Estava escrito nas estrelas. Era apenas uma questão de tempo até que o excelente trabalho que Rúben Amorim vinha a desenvolver desde 2019 no Sporting acabasse com a saída do treinador para abraçar um projeto de maiores dimensões num dos principais campeonatos da Europa. Pela preferência que nunca escondeu pelo futebol inglês, percebia-se que a Premier League era o destino de eleição do português. O que poucos estariam à espera, incluindo, provavelmente, o próprio, é que aos 39 anos de idade lhe fosse oferecido o seu lugar de sonho, a hipótese de treinar o Manchester United. Não haverá, no mundo do futebol, muitos cargos tão apetecíveis para qualquer treinador como o posto que já foi de Sir Alex Ferguson. Talvez só mesmo Real Madrid, FC Barcelona, Liverpool ou Bayern de Munique representem, pelo historial e poderio futebolístico e financeiro, um apelo semelhante para qualquer profissional deste desporto. Foi, por isso, perfeitamente natural que Rúben Amorim não tenha pensado duas vezes, quando a oportunidade lhe bateu à porta, mesmo que, para isso, tivesse que deixar por cumprir a promessa que fez, em maio deste ano, em pleno Marquês de Pombal, de tudo fazer para conduzir o Sporting à conquista do bicampeonato.

Amorim crê na sua capacidade de triunfar em Manchester e acredita: “Tão cedo, não volto a Portugal” 

No seu tom habitualmente cordial e bem-disposto, foi o próprio técnico do Sporting quem fez questão de explicar, na última sexta-feira, 1, as razões que o levaram a aceitar o desafio. Recordando que já recusara, num passado recente, a hipótese de rumar a outros clubes que lhe ofereciam melhores ordenados e estavam dispostos a pagar a sua cláusula de rescisão, garantiu que, depois do Sporting, “era só este o clube que queria”. Terá ainda tentado ir para Manchester apenas no final da época. “Foi-me dito que era agora ou nunca. Se eu não tivesse aceitado, poderia ter-me arrependido”, explicou tranquilamente, antes de confessar que o ingresso no United lhe vai permitir fazer um trabalho semelhante àquele que teve oportunidade de desenvolver no Sporting. Há 5 anos, quando deixou a meio um trajeto que estava a ser de enorme sucesso no Sporting de Braga foi porque percebeu a oportunidade que seria, para si, poder reerguer um clube que passava por um período de instabilidade e não vencia o campeonato há oito anos. Agora, deixa para trás a hipótese de cumprir o sonho de os sportinguistas voltarem a festejar um bicampeonato, para ter nas mãos a oportunidade de reerguer um colosso europeu adormecido, que não festeja um título de campeão de Inglaterra desde a época 2012/13.

É para ficar

Com a decisão de Rúben Amorim tomada e os 11 milhões de euros (mais um do que a cláusula de rescisão acordada com o técnico) garantidos pelo Manchester United, ao Sporting restou apenas o impulso negocial (com base na necessidade do treinador dar um pré-aviso antes de abandonar o posto), para assegurar os seus serviços por mais uma semana e meia, tempo suficiente para que fosse ainda Amorim a orientar a equipa leonina nos importantes jogos da última terça-feira, 5, contra o Manchester City, a contar para a Liga dos Campeões, e o do próximo domingo, 10, na deslocação ao estádio do Sporting de Braga, a contar para a Liga.

Segunda-feira, 11, será, pois, o primeiro dia do resto da vida de Rúben Amorim. Um período durante o qual o técnico português tentará cumprir aquele que acredita ser o seu fabuloso destino. Está, aliás, tão convencido da sua capacidade de ter sucesso, que, na mesma conferência de imprensa após a goleada ao Estrela da Amadora, recusou falar sobre a hipótese de voltar a treinar o Sporting ou qualquer outro clube nacional. “Estou convencido de que, tão cedo, não volto a Portugal.”

Entre a elite

Quando aterrar nas ilhas britânicas para assumir o lugar à frente dos Red Devils, Rúben Amorim vai juntar-se a Marco Silva e Nuno Espírito Santo, naquele que passa a ser, com três técnicos, o terceiro contingente nacional mais representado entre os treinadores da Premier League. À frente de Portugal ficam a estar apenas a Espanha, com cinco, e a Inglaterra, com quatro.

Ao mesmo tempo, o ainda treinador do Sporting vai tornar-se o sexto português a orientar uma equipa do principal escalão do futebol inglês. Um território cuja exploração foi iniciada há duas décadas por José Mourinho. Aquele que, desde o primeiro dia que chegou a Stamford Bridge, se autoapelidou de Special One é, aliás, o único que conseguiu, até hoje, conquistar títulos em Inglaterra, sobretudo ao serviço do Chelsea, mas também no Manchester United, onde, além do mais, recebeu Rúben como estagiário. Será, pois, com a mesma ambição do seu mentor que, aos 39 anos (menos dois do que Mourinho tinha quando chegou pela primeira vez ao Chelsea), Amorim assume a tarefa de pegar num clube que, nos últimos anos, tem sido aquilo a que se chama um cemitério de treinadores.

Rúben explica que “era só este o clube que queria”. Preferia ir apenas no final da época, mas tinha de ser agora. “Se eu não tivesse aceitado, poderia ter-me arrependido”

A seu favor tem, como aconteceu quando chegou ao Sporting, a convicção generalizada entre dirigentes e adeptos de que a situação da equipa dificilmente poderá ser pior do aquela que se vive atualmente. Com dez jornadas disputadas, os Red Devils ocupam apenas o 13º lugar da classificação geral, com 12 pontos (menos 13 do que o líder Liverpool), fruto de míseras três vitórias e outros tantos empates. Tendo da parte do clube a garantia de que terá tempo e espaço para tomar as suas decisões e moldar a equipa à sua maneira, ainda por cima podendo contar com o poderio financeiro de um dos maiores clubes do mundo, Rúben Amorim tem diante de si as condições para confirmar que, também ele, é especial. Tem, aliás, tudo a ganhar e muito pouco a perder. O que ainda resta para o final da temporada pode ser suficiente para assegurar a presença do Manchester United na próxima edição da Liga dos Campeões. Um objetivo que está, para já, a seis pontos de distância e também pode ser alcançado através da conquista da Liga Europa. Garantido, pelo menos, este objetivo, o português terá seguramente espaço de manobra para, na próxima temporada, começar a construir uma equipa totalmente à sua imagem, capaz de voltar a disputar os lugares cimeiros do futebol inglês e internacional.

Os seis que desbravaram o caminho

Antes de Amorim, já outros treinadores portugueses chegaram ao topo do futebol inglês. Dois ainda lá estão. Mas só um foi, até agora, “especial”

José Mourinho
Foi o primeiro treinador português a chegar à Premier League. Depois de duas épocas extraordinárias ao serviço do FC Porto, durante as quais foi bicampeão nacional, venceu uma Taça de Portugal, uma Taça UEFA e conseguiu o feito de ganhar a Liga dos Campeões, Mourinho, com apenas 41 anos, foi o eleito pelo multimilionário russo Roman Abramovich para colocar, de uma vez, o Chelsea entre os melhores clubes de Inglaterra e do mundo. Com o técnico português ao comando, os azuis de Londres foram bicampeões entre 2004 e 2006, entraram na alta-roda do futebol europeu e permitiram a Mourinho dar o salto para as passagens gloriosas no Inter de Milão e Real Madrid. Depois disso, o português regressou para mais três temporadas e um título de campeão ao serviço do Chelsea. Seguiram-se, depois, entre 2016 e 2019, três temporadas ao serviço do Manchester United, durante as quais os Red Devils conquistaram o último título europeu do seu historial, a Liga Europa. Depois disso, a passagem pelo Tottenham não correu bem. Ao todo, José Mourinho orientou 548 jogos em todas as competições ao serviço de equipas inglesas, nos quais somou 332 vitórias. Em termos de títulos, foi campeão da Premier League em três ocasiões conquistou uma Taça de Inglaterra, quatro Taças da Liga e uma Liga Europa.

Marco Silva
Foi o segundo técnico português a chegar ao futebol inglês. Depois de uma estreia brilhante ao serviço do Estoril Praia, que, em três épocas, foi de campeão da Segunda Liga a 4º classificado da Primeira Liga, seguiu-se uma passagem pelo Sporting, ao serviço de quem venceu a Taça de Portugal. Em 2015, com apenas 38 anos, assinou pelo Olympiacos, que conduziu até à conquista de uma Superliga da Grécia, onde já lhe chamavam o New Special One. Foi com essa fama que chegou, em 2017, a Inglaterra para orientar o Hull City. Seguiram-se passagens pelo Watford, Everton e, desde 2021, o Fulham. Atualmente, é nono classificado.

Nuno Espírito Santo
Chegou à Premier League em 2018, depois de, na época anterior, ter comandado o extraordinário regresso do histórico Wolverhampton ao primeiro escalão do futebol inglês. Nas três épocas seguintes, naquela que era considerada a equipa mais portuguesa de Inglaterra, Nuno Espírito Santo conseguiu qualificar o clube para as competições europeias. O seu trabalho foi tão elogiado que chegou a receber o título de Doutor Honoris Causa do Desporto pela Universidade daquela cidade das Midlands e despertou a cobiça do gigante Tottenham. A passagem pelo clube de Londres não correu bem. Nuno foi despedido ao fim de apenas 17 jogos. Em 2023, depois de uma passagem pelo Al-Ittihad Jeddah da Arábia Saudita, voltou à Premier League, à frente de outro histórico do futebol britânico, o Nottingham Forest, que conseguiu manter no primeiro escalão, onde atualmente ocupa um surpreendente 3º lugar.

André Villas-Boas
Chegou em 2011 ao Chelsea, onde lhe chamavam o Special Two. Porque tinha feito parte de várias equipas técnicas de Mourinho e por, à semelhança deste, ter chegado a Stamford Bridge depois de uma época gloriosa ao serviço do FC Porto, na qual foi campeão, venceu taça e supertaça e ainda conquistou a Liga Europa, todos acharam que estava ali o sucessor do Special One. Pois, o que aconteceu foi que Villas-Boas acabou por sair ao fim de apenas 18 vitórias em 40 jogos. O mesmo aconteceu, depois, no Tottenham, clube que representou durante época e meia, com alguns bons resultados, mas sem títulos.

Bruno Lage
O atual treinador do Benfica ingressou no Wolverhampton após a saída de Nuno Espírito Santo. Na primeira temporada conseguiu levar a equipa a conquistar um honroso 10º lugar, mas na seguinte os resultados não apareceram e Lage acabou por ser despedido ao fim de apenas 9 jogos.

Carlos Carvalhal
Durante duas épocas e meia (entre 2015 a 2017), o atual técnico do Sporting de Braga realizou um bom trabalho à frente do Sheffield Wednesday. Com Bruno Lage como adjunto, a dupla portuguesa esteve muito perto de levar a equipa para a Premier League. Acabaram por nunca o conseguir, mas o seu esforço levou-os ao País de Gales, onde, no final da época 2017/2018, o Swansea lutava para não descer de divisão. Carvalhal haveria de cumprir apenas 18 jogos como treinador na Premier League, somando 5 vitórias, outros tantos empates e 8 derrotas, não evitando, assim, a descida de divisão e o posterior regresso a Portugal, para orientar o Rio Ave.

Duas vezes entre os mais caros do mundo

Não é comum, embora cada vez mais frequente, os treinadores terem cláusulas de rescisão nos seus contratos, embora com valores bem mais baixos do que aqueles que são pagos por jogadores. Curioso é que, entre o Top 10 mundial, constam três nomes portugueses. De José Mourinho, claro, André Villas-Boas e de Rúben Amorim, sendo que este último aparece duas vezes…

1
2021
Julian Nagelsmann
Leipzig
Bayern Munique
€25M

2
2021
Graham Potter
Brighton
Chelsea
€25M

3
2010
José Mourinho
Inter
Real Madrid
€16M

4
2011
André Villas-Boas
FC Porto
Chelsea
€15M

5
2024
Vicent Kompany
Burnley
Bayern Munique
€12M

6
2024
Rúben Amorim
Sporting
Manchester United
€11M

7
2019
Brendan Rodgers
Celtic
Leicester
€10,4M

8
2020
Rúben Amorim
Braga
Sporting
€10M

9
2022
Christophe Galtier
Nice
Paris Saint-Germain
€10M

10
2024
Enzo Maresca
Leicester
Chelsea
€10M

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É terça-feira, dia 5 de novembro. Levantei-me e dirigi-me à assembleia de voto, sita na minha secretária. Votei na Kamala Harris. Fossem umas eleições normais e podia recitar a costumeira ladainha: “Não o fiz particularmente entusiasmado, mas pronto vota-se no menos mau.” Depois acrescentaria que, ah e tal, é como todas as decisões que tomamos (as minhas, pronto): ficamos sempre com a sensação de que podia ser melhor.

Não, este meu voto imaginário não podia ser outro, nem podia ser melhor, porque sou um democrata. Esta minha decisão é uma inútil mas profunda profissão de fé no mais extraordinário sistema político que o Homem já inventou. No que lhe concedeu mais direitos, liberdade, condições de vida, segurança, paz. É verdade que não excita. Não promete grandezas e conquistas, não estabelece desígnios extraordinários, não nos garante qualquer glória, não nos assegura que há uma terra prometida ou que somos seres especiais apenas porque nascemos num certo lugar. É só um sistema que reconhece que o homem pode ser livre sem que tenha de condicionar a vida de todos os outros e que pressupõe para essa liberdade um conjunto de direitos políticos, sociais e económicos.

Talvez a Kamala tenha mesmo ganhado e com ela todos os democratas do mundo. Escrever isto arrepia. Tanto nas eleições em que o meu voto contou como nas que votei imaginariamente, para mostrar a mim e aos outros as minhas convicções, nunca estava em causa a democracia, mas apenas (e como soa agora este “apenas”) visões ou opções dentro do mesmo quadro. Trabalhistas ou conservadores, sociais-democratas ou democratas-cristãos, democratas ou republicanos etc., etc.

Desta vez, e na democracia de que em larga medida todas as outras democracias dependem, cerca de metade das pessoas não está interessada em viver democraticamente. É assim, não há outra forma de ver as coisas.

Claro que se pode sempre infantilizar as pessoas e achar que quem vota em Trump não sabe o que está a fazer. Recuso-me a passar atestados de estupidez e ignorância. Quer os que votam mesmo quer os que, como eu, votam de forma imaginária sabem que Donald Trump opôs-se a que Joe Biden tomasse posse, não respeitando os resultados eleitorais, não fazendo uma transição pacífica de poder, e organizando um golpe de Estado. Trump promete também instituir uma ditadura no primeiro dia, anuncia uma governação sem limites que não sejam os da sua vontade, jura cuspir nos mais básicos direitos humanos e sociais e desrespeita a Constituição norte-americana.

Quem vota nisto obviamente não é um defensor da democracia.

Noto contudo, numa altura particularmente alarmante para as democracias no mundo – as consequências para elas de uma vitória trumpista serão devastadoras –, um otimismo especialmente irritante e mesmo criminoso. O que diz que as instituições norte-americanas são tão fortes que aguentam um Presidente que as quer destruir. É só não conhecer a História. Construir uma instituição exige muito tempo e muito esforço, mas destruí-la é rápido – o caso do Supremo Tribunal Americano é exemplar. Somos bichos com uma capacidade de destruição única na História do mundo.

Recentemente, Teresa de Sousa, no Público, citava William Kristol, um comentador e político republicano: “O mesmo culto do líder ou do homem-forte, a aceitação da crueldade e da intolerância, a demagogia e as teorias da conspiração, a utilização da nostalgia do passado como arma, a adoção generalizada da mentira e da propaganda.” Tudo isto, típico dos movimentos fascistas europeus do século passado, está escarrapachado no fenómeno Trump.

Deixemos de lado nomes de doutrinas que podem ser estranhos aos votantes. As coisas são o que são, o nome, como dizia o outro, pouco importa.

Mas não é só na América, as pessoas estão a desistir da democracia, tantas que o caminho parece ser irreversível. Aliás, é a própria democracia que a está a levar ao seu fim. Não pelas suas imperfeições, não pelo seu caráter pouco excitante, não porque não tenha dado a gente suficiente o inimaginável há poucas dezenas de anos, não porque se imagina o futuro dos nossos filhos pior do que o nosso, mas porque as pessoas neste sistema podem transitar para outro apenas com o seu voto. Na prossecução normal da democracia é inevitável que o outro lado conquiste o poder. Só que desta vez não são outros democratas, mas sim quem a vai enterrar no caixote do lixo da História.

Até em Portugal o caminho parece inexorável. Quando vejo pessoas no PSD e no PS a aplaudir medidas antidemocratas ou a fazer discursos típicos da extrema-direita, é fácil perceber onde vamos parar. Que exagero, julgo ver o seu sobrolho a franzir. Pois é. Os Estados Unidos da América levaram muito tempo a chegar até este extremo. Nós, em meia dúzia de anos, juntámos mais de um milhão de portugueses que não querem viver em democracia e agora contam com a simpática contribuição dos partidos que a construíram.

Espero que o estimado leitor esteja neste momento a celebrar a vitória de Kamala Harris, mas receio que seja como aquela história do homem que está a cair dum arranha-céus e ao passar o 50º andar diz que por enquanto está tudo bem.

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Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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Na sua primeira declaração pública desde a confirmação da vitória de Donald Trump nas eleições de terça-feira, a candidata derrotada agradeceu a confiança que os democratas nela depositaram e apostou numa mensagem de esperança. “O resultado não foi o que eu queria”, admitiu, ao mesmo tempo que assegurava que “a luz da América vai continuar presente”.

Dizendo-se “orgulhosa” da campanha e da forma como a fizeram, Kamala fez questão de dizer aos milhares de democratas na Universidade Howard, em Washington, que o caminho é “aceitar os resultados destas eleições”.



“Quando perdemos uma eleição, aceitamos os resultados. Este é o princípio que distingue a democracia da monarquia ou da tirania”, insistiu, sublinhando que aceitar a derrota não é desistir da luta que alimentou a sua campanha: pela liberdade, pela igualdade de oportunidades, pela justiça e pela dignidade de todos, ideias que, considera, “refletem a América no seu melhor”.

“É normal estarmos tristes e desapontados. E eu sei que disse, durante a campanha, que quando lutamos, ganhamos. Mas às vezes a luta demora tempo. E não significa que não ganhemos”, defendeu, antes de deixar a multidão a reagir entusiasticamente com uma ovação à tirada: “Não é altura de baixarmos os braços, mas de arregaçarmos as mangas.”

A declaração, que estava agendada para as 21h00 desta quarta-feira mas começou com quase meia hora de atraso e foi marcada para Universidade Howard, em Washington, no mesmo local onde os seus seguidores se reuniram na noite de terça-feira na esperança de celebrar uma vitória, acabando por ser mandados para casa por um dos coordenadores da campanha. A instituição foi escolhida por ser uma instituição histórica da comunidade afro-americana nos Estados Unidos, onde se licenciou em Ciência Política em 1986.

Antes, a candidata democrata telefonou ao seu adversário republicano para o felicitar pela vitória nas eleições de terça-feira e falar de uma transferência pacífica de poder.

O procurador-geral adjunto Rui Cardoso vai ser o próximo diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) – o departamento do Ministério Público onde são investigados os casos mais complexos –, em substituição de Francisco Narciso.

Francisco Narciso, que só terminava o mandato de três anos em setembro de 2025, pediu a demissão ao novo Procurador-geral da República, Amadeu Guerra, que já a aceitou. De acordo com o Correio da Manhã, o agora ex-diretor do DCIAP enviou um email, na tarde desta quarta-feira, a despedir-se de todos elementos do DCIAP, informando que “logo após a tomada de posse” de Amadeu Guerra, em outubro, comunicou ao novo PGR que o seu lugar “ficava à disposição, uma vez que, tendo sido escolhido e indicado pela anterior Procuradora-geral [Lucília Gago] e dadas as características das funções, considerava que a mudança era natural”.

O novo diretor do DCIAP será Rui Cardoso, 53 anos, depois de ter sido aprovado por unanimidade pelo Conselho Superior do Ministério Público. Durante três anos, foi presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público e é presença assídua na comunicação social, como comentador. Já foi professor no Centro de Estudos Judiciários (CEJ) e, durante o último ano, esteve em Timor a dar formação a magistrados locais.

A Motorola anunciou uma colaboração com a Corning Incorporated, combinando a inovação dos smartphones com a experiência da Corning em tecnologia de vidros. As duas empresas realizaram uma expedição ao Polo Norte para testar a durabilidade e o desempenho de dois dos modelos mais recentes da Motorola: o motorola razr 50 ultra e o motorola edge 50 ultra.

Ruben Castano, vice-presidente de design e experiência do consumidor da Motorola, destacou que esta colaboração com a Corning reflete o compromisso das duas empresas em criar dispositivos não só resistentes, mas também funcionais e elegantes. “Esta parceria é uma prova do que podemos alcançar em termos de desempenho, mesmo em ambientes extremos”, explicou Castano.

A Motorola e a Corning anunciaram uma colaboração, levando dois dos modelos mais recentes da marca, o motorola razr 50 ultra e o motorola edge 50 ultra, até ao Pólo Norte para testar a durabilidade em condições extremas. Equipados com o resistente Gorilla Glass da Corning, os smartphones enfrentaram temperaturas gélidas, ventos fortes e terrenos desafiantes, demonstrando o compromisso das duas empresas em criar dispositivos não só funcionais, mas também preparados para as aventuras mais exigentes

Durante o período em que estiveram no Ártico, os smartphones foram submetidos a condições exigentes, incluindo temperaturas extremamente baixas, ventos fortes e terrenos gelados. A expedição foi acompanhada por Po Ki Yuen, ex-engenheiro da Corning e entusiasta da fotografia de aventura. Po Ki testou a resistência dos dispositivos, que estavam equipados com o resistente Gorilla Glass da Corning, desenvolvido para proteger os aparelhos contra quedas e arranhões.

“Quero capturar a beleza de qualquer lugar, mesmo nas condições mais difíceis”, afirmou Po Ki, em comunicado de imprensa.

Dave Velasquez, Vice-Presidente da Corning, sublinhou que a missão no Pólo Norte é um exemplo de como o Gorilla Glass pode resistir tanto ao uso diário como a aventuras extremas. “Quer esteja a sair para o trabalho ou a embarcar numa jornada única, como o Po Ki, o Gorilla Glass está pronto para o desafio”, afirmou Velasquez.

Não há nada mais compreensível do que a indignação dos que sofrem. Só um coração empedernido não se comove com as imagens de Valência, perante a dor dos que perderam os seus entes queridos, dos que não têm sequer um corpo para velar e que, por isso, são obrigados a fechar um ciclo ‒ a fazer o luto ‒ sobre o vazio. Por ora, são duas centenas de vítimas mortais, poderão vir a ser muitas mais, escondidas em garagens e parques de estacionamento, num cenário demasiado cruel para o que a nossa compreensão consegue aceitar. 

Nas localidades de Chiva e de Paiporta, o ground zero das cheias provocadas pela DANA (acrónimo em espanhol do fenómeno Depressão Isolada em Níveis Altos), que na semana passada assolou a costa leste de Espanha, entende-se o choque, a raiva e a revolta. Estão vivos, ao contrário de muitos dos seus familiares, amigos e vizinhos. Mas tudo ruiu à sua volta. Como enterrar os mortos e cuidar dos vivos, quando só resta o caos e a devastação? Uma das pessoas que, no domingo, 3, se dirigiu a Felipe e a Letizia argumentava que, se a grande Espanha sabia “fazer a festa”, também tinha de estar preparada para lidar com a grande catástrofe. Perante o desespero, como contrapor com a razão? 

Em Valência, reconhece-se bem um célebre verso da grande epopeia de Camões: “Mais do que prometia a força humana.” Entre o êxodo de cidadãos solidários, armados com vassouras e baldes, e os inúmeros saques que logo se seguiram, já se sabe que é nos momentos decisivos que se revela o melhor e o pior do ser humano. Epidemia é a tragédia que se segue? Os especialistas consideram pouco provável. Mas, perante tanta dor, como não entender a indignação? Não são apenas as pessoas, as casas e os bens que ficaram destruídos. No meio de tanta lama, desapareceu também a esperança, qualquer réstia de esperança, de que o Estado e as instituições os pudessem acudir na hora da aflição. Abandonados, sem água, sem luz, sem comunicações, como prosseguir com a vida? Por onde recomeçar?

O mar Mediterrâneo está a tornar-se uma ameaça, e não apenas para os povos subsarianos que anseiam atravessá-lo em busca de uma vida melhor. As chuvas de Valência (e nos dias seguintes de Barcelona também) não só foram impiedosas como foram persistentes. O sentimento é o de uma enorme impotência, incluindo para as autoridades, não há como estar preparado para este tipo de catástrofes, tal a força com que a “Natureza-Golias” se impõe, quais pactos, quais metas, quais quê. Chegámos tarde à contenção de danos e, agora, só nos resta mitigar os efeitos das alterações climáticas. Elementos da Proteção Civil têm explicado que também é preciso ensinar as populações a protegerem-se das inundações como, entre nós, se ensinam as crianças a protegerem-se em caso de incêndio ou de terramoto. 

Um português olha para as imagens terríveis de Valência ‒ carros amontoados, submersos num mar de lama, abalroados pela força das águas, capotados uns por cima dos outros ‒ e não consegue deixar de recordar as imagens igualmente terríveis dos carros queimados de Pedrógão Grande: os automóveis, outra vez os automóveis, esse bem essencial para a classe dos remediados; os automóveis a transmitirem uma falsa sensação de segurança e a servirem de suposta tábua de salvação no momento da fuga e do desespero. E, tal como nos incêndios de Pedrógão, também a triste sensação de que, enquanto comunidade, falhámos às populações afetadas. A Agência Estatal de Meteorologia espanhola, a AEMET, decretou o risco máximo para toda a província de Valência logo na manhã de terça-feira, 29 de outubro, mas, quando, ao princípio da noite, o governo regional enviou os SMS, já muito estava inundado. Seis dias depois, houve finalmente 7500 militares nas zonas atingidas.

Na corajosa visita que fez a Paiporta no fim de semana, o rei soube manter-se calmo e determinado. O impensável aconteceu quando alguém o mandou calar aos gritos: “Pare de falar e pegue na porra de uma pá!” Disseminaram-se críticas à democracia. “Que país é este?”, escutou o monarca. Entre lágrimas, um grupo de rapazes pediu-lhe até que assumisse o governo de Espanha. Felipe VI respondeu com firmeza e alertou para os perigos da desinformação, num diálogo que em boa hora foi captado pelas câmaras da Antena 3: “Não prestem atenção a tudo o que se publica, porque há muita intoxicação. Há pessoas interessadas em que a raiva cresça, que haja caos. Há muitas pessoas interessadas nisso.” 

A tragédia aconteceu num país dividido, há muito que o sabemos. O grave não é gritar com o rei nem ter a veleidade de lhe dar ordens. O que não tem perdão é haver quem, num momento particularmente difícil, se aproveite do sofrimento dos outros. Para lama, já chega a que ainda se impregna nos bairros construídos no leito dos rios de Valência.

Breviário

Endossos e jornalismo

No artigo em que fundamentou o seu bloqueio à tradição do Washington Post de apoio a um dos candidatos à Casa Branca, Jeff Bezos defende que o endorsement é um dos motivos por detrás da perda de confiança nos media tradicionais, verificada em alguns inquéritos e sondagens recentes. O que o fundador da Amazon (e dono do Post, desde 2013) prefere ignorar é que o endorsement não só não é realizado pelas redações (mas sim pelos editorial boards) como nada tem que ver com isenção, independência e rigor jornalístico. Há jornalismo engajado e pouco credível? Pois claro que há. Assim como há argumentos que não colhem: onde está a correlação entre o endosso presidencial e o mau jornalismo?

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