação entre prevenção e combate e na gestão da paisagem. [2]

No terreno, a prioridade operacional é hoje, e bem, a proteção da vida humana. Bombeiros e Proteção Civil concentram os seus esforços na defesa de aldeias, habitações e infraestruturas, deixando que o incêndio avance sobre a floresta maioritariamente coberta por árvores que alimentam esse fogo e o fazem aumentar de dimensão. A verdade é que continuamos a gerir consequências sem resolver as causas.

Portugal permanece marcado por três tendências estruturais particularmente vulneráveis ao fogo. O despovoamento do interior, o abandono de áreas agrícolas e florestais e uma paisagem cada vez mais homogénea  e dominada pelo eucaliptal em muitas regiões.

Segundo o Inventário Florestal Nacional, o eucalipto continua a ser a espécie com maior área de floresta plantada em Portugal continental e esta é a parte inventariada, porque sabemos que o inventário não está atualizado e muitas zonas ainda consideradas no inventário como matos já são áreas ocupadas por eucaliptos. O problema está no modelo territorial que produz extensas manchas contínuas de vegetação com reduzida diversidade, pouca gestão e elevada carga combustível.[3]

Ao longo das últimas décadas, os dados de monitorização territorial do programa europeu Copernicus mostram transformações significativas da paisagem portuguesa. Em várias regiões observa-se a redução de mosaicos agrícolas, a simplificação dos usos do solo e o aumento da continuidade da vegetação . Quando o fogo encontra continuidade, ganha escala. Quando ganha escala, torna-se cada vez mais difícil travá-lo. [4]

Os incêndios atuais ocorrem num contexto de aquecimento global impulsionado pela acumulação de gases com efeito de estufa resultantes da queima de combustíveis fósseis, aumentando a probabilidade e intensidade de fenómenos extremos em várias regiões do planeta como temos vindo a verificar.  [5]

Existe um elemento menos evidente, mas com impacto profundo, que atravessa todos os verões: a forma como falamos deles. A expressão “época de incêndios” instalou-se como linguagem automática. Sugere normalidade quando, na realidade, estamos perante uma crise.

Com o tempo, essa linguagem produz o efeito subliminar de risco excecional passar a ser lido como acontecimento inevitável, ativando o modo de espera nas comunidades, associado a uma ansiedade crescente todos os dias que amanhecem com calor. Espera-se o aviso, espera-se a resposta, espera-se a chegada dos meios, espera-se que o fogo não chegue desta vez,  substituindo a ação pela passividade da espera.

 Existe uma diferença, que muitas vezes não é debatida, entre ser vítima num dado momento de uma dada catástrofe e ser afetado por ela. Na verdade, as vítimas de grandes catástrofes permanecem com a marca na memória muito para além do momento em que foram vítimas e este facto desencadeia uma reação de resposta de ansiedade perante as probabilidades de repetição do fenómeno que as vitimou.

A vítima fica fora do tempo da decisão. Surge depois do evento, quando o dano já está feito e a capacidade de intervenção desapareceu; o afetado, pelo contrário, reconhece que vive dentro de um sistema atravessado por risco climático e por opções políticas acumuladas, mas não abdica da possibilidade de agir antes da emergência para não voltar a ser vítima Não aceita a exclusão do momento em que ainda há escolha.

Esta consciência  aciona a uma atenção especial sobre o ponto em que se pode tomar ação e esse momento existe e ninguém está a olhar para ele porque entre a vigilância institucional e o combate operacional existe um intervalo crítico que continua pouco reconhecido: o da organização social do território. 

Em diferentes regiões do País começam a emergir formas discretas dessa organização. Pessoas que identificam pontos de água, que mapeiam caminhos e acessos, que reconhecem zonas de continuidade de vegetação, que articulam redes de contacto entre vizinhos e que criam mecanismos de alerta precoce. Não são estruturas paralelas ao sistema, mas respostas que nascem onde o sistema não dá resposta.

A sua lógica não é substituir o Estado. É recusar a passividade como única posição possível.

Neste intervalo de tempo, o conhecimento local também é intervenção ativa, com o conhecimento do terreno, do que na realidade está lá e que pode ser combustível para aumentar o incêndio ou pode ser recurso para o combater.

 Uma organização popular de base é também política no sentido mais direto. Comunidades que se organizam não estão apenas a responder ao risco imediato. Estão a intervir na forma como o território é produzido e gerido ao longo do tempo. Isso implica exigir alternativas reais de gestão da paisagem, criar condições para diversificação económica do interior e quebrar a dependência de modelos extensivos e homogéneos que simplificam o território até o tornar mais vulnerável.

Nove anos depois de Pedrógão, a questão não se limita ao balanço do que foi aprendido, mas sim até que ponto se normalizou a repetição de grandes incêndios em Portugal?

Porque os incêndios não resultam apenas de condições meteorológicas extremas. Resultam de um território moldado por decisões acumuladas, de uma paisagem trabalhada por economias específicas e de um contexto climático global em aquecimento contínuo devido à persistência das emissões associadas aos combustíveis fósseis.

 A esta equação devemos acrescentar que alguns modelos climáticos internacionais apontam para a possibilidade de desenvolvimento de um episódio forte de El Niño durante a segunda metade de 2026, embora subsistam incertezas quanto à sua intensidade e aos seus efeitos globais. Se tal acontecer, poderá acrescentar pressão adicional a um sistema climático que já se encontra profundamente alterado.[6]

A escolha que enfrentamos é sobre o tipo de país que queremos construir para não termos um mapa de Portugal todo pintado de vermelho.

Ninguém se habitua a viver de forma saudável com temperaturas extremamente altas nem em clima de constante alerta que desencadeia o medo perante a ameaça de tudo perder, inclusive o risco de perder a própria vida em mais um período de calor extremo. A organização local pode reduzir danos, salvar vidas e reforçar a resiliência. Mas a sua eficácia terá sempre um limite enquanto continuarmos a alimentar a principal causa do agravamento da crise climática.

Nove anos depois de Pedrógão,  olhamos para o território  e questionamos: o que, na prática, mudou  para que estas tragédias não se tornem recorrentes?

Que alterações concretas foram feitas na forma como se ocupa o interior, na gestão da floresta, na fragmentação da propriedade, na continuidade da vegetação que alimenta o fogo ano após ano,  especialmente o eucalipto?

Há um desfasamento evidente entre a produção de planos, relatórios e promessas e a transformação real do terreno. A reação intensa quando uma crise ou uma catástrofe acontece não basta quando a seguir a ação não corresponde ao que realmente é exigido para que não se repita. 

Os grandes incêndios florestais com grande intensidade repetem-se não por falta de diagnóstico, mas por ausência de vontade para uma mudança estrutural.

Enquanto se falar de meios de combate, de equipamentos de combate, de resposta, de comunicações e não se olhar para a estrutura florestal, o verão continuará a ser um teste repetido às mesmas fragilidades. E a discussão sobre inevitabilidade serve apenas para desviar a atenção daquilo que permanece por resolver.

Referências:
[1] [2] [5]
Gestão do fogo rural e avaliação das reformas pós-2017
OECD, Towards an Integrated Rural Fire Management Framework in Portugal (2026)
https://www.oecd.org/en/publications/towards-an-integrated-rural-fire-management-framework-in-portugal_9cb528df-en.html?utm

[3]
Inventário Florestal Nacional
ICNF, 6.º Inventário Florestal Nacional
https://www.icnf.pt/noticias/inventarioflorestalnacional
ICNF, Estatísticas e Indicadores Florestais
https://www.icnf.pt/florestas/flestudosdocumentosestatisticasindicadores

[4]
Monitorização da paisagem e uso do solo
Copernicus Land Monitoring Service
https://www.copernicus.eu/en/copernicus-services/land
https://documentation.dataspace.copernicus.eu/Data/ComplementaryData/CLMS.html
[6]
Possível desenvolvimento de El Niño em 2026
Euronews
https://pt.euronews.com/2026/05/12/super-el-nino-este-ano-do-calor-recorde-as-cheias-e-secas-extremas

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

1 – No passado dia 25 de maio, o PS apresentou um Projeto de Lei que visa alterar a Lei n.º 24/96, de 31 de julho, aditando ao catálogo de “direitos do consumidor” o direito ao contacto com um interlocutor humano no âmbito de canais de atendimento e apoio ao cliente.

A iniciativa surge na sequência de um relatório, recém-publicado pela DECO, no qual foram identificadas várias fragilidades relacionadas com a forma como as empresas a operar em Portugal estruturam os seus canais de contacto online – muito particularmente, quando a interação é mediada por chatbots, assistentes virtuais ou outros sistemas automatizados.

Os números são claros: de entre as empresas analisadas pela DECO, verificou-se que 70,8% disponibilizavam chatbots ou assistentes virtuais enquanto canais de contacto. Todavia, praticamente um quarto desses sistemas – cerca de 23,5% – não conferia aos consumidores a possibilidade de escalar para um operador humano dentro do próprio chat.

Acresce que, mesmo nos sistemas em que essa possibilidade era concedida, a DECO apurou que 30,8% exigiam uma resposta sucessiva a várias perguntas automatizadas antes de surgir a opção de contactar um humano. Ademais, 15,4% dos sistemas apresentavam um tempo de espera superior a 5 minutos para que esse contacto pudesse ser estabelecido. Fatores que, embora não equivalendo a uma negação da possibilidade de recorrer a um interlocutor de carne e osso, provocavam um inevitável desgaste nos consumidores, aumentando, bem assim, a probabilidade de estes desistirem de levar a sua pretensão avante.

2 – Nesta senda, o propósito do referido Projeto de Lei é simples: impedir que a modernização tecnológica dos canais de atendimento implique, na prática, uma redução da capacidade dos consumidores para exercer os seus direitos, esclarecer dúvidas, resolver problemas ou obter uma resposta adequada sempre que a sua situação concreta careça da intervenção de um operador humano (cfr. Exposição de motivos do Projeto de Lei).

Para o efeito, propõe-se a introdução de quatro novidades principais. Em primeiro lugar, consagra-se o “direito [do consumidor] a solicitar e obter contacto com [um] interlocutor humano sempre que interaja com canais de atendimento ou de apoio ao cliente disponibilizados pelo fornecedor de bens ou prestador de serviços” (cfr. art. 2.º do Projeto de Lei) – direito esse que, como vimos, se pretende incluir no catálogo de “Direitos do consumidor atualmente previsto no art. 3.º da Lei n.º 24/96 (cfr. art. 3.º do Projeto de Lei).

Em segundo lugar, estabelece-se o princípio básico segundo o qual “a utilização de sistemas automatizados de atendimento ou conversação deve funcionar como instrumento de apoio ao consumidor, não podendo excluir, restringir, dificultar ou atrasar injustificadamente o acesso do consumidor a interlocutor humano” (cfr. art. 2.º do Projeto de Lei).

Em terceiro lugar, prevê-se que, sempre que um fornecedor de bens ou prestador de serviços utilize um sistema automatizado de atendimento ou conversação, este deve assegurar que: (i) “o consumidor é informado, de forma clara e compreensível, no início da interação, de que está a interagir com um sistema automatizado”; (ii) “existe, desde o início da interação e em qualquer momento da mesma, um mecanismo permanente e facilmente acionável, que permita ao consumidor solicitar o contacto com um interlocutor humano”; (iii) “o acesso ao interlocutor humano não depende da realização de tentativas prévias de resolução automatizada”; e (iv) “a solicitação de contacto com um interlocutor humano não implica custos adicionais para o consumidor, sem prejuízo dos custos normais de utilização do meio de comunicação escolhido” (cfr. art. 2.º do Projeto de   Lei).

Por último – mas não menos importante – estipula-se que “o fornecedor de bens ou prestador de serviços que disponibilize sistemas automatizados de atendimento ou conversação deve assegurar um horário de atendimento por interlocutor humano adequado à natureza da atividade e ao volume previsível de interações com consumidores, não podendo ser organizado de modo a tornar, na prática, excessivamente difícil, improvável ou ineficaz o exercício do direito [suprarreferido]” (cfr. art. 2.º do Projeto de Lei).

3 – Sem prejuízo das fragilidades que lhe possam ser apontadas, o Projeto de Lei do PS parece-nos, pois, uma iniciativa globalmente equilibrada, que aponta no caminho certo. Por um lado, porque reconhece a necessidade de garantir uma “reserva de humanidade” no âmbito das relações de consumo – seja para evitar a exclusão de consumidores em situação de maior vulnerabilidade (e.g. idosos, pessoas com deficiência, indivíduos com menor literacia digital, cidadãos com dificuldades linguísticas ou pessoas sem acesso regular a meios digitais), seja para assegurar que mesmo aqueles que não se encontram nessa situação não são prejudicados pela existência de sistemas fechados, repetitivos ou incapazes de reconhecer as especificidades dos problemas apresentados. Por outro, porque procura responder a essa necessidade não proibindo, mas regulando; e fá-lo de uma forma que se afigura suficientemente garantística, sem se revelar excessivamente asfixiante.

De resto, não poderia ser de outra forma. Afinal, o próprio Projeto de Lei deixa claro que, não obstante os seus riscos, a utilização de chatbots, assistentes virtuais e outros sistemas automatizados no âmbito de canais de atendimento e apoio ao cliente comporta, igualmente, inúmeras vantagens, permitindo, nomeadamente, uma “maior rapidez na resposta a questões simples”, a “disponibilidade alargada de informação” ou uma “organização mais eficiente dos pedidos” (cfr. Exposição de motivos do Projeto de Lei); tudo isto benefícios que aproveitam não só às empresas como também aos próprios consumidores.

Dito isto, resta pois aguardar pelos próximos capítulos – em especial, pela apreciação, discussão e votação do projeto em sede parlamentar. Da nossa parte – e sob uma perspetiva estritamente jurídica – a iniciativa é meritória. Oxalá seja esse também o entendimento da maioria dos partidos representados na Assembleia da República. Fazemos votos para que nos seja finalmente concedido o direito de deixar de falar para o boneco.

Nota: as opiniões expressas no presente artigo sãoformuladas a título individual, não vinculando as entidadesem que o autor desempenha funções. 

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

“Montra” isto, “montra” aquilo: não é por acaso que se ouve tantas vezes a palavra “montra” para descrever o Mundial de Futebol. O Mundial é a grande celebração do visível. E vê-se tudo. A relva e os corpos, as lágrimas e as bandeiras, os hotéis e as comitivas, os túneis e as estatísticas e o milímetro a mais da ponta-da-chuteira-naquela-fracção-de-segundo. Até as caras são coleccionáveis. E vê-se a ilha, a casa e a mãe do guarda-redes cabo-verdiano Vozinha, que gosta de telenovelas e lá lhe arranjaram maneira de ir aos Estados Unidos ver o filho jogar.

O Mundial é esta máquina tão poderosa de aparição que nem a mãe do guarda-redes do Chaves é deixada em sossego.

O raciocínio reflexo diria: mas isso é fantástico. Mas o que o raciocínio reflexo não tem em conta é que não se trata bem de visibilidade, mas de excesso de visibilidade. O excesso de visibilidade desfigura. E a transparência, ao contrário do que se poderia imaginar, torna as coisas mais opacas. Eis uma hipótese perfeitamente válida para uma genealogia do grotesco.

Já ouviram falar nos Angine de Poitrine? Experimentem escrever o nome no Google e vejam o que acontece. Tem graça, não tem? Adiante. O fenómeno é extraordinário. O duo que veio do Quebec, praticante de math-rock instrumental, tinha tudo para cumprir seis ou sete boas temporadas em festivais semi-obscuros, algures pelas Américas sofisticadas. Mas, graças a uma mitologia de ocasião, feita de pintarolas e grunhidos processados, tornou-se objecto de culto.

Não se trata de “culto” naquela acepção em que três pessoas muito informadas gostam de uma coisa difícil, mas no sentido religioso e especulativo da palavra: concertos cheios até ao barrote, discos esgotados a circular por valores esdrúxulos, gente a discutir a identidade dos músicos como se estivesse a decifrar uma cifra gnóstica, e até uma espécie de Angine de Poitrine apócrifo surgido na Rússia, ou coisa parecida.

Concebido ou não com esse intuito, o que é certo é que se tornou num mecanismo de gerar desejo particularmente eficaz.

Os Angine aparecem em palco com fatos às bolas e enormes cabeças de pasta de papel. Khn — eu não disse que a mitologia era de ocasião? — toca uma guitarra absurda com precisão lunática; Klek toca bateria como se estivesse a cumprir um rito tribal inventado por um professor de álgebra que enlouqueceu durante o recreio. Não há rostos nem psicologia, mas duas figuras excessivas, meio infantis, meio demoníacas, que se mostram escondendo-se.

Parecendo que não, há um parentesco entre os Angine, que escondem tudo, e o Mundial, que tudo revela. O raciocínio reflexo disparará imediatamente: claro, é a bola. Mas não. É o monstro. Figuras demasiado artilhadas, fatiotas demasiado gráficas, gestos demasiado marcados, gente demasiado pintada. A enumeração serve para os dois e desemboca em gente adulta reduzida a mascotes voluntárias; invisível pelo modo como se torna demasiado visível.

No Mundial, a barafunda espera que a bola encontre uma ordem. Nos Angine, também.

Dir-se-ia que o fascínio que o grotesco exerce tem qualquer coisa a ver com a negação da beleza. Mas é bem possível que a atracção venha precisamente de ser a sua ante-câmara.

Os Angine de Poitrine e o Mundial interessam porque, escondida por baixo do grotesco e do ruído visual, há uma promessa de forma. Quando ela finalmente surge, redime-nos, pobres criaturas caídas: cabeças de pasta de papel ou estádios inteiros a berrar pela sua pequena eternidade. Tanto faz.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

O debate sobre a revisão do Código do Trabalho culminou o processo de descaracterização do PSD e de traição aos seus eleitores, que começaram por acreditar no “não é não” de 2024, que já desconfiaram da dita equidistância de Montenegro entre a democracia europeísta do PS e o populismo de prestidigitador de feira em 2025, e que disseram, nas eleições presidenciais em 2026, que não queriam nada com a demagogia extremista.

A agenda do último ano tornou Montenegro num imitador sem rasgo do discurso populista original, desde as decisões sobre migrações que estão já a prejudicar a economia, à política fiscal amiga do imobiliário que fez disparar os preços da habitação para máximos europeus, até às cedências a uma agenda de folclore político radical, entre a proibição das burcas, a ideologia nos mastros das bandeiras dos municípios e até a ingerência em questões clínicas na Lei da Identidade de Género.

A parelha de final de ano parlamentar PSU/Código do Trabalho é demolidora para a imagem de Montenegro, mas não deixa Ventura melhor na fotografia. Rosário Palma Ramalho é a vilã secundária mas decisiva nesta versão tuga de filme noir.

A novela do Código de Trabalho foi lançada na ida do Governo para as férias do verão passado, desprezou a Concertação Social, que foi substituída por umas reuniões de parceiros disponíveis no gabinete da Praça de Londres, a alegada disponibilidade do Governo para negociar foi frustrada pela versão final que deitou fora o que já tinha sido acordado e, pelo meio, conseguiu promover duas greves gerais de grande impacto.

A PSU disfarça a preguiça do Governo em concretizar uma medida de simplificação do acesso às prestações sociais, prevista no PRR, com uma cuzada contra os “malandros pobres” que vivem à grande com subsídios de menos de 200 euros mensais.

A chantagem sobre o Parlamento, que até admite reuniões de fim de semana para fechar a discussão de uma autorização legislativa, e o “pas de deux” entre o Governo e o Chega para a viabilização da lei laboral ao fim de um ano de encenação de discussão pública são uma uma trágica mescla dos géneros teatrais trágico e burlesco.

Ao fim de um ano em que não conseguiu demonstrar as vantagens da reforma do Código do Trabalho para a economia, para o aumento da competitividade ou para os novos desafios do mercado laboral, voltamos à patética discussão do verão passado sobre a amamentação e os dias de férias adicionais sem pagamento.

Pelo meio, a CGTP foi ignorada, a UGT foi destratada, apesar dos dirigentes do PSD que a integram, e o PS, que apresentou um conjunto de temas, da IA ao teletrabalho, que deveriam ser incluídos numa modernização das leis do trabalho, foi ostracizado do debate com alegações de radicalismo.

Este é um tema em que Montenegro, que não tem legitimidade política para governar sozinho, podia escolher entre o diálogo social sobre a modernidade das relações de trabalho, valorizando o diálogo com a UGT e o PS, ou abrir o caminho para uma conversa absurda com os populistas arruaceiros que fazem da mentira e do insulto as traves-mestras da sua intervenção política.

Montenegro confirmou a linha de um ano de caminho e optou pela parceria com a extrema-direita. Acusar de radicalismo o PS de José Luís Carneiro, que está permanentemente a fazer propostas de temas para possíveis acordos, que é o líder mais moderado que o PS poderia ter e até viabilizou o Orçamento para 2026 sem pestanejar, é algo que vai já para o domínio do anedotário político. Para Montenegro e Hugo Soares só um PS parecido com um CDS rosa seria um moderado parceiro de diálogo.

Mas André Ventura, que sobre o Código do Trabalho já disse tudo e o seu contrário, parece tão ridículo como o seu inspirador de Washington nas suas vitórias fantásticas, na forma como se apresenta para justificar a última cambalhota e a traição aos interesses dos seus muitos eleitores ingénuos das camadas populares, pouco escolarizadas e que vivem do trabalho.

Depois de fazer uma sarrafusca para criar uma cortina de fumo em torno de temas marginais inviáveis, como a redução da idade de reforma ou as pensões para os políticos, que acabaram em 2005 por decisão de José Sócrates, o líder do Chega apresenta como sendo as suas grandes vitórias assuntos que o Governo já tinha reservado para simular uma negociação com a UGT, como as questões da amamentação ou os dias de férias adicionais.

Sobre as questões centrais do projeto, como os contratos precários sem limite para os seus eleitores jovens, a substituição de trabalhadores despedidos por tarefeiros externos, o despedimento ilegal sem possibilidade de reintegração ou os bancos de horas individuais, “acordados” entre as grandes empresas e trabalhadores precários, o palrador André Ventura ficou sem pio.

Já Rosário Palma Ramalho mostrou que poderia bem ser ministra de um governo de Ventura, pela sua vocação para a arrogância, a insensibilidade social e a mentira descarada sem qualquer pudor. Achou que poderia negociar sem os sindicatos presentes, ao longo de um ano nunca mostrou disponibilidade para transigir em nenhum aspeto central da proposta e tem a mentira como prática reiterada, desde os fantasmas sobre as mães eternamente amamentadoras, até às falsidades sobre as fraudes de mais de 179 milhões de euros em prestações sociais, desmentidas pelo seu próprio ministério.

Esta ministra é tão ciosa e obcecada com esta vingança legislativa que pelo caminho esqueceu-se de usar as verbas do PRR para as áreas dos apoios para construção de lares de idosos ou para creches e violou as obrigações europeias em matéria de transposição de leis sobre igualdade salarial e transparência de rendimentos. As prioridades duma agenda de liquidação do Direito do Trabalho, transformado numa secção menor do direito contratual, corresponde a uma opção por uma selvajaria laboral que deixa até saudades das preocupações sociais do direito laboral dos tempos de Marcelo Caetano.

A maioria de direita e de extrema-direita fica agora selada com a perseguição dos pobres, sempre suspeitos de preguiça e desonestidade, e com uma espantosa fragilização do mundo do trabalho numa economia em pleno emprego.

Está na hora de o PS fazer o balanço e tirar conclusões deste ano de marginalização do diálogo democrático e de consagração da aliança populista do Governo com a extrema-direita. Também caberá a António José Seguro avaliar esta deliberada aliança contra os trabalhadores dos setores da direita derrotados nas eleições presidenciais de fevereiro.

Por ser a voz da prepotência na imposição de uma agenda laboral unilateral, por ser uma mentirosa reincidente e por protagonizar um ano de união de facto entre o PSD e o Chega, o prémio Laranja Amarga vai para Rosário Palma Ramalho.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

“Eu sou a mãe, tu és o pai e este é o nosso filho”, diz ela apontando para um boneco. “Eu quero ser o bebé”, responde ele. “Então, eu sou o cão”, contrapõe ela. “Se tu és o cão, eu quero ser um professor e isto é uma escola de dança”, negoceia ele. Andam nisto um bocado, mudando as voltas às coisas, até acertarem numa combinação qualquer, mais choro, menos choro, cada um tentando levar a sua avante. Começam, então, a construir o mundo. Arrastam almofadas para servir de paredes ou camas. Há cadeiras que se transformam em muros ou carros. Cozinhas que nascem no chão com panelas e comida de plástico e madeira espalhada. Animais de estimação de peluche. Mantas que são uma piscina ou areia. “Aqui é a minha casa, tu moras ali.” Às vezes, chove na sala. Outras vezes, a noite passa em menos de dois minutos deitados, com ressonares teatrais e acaba com o grito: “Já é de dia.”

Isto não vai durar muito tempo. Nunca dura. E não estou a referir-me aos minutos que passam até a brincadeira descambar numa troca de acusações mútuas sobre qual dos dois não seguiu bem as regras ou qual deles quer sempre mandar em tudo. São tão curtos os anos em que nos reinventamos. Tão breve o tempo em que o mundo é plástico, completamente moldável aos nossos desejos. Tão fugaz a infância feita de liberdade, experiências e imaginação. A partir daqui, começam as fronteiras. Quem somos?, perguntamo-nos. E respondemos com a ansiedade de quem se tacteia, tentando encaixar-se num molde. A adolescência é o tempo das tribos. A rebeldia não se conjuga necessariamente com a imaginação. Às vezes, só queremos mesmo ser invisíveis, tão iguais quanto possível na diferença de que nos apropriamos.

Depois, a vida encaminha-nos para uma caixa qualquer. Não é uma caixa estável. E é por isso que nos sentimos adolescentes até cada vez mais tarde. Não pelo prazer da descoberta, mas pela turbulência em que navegamos. Somos tão precários que nos parece impossível sermos adultos. Teremos crescido realmente?, questionamo-nos enquanto fazemos contas a um salário curto e a uma vida demasiado instável para se parecer com a dos nossos pais.

De uma maneira ou de outra, mesmo que seja uma pequena casca de noz a flutuar num oceano de precariedade e incertezas, a caixa está lá. E nós estamos dentro dela. Aprendemos, então, a responder com o que fazemos quando nos perguntam quem somos. “Sou jornalista, dentista, operadora de call center, gestor de ativos, bancário…” Cada um é uma coisa e não lhe passa pela cabeça ser “rei, polícia, ladrão, soldado, capitão”. E às vezes é uma coisa tão complicada, com nomes em inglês e siglas, que a conversa acaba aí. Não se percebe que raio faz o outro e, se não percebemos o que faz, não percebemos o que é. E não se consegue verdadeiramente falar com quem não percebemos.

Já cresci a ouvir dizer que “no futuro” algumas profissões iam ser obsoletas. O futuro chegou e ainda não é bem assim, a não ser que se conte com aquelas com que já não me cruzei, como “apanhadoras de malhas em meias”. Mas, ainda assim, e porque o futuro é um bicho que gostamos de adivinhar sedento de nos devorar, dizem-nos agora que “no futuro, ninguém vai trabalhar”. E até é possível que seja verdade, embora à minha volta veja toda a gente a trabalhar cada vez mais e as notícias nos mostrem que, em 2025, o número de portugueses com dois ou mais empregos atingiu um recorde: são agora cerca de 267 mil pessoas. E eu não sei se estão a contar com os CEO que acumulam cargos executivos e senhas de presença como quem açambarca cromos do Mundial ou só com as mulheres que se desdobram em limpezas, os empregados de escritório que fazem umas horas nos Uber ou as pessoas que saem a correr de uma loja para mais um turno num call center.

O que sei é que vivemos sem imaginação. Não me interpretem mal. É preciso ser inventivo para fazer bater certo as contas de um salário nacional com os custos da habitação e preços pensados para turistas nórdicos e nómadas digitais americanos. Não é dessa ginga da sobrevivência de que falo. É mesmo da paralisia provocada pela ideia de que a vida é o que é. O sistema é este. E por muito que sejamos contra o sistema, ele é como o ar que respiramos. Pode estar poluído e saturado, castanho de toxinas e areias do deserto, mas é o que há. Não nos passa pela cabeça inventar outra coisa. E é isso que nos mói. E é isso que nos mata.

A imaginação é subversiva. Ela questiona a ordem, os estatutos, as hierarquias. E se não fosse como sempre foi?, sussurra-nos ela. E se pudesse ser de outra maneira?, espicaça-nos. E há, então, alguém que nos lembra que “sempre foi assim desde que o mundo é mundo”, esmagado por um conformismo que lhe foi imposto à paulada pela vida ou de cima de uma torre de privilégio herdado de que não quer prescindir. Mas é mentira. As coisas nunca foram sempre como são.

A Humanidade tem o poder de se inventar. Como duas crianças que negoceiam as regras de uma brincadeira. Se não acreditam em mim, leiam o resultado de anos de pesquisas arqueológicas e antropológicas reunidas por David Graeber e David Wengrow, no livro O Princípio de Tudo, para perceber como ao longo de milhares de anos as coisas já foram de tantas maneiras diferentes, em tantas partes do mundo. A desigualdade não nos está no sangue. As hierarquias não fazem parte da natureza humana. A divisão do trabalho e o papel dos géneros não são o resultado do nosso ADN. Todas estas coisas são construções sociais, negociadas ou impostas por centenas (ou, às vezes, milhares) de anos. E tal como foram construídas, podem ser (e em alguns casos já foram) deitadas abaixo como as almofadas do sofá que se transformaram num forte no meio da sala.

Dirão os cínicos que as crianças imaginam porque estão soltas da responsabilidade material. Brincar é o luxo de quem não está preocupado com a sobrevivência. E, em parte, têm razão. E em parte é por isso que, a certa altura, se acaba a brincadeira. Mas há uma parte disso que surge da necessidade de preservação de um sistema que nos quer dóceis, resignados, sem sonho nem rasgo. E é (também) contra isso que temos de nos revoltar.

Precisamos de resgatar a imaginação como ativo político. Precisamos de aprender a olhar para o mundo como alguma coisa que se molda. Precisamos de sair da ditadura da falta de alternativas. Precisamos de questionar. Precisamos de sonhar. Precisamos de inventar. E precisamos de exigir o direito de experimentar. Temos de resgatar a possibilidade de mudar as regras.

Há 40 anos que os teólogos do neoliberalismo ditam sentenças sobre a falta de alternativas, enaltecem tecnocratas como deuses que podem salvar-nos da nossa incompetência para nos governar, garantem que as coisas são como são porque não podem ser de outra maneira. A vida é uma selva. Sobrevivem os mais fortes. Não há que chegue para todos. Temos de crescer indefinidamente.

Acontece que estão errados. E que todas as políticas de flexibilização, desregulação dos mercados (amparados pela mão salvadora dos contribuintes) e concorrência perfeita (cada vez mais transformada em oligopólios) não resultam. Ou melhor, resultam para um pequeno punhado de pessoas e deixam todas as outras a viver cada vez pior: a trabalhar mais, com mais ansiedade, com mais dificuldades. Querem dados? Apenas 60 mil pessoas (0,001%) detêm três vezes mais do que a metade mais pobre da Humanidade. Há 10% que são donos de 75% de toda a riqueza no mundo e 50% que só têm 2%. E não, isto não foi sempre assim.

Por isso, acordem. Ousem imaginar como há milhares de anos se imaginou. Ou como imaginou quem forçou o fim da escravatura, quem acabou com o trabalho infantil, quem construiu a escola e a educação pública. Mas imaginem. E, sobretudo, nunca acreditem em quem acha que não há volta a dar, que as coisas são como são.

O mundo já deu muitas voltas e elas não foram sempre para o mesmo lado. Sejam realistas, exijam o impossível. Sejam pragmáticos, percebam que a vida não se faz sem sonho. Sejam sensatos, reclamem o poder de mudar tudo. Só a morte não tem alternativa nem cura. Tudo o resto está em aberto.

Palavras-chave:

Há momentos em que uma guerra não termina porque uma das partes venceu, mas porque todos os protagonistas descobriram que continuar a guerra se tornou mais perigoso do que fingir que a paz é possível. É esse, provavelmente, o verdadeiro significado do memorando de entendimento que os Estados Unidos da América e o Irão se preparam para assinar. Não estamos perante um acordo de paz, muito menos perante uma reconciliação estratégica. Estamos perante uma suspensão negociada do abismo, uma arquitetura provisória destinada a impedir que uma guerra regional se transforme numa crise económica global e que uma vitória militar se converta, como tantas vezes acontece no Médio Oriente, numa derrota política.

A primeira ilusão que convém desfazer é precisamente essa: um memorando de entendimento não é um tratado de paz. É uma peça diplomática ambígua por natureza. Serve para fixar intenções, congelar posições, criar canais de comunicação e permitir que cada lado regresse à sua opinião pública com uma narrativa minimamente suportável. A paz exige reconhecimento, garantias, verificação, mecanismos de cumprimento e uma certa aceitação da legitimidade do outro. Este memorando oferece outra coisa: tempo.

Tempo para Trump sair de uma guerra que começava a ameaçar a economia americana, tempo para o Irão recuperar oxigénio financeiro e tempo para a região testar se a contenção ainda é possível depois de meses em que todos pareceram apostar na escalada.

É por isso que a assinatura, se acontecer, será apenas o princípio da crise seguinte. O texto poderá reabrir o estreito de Ormuz, aliviar parcialmente sanções, suspender certos bloqueios, criar uma moldura para futuras negociações nucleares e impor uma espécie de moderação operacional em frentes como o Líbano. Mas nenhuma destas medidas resolve o problema central.

O Irão continuará a ser uma potência revolucionária com ambição regional. Israel continuará a ver a República Islâmica como uma ameaça existencial. Os Estados Unidos continuarão divididos entre o desejo de sair do Médio Oriente e a impossibilidade de abandonar completamente a região. E os países do Golfo continuarão a viver entre a necessidade de estabilidade energética e o receio de uma hegemonia iraniana reabilitada.

O exemplo de Nasser

A segunda ilusão é a de que o Irão perdeu apenas porque sofreu militarmente. A História ensina o contrário. Em 1956, Gamal Abdel Nasser foi derrotado militarmente no Suez por Israel, França e Reino Unido. Mas a conjugação da pressão americana, da oposição soviética e do desgaste político dos velhos impérios europeus transformou essa derrota militar numa vitória simbólica. Nasser não venceu no campo de batalha. Venceu na narrativa. Sobreviveu, enfrentou os antigos senhores da região e emergiu como figura central do nacionalismo árabe.

O paralelo não é perfeito, mas é útil. O Irão não precisava de derrotar os Estados Unidos ou Israel para vencer politicamente. Precisava apenas de sobreviver, manter o regime intacto, conservar capacidade de negociação e transformar o estreito de Ormuz numa arma diplomática.

Foi exatamente isso que fez. Durante décadas, Ormuz foi a pistola que Teerão fingia não existir. Por ali passa uma parte decisiva da energia mundial. Fechá-lo completamente seria suicidário para o próprio Irão, mas ameaçar a sua estabilidade foi suficiente para alterar o cálculo de Washington. A guerra que Israel via como oportunidade estratégica passou a ser vista pela Casa Branca como risco económico, inflacionista e eleitoral. Quando o preço da energia começa a entrar na equação doméstica americana, o Médio Oriente deixa de ser apenas geopolítica e passa a ser supermercado, bomba de gasolina e boletim de voto.

Donald Trump percebeu isso melhor do que muitos analistas gostariam de admitir. A sua política externa raramente é doutrinária. É instintiva, transacional e profundamente ligada à perceção de força. Trump queria poder dizer que esmagou o Irão, que impôs condições melhores do que Obama, que reabriu Ormuz, que protegeu a economia americana e que obrigou Teerão a regressar à mesa. Mas não queria pagar o preço de uma guerra longa, sobretudo a poucos meses de eleições intercalares.

A pergunta que paira sobre Washington é simples: se o Presidente americano não quis arriscar uma guerra quando ainda tinha alguma margem temporal, estará disposto a fazê-lo quando a campanha estiver verdadeiramente em cima da mesa?

Clamar vitória

É aqui que o Irão surge como vencedor político possível. Não porque tenha vencido a guerra. Não venceu. Mas porque conseguiu transformar a sua vulnerabilidade numa moeda negocial. Teerão entra neste memorando com danos militares, pressão interna, desgaste económico e contestação social. Sai, porém, com a possibilidade de reabrir canais comerciais, recuperar receitas de petróleo e petroquímicos, desbloquear ativos congelados e forçar a Europa a reavaliar a política de sanções. Para um regime que vive tanto da repressão como da sobrevivência, isto é mais do que uma concessão económica. É uma injeção de legitimidade.

Teerão O Irão surge como vencedor político. Não porque tenha vencido a guerra, mas porque conseguiu transformar a sua vulnerabilidade numa moeda negocial

A República Islâmica compreende muito bem a diferença entre vencer uma batalha e sobreviver a uma tempestade. Desde 1979, o regime iraniano tem feito da resistência uma doutrina política. Sobreviveu à guerra com o Iraque, a sanções devastadoras, a protestos internos, a assassinatos seletivos, a operações clandestinas, a crises económicas e à hostilidade simultânea de Israel, dos Estados Unidos e de várias monarquias árabes. A sua força não está apenas nos mísseis, nas milícias ou no urânio enriquecido. Está na capacidade de transformar pressão externa em disciplina interna e cada negociação em prova de que o regime, apesar de tudo, continua a ser incontornável.

Esta é precisamente a razão pela qual Israel vê o memorando com desconfiança e, em alguns setores, com verdadeira fúria. Para Jerusalém, o objetivo nunca foi apenas obter uma pausa. Israel procurava enfraquecer estruturalmente o eixo iraniano. Queria reduzir a capacidade do Hezbollah, travar o programa nuclear, cortar o financiamento das redes regionais e, se possível, acelerar fissuras internas no regime. O problema é que a lógica americana mudou. Washington passou da estratégia de pressão máxima para a estratégia de contenção negociada. Para Israel, isto não é prudência. É abandono.

As reações vindas da direita israelita são reveladoras. Itamar Ben-Gvir afirmou que o acordo de Trump não vincula Israel e que o país não é subordinado dos Estados Unidos. Bezalel Smotrich, no mesmo universo político, vê qualquer entendimento que deixe o regime iraniano de pé como uma derrota moral e estratégica. Mesmo fora da extrema-direita, a inquietação é real. A oposição trabalhista e setores do establishment de segurança podem discordar de Netanyahu em quase tudo, mas partilham uma preocupação essencial: um memorando que alivie a pressão sobre Teerão sem garantias nucleares robustas pode comprar calma hoje e financiar a próxima guerra amanhã.

Contenção ou capitulação

É esta a fratura decisiva. Para Trump, o acordo pode ser vendido como contenção. Para Netanyahu, pode ser lido como capitulação. Para o Irão, pode ser apresentado como resistência vitoriosa. Para a Europa, é uma oportunidade de regressar à diplomacia e proteger os mercados energéticos. Para os países do Golfo, é simultaneamente alívio e ameaça. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Catar querem estabilidade, comércio e previsibilidade. Mas sabem que um Irão economicamente reanimado, sem alterações profundas no seu comportamento regional, pode regressar mais forte à mesma competição que incendiou a região durante décadas.

O papel de Trump sobre Israel será, por isso, o teste central deste memorando. A América ainda tem instrumentos de pressão sobre Jerusalém: apoio militar, cobertura diplomática, cooperação tecnológica, influência no Conselho de Segurança e a relação política quase orgânica entre setores da direita americana e israelita. Mas influência não é controlo.

Israel já demonstrou, várias vezes, que está disposto a agir quando considera a sua segurança ameaçada, mesmo contra a preferência tática de Washington. A questão não é saber se Trump consegue assinar um memorando com o Irão. A questão é saber se consegue impedir Israel de o destruir no terreno.

Também aqui a História recomenda cautela. O Médio Oriente está cheio de acordos que existiram no papel antes de serem devorados pela realidade. Camp David sobreviveu porque alinhou interesses estratégicos profundos entre Egipto, Israel e Estados Unidos. Oslo fracassou porque prometeu uma transformação política que as sociedades, as lideranças e os factos no terreno acabaram por não sustentar. O acordo nuclear de 2015 mostrou que mesmo a diplomacia tecnicamente sofisticada pode ser desmontada quando muda a vontade política em Washington. Um memorando entre Trump e Teerão, assinado sob pressão, com Israel descontente, fações iranianas desconfiadas e a região em estado de combustão, nasce com menos solidez do que qualquer destes precedentes.

A questão não é saber se Trump consegue assinar um memorando com o Irão. A questão é saber se consegue impedir Israel de o destruir no terreno

A sua fragilidade está no próprio equilíbrio que procura criar. Se for demasiado favorável ao Irão, Israel poderá agir. Se for demasiado humilhante para Teerão, os setores duros do regime poderão sabotá-lo. Se for demasiado vago sobre o nuclear, o Congresso americano e os aliados regionais questionarão a sua utilidade. Se for demasiado exigente, o Irão recusará implementá-lo. Se aliviar sanções sem verificação, será acusado de financiar o adversário. Se não aliviar sanções de forma suficiente, não dará ao regime iraniano motivos para cumprir. É uma peça diplomática montada sobre contradições.

Ainda assim, seria um erro menorizar a sua importância. No Médio Oriente, muitas vezes, a estabilidade começa por ser apenas a interrupção temporária da catástrofe. Um cessar-fogo imperfeito pode salvar vidas. Uma reabertura de Ormuz pode travar uma crise energética. Um canal direto entre Washington e Teerão pode impedir erros de cálculo. Uma pausa no Líbano pode reduzir a pressão sobre Israel e evitar uma guerra aberta com o Hezbollah. A diplomacia raramente nasce pura. Muitas vezes nasce do medo, do cansaço e da ausência de alternativas melhores.

O que mudou verdadeiramente?

O problema é que o medo também tem prazo. Quando os mercados estabilizarem, quando o petróleo descer, quando Trump transformar a assinatura em espetáculo político e quando Teerão começar a receber os benefícios económicos do entendimento, regressará a pergunta essencial: o que mudou verdadeiramente? O Irão abandonou a sua ambição nuclear ou apenas aceitou discuti-la mais tarde? Israel aceita viver com uma República Islâmica financeiramente reanimada? Os Estados Unidos estão dispostos a garantir o cumprimento do memorando contra os seus próprios aliados? A Europa quer mesmo normalizar relações com Teerão sem exigir mudanças internas e regionais? Os países árabes aceitarão um Irão reintegrado sem contrapesos?

A resposta provável é desconfortável: ninguém sabe. E é precisamente por isso que este memorando é menos uma paz do que uma aposta. Trump aposta que consegue transformar uma guerra indesejada numa vitória diplomática. O Irão aposta que pode sobreviver, respirar economicamente e regressar ao jogo regional com mais margem. Israel aposta que continuará livre para agir se considerar que a ameaça persiste. A Europa aposta que a diplomacia ainda pode evitar uma crise energética e militar maior. Todos apostam. Ninguém confia.

Talvez seja essa a definição mais honesta do acordo possível no Médio Oriente contemporâneo: uma negociação entre atores que não acreditam uns nos outros, mas que, por momentos, temem mais o colapso do que a cedência. O memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irão não inaugura uma nova ordem regional. Não resolve a questão nuclear. Não pacifica o Líbano. Não tranquiliza Israel. Não democratiza o Irão. Não reconcilia Washington com Teerão. Apenas suspende, por algum tempo, a lógica da guerra total.

O que torna este momento tão relevante é precisamente a sua ambiguidade. Pode ser o início de uma desescalada séria ou apenas o intervalo entre duas guerras. Pode ser a prova de que Trump, apesar da teatralidade, percebeu os limites do poder americano. Ou pode ser mais uma demonstração de que Washington continua a confundir acordos anunciados com problemas resolvidos. Pode ser uma vitória tática para todos ou uma vitória estratégica para o Irão. Pode salvar a região durante 60 dias e condená-la depois a uma crise maior.

No final, talvez a pergunta decisiva não seja quem venceu esta guerra, mas quem conseguirá transformar este memorando em narrativa. Trump dirá que impôs a paz. Teerão dirá que resistiu ao império. Netanyahu dirá que Israel não está vinculado por ilusões americanas. A Europa dirá que a diplomacia regressou. Os mercados dirão que Ormuz reabriu. Mas a História, como sempre, será menos generosa. Ela perguntará apenas se este papel impediu a próxima guerra ou se lhe deu tempo para ser preparada com mais dinheiro, mais ressentimento e mais armas.

Palavras-chave:

A Joana é uma ingrata. Não mostra um pingo de gratidão por fazer parte do grande esforço nacional para fazer avançar o País . As novas gerações são mesmo assim: ingratas e sem noção do que são verdadeiros sacrifícios. 

A Joana formou-se em Direito. Era um velho sonho da avó que, antes de morrer, ainda a viu em traje académico perdida de bêbeda e quase doutora. Logo a seguir ao curso ainda tentou fazer um estágio numa firma de advogados, mas não tinha como se sustentar e arranjou um part-time numa loja de roupa.

Os horários eram terríveis, turnos longos a horas impróprias e pouco a pouco aquela parte da sua vida começou a não deixar tempo nem disponibilidade emocional para mais nada. O futuro que tinha imaginado na faculdade foi-se desvanecendo aos poucos e, a custo, a Joana foi aceitando que o caminho que percorria no presente já não a levaria ao futuro que imaginara no passado.

Quando a Joana se casou já tinha uma posição melhor na loja de roupa, mas os horários continuavam a ser desumanos e o ordenado insuficiente. A casa que arrendaram era demasiado cara para as suas possibilidades porque não havia casas que não o fossem. E foi a partir daí que a renda, as contas, a prestação do carro passaram a ser as barras da prisão que a mantinha refém daquele trabalho. 

Já com filhos, a Joana perguntava-se se estaria a ser um bom exemplo e resolveu dedicar as noites a estudar. As manhãs eram caóticas com preparação de pequenos-almoços, a roupa dos filhos, fazer com que se vestissem, tratar de si própria, verificar mochilas, atender a dores de barriga e birras, preparar lanches para as crianças levarem para a escola e arranjar um sorriso esforçado para o marido. Depois vinham os dias da mais inclemente monotonia, sentia-se a definhar, era obrigada a lidar com clientes mal-educados que a achavam inferior e com superiores hierárquicos que a tratavam como uma rodinha na engrenagem. À noite voltavam as birras, os banhos, o jantar, os pijamas, a hora da cama, dar um jeito na casa que se ia mantendo por arames e depois resistir ao sofá e dedicar ao estudo os minutos que conseguisse manter-se acordada.

Estudou Design, conseguiu arranjar uns trabalhos a recibos verdes e ganhou coragem para deixar a loja de roupa. Mas os recibos verdes eram instáveis e deu por si a sentir uma raiva incontrolável no peito de cada vez que um dos filhos lhe pedia alguma coisa que “todos os meninos lá na escola têm”. Ao décimo dia de cada mês a angústia tomava conta dela e começava a perguntar-se como iria fazer para chegar ao fim.

Via toda a gente a ir de férias, a combinar jantares, a mostrar-se feliz em fotografias partilhadas nas redes sociais e sentia-se a falhar na vida. Sentia-se um peso para o marido e um risco emocional para os filhos. Um falhanço na vida, deitava-se todos os dias com vontade de chorar e acordava todos os dias depois de uma noite mal dormida com vontade de não se levantar. Se existisse, carregaria no botão de “reset”.

A Joana é uma grande ingrata. Ela tem o privilégio de ser a face visível de uma economia pujante, liberal e flexível. A haver alguma coisa digna de queixa, seria a de não viver num país mais liberal e numa economia mais flexível. Aí, a incapacidade dela de organizar a sua vida e prever o seu futuro seria vista como sinal de uma economia vibrante, cada recibo verde seria um novo projeto na sua vida, cada dificuldade um obstáculo que poderia enfrentar e sentir o prazer de ultrapassar e a angústia que lhe atava um nó na garganta 24 horas por dia seria apenas o sinal de uma mente que não está disposta a sair da sua zona de conforto.

Isto não é difícil de fazer. Concedo que talvez seja um exercício mais complicado para decisores políticos que acham que aflição é marcar férias em Malta em vez de Bali. Na verdade, nem precisava de ser um exercício de verdadeira empatia, bastava que os decisores políticos aceitassem um facto simples da vida: quando promovem “flexibilidade”, ela sente-se em forma de desespero na pele de quem se vê impedido de ter um plano de vida à conta de passar demasiado tempo a pensar em quantas refeições aquela carne vai permitir.

A Joana não existe, claro. Mas é mais real do que o cidadão inventado que ocupa o imaginário de quem quer desregular ainda mais o mundo do trabalho. Não acho que seja obrigatório ser-se ou ter-se sido pobre para se ter consciência social. A prova disso é a existência de tanta gente que vem de meios desfavorecidos que, quando se vê com poder, usa-o para proveito próprio. Mas é difícil acreditar que haja muita gente neste ou nos últimos governos que tenha alguma noção sobre o inferno que é não ter dinheiro.

Não ter dinheiro não é só um conceito abstrato, é uma vivência dolorosa que se sente no dia-a-dia quando não conseguimos dar aos nossos filhos o que gostaríamos, quando não sabemos como vamos aguentar as próximas duas ou três semanas, quando sentimos que falhámos na vida e não há ninguém que nos consiga convencer de que, na verdade, foi a vida que nos falhou a nós.

O delirante projeto de país a que fomos sendo sujeitos nas últimas décadas foi-nos dando políticos muito satisfeitos consigo próprios por haver um tratado europeu assinado em Lisboa. “Porreiro, pá “, disse na altura o nosso primeiro-ministro ao nosso ex-primeiro-ministro. “Porreiro, pá”. O que era porreiro era que não perseguíssemos parolamente o “comboio europeu”, que não pintássemos a barraca de ouro à espera que ela se tornasse mansão. Porreiro era não vivermos presos entre decisores políticos que se entretêm a atirar culpas e a dizer piadas no parlamento. Porreiro mesmo era que os nossos políticos pensassem na vida das Joanas em vez de seguirem acriticamente um modelo de desenvolvimento que a faz ir para a cama todas as noites com vontade de chorar.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.