Basta comparar a resposta das políticas públicas e do Estado durante a pandemia com o padrão de desvalorização de riscos, de enfraquecimento da autoridade de Estado e de atabalhoada resposta perante situações imprevistas por parte de Luís Montenegro e do seu Governo para percebermos que Portugal e os portugueses estão numa situação de alto risco sempre que acontecimentos imprevistos ocorram.
Infelizmente, os casos recorrentes demonstram que não estamos perante um acaso mas sim perante um padrão de comportamento.
Logo em 2024, na voragem das inesperadas eleições, o planeamento da época de incêndios desprezou a necessidade de fazer antecipados avisos sobre a limpeza dos terrenos em volta das casas e das aldeias, o ICNF foi retalhado entre os ministérios do Ambiente e da Agricultura e a prevenção de riscos deixou de ser prioridade em que o primeiro-ministro dava a cara e os ministros o exemplo do empenho político. As coisas já não correram bem, tendo sido superada a área ardida dos últimos anos ainda que com os maiores incêndios só em setembro. Luís Montenegro face à descoordenação na resposta lançou uma teoria da conspiração alarmista sobre uma rede de incendiários de natureza terrorista sobre a qual cairia mão pesada. A demagogia ficou esquecida com as primeiras chuvas, a lei não mudou e os incendiários não apareceram.
Em 2025, já a liderança da ANEPC, que desde 2017 fora exercida por dois oficiais-generais, tinha sido substituída pela gestão ligada ao modelo dos tempos de Passos Coelho, acompanhada por vários dirigentes locais do PSD. O contributo resultante da liderança do sistema pela Proteção Civil foi desvalorizado, o contributo científico da AGIF foi praticamente anulado e a prioridade passou a ser a exigência corporativa de regresso ao modelo de organização distrital, sem qualquer sentido desde que o governo de Passos Coelho extinguiu os Governos Civis.
O abandono da Estratégia de Proteção Civil Preventiva foi total e nunca mais se ouviu falar em exercícios de evacuação de populações, no programa “Aldeia Segura, Pessoas Seguras”, no apelo à limpeza da floresta ou na criação de novas faixas de proteção. Tudo correu ainda pior e o Governo nem percebeu, de tal forma que manteve a festa do Pontal em estilo de campanha de verão enquanto o País estava a arder. O resultado foi o pior ano de incêndios desde 2017, sem qualquer apuramento, até agora, do que correu muito mal.
O apagão de 28 de abril era imprevisível mas novamente a resposta do Governo foi puramente política, centrada em Montenegro e no ministro da propaganda, impedindo a Proteção Civil de liderar a resposta imediata, informando e apoiando as populações, para além de ignorar a existência do MAI a quem cabe liderar a resposta civil em situações excecionais.
Perante tudo isto, o que está a acontecer desde quarta-feira com o impacto da depressão Kristin já parece uma trágica normalidade. Face aos avisos de ventos até 180 km/hora que o IPMA tinha anunciado já na segunda-feira, o Governo nada fez, a Proteção Civil não teve a autoridade para liderar uma resposta preventiva musculada e com alta visibilidade e não foi feita sequer a declaração do Estado de Alerta nas regiões por onde a depressão iria entrar no território do continente como fora feito em 2018 aquando do ciclone Leslie.
Pior ainda foi que, sendo os estragos conhecidos desde a manhã de dia 28 e denunciados pelos autarcas com o destaque patriótico do presidente Gonçalo Lopes de Leiria (edifícios destruídos, vidas perdidas e dezenas de municípios sem energia elétrica nem abastecimento de água), só ao fim de 24 horas de resistência à evidência Luís Montenegro tenha acedido aos pedidos de declaração do Estado de Calamidade.
A grande preocupação do Governo foi produzir vídeos de propaganda ou encenar formaturas militares para Nuno Melo, sem mobilizar os meios necessários para o apoio imediato às populações, como geradores ou bombas de água ou questionar as concessionárias da rede elétrica ou as operadoras de telecomunicações sobre quais os motivos porque ao fim de seis dias os serviços continuam inativos para centenas de milhares de cidadãos.
Perante a catastrófica gestão política de uma emergência sem comando operacional chega agora a fase longa das medidas de apoio e de reconstrução, genericamente benévolas, mas que correm o risco de serem esquecidas quando a próxima crise chegar.
A única boa notícia, apesar de não se conhecerem os poderes efetivos nem os meios com que vai contar, é a designação para a liderança da equipa de missão que vai coordenar os apoios de Paulo Fernandes, magnifico ex-presidente da Câmara do Fundão que as tricas partidárias do PSD afastaram da candidatura a presidente da CCDR Centro.
Os próximos dias vão ser ainda muito difíceis e até agora só os autarcas e as estruturas locais de proteção civil mostraram eficácia, espírito de solidariedade e capacidade para tentar preencher o vazio de um Governo perdido num vendaval de propaganda, sem coordenação política operacional, que desconsiderou o papel de liderança na resposta que cabe à Proteção Civil e ignorou a capacidade logística das Forças Armadas.
Não estamos perante mais um passo em falso mas sim perante um padrão de comportamento de um Governo que está ausente quando o Estado mais faz falta aos cidadãos, pelo que o prémio Laranja muito Amarga da semana vai para o timoneiro da governação encharcada de incompetência, Luís Montenegro.
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