Seguimos, há poucas horas, o que os mais otimistas já sabiam, e os pessimistas desejavam: todos os votos da esquerda, a que somaram os dos centros, e muitos da direita democrática, convergiram para a candidatura de António José Seguro.
O que vimos nas últimas três semanas, após a primeira volta desta eleição presidencial, com líderes partidários de quase todo o espectro, assim como dos candidatos presidenciais derrotados, a darem o seu apoio a Seguro, não é uma simples fuga a um mal menor, como muitos preferiram interpretar.
Esse largo apoio, que Ventura tentou capitalizar afirmando que todo o sistema estava contra si, não é apenas conseguido através da grande rejeição que o líder do Chega tem na maioria da população. Seguro não é esse mal menor, a única solução possível; nem é aquele que teve a sorte de passar a uma segunda volta quando todos sabiam que quem o conseguisse, conseguiria obter a vitória.
Não. É claro que também é isso, mas é muito mais. O resultado conseguido não é apenas a soma de parte de eleitorados da primeira volta, unidos contra um adversário comum. Este adversário comum, é-o porque o que une todos, e os contrasta com Ventura, é o posicionamento face ao regime: estabilidade e aprofundamento da Democracia, mais exigente, contra uma rutura de regime, com uma postura agreste e virulenta, criadora de feridas na sociedade.
Aliás, os laivos e tiques que nos mostram um desejo de poder autocrático, integrado no mesmo movimento que grassa um pouco por toda a Europa e muito devedor de Trump, foram um dos pontos mais fortes desta eleição, através de uma tomada de consciência cidadã, da esquerda à direita. Todos, no espectro democrático, se encontraram em Seguro como a imagem do diálogo, da ponderação e do equilíbrio, por oposição ao que Ventura representa e à forma como atua.
Esta eleição não foi pela Presidência da República, mas pela posição face à política, mais que ao regime. Ventura afirmou que todo o sistema estava contra si, mas não, não foi isso que se passou: o líder do Chega conseguiu uma quase unanimidade dos democratas contra o que ele representa. Em Seguro encontraram-se os democratas, aqueles que têm como denominador comum o livre pensamento, a afirmação da diferença, e o encontro no que diverge.
Não foi uma eleição presidência, mas um referendo à Democracia. E o vencedor foi claro!
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.