O primeiro pedido de patente do acetato de eslicarbazepina foi feito em 1996. Uma etapa significativa para o desenvolvimento do antiepilético Zebinix (o seu nome comercial), o primeiro medicamento feito com investigação própria da BIAL, uma maratona que ainda tinha muitos quilómetros pela frente – por um caminho sinuoso, com direito a alguns tropeções. A aprovação para ser lançado no mercado chegou apenas em 2009, na Europa, e em 2013, nos Estados Unidos da América. “Quando começámos, ninguém sabia que ia demorar tanto e que ia custar tanto”, conta António Portela, 48 anos, presidente-executivo da BIAL, a quarta geração da família à frente da empresa.
As dificuldades não surgiram apenas no laboratório. Paula Costa, atual diretora do departamento de assuntos regulamentares, estava encarregue de preparar o “embrulho” da ciência produzida pela equipa de Investigação e Desenvolvimento (I&D) para o submeterem às autoridades reguladoras dos medicamentos. “O dossier tinha mais de 80 mil páginas”, recorda. Demoraram meses a compilar toda a informação e a extrair o sumo dos ensaios e dos relatórios numa linguagem entendível. A avaliação da Agência Europeia do Medicamento (EMA) decorreu sem sobressaltos. Não previam, contudo, que a Food and Drug Administration (FDA) viesse a exigir um novo ensaio clínico com doentes norte-americanos. Um balde de água fria que atrasou significativamente o processo e implicou custos adicionais que ultrapassaram os 100 milhões de euros. “Sentimo-nos um bocadinho pequeninos perante aquela mise en scène da FDA, levavam para cada reunião técnica 20 pessoas, nós tínhamos três ou quatro, por isso trabalhámos o dobro”, descreve.

Apesar do contratempo e do desgaste desses últimos anos, persistiram. “Foi precisa muita coragem para continuar todo o processo e, acima de tudo, uma liderança tranquila, que acreditava que era possível.” Paula lembra-se do momento em que receberam, finalmente, a notícia da aprovação. Não houve tempo para abrir uma garrafa de champanhe, só queria meter-se no avião de regresso a Portugal. “Em três anos, viajei 144 vezes para os EUA, praticamente vivia lá, eram reuniões atrás de reuniões”, diz.
Farmacêutica de formação, Paula Costa entrou na BIAL em 1996, já para a área regulamentar, mas não imaginava os desafios que teria pela frente. A empresa tinha criado a primeira equipa de Investigação e Desenvolvimento (I&D) em 1992, e a ideia de apostar na inovação farmacêutica, em Portugal, era vista como peregrina. “No País, não havia ninguém com experiência relevante nesta área, a nível internacional… fomos todos vistos um bocadinho como loucos”, recorda. Poderiam ter contratado uma empresa para lidar com as autoridades internacionais, mas “nunca teriam adquirido o know-how”. Optaram por fazê-lo internamente, com a ajuda parcial de terceiros, e a aprendizagem permitiu-lhes avançar sozinhos, mais tarde, com a aprovação do segundo medicamento de investigação própria, o Opicapona – Ongentys, para o tratamento da doença de Parkinson – em 2016, junto da EMA, e em 2020, junto da FDA. Desta vez, com outra segurança. “É uma satisfação enorme ver que temos equipas que, apesar de pequenas, são muito aguerridas, humildes e dão o máximo para conseguir um objetivo”, diz, com indisfarçável orgulho.
Seguir o legado
A ousadia está no sangue da BIAL, desde os seus primórdios. Álvaro Portela, um homem de famílias humildes, sem estudos, começou a trabalhar muito cedo como moço de recados na Farmácia do Padrão, no Porto. Mas logo deu provas do seu engenho e foram-lhe atribuídas maiores responsabilidades. No início do séc. XX, as farmácias eram completamente diferentes: os clientes deixavam as receitas, os farmacêuticos tinham de manipular os medicamentos e só passadas umas horas estes podiam ser levantados. Portela reparou que algumas manipulações tinham mais saída e, para elas, seria benéfico criar um stock, servindo melhor e mais rapidamente os clientes. Com a aprovação do patrão, o sr. Almeida, pôs em prática as suas ideias no primeiro andar da farmácia. A certa altura, já não havia mãos a medir e era necessário aumentar o espaço. O sr. Almeida recusou a sociedade, mas apoiou financeiramente o funcionário, tanto na montagem do laboratório como na compra de matérias-primas. A relação ficou eternizada na marca BIAL, o “al” de Almeida e de Álvaro em duplicado.
Álvaro Portela, “mesmo sem ter conhecimentos, quer científicos quer de gestão ou comerciais, conseguiu fazer crescer o negócio”, conta o bisneto. Fê-lo durante quase 40 anos, com produtos como o xarope antitússico Benzo-Diacol, a primeira marca lançada para o mercado, em 1929, com um marketing criativo – vejam-se os cartazes publicitários colocados em algumas igrejas, com a frase “no silêncio dos templos, Benzo-Diacol”.
Quando o filho, António Emílio Portela, assumiu a presidência da BIAL, em 1962, a empresa deu um salto na industrialização, com o forte investimento que foi feito na mecanização. Foram dez anos a consolidar o caminho, interrompidos com a sua morte prematura, aos 50 anos. Sucedeu-lhe um dos descendentes, Luís Portela, que tomou a decisão de abandonar a carreira médica e universitária (lecionava Psicofisiologia, na Universidade do Porto) e, em 1979, passou a liderar a empresa. Tinha apenas 27 anos, preparava-se para fazer o doutoramento em Cambridge, Inglaterra, mas teve de renunciar ao sonho da investigação para continuar a obra da família. Na altura, a BIAL estava em 53º lugar no ranking das farmacêuticas, com uma quota de 0,5%, e a passar por dificuldades – atualmente, é o maior grupo nacional do setor.
Um século de história
A farmacêutica portuguesa construiu, ao longo de quatro gerações, um legado que a torna reconhecida dentro e fora de portas
1924
Álvaro Portela (1894-1961) funda a BIAL, indústria de produção de medicamentos, no Porto
1929
É registada a primeira marca, o Benzo-Diacol, um xarope antitússico promovido com um marketing criativo
1962
António Emílio Portela assume a presidência da BIAL e investe fortemente na mecanização
1978
É lançado o Reumon gel, um gel anti-inflamatório tópico que se torna um êxito de vendas no mercado nacional
1979
Aos 27 anos, Luís Portela torna-se presidente da BIAL, após a morte prematura do pai. Aposta na investigação e desenvolvimento, com olhos postos na internacionalização da empresa
1984
Primeira edição do Prémio Bial, com o objetivo de incentivar a pesquisa médica e galardoar uma obra intelectual, original, com tema livre e dirigida à prática clínica
1992
Criação da primeira equipa de Investigação e Desenvolvimento, que começa por trabalhar em duas áreas: sistema nervoso central e sistema cardiovascular
1994
Liderada por Luís Portela, nasce a Fundação Bial, para incentivar a investigação em Neurociências e em Parapsicologia
1996
Inauguração das instalações da BIAL em S. Mamede do Coronado, Trofa, onde a empresa ainda se mantém
1998
Começa a internacionalização, com a criação da BIAL Espanha, a primeira filial. Em Moçambique, nasce também a Medimport
2009
Licenciamento e lançamento do Acetato de Eslicarbazepina – Zebinix, para o tratamento da epilepsia –, o primeiro medicamento de investigação própria da BIAL para os mercados europeus
2011
Luís Portela passa a presidente não executivo e o filho mais velho, António Portela, ocupa o cargo de CEO
2014
Zebinix é aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) e passa a ser comercializado nos EUA
2016
O segundo medicamento de investigação própria da BIAL, o Opicapona – Ongentys, para o tratamento da Doença de Parkinson, é aprovado pela Comissão Europeia. Em 2020, é aprovado nos EUA
2021
António Horta-Osório substitui Luís Portela e passa a liderar o conselho de administração da BIAL
2022
Expansão do campus BIAL, com inauguração da nova fábrica de antibióticos e ampliação da área industrial em S. Mamede do Coronado
Na perspetiva de Luís Portela, “o futuro da indústria farmacêutica passava por uma certa independência, que só seria conseguida com o desenvolvimento de tecnologia própria”. “A melhor forma de honrar a memória do meu avô e do meu pai era dar à empresa a componente da inovação, conseguir que a BIAL lançasse um medicamento no mercado mundial”, afirmou, em entrevista à Exame. Por isso, a par de contratos de licenciamentos de tecnologia de empresas norte-americanas, alemãs, japonesas, para utilizar em Portugal, começaram a desenvolver os primeiros medicamentos de raiz portuguesa.
Qualidade, inovação e internacionalização: assim se resumia a sua estratégia. Não faltou quem lhe dissesse que era uma missão impossível. Durante a década de 80 do século XX, Luís Portela começou por formar a equipa: médicos, farmacologistas, biólogos, químicos, marketeers e tudo o mais que pudesse contribuir para o planeamento. “O grande contributo do meu pai foi criar do zero uma equipa que passava pelas diversas fases de desenvolvimento do medicamento. Isso deu-nos uma solidez enorme, formou uma equipa muitíssimo competente e deixou também uma cultura de trabalho de excelência”, considera António Portela.
Em 1992, a BIAL criou o departamento de Investigação e Desenvolvimento. Havia que decidir quais as áreas com potencial para desbravar, e chegaram à conclusão de que o sistema nervoso central e as doenças cardiovasculares seriam campos com grande evolução. “Com o crescimento da esperança média de vida, as doenças degenerativas manifestam-se muito mais, daí a nossa aposta”, explica António Portela. A primeira área a produzir resultados científicos foi precisamente o antiepilético Zebinix, cuja molécula (o acetato de eslicarbazepina) foi sintetizada em 1993, com o medicamento a ser usado em situações de epilepsia refratárias a outras fórmulas – atualmente, não é só uma terapia adjuvante, desenvolveram também a monoterapia.
No presente, é a empresa portuguesa que mais investe em I&D. “Em média, temos investido cerca de 20% da faturação anual em I&D. Em 2023, o investimento foi de 58 milhões de euros”, adianta o CEO. O patamar está gradualmente mais alto. “É cada vez mais difícil fazer chegar novos medicamentos ao mercado. Enfrentamos períodos longos de desenvolvimento, com muitos falhanços pelo meio. Se um fármaco não traz valor acrescentado sobre o que já existe, não vale a pena estar a investir”, acrescenta. Não faltam, contudo, planos para o futuro, como já veremos.
Acompanhar a cadeia de valor
A entrada de Maria João Bonifácio para a BIAL, em 1996, coincidiu com a inauguração das novas instalações em S. Mamede do Coronado, Trofa. Bioquímica, estava a concluir o doutoramento – já tinha, inclusive, concorrido ao prémio BIAL – quando viu o anúncio no jornal e resolveu candidatar-se ao cargo no laboratório de investigação farmacológica. Numa altura em que a investigação quase se circunscrevia ao meio académico, a empresa empenhava-se em produzir tecnologias novas. “A I&D tinha começado há poucos anos, tínhamos um grupo pequenino e vim fazer a montagem de laboratórios em áreas que ainda não possuíamos, em Biologia Molecular e em Bioquímica”, recorda. Define o seu percurso na BIAL – que foi evoluindo, mais para a área de Farmacologia – como “oportunidade e desafio”. “Oportunidade de trabalhar numa área sobre a qual tinha pouco conhecimento e aprendi imenso. E desafio porque houve muita coisa nova, conseguimos superar imensas dificuldades”, sublinha a atual diretora da área de segurança pré-clínica.
O processo foi longo e complexo, mas “extremamente gratificante”, porque conseguiram “o inimaginável” para uma empresa portuguesa. “Um medicamento, desde a sua conceção, até chegar ao mercado, demora cerca de 12, 15 anos, há um investimento enorme da empresa até que potencialmente possa ter algum retorno, é uma indústria de alto risco”, indica Maria João Bonifácio. No Zebinix, por exemplo, foram €350 milhões de investimento, em 15 anos, sem ver retorno imediato.

Na BIAL, há uma característica particular que a torna apelativa para quem lá trabalha e ajuda a ultrapassar as incertezas e a desmotivação. “Não somos uma empresa gigantesca, tipo Pfizer, que funciona muito mais por blocos, onde as pessoas trabalham nesses blocos, veem as moléculas a entrar e sair, e não têm a noção se algum dia vão chegar ao mercado”, explica Maria João. “Considero-me uma pessoa muito afortunada, porque consegui estar a trabalhar precisamente no desenvolvimento e nos ensaios de avaliar as moléculas, e via também o que estava a acontecer nas outras áreas, em termos de metabolismo e de toxicologia, se estávamos a chegar às diferentes fases dos ensaios, se conseguíamos a aprovação da EMA e a da FDA… e isso dá uma satisfação incrível a quem faz investigação em empresas farmacêuticas. Não é muito vulgar.”
O facto de serem uma empresa de capital familiar também os ajudou a manter o rumo definido. “A vantagem de não sermos uma empresa de capital aberto, cotada na Bolsa, é que não temos de estar preocupados com a apresentação de resultados a cada trimestre e não temos essa pressão de distribuir dividendos aos acionistas, ou seja, podemos pensar mais a longo prazo. Se foi possível fazer este trabalho é porque estávamos disponíveis para investir, investir, investir… e colher os frutos mais lá para a frente”, afirma António Portela.
Abdicar do capital da empresa não é algo que esteja nos planos da família. Para acelerar o crescimento, “hoje estamos a tentar fomentar muito mais colaborações, quer com outras empresas farmacêuticas ou com a academia, em desenvolvimento de projetos, quer eventualmente com entidades financeiras”, aponta o CEO.
Diversificar as apostas
No futuro, há erros que não querem repetir. “A aprovação do Zebinix e do Ongentys foi um processo de aprendizagem absolutamente espetacular”, aponta António Portela. “Apesar das colaborações que fizemos, houve um investimento muito grande dos nossos recursos nesses dois fármacos”, recorda. A crise financeira e económica, a entrada da Troika no País, e a decisão do Ministério da Saúde de cortar em 30% o preço dos medicamentos implicou que, pouco tempo após ter assumido o cargo de presidente-executivo, em 2011, a empresa vivesse um dos seus períodos mais complicados – entre 2011 e 2014, faturaram menos 45 milhões. “A medida pôs em causa o nosso plano de desenvolvimento. Tivemos de cortar as coisas ao mínimo e, embora tivéssemos mantido esses dois fármacos, todos os outros que estavam em fases mais atrasadas ou incipientes ficaram para trás.”
Os mistérios da mente
Criada há 30 anos, a Fundação BIAL nasceu para promover a investigação em psicofisiologia e parapsicologia
Formado em Medicina, Luís Portela teve de abandonar a carreira académica e o sonho de fazer investigação para continuar o legado do pai e do avô na BIAL. Foi professor de Psicofisiologia, na Universidade do Porto, e sempre acreditou que a Ciência poderia ajudar a explicar os inúmeros mistérios da mente. Enquanto gestor, definitivamente arredado da investigação, resolveu criar, em 1984, o Prémio BIAL, para ajudar outros a desbravar a Ciência.
Em 1994, decidiu alargar a sua ação e, em conjunto com o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, criou a Fundação Bial. No programa de Apoios à Investigação Científica, que visa incentivar a investigação centrada sobre o ser humano, tanto do ponto de vista físico como espiritual – nomeadamente, nas áreas da Psicofisiologia e da Parapsicologia –, a Fundação já financiou um total de 865 projetos de 1702 investigadores, provenientes de 30 países. “O rigor científico é o método mais apropriado para tentar separar o trigo do joio”, afirmou Luís Portela, em entrevista à VISÃO.
Paralelamente, promove três prémios: o Prémio BIAL de Medicina Clínica (100 mil euros), com tema livre e dirigido à prática clínica; o BIAL Award in Biomedicine (300 mil euros); e, em parceria com a Ordem dos Médicos, o Prémio Maria de Sousa (150 mil euros), para apoiar jovens investigadores portugueses, até aos 35 anos, com projetos científicos na área das Ciências da Saúde. “Esta é a nossa grande aposta em termos de responsabilidade social e de fomento de uma cultura de investigação”, sublinha António Portela. A Fundação organiza ainda, bianualmente, os simpósios Aquém e Além do Cérebro. A 14ª edição, sob o tema da criatividade, decorre até 6 de abril, na Casa do Médico, no Porto, com neurocientistas, psicólogos, filósofos e artistas como conferencistas.
Hoje, não querem voltar a colocar todos os ovos no mesmo cesto. “Temos de gerir o nosso pipeline de maneira diferente e ter mais de uma ou duas moléculas a serem desenvolvidas, porque, se essas falharem – e muitas vezes falham, como aconteceu num projeto para a hipertensão arterial pulmonar, onde já tínhamos investido 90 milhões –, temos de ter outras opções”, defende António Portela.
Tiveram igualmente a exata noção do quão longo é todo este processo de desenvolvimento de um medicamento. “Tínhamos uma ideia um bocadinho naïve de que lançávamos o medicamento e pronto, depois era a parte comercial e médica que tinha de trabalhar. Não. O Zebinix já perdeu a patente na Europa [e, consequentemente, 40 milhões de euros na faturação], ainda temos a patente nos EUA, mas há coisas que continuamos a fazer, quer na parte de desenvolvimento farmacêutico quer na parte industrial”, esclarece o presidente-executivo.
Os segredos de um comprimido
Antes de qualquer pessoa entrar na fábrica da BIAL, tem de vestir bata e calçar proteção de pés, além de passar pela câmara de despoeiramento, para limpar partículas que tenha agarradas ao corpo. Os corredores brancos mantêm uma limpeza absoluta. Isolado numa sala da área de sólidos, dedicada à produção de comprimidos e cápsulas, encontramos Faustino Carvalho, à roda de uma máquina que prepara a mistura dos componentes e a sua compressão – curiosamente, a primeira com que aprendeu a trabalhar, “agora recauchutada”, quando ingressou na empresa, há 30 anos.
Em 2009, esteve envolvido nos primeiros lotes de validação do Zebinix, que comprovavam que o produto estava fixado e pronto para ser lançado no mercado. “Há uma pressão enorme quando estamos a lidar com lotes que valem milhões, se cometermos um erro, vai tudo para o lixo”, relembra Faustino. “Hoje, fazer Zebinix é como virar frangos, é normalíssimo, mas com um orgulho maior, porque é nosso.” O potencial de bem-estar e de cura que o medicamento vai trazer para alguém não é ignorado, mas “isto não deixa de ser uma fábrica, abstraímo-nos um pouco”, confessa o funcionário.
Durante 16 horas por dia, a laboração não para. “Só em 2023 produzimos 12,5 milhões de caixas, de várias fórmulas”, adianta Sérgio Sousa, engenheiro químico, um dos responsáveis pela produção. Há 17 anos nos quadros da BIAL, também ele assistiu ao lançamento do Zebinix e do Ongentys, que hoje representam sensivelmente metade do volume da produção – e igualmente da faturação. “Foi maravilhoso estar envolvido na criação daqueles fármacos. Na área de produção apanhamos a fase final, mas representamos a concretização de todos aqueles anos de investigação e temos a sorte de vê-los saírem para o mercado.”

A linha de produção é completamente automatizada, com a serialização de cada caixa (ou frasco, no caso do mercado norte-americano), e o controlo apertado da temperatura e da humidade das salas. “Os requisitos são exigentes e as autoridades regulamentares estão atentas a estes registos”, explica Sérgio Sousa. Neste momento, aguardam a aprovação da FDA para que a nova fábrica de antibióticos, inaugurada em 2022 – 30 milhões de investimento, e que implicou também a duplicação da capacidade industrial –, possa produzir diretamente para os EUA, a partir de maio.
A expectativa quanto a este ganho de autonomia (e correspondente redução de custos) é enorme. O guião da mais que provável visita da FDA às instalações já está meticulosamente preparado. “É todo um espetáculo, com cerca de 30 a 40 pessoas nos bastidores, cada uma com uma função específica, a verificar todos os passos”, conta Teófilo Vasconcelos, responsável pelo laboratório de ciências farmacêuticas, em direta articulação com a parte industrial.
Anteriormente, a produção para o mercado norte-americano era feita no Canadá. “Nós sabíamos que internamente tínhamos as competências e os equipamentos para produzir em Portugal para todo o mundo. Mas, no início, não quisemos correr riscos”, explica Teófilo, que entrou para a BIAL em 2002, mal terminou o curso de Farmácia. Recorda com entusiasmo o processo da formulação comercial do Zebinix e do Ongentys, que acompanhou de perto. “A dosagem da substância ativa do Zebinix é muito grande, por isso tentamos reduzir ao máximo todos os outros componentes e o comprimido funcionou muito bem.” Quando avançaram com a primeira industrialização, enviaram antecipadamente para o Canadá dois milhões de euros de substância ativa. “Podiam ter ido dois milhões pela janela fora, mas conseguimos à primeira, só fizemos um pequeno ajuste”, conta. Um pormenor que “caracteriza um bocadinho o sucesso da BIAL: com pouco, temos conseguido fazer muito.”
Planos para o futuro
A faturação da BIAL em 2023 foi de €340 milhões – mais 6% do que em 2022 –, sendo que 75% veio dos mercados internacionais. Atualmente, os medicamentos são vendidos em 50 países. “O modelo de internacionalização da BIAL assenta no desenvolvimento orgânico de operações locais no exterior; temos filiais na Europa (Espanha, Alemanha, Reino Unido, Itália e Suíça) nos EUA e também em Angola, Costa do Marfim, Moçambique e Panamá.” Nos principais mercados globais, como é o caso do Japão ou da Austrália (e futuramente, na China), optaram por parcerias. Hoje, o trabalho do laboratório farmacêutico é reconhecido internacionalmente, nomeadamente ao nível das neurociências. “Qualquer neurologista na Europa confia na BIAL, sabe quais os produtos que nós temos e os projetos que estamos a desenvolver, até porque alguns participam em ensaios clínicos nossos”, adianta o presidente-executivo.
Empregam cerca de 800 colaboradores – 84% são licenciados e 11% doutorados –, 130 dos quais na área de I&D, de 14 nacionalidades diferentes, fruto dessa projeção além-fronteiras. “Temos conseguido atrair muita gente, não só para a investigação mas também para outras áreas, comercial, médica… há muitas poucas empresas europeias que são capazes de lançar novos medicamentos. O facto de termos dois no mercado é um cartão de visita fantástico”, sustenta António Portela.
Com esses dois medicamentos, os resultados da empresa triplicaram em dez anos, dando uma margem confortável para investir. Desde logo, tanto o Zebinix como o Ongentys, como já foi referido, continuaram a ter desenvolvimentos, com ensaios clínicos ainda a decorrer. E há novos medicamentos para o Parkinson no pipeline. “Todos os medicamentos que existem hoje para a doença de Parkinson só tratam os sintomas, permitem às pessoas viver melhor com a doença, mas não tratam a causa ou revertem o seu curso. Por isso, estamos agora a trabalhar em medicamentos que possam ser modificadores da doença, algo que nunca foi feito”, adianta o presidente-executivo da BIAL.

Em 2020, quando compraram a Lysosomal Therapeutics em Boston, nos EUA (um investimento de 130 milhões de dólares), adquiriram os direitos mundiais dos programas de investigação na doença de Parkinson feitos por esta startup, focados no desenvolvimento de terapias para mutações genéticas associadas a esta patologia neurodegenerativa – mais precisamente, uma variante no gene GBA-1, encontrada em 10% a 15% desta população, associada a um desenvolvimento mais precoce e uma progressão mais rápida da doença. Naquela que é agora a BIAL Biotech Investments Inc., esperam vir a desenvolver uma molécula (por enquanto, com o código ‘BIA 28-6156/LTI-291’) com um mecanismo de ação inovador. “O projeto é muito atrativo, mas também acarreta muitos riscos. Está na fase 2 de ensaios clínicos e prevemos que só no final desta década possa ser lançado comercialmente.”
Áreas como a das doenças cardiovasculares foram abandonadas, por falta de resultados, e substituídas por outras. Mais recentemente, começaram a dedicar-se às doenças raras. Apesar da denominação, “há cerca de 11 mil doenças raras que estão identificadas, afetam cerca de 300 milhões de pessoas, e só há tratamentos para cerca de 5%”, refere António Portela. Algumas delas, na área do sistema nervoso central – nomeadamente, epilepsias. “Pelo conhecimento que fomos adquirindo, e também pelas pessoas que temos hoje na organização, há uma série de doenças raras em que temos competências internas para conseguir trabalhar”, concluíram.
Os projetos ainda estão numa fase embrionária, mas Maria João Bonifácio está entusiasmada com estas novas modalidades de investigação. “Estamos a falar de terapias génicas, focadas em mutações específicas no ADN. Se conseguirmos alterar ou adicionar um gene que modifique essa mutação, conseguimos curar”, explica. Afinal, “falamos agora do centenário da BIAL, mas o futuro é promissor.” Assim o esperamos, a bem da Ciência.
“Quando estava na escola, não tinha grande aptidão para a Ciência”
António Portela, bisneto do fundador da BIAL, assumiu o cargo de presidente-executivo em 2011, quando tinha 35 anos. Trabalhou em Londres, na concorrência, onde percebeu o impacto que a indústria farmacêutica podia ter na vida das pessoas

O seu pai começou por seguir uma carreira na Medicina que, após a morte prematura do seu avô, resolveu abandonar, para tomar as rédeas da empresa. No seu caso, foi sendo preparado para assumir os comandos da BIAL?
Não. Obviamente, cresci com a empresa, o meu pai trazia-me diversas vezes e, no verão, quando já era adolescente, de quando em quando vinha durante as manhãs, mais para o departamento industrial, para a tipografia – na altura, ainda fazíamos cá as embalagens e os folhetos – e para o armazém. Fui aprendendo e vendo como é que se fazia o negócio. Mas, quer o meu pai quer a minha mãe (que é farmacêutica), sempre nos deram, a mim e aos meus dois irmãos (eu sou o mais velho), liberdade de escolher aquilo que queríamos fazer, e eles procuraram ajudar-nos nessa escolha. Sentia que o meu pai gostaria que algum dos filhos pudesse seguir este caminho, mas sempre nos ia dizendo que não havia necessidade de isso acontecer, tinha de ser uma coisa natural. Curiosamente, os três sentíamos muita facilidade na Matemática. Eu e o meu irmão mais novo fomos para Economia e a minha irmã seguiu Matemática e hoje é professora.
Teve, primeiro, uma experiência no estrangeiro…
Quando acabei o curso, não quis ficar na BIAL. Primeiro, porque não sabia se gostava, realmente, desta área dos medicamentos e, depois, não queria trabalhar na empresa do meu pai. Acabei por ir para Londres, trabalhar noutra empresa farmacêutica, na Roche, e tive a possibilidade de ter essa experiência de trabalhar fora, numa empresa multinacional. Permitiu-me conhecer o negócio farmacêutico. A Roche estava a lançar uma série de produtos que tive a oportunidade de acompanhar, com um impacto enorme na vida das pessoas. E isso deixou-me muito entusiasmado: percebi que não necessitava de estar no laboratório, não precisava de saber de Ciência, mas podia dar o meu contributo. Pensei ficar um ou dois anos, e acabei por ficar quatro.
Tinha sempre em mente voltar e ingressar na BIAL?
A experiência era para perceber se gostava desta área, da indústria farmacêutica. Obviamente, se gostasse, fazia sentido voltar e trabalhar no negócio da família. O meu irmão também começou a trabalhar na empresa. Provavelmente, se não existisse a BIAL, talvez não tivesse voltado, porque gostava imenso do que estava a fazer. Mas tinha de dar seguimento a uma herança.
A BIAL estava a fazer um percurso muito interessante, imagino que também fosse aliciante estar envolvido…
Sim, nessa fase, quando voltei para Portugal, estávamos a fazer já a parte de Investigação e Desenvolvimento (I&D), não tínhamos feito nenhum produto chegar ao mercado, isso aconteceu uns cinco ou seis anos depois de ter voltado. Éramos uma empresa que operava fundamentalmente em Portugal, onde as coisas corriam muito bem. No final dos anos 90, começámos a fazer pequenas incursões em alguns países, a maior foi comprar uma empresa em Espanha. Estávamos a dar os primeiros passos em termos de internacionalização e o projeto era aliciante.
O seu pai abandonou as funções executivas aos 59 anos, relativamente cedo. Foi algo para o qual foi preparando os filhos?
O meu pai sempre teve uma postura muito coerente e muito aberta, quer connosco quer com o resto da organização. Sempre disse que não queria fazer 60 anos na presidência executiva da empresa. Quando o tempo se começou a aproximar, ele realmente preparou a transição. Era uma visão muito correta, porque lhe permitiu sair, mas ficar a acompanhar, quando ainda estava muito bem e capaz de ajudar a equipa de gestão a crescer e a desenvolver-se.
Foi o escolhido para o suceder. Sentiu a pressão?
Era muito jovem, quando assumi a presidência, tinha 35 anos. Claro que pensava no meu pai, que começou, quando tinha 27, de repente, sem ter formação em Economia, e sem ter esta equipa. Há uma série de coisas que são palpáveis e notáveis naquilo que ele construiu, mas o grande legado foi a equipa que conseguiu formar. No meu caso, só conhecia a área comercial, não fiz nenhuma das outras áreas da empresa. Tinha noção de que, para mim, era um salto enorme. O grande investimento que fiz na altura foi na área de I&D. Perguntei, chateei, insisti, até para perceber quais eram os caminhos, o que estávamos a fazer, porque escolhíamos determinadas coisas e não outras.
O seu pai afirmou ter sido um gestor-aprendiz. No seu caso, sente-se um bocadinho um cientista-aprendiz?
Sinto. É curioso, porque, quando andava na escola, não tinha grande aptidão para a Ciência. E hoje dou por mim a ler muitas coisas e a aprender sobre Ciência. Quanto mais o tempo passa, mais gosto da Ciência e mais tenho vontade de aprender. Recentemente, fizemos uma reformulação, deixando cair a área cardiovascular, na qual nunca tivemos grande êxito, e passámos a trabalhar na área das doenças raras. Isso também me obrigou a aprender uma série de coisas novas. Hoje, brincam comigo e dizem que há muita coisa que realmente já domino, pelos anos e pela aprendizagem que tive.