Dentro da mala, Margarida Rebelo Pinto anda sempre com pequenos blocos de notas. No “caderninho do arquiteto”, como lhe chama, vai escrevinhando a estrutura e o conceito de cada romance. Depois passa à construção das personagens, definindo pormenores da personalidade de cada uma – signo, cor preferida, história de infância e estados emocionais. “É como se estivesse a montá-las, tal como os bonecos de Lego”, explica a autora de Sei Lá, o livro que há 20 anos protagonizou um fenómeno social, cultural e literário. A história de Madalena, uma jornalista que sofre um desgosto de amor, mais as suas relações de amizade com quatro amigas e os diálogos entre elas sobre os homens, surpreendeu tudo e todos, e deu que falar para o bem e para o mal, tornando o nome da escritora simultaneamente famoso e infame.
“O que mais me chateia é quando perco a ponta – comentou a Luísa na sua voz distante e inexpressiva, de quem está sempre um bocadinho a leste. Mais uma vez tínhamo-nos juntado as cinco para jantar em casa da Mariana e para variar, entre cada garfada de bolognesi atacávamos o nosso prato preferido: homens.” Assim arrancava Sei Lá, com uma linguagem coloquial, pouco consensual, despudorada e controversa, tal como a figura de Margarida Rebelo Pinto.
“Apesar dos padrões, os casos são sempre diferentes. São romances sobre temas de comportamento e relações”, explica Margarida, hoje com 54 anos. “Andam sempre à volta de histórias de amor e de segredos de família, amizades e afetos.” Com 26 livros publicados, o próximo, o 17º romance, abordará “a desagregação das relações amorosas, a falta de investimento pessoal e o isolamento transversal a todas as gerações”, diferente do “miminho” dos livros infantis, dos contos históricos ou das compilações de crónicas publicadas na Imprensa, onde marca presença há 32 anos.
Pedro Marques Lopes, comentador político, conhece a escritora desde os anos 1980, quando se cruzaram em Direito na Universidade Católica (Margarida haveria de se mudar para Línguas e Literaturas Modernas na Clássica), e lembra-se do sururu que causou Engatatões e Trapalhões, primeira crónica de Miss X 22, nome com que Margarida assinava a rubrica O Chamado Sexo Forte no jornal O Independente. Na época, Pedro Marques Lopes disse-lhe que ela teria já uma voz interior. Hoje, mantém a sentença: “Os autores só são únicos quando criam os seus mundos e têm a sua própria voz.”
Sei Lá, que já teve mais de 40 edições e vendeu para cima de 300 mil exemplares desde que foi publicado, em março de 1999, nasce numa fase difícil, em que Margarida “andava atrapalhada”, confessa a escritora. Tinha 33 anos, um filho pequeno de 3 anos e um casamento a chegar ao fim. Era diretora de comunicação e dava aulas de Técnicas de Expressão Escrita na Universidade Independente. O amigo e escritor António Alçada Baptista, a quem dedicou o livro “pelo seu afeto infinito”, a par do filho, Lourenço, por lhe ter dado “um novo sentido à vida”, foi o primeiro a ler os capítulos de Sei Lá tal e qual como foram publicados, dizendo-lhe: “Isto é bom, isto é novo; continua a história destas mulheres e vais fazer um livro.” “Ela era aquilo que ainda é hoje: muito entusiasta e com uma autoconfiança incrível. Estava absolutamente convencida de que o livro iria ser um best-seller e eu acreditei nela”, recorda Gonçalo Bulhosa, o seu primeiro editor.
Margarida escreve sobre o presente, à procura de respostas para os seus enigmas, porque “passamos a vida inteira a responder aos primeiros dez anos da nossa vida”. Se hoje criasse uma “nova literatura urbana”, como definiu o movimento à volta de Sei Lá, “teria de falar da desagregação da estrutura familiar, de uma sociedade cada vez mais líquida, de uma consciência ambiental mais ativa”.

Divulgacao
Lisboa vive uma onda otimista
Em 1998, Gonçalo Bulhosa era administrador da editora Difel e estava a criar uma nova chancela, a Letras d’Hoje – e sabia como ninguém como o mercado estava a mudar. “Havia uma franja de leitores a que os editores não prestavam atenção.” O estilo da escrita de Margarida Rebelo Pinto apanhou o registo de O Diário de Bridget Jones, da jornalista britânica Helen Fielding, e de O Sexo e a Cidade, uma coleção de ensaios da americana Candace Bushnell, cuja série chegara à televisão portuguesa um mês antes de sair Sei Lá.
Toda a fé que a autora depositava na sua história derivava de um Portugal que se abria ao mundo. “Salazar foi exímio, no mau sentido, em cristalizar e separar as classes sociais, em preocupar-se mais com a cultura das elites e menos com a escolaridade. Depois da Expo’98, Lisboa ficou uma cidade mais aberta, embora ainda tristonha aos domingos, mas às sextas e aos sábados já era divertida, havia uma vida mundana muito efervescente, com toda a gente a ir ao Bairro Alto”, relembra Margarida.
“Lisboa mudou muito nestes 20 anos”, analisa Pedro Marques Lopes. “Era uma sociedade mais estratificada. Agora continua agrupada, como todas as comunidades o são, mas na altura tinha divisões sociais mais marcadas – distinção dos betos de uma burguesia mais endinheirada das pessoas do subúrbio, das gentes do Bairro Alto, os supostos alternativos vindos de Letras e de Artes. Hoje são divisões mais tribais.” Os livros de Margarida Rebelo Pinto são um retrato urbano da alteração de comportamentos sociais. “Vivia-se uma recuperação dos anos 80. Depois do Cavaquistão, e de um recrudescimento de um certo conservadorismo social, no final dos anos 90, as coisas voltaram a equilibrar-se”, acrescenta.
António Guterres era primeiro-ministro e começava a pré-campanha para as eleições legislativas. Lá fora, o governo indonésio admitia a independência de Timor-Leste, enquanto a guerra do Kosovo causava um milhão de refugiados. Nos EUA, decorriam as alegações finais do processo que ilibaria Bill Clinton no caso Monica Lewinsky, enquanto por cá a Barragem do Alqueva começava a ganhar forma. Nos Oscars desse ano, a disputa acontecia entre Shakespeare in Love e O Resgate do Soldado Ryan (venceu o amor, perdeu a guerra…) e a televisão nacional ainda apostava em formatos culturais, com Bárbara Guimarães e o maestro António Victorino d’Almeida nos seus Duetos Imprevistos, ao mesmo tempo que o magazine Acontece, de Carlos Pinto Coelho, na RTP2, chegava à sua milésima emissão. Eram os primeiros anos das revistas do coração (a Caras tinha quatro anos) e das televisões privadas. É o Portugal a seguir a Saramago ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, em que a interrupção voluntária da gravidez continuava proibida, depois do primeiro referendo sobre a sua despenalização, em 1998.
Para António Lobato Faria, editor de Margarida Rebelo Pinto nos últimos 16 anos, o livro surgiu “como causa mas também como consequência de uma ligeira alteração na amplitude das atividades culturais da sociedade portuguesa”. “Era uma sociedade com mais instrução e mais interesse, mais aberta.” Nessa perspetiva, Sei Lá aparece quer pelo tema quer pela escrita apetecível e acessível, a uma camada da população ávida por ter outro tipo de experiências. É também o espelho de uma parte da sociedade que começava a ganhar alguma visibilidade.”
Em março de 1999, quando Gonçalo Bulhosa edita Sei Lá na Letras d’Hoje, a VISÃO, fundada há seis anos, fazia uma das capas semanais com um tema ainda hoje central no debate público: “Porque é tão difícil encontrar mulheres em lugares de poder?” Discutia-se então, na Assembleia da República, uma quota de 25% para deputadas.
Rótulos eternos
Filha de uma psicóloga, “cartesiana e analítica em relação aos comportamentos, às personalidades e aos padrões”, e de um biólogo “que também classificava tudo por comportamentos, hábitos e famílias”, Margarida culpa a sua ascendência pela maneira como olha o mundo, canalizada para o lado criativo. O grupo de amigas retratado em Sei Lá existiu mesmo: era o seu núcleo de amigas mais velhas do que ela, emergentes e emancipadas (só uma era inventada). Vinte anos depois, Margarida Rebelo Pinto não assume que a personagem de Madalena é o seu alter-ego, mas, admite, “há sempre um bocadinho de ‘striptease’ emocional”. “É como se andasse a brincar às escondidas comigo própria.”
Margarida conta com o “colo afetivo” do amigo e também escritor Pedro Paixão, que a acompanha desde os 22 anos, quando a levou para O Independente. “O Sei Lá mudou mesmo a minha vida”, diz a autora. “Não fiz fortuna, mas vivo do meu trabalho criativo e nunca irei parar de escrever. Vou sempre viver para os livros, mesmo que um dia já não viva dos livros.”
Há 20 anos, foram muitos os rótulos atribuídos à escrita de Margarida Rebelo Pinto: literatura light, ligeira, pop. Acusada de diálogos fúteis e conteúdos vazios, hoje responde apenas: “Os clichés funcionam porque são verdade e só assim se tornam tendência. Sendo fútil por definição ‘algo vazio que não leva a nada’, autêntico é aquilo que nos fala ao coração, e eu escrevo para chegar ao coração das pessoas e para arrumar o meu caos interior.”
Em 2006, protagonizou uma batalha jurídica com João Pedro George, autor de Couves & Alforrecas, Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto, livro em que o crítico fez uma análise comparativa dos oito livros anteriores da autora e concluiu que repetia e copiava frases de uns para os outros. A escritora ainda interpôs uma providência cautelar para evitar a publicação do livro, mas não conseguiu. “Houve alguns ataques profundamente misóginos que me chocaram”, queixa-se a romancista. “Eram ataques a um estereótipo reduzido e cristalizado que as pessoas criaram sobre mim, relacionado com o facto de ser mulher, independente, ter muito sucesso e sangue na guelra. Incomodava o facto de ser diferente.”
Em defesa da autora e de todo o fenómeno à volta do estilo que criou saltam outros escritores. “Esse moralismo elitista de quem diz que só ouve Bach ou que só lê Gonçalo M. Tavares é algo que me incomoda”, lamenta a escritora Patrícia Reis, que foi duas vezes consultada por Margarida antes de publicar um livro. «A minha literatura também é pop e tem muitas coisas light», constata por seu lado Pedro Paixão. “As pessoas estão a compará-la com Dostoiévski ou com Tolstói? O Hemingway também se repetia. Era uma das maiores críticas que lhe faziam, à qual ele respondia, com muito humor, que só escrevia sobre o que sabia.” Mas considera impossível alguém dizer que ela escreve mal. “Escreve como falam as pessoas, e isso é bom.”
Patrícia Reis não tem dúvidas sobre outra coisa: o mundo dos livros ainda é muito machista; os homens ganham mais prémios, conseguem mais traduções, têm mais entrevistas e capas na Imprensa. “É muito difícil uma mulher vingar neste meio. Há um preconceito em relação a qualquer mulher que faça dinheiro e tenha sucesso.”
Antes de Sei Lá, outros fenómenos socioliterários já tinham tomado conta da sociedade urbana. Gonçalo Bulhosa relembra Os Filhos da Costa do Sol, de Manuel Arouca, autor português nascido em Moçambique, cujo primeiro romance, uma história de amor e morte passada nos dias agitados da Revolução de Abril, foi um best-seller dos anos 80; Adeus, Princesa, de Clara Pinto Correia, editado em 1985, foi outro sucesso. “Um autor português que não fosse consagrado e vendesse mais do que 10 mil a 15 mil exemplares num ano era muito bom”, recorda o editor. Margarida descobriu o filão, abrindo caminho para outros autores.
Gonçalo concorda que há um antes e um depois de Sei Lá. “Se outras autoras tinham em casa os seus manuscritos confessionais com aquele tipo de registo, e muito dificilmente encontravam uma editora que tivesse abertura para os publicar, a partir deste livro, qualquer pessoa com aquela linguagem e perfil publicava o seu livro.” E assim veio Virada do Avesso, de Maria João Lopo de Carvalho, e Xis Ideias para Pensar, de Laurinda Alves. “Livros na lógica de tendência new age que marcava a época e que coincidiu com o momento em que as mulheres portuguesas estavam numa fase de grande emancipação, mais realizadas profissionalmente e, sobretudo, mais soltas nos temas emocionais.”
Uma questão de tempo
Para Margarida Rebelo Pinto, ultrapassar a fasquia de um milhão de exemplares vendidos, contabilizando toda a sua obra, não equivale aos milhares de seguidores que hoje os fenómenos digitais conseguem alcançar. “Eu vendia histórias e conteúdos, agora vendem a imagem. As plataformas de comunicação sofreram uma reviravolta brutal, e esse, sim, é o grande tsunami em termos de relações afetivas, de estrutura social, de família, e para isto ninguém está preparado.”
A autora não lamenta o facto de, em 1999, ainda não existirem redes sociais. “Nós vivíamos em túneis, os miúdos agora vivem em rede. Tínhamos uma capacidade de concentração e foco nos objetivos e de concretização dos nossos projetos, de forma estruturada e fundamentada, conduzida pelo conteúdo e não em busca do resultado e de uma imagem. Nessa altura, a imagem era consequência do conteúdo apresentado.”
António Lobato Faria acredita que, “se existissem redes sociais naquela altura, o fenómeno até poderia ter sido ainda mais exponenciado”. Apesar deste fenómeno de massas, e de Gonçalo Bulhosa ter vendido, logo em 1999, os direitos da obra para ser adaptada ao cinema, a longa-metragem de Joaquim Leitão só se estrearia 15 anos depois, em 2014, tendo sido a quarta produção nacional mais vista desse ano, com 21 533 espectadores em sala. “Haver livros que têm sucesso é sempre aliciante”, comenta Leonor Seixas, atriz que deu corpo a Madalena. “É importante que se façam comédias românticas, mais ligeiras, com que qualquer pessoa se identifica”, enaltece a atriz, para quem, juntamente com as outras protagonistas (Ana Rita Clara, Gabriela Barros e Patrícia Bull), era notória a referência à série O Sexo e a Cidade.
Para Margarida Rebelo Pinto, uma carreira não começa com o primeiro livro. “Começa no berço, com os livros que lemos na infância, com hábitos de leitura, com as conversas que temos em casa. Só o tempo faz uma carreira. O grande juiz de um escritor é o tempo.” Pedro Paixão não poderia estar mais de acordo: “O valor literário não se mede pela quantidade de leitores; mede-se pelo tempo que se subsiste, um critério que se junta à qualidade das pessoas.” Para António Lobato Faria, “Sei Lá tem muito de ‘crónica social’, além de ser uma escrita muito desinibida, sem grandes preocupações, mas ao contrário do que muitos pensavam, que seria um fenómeno passageiro, a Margarida acabou por perdurar porque tem uma escrita autêntica, sensorial, que reflete bem os sentimentos das personagens.” Pode um livro do seu tempo sobreviver ao tempo?
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