João (chamemos-lhe João) viu o pai bater na mãe. Durante dias, semanas, meses, anos. Ouviu chamar-lhe os piores nomes, dizer asneiras, chegou a ouvir o pai dizer que um dia a matava. O pai gritava muito com a mãe, deixando-a a chorar. E negra, das agressões. E ele também chorava, escondido no quarto. Um dia, quando o pai gritava outra vez com a mãe, a polícia foi lá a casa e levou-o. Tão depressa não voltaria a vê-lo.

Meses mais tarde, o João foi com a mãe a um edifício cinzento e feio. Disseram-lhe que iria contar a umas pessoas o que tinha visto e ouvido em casa. O João não entendeu muito bem o que iria acontecer e que pessoas seriam aquelas. Afinal, tinha apenas 10 anos. Tinha dormido sobressaltado e acordou nervoso. Foi com a mãe e sentiu-se perdido no labirinto dos corredores do edifício. Entrou numa sala, falou do que se lembrou e calou-se sobre o que queria guardar, tudo isto entre tremores e choro, entre perguntas que não entendia e palavras estranhas. E medo, muito medo.

Semanas depois, teve de ir a um outro edifício igualmente feio, igualmente cinzento. Repetiram as perguntas que não entendia e as palavras estranhas. O mesmo labirinto de corredores, outra vez várias pessoas estranhas. Perguntou-se quantas mais vezes teria de falar.

João tem agora 25 anos. De vez em quando, “vê” o pai a bater na mãe, ainda consegue ouvir os gritos, que ecoam na memória. “Regressa” ao seu quarto, escondido. Em pesquisas e conversas, ficou a saber que tinha direito a ser ouvido. E supostamente foi, mas sente que ninguém o escutou verdadeiramente.

Mas soube que também tinha mais direitos, que na altura desconhecia. O pai tinha um advogado. A mãe e ele não. O advogado falou, ele e a mãe não tinham ninguém para falar por si. Bloqueados pelo medo, quase não falaram. Soube agora que tinham o direito a ter cada um o seu advogado, para que pudessem lutar por um regime de convívios que o protegesse, uma pensão de alimentos mais adequada às suas necessidades. Que pudessem agir no processo que levou o pai à prisão, exigindo uma indemnização pelo trauma e pelos danos emocionais e psicológicos, pelo sofrimento que este lhes causou. E que, caso ele não pagasse, o Estado pagaria por ele. Mas tinham de pedir e ninguém lhes explicou adequadamente. “Não precisa de advogado, não é obrigatório” foi a única coisa que ouviram.

João soube agora que, 15 anos antes, decidiram a sua vida sem ele ter apoio de um especialista para lutar pelos seus direitos. Que foi vítima e, ao contrário do pai, não tinha um advogado que defendesse os seus interesses. Que não esteve em pé de igualdade e não teve as mesmas armas processuais.

Este João não existe, porém existem muitos Joões destes por aí, vítimas de um sistema que padece de um défice de proteção legal das vítimas, e das crianças em particular, porque não é obrigatório uma criança e/ou uma vítima de um crime ter advogado, seja no processo-crime, seja nos processos no Tribunal de Família e Menores (que, já agora, continuam a chamar-se de Menores e não das Crianças, como se estas fossem seres inferiores). E se um adulto pode, a determinado momento, ter a capacidade de entender que tem direito a um advogado, uma criança dificilmente a terá. Fica desprotegida, quase sempre desamparada. E também os adultos. O arguido terá sempre, mais cedo ou mais tarde, um advogado. E assim deve ser (aliás, deveria ter desde o primeiro momento). Mas a vítima não. O arguido pode ser erradamente absolvido por uma qualquer razão e a vítima pode não ter a oportunidade de recorrer, porque não tem advogado. Porque lhe dizem que não é necessário. Porque o Estado considera, erradamente, que é um custo desnecessário. Até ser necessário, muitas vezes tarde demais.

É verdade que, recentemente, alguns tribunais passaram a nomear advogado às crianças, mas continua a ser a exceção quando deveria ser imperativo, para elas e também para as vítimas adultas. Desde o momento da queixa, quando urge tomar medidas imediatas. A violência é também combatida quando as vítimas podem exercer os seus direitos.

O advogado é o profissional mais habilitado para defender e lutar pelos direitos das pessoas. É difícil entender como se pode decidir o futuro de uma criança, ou de uma vítima, ou até de qualquer cidadão, sem que esteja representado no processo por advogado.

Pensemos em todos os Joões e em como podemos e devemos exigir uma maior proteção e o respeito pleno pelos direitos fundamentais. Porque este João somos todos nós.

O absurdo espreita sempre aqui e ali por todas as partes. Mas há lugares onde se impõe, omnipresente, quase sempre trágico, como uma caricatura do próprio absurdo. Gaza é um desses lugares, todos os dias. Gaza é o absurdo e este absurdo é o horror.

Foi assim a 29 de janeiro de 2024, foi assim ontem, mais um dia em que vigorou um cessar-fogo durante o qual já foram mortas mais de 100 crianças – em outubro do ano passado, dois anos depois do início da guerra que a ONU descreve como genocídio, a UNICEF contava 64 mil crianças mortas ou mutiladas na Faixa de Gaza, mais as “que morreram por doenças evitáveis ou continuam soterradas debaixo dos escombros”.

A Voz de Hind Rajab, da tunisina Kaouther Ben Hania, expõe o absurdo até ao limite do suportável. É o filme que podemos ter medo de ver, mas que temos de ver. Para ouvir (de novo) a voz de Hind Rajab, a menina de 5 anos que passou horas a suplicar por ajuda ao telefone com operadores do Crescente Vermelho Palestiniano até se calar sem que ninguém tivesse conseguido socorrê-la. O filme que temos de ver para perceber o que é o absurdo, o que é desumanização, o que é Gaza. E para lembrar que ainda é preciso salvar Gaza.

A voz que a realizadora ouviu, sem aviso, e que depressa sentiu tornar-se um dever, o de nos obrigar a “ver assim o mundo do ponto de vista palestiniano”, disse em setembro, no Festival de Veneza, onde o seu filme, A Voz de Hind Rajab, que é a “voz de Gaza”, foi aplaudido, de pé, durante mais de 23 minutos (e recebeu o Leão de Prata Grande Prémio do Júri). O absurdo é que muitos de nós ouvimos a voz desta menina a 29 de janeiro de 2024, quando ela ainda estava viva, enquanto olhávamos pela primeira vez para as suas fotografias, cabelos encaracolados, soltos ou entrançados, sempre a sorrir.

No desespero da espera de “luz verde” para tentar salvá-la, o Crescente Vermelho partilhou excertos das conversas entre Hind e os operadores quando ainda decorria o ataque israelita – que Israel continua a negar ter acontecido –, com o carro onde Hind sobrevivia, rodeada pelos corpos do tio, da tia e de quatro primos, cercado por tanques. Quando a ambulância que aguardava “luz verde” a oito minutos de distância ainda não tinha partido na sua direção, Omar Alqam, um dos operadores, o primeiro a falar com Hind, grita que ninguém vai ligar às publicações, que as redes sociais estão repletas de crianças palestinianas mortas. Tinha razão.

Dez minutos a pé

“A sério, vem e leva-me daqui”, foram as últimas palavras que a mãe de Hind, Wesam Hamada, ouviu da filha, ao telefone, contou à VISÃO numa troca de mensagens.

Wesam tinha-se separado da menina momentos antes do ataque, a ordem de evacuação das Forças de Defesa de Israel (IDF) chegara de manhã e a família deixou à pressa a casa no bairro de Tel al-Hawa, na Cidade de Gaza, onde tinha encontrado abrigo depois da última fuga. Os tios iriam de carro, os pais de Hind a pé, não cabiam todos no pequeno Kia Picanto. Cabia Hind e teria cabido o irmão, Iyad, de 4 anos, não fosse a birra para não largar o colo da mãe. Wesam viu os disparos que atingiram o carro. E não pôde fazer nada.

“Quando eu estava em contacto com a Hind, estávamos separadas por uma curta distância, não mais de dez minutos a andar, mas era impossível chegar até ela por causa dos tanques no local”, descreveu. “A sério, vem e leva-me daqui.”

O que é que acontece quando alguém liga para o número de emergência a partir de Gaza? É isso que vemos neste filme. Um filme sobre o resgate que nunca se deu, onde Hind nunca aparece, a não ser nos rostos dos quatro membros do Crescente Vermelho Palestiniano que acompanham a situação de perto, do princípio ao fim, a partir da sede, em Ramallah, na Cisjordânia, a 80 quilómetros de distância da menina.

Dois operadores, Omar e a sua supervisora, Rana Faqih, o coordenador Mahdi Aljamal e Nisreen Qawas, assistente de Saúde Mental e Apoio Psicossocial. A voz de Hind é mesmo a sua voz, Omar, Rana, Mahdi e Nisreen são atores que falaram com os membros do Crescente Vermelho antes das filmagens – mas que nunca ouviram as gravações dos telefonemas entre estes e Hind antes de a câmara estar ligada.

“Estou a morrer”

Barcelona No segundo aniversário do assassínio, ativistas estenderem na areia um retrato gigante da menina EPA/Enric Fontcuberta

Omar é o menos experiente, o mais incrédulo, inconformado, palestiniano e habituado ao absurdo, mas não àquele nível. “Coordenação” é a palavra no centro de tudo – coordenação que a realidade da guerra e da ocupação torna impossível.

Omar é cada um de nós, sem perceber porque é que não basta ligar diretamente para os paramédicos. “Oito minutos”, repete e escreve, no vidro que o separa do gabinete de Mahdi, oito minutos + 20 minutos; oito minutos + uma hora… três horas e já escureceu e Hind diz a Rana que tem medo do escuro.

O tempo a passar e a voz de Hind a soar cada vez mais distante, já em sussurro: “Estou a morrer.” Mahdi a conter-se enquanto tenta cumprir o seu dever, “cumprir as regras”, seguir à risca o absurdo, o absurdo da guerra e da ocupação e da espera. Às tantas, aponta para a parede cheia de fotos de todos os socorristas mortos em Gaza. “Jurei que não haveria mais.” Se tiver de colar mais fotografias, diz, desiste.

E Omar a gritar, de novo, com ele: “Como é que podes coordenar com o Exército que os matou a eles e a todas essas pessoas?”, pergunta-lhe, antes de se atirar ao colega, como se desatar aos murros fosse a única forma de suportar o que está a acontecer. Para o raio com “a coordenação” e com a “luz verde”: “É por causa de pessoas como tu que estamos ocupados.”

Mortes que são assassíniossão tudo menos naturais, todas podiam ter sido evitadas, impedidas. A de Hind é ainda menos natural porque demorou horas

Omar grita, Mahdi exibe um autocontrolo aflitivo, Rana desmaia e não consegue disfarçar o choro aos soluços enquanto Hind lhe pergunta porque é que ela não pede ao marido que a vá buscar para depois a irem salvar, Nisreen a tentar que Hind pense no mar e no sol a brilhar no mar e se lembre como é bom brincar na areia e na água. “Imagina o mar de Gaza, a areia de Gaza.”

Luz verde e explosão

Wesam, também ao telefone, com Mahdi a tentar explicar-lhe o inexplicável, enquanto rabisca no vidro do seu gabinete os passos que constituem o processo seguido para garantir uma rota segura para uma ambulância – ou seja, coordenar.

Ele, que está em Ramallah, telefona para a Cruz Vermelha, que está em Genebra, mas também em Jerusalém; a Cruz Vermelha telefona ao COGAT (Coordenação das Atividades Governamentais nos Territórios), uma unidade do Ministério da Defesa de Israel, que entra em contacto com as tropas no terreno; os soldados em Gaza e os responsáveis do COGAT definem (ou não) uma rota, que é depois comunicada à Cruz Vermelha, que a envia a Mahdi.

“Mas receber a rota não significa que temos luz verde. A luz verde para enviar a ambulância é outro passo, de A a Z. Tenho de seguir este procedimento à risca, se não o fizermos eles podem disparar contra a nossa ambulância e dizer que a culpa é nossa.”

Absurdo é Mahdi seguir todos estes procedimentos, obter luz verde e continuar a enviar socorristas para a morte. Absurdo é Mahdi agir como se não soubesse isso. Absurdo é a luz verde chegar finalmente e a ambulância pôr-se a caminho e Yusuf al-Zeino e Ahmed al-Madhoun conseguirem aproximar-se da estação de serviço onde o tio de Hind procurou refúgio durante o ataque. “Consegues ver o carro?”, pergunta-se. Está escuro, não é possível ver nada. “Ah, estou a vê-lo.” E depois uma explosão. E depois o silêncio.

Mas Hind, que chegou a ver a ambulância antes da explosão, continuava viva, sobreviveu durante pelo menos mais uma hora.

335 buracos de bala

Os cadáveres em decomposição de Yusuf e de Ahmed foram encontrados duas semanas depois, por entre o pouco que sobrou da carcaça da ambulância, a 50 metros do carro da família Hamada – no interior, os corpos dos seus sete ocupantes, uma pequena mochila cor-de-rosa também.

O Forensic Architecture, grupo multidisciplinar sediado na Universidade de Londres, que investiga violações de direitos humanos, contabilizou 335 buracos de bala na carroçaria do Kia. Balas disparadas a partir dos tanques que o Forensic Architecture viu em imagens de satélite e que Israel diz nunca terem ali estado.

“O tanque está ao meu lado”, disse Hind.

Foi um tio de Hind que encontrou os corpos, a 10 de fevereiro, quando as IDF se retiraram finalmente de onde nunca estiveram. Antes, garantiram os EUA, Israel estivera a investigar o incidente.

A morte de Hind, “um crime de guerra”, segundo a ONU, não foi só mais uma morte. Nenhuma é. Não há nada de natural na morte de mais de 20 mil crianças em Gaza desde 7 de outubro, quando Israel decidiu responder ao massacre lançado pelo Hamas contra localidades no sul de Israel com massacres diários no pequeno enclave palestiniano.

Mortes que são assassínios são tudo menos naturais, todas podiam ter sido evitadas, impedidas. A de Hind é ainda menos natural porque demorou horas, não se abateu de repente, como com tantos meninos, mortos a dormir ou na fila da comida. Hind estava mesmo ali. E segundo vários inquéritos, é muito provável que os militares israelitas conseguissem vê-la.

Sala das borboletas

As conversas entre Hind e Omar e Rana não foram como as outras, dezenas, centenas de chamadas que os operadores do Crescente Vermelho atenderam. Desta vez, Omar teve tempo para perceber que Hind frequentava o pré-escolar, na “Sala das Borboletas, no infantário Infância Feliz”. E Rana para ouvir Hind dizer que está sozinha: “A minha mãe não está morta. Estou aqui sem família, sem mãe, sem pai, sem irmão.” E Rana a pedir-lhe para deixar dormir os tios e os primos e ela a responder: “Eu digo que estão mortos. Estão todos mortos. Eles estão mortos. Só há cadáveres.”

“Fica comigo”; “Por favor, vem buscar-me”, “Estou com medo”, “Por favor, vem”; “Estão a disparar sobre mim”; “Pede ao teu marido para te trazer aqui”; “Estou a morrer”. Com Hind foi diferente. E foi por causa disso que Omar – contou ele ao ator que interpreta a sua personagem, o palestiniano Motaz Malhees – esteve meses sem conseguir pegar no filho, bebé, ao colo.

“A sério, veme leva-me daqui”, são as últimas palavras que Wesam recorda da filha.As gravações estão disponíveis para quem quiser ouvir e há nelas trocas de palavras que não entram no filme

Hoje, Omar continua a atender chamadas de emergência. Rana também. Nisreen ainda dá apoio psicossocial no Crescente Vermelho Palestiniano. Mahdi deixou a equipa de gestão de emergência em março de 2024. Rana ainda sente a “tristeza” e o “peso” desta perda. “É nossa responsabilidade garantir que a voz de Hind – e as vozes dos paramédicos Ahmed e Yusuf – sejam ouvidas”, disse-nos.

“A sério, leva-me daqui”

“A sério, vem e leva-me daqui”, são as últimas palavras que Wesam recorda da filha. As gravações estão disponíveis para quem quiser ouvir e há nelas trocas de palavras que não entram no filme. Como Hind, depois de dizer que não conseguia falar porque estava a sangrar da boca, a explicar que não limpava o sangue porque não queria “sujar a camisola e dar trabalho” à mãe.

Hind adorava a praia. A praia de Gaza, cenário de imagens raras de alegria pura, de papagaios lançados ao vento, de horizonte, apesar dos que ali morreram atingidos a tiro ou afogados a tentar apanhar pacotes de ajuda que caíram no mar.

O som do mar, o toque da areia. Até isso cabe em A Voz de Hind Rajab, que estreia em Lisboa e no Porto nesta quinta-feira, dia 12 de fevereiro. Dias depois de Wesam ter estado na praia, em Barcelona, no segundo aniversário do assassínio da filha, para ver ativistas estenderem na areia um retrato gigante da menina.

Dois anos depois de ter beijado a filha e de a ter colocado num carro para estar mais segura, dois anos depois de ter falado ao telefone com a filha enquanto ela morria e enquanto tentava, sem conseguir, esconder do filho de 4 anos o que estava a acontecer com a irmã. “Ele estava aterrorizado”, recordou. “Ele sabe que mundo conhece a história de Hind, mas não consegue aceitar a perda dela.”

Ninguém devia conseguir. Para Wesam, este filme é uma forma de garantir “que o mundo inteiro saiba que as crianças de Gaza estão sujeitas às formas mais horríveis e terríveis de morrer e são privadas do direito à vida, à educação, aos sonhos e à paz”. “Lutarei para manter viva a voz de Hind e lutarei pelas crianças de Gaza”, disse-nos. E o que gostaria Wesam de dizer aos que possam ir ver o filme? “Digo-lhes que têm de saber que as crianças ainda precisam deles e que Hind não foi a última criança oprimida e morta.”


​Está na moda apregoar que temos “Estado a mais”. Muitos jovens deixam-se seduzir pela comunicação da Iniciativa Liberal e das suas organizações associadas, mas a realidade revela-se dura e crua: os mesmos que pedem menos Estado são aqueles que, perante a crise, exigem mais apoios para pessoas e empresas, ou mais investimento para mitigar os riscos de incêndios no verão e de cheias no inverno.

​Na verdade, vivemos num país onde existe Estado a menos. Há pouco Estado na habitação, com um parque público de apenas 3% que contrasta vergonhosamente com os 17% da média europeia. Há pouco Estado na infância, dada a inexistência de uma rede pública de creches num mercado dominado por IPSS e privados, que parecem carecer de capacidade ou interesse para expandir o número de vagas. Temos também pouco Estado na velhice, com uma falta crónica de camas em lares de idosos, entregues a privados e instituições de solidariedade, estas vagas tornam-se caras e escassas, deixando muitos idosos entregues ao abandono ou dependentes da caridade e da capacidade financeira das suas famílias.

​Existe igualmente Estado a menos na saúde. O primeiro-ministro prometeu um plano de 60 dias para resolver as debilidades do SNS (a mais bela e importante construção coletiva da nossa democracia) mas, decorridos dois anos, o cenário é de menos consultas, menos cirurgias e um número crescente de portugueses sem médico de família.

​Os acontecimentos das últimas semanas reforçam esta carência. O facto de o site do IPMA parecer parado em 2004 não se deve à má vontade dos seus técnicos, mas sim a uma gritante falta de recursos.

A solidariedade social, extraordinária e comovente na região Centro, não conseguiu disfarçar a incapacidade do Estado em responder eficazmente a uma calamidade. 

Do mesmo modo, o desmoronamento na A1 e em centenas de estradas municipais e nacionais demonstra que o LNEC necessita de mais meios e os municípios de um maior músculo financeiro. 

​O discurso do “menos Estado” apenas interessa a quem julga não precisar dele. É uma ilusão que persiste até ao momento em que o seguro não cobre o dano, a poupança se revela insuficiente, a estrada da sua rua desmorona, o hospital privado o transfere para o público ou o mercado se mostra implacável com a sua própria empresa.

​Precisamos, sem dúvida, de um Estado mais eficiente, mas essa eficiência não abdica de mais recursos e a presença dos nossos melhores quadros no setor público. 

O Estado somos todos nós, com menos Estado, estaremos inevitavelmente mais sós e frágeis.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Os EUA querem mesmo travar o desenvolvimento da China? A NATO e os seus “parceiros da Ásia Pacífico” farão tudo para impedir a reunificação com Taiwan? A maioria dos cem milhões de chineses filiados no Partido Comunista acreditará nisso, mas na frente interna a “maior ameaça” continua a ser a que Xi Jinping apontou em novembro de 2012, quando assumiu o cargo político mais importante do país. “Há muitos problemas urgentes dentro do partido que precisam de ser resolvidos, particularmente a corrupção, o divórcio do povo, formalismos e burocratismo”, disse então o novo secretário-geral do PCC. O seu antecessor, Hu Jintao, foi perentório: “A corrupção é uma questão de grande preocupação para o povo (…) Se não conseguirmos controlar bem essa questão, isso poderá ser fatal para o Partido e até causar o colapso do Partido e a queda do Estado.”

Treze anos depois, a “questão” mantém-se na ordem do dia. “A corrupção representa a maior ameaça ao Partido (…) É um obstáculo e uma pedra no caminho para o desenvolvimento do Partido e da nação”, reafirmou Xi Jinping no mês passado. Discursando no plenário da Comissão Central de Disciplina, o Presidente chinês definiu o combate à corrupção como “uma grande batalha, difícil e prolongada”, que o partido “não pode nem deve perder”.

Desde o início da sua liderança, Xi prometeu investigar todas as “moscas” (funcionários subalternos) e “tigres” (quadros com a categoria igual ou superior a vice-ministro) suspeitos de “graves violações da lei e da disciplina”. A detenção do 1º vice-presidente da Comissão Militar Central, general Zhang Youxia, anunciada há três semanas, confirmou essa promessa. “Independentemente de quem sejam ou do cargo que ocupem, todos os envolvidos em corrupção serão punidos sem clemência”, proclamou o jornal das Forças Armadas.

Esta “grande batalha” é uma guerra antiga. Logo em 1951, dois anos depois de ter tomado o poder, o PCC lançou uma campanha contra três manifestações de “degenerescência” – “corrupção, desperdício e burocracia”. Melhor do que ninguém, os comunistas sabiam que a elevada corrupção nas fileiras do antigo governo do Guomindang (Partido Nacionalista) contribuiu muito para o seu triunfo.

“Antes da ascensão de Xi, o partido lançou frequentemente campanhas anticorrupção para disciplinar os seus funcionários”, escreveu Minxin Pei, um ensaísta sino-americano especializado no estudo da liderança política chinesa. Essas campanhas eram, contudo, de “curta duração” e “visavam sobretudo funcionários de nível baixo ou intermédio”. Não havia “tigres”. Até ao início da política de Reforma Económica e Abertura ao Exterior, em 1979, a China era um país pobre e isolado, muito diferente – e bastante menos próspero – do que é hoje. “O que define a guerra de Xi contra a corrupção – concluiu Minxin Pei – é o seu objetivo de desmantelamento sistemático das redes de poder formadas sob as lideranças de Jiang Zemin e Hu Jintao, neutralizando rivais e estabelecendo o seu domínio.”

Nos processos considerados mais graves, as penas têm sido pesadas. Quatro ministros, dois dos quais da Justiça, e outros tantos antigos membros do Politburo (estatuto equivalente a vice-primeiro-ministro) foram condenados a prisão perpétua. Pela primeira vez na História da República Popular da China, a campanha anticorrupção atingiu um antigo membro do Comité Permanente do Politburo, Zhou Yongkang. Era um dos homens mais poderosos do regime, que tinha sob a sua tutela as forças de segurança, os tribunais e os serviços de informação. Segundo a acusação, “aproveitou-se dos seus cargos para favorecer outros e aceitou ilegalmente uma enorme quantidade de dinheiro e bens”. Foi condenado a prisão perpétua.

Xi Jinping congratulou-se com os “significativos avanços” já alcançados, mas alertou: a situação continua “grave” e “complexa”. Quase um milhão de funcionários (983 000, precisou a Comissão Central de Disciplina) foram punidos no ano passado. A lista inclui 65 “tigres”, mais sete do que o “recorde” de 2024 e mais 20 do que no ano anterior. “Tigres”, isto é: executivos de bancos e outras instituições financeiras, gestores de grandes empresas públicas, generais, governadores ou vice-governadores de províncias, autarcas, chefes regionais do PCC. Da indústria farmacêutica ao desporto, nenhum setor parece estar fora do radar daquela Comissão. Entre os “tigres” já condenados a prisão perpétua figuram também um chefe da polícia de Xangai, um presidente da Associação Chinesa de Futebol e um vice-ministro da Segurança Pública. “Temos de intensificar esforços para investigar pessoas-chave em setores-chave, punir tanto quem recebe como quem dá subornos e tomar medidas resolutas para eliminar os riscos sistémicos de corrupção”, ordenou o líder chinês.

Há 20 anos, um conhecido professor de Direito da Beida (Universidade de Pequim), He Weifang, e 12 outros académicos escreveram à direção do PCC enfatizando a importância da imprensa no combate à corrupção. “A experiência dos países onde a liberdade de expressão é enaltecida mostra que a pressão dos média é um importante fator institucional que reduz a corrupção entre os funcionários do governo e promove a estabilidade social”, diz a carta, datada de 14 de fevereiro de 2006. É outra “grande batalha”, igualmente “difícil” e “prolongada”.

Lembram-se quando saiu o anúncio da reunião dos Heróis do Mar no Pavilhão Atlântico? Foi uma Quarta-feira febril. Daqueles dias em que queremos saber onde estava cada um quando soube da notícia. Mas foi uma alegria fugaz. Nem quinze dias durou. Nessa outra Quarta — uma Quarta-feira vil, mesquinha, daquelas que só servem para estragar a semana — soube-se tinha ido tudo abaixo. Pelo cano. E assim lá fomos, cabisbaixos, de chapéu e botas de chuva sob as imperdoáveis águas de Abril, rumo às nossas vidas cinzentas.

Só que afinal era verdade.

Não acreditam? Pois creiam. Quase década e meia, quatro filhos, três Presidentes dos Estados Unidos e um sem número de desilusões depois, eis que Pedro Ayres Magalhães, Paulo Pedro Gonçalves, Rui Pregal da Cunha, Carlos Maria Trindade, e António José Almeida se juntaram em público. Seria indecoroso dizer que demorou. Quem leva a sério um artista pontual? A pontualidade, nos artistas, é uma falta de imaginação. Atrasaram-se treze anos. Mas apareceram.

Não foi no Parque das Nações, mas no Calhariz de Benfica. Não estavam em cima de um palco, mas ali mesmo ao nosso lado, por baixo do viaduto da Segunda Circular, a escassas centenas de metros do lugar onde tudo começou. E a razão da reunião não era um concerto, mas a inauguração de um mural concebido e pintado por Francisco Camilo, um desses artistas urbanos que hoje fazem o trabalho que antes cabia aos fundidores de bronze e aos escultores de mármore.

Se o mural cumpre ou não, com rigor académico, o papel que as estátuas desempenharam no espaço público é questão que não interessa para nada. O mural é o busto possível de um tempo que deixou de confiar em bustos. O que importa é a decisão de prestar homenagem, o esforço em levá-la a cabo, o brio, quase pueril, em cumprir a tarefa o melhor que se consegue. Para reconhecer, no tempo possível — que é sempre tarde —, que houve ali qualquer coisa que nos ultrapassou. Ali mesmo onde, quarenta e cinco anos antes, um grupo de rapazes se juntou para ensaiar sem saber que estava a arranjar problemas para o resto da vida.

Não há texto sobre os Heróis do Mar que não fale dos mal-entendidos históricos. Não é o caso. É até comovente reler textos de 1994 que já despachavam os acontecimentos do início da década anterior como um equívoco ultrapassado. Ainda assim, dou o meu rim esquerdo em como, no próximo artigo que se publicar sobre eles na comunicação social, lá virá a prosa preguiçosa de serviço, escrita por algum filho espiritual dos mesmos que lhes marcaram a testa com o número da besta em 1981, a discorrer sobre bandeiras, regimes autoritários e intenções ocultas.

Esqueçam a grelha de leitura marxista. A questão dos Heróis do Mar nunca foi ideológica, foi íntima. Foi esse o seu desplante. Um desaforo da mesma estirpe de Camilo Castelo Branco. O que os Heróis traziam exigia entrega. Era romance. E o romance assusta porque é intenso, exigente e, como toda a gente sabe, acaba quase sempre mal. O excesso — esse vício nobre — padece da infantil teimosia em querer aproximar-se da verdade, mesmo quando não sabe muito bem o que está a fazer. Com tudo o que isso tem de desproporção, grandiloquência e mal-entendido.

O que era insuportável, sobretudo para nós portugueses, não era a sofisticação dos Heróis do Mar. Era o contrário. Era ver uma banda de uma inteligência particular — talvez a mais inteligente de todas — cometer o pecado mortal da simplicidade. Dizer “Amor”, “Paixão”, “Alegria”, “Saudade” como se fosse a primeira vez que estas palavras eram ditas. Sem aspas, nem aquele sorrisinho presumido. Como se não soubessem — ou pior, como se soubessem demasiado bem — que em Portugal a sofisticação serve exactamente para não termos de sentir nada até ao fim.

Aquelas palavras vinham nuas. Não pediam desculpa. Isso é tramado. Ainda ontem discutia com um amigo se a Só Gosto de Ti era ou não uma canção irónica. Ainda hoje há quem não acredite que não era. Porque, aceitar que não é, exige uma presença de espírito que não abunda: a de admitir que se pode gostar de uma letra dos Heróis do Mar, precisamente, por ela ser singela, literal, sem subtexto. Isso é perigoso. Quem dá esse passo uma vez pode reincidir. E desatar a cantarolar.

Num país fadado para sobreviver à custa da contenção emocional, isso sim, seria o verdadeiro regresso dos Heróis do Mar.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Portugal elegeu, no passado dia 8 de fevereiro de 2026, um novo Presidente da República. O Presidente António, sucedendo ao Presidente Marcelo, sabe que ascende ao mais alto cargo da nação e que transporta consigo uma responsabilidade muito particular: a de preservar e reforçar a democracia.

Existe necessidade de proteger a fragilidade da democracia porque ela vem sofrendo ataques de ameaças externas e internas provenientes de radicalismos e populismos, enfrenta problemas de corrupção e falta de transparência geradores de descontentamentos sociais, desigualdades, crescimentos económicos débeis, baixos rendimentos e pobreza, tornando o D de desenvolvimento uma (ainda) longínqua promessa de Abril por cumprir.

O Presidente António apresenta-se aos portugueses como sendo um defensor da estabilidade política, como um meio para garantir condições de governabilidade, referindo que aquela é capaz de conferir a Portugal “uma oportunidade única para que os partidos políticos, o Parlamento e o Governo encontrem soluções duradouras para resolver os graves problemas que enfrentamos na saúde (…)”.

É nesta sequência que surge uma proposta para o consenso e a Reforma no Sistema de Saúde, assegurando primeiramente o compromisso de continuidade do Serviço Nacional de Saúde, dando-lhe todas as garantias de poder enfrentar as questões e os desafios que o envelhecimento, a inovação e as limitações de organização e escassez de recursos atualmente lhe colocam. 


Trata-se de uma Carta para a Saúde, na qual cada artigo encerra em si os fundamentos necessários à execução de uma política de saúde, não condicionando as opções estratégicas e executivas dos governos democraticamente eleitos, independentemente da orientação política.


Este é um pacto nacional alargado, uma proposta que tem suporte na Constituição da República Portuguesa, tendo como pressuposto a universalidade do acesso aos cuidados de saúde e a gratuitidade dos mesmos no ponto do consumo, face ao modelo de financiamento pela via da redistribuição contributiva fiscal. 


Possibilita a adoção de diferentes estratégias de execução orçamental correspondentes a diferentes visões de como organizar o sistema de prestação de cuidados de saúde. 


Centra-se no doente, dando prioridade ao acesso e à resposta rápida à doença no cumprimento dos tempos máximos de resposta garantidos.

Artigo 1º – Dos Valores

O sistema deve ter como pilar principal um Serviço Nacional de Saúde público, racional e equitativo, que garanta acesso universal e gratuitidade no ponto do consumo, podendo estabelecer relações de complementaridade e acordos justos.

Artigo 2º – Da escolha

A estrutura do sistema deve permitir respeitar e responder a escolhas e preferências individuais, mas a organização da escolha deve contemplar métricas claras de informação, comparabilidade, desempenho e outcomes de saúde, levando em conta a existência de falhas do mercado de prestação de cuidados de saúde e preocupação prioritária com a equidade no acesso.

Artigo 3º – Da continuidade

Os cuidados devem ser geridos ou articulados numa lógica de cura contínua, utilizando meios complementares, formas presenciais, mas não só, adotando soluções tecnológicas, colocando-os à disposição do doente, do profissional, das instituições e dos familiares. O gatekeeping do sistema são os cuidados de saúde primários e a rede deve assegurar proximidade aos cidadãos, não mais os desacompanhando desde a entrada, medindo o tempo do seu acesso desde esse momento.

Artigo 4º – Da capacitação

Os doentes devem possuir e receber a informação necessária, reforçando a sua literacia e assim ter a possibilidade de exercer o controlo sobre as decisões de saúde que os afetam.

Artigo 5º – Do conhecimento e da informação partilhados

O conhecimento deve ser partilhado numa ótica de informação integrada de cuidados e os sistemas de informação devem assegurar que os dados relativos aos doentes, propriedade destes, tenham soluções de portabilidade asseguradas, conferindo ao cidadão a possibilidade de participação informada na decisão clínica, diminuindo os tempos e os custos de acesso e diagnóstico.

Artigo 6º – Da tomada de decisão

O melhor conhecimento científico e a inovação devem estar ao dispor de um sistema de saúde moderno e a decisão deve ser suportada na evidência por forma a permitir a tomada de decisão que reúna as melhores opções de custo-efetividade capazes de gerar os melhores resultados de saúde possíveis.

Artigo 7º – Da segurança

Os doentes devem ser compensados por danos causados pelos erros de qualidade na prestação de cuidados de saúde. A coresponsabilização, a regulação e a ética devem fazer parte do sistema e o sistema deve ser capaz de compensar e minimizar os danos, reparando primeiro e responsabilizando depois.

Artigo 8º – Da antecipação

Um sistema de saúde deve ser capaz de antecipar as necessidades dos doentes, para além de simplesmente reagir aos acontecimentos. A prevenção, a promoção de cuidados e o planeamento nacional e local devem resultar das orientações internacionais, da evidência científica, do conhecimento e da interação com o contexto e a comunidade. O planeamento nacional deve constituir estratégia nacional de saúde, efetivamente seguida regional e localmente.

Artigo 9º – Da gestão

O sistema deve motivar a gestão adequada dos comportamentos individuais no sentido da promoção do bem-estar (well being) físico e social, individual e coletivo.

Artigo 10º – Dos modelos de organização e dos desperdícios

O sistema de saúde não pode desperdiçar recursos ou tempo, do Estado, dos prestadores e do doente e tem de refletir as melhores opções de utilização de recursos públicos, devendo experimentar os modelos de organização de gestão de cuidados emergentes e não emergentes mais avançados e capazes de efetividade, cuja evidência nacional e internacional, esteja academicamente demonstrada.

Artigo 11º – Da cooperação

A um nível micro, profissionais de saúde, doentes, instituições, plataformas e sistemas devem colaborar e comunicar ativamente no sentido de assegurar a troca adequada de informação que possibilite a articulação e coordenação de cuidados. A um nível macro, indivíduos, governo e sociedade como um todo devem cooperar no sentido da efetividade dos cuidados prestados.

Artigo 12º – Da ética, da boa conduta e da não corrupção

Os órgãos políticos e executivos de gestão e administração pública têm elevada responsabilidade em assegurar processos transparentes e inequívocos que garantam o melhor desempenho das suas decisões políticas e de gestão, contratações, aquisições e gastos, honrando as funções que lhes foram confiadas. As nomeações dos órgãos de gestão devem ser confidenciais e apolíticas, baseadas em critérios de competência, experiência e habilitações adequadas para o desempenho das funções e o sistema de contratação deve estar montado de forma a ser capaz de o assegurar.

Artigo 13º – Do novo Contrato Social

A sociedade deverá evoluir com base em consensos deliberativos por forma a que presente Carta dê lugar a uma governação inteligente, à integração das pessoas e a um Novo Contrato Social da Saúde, que envolva todos os agentes da sociedade civil, partidos políticos, stakeholders e população.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

No 14 de fevereiro somos convidados a celebrar o amor na sua versão mais escarlate. Não há escapatória às decorações, presentes nas montras, músicas e publicidades. Esse amor, o que pode ser celebrado, invade as ruas e os nossos olhos a exibir as relações como um lugar seguro por definição. No Dia dos Namorados falamos de amor como quem fala de destino: ou aparece ou não aparece. Mas o amor, na vida real, é menos destino e mais um conjunto de hábitos. E alguns hábitos, mesmo com boa intenção, fazem um estrago silencioso. Falemos hoje sobre quando o cuidado, intencionalmente ou nem tanto, se transforma numa espécie de gestão do outro – primeiro subtil, depois habitual. E hoje, quase sempre… digital.

Na verdade, nunca tivemos tantos canais para estar em contacto e, ainda assim, tanta ansiedade por não controlar o contacto. Numa tecnologia que nos prometeu proximidade, acabamos, por vezes, por perceber que afinal nos entrega monitorização. E como as palavras importam, a monitorização entrou na relação disfarçada com o nome que mais facilmente passa na alfândega emocional: “preocupação”. Porque a certeza é tentadora e viciante. A certeza acalma. A certeza dá-nos uma espécie de tranquilidade instantânea, como um ansiolítico. O problema é que a certeza, quando se instala como necessidade, transforma a intimidade em inspeção. E um casal, sem dar por isso, começa a viver num regime de pequenos pedidos:

Só queria saber se chegaste bem.”
“Fiquei inquieto/a por não responderes.”
“Se não tens nada a esconder, porque é que te incomoda?”

É aqui que o amor começa a ganhar um subtexto: prova-me que sou importante através do teu acesso. E, sem darmos conta, trocamos algo essencial, como confiança, por essa, muito mais imediata ainda que equívoca, a certeza.

O controlo que se normaliza e o ciúme: um elogio cultural que disfarça a posse

Há uma ironia portuguesa (e não só) que nos foi enraizada durante anos; ensinam-nos que o ciúme é sinal de importância: “Se não tem ciúmes, não gosta.”

Mas se o ciúme é a prova, então o controlo torna-se apenas um método. Um método para não sentir aquela vertigem antiga: e se eu não for indispensável?

Só que o amor não é um contrato para nunca mais sermos inseguros. É um encontro onde aprendemos a ser inseguros… sem nos tornarmos perigosos.

Em Portugal, há sinais consistentes de que determinados comportamentos de controlo continuam a ser normalizados, sobretudo entre pessoas mais novas. O Estudo Nacional sobre Violência no Namoro (UMAR/CIG) tem vindo a sinalizar níveis elevados de legitimação de comportamentos violentos e abusivos e a edição de 2025 voltou a salientar este aumento como um dado particularmente preocupante.

Quando olhamos para os pedidos de ajuda, a realidade também fala: em 2024, a APAV prestou apoio a 1.023 vítimas de violência no namoro, com 322 a procurarem ajuda enquanto ainda estavam na relação.

Isto não significa que “as pessoas são piores”. Significa algo mais útil (e mais inquietante): a régua do que toleramos deslocou-se. E deslocou-se, em particular, em torno daquilo que chamamos “ciúme” e “prova de amor”.

Porque o ciúme, quando romantizado, torna-se um argumento poderoso: se tens ciúmes, é porque sentes; se sentes, é porque amas; se amas, tens direito a saber. Esta lógica é sedutora… mas perigosa. A relação com o outro, necessita de provas cumulativas de confiança para estabelecer segurança. No entanto, quando o pensamento anterior se torna numa referência, corremos o risco de despromover o ser humano que se ama a objeto de tranquilização.

Do desejo de intimidade ao medo da autonomia

É natural querermos proximidade e segurança. A proximidade pede presença, curiosidade, vulnerabilidade. Mas a segurança, quando está ferida, pede garantias. E as garantias, muitas vezes, transformam-se em controlo.

É aqui que o telemóvel se torna o “terceiro elemento” da relação, não como ferramenta, mas como sistema de regulação emocional. A pessoa sente ansiedade, pede acesso, alivia a ansiedade, e o cérebro aprende que a solução é vigiar. Um ciclo simples e devastador: quanto mais acesso temos, menos toleramos a ausência de acesso. E nisto, numa promessa de amor, vai-se traçando um pacto silencioso: dou-te transparência em troca de não me abandonares.

Mas eu também partilho tudo, não é por mal…”

Muita gente que controla não se sente violenta. Sente-se assustada. É por medo, um medo moderno, muito educado e muito tecnológico: o medo de não ser escolhido/a, o medo de não ser suficiente, o medo de ficar sozinho/a com a nossa própria imaginação. E isto é importante: o problema não é só moral, é emocional.

Em relações saudáveis, a intimidade não é uma auditoria. É um encontro. O que está em jogo não é “ter ou não ter passwords”. É o significado dessa troca.

Há casais que partilham passwords como quem partilha a chave de casa, por conveniência, sem pressão. E há casais em que a password é exigida como teste de lealdade, com consequências implícitas se o teste falhar.

A diferença não está no gesto. Está no direito ao não. Se não podes dizer “prefiro não partilhar” sem pagar um preço, já não é intimidade. É coerção.

Olhando para dentro: Isto aproxima-nos, ou encolhe-nos?

Depois deste comportamento, eu sinto-me mais eu… ou menos eu?
Sinto-me mais livre para respirar… ou mais cuidadoso/a para não provocar?

Um convite prático: “Acordos de autonomia”

Se este texto te tocou de alguma forma, aqui vai um exercício simples para fazer a dois:

  1. Cada um escreve 3 coisas que precisa para se sentir seguro/a na relação.
  2. Cada um escreve 3 coisas que precisa para se sentir livre.
  3. Comparem listas e criem 2 acordos pequenos por 15 dias – segurança sem invadir autonomia.
    Ex.: “Aviso se vou chegar mais de 30 min atrasado/a”; “Não peço passwords”; “Falamos de ciúme sem acusações”.

O objetivo não é “nunca ter ciúme” – até porque muitas vezes, esse lado incontornável no ser humano, pode ser uma boa especiaria para o desejo. É não usar o ciúme como licença para controlar, porque o amor não é saber tudo. É poder perguntar e aguentar a resposta. É conseguir sentir medo sem transformar o outro num suspeito.

E talvez seja isto um bom voto para o Dia dos Namorados: um amor que não precisa de te reduzir para se sentir seguro.

Referências bibliográficas

  • APAV. (2024). Estatísticas APAV: Violência no Namoro 2024. Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.
  • Brown, C., & Hegarty, K. (2018). Digital dating abuse measures: A critical review. Aggression and Violent Behavior.
  • Caridade, S., Braga, T., & Borrajo, E. (2019). Cyber dating abuse (CDA): Evidence from a systematic review. Aggression and Violent Behavior.
  • Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) & UMAR. (2024). Estudo Nacional sobre Violência no Namoro (ART’THEMIS+) – Infografia/Relatório 2024.
  • Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) & UMAR. (2025). Estudo Nacional sobre Violência no Namoro 2025 – Infografia.
  • Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG). (2025, 14 fevereiro). Estudo Nacional de Violência no Namoro revela um aumento da legitimação de comportamentos violentos.
  • De Botton, A. (1993). Essays in Love. Macmillan.
  • De Botton, A. (2016). The Course of Love: A Novel. Simon & Schuster.
  • Perel, E. (2006). Mating in Captivity: Reconciling the Erotic and the Domestic. HarperCollins.
  • Stark, E. (2007). Coercive Control: How Men Entrap Women in Personal Life. Oxford University Press.
  • Stern, R. (2007). The Gaslight Effect: How to Spot and Survive the Hidden Manipulation Others Use to Control Your Life. Morgan Road Books.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Viver no limite financeiro não é uma exceção — é, para muitas famílias, o ponto de partida. Há rendimentos regulares, trabalho estável, contas pagas a tempo e, ainda assim, o dinheiro parece nunca chegar ao fim do mês. Esta realidade repete-se com tal frequência que já não pode ser explicada apenas por “má gestão” ou “falta de cuidado”. Há padrões. E ignorá-los tem custos.

Quando se olha com atenção para a vida financeira das famílias, percebe-se que o problema raramente está num único erro grave ou numa decisão isolada. O mais comum é a combinação de vários fatores que, somados, reduzem drasticamente a margem de manobra mensal e criam uma sensação permanente de aperto.

O primeiro desses fatores é o peso das despesas fixas, sobretudo das prestações associadas a crédito. Crédito à habitação, automóvel, pessoal ou cartões de crédito são normalmente compromissos assumidos em momentos diferentes, muitas vezes sem uma visão global do impacto conjunto. Cada prestação, analisada isoladamente, parecia comportável aquando da contratação, mas quando englobadas condicionam o mês inteiro.

Ao peso dos créditos juntam-se outras despesas fixas que passam despercebidas precisamente por serem recorrentes e socialmente indispensáveis: eletricidade, água, gás, telecomunicações, seguros, subscrições e outros serviços contratados há anos e nunca mais revistos. Quantas destas faturas refletem, hoje, as melhores condições possíveis e/ou as necessidades? O problema raramente está numa despesa “absurda”. Está no efeito acumulado de decisões automáticas que nunca mais foram questionadas.

Outro fator é a falta de consciência real sobre para onde vai o dinheiro. Muitas famílias não têm uma noção clara do seu orçamento mensal — não por desleixo, mas porque nunca criaram um sistema simples que lhes permita perceber quanto entra, quanto sai e desta forma perceber onde estão os desvios. Sem essa base, qualquer decisão financeira é tomada no escuro, baseada em perceções e não em dados.

Depois surge o efeito da automatização das decisões. Débitos diretos, pagamentos recorrentes, renovações silenciosas de contratos criam a ilusão de controlo quando, na prática, retiram espaço à reflexão. O dinheiro sai antes de ser pensado. E quando se percebe o impacto, já não há margem para escolher.

Por fim, há a ausência de revisão periódica das decisões financeiras. Muitas escolhas são feitas uma vez e nunca mais revisitadas: créditos que já não fazem sentido, contratos desajustados à realidade atual, serviços que deixaram de ser utilizados. A vida muda, mas as decisões ficam. E isso custa dinheiro.

O problema, muitas vezes, não é ganhar pouco. É decidir uma vez e… nunca mais voltar a decidir.

É aqui que muitas famílias ficam presas: trabalham para cumprir compromissos assumidos no passado, sem tempo e, sobretudo, sem espaço para reavaliar o presente. O stress financeiro não nasce apenas da falta de dinheiro, mas da sensação de não haver alternativas.

Ter finanças com cabeça começa precisamente neste ponto: identificar onde estão os compromissos, perceber o impacto real das decisões tomadas e recuperar capacidade de escolha. Não se trata de cortar cegamente nem de viver em contenção permanente. Trata-se de alinhar decisões financeiras com a realidade atual e com aquilo que se pretende — e se necessita — preservar.

Ao longo das próximas semanas, nesta rubrica iremos aprofundar cada um destes eixos: o peso real das prestações, a leitura crítica dos créditos, os erros mais comuns no orçamento familiar, a importância de rever contratos e serviços e o impacto que pequenas decisões podem ter quando são tomadas com método e consciência.

Viver no limite não é inevitável. Em muitos casos, é apenas o resultado de decisões que nunca mais foram revistas. E rever decisões — ao contrário de aumentar rendimentos — é um ponto de partida que está, hoje, ao alcance de qualquer um de nós.

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Dúvidas, comentários ou sugestões de temas para a rubrica Finanças com cabeça podem ser enviados para nuno.godinho@rede.doutorfinancas.pt

Tempestades sucessivas, vítimas, destruição e um padrão que a ciência climática descreve há décadas – enquanto as decisões políticas continuam a empurrar o problema para a frente.

Portugal entrou em 2026 como quem entra num túnel em velocidade e perda do controlo porque percebe que não há travões.

Em pouco mais de duas semanas, quatro tempestades com nome próprio atravessaram o País como carruagens de um mesmo comboio desgovernado.

Não foi azar. Não foi surpresa. Foi a confirmação, no terreno, de tudo o que a ciência climática vem a descrever há décadas, mas que a política insiste em tratar como exceção.

Viver em crise climática

Desde janeiro de 2026, o País tem sido atravessado por uma sucessão anómala de sistemas depressivos. Ingrid (23-24 de janeiro), Joseph (25-27 de janeiro), Kristin (27-31 de janeiro) e Leonardo (4-7 de fevereiro).

A proximidade temporal entre eventos, a intensidade do vento e da precipitação e a extensão dos danos deixaram de ser um desvio estatístico. São, hoje, a tradução prática do que significa viver em crise climática.

A passagem da tempestade Kristin deixou um rasto de destruição que dificilmente será esquecido – não apenas pela violência dos elementos, mas também pela forma como expôs fragilidades estruturais, logísticas e humanas num país que ainda trata estes fenómenos como “anormais” e pensa que crise climática é coisa que só existe nos livros.

Quando Kristin passou sobre o centro e o norte do País, rajadas de vento superiores a 200 km/h foram registadas em Soure – uma intensidade equiparável a um furacão moderado e inusitada para depressões extratropicais nesta latitude. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) emitira alertas vermelhos, mas a fúria da tempestade ultrapassou as expectativas de muitos habitantes e dos serviços de proteção civil.

O balanço humano é devastador: pelo menos, seis mortes foram oficialmente atribuídas à tempestade em território português, entre causas diretas – como quedas de árvores, estruturas metálicas arrancadas pelo vento ou veículos atingidos por destroços – e efeitos indiretos imediatos. Centenas de pessoas ficaram feridas ou sofreram lesões em situações de risco durante e após a intempérie, quer fosse tentando proteger a sua propriedade, quer participando em trabalhos de emergência.

No auge da crise, cerca de um milhão de clientes ficaram sem eletricidade em várias regiões do País – um recorde que tardaria a inverter-se, com centenas de milhares ainda sem luz ou com restabelecimento parcial passados vários dias. Em muitas localidades, moradores relataram dias inteiros sem eletricidade, sem telefone móvel nem internet estável, sem água corrente e, por vezes, sem combustíveis básicos – uma combinação que transformou o pós-tempestade numa crise de sobrevivência.

Mesmo depois de o vento abrandar, a tempestade continuou a matar. Registaram-se acidentes durante a reposição de telhados e fachadas, quedas de pessoas em estruturas instáveis e casos de intoxicação associados ao uso inadequado de geradores em casas sem eletricidade. Um padrão trágico e repetido em eventos extremos, quando a urgência de recuperar substitui a segurança e a informação não chega a tempo.

Passageiros de um “comboio demolidor”

Foi neste cenário que chegou Leonardo com solos ainda saturados, telhados ainda a descoberto ou protegidos por lonas precárias, populações exaustas e ainda nalguns casos sem serviços mínimos repostos. Leonardo chegou trazendo chuva persistente e, em muitos casos, forte até 7 de fevereiro, com períodos de precipitação intensa que equivalem ao que normalmente cairia em vários dias de inverno em poucas horas – um fenómeno que os meteorologistas qualificam como um “rio atmosférico” capaz de transportar enormes volumes de humidade para a Península Ibérica.

Nos primeiros momentos, a depressão Leonardo causou, pelo menos, uma vítima mortal em Portugal – um homem nos seus 70 anos que foi encontrado sem vida após ser arrastado pela corrente enquanto atravessava uma zona inundada no concelho de Serpa, no Baixo Alentejo. Além disso, a Proteção Civil registou centenas de ocorrências associadas ao mau tempo, incluindo cheias em zonas urbanas e rurais, linhas de água transbordadas, cortes em estradas e condicionamentos em serviços essenciais (energia, comunicações e transportes).

Ingrid foi a primeira carruagem. Joseph manteve o comboio em movimento. Kristin acelerou. Leonardo chegou antes de o País recuperar. Este é o comboio demolidor construído por aqueles que continuam a emitir cada vez mais gases com efeito de estufa para a atmosfera, apoiados em estratégias de crescimento infinito e de acumulação de riqueza. A Ciência chama-lhe efeito composto de eventos extremos, ou seja, crise climática: quando fenómenos sucessivos amplificam riscos e impactos, mesmo sem valores-recorde isolados.

Atlântico mais quente

O que a Ciência nos diz é que atmosferas mais quentes retêm mais vapor de água e libertam mais energia.

O Atlântico mais quente alimenta sistemas depressivos mais intensos.

O resultado são tempestades mais violentas, mais húmidas e menos previsíveis – exatamente o que a ciência climática prevê para o sul da Europa e que ninguém quer assumir como uma realidade para a qual todos devemos estar preparados.

Portugal combina urbanização desordenada, infraestruturas envelhecidas, solos impermeabilizados, que planeia expandir com opções políticas como a flexibilização da lei dos solos e fraca adaptação climática.

Quando cai em horas a chuva que antes caía em semanas, o território responde com cheias, derrocadas e falhas em cascata. Quando os ventos sopram, a tempestade leva o que os fogos não queimaram.

Após cada tempestade, repetem-se os mesmos discursos: “evento excecional”, “fenómeno inesperado”, “força da Natureza”. Mas ações reais para travar a crise climática e os planos de adaptação avançam lentamente, o investimento em prevenção é residual e a lógica de emergência substitui a política estrutural.

As emissões de carbono não desaparecem no final do ano. Acumulam-se. Aquecem oceanos. Alteram padrões climáticos durante décadas.

Apesar de cimeiras e metas, as emissões globais continuam a subir. Fala-se em transição energética, mas vive-se uma expansão energética, onde renováveis crescem lado a lado com novas infraestruturas fósseis. Todos sabemos que a Ciência não se engana com mercados de carbono e cada decisão tomada hoje define o grau de violência climática que enfrentaremos amanhã.

Menos surpresa e mais decisão

Na COP30, países produtores de petróleo bloquearam um plano claro de saída dos combustíveis fósseis. Pouco importaram as populações que já vivem as consequências. Documentos internos das empresas do setor mostram que os impactos climáticos eram conhecidos desde os anos 1970. Ainda assim, investiu-se em desinformação, captura política e expansão da exploração.

Os mesmos mecanismos que intensificam estas depressões alimentam incêndios extremos, secas prolongadas e ondas de calor. É a mesma crise, manifestada de formas diferentes, sobre um território cada vez mais vulnerável.

Quantas tempestades seguidas são necessárias para deixar de falar em exceção? Quantas vítimas justificam mudar prioridades políticas? E quanto tempo mais vamos chamar “catástrofe natural” ao que resulta de escolhas humanas?

O que está a acontecer em Portugal desde o início de 2026 não é um acidente meteorológico. É a confirmação de um padrão global, cientificamente descrito, politicamente ignorado e economicamente alimentado. Enquanto as emissões continuarem a subir e o lobby do fóssil, a dominar as escolhas políticas, o País continuará a contar mortos, prejuízos e reconstruções – sempre depois do estrago feito.

A crise climática não pede mais surpresa. Pede decisão.

Desde dezembro do ano passado que Portugal tem vindo a ser assolado por uma sequência de depressões severas, algumas associadas a rajadas de vento destruidoras, bem como a valores elevadíssimos de precipitação que causaram perdas de vidas e prejuízos avultadíssimos que irão ter impactos marcantes na nossa economia.

Naturalmente, têm-se levantado inúmeras questões acerca da excecionalidade do evento, do papel desempenhado pelas alterações climáticas e do grau de preparação do País para fazer face a eventos desta ou de semelhante magnitude. .

1. A ministra da Energia afirmou recentemente que, desde janeiro, as barragens portuguesas já descarregaram a quantidade de água equivalente à consumida durante um ano inteiro. No entanto, em finais de agosto de 2023, 97% do território estava em seca e, dois anos depois, em finais de setembro do ano passado, a mesma ministra tinha vindo a garantir o financiamento a 100% para projetos de modernização da rede de distribuição de água do Algarve, severamente debilitado em recursos hídricos após 12 anos de seca. Como se explica esta transição abrupta de falta de água para água em demasia?

Portugal situa-se na borda da rota das depressões que se deslocam no Atlântico Norte, de oeste para leste, e se comportam como conversores da energia armazenada na atmosfera em vento e precipitação. Essa rota, ao longo dos anos, ora se desloca mais para norte, ora mais para sul, passando, no primeiro caso, as depressões muito a norte de Portugal e tendo-se um inverno seco ou, no segundo caso, ficando o território sujeito à sua influência em termos de vento forte e precipitação intensa. Esta variabilidade fica bem patente quando se analisam as séries temporais de precipitação que mostram uma grande variabilidade de ano para ano, nomeadamente quando se consideram valores acumulados no período de inverno.

2. Essa variabilidade da rota das depressões deve-se às alterações climáticas? E pode ser prevista com alguma antecedência?

A circulação atmosférica no Atlântico Norte é regulada pela posição e pela intensidade do anticiclone dos Açores e da depressão da Islândia. Por sua vez, as características destes dois grandes centros reguladores são moduladas pela posição da corrente de jato polar que é uma cintura de ventos a uma altitude de cerca de 10 km com velocidades superiores a 180 quilómetros por hora e cuja posição regula a rota das depressões à superfície. Quando a corrente de jato se desloca para sul, o anticiclone dos Açores contrai-se e dá-se ainda o estabelecimento de centros de altas pressões nas latitudes polares, tendo-se como resultado o desvio para sul da rota das depressões no Atlântico. A corrente de jato é, por sua vez, uma consequência dos constrangimentos impostos pelas leis da física, nomeadamente a conservação do momento angular e a conservação da energia. Como as oscilações da corrente de jato e as modificações da posição e da intensidade quer do anticiclone dos Açores, quer da depressão da Islândia são processos lentos, tem-se alguma predictibilidade do seu comportamento e da consequente severidade do inverno. Assim, por exemplo, desde finais do ano passado que os modelos de previsão a longo prazo indicavam uma forte probabilidade de virmos a ter um inverno rigoroso.

3. A depressão “Kristin”, que teve consequências trágicas no País, foi um evento sem precedentes do ponto de vista meteorológico?

Portugal é regularmente assolado por tempestades violentas associadas à passagem de depressões. O denominado “ciclone de 1941”, que ocorreu a 15 de fevereiro, foi acompanhado por rajadas de vento que se estima terem ultrapassado 160 quilómetros por hora e provocou mais de uma centena de mortes e prejuízos muito avultados. As “cheias de 1967”, que assolaram Lisboa a 25 e 26 de novembro, provocaram cerca de sete centenas de mortos. Mais recentemente, a “depressão Gong”, que afetou Portugal a 18 e 19 de janeiro de 2013, o “furacão Leslie”, que ocorreu a 22 e 23 de setembro de 2018, a “tempestade tropical Alpha”, que atingiu o País a 18 de setembro de 2020, e as “tempestades Martinho e Cláudia”, que se deram a 20 de março e a 15 de novembro de 2025, produziram avultadíssimos prejuízos materiais, nomeadamente em termos de infraestruturas destruídas, terrenos agrícolas devastados, interrupções na rede de distribuição de energia elétrica, deslizamentos de terras, cortes de vias de comunicação e derrube de árvores. De mencionar, ainda, a “tragédia de Entre-os-Rios”, em 4 de março de 2001, quando o aumento dos caudais do rio Douro, devido a um episódio de precipitação muito intensa, levou ao colapso da ponte Hintze Ribeiro que resultou na morte de 59 pessoas e, o evento extremo de precipitação em Lisboa, ocorrido a 10 de dezembro de 2022, responsável pelo valor máximo de precipitação registado no Instituto Geofísico Infante Dom Luiz, em funcionamento desde 1863. Apesar de se tratar igualmente de um evento extremo, que se notabilizou pela vastidão da área afetada, pela ocorrência de mortes e por prejuízos materiais enormes, a depressão Kristin insere-se no quadro da variabilidade climática de Portugal.

Imagem do satélite Meteosat, em que se pode observar o “ferrão” associado à depressão Kristin junto à costa portuguesa.

4. Qual o papel das alterações climáticas na ocorrência destes eventos extremos?

A emissão por humanos de gases com efeito de estufa tem vindo a tornar a atmosfera cada vez menos transparente à propagação do calor, de que resulta uma acumulação de energia traduzida por um aumento de temperatura do ar e por uma maior quantidade de vapor de água armazenado. Um dos efeitos dessa acumulação de energia é a intensificação do ciclo da água, que favorece eventos de precipitação mais fortes e concentrados no tempo e episódios de seca mais severos e prolongados. Ora, se a variabilidade climática implica uma alternância entre anos secos e anos chuvosos, acompanhados de tempestades severas, as alterações climáticas contribuem para o exacerbamento dos contrastes, tornando mais provável a ocorrência de anos extremos, sejam secas extremas, sejam eventos duradouros de precipitação extrema associados a inundações. O aumento observado na última década da amplitude das oscilações da precipitação entre anos secos e húmidos, bem como dos valores máximos anuais de precipitação, constitui porventura uma assinatura das alterações climáticas.

5. As notícias acerca das sucessivas tempestades têm vindo acompanhadas de termos preocupantes como ciclogéneses explosivas, tempestades de ferrão e rios atmosféricos. Trata-se de toda uma nova terminologia indicadora de que estamos em presença de fenómenos que dantes não ocorriam?

Estes termos fazem parte do jargão técnico e designam conceitos bem estabelecidos na comunidade de meteorologistas. Uma depressão consiste numa zona central onde a pressão é mais baixa e em torno da qual circula o ar no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Tal como no caso de uma funda, em que a pedra gira tanto mais depressa quanto maior a força com que a correia a puxa para o centro, também no caso de uma depressão o ar circula com maior velocidade quanto maior for a força com que é puxado para o centro pela força devida à diferença de pressão entre o centro e o bordo. A queda de pressão no centro da depressão é, portanto, uma medida de intensificação da “ciclogénese”, isto é, da velocidade de circulação do ar. E tem-se uma ciclogénese explosiva quando essa queda é superior a 24 hectopascal (uma unidade de medida da pressão) em 24 horas. Por sua vez, um “sting jet” ou “tempestade de ferrão” consiste essencialmente numa corrente muito intensa de ar descendente no interior de uma depressão que pode originar rajadas de vento muito fortes à superfície, com velocidades superiores a 180 quilómetros por hora. Finalmente, os rios atmosféricos são regiões muito longas e estreitas de ar carregado de vapor de água e que, tal como um verdadeiro “rio de vapor”, transportam humidade a milhares de quilómetros de distância que pode originar grandes quantidades de chuva. A conjunção destes fenómenos amplifica os efeitos de uma depressão.

O rio atmosférico que alimentou a depressão Leonard que afetou Portugal a 5 de fevereiro. A paleta de azuis indica a concentração de vapor de água na atmosfera, sendo os valores tanto mais elevados quanto mais claros os tons de azul

6. Como pode preparar-se o País para fazer face à alternância de anos muito secos e muito húmidos, bem como à ocorrência de rajadas de vento muito intensas?

A única forma de atenuar o impacto da alternância de anos muito secos e muito húmidos é diminuindo a amplitude das oscilações dos níveis de água disponível, o que só se consegue através de um sistema bem gerido de barragens. Além da importância que têm para a produção de energia hidroelétrica e de armazenamento de água, as barragens, que também constituem “caudais do futuro”, servem de encaixe contribuindo para a regularização de caudais. As cheias recentemente registadas no Tejo, no Douro e no Mondego teriam sem dúvida sido muitíssimo mais catastróficas se não fosse a gestão de caudais efetuada pelas barragens. As cheias do rio Sado e os efeitos dramáticos que tiveram em Alcácer do Sal ilustram bem a reatividade de um rio à precipitação quando os meios de regulação do caudal não são eficazes. Por sua vez, o agravamento dos episódios de seca, quer em frequência, quer em extensão, quer em intensidade, implicam uma análise cuidada da forma como a água é utilizada e o melhoramento da rede de distribuição, em particular no que respeita a perdas.

Já a recente destruição operada em muitas estruturas e na rede de distribuição elétrica obriga a uma revisão das normas de construção e a um estudo de viabilidade económica de redes de distribuição elétrica subterrâneas nas regiões mais sujeitas a ventos fortes. Finalmente, os problemas observados em habitações localizadas em leitos de cheia sugerem uma atualização urgente dos planos municipais de ordenamento do território.

7. Os alertas foram dados a tempo e horas? Será que foram tomadas as medidas adequadas?

As previsões meteorológicas que têm sido disseminadas durante a vaga de depressões sucessivas têm tido uma qualidade inquestionável e os avisos meteorológicos e da Proteção Civil que decorrem dessas previsões têm sido disseminados de forma atempada e chegado à população, quer através dos média, quer de mensagens por telemóvel. No entanto, estes avisos apenas respeitam ao denominado perigo de um evento extremo, isto é, à probabilidade da sua ocorrência. Ora, quando se analisa o risco, além do perigo, há ainda a considerar a exposição, isto é, a propensão para se ser afetado pelo evento extremo e a vulnerabilidade que respeita ao grau de perda. A migração de população e de infraestruturas para o litoral tem aumentado quer a exposição, quer a vulnerabilidade, e muito há a fazer, em termos de gestão ao nível do governo central e das autoridades municipais, para minimização do risco. Finalmente, não pode deixar de se mencionar a importância crescente da educação cívica da população face à ocorrência de eventos extremos. Tal como é prática corrente em países como o Reino Unido e os Estados Unidos, impõe-se a introdução dos programas pré-escolares e escolares de noções de como atuar e das precauções a tomar por forma a que venha a ter-se uma população cada vez mais informada e sobretudo mais bem formada.

Chuva

Valores anuais da precipitação acumulada em Lisboa durante a estação de inverno climatológico, definido como os meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Os valores foram calculados a partir das observações efetuadas na estação do Instituto Geofísico Infante Dom Luiz, a estação mais antiga de Portugal, com registos desde 1863. A série corresponde aos valores dos invernos cobrindo o período desde 1863/1864 até 2018/2019. A curva a vermelho corresponde às médias da precipitação de inverno calculadas numa janela climatológica deslizante de 30 anos e a curva a verde aos correspondentes valores do desvio-padrão que é uma medida da variabilidade da precipitação. Uma inspeção a olho nu sugere um aumento de variabilidade a partir de finais dos anos 70 do século passado, que se traduz numa correspondente subida bastante acentuada da curva a verde que mede essa variabilidade. Já a curva a vermelho mostra uma oscilação de longa duração, com uma diminuição de precipitação desde finais do século XIX até aos anos 20 do século passado, a que se segue um período de aumento até finais dos anos 70 seguido de um ligeiro decréscimo.