Tudo é política

A capa é verde, mesmo que digam que é vermelha. A crónica de Margarida Davim, agora premiada

O meu trabalho é escrever que a capa de cartolina é verde. Não porque eu digo que é verde, mas porque o método jornalístico que sigo permite concluir que é verde. Não sei quantas pessoas acreditam ainda na importância de ter um jornalista a escrever que a capa de cartolina é verde. Não sei quantas estarão disponíveis para aceitar que é verde depois de ter sido induzidas a acreditar que era vermelha. Mas foi para isto que escolhi esta profissão

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A conversa da bolha

A quem é que isso interessa? Interessa aos que não querem ser submetidos ao escrutínio do jornalismo e, por isso, o desclassificam. Interessa aos que querem semear o caos da descrença para oferecer a ordem da obediência e da crença cega. Interessa aos que não gostam dos resultados da ciência e do estudo e querem manter uma ignorância que lhes protege os interesses

Tudo é política

Dedicado a todos os homens (e mulheres) que odeiam as mulheres

Eu sei que eles não são a maioria. Eu sei que talvez nunca venham a ser a maioria. Mas eles contam com uma maioria que se cale, que se encolha, que os deixe ocupar todo o espaço com os seus gritos, que aceite que não vale a pena enfrentá-los, que os trate com a compaixão que merecem os que não sabem o que fazem ou se entretenha a tentar compreender os motivos profundos do seu ódio. Não contem comigo para isso. Não estou cá para isso.

Portugal, a perder gente há mais de 50 anos
Tudo é política

A gaiola dourada da emigração

“Quer saber de um apoio a imigrantes que é uma vergonha e de que ninguém fala?”. Nenhuma reação. Avancei: “Todos os anos damos uma borla de 1700 milhões de euros a residentes não habituais. Estes imigrantes ricos só pagam 20% de IRS e têm um poder de compra que fez disparar o preço da habitação”. Um coração em resposta. “Quando quiser procurar os culpados, olhe para cima. Não olhe para baixo”, insisti. E, nesse instante, alguma coisa mudou.

Tudo é política

Os outros não têm medo

Este é um texto sobre incompreensão. E sobre como não conhecemos o País. Se há uns que estão cabisbaixos e amedrontados, há os outros. Os que não têm medo, porque a liberdade, a fraternidade e a igualdade não têm espaço nas vidas que levam

Tudo é política

Eles não são todos iguais: Vão e votem

Olhem bem para o papel que têm à frente. Esse boletim de voto custou muito a chegar-vos às mãos. Houve gente a ser torturada e a morrer, a viver escondida e perseguida, para que hoje pudessem pôr uma cruz nesse papelinho. É um papel frágil, que não vos dá tudo o que prometeu. Mas é nele que se podem escrever todas as promessas, todas as esperanças, toda a imaginação de que se pode fazer o futuro. Não o deixem em branco

Tudo é política

Atenção! Atentado ao pudor

Somos treinadas para baixar os olhos, tapar o corpo, falar baixo e pouco. E, se não o fazemos, somos bruxas, loucas, taradas, convencidas, mal comidas, à procura de atenção. Não sei como se chama a mulher que desceu a avenida que ainda tem o nome da liberdade. Sei que a imagem dela tem a força de um grito. E que este é o momento para gritar

Tudo é política

Precisamos de falar de liberdade. Crónica de Margarida Davim

Precisamos de falar de liberdade, da liberdade a sério, construída em luta e festa, feita com todos e para todos, mesmo para os que não gostam dela, para que até esses possam dizer o que querem e que não lhes falte a saúde, a educação e a habitação quando o azar lhes bater à porta e descobrirem que, afinal, a liberdade não é um substantivo individual, mas só é plena quando se escreve no coletivo.

Opinião

O que nos falta é "espanto político"

Paralisados pelas ideias da autoajuda, limitados pela crença de que só as nossas crenças nos limitam, anestesiados pela indignação amorfa das redes sociais, incapazes de interrogação e “espanto político”, deixamo-nos domar. Porque só “espanto político” nos pode fazer ver o mundo como ele é e ser capazes de exigir que ele seja como imaginamos que devia ser

jovens adolescentes smartphones
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A geração do fim da privacidade

Os que agora são adolescentes foram mostrados ao mundo na primeira ecografia, viram filmada cada uma das suas gracinhas de bebé, publicadas todas as fotos de férias e aniversários. Foram os próprios pais que os ensinaram a perder a fronteira entre o público e o privado

Tudo é política

"Vendemos personalidade, não vendemos pornografia"

As pessoas são a mercadoria. O seu tempo, os seus dados, a sua imagem. Somos explorados e exploradores, apanhados num scroll infinito, que nos deixa viciados, desligados do mundo e cada vez mais sozinhos. Tão sozinhos, que isso nos torna ainda mais dependentes desse mundo virtual e artificial

Tudo é política

Os metecos e os mercadores de sono

A vantagem de ter uma lei como esta não é só (embora também seja) punir os exploradores que lucram com o desespero dos outros. É que o Miguel perceba contra quem deve dirigir a sua justa raiva. E que a polícia passe a perseguir não os Metecos, mas quem os explora

Opinião

"Nós somos a maioria, eles são o 1%"

“Nós somos a maioria, eles são o 1%”, diz Sanders. Enquanto assisto à queda dos princípios de igualdade perante a lei, justiça e liberdades individuais no prometido oásis das democracias ocidentais, a ideia de Sanders parece a única esperança possível. “Nós somos a maioria, eles são o 1%”

Tudo é política

Tanto fez que agora tanto faz?

Nada é mais estável do que uma ditadura. Sob uma ditadura, não há crises políticas nem escândalos. Imaginem o sossego! Acabam-se as notícias sobre casos, casinhos e megaprocessos. Acabam-se mesmo as notícias. Ninguém faz perguntas e ninguém chateia

Tudo é política

O saber não ocupa lugar?

Uma vez, um amigo (que por sinal é engenheiro informático e trabalha numa empresa de IT) disse-me que um dia olharemos para as imagens de crianças com ecrãs nas mãos com o mesmo horror que hoje nos causam as fotografias de menores a fumar ou a trabalhar em fábricas. Se chegarmos a esse dia, ainda haverá alguma esperança

Tudo é política

Trabalhos de pobre

A ideia de que o trabalho nos define está, cada vez mais, fora de moda. E talvez haja um lado muito positivo nisso. Mas o desprezo por aquilo que se faz é também um sintoma de uma sociedade deslassada, que endeusa o ilusório mérito individual e perde de vista a força do que se produz num coletivo. Estamos cada vez mais pobres. E é de espírito

Tudo é política

A armadilha do senso comum

Quem acredita que a democracia se pode construir como o reino de um “senso comum” guiado pelo “puro bom senso” está, mesmo que não se aperceba disso, a abrir caminho para uma submissão aceite sem crítica

Videovigilância | Reconhecimento facial
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Nas nossas costas, enquanto escolhermos não olhar

O sonho de controlo de qualquer ditador passa agora a estar disponível às forças de segurança num dos maiores blocos da democracia ocidental. Alguém se lembra de um debate sobre o tema? Quantos sabiam que estas novas regras estavam a ser cerzidas nas nossas costas? Andamos certamente distraídos. Ou deixámos simplesmente de nos importar?

Tudo é política

Nós não comemos gelados com a testa

O que importa a verdade? Nada, porque ela não nos sossega. Se o que nos inquieta é o salário que não estica, o médico que não nos atende, a escola onde falta o professor, a casa que não temos como pagar, a indignação tapa-nos o buraco da alma, o ódio dá-nos o conforto da explicação

Carta aos jornalistas
Tudo é política

Para que serve o jornalismo?

Escrevo este texto em dias de grande perturbação para a redação da VISÃO. Vivemos numa enorme incerteza. E haverá quem culpe o mercado, quem nos diga que é o futuro inexorável que aí vem, com os seus algoritmos e inteligências artificiais, quem ache que não faremos falta e quem se regozije com a possibilidade de ver desaparecer quem interroga, quem incomoda, quem escrutina e expõe. A todos gostaria de pedir que parassem para pensar e imaginassem esse futuro sem jornalismo

Tudo é política

A moral é obrigatória para os pobres

Não é difícil imaginar que Lor Neves tenha de ouvir muitas vezes um “vai para a tua terra”. O que exige muito mais imaginação é pensar que um dos 50 estrangeiros a quem o Estado português deu em 2023 uma borla fiscal de 262 milhões de euros tenha alguma vez ouvido coisa semelhante. Ao todo, estes imigrantes ricos receberam do Estado benefícios fiscais que nos custaram 1,3 mil milhões de euros no ano passado. Mas isso não causa sobressalto