Foi um artista incansável que se destacou como pintor e ceramista, praticando um abstracionismo lírico, luminoso e decorativo, que, frequentemente, se abria a figurações esquemáticas. De origens humildes, frequentou a Escola António Arroio mas o facto decisivo para o despoletar da sua carreira foi o encontro em Paris com a pintora Maria Helena Vieira da Silva de quem se manteve sempre próximo. A paixão pela cerâmica, que praticou e de que foi grande coleccionador, levou-o a Itália, numa geografia alargada e cosmopolita que nunca deixou de se referenciar em Portugal. A sua herança está assegurada em duas instituições em que muito se empenhou: O Museu Manuel Cargaleiro, em Castelo Branco, e a Oficina das Artes no Seixal. Em 2019, realizou novos painéis cerâmicos para a estação de metro Champs Elysées-Clemenceau em Paris, afirmando então que eles eram um ramo de flores que oferecia à cidade onde se formou como pintor de nomeada internacional.

*Raquel Henriques da Silva
Historiadora de arte ligada à Universidade Nova de Lisboa, onde foi professora catedrática. Há cerca de um ano lançou o livro Variações – Arte Portuguesa, Séculos XIX-XX (Documenta)

Meu pai, meu mentor, meu melhor amigo.

Escrever sobre ti é um belo desafio, tentar resumir tudo o que me ensinaste é uma bela tarefa de poder de síntese.

“Deseja tudo, espera pouco, não peças nada” é uma das tuas frases preferidas. Já eu, acabei por adaptá-la e dizia-te que a minha é: “Não percas nunca o desejo, a paixão e a liberdade.” É um belo resumo de tudo o que me ensinaste.

Deste-me as maiores ferramentas, as fundamentais: o prazer, a liberdade, o requinte, a solidariedade, a generosidade, a partilha, o brio, a reflexão, o humor, a humildade, o amor à família, a luta pelos ideais, a gastronomia, o cinema, a música. E sorte a minha de me teres dado dois manos incríveis.

Deste- me o gosto pelos trocadilhos. Eras o rei das anedotas. Dizias sempre que era o melhor digestivo depois de uma refeição; ensinaste-me o prazer de ficar à mesa a conversar. A Mexilhoeira Grande passou a ser o nosso destino de férias quando descobriste a Adega Vilalisa.

Juntos fizemos castings emblemáticos. Dizias:

“Os filmes ensinaram-me a viver e a vida ensinou-me a fazer filmes.” Contigo aprendi a olhar para um ator, a respeitá-lo e a admirá-lo. Contigo criei a ACT-Escola de Actores – aliás, foste tu que inventaste o nome.

Escreveste letras lindíssimas para eu cantar.

Lutaste pela TAP, pela RTP e deixaste-nos um legado incrível. Este último, então, a série de nove episódios para a RTP A Conspiração, à qual dedicaste os últimos quatro anos da tua vida, é, a meu ver, o maior testemunho e pesquisa alguma vez feito sobre o 25 de Abril.

Prometo perpetuar a tua mestria e, por último, a honrar o teu legado.

Ti amo.

*Patrícia Vasconcelos
Filha de António-Pedro Vasconcelos. É casting director, cantora e foi fundadora da ACT – Escola de Actores, no ano 2000

Encerra-se o ano. Dos acontecimentos que o marcam destaca-se a morte, precoce e inesperada, de Joana Marques Vidal. Ao silêncio da estupefação, à pancada do absurdo, ao sofrimento pela perda irreparável, sucede o tempo da memória, desde logo, uma memória imaginada nas crianças por quem sempre se bateu, por cujos direitos lutou onde quer que estivesse, qualquer que fosse a função que exercesse, deixando para quem fica o profundo conhecimento que construiu e o exemplo da sua prática constante.

Na defesa dos direitos humanos, no apoio às vítimas de crimes, no movimento associativo, em funções institucionais, na magistratura do Ministério Público, na formação de magistrados, na Universidade, ou ainda, mais tarde, na cooperação com países de língua oficial portuguesa, Joana Marques Vidal, sem jamais deixar de usar a palavra, fosse por sua iniciativa ou quando tal lhe era reclamado, privilegiou sempre a ação. Era pelos resultados que se batia e respondia.

Talvez também por isso o seu retrato como Procuradora-Geral da República venha a ser, de todos, o mais marcante.

Foi aí que, aos olhos do público, Joana Marques Vidal se apresentou inteira, sendo dessa inteireza que cumpre deixar testemunho. Com uma perfeita consciência da dimensão institucional do cargo, nunca permitiu que esta lhe coartasse a naturalidade, a simplicidade própria da sua forma de ser moldada no respeito pelo outro, pela função que exercia e pelo cidadão em geral, a quem sabia ter o dever de prestar contas. Foram essas algumas das virtudes que a acompanharam no exercício de um cargo de enorme exigência e responsabilidade, onde, curiosamente, lutando, como outros, com a sempre eterna falta de meios, nunca se lhe ouvia tal queixa ou justificação.

Muito competente, Joana era uma mulher de convicções, excecionalmente inteligente e culta, apaixonada pelo debate e pelos méritos da discussão criativa e modificadora, de uma alegria contagiante, cheia de ideal, comprometida com os valores que a determinavam a agir, de uma constante irrequietude cívica, permanentemente disponível.

Encerra-se agora o ano. Dos acontecimentos que o marcam, destaca-se a sua morte, precoce e inesperada.

E fica a pergunta: o que seria ela, hoje, se tivesse continuado entre nós?

*Álvaro Laborinho Lúcio
Ministro da Justiça (1990-1995), juiz-conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça (jubilado), ministro da República para a Região Autónoma dos Açores (na Presidência de Jorge Sampaio), diretor do CEJ (1980-1990), é agora escritor, com cinco romances publicados.

Uma equipa de investigadores russos da Universidade Federal do Nordeste, na Rússia, apresentou na última terça-feira ao mundo os restos mortais “mais bem preservados” do mundo de uma cria de mamute fêmea, com cerca de 50 mil anos. Apelidada de Iana – em homenagem à bacia do rio Yakuti, em que foi encontrada – o “pequeno” mamute de 180 quilos foi descoberto este verão perto da estação de investigação Batagaika, no norte da Rússia, por habitantes da localidade.

De acordo com as primeiras análises, Iana tem 120 centímetros de altura e menos de dois metros de comprimento e tinha pouco mais de um ano de idade quando faleceu. Está agora a ser estudada pela equipa de especialistas do laboratório do Mammoth Museum, afetos ao estabelecimento de ensino. “Esta descoberta única fornecerá informações sobre a ontogenia dos mamutes, as suas características adaptativas, às condições paleoecológicas do seu habitat e outros aspetos”, referiu Anatoli Nikolayev, reitor da Universidade, à agência Reuters.

Esta é uma descoberta rara, dado o bom estado de preservação da cabeça e tromba do mamute “Ficámos todos surpreendidos com a excecional preservação deste mamute: não há perda de cabeça, tronco, orelhas, boca, sem danos ou deformações visíveis”, explicou Nikolayev. “Aqui, por exemplo, embora os membros anteriores já tenham sido comidos, a cabeça está notavelmente bem preservada”, acrescentou.

A cria de mamute permaneceu congelada durante séculos no permafrost da Batagaika – a maior cratera de permafrost do mundo -, de onde já foram recuperados os restos mortais de vários animais pré-históricos. Recentemente, outra equipa de investigadores, recuperou o corpo de uma cria de um tigre dente-de-sabre, com de 32 mil anos. Já no início deste ano, foi descoberto o corpo de um lobo com 44 mil anos.

De acordo com a universidade, apenas seis carcaças de mamute foram descobertas em todo o mundo, das quais cinco, na Rússia.

Um avião da Jeju Air caiu esta noite no aeroporto de Muan, no sudoeste da Coreia do Sul, com 181 pessoas a bordo – 175 passageiros e seis membros da tripulação. O aparelho despenhou-se por volta das 09h07 (00h07 em Lisboa) ao aterrar no aeroporto da cidade de Muan, a cerca de 290 quilómetros da capital, Seul. Segundo as autoridades, o Boeing 737-8AS vindo da capital da Tailândia, Banguecoque, colidiu com uma vedação de betão e incendiou-se.

O piloto estaria tentar uma aterragem forçada, depois de uma primeira tentativa de aterragem ter falhado, devido a uma avaria do trem de aterragem, possivelmente causada pela colisão com um pássaro, mas não terá conseguido reduzir a velocidade até chegar ao fim da pista, o que provocou a colisão com a vedação e o incêndio.

Os dois sobreviventes foram resgatados a partir da cauda, a única parte do avião que manteve alguma forma, segundo o chefe do corpo de bombeiros de Muan. “Apenas a parte da cauda apresenta alguma forma, o resto está quase irreconhecível”, acrescentou Lee Jung-hyun, em conferência de imprensa.

Este é já um dos desastres mais mortíferos da história da aviação da Coreia do Sul.

Avaliando o percurso de Quincy Jones, aquilo que para mim tem mais impacto é a sua imensa inteligência musical. Conseguia olhar para artistas de áreas diferentes e exponenciar ao máximo as suas qualidades. Fez isso como ninguém. Olhando para os irmãos Jackson viu o grande potencial de Michael Jackson. Todos sabem que ele produziu o Thriller, mas produziu também um disco anterior, Off the Wall, em 1979, e outro posterior, Bad, em 1987.

Trabalhou imenso, tinha uma assustadora capacidade de produção, uma grande facilidade em escrever. Compôs muito, por exemplo, para televisão e cinema.

A partir de certa altura, todos queriam trabalhar com ele. Entre muitos nomes recordo, por exemplo, Ray Charles, seu amigo, e Frank Sinatra. Tinha mesmo uma espécie de toque de Midas… E acho que isso acontecia, lá está, porque sabia reconhecer as melhores qualidades de determinado artista e fazê-las brilhar. Ao mesmo tempo, era muito eficiente: na música pop vender bem é sempre um objetivo e ele conseguiu muitas vezes ser certeiro.

E tudo começou com um percurso como trompetista… Não há muita gente a fazer isso tudo tão bem – tocar, compor, produzir. E foi brilhante numa carreira muito longa… Marcou a música na segunda metade do século XX, e mesmo no início do XXI.

*Mário Laginha
Músico. Em 2024 voltou aos palcos com Pedro Burmester. Um regresso da dupla de pianistas – Mário mais do jazz, Pedro da clássica – em nome da “liberdade” nos 50 anos do 25 de Abril

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Manuel Alves não desenhou apenas roupas; esculpiu memórias, talhou identidades, pintou com linhas e cortes a narrativa de um Portugal que ousa, que brilha. Junto ao inseparável José Manuel Gonçalves, a dupla Alves/Gonçalves reescreveu as regras da moda, misturando ousadia com uma elegância intemporal. Os desfiles não eram meras apresentações, mas atos poéticos, onde cada peça sussurrava segredos ao observador mais atento.

A irreverência, a constante reinvenção, a modernidade, a eterna juventude e a liberdade encheram cada sala de desfile e ficarão eternizadas em cada peça de moda criada pelo Manuel. Cada peça de arte, será mais correto dizer. O respeito pela criatividade artística, o foco na inovação e na constante busca pela novidade em torno do negócio da moda fazem do Manuel Alves um eterno visionário.

Com o Manuel Alves, o Portugal Fashion escreveu importantes momentos da moda nacional, em Nova Iorque, São Paulo, Paris e no Porto. O Porto que será sempre cidade invicta nas suas últimas memórias de desfile. No Museu Nacional Soares dos Reis (sempre a arte), num desfile noturno, em pleno Velódromo Rainha Dona Amélia, onde até a chuva parece ter sido por ele antecipada, pois o Manuel pediu-nos mantas térmicas douradas para que os convidados brilhassem como parte da experiência cénica.

A sua partida deixa um vazio que não se preenche com palavras, mas com as memórias vividas. Fica a recordação de um homem que fez do seu ofício uma arte maior, e que vestiu o mundo com sonhos feitos à medida. E, assim, nas tendências do tempo, Manuel Alves foi, é, e será sempre, um fio, uma linha, que o conduziu até ao espaço maior: o eterno.

*Mónica Neto
Diretora do Portugal Fashion

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Segundo a polícia finlandesa, em comunicado, o Eagle S foi apreendido pelo Departamento Nacional de Investigação (NBI) e levado para um novo local com “melhores condições para realizar a investigação”. O navio, que navegava com bandeira das Ilhas Cook integrado na referida frota destinada a contornar as sanções, vinha da Rússia. A apreensão, anunciada este sábado, ocorreu na quinta-feira, após a rutura de um cabo elétrico subaquático que ligava a Finlândia à Estónia e escoltado até ao porto de Kilpilahti, a 40 quilómetros a leste de Helsínquia.

O Eagle S transporta gasolina sem chumbo carregada num porto russo com destino ao Egito, sendo o porto de Kilpilahti para navios de carga líquida.

No dia de Natal, a ligação de corrente contínua EstLink 2, entre a Finlândia e a Estónia, foi desligada da rede. O operador finlandês Fingrid disse que estava “fora de serviço” devido a danos ainda não avaliados. A polícia finlandesa abriu uma investigação por suspeita de sabotagem.

Com a morte de Auster, em 2024, desaparece também uma tradição literária que vinha definhando – porventura desde o falecimento de Philip Roth, em 2018 –, e que elegeu o storytelling como ofício fundador, ancorada em outros nomes, como Don DeLillo, Jonathan Franzen, Joyce Carol Oates, Richard Price ou a ultramoderna Elizabeth Strout. A sugestão narrativa de Auster – a exploração de um território ficcional sugerido pelo destino trágico-cómico de uma personagem (Quinn, Walter Rawley, Marco Stanley Fogg, Nashe de A Música do Acaso, o alter ego Peter Aaron e Benjamin Sachs em Leviathan, para nomear uns quantos, terminando com Archie Ferguson em 4 3 2 1) – foi o marco de um escritor que enfeitiçou os anos 1990, e cuja obra perdura, mas que, por vários motivos, não o glorifica. É estranho, para mim, pensar hoje em Auster ou sequer falar dele; os seus livros foram tão importantes para a minha imaginação de leitor e de escritor e, contudo, não conheço quase ninguém que não o tenha “ultrapassado”. Mais do que um autor, Auster foi uma fase na vida de um leitor – porventura irrepetível, porque o tempo é cruel. Os anos 1990 não regressam, e os leitores têm agora um desafio bem diferente – o de desenterrar Paul Auster do baú das coisas vagamente esquecidas e não deixar que as suas personagens e narrativas (por vezes forçadas, sim, muitas vezes clichés, mas sempre honestas e sedutoras) desapareçam para sempre. Auster foi o escritor mais influente na minha vida literária entre os 15 e os 24 anos. A certa altura, deixei de o ler, retomando com 4 3 2 1; mas nem este nem nenhum dos livros dos 2000 conseguiram o impacto de Palácio da Lua, A Música do Acaso, A Trilogia de Nova Iorque, Leviathan ou Mr. Vertigo. Auster foi um escritor único e incrivelmente original, e o que os críticos lhe apontavam era precisamente o que fazia dele um autor tão fascinante: ser ele próprio com toda a vulnerável coragem do ser humano; limitado, mas também muito generoso. Foi o último autor que me fez ler até às quatro da manhã, à luz de uma lanterna, em dia de escola, e estou-lhe eternamente grato por isso.

*João Tordo
Escritor. Em 2024 lançou o thriller Os Dias Contados

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