1. Tudo o Que Imaginamos Como Luz, de Payal Kapadia

A Índia continua a ser o país que mais filmes produz no mundo, com uma média anual de mais de 1400, grande parte graças aos sucessos de Bollywood. Ao mesmo tempo, cresce um cinema indiano independente, na descendência de Satyajit Ray, que não nos deixa indiferentes. É nesse contexto que surge esta pérola, chamada Tudo o que Imaginamos como Luz, a segunda longa-metragem da jovem realizadora Payal Kapadia, um dos melhores filmes indianos que a Europa viu na última década.

Tudo o que Imaginamos como Luz é, em primeiro lugar, a sinfonia de uma cidade. É Bombaim que se celebra, nas suas cores e movimentos, observada em travellings, na leitura musical de Topshe: a banda sonora é um dos pontos altos de um filme que não tem pontos baixos. Uma cidade que nos impele, por onde somos levados através das cores, da energia, do seu devir. A cidade de todas as ilusões, como alguém a descreve.

Definida a cidade, entramos então nas personagens. Duas mulheres, ambas trabalham num hospital e partilham casa. A mais velha vive longe do marido que emigrou para a Alemanha e enfrenta com preceito a sua solidão. A mais nova vive um amor difícil, se não impossível, com um rapaz de outra religião.

O filme é altamente poético. Mas também concreto. Aqui conta-se uma história de amor com obstáculos do tamanho de um país inteiro (ou de uma cidade). O peso social de uma Índia conservadora é brutal e devorador, mesmo numa cidade tão moderna e festiva quanto Bombaim. De Payal Kapadia, com Kani Kusruti, Divya Prabha, Chhaya Kadam, Hridhu Haroon > 118 min

2. Folhas Caídas, de Aki Kaurismäki

Dois finlandeses entram num bar… Uma anedota poderia começar assim, mas ninguém saberia melhor continuá-la do que Aki Kaurismäki. O seu humor fino faz da própria realidade uma caricatura.

Aki Kaurismäki faz um filme na Finlândia insólita, mostrando um mundo desumanizado, onde ainda há espaço para as relações. Mas o próprio afeto é algo que nasce frio. As personagens têm um estar robotizado, inexpressivo, como se todas fossem clowns ao estilo de Buster Keaton. Os diálogos são hilariantes na sua inexpressividade, construindo um certo estilo de comédia. Os cenários e o guarda-roupa são estranhamente coloridos, em contraste com um mundo cinzento e deprimente que se vai entranhando. E há uma apatia reinante.

Em Folhas Caídas encontramos uma Finlândia pobre, miserável nos bens e nos costumes, mas feita de homens de coração frio, socialmente inviáveis. E no meio desse gelo, em que o álcool é o melhor remendo para aquecer as almas, consegue-se inventar uma história de amor. De Aki Kaurismäki, com Alma Pöysti, Jussi Vatanen, Janne Hyytiäinen, Nuppu Koivu > 81 min

3. O Meu Bolo Favorito, de Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha

As grandes histórias de amor medem-se pela dimensão dos obstáculos. No caso de Romeu e Julieta, o clássico de Shakespeare, o obstáculo era o ódio visceral entre duas famílias. Em O Meu Bolo Favorito, da dupla iraniana Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha, o obstáculo é um país inteiro. No Irão, o amor pode ser confundido com um inimigo de Estado, segundo os preceitos mais zelosos das brigadas morais e daqueles que as suportam.

O Meu Bolo Favorito começa por ser um filme de mulheres. Da condição feminina daquelas que ainda viveram antes da revolução islâmica e que mantêm viva a memória de um tempo de liberdade de costumes. Passados 50 anos, o conflito não só se mantém aberto como é resgatado pela geração mais nova.

Na segunda parte, o filme transforma-se numa inesperada e improvável história de amor, enriquecida com todos os pormenores de delicadeza. Mahin, numa idade em que já tem pouco a perder, revela-se uma personagem forte e determinada. Vive com Faramarz uma espécie de Antes de Amanhecer (Richard Linklater, 1995) aplicada à realidade dos idosos iranianos deste início de século. É devastadoramente belo e cruel. De Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha, com Lily Farhadpour, Esmail Mehrabi > 97 min

4. Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo, de Radu Jude

Radu Jude é um dos mais fascinantes e insubordinados realizadores europeus contemporâneos, pela maneira como subverte as convenções e se sente livre para explorar formas e formatos no seu cinema, ao ponto de, ao longo dos últimos anos, a sua filmografia derivar entre longas e curtas-metragens e entre ficção e documentário.

Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo gira em volta da personagem de Angela, uma produtora de cinema que viaja de carro pela cidade para recolher depoimentos para um filme promocional encomendado por uma grande fábrica. Tal como no seu filme anterior (Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental), o que vemos aqui é uma tensão constante, nervos à flor da pele e, ao mesmo tempo, sobrevive aquele sentido de humor que caracteriza o novo cinema romeno da primeira e da segunda vagas e, muito especialmente, as ficções de Radu Jude.

O filme é um acutilante retrato contemporâneo, em que o realizador não se inibe de fazer cenas longas, contrastando com momentos de grande intensidade. Não atinge a surpresa e a consistência de Má Sorte no Sexo, mas continua a ser uma ideia refrescante de cinema. De Radu Jude, com Ilinca Manolache, Ovidiu Pîrsan e Nina Hoss > 163 min

5. A Flor de Buriti, de João Salaviza e Renée Nader Messora

O percurso de João Salaviza no cinema tem, claramente, duas fases distintas. A primeira corresponde às curtas e à primeira longa, Montanha, com retratos da Grande Lisboa, revelando um engajamento sociopolítico, que lhe valeram uma Palma de Ouro em Cannes (Arena) e um Urso de Ouro em Berlim (Rafa); a segunda é fruto do seu encontro com Renée Nader Messora e com os craós, povo indígena da Amazónia brasileira.

O primeiro fôlego da nova fase foi Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos e, agora, surge A Flor do Buriti. Não é uma sequela, mas uma sequência lógica. A linguagem mantém-se nos territórios de fronteira entre ficção e documentário, com uma participação ativa da comunidade na própria conceção do resultado final. É um filme de não atores.

Se em Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos já havia um subtexto político, na divulgação e defesa de outro estilo de vida, em A Flor do Buriti essa dimensão é reforçada, devido, em parte, ao contexto de opressão com que os craós lidaram durante a presidência de Bolsonaro, quando as instituições, que supostamente deveriam proteger os indígenas, foram entregues aos seus maiores inimigos.

A construção narrativa é rica na forma livre como retrata e conta as histórias, os rituais e os mitos indígenas – e esteticamente é deslumbrante, pelo olhar dos realizadores e pela opção corajosa de filmar em película, o que permite uma fotografia com textura e lugar para todos os tons de verde. De João Salaviza, Renée Nader Messora, com Francisco Hyjno Kraho, Ilda Patpro Kraho, Luzia Cruwakwyj Kraho > 123 min

6. Grand Tour, de Miguel Gomes

Em 2015, As Mil e Uma Noites, talvez o mais ousado filme de Miguel Gomes, entrou em Cannes pela ‘porta pequena’. O comité de seleção alegou que o filme era demasiado comprido (na verdade, divide-se em três parte e equivale a três longas-metragens), e exclui-o do concurso principal, selecionando-o apenas para uma das secções paralelas, a Quinzena dos Realizadores. Produtores e realizador não disfarçaram a desilusão, apesar de o filme ter ganho dois importantes prémios no certame. Em Grand Tour, o festival fez uma espécie de reparo histórico ao selecionar o filme para a secção principal. E o júri, presidido por Wim Wenders, fez-lhe justiça, ao distingui-lo com o prémio para a melhor realização.

Miguel Gomes desenvolveu a ideia a partir do livro The Gentleman in the Parlour: a Record of a Journey from Rangoon to Haiphong (1930), de Somerset Maugham, um diário de viagens, com descrições sobre cidades e paisagens. Assim nasceu a história de Grand Tour, situada no início do século XX, e na qual Edward (Gonçalo Waddington), funcionário do Império Britânico, anda há sete anos a fugir da sua noiva, Molly (Crista Alfaiate), escapulindo-se por sete países da Ásia, da antiga Birmânia à China.

Para esta ficção, o realizador filmou a preto-e-branco uma espécie de arquivo contemporâneo, cruzando a ficção com imagens documentais de cada um dos sítios por onde passa. O filme é falado em português e narrado em diferentes línguas asiáticas. De Miguel Gomes, com Gonçalo Waddington, Crista Alfaiate, Jorge Andrade, Cláudio da Silva > 129 min

7. Histórias de Bondade, de Yorgos Lanthimos

Histórias de Bondade é, ou quer ser, um triplo murro do estômago, que poderá deixar alguns agoniados, mas não deixará ninguém indiferente. Quando acaba a primeira história (a melhor do tríptico), ficamos absortos, a perguntarmo-nos: e agora? O que mais nos pode acontecer? 

Em comparação com Pobres Criaturas, estas três histórias de bondade têm a ideia de se substituir a Deus: a omnipotência não está ao alcance dos homens, mas é perfeitamente acessível a um realizador engenhoso. Yorgos Lanthimos desenvolve em todas as histórias variantes da síndrome de Estocolmo. E em todas elas há uma ideia de manipulação elevada a limites tortuosos, levando a uma sobrevivência e dependência da vítima em relação ao agressor. Neste contexto, a primeira história ganha em elegância por o conseguir fazer sem recorrer ao sobrenatural. 

As três histórias conjugam humor negro com puro terror, tendo todos os pormenores de argumento brilhantemente desconcertante, só possível num realizador que não se incomoda de esticar os limites. De Yorgos Lanthimos, com Emma Stone, Jesse Plemons, Willem Dafoe, Margaret Qualley, Hong Chau > 164 min 

8. Clandestina, de Maria Mire

Tem como força motriz um impressionante livro de Margarida Tengarrinha, que descreve a forma como ela e o seu companheiro, o escultor José Dias Coelho (que seria assassinado pela Pide), ambos artistas, passaram à clandestinidade e se especializaram na falsificação de documentos. O texto por si só é forte e contundente. Mas Maria Mire vai mais além, conseguindo transformar tudo isto num objeto cinematográfico fascinante e esteticamente belo, através da criação de um dispositivo audacioso.

Clandestina está longe de um documentário clássico e nos antípodas de um documentário televisivo. Aliás, é um documentário que se serve de atores e de objetos e por isso distante da ideia formal de documentário. O que Maria Mire faz é preencher o texto com imagens. Só que as imagens escolhidas, que passam, por exemplo, por uma história da tecnologia, dos mídia, não são diretamente ilustrativas, mas que ganham carga simbólica. Há assim uma experiência visual paralela e complementar do que se ouve, tornando o filme deslumbrante e nada óbvio, fazendo subtis ligações ao tempo presente. Documentário > 82 min

9. O Mal Não Está Aqui, de Ryûsuke Hamaguchi

No pré-genérico, olhamos na vertical, de baixo para cima, para a folhagem das árvores da floresta e a sua oscilação natural. O realizador quer deixar claro, logo desde o início, que a verdadeira protagonista do filme é a própria Natureza.

O Mal Não Está Aqui, sobretudo na primeira parte, é construído com uma candura poética, uma lentidão contemplativa, que se torna deslumbrante. É um filme de baixo ritmo, em que parece que nada acontece, a não ser o vento a passar nas árvores, a neve a cobrir o solo, a água a correr na fonte. Quase a meio da longa surge o grande episódio destabilizador. Uma empresa de Tóquio apresenta um plano para construir um campo de glamping na floresta e marca uma reunião com a comunidade. Gera-se o conflito maior entre o progresso e a Natureza, entre o natural e o artificial, entre o campo e a cidade. A empresa de glamping é um retrato extremado e impiedoso do mundo negocial de Tóquio, em que os lucros se colocam à frente de todos os outros princípios.

O Mal Não Está Aqui fez um percurso notável por festivais, recebendo vários prémios em Veneza, e funciona, sobretudo, como uma enorme parábola ecológica. Tem um fundo zen, com a arte de recentrar as nossas prioridades na essência das coisas. Tão importante quanto belo e devastador. De Ryûsuke Hamaguchi, com Hitoshi Omika, Ryo Nishikawa, Ryuji Kosaka, Ayaka Shibutani > 106 min

10. Challengers, de Luca Guadagnino

O ténis é o mais mediático dos desportos individuais (também se pode jogar a pares) e, nos últimos anos, tem chegado às salas de cinema com objetos interessantes, como o extraordinário Borg vs McEnroe, de Janus Metz Pedersen, ou King Richard, de Reinaldo Marcus Green, sobre as irmãs Williams e o seu pai.

Em Challengers, o italiano Luca Guadagnino faz algo diferente, ao desenhar uma obra ficcional de raiz, não indo buscar nenhum desportista em concreto, mas tendo o ténis como pano de fundo. O filme conta a história de um triângulo amoroso em permanente luta por um dos vértices, nos limites da toxicidade e da perversidade moral e ética. No centro, a deslumbrante Zendaya, a atriz que aqui faz a diferença, com uma beleza não estereotipada, que crivelmente causa fascínio.

O guião é criado numa estrutura arriscada, cheia de analepses e prolepses, com o tempo a andar para a frente e para trás, mas que acaba por resultar bem, em parte graças a um trabalho minucioso e delicado de caracterização. Ganhe quem ganhar, Challengers é um grande filme de um grande realizador que já nos tinha dado obras maiores como Eu Sou o Amor (2009) e Chama-me pelo Teu Nome (2017). De Luca Guadagnino, com Zendaya, Mike Faist, Josh O’Connor, Darnell Appling > 121 min

Palavras-chave:

Este é um caso típico de um David contra um Golias. O David, nesta história, é a tecnológica suíça Proton, que nos últimos dez anos tem desenvolvido um conjunto de serviços online (e-mail, calendário, armazenamento, palavras-passe, carteiras digitais, redes privadas) com um grande foco na área da privacidade. E o Golias desta história é nada mais, nada menos do que a Google e todas as outras grandes tecnológicas que usam os dados dos utilizadores como a matéria-prima para um sistema de monetização digital que transformou por completo a economia mundial e virou do avesso o conceito de privacidade. Mas ao contrário de outros defensores da privacidade digital, Andy Yen está a travar esta luta utilizador a utilizador – uma batalha difícil e desequilibrada, como o próprio reconhece, mas que acredita que vai ganhar a longo prazo.

Como é que um físico de partículas acaba a desafiar as grandes empresas tecnológicas?

Comecemos pela parte da física de partículas. Se fores um cientista, tens de ter boas competências técnicas porque, hoje em dia, os cientistas precisam de saber ciência da computação, tudo é digital. Portanto, estudar física e trabalhar na Organização Europeia para a Investigação Nuclear [CERN] deu-me, sem dúvida, as competências necessárias para transitar para uma área mais técnica. Mas, se recuarmos um pouco, também há a questão da grande missão da ciência – a ciência procura resolver problemas complexos na fronteira do conhecimento humano, com a esperança de tornar o mundo um lugar melhor. Sejamos honestos, ninguém vai para a área científica para ganhar dinheiro, certo? Não é uma profissão bem paga. Segues ciência porque queres fazer algo de bom. E esse espírito científico ainda é muito forte na Proton e na equipa inicial. Muitas das pessoas que entraram na empresa nos primeiros dias, e que ainda estão connosco hoje, são cientistas. Talvez o que nos diferencie da Google é que não somos uma empresa tecnológica dirigida por acionistas, investidores ou gestores. Continuamos a ser uma empresa tecnológica que foi fundada e ainda é gerida por cientistas. Isso dá-nos uma visão diferente do mundo. Acreditamos verdadeiramente que a privacidade é um dos problemas mais difíceis de resolver no século XXI. Mas é um problema absolutamente essencial para garantir que a democracia pode sobreviver na era digital – e é um problema extremamente difícil. Isso atrai as pessoas mais inteligentes do mundo, o que é bom para nós, mas é assim que um físico de partículas acaba a trabalhar na tecnologia de privacidade. Porque, na minha opinião, é a questão mais importante que uma pessoa técnica e inteligente pode tentar resolver atualmente em benefício da humanidade.

Qual é o maior obstáculo para que mais pessoas não utilizem serviços focados na privacidade, como o Proton? Mesmo após as divulgações feitas por Edward Snowden [2013], o escândalo da Cambridge Analytica [2018], as pessoas continuam a usar os principais serviços como se nada fosse.

Eu diria que isso está a mudar. Se voltasse a 2014, quando a Proton foi fundada, e perguntasse a uma pessoa comum como é que a Google e o Facebook ganham dinheiro, talvez recebesse uma resposta correta em cada dez. Hoje, não consigo dez em dez, mas pelo menos três ou quatro respostas corretas, dependendo de onde estou. Acho que a atitude tem vindo a mudar. Agora, falando de obstáculos, penso que existem três grandes barreiras. A primeira é a consciencialização e a educação, porque não vais procurar uma solução se não tiveres consciência do problema. Muitas pessoas não compreendem o problema que o modelo de negócios da Google e do Facebook está a causar ao mundo. Podemos aprofundar muito essa questão, mas o problema é a falta de consciência. A segunda barreira é o que eu chamo de comportamento anticoncorrencial. E isto é algo que a Comissão Europeia, através da Lei dos Mercados Digitais (DMA), está a tentar combater. Atualmente, a Google define todos os seus serviços como padrão. A forma como descobres outros serviços é através da sua plataforma. Eles controlam o sistema operativo Android. E, se não usares Android, usas o iOS, que é controlado pela Apple. Portanto, uma grande empresa tecnológica controla a tua janela para o mundo e pode decidir quais as aplicações que aparecem ou não aparecem. E, mesmo do ponto de vista económico, as lojas de aplicações cobram 30% das receitas das outras aplicações. Basicamente, estamos num modelo de negócio no qual tenho de pagar 30% das minhas receitas ao meu maior concorrente. Não existe nenhum mercado no qual isto aconteça e possa existir uma concorrência justa. Este é outro obstáculo – controlam a distribuição e criam políticas injustas que tornam muito difícil para as empresas europeias de tecnologia emergirem. O terceiro obstáculo é a experiência do utilizador. Este é um problema no qual a Proton fez muito, mas sinto que outras empresas que estão a construir alternativas tecnológicas não se têm focado devidamente nisto. Para convencer as pessoas a mudarem, mesmo que se resolvam os dois primeiros fatores, o terceiro é essencial – a experiência do utilizador tem de ser semelhante ou melhor. Historicamente, isso nem sempre foi a prioridade das empresas de privacidade e encriptação, concentravam-se nas coisas erradas. Curiosamente, houve um artigo no The Washington Post no ano passado em que uma jornalista mudou para o Proton e achou o processo tão fácil que ficou surpreendida e escreveu sobre isso. Atualmente, é bastante simples mudar. Existe uma ferramenta que permite importar tudo do Gmail com um clique. Mas isso implicou cerca de dez anos de pesquisa e desenvolvimento, mais o Regulamento Geral da Proteção de Dados [RGPD], para ser possível. O RGPD obriga as grandes tecnológicas a suportar a portabilidade de dados. Estes, penso, são os três principais desafios. A longo prazo, no entanto, continuo a acreditar que o modelo de negócios da Proton é o que vai prevalecer e por dois motivos. Se eu perguntar a qualquer pessoa qual é a visão que prefere para o futuro da web – a minha ou a da Google e do Mark Zuckerberg – a maioria estaria alinhada com a minha visão. É difícil construir todas as funcionalidades que a Google tem, mas estamos a fazê-lo. No produto de e-mail estamos mesmo muito próximos. Já hoje ou mesmo daqui a alguns anos, poderei dizer-te: ‘Podes ter tudo o que a Google te dá, mas com serviços que protegem os teus dados e garantem que pertencem exclusivamente a ti e não podem ser mal utilizados’. E acho que ninguém escolheria essa alternativa.

Não acha que essas empresas são demasiado grandes para falharem neste ponto? Porque, uma vez dentro desses ecossistemas, é muito difícil sair.

É, sem dúvida, difícil sair, mas também estamos a construir um ecossistema. Começámos com o ProtonMail, agora temos o ProtonCalendar, o ProtonDrive, um gestor de palavras-passe e o ProtonDocs. Estamos a juntar tudo, de forma semelhante. Dizer que são grandes de mais para falhar? Não. Não seria essa a expressão que usaria. Eu diria que o problema pode ser que são demasiado grandes para serem regulamentados. Mas a Comissão Europeia aprovou a Lei dos Mercados Digitais, que agora é lei europeia, foi aprovada pelo processo democrático. E se a Comissão Europeia aplicar o que esta legislação realmente estabelece, abrirá as portas para outras empresas europeias, como a Proton, entrarem nesse espaço. Acho absolutamente essencial que o façamos, especialmente após as eleições [dos EUA], o povo americano elegeu um presidente para representar os interesses americanos. E isso faz todo o sentido. Mas, na Europa, acho que está na hora de os europeus defenderem os interesses europeus. Por que razão devemos ter os nossos mercados totalmente abertos a empresas tecnológicas americanas e chinesas que chegam cá e basicamente exploram-nos? É um pouco como o colonialismo. Entram, extraem o recurso natural, que são os dados, para fornecer um bem de alto valor que canaliza toda a riqueza da Europa para a China e os EUA. Por que razão devemos aceitar isso muito mais tempo? Acredito que a Europa precisa de se tornar mais autossuficiente e mais soberana. Precisa de reforçar a defesa dos seus campeões tecnológicos europeus, porque sem isso a Europa não tem futuro económico.

Já notou alguma mudança no número de utilizadores ou nas receitas desde que estas novas regulamentações europeias entraram em vigor?

Já notámos algumas mudanças, mas são incrementais e acho que são demasiado lentas. Mas não digo isto como uma crítica. O que é interessante é que, com a Lei dos Mercados Digitais, a Comissão Europeia avançou mais rápido do que nunca na sua história. A questão é que a velocidade histórica da Comissão Europeia é demasiado lenta. Mas a diferença é grande, certo? Esta é a sua maior rapidez de sempre, mas ainda é um pouco lenta. Mas vemos progresso. Dou-te um exemplo. Hoje em dia, se criares uma nova conta no teu telefone Android, na Europa, já tens a opção de usar um e-mail diferente do Gmail. E a Europa tem essa possibilidade que os EUA não têm. Este é um sinal claro do impacto de como a Lei dos Mercados Digitais já está a surtir efeitos. E isto é algo no qual trabalhamos de muito perto com a Comissão Europeia, para que realmente impulsionassem esta mudança, pressionassem a Google e conseguissem essa alteração.

Mas essa é a questão. Quando configuramos um novo smartphone Android, podemos escolher qual o motor de busca que queremos usar. Mas imagino que 95% das pessoas escolham o Google porque é aquele que conhecem. Será tarde de mais para implementar estas medidas? Os efeitos são negligenciáveis…

Sim. Não vão mudar o jogo da noite para o dia, mas, de forma incremental, todas estas medidas ajudam. Agora, existem diferentes filosofias neste tema da concorrência. Posso dar-te dois exemplos: a perspetiva americana e a filosofia chinesa, que a Europa pode considerar e aprender. A perspetiva americana sempre foi dividir empresas que se tornam demasiado grandes. Fizeram isso com a AT&T e a Bell na década de 1980, e isso liberalizou verdadeiramente o mercado. Tornou possível que a próxima geração de empresas de tecnologia, como a Microsoft, surgisse. Depois pressionaram a Microsoft e isso criou a oportunidade para a Google, a Apple e o Facebook aparecerem. Na verdade, é interessante, porque o que vês neste exemplo é que, sempre que és rigoroso na regulamentação, não prejudicas os negócios, crias novas oportunidades de negócios. Depois há também o modelo chinês. Sou de Taiwan, por isso conheço bem o modelo chinês. Os chineses viram exatamente a mesma coisa a acontecer. Viram empresas tecnológicas americanas a entrar rapidamente no seu mercado e, como tinham uma vantagem inicial, porque começaram a desenvolver a internet mais cedo, eram realmente melhores do que os serviços chineses nessa fase inicial e estavam a captar cada vez mais mercado. Então, o que os chineses fizeram foi simplesmente dizer: ‘Sabem que mais? Não podemos ceder a nossa soberania e o nosso futuro económico à América. Vamos simplesmente bloqueá-los’. E foi isso. E deram uma década para que os seus campeões nacionais crescessem. E hoje, eu diria, se deixares a Google voltar à China, provavelmente não terá sucesso porque têm campeões nacionais que podem competir. Colocaram obstáculos com o objetivo de apoiar as indústrias locais. Acho que, na Europa, não podemos continuar sem fazer nada. Portanto, quer seja pela abordagem americana de regulamentar muito rigorosamente ou pela abordagem chinesa de protecionismo e defesa dos campeões locais, temos de escolher uma. Porque o caminho atual de nada fazer é um caminho de derrota, e acho que isso está a tornar-se cada vez mais claro com o que está a acontecer. E agora, com o regresso de [Donald] Trump, acho que o risco de nada fazer é ainda maior.

Referi antes as revelações do Snowden, o escândalo da Cambridge Analytica… Que tipo de evento seria necessário acontecer para que houvesse uma mudança significativa na mentalidade das pessoas que as levasse a dizer ‘Ok, preciso de usar um serviço focado na privacidade’?

Não acredito que será um único evento que mudará isso. Claro, quando tens um evento como as eleições nos EUA, as pessoas começam a pensar. Agora o Trump vai voltar ao poder, terá controlo sobre o Departamento de Justiça e pode, muito facilmente, através desse departamento, fazer pedidos à Google e às grandes empresas tecnológicas para obter informações, porque são empresas americanas. Essencialmente, tudo o que tens no Google e na Microsoft está agora acessível ao Trump. E isso provavelmente deixará algumas pessoas muito desconfortáveis. Por isso, tenho certeza de que, no dia 20 de janeiro do próximo ano, as empresas europeias como a Proton verão um aumento de utilizadores. Mas isso não vai, digamos, mudar da noite para o dia. O paralelo que faço é este – vejamos questões relacionadas com o ambiente ou a alimentação saudável. Ninguém consegue apontar um único evento que tenha tornado socialmente inaceitável queimar carvão. Ninguém consegue pensar num único evento que explique porque deixámos de comer fritos e agora comemos de forma mais saudável, certo? Mas hoje, comparado com há 20 anos, percebes que da década de 1990 para agora houve uma mudança muito, muito grande. Então, o que aconteceu? E não foi um único evento. Foi uma transição gradual. O Elon Musk, quando começou a Tesla nos anos 2000, e dizia “os carros elétricos são o futuro”, parecia uma loucura. Mas hoje parece tão óbvio, tão inevitável. E acho que é o mesmo para a privacidade online. A privacidade online, quando começámos em 2014, apenas dois anos depois de o Mark Zuckerberg ter declarado que a privacidade já não era uma norma social. Obviamente, ele mudou de ideias e agora tenta convencer todos os que o ouvem, que infelizmente para ele não são muitos, de que é a favor da privacidade. Isso acontece à medida que as pessoas percebem. Por exemplo, quando te casas ou tens um bebé, começas a fazer algumas pesquisas no Google, e todos os teus anúncios são sobre bebés. Então, o que acho que está a acontecer é que as grandes empresas tecnológicas, através das atividades que realizam, estão a tornar a sociedade mais consciente e essa consciência está a crescer por si só. E provavelmente vai levar uma década ou décadas até que as coisas mudem, mas, na minha opinião, é inevitável porque não podes escapar às evidências diárias de que, se não mudarmos, algo de mau vai acontecer. Assim como no ambiente não podemos escapar às evidências diárias de que o aquecimento global é real.

Se olharmos para a Google, a empresa tem implementado algumas funcionalidades mais focadas na privacidade, como o histórico de pesquisa ser eliminado após 90 dias. Estão a fazer isto porque estão a começar a sentir a pressão?

Estão a fazer isso porque, claro, sentem pressão e empresas como a Proton, que competem com base na privacidade, estão a dificultar-lhes um pouco a vida. Mas precisamos de ter cuidado quando pensamos no que a Google quer dizer com privacidade. Quando o Google fala de privacidade, o que realmente quer dizer? A definição de privacidade deles é ‘Vamos dar-te mais opções sobre como abusamos dos teus dados, então agora tens a opção de ser abusado para sempre ou ser abusado por 90 dias’. Mas, no final de contas, eu não quero ser abusado de forma alguma. E se olhares para a Apple, a definição de privacidade da Apple é que ninguém pode abusar dos teus dados, exceto eles. Mas, na verdade, eu não quero ser abusado, ponto final. Por isso é que chamo a isto lavagem da privacidade [privacy washing, no original em inglês]. Existe a noção de as empresas petrolíferas fazerem o greenwashing, mas agora as grandes empresas tecnológicas estão a fazer a lavagem da privacidade. É uma falsa privacidade. Acho que há um exemplo clássico – a Google fez um grande anúncio de que ia acabar com os cookies de terceiros [third party cookies em inglês]. E eu penso ‘ok, os cookies de terceiros é bom, mas e os cookies proprietários da Google’? Preocupam-me muito mais esses do que os cookies de terceiros. Esta é uma forma de distrair as pessoas do que seria um problema real.

E recuaram.

E recuaram, sim, porque a Comissão Europeia chamou-os à atenção. Nesse caso, não o fizeram porque se preocupam com a privacidade, mas porque era um movimento que os tornaria ainda mais fortes ao expulsar a concorrência.

Vi um vídeo seu no qual disse que a vigilância corporativa é um problema muito maior do que a vigilância governamental. Pode explicar porquê?

O Snowden contou-nos sobre a Agência Nacional de Segurança dos EUA [NSA] e quão assustador isso era. E é assustador. Mas se considerares a quantidade de informação que a NSA tem sobre ti, comparada com o que a Google tem, é uma gota num oceano. A Google sabe muito mais sobre quem és, os teus interesses e as tuas peculiaridades do que a agência de informações secretas americana. A quantidade de informações que as empresas têm sobre ti é muito maior do que aquilo que os governos podem recolher. E o problema agora, claro, é que os governos têm acesso a isso também. A nova administração que vai assumir o poder no próximo ano nos EUA terá acesso direto a todas essas informações. E este é o problema fundamental de recolher dados em primeiro lugar, porque nunca podes garantir que os dados não serão mal utilizados. A única forma de salvaguardar os dados dos utilizadores é, na verdade, não os recolheres em primeiro lugar.

Como é que a Proton gere os dados? Não recolhem qualquer dado? Porque, caso contrário, como sabem que têm utilizadores na Rússia ou na Coreia do Norte?

A nossa filosofia é que a melhor forma de proteger dados é não ter dados. Portanto, usamos encriptação ponto-a-ponto. Se usas o ProtonMail ou o ProtonDrive, tens encriptação ponto-a-ponto. E encriptação ponto-a-ponto significa que nós, como empresa, não temos acesso a esses dados. Não temos forma de desencriptar as informações dos nossos utilizadores nos dados armazenados no nosso sistema. E isso é uma garantia matemática. Não é uma promessa da Google de ‘nós não vamos olhar’. É uma promessa da matemática que garante que não conseguimos mesmo olhar. Essa é uma diferença tecnológica bastante significativa. E acho que é a garantia mais forte que podes dar aos utilizadores. Mas além disso, o nosso negócio não é a publicidade. O modelo de negócios da Google é… bem… é um negócio engraçado, porque é um negócio de engano. É basicamente ‘espero que nunca leias a nossa política de privacidade, porque se o fizesses, fugias’. E não és utilizador da Google, és o produto vendido ao verdadeiro utilizador, que é o anunciante. Isso é um conflito de interesses. E porque o verdadeiro cliente é o anunciante, eles incentivam a recolher o máximo de informações possível para partilhar com os anunciantes. Nós, na Proton, não temos essa restrição. Não temos publicidade no nosso negócio, por isso na realidade não preciso de recolher nada além do mínimo necessário para fazer o serviço funcionar. Não estamos a recolher muitos dados porque não precisamos. Não faz parte do nosso modelo de negócios.

Perfil

Natural de Taiwan, formou-se nos EUA e vive atualmente na Suíça. Tem uma licenciatura em Economia e Física pela Caltech e um doutoramente em Física pela Universidade de Harvard. Trabalhou durante seis anos enquanto investigador no CERN, onde começou a trabalhar na criação dos serviços Proton. É um reconhecido orador da área da privacidade, tendo já participado em eventos da ONU, TED e Web Summit.

Entrevista a Andy Yen da Proton. WebSummit 14 Novembro 2024 Foto: José Carlos Carvalho

Falou da encriptação e mencionou as regulamentações europeia. No ano passado vimos uma nova tentativa de regulamentação à encriptação. Acha que a encriptação está em risco de alguma forma na Europa?

Acredito que há sempre ameaças e, se olharmos para o contexto atual, é particularmente interessante. Primeiro, nos EUA, na última eleição, descobriu-se que o Irão e a Rússia tinham invadido alguns sistemas para obter informações sobre determinados políticos – especificamente o J.D. Vance e o Trump. E a forma como o fizeram foi acedendo ao sistema que a legislação norte-americana exigia para que pudesse fazer vigilância. Eles invadiram os sistemas de vigilância de grandes empresas de telecomunicações americanas, que foram criados para cumprir as solicitações de dados da NSA e do governo dos EUA. E o que é muito assustador agora é que, na Europa, há uma pressão para fazer a mesma coisa. E as pessoas que estão a pressionar são os húngaros, que estão à frente da presidência da UE. As pessoas podem perguntar – bem, se isso foi tão útil para os russos nos EUA, por que razão os húngaros estão a pressionar para que aconteça aqui agora? Acho que é uma questão que deve ser levantada. Mas eu diria que o incidente nos EUA, apenas há alguns meses, mostra claramente os perigos de um sistema como este. Porque estás essencialmente a centralizar um sistema que pode ser muito facilmente explorado por agentes estrangeiros que conseguem pirateá-lo. E o princípio chave aqui é que, quando se trata de encriptação, não existe tal coisa como uma ‘porta dos fundos’ que permita apenas que os bons da fita entrem. Se é criada essa porta dos fundos, os russos vão entrar. E o exemplo americano mostrou isso de forma muito, muito clara.

Ainda sobre o tema da encriptação. Como vê o papel da privacidade nas democracias, especialmente quando são os próprios governos, como na Europa, a tentar quebrar essa barreira?

Não acho que estejam propriamente a tentar quebrar uma barreira. Penso que muitas pessoas nos governos ainda não entendem é a relação entre as duas áreas. Para a democracia sobreviver, precisamos de liberdade de expressão. Para nos sentirmos livres, é necessário termos privacidade nas comunicações. Se não sentirmos que temos privacidade, não nos expressamos livremente. E, na verdade, a única forma de preservar a privacidade, considerando que não queremos criar portas dos fundos que possam ser usadas pelos russos ou por outros, é precisamente a encriptação. A encriptação é uma base tecnológica fundamental para a democracia. O problema é que esta relação envolve vários passos e não se percebe isso imediatamente. Mas acredito que, com o tempo, essa compreensão será alcançada. Muito do nosso trabalho consiste em ir a Bruxelas e educar os políticos sobre esta questão. E penso que o que aconteceu com a campanha do Trump, os russos e as empresas de telecomunicações norte-americanas recentemente, ajuda a tornar o caso muito mais claro. As pessoas conseguem ver, de forma imediata, como a ausência de encriptação forte e de uma privacidade robusta pode levar diretamente ao enfraquecimento da democracia.

Do ponto de vista tecnológico, existem novos sistemas de encriptação ou de segurança que estão a explorar e que possam melhorar a privacidade?

Do ponto de vista tecnológico, a encriptação é matemática e a matemática funciona. É uma daquelas coisas em que, mesmo com o passar do tempo, a matemática não muda. A matemática é constante no tempo. Claro que temos a computação quântica a surgir e a colocar riscos para a encriptação, mas já encontrámos formas de, digamos, tornar a nossa encriptação resistente a computadores quânticos. A encriptação resistente à computação quântica é algo no qual estamos a trabalhar e que será implementado a seu tempo. Mas a beleza da matemática é que não importa quem ganha uma eleição, as leis da matemática são sempre as mesmas. Eram as mesmas antes de terça-feira passada [dia 4 de novembro] e continuam a sê-lo depois de terça-feira passada. E penso que essa é a beleza do nosso trabalho – não precisa de ser alterado, porque sabemos que a matemática funciona no longo prazo. Agora, o desafio em que temos de trabalhar constantemente é como tornar os produtos simples e acessíveis. Porque, se eu te dissesse ‘Olha, há este serviço alternativo que oferece exatamente o mesmo conjunto de funcionalidades da Google, mas protege os teus dados’, ninguém diria que não, certo? Todos diriam ‘Ok, quero usar esse serviço’. Mas a verdade é que a Google tem tantas funcionalidades que haverá sempre algumas concessões. Pode faltar uma funcionalidade aqui, outra ali. O nosso trabalho como empresa é reduzir essas concessões ao mínimo possível. E se olhares para o nosso produto de e-mail, o ProtonMail, estamos muito próximos de oferecer exatamente o mesmo produto. Mas, com o tempo, construiremos todo o ecossistema e torná-lo-emos muito fácil para as pessoas fazerem a transição.

Esta entrevista não estaria completa sem fazer uma pergunta sobre Inteligência Artificial. Os grandes assistentes de IA, como o ChatGPT ou o Gemini, podem piorar a privacidade?

Na verdade, isso é o mais assustador. A IA é vigilância. Porque literalmente tudo o que dizes ou escreves na janela do assistente é gravado, guardado e usado para treinar os modelos de IA. E, quando se coloca algo no motor de busca do Google, é relativamente impessoal, certo? Mas algumas pessoas estão a falar com os chatbots como se fossem os seus melhores amigos, a revelar todos os seus segredos, que depois são recolhidos e abusados. Portanto, penso que os chatbots e a IA representam um enorme desafio para a privacidade. É algo no qual a Proton fará mais no futuro para tentar competir nesta área. Acredito que há uma oportunidade de desenvolver IA de forma a respeitar a privacidade desde a sua conceção. E isso é algo no qual definitivamente vamos investir, porque o sistema atual é horrível, é basicamente vigilância.

É justo dizer que estão a trabalhar em algo como um Proton GPT?

Temos algumas coisas em desenvolvimento, que partilharemos contigo assim que estivermos prontos para anunciá-las.

Anda sempre curvada. O corpo dobrado, como se se tivesse partido ao meio, impossível de endireitar. O rosto virado para o chão. Caminha pelo bairro, tratando da sua vida, fazendo recados, carregando sacos, vergada, mesmo quando não traz pesos. É uma das figuras de Campo de Ourique. Passo por ela muitas vezes, mas não lhe consigo reproduzir o rosto na memória, talvez porque ele está sempre virado para baixo, talvez por que já não nos cruzamos há algum tempo. Mas lembro-me dela enquanto me apercebo como se me curvam as costas.

Não é uma coisa nova. “Endireita as costas”, ouvia o meu pai dizer-me, ainda muito miúda, enquanto tentava puxar-me para trás os ombros. Endireitava-me. Mas o esforço deixava-me dorida e rapidamente os ombros deslizavam para a frente, projetando a coluna numa curva a ameaçar tornar-se corcunda. Estar de peito aberto e queixo levantado parecia-me exibicionismo a mais para a timidez que ainda hoje tento disfarçar. As raparigas aprendem cedo que dar nas vistas nem sempre é boa ideia. Na maior parte das vezes, não é.

Não é uma coisa nova e é cada vez mais difícil ensinar o corpo a estar direito, ao mesmo tempo que se passa tanto tempo a olhar para o chão, a apanhar roupas e brinquedos espalhados pela casa, a reparar no que está sujo, no que ficou fora do sítio, no que é preciso arrumar. Baixo-me uma e outra vez. E torno a baixar-me, porque há sempre qualquer coisa que ficou esquecida. E é preciso repor a ordem no mundo.

Às vezes penso que há coisas que só as mulheres conseguem ver. Por estarem de olhos cravados no chão, a olhar para o que parece invisível, para o que se pisa, para o que se ignora. Sempre com a sensação de que, se desviarmos os olhos do chão, ele vai abrir-se e desabar. É por isso que nos é difícil desviar os olhos, mesmo quando nos dizem para ignorarmos, para deixar estar, para nos distrairmos e descansar. É que acreditamos mesmo que a ordem no mundo depende desse nosso gesto permanente, que tudo cose, tudo repara, tudo repõe.

Mas é preciso endireitar as costas e erguer a cabeça. É preciso não ter medo de abrir o peito e olhar nos olhos quem nos quer curvadas.

“Caladinha é que tu estás bem”, “havias de ser violada por um indiano”, “quando fores raptada logo vês”, “calada, és uma puta”, “tem vergonha”, “tem juízo”. “És bonita, é pena seres tendenciosa”, “deves ter a mania que és inteligente”. As mensagens são constantes, quase sempre acompanhadas de comentários ao aspeto físico, sempre que falo em público para denunciar o racismo, a xenofobia, o ódio e a manipulação. Quando as leio, endireito um pouco mais as costas.

Um inquérito da UNESCO, publicado em 2020, revela que 73% das mulheres jornalistas foram vítimas de ataques de violência digital. Isso teve consequências: 30% destas mulheres admite ter começado a evitar tratar determinados temas, 20% deixou de ter presença digital e 13% teve de adotar medidas especiais de segurança. E há cada vez mais evidências de que este tipo de ataques é feito por trolls organizados, de forma especialmente dirigida, com propósitos políticos.

Não são só homens zangados, isolados, com tempo demais nas mãos e a coberto do anonimato das redes. Basta ver como muitos destes comentários são feitos por contas sem o rasto digital normal para perfis de gente de carne e osso.

Há quem esteja a investir para financiar ataques massivos a mulheres no espaço digital, para que essas vozes se calem, para que alguns temas se tornem impossíveis, para que fiquemos de costas vergadas e olhos presos ao chão.

A todos os que usam o insulto, a intimidação, a humilhação, a ameaça, tenho só uma coisa a dizer: não vão conseguir.

O Tinder mudou-se para o carrinho do supermercado

Nunca os criativos de publicidade poderiam imaginar o impacto positivo que um vídeo publicado no Tik Tok em agosto teria sobre a cadeia de supermercados espanhola que está a invadir Portugal. Segundo essa publicação de Vivy Lin, uma cara bem conhecida da televisão do país vizinho, tudo se passava no Mercadona, onde existiriam códigos para engatar, entre as sete e as oito da noite, “hora do lobo” para se arranjar companhia. Um deles seria ter um ananás de pernas para o ar no carrinho, no corredor dos vinhos. As mensagens subliminares continuavam pelos chocolates ou doces, quando se deseja algo mais casual. Se existirem legumes, então o caso tornar-se-ia mais sério. O assunto, entretanto, morreu, como seria expectável. No entanto recomenda-se mais atenção na hora das compras lá para casa.

A ceia que se tornou amarga para os católicos

Assim que se deu o tiro de partida para os Jogos Olímpicos, em Paris, com a sempre muito esperada cerimónia de abertura, estalou a polémica. A ponto de o diretor artístico ter de vir a público negar que a cena apresentada tenha sido inspirada no quadro de Leonardo da Vinci, A Última Ceia, e até os organizadores se sentiram na obrigação de se desculpar por… nada. Afinal, explicaram, a ideia por detrás da encenação daquela cerimónia transmitida para todo o mundo era realçar a tolerância e a inclusão, remetendo para uma “grande festa pagã relacionada com os deuses do Olimpo”, já que os Jogos, recorde-se, têm origem na Grécia Antiga. Os católicos não ligaram à História e sentiram-se atingidos na sua religiosidade.

Narcos ao vivo no Equador

Na América Latina, o ano começou com cenas que pareciam retiradas da série Narcos. No Equador, o Presidente viu-se obrigado a declarar estado de emergência depois de uma onda de motins prisionais, assaltos e homicídios. Ao mesmo tempo, ordenou às forças armadas do país que se envolvessem no combate às 22 organizações de narcotraficantes, com mais de 200 mil operacionais infiltrados em todas as instituições. Durante estes desacatos, que duraram uma semana, um canal de televisão foi invadido, um narcotraficante fugiu da prisão e pelo menos dez pessoas morreram nas ruas.

No dia em que os policias não foram a jogo

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

No calendário da 1ª Liga, o jogo Famalicão-Sporting, no dia 3 de fevereiro parecia ser só mais um sábado futebolístico. Equipas no estádio, adeptos prontos para entrar. Mas ninguém pisou o relvado. A partida, a contar para a 20.ª jornada da Liga, foi adiada por causa do protesto das forças policiais, que exigiam o pagamento do subsídio de missão idêntico ao dos inspetores da Polícia Judiciária. Para, alegadamente, poderem faltar, dez elementos designados para o jogo apresentou baixa médica. A história repetiu-se nos encontros Leixões-Nacional e Feirense-Académico de Viseu, a contar para a 2ª Liga.

O logo que foi logo retirado

Ainda no tempo de António Costa, foi pedido a Eduardo Aires que redesenhasse o logotipo de Portugal, coisa que, sendo um dos mais conceituados designers portugueses, fez com maestria, adaptando a imagem à contemporaneidade. Só que tal nunca passou de uma boa intenção. Assim que chegou ao poder, o executivo de Montenegro mandou retirar esse novo símbolo, que acabava com as quinas, as torres e a esfera armilar. Passados dois meses sobre a polémica, ironicamente, o trabalho de Eduardo Aires ganhou um prémio do Clube de Criativos de Portugal, sendo considerado o melhor projeto de branding feito em Portugal em 2023, e ficou apurado para um concurso europeu.

O difícil parto da presidência da Assembleia

Que o Governo da AD ia estar suspenso por ténues pinças, percebeu-se logo na noite das eleições, a 10 de março, na sequência da maioria relativa conseguida pela coligação. Não se esperava é que isso fosse tão evidente, logo no primeiro ato oficial, que consistiu na eleição do presidente da Assembleia da República, a segunda figura mais importante do Estado. Foram precisas quatro votações e muita diplomacia para que o candidato proposto pelo PSD, José Pedro Aguiar-Branco, reunisse o consenso mínimo para ser eleito. Isso só foi possível depois de o PS e o PSD acordarem uma presidência rotativa: Aguiar-Branco lidera primeira metade da legislatura, os últimos dois anos ficarão a cargo de um socialista.

A prisão exemplar de Combs

EPA/SARAH YENESEL

Desde setembro que o rapper Sean “Diddy” Combs (antes conhecido como Puff Daddy), um dos produtores e artistas de hip-hop mais influentes das últimas três décadas, continua detido numa prisão sobrelotada em Nova Iorque, enquanto aguarda julgamento por tráfico sexual e extorsão. A acusação refere-o como cabecilha de uma “rede criminosa” que levou a cabo, entre outros crimes, “tráfico sexual, trabalho forçado, rapto, fogo posto, suborno e obstrução à justiça”. A data para o julgamento já foi entretanto estipulada: 5 de maio de 2025. Até lá, o músico de 54 anos continuará atrás das grades, até por que foi agora acusado de andar a pressionar testemunhas, a partir da prisão.

Puigdemont, tanto aparece como desaparece

EPA/ALBERTO ESTEVEZ

Se houve aparição meteórica este ano, ela foi a de Carles Puigdemont, a 8 de agosto, pelas 9 da manhã. O catalão, antigo presidente da Catalunha, fugido às autoridades há quase sete anos, subiu a um palco no Arco do Triunfo, em Barcelona, e fez um discurso, no preciso momento em que o novo presidente do governo daquela região autónoma, o socialista Salvador Illa, estava a ser investido no parlamento. Logo de seguida, Puigdemont, 61 anos, desapareceu no meio da multidão. De imediato, foi acionada uma forte operação policial para o deter, mas o líder separatista já estava de novo em fuga, desta vez na bagageira de um carro.

Os agricultores também se manifestam

EPA/GUILLAUME HORCAJUELO

O ano mal tinha começado e os agricultores dos Países Baixos revoltaram-se, provocando estilhaços por França, Alemanha, Polónia e Roménia. Por cá, também se bloquearam estradas e fronteiras, pondo em evidência a importância destes trabalhadores na nossa sobrevivência. Essas iniciativas de protesto incluíram igualmente marchas lentas e manifestações, que visaram chamar a atenção para uma série de reivindicações, mas de uma forma global puseram o foco nos baixos rendimentos do setor e na ausência de preços justos para a produção agrícola.

Quando a “moda” de esfaquear colegas chegou às nossas escolas

Quando deixamos os nossos filhos à porta da escola, nunca pensamos na possibilidade de eles serem esfaqueados pelo colega do lado. Pelo menos até setembro, quando ficámos atordoados com a notícia de que essa “moda” americana teria chegado ao nosso sistema de ensino. Até ver, tratou-se de um episódio isolado, mas a verdade é que seis alunos de uma escola da Azambuja foram vítimas de um ataque de outra criança de 12 anos, matriculado no 7.º ano, embora só um deles tenha precisado de cuidados hospitalares. Já o atacante, filho de uma professora, foi mandado internar num centro educativo pelo Tribunal de Família e Menores de Vila Franca de Xira, acreditando as autoridades ter-se deixado “influenciar pelo ideário nazi”. A escola viria a receber a visita de Fernando Alexandre, ministro da Educação.

Escaparam-nos por cordas e escadas de alumínio

Em setembro, a fuga de cinco reclusos, dois portugueses, um georgiano, um argentino e um britânico, de uma prisão de alta segurança em Portugal garantiu mais alguns minutos nas notícias do que os 15 previstos para se ser famoso. E agora, volta-se ao tema sempre que mais um é apanhado (já foram três). Os fugitivos estavam condenados a penas entre os sete e os 25 anos de prisão, por vários crimes, entre os quais tráfico de droga, associação criminosa, roubo, sequestro e branqueamento de capitais. Aqui se lembra a história de uma fuga muito bem preparada, com todos os pormenores pensados ao mínimo detalhe e com apoio do exterior, tal como nos habituámos a ver nos filmes. Os cinco homens usaram uma escada de alumínio para descer os altos muros da prisão e aproveitaram uma falha do sistema de videovigilância. Elementar, meus caros.

Matar, por uma boa causa?

EPA/OLGA FEDOROVA

O seu nome era totalmente desconhecido até ao dia 4 de dezembro. Agora, está nas parangonas de todo o mundo: Luigi Mangione, de 26 anos, foi detido cinco dias depois e formalmente acusado da morte de Brian Thompson, diretor executivo da United Healthcare, que alegadamente baleou à porta de um hotel em Manhattan no tal dia em que estava destinado a sair do anonimato. Além de ser jovem e bonito, um díptico que costuma favorecer o apoio a causas, o facto de o crime ter sido perpetrado contra um magnata dos seguros de saúde, uma área bastante sensível nos EUA, tem granjeado muitas palavras de empatia nas redes sociais.

1.“Chico Fininho” nos Aliados, Porto

No Porto, a noite de passagem de ano volta a ter dois palcos na rua para celebrar a entrada em 2025: a Avenida dos Aliados e os Jardins do Palácio de Cristal. No primeiro, atuam o músico Nuno Ribeiro e, depois da meia-noite, será Rui Veloso a animar as primeiras horas do novo ano com temas dos seus 45 anos de carreira, como Chico Fininho ou Porto Sentido. O Palácio de Cristal receberá o rapper Julinho KSD e o produtor Branko (após a meia-noite). Depois da contagem decrescente para o ano novo, o espetáculo de fogo de artifício promete pôr todos a olhar para o céu. Avenida dos Aliados e Jardins do Palácio de Cristal, Porto > 31 dez, ter a partir 22h > grátis

2.Três palcos para celebrar em Coimbra

Matias Damásio Foto: DR

A passagem de ano em Coimbra vai durar quatro dias, entre este sábado, 28, e terça, 31, em três palcos e com 17 espetáculos. Contas feitas, são mais 30 horas de música e animação. Neste sábado e domingo, dias 28 e 29, a partir das 21h30, são dias de música eletrónica no palco montado na Praça do Comércio, com a atuação dos DJ Diogo Duarte e Nelson Cunha (dia, 28), e Patrick Assis e Kura (dia 29). Na segunda, 30, a festa faz-se no Largo da Portagem com Richie Campbell (23h), e os DJ Pedro Carrilho (21h30) e Kamala (00h15). Na última noite do ano, há animação em quatro locais da baixa da cidade. Às 21h30, no Largo da Portagem, está a dupla de DJ Rui Tomé e Luís Pinheiro; à mesma hora, no Mercado Municipal D. Pedro V, o grupo +Samba. O Largo da Portagem, recebe ainda, às 22h30, os Átoa. O fogo de artifício, lançado junto ao rio Mondego, vai durar dez minutos e antece o concerto de Matias Damásio. O programa inclui ainda, entre outras atuações no dia 31, os DJ Meninos da Vadiagem e Pete Tha Zouk na Praça do Comércio, prometendo uma longa noite de festejos. Vários locais, Coimbra > 28-31 dez, sáb-ter > grátis

3. Quatro dias de festa na Figueira da Foz

Passar o ano na Figueira da Foz é sinónimo de quatro dias de festa e animação musical. As celebrações acontecem junto a Piscina Mar e começam no sábado, 28, com as atuações da Hangover Band e do DJ Rui Tomé, e no dia seguinte, domingo, 29, com a cantora Iolanda, os Doubedeck e os DJ Johnny J e André Matos. Para segunda, 30, está reservado o concerto dos HMB, formação que conta com Héber Marques (voz), Joel Silva (bateria), Daniel Lima (teclas), Fred Martinho (guitarra) e Joel Xavier (baixo), e a seguir, atua o DJ Nuno Botelho. Na noite mais longa do ano, sobe ao palco o rapper Slow J, e depois do fogo de artifício, os DJ Drenchill e João Marques. Avenida 25 de Abril, Figueira da Foz > 28-31 dez, sáb-ter > grátis

4. Celebrar com vista para o castelo de Leiria

Este ano, em Leiria, há mudanças no local das festividades que passam a realizar-se no Largo 5 de Outubro e em dois dias. Na segunda, 30, a partir das 22h, sobe ao palco Elsa Gomes e, às 23h30, os Usados com Garantia. No dia seguinte, terça, 31, está assegurado o espetáculo piromusical à meia-noite, a partir do castelo, e um programa musical que conta com o concerto da banda de Rui Reininho, os GNR, às 23h. Já em 2025, às 00h30, atua o DJ Breyth e, às 2h, os Kid Loco & Los Mysterios. Largo 5 de outubro, Leiria > 30-31 dez, seg a partir 22h, ter a partir 23h30 > grátis

5. Fim de ano no Terreiro do Paço, em Lisboa

O grande praça lisboeta volta a ser palco das festividades que assinalam mais um final de ano. A noite começa com um concerto de José Cid, marcado para as 21h30, a que se segue o tradicional fogo de artifício, dez minutos de um espetáculo pirotécnico sobre o rio Tejo. Já em 2025, do rock passa-se ao pop de Mickael Carreira, atuação que encerra a programação. Terreiro do Paço, Lisboa > 31 dez, ter a partir 21h30 > grátis

6. Um espetáculo de drones em Cascais

Foto: DR

A bonita Baía de Cascais volta a ser cenário das comemorações de réveillon e promete surpreender mais uma vez, com tecnologia. Tal como no ano passado, a passagem de 2024 para 2025 far-se-á com um espetáculo de drones, um dos maiores do género em Portugal, com início marcado para as 23h55 e dez minutos de duração. São 300 os drones autónomos que vão sobrevoar a baía e criar uma história visual, com mensagens de textos e figuras de monumentos icónicos do concelho. Segue-se o tradicional fogo de artíficio, que também há de encher o céu de luz e cor. Baía de Cascais, Cascais > 31 dez, ter 23h55 > grátis

7. Réveillon à beira Tejo em Almada

É junto à Fragata D. Fernando II e Glória, em Cacilhas, que se faz a festa em Almada. Neste réveillon à beira-Tejo, a música está a cargo de Aurea que sobe ao palco pelas 22h30. À meia-noite, há fogo de artifício e já em 2025, segue o baile com a atuação da DJ e produtora Zanova. Largo de Cacilhas, Almada > 31 dez, ter a partir 22h30 > grátis

8. Passagem de ano na zona ribeirinha do Seixal

Também no concelho do Seixal se aproveita a proximidade ao rio Tejo para a festa de passagem de ano, que vai acontecer na zona ribeirinha da Amora. Há fogo de artifício à meia-noite, sincronizado com todas as freguesias do concelho, mas antes disso, a noite conta com os sucesssos musicais de Toy, que sobe ao palco a partir das 22 horas. Zona ribeirinha da Amora, Seixal > 31 dez, ter a partir das 22h > grátis

9. Fim-de-ano Azul em Setúbal

Foto: DR

Em Setúbal, a festa faz-se em dois palcos montados na zona ribeirinha com vista para o rio Sado e para a Arrábida. No palco Doca dos Pescadores, a noite começa às 22h30 com um concerto dos The Gift, enquanto no palco Praia da Saúde, junto ao Rockalot, atuará, pelas 23h, o artista Jorge Nice. À meia-noite não faltará o tradicional espetáculo pirotécnico. A festa segue até às 4h da manhã no palco Doca dos Pescadores com a música de Patronilho, que foi DJ residente da mítica discoteca Seagull. Av. José Mourinho, Setúbal > 31 dez, ter a partir 22h30 > grátis

10. Celebrar na baía de Sines

Dino D’Santiago Foto: Diana Tinoco

Em Sines, as comemorações de fim de ano têm lugar na Avenida Vasco da Gama/Baía de Sines. A noite será longa e começa com um concerto de Dino D’Santiago, pelas 22h30, a que se segue o espetáculo de fogo de artifício. Já com o pé em 2025, é a música de dança que toma conta da festa, primeiro com um DJ Set da dupla Insert Coin, e a seguir, Fernando Alvim que se apresenta no litoral alentejano na pele de DJ. Avenida Vasco da Gama, Sines > 31 dez, ter a partir 22h30 > grátis

11. Festa na baixa de Faro

Na cidade algarvia de Faro as festividades de fim de ano duram dois dias. Na segunda, 30, a partir das 22h30, no passeio da Doca, junto ao Jardim Manuel Bivar, sobe ao palco o projeto imersivo que junta Moullinex e GPU Panic, isto é, os artistas, Luís Clara Gomes e Gui Tomé Ribeiro, num claro convite à dança. No dia seguinte, terça 31, a baixa volta a encher-se de animação e recebe na última noite do ano, pelas 21h, o espetáculo Around The World, dos produtores do Revenge of the 90’s, e às 22h30, o concerto dos D.A.M.A. Segue-se o fogo de artifício, à batida da meia-noite, e logo depois, regressa ao palco o espetáculo Around The World para pôr toda a gente a dançar pela noite fora. Jardim Manuel Bivar, Faro > 30-31 dez, seg a partir das 22h30, ter a partir das 21h > grátis

12. Novo ano junto à praia em Albufeira

Xutos & Pontapés Foto: DR

A tradição repete-se e a Praia dos Pescadores, em Albufeira, volta a ser palco das comemorações de passagem de ano com dois dias de festa. As celebrações começam logo na segunda, 30, pelas 22h30, com a atuação de Dino D’Santiago que se vai fazer acompanhar por uma banda de quatro músicos. No dia seguinte, 31, às 22h, sobem ao palco os Xutos & Pontapés e ganha palco o rock, num espetáculo com projeção vídeo, iluminação, cenografia e alinhamento especial e, por isso, com algumas surpresas. A meia-noite é assinalada com um espetáculo de drones (500 destas máquinas vão ser lançadas ao céu) que juntará pirotecnia, lasers, efeitos especiais acompanhados por uma banda sonora épica, que não se pode revelar. A noite segue com música de dança, a cargo do DJ Diego Miranda. Praia dos Pescadores, Albufeira > 30-31 dez, seg-ter a partir das 22h > grátis

13. Todos à Praça do Infante de Lagos

As comemorações em Lagos começam com a atuação de Michie, o artista local que fará a abertura do concerto de Richie Campbell, a estrela desta festa de passagem de ano que também contará com o tradicional fogo de artifício. Já em 2025, caberá ao DJ Rhythm seguir com a animação musical. Praça do Infante, Lagos > 31 dez, ter a partir 22h30 > grátis

Em casa, e não tendo um sommelier por perto, também gostamos de ter (e beber) um bom vinho. Foi esse o desafio lançado a cinco mulheres que dão cartas nesta matéria: Nádia Desidério (restaurante Belcanto, Lisboa, 1 Estrela Michelin), Eveline Borges (Midori, Sintra, 1 Estrela Michelin), Elisabete Fernandes (The Yeatman Hotel, Vila Nova de Gaia), Eugénia Queiroz (Origens, Évora) e Gabriela Marques (Loco, Lisboa, 1 Estrela Michelin).

Nesta seleção de 25 vinhos, com preços entre os cinco e os 50 euros, constam tintos, brancos, espumantes e Portos. São vinhos para acompanhar uma refeição, reunir os amigos à conversa em volta de uma tábua de queijos e enchidos, ou para encher um copo e degustar ao fim do dia. Também os há mais festivos e para ocasiões especiais.

Para auxiliar na escolha, as cinco sommelières ainda ajudam a perceber com que pratos casam melhor.

Nádia Desidério, 32 anos

Acumula as funções de sommelier e diretora do Belcanto de José Avillez, restaurante distinguido com duas Estrelas Michelin e que ocupa o 31º lugar na lista The World’s 50 Best Restaurants. Visitar as regiões vitivinícolas, diz, é fundamental para “sentir e viver o que torna cada garrafa única, que são as histórias das pessoas que as produzem”.

Casa da Passarella A Descoberta Dão Branco 2023

Um branco alegre, elegante, com uma enorme frescura, muito bom em termos de preço-qualidade. Versátil no momento de harmonizar, vai muito bem com risottos cremosos, preparações leves de vieiras, camarão e peixes com mais textura. €5,65

Morgado do Quintão Regional Algarve Palhete 2023

Um palhete do Algarve acaba por ser fora do comum e o Morgado do Quintão é um projeto bastante interessante. De cor rosa-salmão-pálido com notas de morango fresco, na boca é salino, fresco e crocante. Casa bem com atum grelhado, arroz de tamboril e lulas à algarvia, devido à sua frescura, acidez equilibrada e perfil frutado. €15,90

Domínio do Açor Vila Romana Dão Tinto 2021

Incorpora na sua identidade a filosofia de elaborar vinhos de terroir do Dão, em busca de elegância, frescura, mineralidade e complexidade, bem como a geografia local, emoldurada pela serra do Açor. Serviria este vinho com um cabrito à padeiro devido à sua estrutura, notas aromáticas, acidez equilibrada e a capacidade de complementar os sabores ricos e complexos do prato. €18

Aliás Bairrada Branco 2020

Nasceu de videiras centenárias da casta Bical da Mealhada, tem um nariz muito mineral com notas de pólvora e terra, argila. Notas florais finas, flores brancas e citrinos. Na boca, é fresco, tenso e longo, com a capacidade de acompanhar peixe assado, mariscos e carnes mais gordas. Um vinho de grande corpo e profundidade. €21,15

Quinta de San Michel Névoa Janas Lisboa 2020

Um 100% Arinto de nariz imponente, com notas de limão, pêssego e frutos secos, além de pólvora, pedra molhada, tosta e fumo do estágio em barrica. Um vinho explosivo com uma acidez marcante, além de muito caráter, volume e um final interminável. A sua acidez ajuda a cortar a riqueza do arroz de polvo, e a sua textura também se pode alinhar com a cremosidade do arroz. €47,25

Eveline Borges, 27 anos

Nascida em Cabo Verde, veio para Portugal com 17 anos. Tirou o curso de Gestão da Restauração e Catering, mas os vinhos falaram mais alto, formando-se nessa área pela Wine & Spirit Education Trust (tem também o diploma nível 1 em saké). Desde 2022, integra a equipa do restaurante japonês Midori (1 Estrela Michelin), no Penha Longa Resort, em Sintra.

Curvos Avesso Vinho Verde Branco 2021

Feito a partir da casta Avesso, encanta pelas suas notas frescas e delicadas de frutas de polpa branca, como pera e pêssego. Leve e equilibrado, é perfeito para acompanhar carnes magras ou simplesmente para desfrutar de um copo. €5,40

Prior Lucas Falala Pérola Brut Nature Bairrada Espumante 2020

Este espumante Brut Nature de método clássico é elaborado com as castas Bical e Syrah. De cor pérola e bolha finíssima, destaca-se pelos aromas a frutos secos e citrinos, enquanto na boca apresenta uma mousse cremosa e um final seco e persistente. Para acompanhar saladas à base de legumes assados ou frutos do mar. €15,50

Porta dos Cavaleiros Reserva Especial Dão Branco 2017

Um vinho branco com uma intervenção minimalista que reflete a tradição e o potencial da região do Dão. A essência das castas clássicas, como Bical, Cercial, Malvasia-Fina e Encruzado, apresenta aromas frescos e complexos, além de um perfil mineral. Um vinho versátil para harmonização, ideal para acompanhar carnes brancas com mais gordura ou marisco. €25

Monólogo Arinto P24 Vinho Verde Branco 2021

Elaborado de forma minimalista para capturar da melhor forma o terroir granítico da Quinta de Santa Teresa, na região do Minho. Um vinho branco vegan, de agricultura biológica e sustentável, apresenta nuances herbáceas, cítricas e fruta tropical. A acidez equilibrada torna-o ideal para pratos mais leves de cozinha asiática. €9

Quinta de Lemos Dona Georgina Dão Tinto 2015

Um tinto de excelência da região do Dão, Silgueiros, feito a partir das castas Touriga-Nacional e Tinta-Roriz. É uma escolha especial para ocasiões únicas ou para enriquecer a adega pessoal. Elegante e complexo, com aromas de frutos do bosque, ameixa e toques de chocolate e tabaco, taninos sedosos e um volume de boca marcante, é perfeito para acompanhar pratos de carne de caça, cabrito assado ou até queijos curados. €42,95

Elisabete Fernandes, 41 anos

Diretora de vinhos do The Yeatman Hotel, em Vila Nova de Gaia, desde 2021. É licenciada em Microbiologia com Pós-Graduação em Enologia.

Quinta do Perdigão Dão Tinto 2017

Blend de castas com predominância da Touriga-Nacional. Vinho de corpo médio, elegante, fresco e muito equilibrado. Versátil para celebrar uma época festiva na companhia de amigos entre petiscos. €10,95

Herdade do Sobroso Cellar Selection Alentejo Rosé 2023

Feito a partir da casta Syrah, equilibrado, fresco, com presença de fruta, mas complexo. Para qualquer ocasião, revelando a fruta e a frescura quando o momento o exige, mas, simultaneamente, complexo quando exposto a argumentos gastronómicos. €15,95

Milagres By Quinta da Pedra Monção e Melgaço Branco 2019

Um 100% Alvarinho com uma complexidade aromática, corpo, equilíbrio, provando mais uma vez o potencial desta região. Um vinho surpreendente e ideal para acompanhar pratos de peixe, idealmente assados ou até um prato de carne mais ligeiro. €19,90

Meruge Tinto Douro Tinto 2020

De corpo médio/ligeiro, fruta vermelha e tanino redondo, um vinho que permite acompanhar pratos de carne ou peixe mais compostos, tradicionais e reconfortantes, cozinhados lentamente e a baixa temperatura. Um tinto elástico e versátil, arrojado e pioneiro a apresentar este perfil na região do Douro. €25,99

Taylor’s 20 Year Old Tawny Port Porto

O estilo clássico, que não pode faltar à mesa. Com notas predominantes de especiarias e frutos secos, este estilo Tawny de vinho do Porto é perfeito para acompanhar a doçaria portuguesa e até conventual, onde os ovos, o açúcar, a amêndoa e a canela são protagonistas. €49,50

Eugénia Queiroz, 43 anos

Apaixonada pelo mundo dos vinhos, é responsável pela arte de bem beber no restaurante Origens, em Évora, que gere com o marido, o chefe de cozinha Gonçalo Queiroz, e que integra as recomendações do Guia Michelin. Entre os últimos prémios recebidos está o de Melhor Sommelier Feminina pela W-Awards 2023.

Bico Amarelo Esporão Vinho Verde Branco 2023

De cor amarelo-limão cristalina, corpo leve, aromas cítricos, com boa acidez, que fica bem por si só num dia quente, combina com salada de marmelo assado com queijo fresco, nozes e molho vinagrete, a sua acidez vai limpar a doçura do marmelo, e o vinagrete complementar os seus aromas cítricos. €3,99

Maçanita Touriga Nacional Douro Rosé 2023

De cor rosa-claro, corpo leve com toques de cereja e morango maduro, fresco e texturado na boca, este vinho é uma boa opção para o final de dia, a comer um robalo assado, puré de batata-doce roxa e romã. O peixe vai combinar com o corpo leve do vinho e o puré vai contrastar com a fruta do mesmo. €8,49

Murganheira Espumante Super Reserva Bruto 2018

Um espumante de eleição, de cor cítrica, bolha fina e persistente, corpo estruturado, toques abaunilhados e final duradouro. Acompanha peixes assados e mariscos. Num arroz de marisco, a sua bolha vai limpar o palato do umami de tomate e pimentos, a sua estrutura vai complementar com o arroz e o marisco. €12,70

Porto Ferreira Dona Antónia 10 anos Porto

Um tawny doce, cor de tijolo, com aromas intensos a figo, especiarias e frutos secos, suave e crocante na boca, acidez firme e final longo. Combina tanto com queijos moles como sobremesas tradicionais, como uma sericá. As especiarias do vinho entram em harmonia com a canela e a sua acidez com a textura aveludada da sericá. €18,90

Herdade da Cardeira Reserva Alentejo Tinto 2018

Um vinho de cor ruby, aromas a frutos pretos em compota, toques mentolados, pimenta-preta e alcaçuz, na boca tem corpo marcante, boa acidez, taninos integrados e um final longo e macio. Aconselho uma carne de caça ou vermelha marinada em vinho tinto com migas de poejo. O seu corpo e taninos aguentam bem as carnes marinadas, o seu toque mentolado combina com os poejos, enquanto a sua acidez limpa o pão das migas. €31,49

Gabriela Marques, 43 anos

Trabalhou em hotéis de luxo e alta gastronomia, já ganhou o prémio de Melhor Sommelier da Academia Internacional de Gastronomia e esteve no Marlene, restaurante de fine dining de Marlene Vieira. Desde setembro no restaurante Loco, de Alexandre Silva, com uma Estrela Michelin, cria o pairing perfeito com os pratos do chefe, assumindo também a função de chefe de sala.

Termos Branco Beira Interior Branco 2022

Cor citrina com laivos esverdeados, focado na fruta, com boa acidez e mineralidade, feito de castas tradicionais da região da Beira Interior,tais como Fonte Cal, Síria, Arinto, Verdelho e Riesling. Um bom vinho para aperitivo, sem estágio em madeira. Servir a 10°C. €4,50

Bojador Vinho Tinto Alentejo Tinto 2022

Das castas Aragonês, Touriga-Nacional e Trincadeira, proveniente da Vidigueira, apresenta frescura e estrutura média, com notas de fruta vermelha. Um tinto macio e redondo, bom para juntar os amigos à conversa com uma tábua de queijos e charcutaria e com uma relação qualidade-preço impecável. Servir a 15 ºC, em copo Schott Zwiesel Bordeaux. €7,90

Casa Amarela Rosé Douro Rosé 2022

Tinta Roriz e Touriga-Nacional num rosé fresco, leve e pouco extraído, de cor suave e aberta, e com uma mineralidade atípica e muito interessante. Notas florais, frutas vermelhas e toranja. Um vinho do Baixo Corgo que acompanha bem ceviches de peixes brancos ou entradas de salmão fumado com aneto e limão. Servir a 8-10 ºC, de forma a manter a sua acidez refrescante. €10,55

Terrunho D’Alma Reserva Bruto Alvarinho Monção e Melgaço Espumante 2019

Um espumante muito sui generis da região dos Vinhos Verdes, de cordão fino e acidez eletrizante, com um final refrescante e salino. Pede sabores de mar, limão, bivalves e crustáceos ou, até mesmo, para o final da refeição. Servir a 10-12 ºC de forma a melhor desfrutar do seu potencial aromático e o seu lado mais vinoso. €19,75

Villa Oliveira Vinha Centenária Pai de Aviz Dão Tinto 2017

Feito por Paulo Nunes, o artesão dos vinhos de detalhe, reúne o que há de melhor na região do Dão. Notas minerais e terrosas muito presentes, toque fresco e vegetal, fruta bem definida, estrutura e elegância plena e acidez típica dos vinhos de montanha. A acompanhar, cabrito no forno, com rosmaninho e batata a murro com azeite e alho. €47,25

Palavras-chave:

Invadem o nosso espaço, ignoram os nossos limites, matam o bom senso. Sem constrangimento, sem pudor. Agem como se o mundo fosse palco para as suas vontades, e as suas exigências.

Gritam alto, gritam tolices, confundindo liberdade de falar com o exibicionismo.

O insulto e a mentira é a norma. A falta de respeito é a nova etiqueta. Insistem, persistem, assediam.

Causam incómodo, constrangimento. Acham-se impunes. Sem vergonha.

Até um dia. Um dia destes. Há limites a impor, e respeito a exigir. Que falta de noção. Que prepotência. Que abuso. Que cinismo.

De quem se fala aqui? De tantos e de tantas, mas de Trump certamente.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Em junho, a Organização Meteorológica Mundial estimava que havia 80% de probabilidade de um ano do período entre 2024 e 2028 ultrapassar o limite de 1,5°C do Acordo de Paris, assinado em 2015. Seis meses depois, descobrimos que esse valor será ultrapassado já em 2024.

De acordo com o C3S – Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas, da União Europeia, com os dados do mês passado já disponíveis (novembro ficou 1,62 C acima da média do período pré-industrial), é certo que este ano ficará acima de 1,5°C. Os cientistas do C3S apontam para uma temperatura média global da atmosfera à superfície de 1,6°C, o que vaporiza o recorde estabelecido em 2023, de 1,48°C.

Podemos agora confirmar com quase toda a certeza que 2024 será o ano mais quente de que há registo

Samantha Burgess, subdiretora do C3S

“Com os dados do Copernicus relativos ao penúltimo mês do ano, podemos agora confirmar com quase toda a certeza que 2024 será o ano mais quente de que há registo e o primeiro ano civil acima de 1,5°C”, diz Samantha Burgess, subdiretora do C3S, em comunicado. “Isto não significa que o Acordo de Paris tenha sido violado, mas significa que uma ação climática ambiciosa é mais urgente do que nunca.” Só se considera que o limite ideal de Paris é ultrapassado quando a média de uma série de vários anos ficar acima de 1,5°C.

Apesar disso, há uma óbvia carga simbólica no facto de um ano de calendário ultrapassar aquele valor (já antes tinha havido um período de 12 meses acima de 1,5°C, entre fevereiro de 2023 e janeiro de 2024). Mais do que nunca, a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris parece inalcançável. E quanto mais alta a temperatura média, maiores serão os impactos climáticos.

Foto: Luís Ribeiro
Das secas e ondas de calor no Alentejo ao derretimento dos glaciares na Gronelândia, o impacto do aquecimento global é… global. Foto: Luís Ribeiro

Para que ainda houvesse alguma hipótese de manter o aumento da temperatura em valores condizentes com o que ficou definido na Cimeira do Clima de 2015, as emissões de gases com efeito de estufa teriam de ser reduzidas em 43% até ao fim desta década. Ao invés, continuamos num percurso ascendente: em 2024, as emissões subiram 0,8%, face ao ano anterior. Desde que o Acordo de Paris foi assinado, as emissões aumentaram 8%.

Consequências dramáticas

O que foi acordado na Cimeira do Clima que decorreu em novembro no Azerbaijão pouco impacto terá para travar o aquecimento global (o foco foi no financiamento climático dos países mais pobres). Há, no entanto, algumas notícias encorajadoras. Um relatório do Global Carbon Budget, publicado no mês passado, mostra que 20 países conseguiram fazer crescer as suas economias ao mesmo tempo que diminuíam as emissões de gases com efeito de estufa, entre 2014 e 2023 – a dissociação entre crescimento económico e as emissões são o “santo graal” do combate às alterações climáticas. Um deles é Portugal. Mas estes países representam apenas 23% das emissões globais.

As consequências de uma temperatura média mais elevada são dramáticas. Uma análise do Carbon Brief a 600 estudos conclui que três em cada quatro fenómenos climáticos extremos nos últimos 20 tornaram-se mais prováveis ​​ou graves devido às alterações climáticas. Em vários casos, os investigadores determinaram que a ocorrência desses fenómenos (ondas de calor, secas severas e grandes tempestades) teria sido “virtualmente impossível” sem o efeito das emissões antropogénicas de gases com efeito de estufa.

Isto com uma temperatura da atmosfera 1,3°C mais elevada do que na segunda metade do século XIX. Segundo o Climate Action Tracker, um projeto científico que analisa o progresso climático, com as políticas atuais (as contribuições nacionalmente determinadas, ou seja, as medidas implementadas pelos países), o planeta encaminha-se para um aumento de temperatura de mais do dobro – 2,7°C. Um aumento deste calibre acarretaria consequências catastróficas. Em Portugal, os impactos mais preocupantes são as ondas de calor, secas mais frequentes no Sul, risco acrescido de incêndio e tempestades mais intensas, além da subida do nível médio do mar. lribeiro@visao.pt

Um 2024… agitado

Alguns dos destaques climáticos do ano que passou

+1,6ºC

Pela primeira vez num ano completo, a temperatura média global da atmosfera será mais alta do que o limite máximo ideal do Acordo de Paris. Esse valor, de 1,5ºC, já havia sido atingido numa série de 12 meses, mas nunca num ano de calendário.

+1,62ºC

A diferença da temperatura média de novembro face à média do período pré-industrial. Dos últimos 17 meses, 16 bateram o recorde de temperatura.

€308 mil milhões

É o valor estimado das perdas económicas associadas a desastres meteorológicos, um aumento de 6% face a 2023 (o segundo ano mais quente) e de 25% relativamente à média dos últimos dez anos.

Top 10

Todos os anos dos últimos dez são mais quentes do que qualquer outro desde que há registos. 2005, o primeiro do século XXI a bater o recorde de temperatura média global, ultrapassando 1998, é agora apenas o 13.º ano mais quente.

Os equipamentos da Dyson topam-se a léguas – pela exuberância das cores usadas e pelo estilo quase industrial dos equipamentos. Depois de uma primeira tentativa inusitada no mundo do áudio, com os Dyson Zone (aqueles que pareciam uma máscara com purificador de ar), a marca tem uma nova aposta neste segmento – mais discreta (dentro do que é possível na Dyson), mas com muito melhores resultados. O que valem afinal os auscultadores sem fios Dyson OnTrac?

O aspeto é o primeiro elemento em evidência. Para a Dyson, ser discreto não parece ser uma opção. Os novos auscultadores têm uns cascos de grande dimensão, semelhantes a discos, e que podem ter diferentes acabamentos (o modelo que testámos era CNC cobreado). Isto combinado com um aro pronunciado com três apoios para a cabeça e um sistema de dobradiça bem visível. Portanto, se procura uns auscultadores também pelo estilo, esta deve ser claramente uma opção a considerar.

Mas como é habitual na Dyson, há muita engenharia à mistura. Por um lado, a escolha dos materiais garante uns auscultadores de elevada robustez e qualidade ao toque. Por outro, é possível remover as placas no exterior dos cascos para uma maior personalização, assim como substituir as almofadas (os preços das peças de substituição para Portugal não estão ainda disponíveis).

Dyson OnTrac

Se a falta de discrição do design não for um entrave, saiba que a qualidade de som dos Dyson OnTrac é muito boa – o que surpreende para uma empresa mais conhecida pelos aspiradores, equipamentos para o cabelo e máquinas de limpeza. Para começar, tem uma das melhores reproduções de graves que já ouvimos nuns auscultadores sem fios: são suaves, têm um efeito subtil de propagação, mas conseguem chegar muito bem às frequências mais baixas do espectro sonoro. Conte ainda com uma boa reprodução de detalhes musicais e um bom equilíbrio no geral entre os diferentes sons reproduzidos. Apesar de ter também uma reprodução de agudos definida, gostávamos que estes sons tivessem mais presença nas músicas, com os headphones a privilegiarem uma reprodução mais contida e não tão expansiva de sons.

Dyson OnTrac: Almofadas macias e isolantes

A primeira vez que experimentámos os Dyson OnTrac foi no decorrer de uma apresentação à imprensa, com vários convidados, música, barulhos de fundo… E assim que colocamos os OnTrac, tudo desapareceu. Depois, ao longo de várias semanas, pudemos testar a eficácia deste modelo em abstrair o utilizador dos sons que o rodeiam. Grande parte da eficácia deve-se ao cancelamento passivo, isto é, à supressão de som provocada pelo próprio formato dos auriculares. Por um lado, as almofadas tapam toda a orelha, deixando-a ‘isolada’ para a projeção sonora, o que significa que basta colocá-los para sentirmos logo um efeito de oclusão. Depois, existe um efeito de boa fixação dos auscultadores, que tapa qualquer zona pela qual pudesse passar ruído. Por fim, existem oito microfones a trabalhar continuamente para o efeito de cancelamento de ruído ativo. Os dois combinados ajudam-nos a abstrair de praticamente tudo o que está a acontecer à nossa volta, pelo que se este é um elemento que valoriza bastante, os Dyson OnTrac não desiludem.

Dyson OnTrac

O conforto é outra característica em destaque pela positiva. Quando usamos os Dyson sentados em frente ao computador, por exemplo, conseguimos usá-los durante longos períodos de tempo, sem efeitos de pressão no topo da cabeça e com destaque para as almofadas super macias dos auscultadores. Há, sim, um efeito ligeiro de aquecimento das orelhas, que pode ser crucial para algumas pessoas. No entanto, é justo dizer que estes não são uns auscultadores leves. E sentimos isso, bastante, sempre que tentamos fazer algo com os Dyson enquanto andamos pela casa ou no escritório. Aí, o peso muito acima do habitual (são quase 500 gramas…) tem logo tendência para fazê-los tombar, o que obriga o utilizador a ter que fazer força no pescoço e cabeça para contrabalançar o peso.

Uma área que não convenceu foi a dos painéis sensíveis ao toque, com os quais tivemos muita dificuldade em acertar a utilização. E também o botão físico para o controlo do volume (uma espécie de joystick) precisa de ser repensado numa futura versão – funciona, mas dá-nos pouca sensibilidade na forma como ajustamos o nível de som.

A autonomia destes auscultadores é soberba. Depois de os carregarmos uma vez por completo, durou-nos várias semanas (a usar entre uma a duas horas por dia), pelo que nunca tivemos que nos preocupar com a autonomia. Suspeitamos que as mais de 50 horas de utilização que garantem estão, de alguma forma, relacionadas com a eficácia do cancelamento de ruído passivo (o que exige menos ANC, o que ajuda a poupar no processamento e autonomia).

Já a aplicação é simples e prática, dando acesso a diferentes níveis de supressão de ruído, a perfis de equalização de som pré-definidos e um manual, e também a um sistema que analisa o som à nossa volta, ‘alertando-nos’ para quando atinge níveis demasiado elevados (esta análise também é feita para o próprio volume emitido pelos auscultadores). Sobre a app, dizer ainda que está apinhada de recomendações de outros produtos da Dyson, o que torna a experiência… invasiva. Por fim, não podemos deixar de ‘desancar’ a Dyson por colocar no mercado uns auscultadores deste nível de preço, mas sem suporte para codecs de áudio de alta resolução ou suporte para áudio espacial.

Tome Nota
Dyson OnTrac | €499
dyson.pt

Qualidade de som Muito bom
Cancelamento de ruído Excelente
Qualidade em chamadas Muito bom
Autonomia Excelente

Características Frequências: 6 Hz – 21.000 Hz • Driver 40 mm de neodímio • 9 microfones • Cancelamento Ativo de Ruído (ANC) • Autonomia anunciada: 55 h reprodução (ANC) • Bluetooth 5.0, USB-C • 261×201 mm • 451 g

Desempenho: 4,5
Características: 4
Qualidade/preço: 2,5

Global: 3,7

O Meteored Portugal, que nos acompanhou ao longo deste ano com as suas previsões meteorológicas, escolheu os três acontecimentos mais extremos ocorridos em território nacional em 2024.

Através de comunicado, o geógrafo Alfredo Graça, redator-chefe da plataforma, anunciou que os grandes acontecimentos do ano nesta matéria foram o tornado em Lisboa, o furacão Kirk que já chegou a Portugal como ciclone extratropical e os incêndios registados na última semana de verão.

Considerado “um fenómeno meteorológico bastante raro em Portugal”, o tornado surgiu perante “os condutores que circulavam pela Ponte Vasco da Gama, em Lisboa”, ao início da tarde do dia 28 de março, quando o País se encontrava afetado pela Depressão Nelson, tendo chegado “a provocar alguns estragos em infraestruturas na Margem Sul” do Tejo.

Nos dias 8 e 9 de outubro, “um poderoso temporal de chuva, trovoada, vento forte e agitação marítima” foi resultado da passagem do ciclone extratropical Kirk, um furacão formado junto a Cabo Verde que passou pelas Caraíbas e chegou a Portugal já a perder força mas ainda com maior intensidade do que é habitual.

Sem vítimas a lamentar, a tempestade provocou mais de 2500 ocorrências em Portugal, sobretudo no Norte, como “quedas de árvores, derrocadas, inundações, cortes de estradas e destruição de várias culturas agrícolas”, além de “mais de 300 mil pessoas” terem ficado “temporariamente sem eletricidade”.

No último lugar do pódio do Meteored Portugal surgem dos incêndios entre os dias 15 e 21 e setembro, que custaram a vida a nove pessoas, com os distritos de Porto, Aveiro, Vila Real e Viseu a serem “os mais afetados”. “O Norte e o Centro de Portugal continental estiveram expostos ao tempo quente e extremamente seco, possivelmente combinado com mão criminosa, o que se traduziu em mais de uma centena de incêndios”, resume a plataforma.

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