
Quando estacionei pela primeira vez na marginal, fui literalmente rodeada pelos vizinhos da banda. Cerca de vinte rapazes atropelavam-se nas palavras e nos gestos para pedir uns trocos, enquanto ofereciam lavagem de carro ao melhor preço. Admito que na hora de escolher o futuro provedor semanal de lavagens de automóvel, influenciou o nível de olhos vidrados dos interlocutores, o comprimento das frases terminadas e a forma como se entrelaçavam. Passei a ser a madrinha do Celestino, rapaz de poucas e sóbrias palavras, que uma vez por semana, a troco de 1000 kwanzas (oficialmente quatro euros mas menos de dois euros no câmbio de rua), lavava o carro com água tirada às escondidas de torneiras do quarteirão.
O Celestino é de facto especial. Não se perdeu nas ruas e nos vícios e finalmente conseguiu trabalho com papel passado num dos prédios da marginal. Todos os dias, passa pelo estacionamento para cumprimentar os ex-companheiros e segue, sem atrasos, ajeitando o casaco e a mini gravata emprestados por algum primo, para o nobre emprego de manutenção do número 86. Para orgulho dos rapazes, e meu.
Hamilton. Foi o meu segundo escolhido. Educado, não deixa os outros aproximarem-se quando, ao final do dia, já estão todos perdidos no álcool marado e nas coisas que snifam e fumam, “Madrinha, eu nunca me meto nessas drogas. A sério. Só às sextas e aos sábados.” Certo.
O Cabeção (o nome faz jus ao corpo), está sempre na área. Às 7 e 15 da manhã, quando me sento ao volante para arrancar, aproxima-se para desempenhar com brio o seu papel de sinaleiro de marcha à ré (mesmo que a essa hora o estacionamento ainda está a um terço de gás). Às 7 e 30 da noite, quando regresso, corre ao meu encontro para perguntar como foi o dia do trabalho. Nunca se queixava nem pedia nada. Até ao dia em que lhe dei uma lata de grão-de-bico. Mal nos voltámos a ver, correu com toda a força ao meu encontro, como se estivesse a bater o recorde da marginal. “Mãe-grande! Gosto tanto de grão-de-bico!!!”, gritou, enquanto abria aquele sorriso de orelha a orelha. Também eu, pensei, mas dá-me cabo dos intestinos.
A partir desse momento, eu e o Cabeção estabelecemos um acordo sem palavras: quando trago lanche para os rapazes da rua ele não se precipita, ajuda a evitar desavenças e a garantir que ninguém é excluído. Depois, sai de cena e vem para junto do meu carro, onde lhe passo às escondidas a mercadoria: uma lata de grão-de-bico. Está viciado. E eu com inveja por me cair tão mal.
O Cabeção apareceu um dia com um olho inchado, a ocupar metade da cara. Perguntei-lhe e respondeu que tinha acordado assim. Fingi acreditar. Deve ter sido o mesmo sono que provocou um queixo partido e o lábio inferior cinco vezes maior ao Anjo Negro, um dos poucos rapazes que vive literalmente na marginal. Dorme todos os dias no chão, por baixo das arcadas da avenida.
Como o olho do Cabeção nunca mais ia ao sítio, pedi-lhe que me acompanhasse à farmácia. Ficou nervoso e arrastou os passos quando nos aproximámos do segurança armado à porta. Desenrolou as calças de fato de treino, ajeitou os dedos dos pés nas chinelas moda de mulher e tirou o boné ao entrar. Ficou atrás de mim, de cabeça para baixo, enquanto eu explicava o caso ao farmacêutico. Cabeção foi obrigado a levantar a cabeça para mostrar o estrago. O farmacêutico quis saber donde tinha nascido tamanho papo. Confessou: “brigámos na rua, eu entrei para separar e deu nisto.” E baixou a cabeça. Anti-inflamatório foi o veredicto, três vezes ao dia. Paguei, virei-me para trás e vi uma lágrima a cair da cara do Cabeção. “Não sei como posso pagar-lhe isto. Nunca ninguém fez nada por mim”, disse a fixar o chão. Para desviar o assunto, só me saiu isto: “Têm que parar de brigar e de tomar aquelas coisas. Vocês à noite ficam possuídos, homem!” E lá segui à frente para disfarçar o meu mau jeito.

Bem dito anti-inflamatório. O olho e a cara voltaram ao sítio. Mas dentro, sangue cada vez mais vermelho, rodeou-lhe a pupila. Voltámos à farmácia. Ele voltou a ajeitar a roupa para entrar, a baixar a cabeça, as lágrimas caíram de novo, desta vez sem medo nem vergonha, para meu desconforto. Saímos de lá com umas gotas que na verdade não serviam para nada, como disse o farmacêutico, mas pensei que pelo menos podiam ter um efeito psicológico.
Como o vermelhão não saía do olho do Cabeção, recorri a um amigo dotado das coisas dos olhos. Mandou-me fotografar o olho e enviar-lhe. Sob a observação e auxílio dos guardas dos prédios da marginal, às oito da noite, posicionámos o Cabeção debaixo dos candeeiros da rua, cabeça para cima (como sempre deveria estar) e lá seguiu a foto no email. A resposta do amigo foi positiva e animou toda a rua: mais duas semanas e isso passa sem maleitas para a visão do Cabeção.
Mais ou menos pela mesma altura, Zé Tó chama-me: “Brasileira, brasileira!”, forma como também sou conhecida no bairro (razões que desconheço). Numa conversa já enrolada pelos vícios, começa a explicar por gestos e por meias palavras de umas dores, e que nem consegue baixar-se, enquanto vai apontando para o meio do corpo. Não sei se é bem aquilo, mas arrisco: “Mas sente ardor?”. “Sim, Dra., ao mijar sinto ardor. E às vezes deita pus. Desculpe, Dra.” (e fez cara de vergonha pelos pormenores tão visuais). Fiz-me de forte e entendida e determinei: “Vamos à farmácia comprar anti-inflamatório!
No final, em jeito maternalista, aconselhei: “Vocês têm que ter cuidado e fazer sexo seguro.” “Oh madrinha, mas as duas moças eram simpáticas e tinham bom ar”, lamentou. Certo.
[entretanto, já voltei à farmácia para curar um joelho inchado e esfolado que estava a provocar febres ao Nelito, e decidi comprar um carregamento extra de anti-inflamatórios para ter em casa de reserva para os meus rapazes]
Fui de férias a pensar no olho do Cabeção e se o vermelhão iria sair. No dia em que saí de mala para o aeroporto, ele e o Anjo Negro correram (cada vez correm mais rápido), apontaram para os respectivos pés e exclamaram em coro: 41!
Regressei de férias e o Cabeção correu. Trouxe-lhe umas sapatilhas 41 e voltou feliz para o seu posto, depois de me perguntar como estava a família. O olho já estava bom.
Neste regresso e início de ano, a minha estadia na marginal nem durou 24 horas. Fui logo chamada para a província do Uíge, no norte de Angola, para ajudar na resposta ao surto de cólera que já matou 10 pessoas e fez mais de 400 vítimas.
Regressei a Luanda passadas duas semanas. Quando voltei a ver o Cabeção, ele veio com uma corrida torta e descalço. Pergunto-lhe pelos ténis e diz que afinal não serviam, estavam grandes. Aponta para o pé, quase tropeça. Pergunto-lhe quanto calça e ele responde-me 32, enquanto volta a tropeçar no corpo. Quero fechar a porta do carro, e enrola-se a pedir algo, enquanto faz força para que não a feche. Cabeção esteve nos vícios e já não sabe a quantas anda. E eu, amanhã, tenho que voltar ao Uíge. Mais um morto de cólera, depois de 15 dias de tréguas.