Mário Rui Valente Machado era um adolescente de apenas 15 anos, quando ingressou, por convicção, no seu primeiro grupo de skinheads. No verão seguinte, a paixão pelo desenho levou-o a inscrever-se na Escola Artística António Arroio, pensando poder ali completar o 10.º e o 11.º anos no curso de Arte e Design. A realidade que encontrou, fez o militante de extrema-direita sentir-se deslocado, manifestando repulsa pelo que descreveu como os “valores mais liberais” daquela instituição – conhecida pelo caldo de cultura mais à esquerda –, fazendo com que entrasse rapidamente em conflito aberto com professores e outros colegas.
Este e outros episódios da vida do mais conhecido dirigente do movimento nacionalista português constam do Relatório Social para Determinação da Sanção, a que o arguido Mário Machado, 47 anos, foi submetido antes de conhecer a última condenação em tribunal: dois anos e dez meses de prisão efetiva por incitamento ao ódio e à violência contra mulheres de esquerda (identificando em particular Renata Cambra, antiga líder do Movimento Alternativa Socialista), em publicações nas redes sociais.
Mais de trinta anos depois, o lápis de desenho ficou para trás, e Mário Machado continua de megafone, em punho, à cabeça do Grupo 1143, um novo projeto de ódio, que parece continuar a aproveitar um aparente entusiasmo.

De entre milhares de contas anónimas, rostos cobertos e comentários cáusticos, nas redes sociais, um grupo de, pelo menos, 200 pessoas, mostra-se orgulhoso, no papel de combatentes de um exército que reclama uma “reconquista” para Portugal. Do teclado, passaram para as ruas, promovendo marchas que já percorreram as principais artérias de Lisboa e do Porto. A maioria são homens jovens, mas também há mulheres. E crianças, levadas pela mão dos adultos. Alguns, são velhos conhecidos destas andanças, que posam em piqueniques, passeios pelo parque, idas à praia, em fotografias em que nunca falta, pelo menos, uma saudação nazi.
Depois de pensar em desistir diversas vezes, desiludido com as rivalidades e dissidências no seio do que chama de “movimento nacionalista”, como partilhou nas suas redes sociais, Mário Machado, que entrou no radar das autoridades com apenas 18 anos, regressa à mesma “luta”, provando que os dez anos na cadeia não lhe mudaram as opiniões ou o comportamento; não se arrepende nem se reabilita. E, aos 47 anos, continua a reclamar impunemente a liderança da extrema-direita em Portugal.
Uma vida radical
Ansioso para o dia de jogo do Sporting, habitou-se a ir ao antigo Estádio José de Alvalade na companhia do pai e do avô, mas assim que completara 13 anos, o adolescente de “personalidade forte e independente”, como se autodescreveu às técnicas da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) que elaboraram o seu relatório social, passou a ir sozinho para as bancadas, misturar-se com a Juventude Leonina, lado a lado com skinheads, por quem desenvolvera “um sentimento de simpatia”, por considerar serem “os líderes da claque” e revelarem uma “postura de poder e força”. Com o convívio, começou a identificar-se cada vez mais com o que ia ouvindo deles, até que o “fervor patriótico” que já sentia “passou a nacionalismo”. Numa reportagem, chegou a confessar ter tido como “grandes influências” um skinhead, seis anos mais velho, e uma skingirl, de quem ainda é amigo. Foram eles, aliás, que o levaram a inscrever-se na Frente de Defesa Nacional, grupo que, no início da década de 1990, se mantinha na sombra do mais visível Movimento de Acção Nacional (MAN), então considerado o principal movimento de extrema-direita no País. Mário Machado tinha apenas 15 anos, mas o seu destino já estava traçado, e nunca mais conheceu desvios.
O mais conhecido neonazi português nasceu em agosto de 1976, na freguesia de Campo Grande, em Lisboa, filho único de um casal de comerciantes de classe média. Às técnicas da DGRSP, a sua mãe recorda-o como “uma criança inteligente”, que teve um desenvolvimento “normal”, ao ponto de, para a família, a sua associação à extrema-direita portuguesa ter suscitado “surpresa”, tendo em conta que a sua educação respeitou “princípios humanistas e democráticos”. Descrito como um “jovem afetivo” e “responsável”, a radicalização fê-lo mudar.

Esse ponto de viragem teve reflexos no percurso escolar, com Machado a chumbar no 7.º ano. No relatório, justifica o percalço com “a adaptação a uma nova escola” e alguma “desmotivação pelas atividades escolares”, mas as alterações de personalidade davam-se silenciosamente, já revelando, a quem o rodeava, sentimentos discriminatórios e intolerantes.
A passagem pela Escola Artística António Arroio, como já referido, foi fugaz. Aos 15 anos, Machado não convivia pacificamente com os “valores mais liberais” daquela instituição. Abandonou a escola em “colisão”, sem nunca ter completado o 11.º ano de escolaridade.
A prioridade era agora outra, e passou a dedicar-se a outra “missão”. Com 17 anos, entrou numa loja, no Bairro Alto, para fazer a sua primeira tatuagem: escreveu skin na parte de dentro do lábio inferior, assumindo, com aquela ideologia, uma espécie de compromisso para vida.
Ainda menor, pensava, acima de tudo, em “defender a pátria”, o que o levou a falsificar a assinatura dos pais para se poder oferecer como voluntário na Força Aérea. A perspetiva era seguir uma carreira militar e, posteriormente, frequentar o curso de sargentos. Com 18 anos, Machado tinha completado a recruta na Ota e era treinador de cães-polícia na Polícia Aérea. Com a patente de cabo especialista, sonhava tornar-se polícia ou militar, mas a noite de 10 para 11 de junho de 1995 mudaria tudo.
Proibido na Constituição
No artigo 46.º, a Constituição da República Portuguesa estipula que não são consentidas “organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista”. São, pois, proibidas as organizações de extrema-direita. Porquê estas e não as de extrema-esquerda? Por duas razões. A primeira, de carácter interno: Portugal sofreu 48 anos sob uma ditadura de direita, sendo a Constituição de 1976 fruto da revolução que derrubou essa estrutura repressiva. A segunda é de carácter geral: os fascismos espalharam o terror na Europa, arrastando o mundo para a II Guerra Mundial. Depois de derrotados, viram o seu banimento consignado na lei da maioria dos países.
O “seu” Sporting vencera nessa tarde a Taça de Portugal (2-0 ao Marítimo, com golos do búlgaro Yordanov), 13 anos depois. E, como todos os anos nesta data, os skinheads juntavam-se para celebrar o “Dia da Raça”. Mário Machado e a então namorada (que viria a ser a sua primeira mulher) estavam sentados à mesa. Sentia-se em casa. Ainda hoje, a cada 10 de junho, Machado publica, nas redes sociais, uma fotografia daquela noite, em que surge, franzino, vestido com suspensórios, tendo os colegas e uma bandeira de Portugal como pano de fundo.
O que se seguiu é conhecido. Acabado o convívio, o grupo varreu o Bairro Alto e o Chiado, agredindo todas as pessoas negras com quem se cruzou. Dez pessoas, pelo menos, ficaram feridas com gravidade, dando entrada nas urgências no Hospital de São José. Alcindo Monteiro foi a 11.ª vítima – cercado e espancado pelo grupo, em pleno Chiado, o luso-cabo-verdiano não resistiria aos ferimentos, falecendo ainda nessa madrugada. Horas depois dos acontecimentos, Machado seria detido no Cais do Sodré. No julgamento, escapou às acusações de homicídio, mas acabou condenado a dois anos e seis meses por oito agressões violentas. Vestir uma farda passava a ser impossível.
O passado repete-se?
A história de violência da extrema-direita portuguesa tem muitos capítulos. No próximo mês de outubro, passam 35 anos desde que José Carvalho, conhecido como Zé da Messa, militante do PSR, foi assassinado à facada por um skinhead, à porta da sede do partido, na Rua da Palma, em Lisboa, hoje casa do Bloco de Esquerda. A morte do luso-cabo-verdiano Alcindo Monteiro fez, este ano, 29. No próximo mês de setembro, cumprem-se nove anos desde que mais de duas dezenas de cabeças rapadas cercaram e agrediram quatro militantes do PCP, à saída de um comício da CDU, realizado no Coliseu de Lisboa, provocando um ferido grave. No início deste mês, assinalaram-se dois meses da noite em que um grupo com uma dezena de homens agrediu dois imigrantes marroquinos nas ruas do Porto, e depois invadiu uma habitação, na Rua do Bonfim, armado com paus, facas e, segundo as testemunhas, uma arma de fogo, para bater em todos os que lá viviam. A investigação aponta para o envolvimento de membros do Grupo 1143 de Mário Machado.
A lista de todos os crimes e vítimas da extrema-direita portuguesa não caberia nestas páginas. Reorganizados a partir da década de 1980, os movimentos de cariz racista, xenófobo e homofóbico têm vivido, desde então, ciclos de maior ou menor fulgor. Mas, talvez, nunca como até aqui “a retoma da atividade de organizações neonazis e identitárias”, como menciona o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), referente a 2023, tenha representado uma tão grande ameaça para a democracia.

“No campo dos extremismos políticos, assistiu-se [a partir do ano passado] a um agravamento da ameaça representada por estes setores, sobretudo no âmbito da extrema-direita”, alerta o documento, que acrescenta que, após um período de estagnação, os movimentos tradicionais e os militantes dos setores neonazi e identitário “retomaram a sua atividade, promovendo ações de rua e outras iniciativas com propósitos propagandísticos”. A reabilitação da extrema-direita portuguesa, nomeadamente entre as gerações mais jovens, deveu-se, em grande parte, ao “esforço desenvolvido na esfera virtual”, que constituiu o “principal veículo de disseminação de propaganda e motor de radicalização”, completa o RASI.
É, precisamente, em redes sociais como o Telegram, TikTok ou X (ex-Twitter) que o discurso de ódio passou a circular livremente entre os internautas. Antes com dificuldade para passar a mensagem, a extrema-direita beneficia, desde 2019, do surgimento do Chega, partido radical populista, que tem contribuído para a “normalização” dos “processos de desumanização e demonização” contra minorias, como explica, à VISÃO, Cátia Moreira de Carvalho, investigadora da Universidade do Porto em Psicologia, Extremismo e Radicalização. O atual contexto fornece “um maior conforto à extrema-direita para se mostrar e recrutar mais seguidores”, afirma.
A vida atrás das grades
A relação de Mário Machado com o sistema prisional português não é, para já, uma história com final. A reabilitação nunca se cumpriu. Os contactos com grupos e militantes de extrema-direita (portugueses e estrangeiros) continuaram e aprofundaram-se a partir da cela. Machado mantinha ligações ao MAN, e ainda saiu a tempo de acompanhar a criação da Aliança Nacional, em 1995, movimento que pagou as dívidas do Partido Renovador Democrático (fundado por Ramalho Eanes), elegeu uma direção e mudou o nome para Partido Nacional Renovador (hoje, Ergue-te), conseguindo, com este expediente, legalizar a primeira formação política de extrema-direita em Portugal, no pós-25 de Abril, sem oposição do Tribunal Constitucional.
O PNR nunca descolou. E a extrema-direita portuguesa caiu numa longa estagnação. Entre 1995 e 2019, nenhum partido deste espetro político conseguiria obter qualquer resultado eleitoral relevante. E os projetos de Mário Machado – como a Frente Nacional (FN), Grupo 1143, Portugal Hammerskins (PHS) ou Nova Ordem Social (NOS) – também se ficaram pela marginalidade.
Como segurança privado, primeiro, na casa de striptease Savana, e, depois, nos bares das Docas e do Parque das Nações, a ação de Machado apenas se tornava notícia quando estava a contas com a Justiça. A investigadora Cátia Moreira de Carvalho destaca que Mário Machado “é uma pessoa que é vista como representante da extrema-direita violenta em Portugal”, mas admite que “muito desta ideia também se deve à promoção que lhe tem sido dada”. “É preciso encontrar um bom equilíbrio porque o extremismo alimenta-se mais da promoção do que dos seus atos. Se formos realistas, muitos dos extremistas são uma fraude, mas a romantização em torno deles transforma-os em algo maior do que eles são”, diz.

O skinhead regressou à prisão em 2007, após ser condenado a sete meses de prisão por posse ilegal de arma, depois de uma reportagem televisiva em que surgia armado, e a defender a ideologia nazi. A cumprir pena, seria condenado a mais quatro anos e dez meses de prisão por crimes semelhantes, a que se juntou nova condenação, em 2009, no âmbito de um processo de ameaças à procuradora do Ministério Publico, Cândida Vilar. Seria absolvido do crime de ameaça, mas condenado a oito meses de prisão por difamação agravada da magistrada. Ainda nesse ano, foi condenado a sete anos e dois meses de prisão por sequestro, roubo e coação. A pena ficou fixada num total de dez anos por cúmulo jurídico.
Apesar da longa estada na cadeia, Cátia Moreira de Carvalho considera que as ações de “uma pessoa que tem um historial criminal e violento” como Mário Machado, nem sempre têm sido devidamente penalizadas pela Justiça portuguesa. A especialista em Psicologia, Extremismo e Radicalização considera mesmo que “certos atos que foram cometidos pela extrema-direita violenta em Portugal podiam e deviam ter sido considerados extremismo/terrorismo, e não o foram”. “Estou de acordo que existe um viés que faz com as instituições penalizem de forma diferente a extrema-direita. Se fosse uma pessoa de cor, origem e religião diferentes, a história seria certamente outra”, lamenta.
Jurista, treinador e comerciante de antiguidades
Mário Machado voltou à liberdade apenas em maio de 2017. Na cadeia, o antigo praticante de ginástica, andebol e taekwondo, passou a dedicar-se ao boxe e à musculação, atividades populares para lá dos muros, a que ainda hoje se dedica nos tempos livres. Ao longo do último período de reclusão, iniciou e concluiu a licenciatura em Direito, na Universidade Autónoma de Lisboa, com o objetivo de “ficar com outra bagagem jurídica”, como referiu a pessoas próximas. No decorrer da pena, insistiu na ideia de ser “um preso político”, e protagonizou momentos de tensão atrás das grades, envolvendo-se em confrontos físicos com colegas de cárcere, como Henrique Sotero, conhecido como “o violador de Telheiras”, e Wesley Silva, apontado como o braço direito de Sandro Bala, indicado como o chefe da máfia brasileira, que atuava na Margem Sul do Tejo.
Advogado de Mário Machado, durante todo este período, José Manuel Castro descreve o cliente, que já considera “um amigo”, como “um militante nacionalista empenhado, com as ideias bem enraizadas”, que “tem pagado um preço alto pelo seu voluntarismo”.
Casos de polícia
Abundam indícios das ligações de polícias à extrema-direita portuguesa, mas ninguém quer falar sobre o assunto
Ao jornalista, um responsável da PSP diz “não querer falar sobre o assunto”. A comentada “proximidade” entre elementos das forças de segurança e a extrema-direita portuguesa tornou-se tabu. A retórica securitária do Chega atrai e encanta muitos polícias e militares. Com a chegada de André Ventura ao Parlamento, dezenas de profissionais da PSP e da GNR, no ativo, aderiram ao partido, mesmo proibidos por lei. Uma amostra de 591 elementos das forças de segurança, trabalhada pelo Consórcio de Jornalistas de Investigação, destapou um submundo policial e militar feito de discursos de ódio online. A tese dos “casos isolados” seria demolida pelo premiado artigo O Braço Armado do Chega, da autoria do jornalista Miguel Carvalho, publicado na VISÃO em novembro de 2022. Por exemplo, dois guardas da GNR são membros ativos do Grupo 1143 de Mário Machado, posando ao lado de quem faz a saudação nazi. “Mas há mais polícias envolvidos no movimento”, garante, à VISÃO, um ativista antifascista. “Os outros apenas são mais discretos”, completa a mesma fonte. Dos sindicatos tradicionais, “não há comentários”. Neste momento, “ninguém quer ser acusado de dividir a classe”, quando “a prioridade é lutar por melhores condições salariais e de trabalho”, diz uma fonte sindical. No passado 10 de Junho, a atuação da PSP para afastar duas manifestações (do Grupo 1143 e de coletivos antifascistas e antirracistas), que coincidiram, no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, amplificou a polémica e as críticas. Ativistas dos direitos humanos insistem que os bastões policiais “apenas batem na esquerda”, poupando “o outro lado”. “Polícias e extrema-direita andam de mãos dadas”, acusam. Oficialmente, a PSP considera que a ação foi “equilibrada”, e permitiu evitar a “desordem generalizada”. O Grupo 1143 deixou um agradecimento às forças de segurança. E agora até o Movimento Zero – grupo inorgânico de polícias associado à extrema-direita –, contido, há três anos, por centenas de processos disciplinares, instaurados pela PSP e pela GNR, ameaça reaparecer.
Habituado a defendê-lo em tribunal, José Manuel Castro confessa que já aconselhou Machado “a ter mais calma e ponderação” nas suas ações, pois considera que “os olhos estão sempre em cima dele”. “Seria um mau advogado, mas também um mau amigo, caso não o fizesse”, refere.
Os conselhos, porém, parecem não surtir efeito. Após a saída da prisão, em 2017, Machado ponderou afastar-se, dedicar-se à família – a nível pessoal, casou e descasou por três vezes, tendo hoje cinco filhos, de quatro mulheres diferentes. O mediatismo conquistado tornava-o “tóxico” aos olhos de outros grupos e militantes da extrema-direita portuguesa. E foi preciso esperar até 2019 para ser reabilitado (ver caixa).
Hoje, Mário Machado está solteiro e vive com a mãe. Desdobra-se em atividades. Em liberdade, já trabalhou na fiscalização e manutenção de ares condicionados, como fiel de armazém ou no apoio à vigilância de espaços de diversão noturna, no Algarve. Atualmente, presta serviços como jurista, dá aulas de preparação física a amigos e outras pessoas, em Mafra, e ainda explora uma loja de antiguidades, nessa localidade. Declarou, às técnicas de reinserção, ter rendimentos na ordem dos €2 mil/mês, uma situação económica “equilibrada”, continuando, para mais, a contar com o apoio pontual da mãe, mas também com a herança deixada pelo progenitor, falecido há sete anos.
Uma longa lista de inimigos
Mário Machado acredita que o País entrou num novo ciclo, e que a extrema-direita nunca teve tanta força, como até hoje, no Portugal democrático. A entrada do Chega no Parlamento, em 2019, fê-lo suspender a NOS, passando a apelar ao voto em André Ventura, a quem elogia “as ideias”, “o discurso combativo” e “a nobreza de caráter”. Sabe, porém, que nunca vai ter espaço para aparecer na fotografia e, por isso, continua a fazer-se notar.
Nas redes sociais, criou vários canais no X e no Telegram, para partilhar as suas ideias, e atacar quem classifica como “inimigos”: imigrantes, ativistas antifascistas e antirracistas, homossexuais, políticos e jornalistas.
A lista é longa, com casos reais. Como o de Jonathan da Costa Ferreira, uma das caras mais conhecidas da Frente Unitária Antifascista (FUA), que residia em Braga com a família, mas que teve de abandonar a cidade, alvo de uma campanha de provocações e ameaças diárias, que chegaram ao local de trabalho. Jonathan chegou a ser vítima de uma emboscada e de duas tentativas de atropelamento. Acabando por apagar o rasto para proteger a sua família.
Ou o de Mamadou Ba, alvo do discurso de ódio online nos canais de Mário Machado, mas também de uma perseguição através de “uma montanha” de processos judiciais, chegando a ser condenado, em primeira instância, a pagar €2 400 a Machado, por difamação e calúnia do neonazi – sentença, entretanto, anulada pela Relação de Lisboa. “Já tive de enfrentar 13 processos judiciais, apresentados por pessoas ligadas à extrema-direita”, admite, à VISÃO, o ativista antirracista. Mamadou Ba considera que, “neste percurso de 50 anos, já todos percebemos a diferença do que é viver em ditadura e em democracia”, e alerta que “quando alguém tem um projeto para reverter este caminho, torna-se um perigo, não apenas para mim, mas para todos nós, enquanto sociedade”. “Se as ideias de Mário Machado vingarem, muitas pessoas que pensam como ele também estariam ameaçadas”, diz.
O código do telemóvel de Mário Machado é “1143”. O ano da assinatura do Tratado de Zamora, que reconhece Portugal como nação independente, tornou-se uma bússola para a extrema-direita portuguesa. E seguindo esse caminho, o Grupo 1143 quer fazer “uma demonstração de força”, no próximo dia 5 de outubro, numa grande manifestação em Guimarães. O passado ensina-nos que este nunca é um bom destino.
Convidado da TV e fã do Chega
O ano de 2019 foi decisivo para a reabilitação de Mário Machado. O militante neonazi foi convidado pela TVI para falar sobre Salazar e desistiu dos seus projetos políticos para passar a apelar ao voto no Chega de André Ventura

Às zero horas do dia 1 de janeiro de 2019, Mário Machado resistia à ideia de formular resoluções de Ano Novo. Os tempos recentes tinham-no desiludido novamente. O neonazi português estava em liberdade condicional há pouco mais de 19 meses, mas continuava a falhar o seu objetivo de formar um grupo capaz de liderar a extrema-direita portuguesa. Nas entrevistas com os técnicos de reinserção social dos serviços prisionais, Machado garantia estar “afastado” de contextos e atividades associadas ao movimento nacionalista, mas ao ser apanhado numa “guerra” entre gangues de motards radicais voltara a revelar a sua verdadeira natureza e o seu habitat.
Nesse ano, Machado vira a tentativa de criar uma filial portuguesa do grupo motard Los Bandidos cair por terra, depois de uma resposta violenta dos rivais Hells Angels. Nove meses antes, o neonazi escapara por pouco a um ataque num restaurante no Prior Velho (Loures), escondendo-se numa arrecadação nas traseiras do estabelecimento.
Depois de mais de quase nove anos na cadeia, o episódio demonstrava a fragilidade da sua rede de apoio. Naquele momento, restava-lhe a “sua” Nova Ordem Social (NOS), uma organização fundada em 2014, que se mantinha na marginalidade, nunca tendo conseguido reunir as 7 500 assinaturas necessárias para se constituir como partido político. Para piorar as coisas, o mediatismo de Machado tornava-o “tóxico” aos olhos de outros militantes da extrema-direita. À sua volta, restavam pouco mais de duas dezenas de indefetíveis. Com a cabeça a prémio, e a debater-se com um quadro de insuficiência renal, que o obrigava a submeter-se a longas sessões de hemodiálise, o neonazi português até recuara no projeto de abrir uma loja de tatuagens no município de Odivelas.
E foi quando começava a abandonar a ideia de ser “o” líder da extrema-direita portuguesa que o telefone tocou. Do outro lado da linha, o repórter Bruno Caetano (que não tem carteira profissional de jornalista) convidava-o a participar num debate com o tema “Precisamos de um novo Salazar?”, no programa da TVI Você na TV, apresentado por Manuel Luís Goucha.
A aparição motivou críticas de várias organizações antifascistas e antirracistas e do Sindicato dos Jornalistas, mas o convite repetir-se-ia, nesse mesmo dia, para o programa noturno SOS 24, da TVI24. A participação de Machado na TV motivaria queixas formais junto da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) contra a estação de Queluz de Baixo, mas o regulador não identificou qualquer infração.
Mário Machado leu esta oportunidade como um sinal de “um novo ciclo”, e não foi preciso esperar muito para confirmar ter razão. Enquanto recuperava de um transplante renal, assistiu com entusiasmo discreto ao surgimento do Chega (em abril de 2019) e à eleição de André Ventura como deputado, nas legislativas desse ano. Consciente do crescimento da direita radical populista – Donald Trump e Jair Bolsonaro eram presidentes dos Estados Unidos e do Brasil, respetivamente –, Machado anunciou, através do YouTube, a suspensão da NOS, justificando a decisão com o aparecimento de “um partido novo (…) [que tem] aglomerado grande parte dos nacionalistas portugueses e da direita”. Desde então, tem apelado ao voto no Chega, uma vez que considera ser este o “único partido da história” da democracia portuguesa com um discurso político que se aproxima do que designa por “nossas ideias”.
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