Embora seja tantas vezes motivo de discórdia e utilizado como pólvora para incendiar radicalismos perigosos, o desporto tem também uma capacidade única, quase milagrosa, para conciliar vontades e conseguir unir estados ou nações. Na sua essência, o desporto é um instrumento insubstituível para uma vida saudável, ao mesmo tempo que desempenha um papel fundamental na criação de bons hábitos de vida em sociedade: demonstra a importância do esforço, do trabalho de equipa e do espírito de resistência para superar adversidades. E, quando bem enquadrado, tem uma virtude cada vez mais necessária nos atuais tempos crispados e radicalizados, em que todos querem ter razão: ensina a perder ‒ porque ninguém ganha sempre, por mais que a tantos lhes custe admitir.
O desporto ajuda a formar o caráter. E, num segundo nível, é um elemento agregador de comunidades e até de identidade nacional. Quando uma equipa ou um atleta que enverga as nossas cores ganha uma competição global, todos nos sentimos, nem que seja um bocadinho, campeões da Europa ou do Mundo. Festejamos e celebramos com alegria, mas também com orgulho. E, coletivamente, com essa vitória, sentimos que o nosso país subiu algum degrau na competitividade global das nações.
O nível de desenvolvimento desportivo de um país devia ser, por estas razões, uma prioridade dos decisores políticos, ao nível de outros indicadores como os da Saúde, Educação e Cultura. Até porque todas estas áreas acabam, de uma forma ou de outra, por se cruzarem e até se desenvolverem em conjunto. E, se isso for feito, quando as vitórias se repetem, os políticos podem festejar os troféus como tendo sido parte integrante desse caminho e não apenas uns passageiros de última hora no autocarro do desfile de celebração.
Embora os troféus e medalhas estejam sempre dependentes de fatores puramente desportivos, além do talento geracional e da sorte que acompanha os audazes, a verdade é que a História demonstra que os países com maior desenvolvimento desportivo ganham mais do que os outros.
No último domingo, a nossa vizinha de fronteira viveu mais um dia de glória desportiva, com a seleção espanhola de futebol a sagrar-se, pela terceira vez em 16 anos, campeã europeia de futebol e, no mesmo dia, o tenista Carlos Alcaraz repetiu o triunfo no torneio de Wimbledon. Observadores mais imediatistas podem considerar que essa coincidência se deve apenas a um raro alinhamento geracional, visto que tiveram um contributo excecional de dois jovens de 21 anos (Alcaraz e Nico Williams) e de um de 17 (o já supermediático Lamine Yamal).
Sem desvalorizar o talento imenso desses três protagonistas, não nos podemos esquecer que o êxito desportivo que a Espanha celebra nos últimos anos é bem mais abrangente e variado. Ainda há cerca de um ano, a seleção feminina espanhola de futebol sagrou-se campeã mundial ‒ curiosamente também numa final contra a Inglaterra ‒, embora, injustamente, grande parte da opinião pública se lembre mais do beijo de Luis Rubiales a Jenni Hermoso do que dos nomes de muitas das atletas que ergueram o troféu.
Nada disto surgiu do acaso. O êxito de Espanha em diversas modalidades reflete, isso sim, anos e anos de políticas que encaram o desporto como um setor importante para o desenvolvimento humano, mas também para a imagem do país ‒ tanto interna como externamente.
Quando se contam as medalhas olímpicas conquistadas pelos dois países ibéricos até 1976, na época em que ambos tinham acabado de sair de longas ditaduras, a diferença era ténue: Espanha tinha nove subidas ao pódio e Portugal contava com sete. Depois, foi ligado o motor da candidatura aos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, e tudo mudou… do lado de lá da fronteira. Agora, dentro de dias, a comitiva espanhola parte para os Jogos Olímpicos de Paris com 382 atletas e um pecúlio acumulado de 171 medalhas (48 de ouro), enquanto Portugal participa com 74 atletas e a memória de 28 medalhas (apenas cinco de ouro).
Podemos encontrar muitas explicações para esta discrepância de resultados que ocorreu nas últimas décadas. Mas o que não podemos é continuar a pensar que a culpa é do treinador, seja ele qual for. A tática que se utiliza num jogo é importante, bem como o talento que se reúne numa equipa, mas os resultados sustentados, em diferentes modalidades e desportos, só se conseguem com políticas robustas, alicerçadas em estruturas associativas fortes e presentes em todo o território.
OUTROS ARTIGOS DESTE AUTOR
+ A grande responsabilidade da esquerda francesa
+ Qual é a urgência principal quando tudo arde?
+ Enganados por natureza