Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana, que protege a integridade física dos cidadãos e o direito ao livre desenvolvimento da personalidade.

Visando proteger estes bens jurídicos constitucionalmente consagrados (artigos 1.º, 25.º e 26.º da Constituição da República Portuguesa), o legislador previu, entre outros, os crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual (nos artigos 163.º a 176.º-C do Código Penal e estabeleceu agravantes comuns no artigo 177.º do Código Penal), determinando que todos os seres humanos têm o direito de decidir com quem, quando, onde, de que forma pretendem ou não relacionar-se sexualmente.

O crime de violação, tipificado no artigo 164.º do Código Penal, prevê duas condutas essenciais: constranger a vítima às práticas sexuais ali previstas e, constrangê-la, por meio de violência, ameaça grave, ou a ter tornado inconsciente ou posto na impossibilidade de resistir às referidas práticas. As condutas são punidas com penas de prisão de 1 a 6 anos e 3 a 10 anos, respetivamente.

Já o crime de coação sexual está previsto no artigo imediatamente anterior e pune quem constranger outra pessoa a sofrer ou a praticar ato sexual de relevo, sendo punido com pena de prisão até 5 anos. Pune-se com pena de prisão de 1 a 8 anos quem o fizer por meio de violência, ameaça grave, ou depois de ter tornado a vítima inconsciente ou posto na impossibilidade de resistir.

Da breve análise aos referidos preceitos, facilmente percebemos que a “violência” é apenas uma forma agravante da conduta e não o núcleo essencial do crime.

Levanta-se aqui a questão do consentimento da vítima.

O legislador português fala em vontade cognoscível da vítima.

A Convenção de Istambul, aprovada pela Resolução da Assembleia da República n.º 4/2013, de 21 de janeiro, estabelece no seu artigo 36.º, n.º 2 que o consentimento tem de ser prestado voluntariamente, como manifestação da vontade livre da pessoa, avaliado no contexto das circunstâncias envolventes.

Importa, então, perceber como se afere do consentimento relevante para a prática de atos sexuais livres e consentidos.

Desde logo, temos de ter presentes que não é não, mas o silêncio também pode ser não.

Com efeito, a inexistência de qualquer reação ou resistência de uma vítima de violência não significa que consinta, queira ou “esteja a gostar”. Poderá apenas significar que está a sobreviver a uma agressão.

Caso a vítima se remeta ao silêncio aquando da prática dos atos, não podemos, sem mais, concluir que existe uma aceitação tácita da conduta do agente.

Reiteramos: o silêncio ou passividade da vítima nunca poderão ser tidos, por si só, como forma colaborar ou consentir a relação sexual, sendo muitas vezes motivados por um consentimento constrangido.

Portanto, devemos partir do princípio de que a contrariedade da vontade engloba todas as situações em que a prática sexual não coincida com a vontade real da vítima, seja por ausência de vontade ou porque a vontade estava, de alguma forma, condicionada.

Mas acima de tudo, não devemos “diabolizar” a não reação da vítima, por exemplo, ao não gritar perante um ato de violação, para depois lhe tirar responsabilidades dizendo que induziu o agressor em erro.

Mas como sabemos se o alegado agressor atuou contra a vontade cognoscível da vítima? Para aferir da cognoscibilidade pelo agente, temos de atender às caraterísticas dos intervenientes e a todo o contexto envolvente, aplicando o padrão da pessoa média colocada na posição do agente.

Temos de avaliar e valorar todas as circunstâncias em que o comportamento se desenrola, tendo em conta, evidentemente, as regras da experiência (designadamente, as relativas a relacionamentos interpessoais íntimos), sem preconceitos, sem estigmas ou mitos do passado.

E acima de tudo, não podemos esquecer de tratar a vítima como vítima e não instigadora ou cúmplice da prática do crime.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Querida Patrícia,

Deves lembrar-te de que, há uns anos, costumava dizer-se “não batam mais no ceguinho” quando as pessoas insistiam em criticar, castigar e ruminar alguma coisa ou alguém cujo erro não tivesse sido assim tão grave ou que, entretanto, já tivesse assumido a falha e pedido sinceras desculpas. A semana passada, depois de ter recebido uma catrefada de insultos por causa de um texto ficcional, tornei a pensar que linguagem tem uma força enorme, sobretudo a que não é literal, ilustrativa, mas parece que, nesta época da iconoclastia, estamos a perder a capacidade de usar a imaginação. Talvez essa expressão tenha caído em desuso porque corremos o risco de alguém acreditar que se anda mesmo a bater num cego. Lembrei-me disto a propósito das redes sociais e das caixas de comentários dos jornais, sobretudo por causa da quantidade de impropérios que lemos diariamente. Não há um único dia em que não passe os olhos por alguma ofensa. Como se a linguagem escrita não atingisse os visados, como se fosse diferente escrever “filho da puta” ou dizê-lo. De repente, tudo é uma ofensa, uma indignação, e parece que estamos cada vez mais incapazes de distinguir o que é um deslize de um “ceguinho” de uma colisão propositada de alguém que vê exatamente o que está a fazer. Não distinguimos burrice de maldade, acidente de ataque. Estamos tão literais que até faz dó — e não falo em dó musical, convém esclarecer, para não causar dúvidas. Por exemplo, quando escrevi o título deste texto, pensei: será que vou ser atacada por alguma associação de pessoas invisuais? E não, não estou a querer dizer: “Ai, mas então agora já não se pode dizer nada?” Não é nada disto. Claro que, nos últimos anos, ganhámos noção e consciência de que algumas coisas estão erradas e não devemos dizê-las, até porque se pode ofender alguém que já está numa situação fragilizada do ponto de vista social ou emocional. Mas daí a atacar-se a torto e a direito, sem distinguir o que é importante e grave daquilo que é acessório, parece-me, sinceramente, assustador. Como se toda a gente fosse dona da verdade e quem quer que a contrarie faça parte de uma seita que deve ser exterminada o mais rapidamente possível.

A falta de noção de algumas figuras públicas não deveria ter mais atenção mediática do que certos atos de líderes políticos. Parece que tudo vale o mesmo, que a vida se tornou uma salada russa difícil de destrinçar da maionese. Claro que devemos estar atentos e ter um olhar crítico sobre as coisas, e, para usar outras expressões populares, é preciso ter calma nos cavalinhos e não pôr a carroça à frente dos bois. Ou, como disse o escritor Valério Romão há uns tempos numa entrevista: “A grande radicalidade deste tempo é ser-se sensato.” E é. E também acho que um dos poucos gestos punks que nos sobram é a leitura de um livro. Ainda é um lugar onde ninguém mete o bedelho, nem se bate no ceguinho.

Cláudia Lucas Chéu

Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela

Quando Marilyn Monroe morreu, a 4 de agosto de 1962, eu tinha pouco mais de dois anos. Não a vi incendiar manchetes, não a ouvi cantar ao Presidente com aquele sopro entre o pecado e a paródia, não participei na histeria planetária, não pendurei posters no quarto nem a sonhei em technicolor como tantos homens do século XX, convencidos de que o cinema tinha sido inventado para lhes servir mulheres em travessa. Conheço Marilyn dos filmes, dos livros, das fotografias, da televisão, da cinefilia e dessa arqueologia sentimental que nos leva a descobrir certas figuras já depois de mortas e, ainda assim, a senti-las como família. E a verdade é esta: sempre olhei para Marilyn Monroe como uma “tia” que, quando era nova, devia ter sido uma brasa.

Sei que a frase parece pouco académica e um pouco politicamente incorreta, o que me deixa imediatamente feliz. Estou-me marimbando, porque Marilyn já sofreu com académicos, sociólogos, biógrafos, terapeutas póstumos e cineastas convencidos de que lhe podiam abrir o crânio para filmar traumas em grande plano. O que quero dizer é mais simples. Há figuras do cinema clássico que admiramos com reverência museológica, como quem olha para um vaso chinês muito caro e muito frágil. E depois há outras que entram na nossa vida como certas “tias de família” que já conhecemos velhas, penteadas, compostas, com cheiro a pó-de-arroz e um passado de pecadora bombástica que ninguém comenta à mesa mas toda a gente imagina. Marilyn, para mim, sempre teve qualquer coisa disso: um lado glorioso e doméstico, como se pudesse estar na sala a servir chá e, ao mesmo tempo, a arruinar mentalmente três gerações de homens só com a maneira de acender um cigarro.

Talvez por eu ter chegado tarde à festa, nunca a vi como a viu o século dela. Nunca a vi apenas como monumento erótico. Vi-a já em estado de memória, já filtrada pela melancolia, já transformada num nome tão grande que até a tragédia parecia fazer parte do marketing. E isso, curiosamente, pode ter sido uma vantagem. Porque quando se chega a Marilyn sem o ruído original da época, sem o salivar masculino de serviço e sem a indústria ainda a funcionar em tempo real, percebe-se mais depressa uma coisa que o mundo demorou décadas a admitir: aquela mulher não era um efeito especial com mamas. Era uma grande atriz. E mais do que isso: era provavelmente a pessoa mais inteligente da sala, o que em Hollywood costuma ser uma qualidade pouco recomendável numa mulher bonita.

O centenário do nascimento de Marilyn, celebrado neste 2026, está a fazer ao menos esse favor histórico: obrigar muita gente a fingir que percebeu finalmente que durante anos a tratou como acessório. Em Lisboa, o Cinema Medeia Nimas abriu, a 16 de abril uma retrospetiva com cópias restauradas de 15 filmes que continua até 13 de maio. Em Londres, o BFI-British Film Institut, dedica-lhe a temporada Marilyn Monroe: Self Made Star, enquanto a National Portrait Gallery apresenta Marilyn Monroe: A Portrait. Em Paris, a Cinémathèque française também a revisita. Em Los Angeles, o Academy Museum faz o mesmo. Em bom português: o mundo inteiro decidiu, ao mesmo tempo, fazer aquilo que já devia ter feito há muito tempo: rever os seus filmes e tentar perceber a mulher que estava por trás da imagem banal do eletrodoméstico erótico, que a rotularam.

O melhor é que as instituições, quando estão inspiradas, até acertam no diagnóstico. O BFI fala de Marilyn como self-made star, uma estrela feita por si, e sublinha a sua inteligência cómica, a sua ambição e o facto de ter desafiado o sistema de estúdios e criado a própria produtora. A National Portrait Gallery insiste no papel que ela teve na construção da sua imagem. E a Cinémathèque procura recentrar a atriz e não apenas o mito fotográfico. Pela primeira vez em muito tempo, o centenário não serve só para vender a velha boneca com batom. Serve também para discutir o cérebro que estava lá dentro.

Ora eu, que sempre a vi como essa espécie de “tia velhota boazona impossível”, sinto uma secreta satisfação em ver o mundo apanhar finalmente o comboio. Porque quando se cresce a ver Marilyn já morta, ela aparece-nos menos como explosão hormonal e mais como criatura trágico-cómica. Em Os Homens Preferem as Loiras, aquilo que muita gente tomou por frivolidade é inteligência cómica de altíssima precisão. Em Niagara, ela percebe perfeitamente o que o cinema está a fazer com a sua imagem e devolve isso ao espectador como ameaça. Em Quanto Mais Quente Melhor, o que parece espontaneidade é uma engenharia finíssima de ritmo, voz e fragilidade. E em Os Inadaptados já não há sequer margem para a palhaçada dos clichés: ali está uma mulher partida, vulnerável, moderna, triste, e ao mesmo tempo incrivelmente lúcida. O Nimas, ao pôr estes filmes de novo em circulação, faz mais pela verdade histórica de Marilyn do que cinquenta documentários com música triste de fundo.

Talvez por isso me meta tanto nojo a velha conversa da “loira burra”. Não apenas por ser sexista, que é, mas porque é preguiçosa. É a forma mais barata que a cultura encontrou para resolver uma contradição que a incomodava: como aceitar que uma mulher tão desejada pudesse, além disso, ser cómica, disciplinada, ambiciosa, culta, insegura, feroz e consciente do seu valor? A solução foi fácil: transformar tudo isso em névoa. Chamar-lhe instável, tardia, difícil, problemática, excessiva. Em suma, fazer o que o sistema faz sempre às mulheres que se recusam a ser apenas o produto acabado da fantasia masculina.

Marilyn não cabia nesse molde. Lia muito, estudou no Actors Studio, quis papéis melhores, recusou ser só embalagem de luxo, bateu o pé aos estúdios, montou a Marilyn Monroe Productions e tentou gerir a própria carreira numa época em que uma atriz que quisesse mandar no próprio destino era vista como uma espécie de terrorista administrativa de soutien. Hoje chamar-lhe-iam empreendedora, visionária, criadora de marca, produtora inteligente. Nos anos 50 chamavam-lhe neurótica. O mundo adora mulheres modernas, desde que elas cheguem tarde o suficiente para não assustarem os homens do seu tempo.

Há ainda outro aspeto que me diverte neste centenário: o comércio. Porque claro que Marilyn continua a ser um grande negócio. Em Nova Iorque, apareceram os objetos pessoais raros, os cheques, as peças privadas, a colecção-icon, como se a santidade americana exigisse sempre uma mistura de museu, leilão e romaria para voyeurs cultos. Em Los Angeles, prepara-se uma grande exposição com vestidos, cartas e documentos. Tudo isto é tocante, claro. E tudo isto é também deliciosamente canibal. A cultura americana consegue fazer em simultâneo duas coisas notáveis: transformar uma pessoa em relíquia e a relíquia em bilhete com hora marcada. Marilyn, suspeito, acharia a operação perfeitamente lógica. E talvez exigisse percentagem.

Mas por muito cheque, vestido, catálogo, exposição e quinquilharia autorizada que se produza, nada substitui o confronto direto com os filmes. E é aí que a minha tia velhota volta sempre a ganhar à boneca oficial. Porque quando a vemos no ecrã, o mito complica-se. Ela deixa de ser só a loura absoluta, o batom, a anedota, a saia levantada pelo metro, o suspiro masculino transformado em logótipo. Passa a ser uma pessoa. Uma pessoa com timing, com inteligência de composição, com noção exata do efeito que provoca. É a diferença entre ser imagem e ser criadora de imagem.

Talvez o que mais me enterneça em Marilyn seja o facto de ela parecer sempre um bocadinho deslocada do papel que lhe foi distribuído. Mesmo quando está perfeita dentro do mecanismo, há nela qualquer coisa que escapa: uma tristeza, uma ironia, uma hesitação, uma sensação de que aquela mulher sabe sempre mais do que o filme em que está. Hollywood adorou isso enquanto pôde vendê-lo, mas nunca soube realmente lidar com ele. Porque o sistema gosta de ícones desde que eles não tenham interior. Marilyn tinha interior a mais. Tinha pensamento, nervo, ambição, fome de reconhecimento e fome de ser outra coisa além do corpo mais reproduzido do século. E um corpo destes, quando traz alma e ideias agarradas, torna-se logo muito mais difícil de administrar.

Eu, que a descobri já depois da morte, talvez tenha escapado à armadilha principal. Não precisei de a desaprender como símbolo sexual porque nunca a aprendi assim de raiz. Aprendi-a como ruína luminosa, como criatura ao mesmo tempo próxima e inalcançável, como uma tia de outro tempo que viveu depressa demais, brilhou demais, foi desejada demais e provavelmente ouvida de menos. Isso permitiu-me olhar para ela com uma mistura muito portuguesa de ternura, desconfiança e respeito. Ternura pela fragilidade evidente. Desconfiança perante o mito fabricado. E respeito pelo trabalho, que continua ali, intacto, à espera que deixemos de ser parvos.

No fundo, talvez seja isso que este centenário tenha de melhor. Não o perfume da nostalgia, não o verniz das instituições, não o desfile de objetos pessoais, mas a possibilidade de olhar para Marilyn e dizer finalmente uma coisa simples: desculpa, afinal não eras a caricatura que nos venderam. Eras mais complicada, mais engraçada, mais dura, mais triste, mais esperta e mais moderna do que quase toda a gente à tua volta. Eras, no fundo, daquelas mulheres que uma cultura inteira prefere chamar mito porque “trabalhadora genial” soaria demasiado real, demasiado incómodo e demasiado pouco sexy para os idiotas que mandavam.

E é talvez por isso que continuo a vê-la como vejo certas tias velhotas de família, dessas que já perderam a carne triunfante da juventude mas conservam uma autoridade moral sobre a sala inteira. Mulheres que já viram tudo, sofreram tudo, ouviram disparates sem fim, e que ainda assim, quando levantam os olhos, deixam toda a gente em sentido. Marilyn, mesmo morta desde 1962, continua a fazer isso. Continua a entrar na sala antes dos outros. Continua a expor a vulgaridade de quem a simplifica. E continua a parecer-me uma tia que em tempos foi uma brasa e que, pelos vistos, continua a queimar muita gente cem anos depois.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Instintivamente, tentamos fugir do desconforto através da procura de estímulos prazerosos. Entra então em ação o nosso sistema de recompensa, sempre pronto a motivar-nos para comportamentos que, mesmo que por breves instantes, nos façam sentir melhor ou, pelo menos, não tão mal. Procuramos conforto na comida, nas redes sociais, nas séries, no trabalho, nas viagens, no consumo de substâncias intoxicantes ou estimulantes, nas relações ou em qualquer forma de entretenimento.

A verdade é que esta busca constante e bem-sucedida por prazer, longe de restaurar o nosso equilíbrio, está a desregular-nos. O nosso sistema de recompensa, concebido para lidar com estímulos esporádicos, não está preparado para a estimulação contínua a que hoje é submetido. Saturado, este sistema começa a falhar. E, quando isso acontece, mergulhamos cada vez mais num ciclo de prazer instantâneo e descartável que nos deixa, paradoxalmente, cada vez mais insatisfeitos e desconfortáveis.

Reinado do prazer instantâneo

Apesar de vivermos em condições de segurança impensáveis para os nossos antepassados, estamos mais stressados do que nunca. E isso, inevitavelmente, deixa-nos desconfortáveis, algo que o nosso sistema nervoso tenta evitar a todo o custo.

Por outro lado, nunca, em toda a História da Humanidade, tivemos à nossa disposição tantas ferramentas para mitigar o desconforto e alcançar, (quase) sem esforço, sensações prazerosas. Pode dizer-se que levámos o hedonismo ao extremo − evitámos tudo o que requer esforço e é desagradável e perseguimos apenas o que é fácil e nos dá prazer imediato e intenso. E a verdade é que, do ponto de vista biológico, somos recompensados por isso (pelo menos, a curto prazo).

No mundo moderno, tudo à nossa volta nos convida a evitar o esforço, a disfarçar ou a anestesiar o desconforto em todas as dimensões − física, mental e social.

Foto: Dreamstime.com

Passamos o tempo todo em casas, escritórios e carros climatizados que não nos deixam sentir frio nem calor. Usamos café e outros estimulantes para ignorar o cansaço e começar o dia. Abrimos as redes sociais em busca de notificações, estímulos e mensagens que nos protejam do silêncio e do tédio. Ouvimos música alta para nos distrairmos e para abafarmos os pensamentos. Refugiamo-nos no trabalho e glorificamos o estar “sempre ocupados”, quando tantas vezes essa ocupação constante serve apenas para disfarçar o vazio e o esgotamento. Ainda assim, delegamos à Inteligência Artificial tarefas aborrecidas ou que exigem a nossa atenção, a nossa criatividade ou o nosso esforço, como escrever, ler, resumir, pensar…

Procuramos conforto em snacks ricos em açúcar, gordura ou sal, muitas vezes sem sequer questionarmos se a fome é real. Compramos por impulso roupa e objetos de que não precisamos, como forma de escapar a emoções mais difíceis. Um copo de vinho ou uma cerveja ao final do dia tornou-se um ritual indispensável para descontrair. Ficamos no sofá a ver “só mais um episódio” da nossa série favorita, mesmo exaustos. Trocamos o convívio em pessoa, as conversas fáceis e as difíceis, pela proteção e o conforto filtrado das mensagens e dos ecrãs. Recorremos a analgésicos ao primeiro sinal de dor e a comprimidos para dormir quando a mente não desliga. Viajamos para destinos cada vez mais longínquos, ignorando que o sofrimento viaja connosco para o outro lado do mundo.

Todos estes estímulos fáceis e que nos trazem algum alívio ativam intensamente o sistema de recompensa, mediado pela dopamina, o neurotransmissor central na motivação, na antecipação de prazer e na formação de hábitos. Temos acesso a estes picos de prazer 24 horas por dia. E, no entanto, não somos mais felizes, nem mais saudáveis.

Muitas vezes, estas tentativas de evitar a dor a curto prazo acabam por a intensificar a longo prazo. Estamos tão habituados a evitar o mal-estar que perdemos a capacidade de tolerar até as mais pequenas formas de desconforto. A verdade é que estes comportamentos trazem recompensas, sim, mas também custos. E o grande paradoxo do mundo moderno é este: quanto mais nos esforçamos por evitar a dor e o desconforto, mais os amplificamos. O que está, de facto, a acontecer ao nosso sistema nervoso quando cedemos, dia após dia, ao prazer fácil e rápido?

O lado oculto

Vivemos numa cultura da gratificação imediata, rodeados de estímulos intensos e constantes. O “prazer rápido” é exaltado e continuamente reforçado. Tornou-se não só acessível, mas desejável, promovido ativamente pela publicidade, pelos algoritmos, pelos produtos que consumimos e as aplicações que usamos. Mas há uma contradição infeliz relativamente ao prazer: quanto mais o procuramos e experienciamos, mais precisamos dele.

O nosso sistema de recompensa é um delicado e sofisticado circuito desenhado para promover a motivação e o desejo por estímulos pontuais e vantajosos à sobrevivência num ambiente de privação e escassez. No entanto, hoje, este sistema está a ser sobrecarregado e manipulado por um mundo que oferece prazer artificial, fácil, previsível, intenso e em excesso. O sistema de recompensa, tal como o sistema de stresse, não está preparado para uma estimulação constante.

Estamos expostos diariamente a estímulos que provocam picos intensos e rápidos de prazer, como os alimentos hipercalóricos, os conteúdos visuais curtos e apelativos, as séries e redes sociais desenhadas para captar a nossa atenção, notificações e compras online, pornografia, videojogos, álcool ou drogas. Quanto mais rápido e intenso o pico, mais irresistível e viciante se torna a experiência.

O resultado é uma sobrecarga do sistema dopaminérgico. O prazer e as recompensas que antes eram exceção passam a ser rotina. E o cérebro, como qualquer sistema adaptativo, ajusta-se − quanto mais estímulos prazerosos recebemos, menos sensíveis nos tornamos. Assim que o “futuro” que tanto antecipámos chega − o encontro, a encomenda, a novidade −, o prazer não fica por muito tempo, deixando um vazio, que nos prepara e motiva para a próxima recompensa. A maioria de nós reconhece este padrão: ansiar por algo durante muito tempo, apenas para sentir uma felicidade fugaz quando finalmente o alcançamos, antes de sermos empurrados para o desejo seguinte.

Apesar de vivermos em condições de segurança impensáveis para os nossos antepassados, estamos mais stressados do que nunca. E isso, inevitavelmente, deixa-nos desconfortáveis, algo que o nosso sistema nervoso tenta evitar a todo o custo

Com o tempo, o prazer de cada recompensa torna-se mais curto, menos intenso e, muitas vezes, nem chega. Instala-se a tolerância, precisamos de mais quantidade ou intensidade para obter o mesmo efeito. Com o tempo, a nossa “linha de base” de prazer desce.

Ao cedermos continuamente aos nossos impulsos mais primitivos, o prazer (ou a sua procura) torna-se crónico e esgota-nos em vez de nos nutrir. Entramos numa espiral de insatisfação contínua.

Assim, tal como com qualquer droga, inicia-se o ciclo de tolerância e dependência, e ficamos viciados. Tentamos recuperar a sensação inicial de prazer, mas esse momento não volta. A vida simples começa a perder a cor, já não sentimos prazer a ler um livro, a ver o pôr do sol ou a ter uma conversa tranquila. O que antes nos dava satisfação agora parece insípido.

O sistema nervoso tenta compensar esta sobrecarga para restaurar a homeostase, o equilíbrio. Como sabemos, cada pico de dopamina é invariavelmente seguido por uma queda. O que significa que quanto mais intensa e alta é a subida, mais abrupta e dolorosa é a descida.

Como descreve a psiquiatra Anna Lembke, no livro Geração Dopamina, o cérebro funciona como uma balança: quando se inclina para o lado do prazer, inevitavelmente penderá, na mesma proporção, para o lado da dor. Às vezes, esta compensação é evidente, como a ressaca depois de uma noite de álcool ou o vazio emocional que se segue a comportamentos compulsivos, como comer em excesso ou fazer compras impulsivamente. Porém, esta compensação nem sempre é visível, e pode surgir como irritabilidade, tristeza inexplicável, desânimo, apatia ou cansaço.

Este mecanismo, que visa a preservação do equilíbrio interno, transforma-se numa armadilha. A linha basal de prazer diminui a nossa capacidade de sentir prazer, enquanto a sensibilidade à dor interna aumenta, obrigando-nos a procurar ainda mais estímulos para fugir ao desconforto. Entramos assim num círculo literalmente vicioso; quanto mais tentamos fugir do desconforto com o prazer imediato, mais esse desconforto aumenta quando o estímulo acaba.

Temos “tudo”, mas não sentimos “nada” − ou pior, sentimo-nos mal. O que começou como alívio e fonte de bem-estar transforma-se em sofrimento silencioso e crónico.

Prazer crónico como doença

A forma como cada um de nós se relaciona com o prazer varia consideravelmente. Tal como tudo na nossa fisiologia, o sistema de recompensa do cérebro é moldado tanto por fatores biológicos como ambientais.

Do ponto de vista da biologia, diferenças genéticas e individuais influenciam a sensibilidade à dopamina, determinando o quão facilmente experienciamos satisfação ou desenvolvemos tolerância a estímulos prazerosos. Por outro lado, o ambiente, incluindo a nossa história pessoal e familiar, a nossa rede de apoio e o nosso contexto social, assim como a disponibilidade de recursos, exercem um papel fundamental neste processo.

Fatores como o stresse crónico, alimentado pela privação ou a ausência de recursos e por experiências adversas, pode aumentar a nossa vulnerabilidade à procura constante de prazer, tornando a suscetibilidade ao prazer crónico uma verdadeira doença entre genes, entre experiências e contexto social.

A exploração e a manipulação do nosso sistema de antecipação, desejo e recompensa, facilitada pelo acesso constante a estímulos prazerosos na sociedade contemporânea, contribui para uma série de desequilíbrios físicos, mentais e sociais, aumentando a nossa vulnerabilidade a doenças.

Quando procuramos, de forma impulsiva e inconsciente, aumentar os níveis de dopamina, podemos sentir um alívio temporário. No entanto, a estimulação repetida e excessiva acaba por desestabilizar a produção e a sinalização normal deste mensageiro. O cérebro adapta-se, tornando-se progressivamente menos sensível, o que conduz à incapacidade de antecipar e experienciar prazer em atividades simples do quotidiano, muitas vezes acompanhada por esgotamento emocional, sensação de vazio e depressão. Acabamos por nos perguntar: “Se tenho tudo aquilo de que preciso para viver bem, e até mais, como é possível sentir-me tão mal?”

Estas sensações de frustração, tristeza e insatisfação reforçam ainda mais a procura de alívio. Quando este padrão se torna crónico, podemos entrar no território da compulsão, da adição e da dependência − padrões de comportamento repetitivo nos quais a pessoa continua a usar uma substância ou a realizar uma determinada atividade, mesmo sabendo que isso traz consequências negativas para a sua saúde ou vida, o que envolve geralmente dependência física ou psicológica.

Ainda que muitas vezes invisíveis ou socialmente aceites, como o uso excessivo do telemóvel ou o consumo exagerado de comida, álcool ou tabaco, estes comportamentos ativam os mesmos mecanismos neurológicos que substâncias aditivas clássicas. Não é por acaso que as drogas com elevado potencial de dependência, como a cocaína ou os opioides, atuam diretamente sobre os recetores dopaminérgicos, explorando este circuito natural de motivação e recompensa.

O exagero, seja a nível de comportamentos ou de consumo de substâncias, leva o cérebro a procurar estímulos cada vez mais intensos para atingir o mesmo nível de prazer. Não é surpreendente, por isso, que os índices de adição estejam a aumentar em todo o mundo.

Este círculo vicioso não se limita à saúde mental. O excesso de prazer associado à alimentação, por exemplo, está ligado à obesidade, à diabetes tipo 2 e a doenças cardiovasculares. Já a obsessão com a pornografia ou com o jogo pode provocar facilmente sofrimento emocional e ter impactos negativos nas relações sociais e no desempenho profissional. O desequilíbrio dos níveis de dopamina está também relacionado com perturbações do humor, como os episódios maníacos, frequentemente marcados por euforia e comportamentos de risco. Estamos perante uma nova forma de desregulação do sistema nervoso: a desregulação do sistema de recompensa. Alimentada por escolhas diárias, agravada pelo stresse crónico e amplificada por um ambiente estimulante, esta disfunção afeta a nossa motivação e a nossa capacidade de sentir prazer genuíno e duradouro.

Des regulados

Um livro que nos ajuda a encontrar o equilíbrio e a regular o sistema nervoso no mundo moderno (editora Pergaminho). É, segundo a autora, um livro para todos os que estão cansados de promessas e soluções rápidas e milagrosas, e que querem compreender, com base na Ciência, o que realmente funciona. “O nosso corpo foi feito e está preparado para stressar e para sentir prazer; não precisamos de o fazer menos, precisamos de o fazer melhor”, escreve Beatriz Subtil.

Os portugueses estão aterrados com o impacto do regresso da inflação e das taxas de juro elevadas a infernizar o orçamento familiar, a penalizar os maus hábitos de uma sociedade dependente do automóvel e a ameaçar a margem disponível para as férias de verão que se aproximam.

Pior ainda quando descobrem que os milagres fiscais de Miranda Sarmento com as suas sucessivas reduções de IRS foram sobretudo acompanhadas por uma hábil manipulação das tabelas de retenção na fonte cujos efeitos se desvendam agora sob a forma de menores reembolsos de imposto ou mesmo inesperados pagamentos adicionais.

A situação económica em rápida degradação terá contribuído para os pouco animadores resultados de Luís Montenegro nas recentes sondagens ou mesmo para a surpreendente resposta de que 50% dos portugueses já acham os governos de António Costa melhores do que os da AD.

Neste quadro, as prioridades do Governo não são a economia, o apoio às vitimas das tempestades de inverno, o descalabro das respostas do SNS ou a bronca da nossa liderança europeia na explosão dos preços da habitação.

O Governo não só está a ganhar com a guerra, beneficiando do aumento das receitas de IVA, como aproveitou a breve intermitência do cessar-fogo no Médio Oriente para de imediato reduzir o magro desconto no ISP concedido nas últimas semanas.

O que é espantoso é que neste cenário de alto risco, as atenções do Governo vão para temas aparentemente mirabolantes, como a reforma da legislação laboral que ninguém pediu, a intromissão na autonomia individual em matéria de identidade de género e uma bizarria ultramontana sobre as bandeiras içadas em edifícios públicos que visa deliberadamente a simbologia arco-íris da comunidade LGBT.

O que estas matérias têm em comum é uma visão autoritária e monocolor das orientações sexuais, que claramente viola o princípio da igualdade consagrado no artigo13º da Constituição, e medidas claramente atentatórias da estabilidade familiar, da conjugação entre a vida profissional e familiar e, em ultima análise, penalizando sobretudo as mulheres e acentuando a crise demográfica.

Esperava-se por isso uma forte intervenção sobre estes temas, no Governo e no debate público, da ministra Margarida Balseiro Lopes, pelas suas competências transversais em matéria de políticas de igualdade. Infelizmente, anda desaparecida, demasiado ocupada com as questões complexas do desporto, cultura e juventude que também a sobrecarregam, ou envergonhada com as diatribes dos seus colegas de Governo e de partido.

A precariedade prolongada nos primeiros anos de vida profissional penaliza sobretudo os mais jovens, tal como a flexibilização do trabalho noturno e ao fim de semana para os pais de crianças até aos 12 anos ameaça as famílias jovens, mas sobretudo degrada a situação pessoal e profissional das mulheres, pelo que se esperava uma intervenção firme da ministra responsável pela Juventude e pela Igualdade relativamente a estes temas da reforma das leis laborais.

Já sobre a revanchista eliminação da legislação sobre identidade de género, em vigor desde 2018 sem qualquer alarme social, as questões são ainda mais graves pela suspeita inicialmente de ocultação e agora de censura do relatório técnico elaborado pela CIG-Comissão para a Igualdade de Género, sobre as propostas do PSD, CDS e Chega, que qualificou como absurdos técnicos e retrocessos na salvaguarda de direitos.

É indispensável que a questão seja esclarecida, quer as suspeitas sobre sonegação de informação das entidades técnicas qualificadas, quer no debate de especialidade, qual a posição da CIG e da própria Margarida Balseiro Lopes sobre as propostas que, contrariando as posições científicas da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos, foram já aprovadas na generalidade.

Finalmente, a absurda “lei das bandeiras”, que resultou de propostas do CDS e do Chega, e que foi aprovada em versão final na sexta-feira. Os autores das iniciativas que pretendem restringir as bandeiras permitidas em edifícios públicos exclusivamente à nacional, europeia e municipal, não escondem que pretendem acelerar o processo para impedir já no próximo dia 17 de maio, dia mundial contra a homofobia, que sejam içadas as bandeiras arco-íris nos edifícios públicos.

Para tentar escapar a uma declaração de inconstitucionalidade, por expressa discriminação em função da orientação sexual, a lei de extrema-direita, que sem pudor o PSD viabilizou, finge ser tão geral e abstrata que impedirá igualmente que sejam içadas em locais públicos, como escolas ou câmaras municipais, bandeiras da Ucrânia invadida, da Palestina ocupada ou da equipa vencedora do campeonato nacional de futebol.

Mas nesses casos, provavelmente, seriam pragmaticamente fechados os olhos, porque o que move Ventura e Paulo Núncio, esse ridículo dueto marialva, é mesmo a ostentação da homofobia militante. Será estranho ter a 17 de maio a bandeira arco-íris içada no Parlamento Europeu e em múltiplos locais por toda a Europa da liberdade e da tolerância, e Portugal a emparceirar com as restrições autoritárias da Hungria de Orban que na altura já deverá ter deixado o poder.

Novamente nesta matéria nem um pio se ouviu da tradicionalmente voluntariosa ministra da Igualdade. Pela sua inutilidade transversal em matéria de políticas de igualdade, pelo sigilo sobre relatórios oficiais críticos das propostas de direita sobre identidade de género e pelo silêncio sobre a vergonhosa lei das bandeiras, o prémio Laranja Amarga vai para a Margarida Balseiro Lopes.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

No final do ano passado fui contactado por colegas da Amphora Media, de Malta, e do CIReN, do Chipre, para unirmos esforços numa investigação conjunta sobre os recursos hídricos dos nossos países.

O plano era simples e de óbvio interesse público: tentar descobrir os maiores consumidores comerciais dos nossos países para perceber os impactos da atividade dessas empresas na vida das populações recorrentemente afetadas pela seca. Quanto lucro têm estas empresas e quem é chamado a pagar a fatura de tudo o que é preciso fazer para compensar estas populações?

A primeira tarefa era requerer das respetivas entidades públicas fornecedoras de água os dados sobre os maiores consumidores de água. A missão não se afigurava difícil: há diretivas europeias que vinculam os Estados-membros a regras de transparência. Em assuntos ambientais, essas obrigações são acrescidas.

Os colegas de Malta fizeram-no e, sem percalços dignos de relato, conseguiram a informação, mas aqui em Portugal a história foi diferente. Escolhidas as dez entidades que iria contactar, optei por uma primeira abordagem mais informal, identificando-me como jornalista num e-mail e pedindo a informação que pretendia. Do outro lado, silêncio.

Muito bem, pensei, terei de apresentar um requerimento formal. Era frustrante deparar-me com a falta de vontade das entidades públicas em colaborar. Pareciam olhar para a informação que lhes era pedida como se lhes pertencesse e não a nós, cidadãos.

Os requerimentos foram submetidos e, passado o prazo legal, dez dias úteis, deparava-me com uma de duas situações: ou me ignoravam por completo ou se recusavam a prestar a informação com base em argumentos jurídicos rocambolescos. Algumas entidades entendiam que as empresas são, no fundo, gente e merecem a proteção dos seus dados identificativos. É um sentimento enternecedor, mas sem qualquer tipo de respaldo na lei.

O famoso Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) tem como finalidade proteger a privacidade das pessoas singulares, mas aqui estava a ser usado como pretexto para proteger a identidade de pessoas coletivas, empresas que usam os nossos recursos hídricos.

Outras entidades disseram que não divulgavam nomes de empresas porque isso poderia, de alguma forma, sem dizer como, prejudicá-las. Nunca especificaram de que forma poderia acontecer e, na mente desconfiada de qualquer jornalista que se preze, só se poderiam começar a formular perguntas sobre o que teriam a esconder.

Houve ainda um caso de uma entidade que, dando asas à sua imaginação, produziu um documento enorme onde, entre outras coisas, explicava que se calhar até tinha celebrado com empresas contratos de fornecimento de água que incluíam cláusulas de confidencialidade. Disseram-me que não poderia esperar que eles agora fossem ter o trabalho de olhar para dez contratos a ver se esse era ou não o caso.

Embati num muro. O passo seguinte foi recorrer à Comissão de Acesso a Dados Administrativos (CADA) que é, em Portugal, a quem se pode recorrer nestes casos. Apresentei dez queixas, tantas quantos os pedidos que tinha feito. No mês seguinte, nove delas foram analisadas e a CADA emitiu pareceres que em todas me eram favoráveis.

Confesso que suspirei de alívio perante o que imaginava ser o fim da odisseia. O que aconteceu de seguida espantou-me na exata medida da minha ingenuidade. Como os pareceres da CADA não são vinculativos, todas as entidades excepto uma decidiram simplesmente ignorá-los. Uma única entidade acatou o parecer da CADA e as outras nove continuaram a ignorar-me (e à CADA) ou entraram em contacto comigo continuando a recusar os dados usando os mesmíssimos argumentos que a CADA tinha refutado.

O poder dos pareceres da CADA está no facto de serem produzidos por juristas especialistas nesta matéria, o que indica que, se o caso for para tribunal, a decisão irá possivelmente no mesmo sentido. Mas do outro lado da balança está o facto de não ser barato interpor uma ação em tribunal.

Do lado das entidades está o conforto de não ter de fazer nada e de saber que terão o apoio das suas equipas jurídicas pagas pelos contribuintes. E há ainda conforto em saber que é o jornalista que terá de pagar do seu bolso a um advogado que o represente e as taxas pela interposição das ações. E isto sem falar do esforço, do stress e do tempo gasto sem ter a certeza de sucesso..

O plano é inclinado e joga em desfavor do escrutínio democrático dos organismos públicos. Apesar dos pareceres da CADA, estas entidades que são, lembremo-lo, organismos públicos, apostam na fragilidade financeira dos jornalistas para se escusarem a cumprir a lei.

O jornalismo é feito a partir de dados. É por isso que as regras de transparências são tão importantes. Quando os organismos públicos se recusam a ser transparentes, é a própria democracia que é posta em causa.

Aquilo com que, neste caso, não contaram foi que quanto maior é a resistência a fornecer estes dados, mais se desperta curiosidade jornalística e mais suspeito se torna todo o processo. Foi por isso que lancei uma campanha de angariação de fundos para que todos, na medida do possível, possam ajudar e fazer parte deste esforço de obrigar o Estado à transparência que nos deve, para que possa ser devidamente escrutinado pelos cidadãos.

O link para angariação de fundos, para quem queira e possa ajudar, está aqui.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

No Largo da Graça juntam-se os fregueses à volta do coreto num domingo de abril que começa a aquecer. À volta da praça, uns painéis ali colocados esperam a fúria do graffiti, um workshop que irá fazer as delicias dos mais jovens, enquanto, no palco, o núcleo da Orquestra Geração na Escola Gil Vicente afina as cordas para o seu Concerto da Primavera. Mais à frente, barracas vendem livros antigos, quadros e artesanato.

A Feita Insólita decorre até ao dia 30 de abril, com concertos, conversas e workshops. A VISÃO associou-se ao evento da Junta de Freguesia de São Vicente e, na próxima quinta-feira, dia 23, pelas 17h30, promoverá ali uma conversa sobre a democracia e o jornalismo livre. Pois sem um não há o outra… e vice-versa.

Este é o largo que, daqui a pouco mais de um mês, vai cheirar a sardinha por todo o lado, pois recebe umas das mais animadas e concorridas festas de Santos Populares de Lisboa. À noite, quem passa junto ao Liceu Gil Vicente, já houve os acordos da Marcha da Graça, que anda nos ensaios. Mas, por agora, o Largo está ocupado pela Feira Insólita. Para algo completamente diferente.

Este espaço, habitualmente de passagem apesar do coreto – onde de vez em quando praticantes de danças de salão ou de capoeira são lá vistos a treinar a sua arte -, acaba por ser pouco dinamizado e é pena. Desde que, há uns anos, se tiraram de lá os carros estacionados e se reclamou para a comunidade o largo principal do bairro, só pontualmente se ocupa com atividades, embora já tenha a sua feira de artesanato e produtos regionais todos os fins de semana. Mas acaba por ser sobretudo um lugar que se atravessa a caminho das esplanadas do Miradouro.

A ideia da nova equipa da Junta de Freguesia, eleita em outubro e liderada por André Biveti, é promover no Largo da Graça mais eventos que funcionem como agregadores do espírito comunitário. Até porque a Graça, apesar de já pressionada pelo turismo intensivo e pelo trânsito caótico de tuk-tuks, ainda consegue ser um bairro de vizinhos que se cumprimentam na rua. E, talvez justamente por isso, é um dos bairros de eleição dos imigrantes de origem europeia que se fixam em Lisboa.

O concerto da Primavera da Orquestra Geração. Ao fundo, o polémico Quartel da Graça. Foto de Gonçalo Villaverde

No domingo, o largo encheu-se de famílias, atraídas tanto pelas tintas do graffiti como pelas notas clássicas da Orquestra Geração, um projeto singular que ensina música a crianças e jovens, muitos deles vindos de contextos mais vulneráveis, usando a música para a transformação social, a promoção da diversidade e da inclusão. O “elefante na sala” nesta praça em festa era mesmo o imenso Quartel da Graça, o edifício no centro de grande polémica – a Câmara Municipal de Lisboa licenciou ali um hotel, mas os moradores lutam por um espaço cultural, desportivo e para a comunidade. Afinal, nem todo o desenvolvimento da cidade passa pelo setor do Turismo.

A Feira Insólita segue até ao fim do mês e, além da já referida conversa com a VISÃO, vale a pena anotar na agenda:

  • O Amanhã está atrasado: Ensaio sobre um relógio – conversa com Francisco Rodrigues dos Santos e Pedro Costa, dia 21 às 17h
  • “Somos Abril! Um ensaio sobre a Liberdade com a Colombina Clandestina” – fanfarra, dia 21, às 18h
  • Não há nada mais insólito do que a democracia – conversa com Cláudia Jardim e Noiserv, dia 22 às 17h30
  • Escritas, espaços e territórios: uma conversa sobre os livros “Decomposição dos Pássaros” e “Zuca”, com as autoras Eltânia André e Fernanda Haman, dia 22, às 16h00
  • Conversa VISÃO: Jornalismo e democracia: Uma história de amor em tempos tóxicos, com Margarida Davim e Filipe Luís + Pedro Santos, dia 23, às 17h30
  • João Melo conversa com Telma Tvon: “Do humor angolano e a(s) literatura(as)”, conversa e leitura de textos, dia 24 às 18h30
  • Conversa Redescobertas Portugais e Brasis, A Escrita de Susana Ventura, dia 26 às 14h
  • Conversa Insólita: A política do preço certo, com Rui Tavares e Pedro Mafama, dia 27 às 17h30
  • Conversa Insólita: A imagem não é inocente, com Joana Barrios e Paula Cardoso, dia 30 às 17h30
  • Workshop de cerâmica. Dias 21, 22 e 23 de abril às 17h
  • Workshop de watercolor. Dias 23 e 24 de abril
  • Workshop de estampagem. Dia 25 de abril às 10h
  • Workshop com Ariana Furtado. Dia 26 de abril às 11h

A recente defesa de esforços para promover listas únicas nas federações e concelhias do Partido Socialista, avançada por José Luís Carneiro, exige uma reflexão mais exigente do que aquela que tem sido feita. A estabilidade interna é um objetivo legítimo. Mas não pode ser confundida com a limitação da escolha.

Os partidos políticos não são meras estruturas organizativas. São pilares fundamentais do sistema democrático. A forma como se organizam, como escolhem os seus dirigentes e como integram — ou excluem — a divergência interna tem consequências diretas na qualidade da democracia. Quando o pluralismo é limitado dentro dos partidos, a democracia empobrece fora deles.

O que ocorreu no último Congresso Nacional do Partido Socialista, em Viseu, não pode ser desvalorizado. Uma lista alternativa à Comissão Nacional, apresentada com 251 candidatos, acompanhada das respetivas declarações de aceitação e subscrita por um número de delegados superior ao exigido, não foi admitida a votação. A decisão foi tomada sem fundamentação formal conhecida, sem verificação documental transparente e sem garantia de contraditório. Acresce que as listas apresentadas não constaram do boletim eletrónico, tornando materialmente impossível qualquer escolha efetiva por parte dos delegados.

Estes factos não são circunstanciais. Revelam uma dificuldade estrutural em assegurar, na prática, condições efetivas de pluralismo interno.

Um partido democrático constrói-se na existência de alternativas reais e na possibilidade concreta de escolha entre projetos distintos. É nesse espaço de confronto que se constrói legitimidade política. Quando esse espaço se estreita, não se reforça a unidade. Reduz-se a qualidade da democracia interna.

A questão adquire particular sensibilidade quando se observa o enquadramento institucional do recurso apresentado. A Comissão Nacional de Jurisdição, chamada a pronunciar-se, poderá vir a decidir sobre um processo do qual resulta a sua própria composição, sendo simultaneamente beneficiária do resultado e entidade decisora sobre a sua validade. Trata-se de uma circunstância objetiva que suscita dúvidas legítimas quanto à imparcialidade do procedimento e à perceção pública dessa imparcialidade.

Não está em causa a idoneidade das pessoas. Está em causa a credibilidade do próprio processo.

A ausência de decisão até ao momento, conjugada com diligências promovidas sobre matéria diretamente relacionada com o objeto do recurso — sem contraditório e incidindo sobre apenas uma das candidaturas — não contribui para a clarificação da situação. Pelo contrário, reforça a perceção de desigualdade de tratamento e fragiliza a confiança nas instâncias internas.

A promoção de listas únicas como solução organizativa parte de um equívoco de fundo. A vitalidade de um partido não se mede pela ausência de divergência, mas pela sua capacidade de a integrar. A unidade não se constrói eliminando alternativas. Constrói-se criando condições para que existam, sejam discutidas e, no final, legitimadas pelo voto.

A ideia de que a convergência total traduz maturidade política ignora uma evidência elementar: sem escolha não há responsabilidade política efetiva. E sem responsabilidade política, a legitimidade degrada-se.

Num momento em que os partidos enfrentam desafios crescentes de credibilidade, mobilização e confiança pública, a limitação do pluralismo interno não é um detalhe técnico. É uma questão de substância democrática. É também uma questão de coerência: quem defende a democracia no espaço público não pode relativizá-la no espaço interno.

O Partido Socialista tem uma história que se confunde com a defesa da democracia plural. Preservar essa tradição implica mais do que evocá-la. Implica praticá-la.

Um Congresso deve ser o espaço de afirmação de alternativas e de exercício pleno do direito de escolha. Quando essas alternativas existem e não são admitidas a votação, fica objetivamente comprometida a integridade do processo democrático interno.

Porque, em democracia, há uma distinção essencial que importa preservar: a verdadeira unidade não se decreta. Constrói-se.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

No debate que todos sabem, levantou-se um conceito, trazido por ambos os debatentes, que foi este: o preso político. Estar preso, de modo geral, significa ser afastado da liberdade pessoal e, dessa forma, acabar privado do uso voluntário de si próprio a vários níveis. Ser preso político é, pois, justamente isto, contudo, em especial, desta vez, também quanto à liberdade coletiva em fazer uso da palavra e usá-la como ponto de partida para uma rutura do curso da vida comum em sociedade.

Sobre este tema, esgrimiram-se, pois, números, argumentos, contextos, relatórios, geografias, dados históricos, memórias pessoais e até adereços de tortura, porém, em momento algum, se conseguiu sair do charco ideológico que faz tudo-tudo parecer discutível, mas não permite que o discutido chegue, verdadeiramente, à fase das conclusões que todos, espectadores e não-espectadores até, esperam.

Entenda-se que, enquanto o boomerang ideológico circulava entre as bocas de Pacheco Pereira e Ventura, permanecia ausente um ângulo essencial, que poderia acrescentar, mesmo, substância ao espaço público e, sobretudo, à forma como cada um de nós se reconhece enquanto sujeito de liberdade.

Aliás, mais do que medir, à régua partida da História ou à régua torta do Direito, o dano que um determinado conceito infligiu a uma sociedade num concreto tempo e espaço, a urgência da discussão deveria ter sido a vigência do próprio conceito enquanto tal. Por outras palavras, não só encontrar, naturalmente, o número de presos políticos que houve, num sítio ou noutro, ontem ou mais-ontem-ainda, mas encontrar, isso sim, o número que há, aqui e agora: no Portugal Hoje, que, apesar de formalmente livre, permanece para sempre abeirado do que nunca conseguiu ser e podia ter sido.

A este propósito, imagino que o professor José Gil, ironicamente, pudesse sorrir ao ponto que agora se levanta, não por o negar, mas por saber há décadas, que o problema se situa num plano diferente: aquele em que uma sociedade, mesmo livre, pode nunca chegar a experimentar plenamente a sua própria liberdade ora porque não sabe o que fazer com ela, ora porque, quando quase desvenda este não-saber, foge do que esta realmente permite.

Por isto, o degrau a que o debate entre Pacheco Pereira e André Ventura não chegou, com grande certeza mas com ainda maior prejuízo cívico para o cidadão que vai tentando ser o que já nunca consegue, foi o de não refletirem sobre o facto da democracia portuguesa ter, sem dúvida, partido as grades de um governo indiscutivelmente ditatorial, mas não nos ter proporcionado o que ainda procuramos descobrir: sair delas! Foi este o crucial ângulo ausente do debate e que prometia, de facto, à luz ideológica de cada debatente, um rumo verdadeiramente progressista de um tema que os portugueses esperam há séculos e não se verifica nunca.

Em Portugal, tem-se falado muito de assuntos importantes, porém tendencialmente de um ponto de vista que, de forma nenhuma, nos irá, assim, desvendar o horizonte pleno da liberdade que herdámos várias vezes, mas nunca chegámos a habitar vez alguma. Por cá, mesmo que com as melhores leis, mesmo que com os melhores legisladores e mesmo, até, que com os melhores cidadãos, há uma prisão-política que subsiste ao infinito do tempo e nos tem escapado sempre: aquela que acontece em liberdade e, com uma força disfarçada de si mesma, adia o que, sem fazermos a menor ideia, somos realmente.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Cinco milhões de euros por dia. Este é o valor que os portugueses gastam em raspadinhas. Um número que impressiona à primeira leitura, mas que rapidamente se transforma em algo mais inquietante quando olhamos para lá da superfície. Porque a verdadeira pergunta não é quanto se gasta, é quanto deste valor regressa àquilo que está na origem deste comportamento: a saúde mental, a ansiedade, o medo e a sensação constante de escassez que tantas pessoas carregam em silêncio.

A resposta é desconfortável. Muito pouco, ou quase nada, é reinvestido naquilo que realmente importa. Alimenta-se o vício, mas ignora-se a raiz. E é precisamente aí que reside o problema mais profundo.

O vício não começa no jogo. Começa no medo. Ninguém acorda de manhã com a intenção consciente de perder dinheiro. Mas muitos acordam com a sensação de não ter controlo sobre a própria vida, com a pressão de contas para pagar, com a ideia persistente de que o dinheiro nunca chega. E é neste espaço emocional frágil que a raspadinha entra, não como entretenimento, mas como uma promessa silenciosa de alívio. Um raspar rápido, um segundo de adrenalina, uma possibilidade, por mais remota que seja, de mudar tudo sem dor, sem esforço, sem tempo.

Mas essa promessa é curta. E o vazio regressa. Sempre.

Vivemos numa era onde o dinheiro pode ser escasso, mas onde a sensação de escassez é ainda mais agressiva. As pessoas não procuram apenas ganhar mais, procuram escapar. Procuram atalhos. Procuram soluções rápidas para problemas que exigem estrutura, tempo e disciplina. E assim nasce um ciclo perigoso: a falta de dinheiro gera ansiedade, a ansiedade empurra para decisões impulsivas, essas decisões geram perda, e a perda reforça a sensação de escassez. Um loop silencioso, repetitivo, emocionalmente desgastante.

E depois há a parte que poucos têm coragem de admitir: o jogo não vicia apenas pelo dinheiro. Vicia pela sensação. Aquele momento antes de raspar, aquele pico de expectativa, aquela descarga de adrenalina. É química. É o cérebro a procurar estímulo numa vida que, para muitos, se tornou pesada, previsível ou emocionalmente vazia. Mas essa adrenalina é barata. E tudo o que é barato cobra caro mais tarde. Porque substitui aquilo que verdadeiramente constrói bem-estar: progresso real, conquistas sustentadas, crescimento pessoal.

O mais inquietante é que este tipo de comportamento raramente aparece isolado. Está frequentemente associado a ansiedade crónica, falta de controlo financeiro, baixa literacia emocional e um padrão de decisões impulsivas que se estende a outras áreas da vida. Não estamos a falar apenas de raspadinhas. Estamos a falar de um padrão mental coletivo.

A verdade custa, mas precisa de ser dita: o jogo não existe para fazer ninguém ganhar. Existe porque há quem acredite que pode ganhar. E essa crença, quando não é acompanhada por ação consciente, disciplina e visão de longo prazo, transforma-se numa armadilha emocional.

No final, não é sobre dinheiro. É sobre consciência. Cada raspadinha comprada não é apenas um gesto automático, é uma decisão emocional. É escolher entre um segundo de esperança ilusória ou um caminho mais exigente, mas real, de construção.

Não se trata de julgar quem joga. Trata-se de não romantizar. Porque por trás de cada bilhete há uma história que raramente é visível: uma história de medo, de pressão, de cansaço, de falta de alternativas percebidas. E talvez a pergunta mais importante não seja “e se eu ganhar?”, mas sim “o que na minha vida me faz acreditar que esta é a melhor forma de mudar?”.

Enquanto essa pergunta continuar por responder, o ciclo mantém-se.

Silencioso. Disfarçado. Socialmente aceite. Mas profundamente destrutivo.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.