Luís Montenegro

Um primeiro-ministro em construção

Foto: Tiago Miranda

Como pensa e decide o primeiro-ministro, quem o aconselha e que estratégia tem para liderar um governo minoritário. A VISÃO foi aos bastidores do Executivo para dar pistas sobre como funciona Montenegro. LEIA AQUI

Pedro Nuno Santos

O renovador do PS

Foto: Marcos Borga

Ressente-se do “sufoco” da pressão para aprovar o Orçamento, mas pensa neste ciclo político como uma maratona. Eis o retrato e a estratégia de um líder a quem uma crise política trocou as voltas. LEIA AQUI

Quase a completar 30 anos, o mais camaleónico dos grandes festivais de verão nacionais parece ter encontrado não só um poiso definitivo como um perfil que o diferencia da concorrência. Recuemos até 1995, quando o Super Bock Super Rock, então realizado no Passeio Marítimo de Alcântara, no centro de Lisboa, deu início à idade moderna dos festivais de música em Portugal. Desde então, passou por muitos locais, e até cidades, mudando-se em 2019 para a Herdade do Cabeço da Flauta, no Meco.

Com a mudança para esta nova casa, parece ter mudado também o perfil do festival, que passou a assumir-se como uma alternativa aos blockbusters quase sempre repetidos de uma concorrência cada vez mais forte, chamando artistas mais fora da caixa, porventura mais de nicho e direcionados para um público mais jovem e conhecedor, muitas vezes em estreia nos palcos portugueses. Como acontece nesta edição com os italianos Måneskin, responsáveis pela ressurreição do glam rock junto de toda uma nova geração de ouvintes, especialmente depois da surpreendente vitória no Festival da Eurovisão, em 2021.

É à banda de Roma que cabe o estatuto de cabeça de cartaz do primeiro dia, quinta, 18, em que se destacam também a DJ e produtora russa Nina Kraviz, os britânicos Royal Blood, os “nossos” Capitão Fausto ou o norte-americano Tom Morello, eterno guitarrista dos Rage Against the Machine.

Como já é habitual, desde há alguns anos, o SBSR volta a ter um dia dedicado ao hip-hop, quase sempre um dos mais concorridos, como se espera que volte a acontecer neste ano com a presença do anglo-americano 21 Savage e do português Slow J, que partilham entre si o protagonismo do segundo dia, sexta, 19. A cultura hip-hop volta ainda a estar em destaque, no sábado, 20, com as atuações do rapper britânico Stormzy e do seminal coletivo portuense Mind da Gap, de regresso ao ativo após nove anos de hiato.

Super Bock Super Rock > Herdade do Cabeço da Flauta, Sesimbra > 18-20 jul, qui-sáb a partir das 17h > €72 a €164

Confirma-se: o tiro na orelha de Trump foi um tiro mortal em Biden. O mais poderoso de todos os congressistas democratas, Adam Schiff, da Califórnia, que conduziu um dos inquéritos de impeachment contra Trump, pediu abertamente a Biden para desistir da corrida eleitoral. «Chegou a hora», disse, ao mesmo tempo que foi anunciado um adiamento da Convenção democrata, onde seria aclamado o candidato.

Biden voltou à campanha, mas está mais desastrado, mais tenso, mais atrapalhado. Quanto maior a pressão, de todos os lados, mais se avoluma a sua incapacidade como presidente e candidato. A família, em particular a mulher, tem de aceitar a desistência. Biden está a ficar cada vez mais longe de Trump, em estados decisivos, e também a colocar em causa os lugares de muitos representantes democratas que vão a eleições.

É nessa onda de dupla derrota que agora se fazem as contas. Perder a Casa Branca é muito mau, mas levar uma sova na Câmara dos Representantes, em senadores e governadores é um fiasco total. Biden, invocam, como presidente do Partido, por inerência, tem de evitar o desastre eleitoral, não olhando apenas para o seu cargo.

A questão, agora, é saber quem pode avançar contra Trump? Kamala Harris? Um senador ou um membro da Câmara dos Representantes? Um governador democrata, normalmente a solução mais fácil? As eleições americanas (presidente, toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado, mais alguns governadores) são já daqui a três meses e poucos dias. É agora ou nunca.

Quem disse a Nixon que tinha de se demitir foi Henry Kissinger. Quem tem de dizer a Biden que acabou, só pode ser Obama.

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Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Embora seja tantas vezes motivo de discórdia e utilizado como pólvora para incendiar radicalismos perigosos, o desporto tem também uma capacidade única, quase milagrosa, para conciliar vontades e conseguir unir estados ou nações. Na sua essência, o desporto é um instrumento insubstituível para uma vida saudável, ao mesmo tempo que desempenha um papel fundamental na criação de bons hábitos de vida em sociedade: demonstra a importância do esforço, do trabalho de equipa e do espírito de resistência para superar adversidades. E, quando bem enquadrado, tem uma virtude cada vez mais necessária nos atuais tempos crispados e radicalizados, em que todos querem ter razão: ensina a perder ‒ porque ninguém ganha sempre, por mais que a tantos lhes custe admitir.

O desporto ajuda a formar o caráter. E, num segundo nível, é um elemento agregador de comunidades e até de identidade nacional. Quando uma equipa ou um atleta que enverga as nossas cores ganha uma competição global, todos nos sentimos, nem que seja um bocadinho, campeões da Europa ou do Mundo. Festejamos e celebramos com alegria, mas também com orgulho. E, coletivamente, com essa vitória, sentimos que o nosso país subiu algum degrau na competitividade global das nações.

O nível de desenvolvimento desportivo de um país devia ser, por estas razões, uma prioridade dos decisores políticos, ao nível de outros indicadores como os da Saúde, Educação e Cultura. Até porque todas estas áreas acabam, de uma forma ou de outra, por se cruzarem e até se desenvolverem em conjunto. E, se isso for feito, quando as vitórias se repetem, os políticos podem festejar os troféus como tendo sido parte integrante desse caminho e não apenas uns passageiros de última hora no autocarro do desfile de celebração.

Embora os troféus e medalhas estejam sempre dependentes de fatores puramente desportivos, além do talento geracional e da sorte que acompanha os audazes, a verdade é que a História demonstra que os países com maior desenvolvimento desportivo ganham mais do que os outros.

No último domingo, a nossa vizinha de fronteira viveu mais um dia de glória desportiva, com a seleção espanhola de futebol a sagrar-se, pela terceira vez em 16 anos, campeã europeia de futebol e, no mesmo dia, o tenista Carlos Alcaraz repetiu o triunfo no torneio de Wimbledon. Observadores mais imediatistas podem considerar que essa coincidência se deve apenas a um raro alinhamento geracional, visto que tiveram um contributo excecional de dois jovens de 21 anos (Alcaraz e Nico Williams) e de um de 17 (o já supermediático Lamine Yamal).

Sem desvalorizar o talento imenso desses três protagonistas, não nos podemos esquecer que o êxito desportivo que a Espanha celebra nos últimos anos é bem mais abrangente e variado. Ainda há cerca de um ano, a seleção feminina espanhola de futebol sagrou-se campeã mundial ‒ curiosamente também numa final contra a Inglaterra ‒, embora, injustamente, grande parte da opinião pública se lembre mais do beijo de Luis Rubiales a Jenni Hermoso do que dos nomes de muitas das atletas que ergueram o troféu.

Nada disto surgiu do acaso. O êxito de Espanha em diversas modalidades reflete, isso sim, anos e anos de políticas que encaram o desporto como um setor importante para o desenvolvimento humano, mas também para a imagem do país ‒ tanto interna como externamente.

Quando se contam as medalhas olímpicas conquistadas pelos dois países ibéricos até 1976, na época em que ambos tinham acabado de sair de longas ditaduras, a diferença era ténue: Espanha tinha nove subidas ao pódio e Portugal contava com sete. Depois, foi ligado o motor da candidatura aos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, e tudo mudou… do lado de lá da fronteira. Agora, dentro de dias, a comitiva espanhola parte para os Jogos Olímpicos de Paris com 382 atletas e um pecúlio acumulado de 171 medalhas (48 de ouro), enquanto Portugal participa com 74 atletas e a memória de 28 medalhas (apenas cinco de ouro).

Podemos encontrar muitas explicações para esta discrepância de resultados que ocorreu nas últimas décadas. Mas o que não podemos é continuar a pensar que a culpa é do treinador, seja ele qual for. A tática que se utiliza num jogo é importante, bem como o talento que se reúne numa equipa, mas os resultados sustentados, em diferentes modalidades e desportos, só se conseguem com políticas robustas, alicerçadas em estruturas associativas fortes e presentes em todo o território.

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A história política norte-americana foi sempre marcada pela violência. Quatro Presidentes foram mortos no exercício dos seus mandatos (Abraham Lincoln, James Garfield, William McKinley e John F. Kennedy) e outros três ficaram feridos em tentativas de assassínio (Ted Roosevelt, Ronald Reagan e Donald Trump). Que se conheçam, foram mais de trinta as tentativas falhadas ou abortadas para matar sucessivos Presidentes, um contínuo de crimes que permite a entrada de uma quantidade de anónimos nas páginas da História. À falta de explicação mais elaborada, pode ter sido esta uma das razões para o que aconteceu, no recente comício republicano, na Pensilvânia.

Porém, tal não desvaloriza três importantes pontos sobre o caso. Primeiro, a existência enraizada de uma cultura de violência transversal à juventude norte-americana e o acesso a armas automáticas, de guerra e alta precisão, uma tragédia sem fim que nenhum legislador trava e cujo sangue de vítimas inocentes, invariavelmente jovens, lhe corre nas mãos. Segundo, a gritante falha de segurança num acontecimento público com um candidato presidencial, com direito a proteção reforçada, e cujo perímetro de segurança foi objetivamente negligenciado pelas entidades que o deveriam garantir. Nenhuma campanha eleitoral sobrevive a um clima de insegurança deste nível. Terceiro, para esse clima de ódio, violência, cultura de armas, desculpabilização de crimes, muito contribuiu Donald Trump nas suas várias metamorfoses: como outsider na corrida republicana de 2016, como adversário da favorita Hillary Clinton, como Presidente, como derrotado das eleições de 2020, como ex-Presidente e, agora, como recandidato à Casa Branca. Nisto, Trump nunca mudou: na instigação ao ódio contra adversários, no uso de linguagem violenta contra imigrantes, imprensa e políticos, na promoção de teorias da conspiração, na deslegitimação de resultados eleitorais, na desculpabilização de atos atrozes contra a democracia (invasão do Capitólio) ou contra democratas (ataque em casa de Nancy Pelosi), e até na glorificação pública de ditadores. Se o ambiente social e político está como está na América, a Trump muito se deve.

Não têm sido poucas as vozes a ditar a sua vitória em novembro, como resultado direto do ataque na Pensilvânia. Pode até acontecer, mas, a quatro meses das eleições, talvez seja avisado explorar os efeitos do tempo em política, as dinâmicas imprevisíveis nas campanhas norte-americanas, os desvios constantes de temas e a mobilização das bases, antes de decretarmos, apressadamente, o desfecho desta corrida. Quando Ted Roosevelt, depois de oito anos na Casa Branca (1901-1909), voltou a candidatar-se, foi alvejado no peito a três semanas das eleições, salvando-se graças à armação dos óculos e a um calhamaço em que estava escrito o discurso que iria proferir num comício no Wisconsin. Em novembro, perderia para Woodrow Wilson.

A repetição ou não da História vale o que vale, mas talvez mais importante seja questionar o efeito da comoção e da vitimização nas bases de culto a Trump: terá o tiro da Pensilvânia um efeito mobilizador num eleitorado já arregimentado? Duvido que acrescente. E nos independentes indecisos? Eventualmente algum, que não gosta de Biden e oscila no voto sem qualquer peso na consciência. E na desmobilização de eleitores democratas, que estiveram com o Presidente em 2020? Provavelmente, pouco. Pode até ter o efeito inverso, agora mais alarmados com uma vitória de Trump, reavivando o voto antecipado e presencial em Biden, só para evitar o regresso do republicano. E, assim, poriam de lado o declínio físico do atual Presidente que os incomoda e seriam apenas e só pragmáticos. A verdade é que todas estas dinâmicas são demasiado voláteis para serem definitivas hoje, numa campanha decidida em uma dezena de estados, por questões mais locais do que nacionais ou internacionais, por um punhado de dezenas de milhares de votos e decisões eleitorais mais previamente tomadas do que imaginamos.

Independentemente do que acontecer daqui em diante, a grande lição destes anos de chumbo nos EUA é tão alarmante como perigosa. Um ambiente de violência e intolerância crescentes, um país com dúvidas existenciais sobre o seu papel no exterior, um sistema judicial que protege um candidato mergulhado em escândalos e crimes, o endeusamento de uma Constituição datada e inamovível, partidos sistémicos envelhecidos nos protagonistas ou revisionistas nas propostas, e um debate público intoxicado pela desregulação e arbitrariedade das redes sociais, que tudo inflama.

Na semana em que um discurso violento anti-imigração foi interrompido por um tiro que ficou para a História, a Meta anulou as restrições ao discurso de ódio com que o republicano alimenta o seu culto. Tudo doentio, demasiado distópico, aceleradamente perigoso.

Norte
Quase todos os primeiros-ministros britânicos do pós-guerra passaram por Oxford, mas foi a geração conservadora pró-Brexit a construir ali as suas cumplicidades. Simon Kuper conta tudo em Chums: How a Tiny Caste of Oxford Tories Took Over the UK.

Sul
Leslie Varenne escreveu Emmanuel au Sahel, um bom resumo sobre a visão e os erros de Macron em África, a derrocada e a expulsão das tropas francesas no Mali, Chade e Níger, declínio longínquo de um falhanço maior.

Este
Em Invisible China: How the Urban-Rural Divide Threatens China’s Rise, Scott Rozelle e Natalie Hell analisam a disparidade entre qualificações e economia, força laboral rural e ambições globais da China. São muitas as lições a tirar.

Oeste
The Situation Room: The Inside Story of Presidents in Crisis, de George Stephanopoulos, leva-nos aos bastidores das grandes crises mundiais discutidas e decididas na mítica cave da Casa Branca, desde que JFK a criou. Um livro fascinante.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

No seu livro, afirma que uma guerra civil, seja qual for, nunca tem uma causa única. Mas será que o ataque a Donald Trump pode ser visto como um daqueles acontecimentos que criam um efeito cascata, levando a outras consequências?

O ataque a Donald Trump não é a causa da violência que assola, atualmente, a política norte-americana, mas um sintoma. E há uma verdade antiga que ainda se aplica: o sangue cria mais sangue. A foto da sua orelha ensanguentada vai tornar-se uma imagem poderosa para os apoiantes de Trump e será usada, quase certamente, para justificar mais violência. As teorias da conspiração sobre quem realmente está por detrás da violência já começaram e vão continuar a espalhar-se. As respostas mais comuns são o “estado oculto”, os ativistas transgénero e, claro, os judeus. A imagem será usada para justificar sabe Deus o quê: se eles nos tentaram matar e falharam, nós agora devemos tentar matá-los.

No seu livro já previa um ataque deste tipo?

No capítulo 2, escrevi sobre como seria o assassínio bem-sucedido de um Presidente. Por aquilo que sabemos até ao momento, acho que o perfil, que previ e identifiquei no livro para o assassino, me parece assustadoramente correto. Atribuo o sucesso dessa identificação inteiramente à força do modelo de jovens terroristas, a que costumamos chamar “lobos solitários”, que os criadores de perfil que eu entrevistei partilharam comigo. Também compreendi bem, vendo agora em retrospetiva, como os sistemas de comunicação e de informação se iriam dividir, após um acontecimento desta natureza: um lado iria apelar à solidariedade institucional e o outro lado começaria a exigir vingança. Não é nada de novo, pois esses padrões estão em vigor há mais de uma década. Foi por disso, aliás, que escrevi A Próxima Guerra Civil (Livros Zigurate), e estes padrões tornaram-se agora muito mais fáceis de ver e de serem identificados.

O que prevê que ainda pode acontecer até ao dia das eleições, a 5 de novembro?

Prevejo o caos. Mais e mais caos.

Porquê?

Na verdade, é impossível prever o curso dos próximos quatro meses. Por um lado, ambos são homens velhos, cada um poderia facilmente morrer de causas naturais; por outro lado, os republicanos já começaram a falar de como as eleições estão a ser fraudadas. Um aspeto a que ninguém se referiu é o que acontecerá se o Colégio Eleitoral não obtiver um vencedor claro de 273 votos. É bem possível que esta eleição nem produza um vencedor claro. E esse seria o pior resultado de todos.