O primeiro pedido de patente do acetato de eslicarbazepina foi feito em 1996. Uma etapa significativa para o desenvolvimento do antiepilético Zebinix (o seu nome comercial), o primeiro medicamento feito com investigação própria da BIAL, uma maratona que ainda tinha muitos quilómetros pela frente – por um caminho sinuoso, com direito a alguns tropeções. A aprovação para ser lançado no mercado chegou apenas em 2009, na Europa, e em 2013, nos Estados Unidos da América. “Quando começámos, ninguém sabia que ia demorar tanto e que ia custar tanto”, conta António Portela, 48 anos, presidente-executivo da BIAL, a quarta geração da família à frente da empresa.

As dificuldades não surgiram apenas no laboratório. Paula Costa, atual diretora do departamento de assuntos regulamentares, estava encarregue de preparar o “embrulho” da ciência produzida pela equipa de Investigação e Desenvolvimento (I&D) para o submeterem às autoridades reguladoras dos medicamentos. “O dossier tinha mais de 80 mil páginas”, recorda. Demoraram meses a compilar toda a informação e a extrair o sumo dos ensaios e dos relatórios numa linguagem entendível. A avaliação da Agência Europeia do Medicamento (EMA) decorreu sem sobressaltos. Não previam, contudo, que a Food and Drug Administration (FDA) viesse a exigir um novo ensaio clínico com doentes norte-americanos. Um balde de água fria que atrasou significativamente o processo e implicou custos adicionais que ultrapassaram os 100 milhões de euros. “Sentimo-nos um bocadinho pequeninos perante aquela mise en scène da FDA, levavam para cada reunião técnica 20 pessoas, nós tínhamos três ou quatro, por isso trabalhámos o dobro”, descreve.

A importância da equipa A inovação na BIAL implicou o reforço dos quadros, em diferentes áreas. Paula Costa, Teófilo Vasconcelos, Faustino Carvalho e Maria João Bonifácio ajudaram a enfrentar os novos desafios (de cima para baixo, da esquerda para a direita) Fotos: Lucília Monteiro

Apesar do contratempo e do desgaste desses últimos anos, persistiram. “Foi precisa muita coragem para continuar todo o processo e, acima de tudo, uma liderança tranquila, que acreditava que era possível.” Paula lembra-se do momento em que receberam, finalmente, a notícia da aprovação. Não houve tempo para abrir uma garrafa de champanhe, só queria meter-se no avião de regresso a Portugal. “Em três anos, viajei 144 vezes para os EUA, praticamente vivia lá, eram reuniões atrás de reuniões”, diz. 

Farmacêutica de formação, Paula Costa entrou na BIAL em 1996, já para a área regulamentar, mas não imaginava os desafios que teria pela frente. A empresa tinha criado a primeira equipa de Investigação e Desenvolvimento (I&D) em 1992, e a ideia de apostar na inovação farmacêutica, em Portugal, era vista como peregrina. “No País, não havia ninguém com experiência relevante nesta área, a nível internacional… fomos todos vistos um bocadinho como loucos”, recorda. Poderiam ter contratado uma empresa para lidar com as autoridades internacionais, mas “nunca teriam adquirido o know-how”. Optaram por fazê-lo internamente, com a ajuda parcial de terceiros, e a aprendizagem permitiu-lhes avançar sozinhos, mais tarde, com a aprovação do segundo medicamento de investigação própria, o Opicapona – Ongentys, para o tratamento da doença de Parkinson – em 2016, junto da EMA, e em 2020, junto da FDA. Desta vez, com outra segurança. “É uma satisfação enorme ver que temos equipas que, apesar de pequenas, são muito aguerridas, humildes e dão o máximo para conseguir um objetivo”, diz, com indisfarçável orgulho.

Seguir o legado

A ousadia está no sangue da BIAL, desde os seus primórdios. Álvaro Portela, um homem de famílias humildes, sem estudos, começou a trabalhar muito cedo como moço de recados na Farmácia do Padrão, no Porto. Mas logo deu provas do seu engenho e foram-lhe atribuídas maiores responsabilidades. No início do séc. XX, as farmácias eram completamente diferentes: os clientes deixavam as receitas, os farmacêuticos tinham de manipular os medicamentos e só passadas umas horas estes podiam ser levantados. Portela reparou que algumas manipulações tinham mais saída e, para elas, seria benéfico criar um stock, servindo melhor e mais rapidamente os clientes. Com a aprovação do patrão, o sr. Almeida, pôs em prática as suas ideias no primeiro andar da farmácia. A certa altura, já não havia mãos a medir e era necessário aumentar o espaço. O sr. Almeida recusou a sociedade, mas apoiou financeiramente o funcionário, tanto na montagem do laboratório como na compra de matérias-primas. A relação ficou eternizada na marca BIAL, o “al” de Almeida e de Álvaro em duplicado.

Álvaro Portela, “mesmo sem ter conhecimentos, quer científicos quer de gestão ou comerciais, conseguiu fazer crescer o negócio”, conta o bisneto. Fê-lo durante quase 40 anos, com produtos como o xarope antitússico Benzo-Diacol, a primeira marca lançada para o mercado, em 1929, com um marketing criativo – vejam-se os cartazes publicitários colocados em algumas igrejas, com a frase “no silêncio dos templos, Benzo-Diacol”.

Quando o filho, António Emílio Portela, assumiu a presidência da BIAL, em 1962, a empresa deu um salto na industrialização, com o forte investimento que foi feito na mecanização. Foram dez anos a consolidar o caminho, interrompidos com a sua morte prematura, aos 50 anos. Sucedeu-lhe um dos descendentes, Luís Portela, que tomou a decisão de abandonar a carreira médica e universitária (lecionava Psicofisiologia, na Universidade do Porto) e, em 1979, passou a liderar a empresa. Tinha apenas 27 anos, preparava-se para fazer o doutoramento em Cambridge, Inglaterra, mas teve de renunciar ao sonho da investigação para continuar a obra da família. Na altura, a BIAL estava em 53º lugar no ranking das farmacêuticas, com uma quota de 0,5%, e a passar por dificuldades – atualmente, é o maior grupo nacional do setor.

Um século de história

A farmacêutica portuguesa construiu, ao longo de quatro gerações, um legado que a torna reconhecida dentro e fora de portas

1924
Álvaro Portela (1894-1961) funda a BIAL, indústria de produção de medicamentos, no Porto

1929
É registada a primeira marca, o Benzo-Diacol, um xarope antitússico promovido com um marketing criativo

1962
António Emílio Portela assume a presidência da BIAL e investe fortemente na mecanização

1978
É lançado o Reumon gel, um gel anti-inflamatório tópico que se torna um êxito de vendas no mercado nacional

1979
Aos 27 anos, Luís Portela torna-se presidente da BIAL, após a morte prematura do pai. Aposta na investigação e desenvolvimento, com olhos postos na internacionalização da empresa

1984
Primeira edição do Prémio Bial, com o objetivo de incentivar a pesquisa médica e galardoar uma obra intelectual, original, com tema livre e dirigida à prática clínica

1992
Criação da primeira equipa de Investigação e Desenvolvimento, que começa por trabalhar em duas áreas: sistema nervoso central e sistema cardiovascular

1994
Liderada por Luís Portela, nasce a Fundação Bial, para incentivar a investigação em Neurociências e em Parapsicologia

1996
Inauguração das instalações da BIAL em S. Mamede do Coronado, Trofa, onde a empresa ainda se mantém

1998
Começa a internacionalização, com a criação da BIAL Espanha, a primeira filial. Em Moçambique, nasce também a Medimport

2009
Licenciamento e lançamento do Acetato de Eslicarbazepina – Zebinix, para o tratamento da epilepsia –, o primeiro medicamento de investigação própria da BIAL para os mercados europeus

2011
Luís Portela passa a presidente não executivo e o filho mais velho, António Portela, ocupa o cargo de CEO

2014
Zebinix é aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) e passa a ser comercializado nos EUA

2016
O segundo medicamento de investigação própria da BIAL, o Opicapona – Ongentys, para o tratamento da Doença de Parkinson, é aprovado pela Comissão Europeia. Em 2020, é aprovado nos EUA

2021
António Horta-Osório substitui Luís Portela e passa a liderar o conselho de administração da BIAL

2022
Expansão do campus BIAL, com inauguração da nova fábrica de antibióticos e ampliação da área industrial em S. Mamede do Coronado

Na perspetiva de Luís Portela, “o futuro da indústria farmacêutica passava por uma certa independência, que só seria conseguida com o desenvolvimento de tecnologia própria”. “A melhor forma de honrar a memória do meu avô e do meu pai era dar à empresa a componente da inovação, conseguir que a BIAL lançasse um medicamento no mercado mundial”, afirmou, em entrevista à Exame. Por isso, a par de contratos de licenciamentos de tecnologia de empresas norte-americanas, alemãs, japonesas, para utilizar em Portugal, começaram a desenvolver os primeiros medicamentos de raiz portuguesa.

Qualidade, inovação e internacionalização: assim se resumia a sua estratégia. Não faltou quem lhe dissesse que era uma missão impossível. Durante a década de 80 do século XX, Luís Portela começou por formar a equipa: médicos, farmacologistas, biólogos, químicos, marketeers e tudo o mais que pudesse contribuir para o planeamento. “O grande contributo do meu pai foi criar do zero uma equipa que passava pelas diversas fases de desenvolvimento do medicamento. Isso deu-nos uma solidez enorme, formou uma equipa muitíssimo competente e deixou também uma cultura de trabalho de excelência”, considera António Portela.

Em 1992, a BIAL criou o departamento de Investigação e Desenvolvimento. Havia que decidir quais as áreas com potencial para desbravar, e chegaram à conclusão de que o sistema nervoso central e as doenças cardiovasculares seriam campos com grande evolução. “Com o crescimento da esperança média de vida, as doenças degenerativas manifestam-se muito mais, daí a nossa aposta”, explica António Portela. A primeira área a produzir resultados científicos foi precisamente o antiepilético Zebinix, cuja molécula (o acetato de eslicarbazepina) foi sintetizada em 1993, com o medicamento a ser usado em situações de epilepsia refratárias a outras fórmulas – atualmente, não é só uma terapia adjuvante, desenvolveram também a monoterapia.

No presente, é a empresa portuguesa que mais investe em I&D. “Em média, temos investido cerca de 20% da faturação anual em I&D. Em 2023, o investimento foi de 58 milhões de euros”, adianta o CEO. O patamar está gradualmente mais alto. “É cada vez mais difícil fazer chegar novos medicamentos ao mercado. Enfrentamos períodos longos de desenvolvimento, com muitos falhanços pelo meio. Se um fármaco não traz valor acrescentado sobre o que já existe, não vale a pena estar a investir”, acrescenta. Não faltam, contudo, planos para o futuro, como já veremos.

Acompanhar a cadeia de valor

A entrada de Maria João Bonifácio para a BIAL, em 1996, coincidiu com a inauguração das novas instalações em S. Mamede do Coronado, Trofa. Bioquímica, estava a concluir o doutoramento – já tinha, inclusive, concorrido ao prémio BIAL – quando viu o anúncio no jornal e resolveu candidatar-se ao cargo no laboratório de investigação farmacológica. Numa altura em que a investigação quase se circunscrevia ao meio académico, a empresa empenhava-se em produzir tecnologias novas. “A I&D tinha começado há poucos anos, tínhamos um grupo pequenino e vim fazer a montagem de laboratórios em áreas que ainda não possuíamos, em Biologia Molecular e em Bioquímica”, recorda. Define o seu percurso na BIAL – que foi evoluindo, mais para a área de Farmacologia – como “oportunidade e desafio”. “Oportunidade de trabalhar numa área sobre a qual tinha pouco conhecimento e aprendi imenso. E desafio porque houve muita coisa nova, conseguimos superar imensas dificuldades”, sublinha a atual diretora da área de segurança pré-clínica.

O processo foi longo e complexo, mas “extremamente gratificante”, porque conseguiram “o inimaginável” para uma empresa portuguesa. “Um medicamento, desde a sua conceção, até chegar ao mercado, demora cerca de 12, 15 anos, há um investimento enorme da empresa até que potencialmente possa ter algum retorno, é uma indústria de alto risco”, indica Maria João Bonifácio. No Zebinix, por exemplo, foram €350 milhões de investimento, em 15 anos, sem ver retorno imediato.

Outros tempos Nos anos 60 do século XX, as embalagens ainda eram produzidas numa tipografia da BIAL Foto: Arquivo Bial

Na BIAL, há uma característica particular que a torna apelativa para quem lá trabalha e ajuda a ultrapassar as incertezas e a desmotivação. “Não somos uma empresa gigantesca, tipo Pfizer, que funciona muito mais por blocos, onde as pessoas trabalham nesses blocos, veem as moléculas a entrar e sair, e não têm a noção se algum dia vão chegar ao mercado”, explica Maria João. “Considero-me uma pessoa muito afortunada, porque consegui estar a trabalhar precisamente no desenvolvimento e nos ensaios de avaliar as moléculas, e via também o que estava a acontecer nas outras áreas, em termos de metabolismo e de toxicologia, se estávamos a chegar às diferentes fases dos ensaios, se conseguíamos a aprovação da EMA e a da FDA… e isso dá uma satisfação incrível a quem faz investigação em empresas farmacêuticas. Não é muito vulgar.”

O facto de serem uma empresa de capital familiar também os ajudou a manter o rumo definido. “A vantagem de não sermos uma empresa de capital aberto, cotada na Bolsa, é que não temos de estar preocupados com a apresentação de resultados a cada trimestre e não temos essa pressão de distribuir dividendos aos acionistas, ou seja, podemos pensar mais a longo prazo. Se foi possível fazer este trabalho é porque estávamos disponíveis para investir, investir, investir… e colher os frutos mais lá para a frente”, afirma António Portela.

Abdicar do capital da empresa não é algo que esteja nos planos da família. Para acelerar o crescimento, “hoje estamos a tentar fomentar muito mais colaborações, quer com outras empresas farmacêuticas ou com a academia, em desenvolvimento de projetos, quer eventualmente com entidades financeiras”, aponta o CEO.

Diversificar as apostas

No futuro, há erros que não querem repetir. “A aprovação do Zebinix e do Ongentys foi um processo de aprendizagem absolutamente espetacular”, aponta António Portela. “Apesar das colaborações que fizemos, houve um investimento muito grande dos nossos recursos nesses dois fármacos”, recorda. A crise financeira e económica, a entrada da Troika no País, e a decisão do Ministério da Saúde de cortar em 30% o preço dos medicamentos implicou que, pouco tempo após ter assumido o cargo de presidente-executivo, em 2011, a empresa vivesse um dos seus períodos mais complicados – entre 2011 e 2014, faturaram menos 45 milhões. “A medida pôs em causa o nosso plano de desenvolvimento. Tivemos de cortar as coisas ao mínimo e, embora tivéssemos mantido esses dois fármacos, todos os outros que estavam em fases mais atrasadas ou incipientes ficaram para trás.”

Os mistérios da mente

Criada há 30 anos, a Fundação BIAL nasceu para promover a investigação em psicofisiologia e parapsicologia

Formado em Medicina, Luís Portela teve de abandonar a carreira académica e o sonho de fazer investigação para continuar o legado do pai e do avô na BIAL. Foi professor de Psicofisiologia, na Universidade do Porto, e sempre acreditou que a Ciência poderia ajudar a explicar os inúmeros mistérios da mente. Enquanto gestor, definitivamente arredado da investigação, resolveu criar, em 1984, o Prémio BIAL, para ajudar outros a desbravar a Ciência.

Em 1994, decidiu alargar a sua ação e, em conjunto com o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, criou a Fundação Bial. No programa de Apoios à Investigação Científica, que visa incentivar a investigação centrada sobre o ser humano, tanto do ponto de vista físico como espiritual – nomeadamente, nas áreas da Psicofisiologia e da Parapsicologia –, a Fundação já financiou um total de 865 projetos de 1702 investigadores, provenientes de 30 países. “O rigor científico é o método mais apropriado para tentar separar o trigo do joio”, afirmou Luís Portela, em entrevista à VISÃO.

Paralelamente, promove três prémios: o Prémio BIAL de Medicina Clínica (100 mil euros), com tema livre e dirigido à prática clínica; o BIAL Award in Biomedicine (300 mil euros); e, em parceria com a Ordem dos Médicos, o Prémio Maria de Sousa (150 mil euros), para apoiar jovens investigadores portugueses, até aos 35 anos, com projetos científicos na área das Ciências da Saúde. “Esta é a nossa grande aposta em termos de responsabilidade social e de fomento de uma cultura de investigação”, sublinha António Portela. A Fundação organiza ainda, bianualmente, os simpósios Aquém e Além do Cérebro. A 14ª edição, sob o tema da criatividade, decorre até 6 de abril, na Casa do Médico, no Porto, com neurocientistas, psicólogos, filósofos e artistas como conferencistas.

Hoje, não querem voltar a colocar todos os ovos no mesmo cesto. “Temos de gerir o nosso pipeline de maneira diferente e ter mais de uma ou duas moléculas a serem desenvolvidas, porque, se essas falharem – e muitas vezes falham, como aconteceu num projeto para a hipertensão arterial pulmonar, onde já tínhamos investido 90 milhões –, temos de ter outras opções”, defende António Portela. 

Tiveram igualmente a exata noção do quão longo é todo este processo de desenvolvimento de um medicamento. “Tínhamos uma ideia um bocadinho naïve de que lançávamos o medicamento e pronto, depois era a parte comercial e médica que tinha de trabalhar. Não. O Zebinix já perdeu a patente na Europa [e, consequentemente, 40 milhões de euros na faturação], ainda temos a patente nos EUA, mas há coisas que continuamos a fazer, quer na parte de desenvolvimento farmacêutico quer na parte industrial”, esclarece o presidente-executivo.

Os segredos de um comprimido

Antes de qualquer pessoa entrar na fábrica da BIAL, tem de vestir bata e calçar proteção de pés, além de passar pela câmara de despoeiramento, para limpar partículas que tenha agarradas ao corpo. Os corredores brancos mantêm uma limpeza absoluta. Isolado numa sala da área de sólidos, dedicada à produção de comprimidos e cápsulas, encontramos Faustino Carvalho, à roda de uma máquina que prepara a mistura dos componentes e a sua compressão – curiosamente, a primeira com que aprendeu a trabalhar, “agora recauchutada”, quando ingressou na empresa, há 30 anos. 

Em 2009, esteve envolvido nos primeiros lotes de validação do Zebinix, que comprovavam que o produto estava fixado e pronto para ser lançado no mercado. “Há uma pressão enorme quando estamos a lidar com lotes que valem milhões, se cometermos um erro, vai tudo para o lixo”, relembra Faustino. “Hoje, fazer Zebinix é como virar frangos, é normalíssimo, mas com um orgulho maior, porque é nosso.” O potencial de bem-estar e de cura que o medicamento vai trazer para alguém não é ignorado, mas “isto não deixa de ser uma fábrica, abstraímo-nos um pouco”, confessa o funcionário. 

Durante 16 horas por dia, a laboração não para. “Só em 2023 produzimos 12,5 milhões de caixas, de várias fórmulas”, adianta Sérgio Sousa, engenheiro químico, um dos responsáveis pela produção. Há 17 anos nos quadros da BIAL, também ele assistiu ao lançamento do Zebinix e do Ongentys, que hoje representam sensivelmente metade do volume da produção – e igualmente da faturação. “Foi maravilhoso estar envolvido na criação daqueles fármacos. Na área de produção apanhamos a fase final, mas representamos a concretização de todos aqueles anos de investigação e temos a sorte de vê-los saírem para o mercado.”

Automatização Em alguns setores da fábrica de S. Mamede do Coronado, na Trofa, a mão humana limita-se a controlar o trabalho das máquinas Foto: Lucília Monteiro

A linha de produção é completamente automatizada, com a serialização de cada caixa (ou frasco, no caso do mercado norte-americano), e o controlo apertado da temperatura e da humidade das salas. “Os requisitos são exigentes e as autoridades regulamentares estão atentas a estes registos”, explica Sérgio Sousa. Neste momento, aguardam a aprovação da FDA para que a nova fábrica de antibióticos, inaugurada em 2022 – 30 milhões de investimento, e que implicou também a duplicação da capacidade industrial –, possa produzir diretamente para os EUA, a partir de maio.

A expectativa quanto a este ganho de autonomia (e correspondente redução de custos) é enorme. O guião da mais que provável visita da FDA às instalações já está meticulosamente preparado. “É todo um espetáculo, com cerca de 30 a 40 pessoas nos bastidores, cada uma com uma função específica, a verificar todos os passos”, conta Teófilo Vasconcelos, responsável pelo laboratório de ciências farmacêuticas, em direta articulação com a parte industrial.

Anteriormente, a produção para o mercado norte-americano era feita no Canadá. “Nós sabíamos que internamente tínhamos as competências e os equipamentos para produzir em Portugal para todo o mundo. Mas, no início, não quisemos correr riscos”, explica Teófilo, que entrou para a BIAL em 2002, mal terminou o curso de Farmácia. Recorda com entusiasmo o processo da formulação comercial do Zebinix e do Ongentys, que acompanhou de perto. “A dosagem da substância ativa do Zebinix é muito grande, por isso tentamos reduzir ao máximo todos os outros componentes e o comprimido funcionou muito bem.” Quando avançaram com a primeira industrialização, enviaram antecipadamente para o Canadá dois milhões de euros de substância ativa. “Podiam ter ido dois milhões pela janela fora, mas conseguimos à primeira, só fizemos um pequeno ajuste”, conta. Um pormenor que “caracteriza um bocadinho o sucesso da BIAL: com pouco, temos conseguido fazer muito.”

Planos para o futuro

A faturação da BIAL em 2023 foi de €340 milhões – mais 6% do que em 2022 –, sendo que 75% veio dos mercados internacionais. Atualmente, os medicamentos são vendidos em 50 países. “O modelo de internacionalização da BIAL assenta no desenvolvimento orgânico de operações locais no exterior; temos filiais na Europa (Espanha, Alemanha, Reino Unido, Itália e Suíça) nos EUA e também em Angola, Costa do Marfim, Moçambique e Panamá.” Nos principais mercados globais, como é o caso do Japão ou da Austrália (e futuramente, na China), optaram por parcerias. Hoje, o trabalho do laboratório farmacêutico é reconhecido internacionalmente, nomeadamente ao nível das neurociências. “Qualquer neurologista na Europa confia na BIAL, sabe quais os produtos que nós temos e os projetos que estamos a desenvolver, até porque alguns participam em ensaios clínicos nossos”, adianta o presidente-executivo.

Empregam cerca de 800 colaboradores – 84% são licenciados e 11% doutorados –, 130 dos quais na área de I&D, de 14 nacionalidades diferentes, fruto dessa projeção além-fronteiras. “Temos conseguido atrair muita gente, não só para a investigação mas também para outras áreas, comercial, médica… há muitas poucas empresas europeias que são capazes de lançar novos medicamentos. O facto de termos dois no mercado é um cartão de visita fantástico”, sustenta António Portela.

Com esses dois medicamentos, os resultados da empresa triplicaram em dez anos, dando uma margem confortável para investir. Desde logo, tanto o Zebinix como o Ongentys, como já foi referido, continuaram a ter desenvolvimentos, com ensaios clínicos ainda a decorrer. E há novos medicamentos para o Parkinson no pipeline. “Todos os medicamentos que existem hoje para a doença de Parkinson só tratam os sintomas, permitem às pessoas viver melhor com a doença, mas não tratam a causa ou revertem o seu curso. Por isso, estamos agora a trabalhar em medicamentos que possam ser modificadores da doença, algo que nunca foi feito”, adianta o presidente-executivo da BIAL.

A primeira marca O laboratório nasceu no Porto e ali foi criado o Benzo-Diacol, um xarope antitússico que foi um êxito de vendas. A partir daí, a produção cresceu rapidamente Fotos: Arquivo Bial

Em 2020, quando compraram a Lysosomal Therapeutics em Boston, nos EUA (um investimento de 130 milhões de dólares), adquiriram os direitos mundiais dos programas de investigação na doença de Parkinson feitos por esta startup, focados no desenvolvimento de terapias para mutações genéticas associadas a esta patologia neurodegenerativa – mais precisamente, uma variante no gene GBA-1, encontrada em 10% a 15% desta população, associada a um desenvolvimento mais precoce e uma progressão mais rápida da doença. Naquela que é agora a BIAL Biotech Investments Inc., esperam vir a desenvolver uma molécula (por enquanto, com o código ‘BIA 28-6156/LTI-291’) com um mecanismo de ação inovador. “O projeto é muito atrativo, mas também acarreta muitos riscos. Está na fase 2 de ensaios clínicos e prevemos que só no final desta década possa ser lançado comercialmente.”

Áreas como a das doenças cardiovasculares foram abandonadas, por falta de resultados, e substituídas por outras. Mais recentemente, começaram a dedicar-se às doenças raras. Apesar da denominação, “há cerca de 11 mil doenças raras que estão identificadas, afetam cerca de 300 milhões de pessoas, e só há tratamentos para cerca de 5%”, refere António Portela. Algumas delas, na área do sistema nervoso central – nomeadamente, epilepsias. “Pelo conhecimento que fomos adquirindo, e também pelas pessoas que temos hoje na organização, há uma série de doenças raras em que temos competências internas para conseguir trabalhar”, concluíram.

Os projetos ainda estão numa fase embrionária, mas Maria João Bonifácio está entusiasmada com estas novas modalidades de investigação. “Estamos a falar de terapias génicas, focadas em mutações específicas no ADN. Se conseguirmos alterar ou adicionar um gene que modifique essa mutação, conseguimos curar”, explica. Afinal, “falamos agora do centenário da BIAL, mas o futuro é promissor.” Assim o esperamos, a bem da Ciência.

“Quando estava na escola, não tinha grande aptidão para a Ciência”

António Portela, bisneto do fundador da BIAL, assumiu o cargo de presidente-executivo em 2011, quando tinha 35 anos. Trabalhou em Londres, na concorrência, onde percebeu o impacto que a indústria farmacêutica podia ter na vida das pessoas

Foto: Lucília Monteiro

O seu pai começou por seguir uma carreira na Medicina que, após a morte prematura do seu avô, resolveu abandonar, para tomar as rédeas da empresa. No seu caso, foi sendo preparado para assumir os comandos da BIAL?
Não. Obviamente, cresci com a empresa, o meu pai trazia-me diversas vezes e, no verão, quando já era adolescente, de quando em quando vinha durante as manhãs, mais para o departamento industrial, para a tipografia – na altura, ainda fazíamos cá as embalagens e os folhetos – e para o armazém. Fui aprendendo e vendo como é que se fazia o negócio. Mas, quer o meu pai quer a minha mãe (que é farmacêutica), sempre nos deram, a mim e aos meus dois irmãos (eu sou o mais velho), liberdade de escolher aquilo que queríamos fazer, e eles procuraram ajudar-nos nessa escolha. Sentia que o meu pai gostaria que algum dos filhos pudesse seguir este caminho, mas sempre nos ia dizendo que não havia necessidade de isso acontecer, tinha de ser uma coisa natural. Curiosamente, os três sentíamos muita facilidade na Matemática. Eu e o meu irmão mais novo fomos para Economia e a minha irmã seguiu Matemática e hoje é professora.

Teve, primeiro, uma experiência no estrangeiro…
Quando acabei o curso, não quis ficar na BIAL. Primeiro, porque não sabia se gostava, realmente, desta área dos medicamentos e, depois, não queria trabalhar na empresa do meu pai. Acabei por ir para Londres, trabalhar noutra empresa farmacêutica, na Roche, e tive a possibilidade de ter essa experiência de trabalhar fora, numa empresa multinacional. Permitiu-me conhecer o negócio farmacêutico. A Roche estava a lançar uma série de produtos que tive a oportunidade de acompanhar, com um impacto enorme na vida das pessoas. E isso deixou-me muito entusiasmado: percebi que não necessitava de estar no laboratório, não precisava de saber de Ciência, mas podia dar o meu contributo. Pensei ficar um ou dois anos, e acabei por ficar quatro.

Tinha sempre em mente voltar e ingressar na BIAL?
A experiência era para perceber se gostava desta área, da indústria farmacêutica. Obviamente, se gostasse, fazia sentido voltar e trabalhar no negócio da família. O meu irmão também começou a trabalhar na empresa. Provavelmente, se não existisse a BIAL, talvez não tivesse voltado, porque gostava imenso do que estava a fazer. Mas tinha de dar seguimento a uma herança.

A BIAL estava a fazer um percurso muito interessante, imagino que também fosse aliciante estar envolvido…
Sim, nessa fase, quando voltei para Portugal, estávamos a fazer já a parte de Investigação e Desenvolvimento (I&D), não tínhamos feito nenhum produto chegar ao mercado, isso aconteceu uns cinco ou seis anos depois de ter voltado. Éramos uma empresa que operava fundamentalmente em Portugal, onde as coisas corriam muito bem. No final dos anos 90, começámos a fazer pequenas incursões em alguns países, a maior foi comprar uma empresa em Espanha. Estávamos a dar os primeiros passos em termos de internacionalização e o projeto era aliciante.

O seu pai abandonou as funções executivas aos 59 anos, relativamente cedo. Foi algo para o qual foi preparando os filhos?
O meu pai sempre teve uma postura muito coerente e muito aberta, quer connosco quer com o resto da organização. Sempre disse que não queria fazer 60 anos na presidência executiva da empresa. Quando o tempo se começou a aproximar, ele realmente preparou a transição. Era uma visão muito correta, porque lhe permitiu sair, mas ficar a acompanhar, quando ainda estava muito bem e capaz de ajudar a equipa de gestão a crescer e a desenvolver-se.

Foi o escolhido para o suceder. Sentiu a pressão?
Era muito jovem, quando assumi a presidência, tinha 35 anos. Claro que pensava no meu pai, que começou, quando tinha 27, de repente, sem ter formação em Economia, e sem ter esta equipa. Há uma série de coisas que são palpáveis e notáveis naquilo que ele construiu, mas o grande legado foi a equipa que conseguiu formar. No meu caso, só conhecia a área comercial, não fiz nenhuma das outras áreas da empresa. Tinha noção de que, para mim, era um salto enorme. O grande investimento que fiz na altura foi na área de I&D. Perguntei, chateei, insisti, até para perceber quais eram os caminhos, o que estávamos a fazer, porque escolhíamos determinadas coisas e não outras.

O seu pai afirmou ter sido um gestor-aprendiz. No seu caso, sente-se um bocadinho um cientista-aprendiz?
Sinto. É curioso, porque, quando andava na escola, não tinha grande aptidão para a Ciência. E hoje dou por mim a ler muitas coisas e a aprender sobre Ciência. Quanto mais o tempo passa, mais gosto da Ciência e mais tenho vontade de aprender. Recentemente, fizemos uma reformulação, deixando cair a área cardiovascular, na qual nunca tivemos grande êxito, e passámos a trabalhar na área das doenças raras. Isso também me obrigou a aprender uma série de coisas novas. Hoje, brincam comigo e dizem que há muita coisa que realmente já domino, pelos anos e pela aprendizagem que tive.

Palavras-chave:

Uma sondagem recente revelou que metade dos alemães (52%) é a favor da reintrodução do serviço militar obrigatório na Alemanha, suspenso em 2011. A maioria situa-se na faixa etária acima dos 60 anos. Já 42% dos inquiridos pelo instituto Forsa admitiu estar contra e 5% não expressou opinião.

Para a Associação de Reservistas das Forças Armadas Alemãs (Verband der Reservisten der Deutschen Bundeswehr e.V.), o serviço militar obrigatório é “inevitável”.

“Defendemos um ano de serviço obrigatório, porque a Alemanha precisa de uma defesa global forte (…) Não se trata de reintroduzir o antigo serviço militar obrigatório, mas sim de um serviço geral e amplamente diversificado que inclua todos os níveis de defesa civil e militar”, defendeu o presidente da associação Patrick Sensburg.

Em declarações à agência Lusa, Sensburg admite que não é apenas o serviço nas Bundeswehr que é relevante para a defesa, mas também, por exemplo, na Agência Federal de Assistência Técnica (THW), nos bombeiros ou nos serviços médicos.

A mudança para um exército totalmente voluntário, há 13 anos, fez com que o número dos militares caísse. Depois das Forças Armadas alemãs terem atingido o pico com quase 500 mil soldados no final da Guerra Fria, o valor caiu para metade em 2010. Os dados mais recentes, relativos a fevereiro deste ano, indicam que as Bundeswehr tenham cerca de 181.811 profissionais.

Dentro do próprio governo alemão, formado pela coligação semáforo (SPD, Verdes e liberais do FDP), as opiniões dividem-se. O debate, que começou no início do ano passado, tem subido de tom acompanhando o crescimento da ameaça russa.

Marie-Agnes Strack-Zimmermann, deputada especialista em defesa do FDP, já defendeu publicamente que vários pontos teriam de ser mudados nas Bundeswehr antes da reintrodução do serviço militar obrigatório: quartéis teriam de ser construídos ou ampliados, seria necessário mais treino, e mais equipamento militar. O preço a pagar também seria alto, avisou, sendo necessários dezenas de milhares de milhões de euros para reavivar o sistema.

No Bundestag, o Parlamento alemão, os liberais argumentam que o serviço militar obrigatório interfere com a autodeterminação das pessoas, e não contribui para a criação de um exército especializado.

Também a comissária militar Eva Högl, do Partido Social Democrata alemão (SPD), a força política do chanceler Olaf Scholz, se manifestou contra o recrutamento obrigatório. Argumenta que reverter a decisão tomada em 2011 não ajuda em nada, já que o país não tem formadores e infraestruturas suficientes.

Patrick Sensburg, presidente da Associação de Reservistas das Forças Armadas Alemãs, pede uma decisão urgente.

“Cada dia que passamos a discutir e a não decidir e a procurar razões para que não funcione, estamos a perder tempo para reconstruir uma defesa global eficaz e credível como elemento dissuasor. Mas não fazer nada acabará por sair ainda mais caro”, sustentou, em declarações à Lusa.

O ministro da Defesa, Boris Pistorius (SPD) está a estudar vários modelos de serviço obrigatório que incluem, por exemplo, a Suécia, onde todos os jovens, mulheres e homens, são examinados e uma parte selecionada recebe ofertas de serviços.

Pistorius quer que a Bundeswehr conte com pelo menos 203 mil soldados até 2031 para que a Alemanha esteja “pronta para a guerra”.

  

JYD // PDF

Palavras-chave:

Em declarações à agência Lusa, o compositor Luís Soldado disse que esta é a primeira ópera composta para narrar um filme: “Uma ópera feita de raiz para um filme mudo, uma ‘ópera muda’, não há memória que alguma vez tenha sido feito, pelo menos segundo o conhecimento que temos”.

“Este nome de ‘ópera muda’ é uma ideia que vem de Londres”, onde foi estudante. Na capital britânica, “já fazia ópera e tive a oportunidade de fazer partituras para filmes mudos, e começou a surgir a ideia de fazer uma ‘silent opera’, que, na verdade soa um bocadinho melhor em inglês, que ‘ópera muda’, que pode ser menos claro, mas também é interrogativo e causa curiosidade”.

Esta proposta é exigente para compositor e libretista, na medida em que há um tempo certo para coincidir com o filme que está a decorrer simultaneamente.

A ópera tem 50 minutos de duração e o filme 40 minutos.

Para esta ópera, Luís Soldado fez algumas citações de outros compositores, nomeadamente Antonio Rossini e Claude Debussy, citando o poema-sinfónico “Prélude à l’après-midi d’un faune” deste compositor francês.

“Se isto fosse só uma ópera a música nunca não seria assim, como é um filme há muitos ‘leitmotiv’. Sempre que aparece uma personagem há um tema recorrente, a água é um elemento fundamental, porque a água está muito ligada ao desejo sexual, e aparece muitas vezes, muitas fontes, muitas cascatas, muito mar que rodeia a ilha, o mar tem, aliás, um tema próprio”, referiu.

“Se fosse uma ópera só, o libreto seria outro, o filme tem um tempo fixo, o que foi um desafio para o Rui Zink e para mim, pois tínhamos que escrever para aquele tempo específico, da duração da cena, daquela imagem”.

O filme escolhido foi “O Fauno das Montanhas” (1926), de Manuel Luís Vieira (1885-1952). Filmado na ilha da Madeira, é considerado um dos primeiros filmes fantásticos por ter efeitos especiais e a personagem do Fauno é metade homem metade animal.

“É também um documento quase etnográfico”, acrescentou o compositor, também investigador no Centro de Sociologia e Estética Musical da Universidade Nova de Lisboa.

Sobre o filme, com as participações dos atores George A. Gordon, Ermelinda Vieira, Arnaldo Coimbra e Maria da Nazaré Nunes da Silva Gouveia, entre outros, Luís Soldado afirmou que “aparentemente tem uma trama ingénua”.

O filme conta a história de dois britânicos, pai e filha, que vão visitar a ilha da Madeira, e a filha ao olhar para um pastor, que é o guia do seu percurso pelas montanhas da Madeira, vê nele um fauno semelhante a uma estátua que tem no seu jardim, explicou à Lusa o compositor.

Luís Soldado pediu a Rui Zink, com quem trabalha há vários anos em projetos operáticos, que escrevesse “um libreto que descodificasse esta mensagens subliminares e as tornasse mais claras”.

O libreto foi escrito para duas personagens, que representam o pai e a filha, que “começam por ser dois elementos do público, como duas pessoas que vão assistir à ópera e ao filme e, que de repente, se tornam personagens do filme e começam a relatá-lo”.

“Nós estamos a utilizar o passado para falar do presente, e vamos falar de várias coisas, destas relações pai e filho, e os desejos do início da juventude, mas vamos também falar das relações entre as classes [sociais]”, afirmou à Lusa Luís Soldado.

A ópera com a soprano Célia Teixeira e o barítono Ricardo Rebelo da Silva tem direção musical do maestro Rui Pinheiro, que dirigirá um trio composto por Teresa Araújo, no violoncelo, Romeu Santos, no contrabaixo, e Hélio Santos, na flauta, sendo a encenação de Linda Valadas.

NL // TDI

Na campanha presidencial de 2020, que perdeu para o agora Presidente democrata Joe Biden, Trump conseguiu angariar mais de 600 milhões de dólares (cerca de 550 milhões de euros) junto dos pequenos doadores, 35% mais do que o seu rival nesse nicho de financiamento de campanha.

Contudo, na repetição do duelo contra Biden para as presidenciais de novembro próximo, Trump está a debater-se com problemas acrescidos em conseguir convencer esses pequenos doadores (muitos dos quais participam com quantias inferiores a 50 dólares, cerca de 40 euros) a financiar o esforço de reconquistar a Casa Branca para os republicanos.

Vários analistas atribuem esta dificuldade ao facto de Trump ter pedido demasiado dinheiro, por demasiado tempo, ao mesmo grupo da sua base de apoio eleitoral.

Logo a seguir à derrota contra Biden, em 2020, o quartel-general político de Trump enviou milhares de mensagens de correio eletrónico para os apoiantes do candidato republicano pedindo-lhes apoio financeiro para ajudar a contestar os resultados eleitorais.

A intensidade dessa campanha de angariação de fundos levou muitos dos mais fervorosos apoiantes a responderem aos ‘e-mails’ com queixas de que estavam a ser demasiado requisitados e o próprio Trump reconheceu que estava a haver algum exagero nos pedidos, aconselhando os seus assessores a abrandarem nas solicitações.

Agora, a máquina de campanha de Trump revela dificuldades adicionais em voltar aos bolsos desses pequenos doadores e o comité financeiro do Partido Republicano já assumiu publicamente que está a ter dificuldade em financiar as iniciativas políticas.

Ao mesmo tempo, Trump está a pedir a esse mesmo partido que ajude a pagar as faturas de defesa judicial nos quatro processos em que está envolvido em tribunal, o que tem provocado desagrado em setores importantes dos republicanos e a causar ainda mais desgaste junto dos financiadores.

Ao mesmo tempo, do outro lado da corrida eleitoral, Joe Biden bate recordes de angariação de fundos, como aconteceu na passada semana, durante um grande evento de financiamento de campanha em Nova Iorque em que participaram os antigos Presidentes democratas Bill Clinton e Barack Obama.

Analistas do departamento de análise da revista The Economist invocaram esta semana a diferença de angariação de fundos entre as duas candidaturas como uma das razões pelas quais consideram que Biden está claramente em melhor posição para vencer as presidenciais de novembro.

“O maior problema com a angariação de fundos junto da base de apoio republicana é que não a temos tratado lá muito bem”, reconheceu recentemente John Hall, um dos estrategos do partido encarregado em conseguir dinheiro para a campanha de Trump.

Este funcionário da candidatura republicana admitiu que está a falhar também a estratégia de angariação de fundos por meios digitais, que foi muito utilizada nas semanas seguintes à derrota de Trump em 2020, para ajudar a financiar a contestação dos resultados.

“Essa mina de dinheiro tinha um fundo e penso que já lá chegámos”, disse Hall, em declarações ao jornal The Washington Post, explicando que, desde 2021, o entusiasmo dos apoiantes de Trump tem vindo a esmorecer.

Mas este fenómeno não afeta apenas a candidatura presidencial de Trump, já que está a repetir-se na angariação de fundos para as campanhas para o Congresso, que decorrerão também em novembro.

Nesta corrida eleitoral, os candidatos democratas já conseguiram angariar 279 milhões de dólares, contra apenas 212 milhões de dólares dos republicanos, de acordo com números do comité de controlo de gastos do Congresso.

RJP // PDF

A média agregada de 624 sondagens nacionais, segundo as contas do The Hill, dá a Donald Trump uma vantagem de 0,8% face a Joe Biden, uma margem mínima dividida entre 46% para o republicano e 45,2% para o democrata. 

Estes números indicam uma redução significativa da vantagem que Trump vinha registando face ao atual presidente e várias sondagens já colocam Biden na frente. 

É o caso da última pesquisa nacional da Morning Consult, que dá 44% contra 42% a favor do democrata; da sondagem Big Village, 42%-40% para Biden; e da Marist College para a NPR e PBS NewsHour, que regista 43%-41% para o atual Presidente. 

O encurtar da distância entre os dois candidatos também se reflete nos números mais recentes vindos da Pensilvânia, um dos estados críticos para a eleição de 05 de novembro, com 19 votos no colégio eleitoral. 

A última sondagem conduzida na Pensilvânia pela Franklin & Marshall College, publicada a 04 de abril, mostra que Biden está 10 pontos à frente de Trump (48% contra 38%), uma alteração substancial face aos números de fevereiro. 

Na altura, Biden liderava por apenas um ponto percentual, 43% contra 42%. O estado é crucial: nenhum democrata foi eleito Presidente sem ganhar a Pensilvânia desde 1948.

Esta vantagem diminui de forma drástica quando são introduzidos candidatos alternativos. A sondagem mostra que uma corrida a quatro, com o independente Robert F. Kennedy Jr. e a candidata do Green Party, Jill Stein, reduz a liderança de Biden na Pensilvânia para apenas 2 pontos face a Trump, com RFK Jr. a obter 9% e Stein 3%. 

Nos outros estados críticos, que podem pender para um lado ou para o outro, é Trump quem segura a vantagem. Várias sondagens estaduais no Arizona, Geórgia e Michigan dão ao republicano uma vantagem de um a cinco pontos percentuais face a Biden. 

Este tem sido o cenário quando as sondagens são focadas nos estados considerados “battleground” (literalmente, “campo de batalha”). Na pesquisa que o Wall Street Journal publicou a 02 de abril, Trump lidera também na Carolina do Norte (+6) e Nevada (+4). 

Mas no que toca à tendência de voto geral, o que inclui escolhas para a Câmara dos Representantes, Senado e legisladores locais, são os democratas que aparecem em vantagem: têm 45,4% contra 43,6% dos republicanos, de acordo com o agregado de 399 sondagens. 

Em termos de popularidade, ambos estão no vermelho. Segundo a média da plataforma FiveThirtyEight, 55,2% dos eleitores desaprovam Joe Biden e apenas 39,3% dão nota positiva. Trump tem números similares, mas ligeiramente melhores: 52,8% dos eleitores indicam uma opinião desfavorável do ex-presidente e 42,4% têm uma visão favorável. 

Após a conclusão das primárias, que começaram a 15 de janeiro, Biden e Trump vão ser confirmados como candidatos oficiais nas convenções dos respetivos partidos. A republicana acontece primeiro, entre 15 e 18 de julho, e a democrata decorre a seguir, entre 19 e 22 de agosto.

ARYG // PDF

“É urgente que se defina legalmente o que é uma doença crónica e que se estabeleça o tão aguardado Estatuto Jurídico do Doente Crónico, de forma a garantir que todas as doenças crónicas têm o mesmo tratamento de base” e que existe “igualdade de direitos e melhor articulação entre os diferentes níveis de cuidados para todos os doentes crónicos, terminando com as iniquidades de acesso mediante o tipo de doença associada”, declarou o presidente da Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) num comunicado.

Segundo Jaime Melancia, “Portugal continua a registar sérios desequilíbrios geográficos e socioeconómicos que comprometem a equidade no acesso aos cuidados de saúde por parte da população”.

A Plataforma Saúde em Diálogo refere dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) de 2021, indicando que “cerca de quatro milhões de portugueses têm pelo menos uma doença crónica, uma proporção superior à média da UE (36%)” e que a prevalência é maior nos adultos “com menores rendimentos”.

No caso dos medicamentos, a plataforma considera que “tem vindo a ser feito um esforço importante para melhorar o acesso” dos doentes crónicos, mas defende ser “fulcral garantir um acesso mais eficaz a medicamentos inovadores que podem fazer a diferença na vida dos doentes, em particular dos doentes oncológicos ou que padecem de uma doença autoimune ou rara”.

A IPSS, que diz representar 72 associações de doentes, de utentes dos serviços de saúde e de profissionais do setor, refere ainda que a criação de um registo único de dados em saúde, permitindo o acesso ao historial clínico, é “uma ambição de todos aqueles que vivem com a doença, mas também dos profissionais de saúde”.

Ao centralizar a informação clínica do utente tanto do Serviço Nacional de Saúde como do setor privado (o que inclui centros de saúde, hospitais, farmácias e clínicas), aquele registo “agilizará o acesso ao tratamento” e garantirá “uma poupança efetiva de custos e recursos ao SNS, ao evitar a duplicação de exames e tratamentos”, sustenta.

“A minha saúde, o meu direito” é o tema deste ano do Dia Mundial da Saúde, assinalado em 7 de abril, dia da fundação da Organização Mundial da Saúde.

Na página ‘online’ do SNS é indicado que a OMS pretende destacar “a necessidade urgente de garantir acesso universal a serviços de saúde de qualidade e a um ambiente saudável”.

Segundo o Conselho de Economia da Saúde para Todos, desta organização das Nações Unidas, “mais de metade da população mundial (cerca de 4,5 mil milhões de pessoas) não tinha acesso a cuidados de saúde básicos em 2021”.

Além das doenças, desastres e conflitos que ameaçam a saúde de pessoas em todo o mundo, a crise climática também põe em causa “o direito humano fundamental” à saúde, que “deve ser protegida e promovida por todos, sem exceção”, defende a OMS.

PAL // JMR

As conclusões resultam de um inquérito a 7.576 pessoas, realizado, entre setembro e dezembro, pela Deco Proteste em Portugal, Bélgica, Espanha e Itália, e cujos resultados nacionais foram divulgados hoje, quando se assinala o Dia Mundial da Saúde.

Entre os 1.563 inquiridos em Portugal, 57% das mulheres reportaram algum problema de saúde mental ou emocional nos três meses anteriores, uma percentagem bastante inferior em relação aos 35% de homens que partilharam a mesma experiência.

A ansiedade, problema mais reportado, afetou 43% das mulheres, o dobro do registado entre os homens. As mulheres são também quem mais sofre com stresse (35% face a 21%) e de dificuldade em dormir (35% face a 21%).

Mantendo-se a mesma tendência, os problemas de saúde mental parecem afetar significativamente mais as faixas etárias mais jovens.

Entre os 18 e os 34 anos, 70% das mulheres reportaram algum problema nos últimos três anos, em comparação com 47% dos homens da mesma faixa etária.

Questionados se sentiram angústia intensa ou muito intensa no mês anterior, mais de metade dos jovens confirmou que sim, acima dos 42% de inquiridos entre os 35 e 54 anos e dos 33% entre os 55 e 79 anos.

Com o avançar da idade, refere o artigo, vai desaparecendo da lista de queixas mais frequentes a instabilidade emocional constante, que afeta 31% dos jovens.

Os resultados sugerem, por outro lado, que existe ainda um estigma associado à procura de ajuda para problemas de saúde mental, uma vez que, entre os inquiridos que relataram algum problema do foro psicológico nos últimos três anos, apenas 43% seguiram um tratamento.

Entre a maioria que optou por não o fazer, mais de metade (56%) alegou conseguir resolver o problema sozinho e 18% disseram não se sentir confortáveis para falar sobre o assunto.

Daqueles que seguiram algum tipo de tratamento, 65% fizeram medicação com antidepressivos, ansiolíticos, hipnóticos ou outros e cerca de metade fez psicoterapia, havendo ainda 31% que recorreu a “produtos naturais” e 27% a práticas de relaxamento e meditação.

Apesar de não ser a opção mais popular, a psicoterapia é a que reúne maior satisfação, sendo que 66% tiveram a primeira consulta em até duas semanas. Em relação ao público, a rapidez na marcação da primeira consulta é maior no privado, mas o custo do tratamento é significativamente superior, que pode chegar, em média, a 137 euros por mês.

O inquérito olhou igualmente para possíveis gatilhos, como o desemprego, a perda de um ente querido, dificuldades financeiras e conflitos familiares ou com o parceiro.

Os resultados mostram, no entanto, que Portugal foi o único dos quatro países avaliados em que a situação não está associada a um aumento significativo do volume de queixas e que, com dificuldades ou conforto financeiro, a proporção de inquiridos que referem problemas é semelhante.

Não existe também um impacto claro da prática de desporto na saúde mental, ainda que os não praticantes pareçam ser mais vulneráveis.

MCA // CMP

Na missiva enviada a Luís Montenegro no Dia Mundial da Saúde, numa iniciativa inédita, nove ordens profissionais elaboraram um documento que resulta de uma reflexão conjunta, assente numa visão partilhada e num consenso para um futuro de “uma só saúde” (One Health).

A promoção da saúde e a prevenção da doença, um maior investimento na literacia em saúde e na saúde mental ou a valorização dos profissionais de saúde são algumas das medidas apresentadas no documento, subscrito pelas ordens dos médicos, enfermeiros, farmacêuticos, dentistas, psicólogos, veterinários, nutricionistas, fisioterapeutas e biólogos.

“Entendemos que havia pontos de convergência e um deles precisamente tem a ver com a ideia de ‘One Health’, que agrega aqui todas as ordens profissionais porque integra a saúde humana, que diz respeito à maioria das ordens deste grupo, mas também a saúde animal e a saúde ambiental e climática”, explicou à Lusa o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes.

O responsável disse ainda que a intenção é mostrar, no Dia Mundial da Saúde e “no momento que o país está a atravessar”, que unidos conseguem chegar mais longe e que estão disponíveis “para ajudar o Governo”.

“Este é um documento positivo, que, por um lado, traça alguns problemas, traça também um caminho e coloca estas ordens à disposição para apoiar o Governo nas medidas que terá de implementar, que terá de seguir aqueles eixos que traçamos, nomeadamente na área da literacia, da promoção, da prevenção em saúde e do respeito pelos profissionais de saúde, pelas justas reivindicações e expectativa de carreira”, acrescentou.

No documento, a que a Lusa teve acesso, estes profissionais reconhecem e valorizam “os esforços contínuos para melhorar a Saúde e o bem-estar dos cidadãos”, mas dizem que continuam “com apreensão” a observar “problemas de organização e suborçamentação que se traduzem na manutenção de desigualdades sociais e territoriais no acesso a cuidados”.

“Os modelos de resposta são ainda burocratizados, por vezes não desmaterializados e pouco integrados, com uma força de trabalho escassa e insatisfeita, com o encerramento de serviços e tempos de espera que não garantem respostas de saúde céleres ou atempadas, e um conjunto de áreas críticas com necessidades não atendidas”, escrevem, considerado que este cenário “compromete o acesso equitativo e universal aos cuidados de saúde, apenas possível através da garantia da sustentabilidade e eficácia do SNS [Serviço Nacional de Saúde]”.

Os profissionais consideram também urgente transformar a promoção da saúde e a prevenção de doenças “numa prioridade estratégica máxima”, com medidas e programas específicos dirigidos à promoção de estilos de vida saudáveis e à gestão autorregulada das doenças crónicas, assim como promover a literacia em saúde, incluindo a saúde animal, com campanhas de sensibilização, envolvendo profissionais das diversas áreas.

Dotar os serviços de profissionais de saúde “em número suficiente e competente para responder com qualidade e eficácia”, desenvolvendo estratégias de atração, motivação e vinculação dos profissionais é outra das prioridades apontadas.

As ordens profissionais defendem ainda a urgência de valorizar os profissionais de saúde, promovendo a sua participação na gestão e na organização das estruturas de saúde e criando condições que facilitem a progressão na carreira e a fixação em zonas onde são mais necessários.

Pedem igualmente urgência no investimento na área da Saúde Pública e na Saúde Mental, reforçando o número de profissionais nos Cuidados de Saúde Primários e a sua presença nas equipas multidisciplinares.

Na área da saúde animal, a urgência vai para necessidade de dotar a Direção Geral de Alimentação e Veterinária de meios apropriados, “possibilitando a criação de um plano nacional de controlo de animais errantes”.

Pretendem ainda promover o investimento, a inovação e a investigação em Saúde, reforçar a integração da saúde com outras áreas de ação governativa, “nomeadamente considerando os impactos das questões sociais, laborais ou ambientais na saúde pública”.

Finalmente, consideram urgente a integração de novas tecnologias que possam contribuir para a eficácia e eficiência do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente investindo na digitalização de processos e em soluções de Saúde Digital, assim como maiores orçamentos para os programas transversais de promoção da saúde e saúde preventiva.

SO // VAM

Palavras-chave:

“A não ser que se queira cometer os erros do passado, em que a Ordem dos Médicos não tem sido ouvida em nenhuma das grandes matérias que foram decididas, por um lado, pelo Ministério da Saúde, pelo outro, pela Direção Executiva do SNS [Serviço Nacional de Saúde]”, afirmou o bastonário, Carlos Cortes.

Em declarações à Lusa, o responsável disse esperar que o caminho a traçar pelo novo Governo seja “um caminho de inclusão e de diálogo”.

“Não vejo outra possibilidade do que ouvir quem está no terreno, quem trabalha no dia-a-dia, quem conhece os problemas e tem soluções para apresentar. E Ordem dos Médicos está completamente disponível e a sua intenção obviamente é colaborar com a nova ministra da Saúde”, salientou.

Durante a campanha eleitoral, o atual primeiro-ministro, o social-democrata Luís Montenegro, comprometeu-se a, nos primeiros 60 dias do novo Governo, apresentar um plano de emergência para o SNS, a aplicar até final de 2025.

Diminuir os prazos na marcação de consultas de saúde familiar, com a teleconsulta como uma alternativa, e garantir enfermeiro e médico de família, recorrendo também aos setores privado e social, são algumas das metas deste plano.

Prevê também atendimento célere nos cuidados primários (quando se trate de doença aguda) ou alargar para o privado o sistema de ‘vouchers’, que já existe nas cirurgias, aplicando-os às consultas de especialidade quando se ultrapassam os tempos de espera.

SO // VAM

Palavras-chave:

“A questão da rutura tem que ver precisamente com a questão das ULS. E porquê? Porque a passagem das competências das ARS [Administração Regional de Saúde] para as ULS foi mal feita e há um conjunto de aspetos que foram negligenciados”, disse o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes.

O responsável referia-se à situação de rutura de ‘stocks’ de vacinas denunciada esta semana pela Ordem dos Enfermeiros e que a Direção-Geral da Saúde (DGS) já veio admitir, apesar de considerar tratar-se de “situações pontuais” que têm sido “regularizadas de imediato” e sem comprometer os objetivos do Programa Nacional de Vacinação (PNV).

Em declarações à Lusa, Carlos Cortes considerou que não foi bem feita a passagem das ARS para as ULS na questão dos processos de contratação, de serviços e de bens.

“Aquilo que me preocupa neste momento, e que eu gostaria de ter conhecimento, é saber que outras áreas estão em rutura e que nós não conhecemos”, acrescentou.

Carlos Cortes manifestou-se preocupado com a situação, insistindo que, no caso da contratação pública, as ULS “não conseguem desenvolver procedimentos atempadamente para responder a todas as necessidades”.

Sobre a integração de cuidados que a Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) pretendia com o novo desenho de organização em ULS, o bastonário afirmou: “Sou completamente a favor da aproximação dos cuidados de saúde primários, cuidados hospitalares com os continuados e até com a área mais social”.

“As ULS são uma forma de fazer integração, mas do meu ponto de vista, não foi bem desenvolvida”, disse, argumentando que “não foi discutida” e que em “qualquer reforma é muito importante ouvir todos os parceiros e, sobretudo, quem está no terreno, porque conhece as dificuldades, conhece os problemas” e podia ajudar a minimizá-los.

O bastonário considerou ainda que falta um documento orientador desta reforma do SNS.

“Nós temos aquela que é apelidada como a maior reforma do SNS desde a sua criação, mas não há nenhum documento sobre as ULS. Não há nada a explicar o que é que é uma ULS, como é que elas têm que ser organizadas, orientadas e desenvolvidas”, disse, acrescentando que “o que se pediu foi para as pessoas se juntarem, mas não se deu nenhum apoio, nenhuma orientação para o poder fazer”.

Sobre a prevenção em Saúde, o responsável lembrou que muitas das competências da Direção-Geral da Saúde tinham passado para a anterior secretaria de Estado da Promoção da Saúde, fazendo com que muitos recursos tenham entretanto abandonado a DGS.

“A Direção-Geral de Saúde tem perdido ao longo do tempo capacidade de intervenção […]. A Ordem dos Médicos entende que a Direção-Geral de Saúde tem de ser reforçada […] na sua capacidade de resposta […] e em termos de profissionais de saúde, nomeadamente de médicos”, defendeu.

Carlos Corte lembrou também que as medidas de prevenção da saúde têm efeito “a médio/longo prazo”.

“Infelizmente, os políticos hoje querem medidas que tenham efeito imediato, que consigam sair nas páginas dos jornais no próprio dia, ou no dia seguinte, e com a promoção da saúde obviamente não é isso que acontece. Mas, traz mais-valias a médio longo prazo extremamente importantes”, salientou

SO // VAM