Tenta nunca repetir-se, ser sempre o mesmo de formas muito diversas. Na poesia, na prosa, no ensaio, os livros de Pedro Eiras são uma constante surpresa, substâncias perigosas (expressão que chegou a usar no título de um deles) que cativam e inebriam. Agora, o prof. de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 39 anos, arriscou uma “impossível” aproximação à obra de Bach, com 14 retratos de personalidades que travaram igual combate com o grande génio da música clássica. Um livro “bem temperado” para ler enquanto se ouve uma cantata ou uma fuga.
JL: No início destes textos, esteve a música de Bach?Pedro Eiras: Sim, cada capítulo parte de uma obra de Bach específica, mas também de uma pessoa real: um organista, um filósofo, uma mulher enviada para um campo de concentração… Parte dos modos como outras pessoas ouviram Bach, do que esta música significou para elas. São 14 retratos imaginários do compositor, às vezes contraditórios.
Que relação podemos estabelecer entre os textos e as obras de Bach indicadas?Tentei compreender que género de texto pedia cada obra, que problemas lançava: como compreender a ordem, a desordem, a fragilidade, o cânone. Mas também o contrário: coloco questões a mim mesmo sobre a alegria, o sofrimento, a morte, e tento compreendê-las através das obras de Bach. E depois já não sei bem onde estão as perguntas e as respostas, o que vem de mim e o que vem da música.
E podemos estabelecer um fio condutor entre os capítulos? Sim: muitos fios. Há a música de Bach. Há as vidas de 14 pessoas, que me fascinam e me perturbam. Mas também as várias linhas melódicas que atravessam o livro capítulo a capítulo… O primeiro capítulo é uma carta de Anna Magdalena Bach; no segundo comento um livro de Esther Meynell sobre Anna Magdalena; no terceiro Jean-Marie Straub e Danièle Huillet montam um filme sobre Bach e falam de Esther Meynell; no quarto o protagonista do filme, Gustav Leonhardt, escreve uma carta ao seu amigo Nikolaus Harnoncourt… Ou então, um capítulo lança uma pergunta – sobre estética, sobre ética – a que outro capítulo responderá, mais tarde. Fui sentindo a tessitura de todas essas linhas, ora visíveis, ora escondidas. E Bach atravessa todo o livro: aquele Bach sempre diferente, que cada um deseja e imagina.
Um dos textos, inspirado na cantata “Ich Habe Genug“, não tem palavras, só páginas em branco. É impossível escrever sobre a música de Bach, como se diz no último capítulo? De certo modo, é. Não queria escrever uma biografia, datas, factos. Muito menos um tratado musicológico; nem sequer saberia fazê-lo. Queria escrever sobre música, e como se escreve sobre música, sobre aquilo que acontece em mim quando ouço Bach? As páginas em branco dizem essa impossibilidade. Por outro lado, há as linhas melódicas do livro, o diálogo entre os capítulos; e um capítulo em branco é também a resposta ao capítulo anterior, o monólogo de Etty Hillesum, num vagão fechado, a caminho dos campos de concentração. Depois daquele monólogo, no silêncio, o que poderia eu escrever? O vazio do capítulo 12 responde à dor no capítulo 11. E sobre esse vazio suspende-se a cantata Ich habe genug…